sábado, 2 de agosto de 2014

IMAGENS TRIVIAIS







VOYEURISMO E CONTEMPLAÇÃO

Sobre minhas imagens 

Sim, foi proposital o recorte que fiz da obra do Alair Gomes. No recorte que fiz da obra quero enfatiza um olhar sobre o clássico. Com relação as fotos que faço estão muito aquém das do Alair Gomes, visto que as minhas são registros (ícones) apenas de momentos. Apresentam, sim, um certo viés ou  uma dimensão "voyeuristica" semelhante aquela do Alair, ou ligeiramente diferente, uma vez que as figuras registradas tinham conhecimento de que a foto poderia estar sendo feita (como se uma foto pudesse ser separada dessa dimensão "voyeuristica", ou desse viés). 
O que tenho tentado modestamente fazer é trazer a idéia de "narrativa", todavia truncada, cortada, que não se atualiza em nenhum tempo. São sucessões de momentos sobrepostos, são imagens para um fim que não elas mesmas, como colagens, elas são superpostas e justapostas, tentando se afastar um pouco da idéia de voyeur. As minha imagens (registro) do mundo, são como algumas de Marc Morrisroe, que registram parte do ocorrido e da vida cotidiana.  Enquanto o Alair, em suas "suites" trás o olhar desejante para o primeiro plano. Acredito que nas imagens do Alair exista uma narrativa explícita nas sequências que ele toma na praia daqueles jovens se exercitando,  trabalhando questões eminentemrntes subjetivas. Já as fotos que apresento como colagens cotidianas, tem a função de apresentar um conceito inerente, seja de duração, finitude, vida e morte, o que as aproxima do conceito ou gênero "vanitas", que trata da brevidade da vida. A estesia vem antes da contemplação das imagens mais do que um ato "voyerista" dos corpos denudados e desvelados nas obras. 








HENRY W. LONGFELLOW

LONGFELLOW
Henry Wadsworth Longfellow 
(27 February 1807 – 24 March 1882). 
American poet and one of the five members of the group known as the Fireside Poets.

Silently one by one, in the infinite meadows of heaven,
Blossomed the lovely stars, the forget-me-nots of the angels.


Ships that pass in the night, and speak each other in passing,
Only a signal shown and a distant voice in the darkness;
So on the ocean of life we pass and speak one another,
Only a look and a voice, then darkness again and a silence.

(Como) navios que se cruzam na escuridão, e se falam enquanto passam, somente um sinal mostrado e uma voz distante na escuridão. Assim, no oceano da vida (nós) cruzamos (passamos) e falamos um com o outro, antão depois só escuridão e silêncio. 

MÚSICA DA MINHA INFÂNCIA

EU SOU NUVEM PASSAGEIRA
(Letra: Hermes de Aquino, 1976)

Eu sou nuvem passageira,
Que com o vento se vai,
Eu sou como um cristal bonito
Que se quebra quando cai.
Não adianta escrever meu nome n'uma pedra,
Pois essa pedra em pó vai se transformar,
Você não vê que a vida corre contra o tempo
Sou um castelo de areia na beira do mar.
(Ar, Ar)

Eu sou nuvem passageira,
Que com o vento se vai,
Eu sou como um cristal bonito
Que se quebra quando cai.
A lua cheia convida para um longo beijo
Mas o relógio te cobra o dia de amanhã
Estou sozinho, perdido e louco no meu leito,
E a namorada analisada por sobre o divã.
(Ar, Ar, Ar) (Ar, Ar,Ar)

Eu sou nuvem passageira,
Que com o vento se vai,
Eu sou como um cristal bonito
Que se quebra quando cai.
Por isso agora o que eu quero e dançar na chuva
Não quero nem saber de me fazer ou me matar
Ou vou deixar um dia fique a minha energia
Sou um castelo de areia na beira do mar
(Ar, Ar, Ar) (Ar, Ar,Ar)

Eu sou nuvem passageira,
Que com o vento se vai,
Eu sou como um cristal bonito
Que se quebra quando cai. (4x)

TEORIA DA CONSPIRAÇÃO

TEORIA DA CONSPIRAÇÃO 

Teoria, do grego: θεωρία, contemplar, considerar, especular, teoria, especulação, ver, contemplar jogos ou espetáculo. 
Assim, a Teoria da conspiração é qualquer teoria que explica um evento histórico passado, presente ou atual como sendo resultado de um plano secreto levado a efeito geralmente por conspiradores maquiavélicos e poderosos, tais como uma "uma ou mais pessoas, grupos ou sociedades secretas, seitas ou organizações  ou mesmo um governo sombra". 
Para a Teoria das conspirações "Esses indivíduos, grupos, associações ou organizações secretas e maléficos" causam ou encobrem através de planos secretos e ações deliberadas um evento, eventos ou situações sejam elas  prejudiciais ou nocivas, em geral envolvendo dignatários de altos cargos do poder legislativo, judiciário ou executivo bem como chefes de religiões e pontífices ou sumo sacerdotes. Geralmente as provas, evidências, documentos ou não existem ou são fabricadas ou inventadas ou distorcidas e são fracas e não resistem ao escrutínio da lógica e da investigação honesta e imparcial. Uma das características das teorias conspiratorias é o embasamento de todo um encadeamento de fatos baseados numa premissa falsa ou mal interpretada, ou numa única ou poucas testemunhas que, ou ouviram falar ou viram algo que não sabem explicar e criam a partir dai uma explicação mirabolante mas crível.  

FAMÍLIA

SOBRE A FAMÍLIA E A IMPRENSA BRASILEIRAS

AS FAMÍLIAS E A IMPRENSA BRASILEIRA SÃO:
RETRÓGRADAS
ULTRADIREITISTAS
TOTALITARISTAS
OPRESSIVAS
BOÇAIS 
CORRUPTÍVEIS 
PRECONCEITUOSAS
NÃO-INCLUSIVAS
HOMOFÓBICAS
DOGMÁTICAS ANACRÔNICAS 
TRADICIONALISTAS
FALOCÊNTRICAS
MILENARISTAS
DISTÓPICAS ou CACOTÓPICAS
CONVENCIONAIS 
REACIONÁRIAS






ARQUEOLOGIA - VESTÍGIOS HUMANOS

PEGADAS DE 800 mil a 1 milhão de anos no REINO UNIDO


Fonte
http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-2553798/Earliest-human-footprints-outside-Africa-discovered-NORFOLK-800-000-year-old-imprints-shed-light-movement-ancient-ancestors.html

Earliest human footprints outside Africa discovered in NORFOLK: 800,000-year-old imprints 're-write our understanding of history'
Early humans were related to Homo antecessor known as ‘Pioneer Man’
Species dates from 1.2 million ago and became extinct 600,000 years ago
50 prints were made by children and adults with one being a UK size 8
Scientists estimate heights varied from 0.9m (3ft) to over 1.7m (5ft 7ins)
Prints were found at Happisburgh in May last year but quickly eroded away
Scientists stitched together photographs to create a permanent 3D record
It is hoped new footprints will be revealed as winter storms batter the coast
It is thought that the prints represent a group of at least one or two adult males, at least two adult females or teenagers and three or four children.
In some cases the heel, arch and even toes could be identified, equating to modern shoes of up to UK size 8.
The early humans would have looked very much like us, but with much smaller brains, said Dr Ashton.

‘PIONEER MAN’: WHO WAS HOMO ANTECESSOR?

Homo antecessor
Scientists from the British Museum believe the 800,000-year-old footprints may be related to our very early ancestor known as Homo antecessor. 

Homo antecessor is one of the earliest known varieties of human discovered in Europe dating back as far as 1.2 million years ago. 

Believed to have weighed around 14 stone, Homo antecessor was said to have been between 5.5 and 6ft tall. Their brain sizes were roughly between  1,000 and 1,150 cm³, which is smaller than the average 1,350 cm³ brains of modern humans.

The species is believed to have been right-handed, making it different from other apes, and may have used a symbolic language, according to archaeologists who found remains in Burgos, Spain in 1994.

The importance of the Happisburgh footprints is highlighted by the rarity of footprints surviving elsewhere. Only those at Laetoli in Tanzania at about 3.5 million years and at Ileret and Koobi Fora in Kenya at about 1.5 million years are more ancient.

How Homo antecessor is related to other Homo species in Europe has been fiercely debated.

Many anthropologists believe there was an evolutionary link between Homo ergaster and Homo heidelbergensis. Archaeologist Richard Klein claims Homo antecessor was a separate species completely, that evolved from Homo ergaster.

Others claim Homo antecessor is actually the same species as Homo heidelbergensis, who lived in Europe between 600,000 and 250,000 years ago in the Pleistocene era.

In 2010 stone tools were found at the same site in Happisburgh, Norfolk, believed to have been used by Homo antecessor.

Very little more is known about the physiology of Homo antecessor, due to a lack of fossilised evidence, yet it is hoped the discovery of the Norfolk footprints will shed more light on the species.


Dr Isabelle De Groote from Liverpool John Moores University studied the prints in more detail.

‘In some cases we could accurately measure the length and width of the footprints and estimate the height of the individuals who made them,’ she said.

‘In most populations today and in the past foot length is approximately 15 per cent of height. We can therefore estimate that the heights varied from about 0.9m (3ft) to over 1.7m (5ft 7in).

‘This height range suggests a mix of adults and children with the largest print possibly being a male.’

The orientation of the footprints suggests that they were heading in a southerly direction.

It is thought the group could have made their way to what is now Norfolk across a strip of land that connected Britain to the rest of Europe a million years ago.

Over the last ten years the sediments at Happisburgh have revealed a series of sites with stone tools and fossil bones, dating back to over 800,000 years. This latest discovery is from the same deposits.

Scientists believe the footprints were made by a group of around five individuals.

Judging from the size of the footprints, the group was made up of at least one or two adult males, at least two adult females or teenagers and three or four children.

Their heights varied from about 0.9m (3ft) to over 1.7m (5ft 7in).

The orientation of the footprints suggests that they were heading in a southerly direction.

They may have made been making way to what is now Norfolk across a strip of land that connected Britain to the rest of Europe a million years ago.

The group would have looked very much like humans today, but with much smaller brains.

There would have been muddy freshwater pools on the floodplain with salt marsh and coast nearby.

Deer, bison, mammoth, hippo and rhino grazed the river valley, surrounded by more dense coniferous forest.

The estuary provided a rich array of resources for the early humans with edible plant tubers, seaweed and shellfish nearby, while the grazing herds would have provided meat through hunting or scavenging.

So who were these humans? Fossil remains of our forebears are still proving elusive.

However, as Professor Chris Stringer of the Natural History Museum explains: ‘The humans who made the Happisburgh footprints may well have been related to the people of similar antiquity from Atapuerca in Spain, assigned to the species Homo antecessor.

‘These people were of a similar height to ourselves and were fully bipedal. They seem to have become extinct in Europe by 600,000 years ago and were perhaps replaced by the species Homo heidelbergensis.

Fonte:
http://news.msn.com/science-technology/scientists-find-800000-year-old-footprints-in-uk

Natural History Museum archaeologist Chris Stringer said that 800,000 or 900,000 years ago Britain was "the edge of the inhabited world."

"This makes us rethink our feelings about the capacity of these early people, that they were coping with conditions somewhat colder than the present day," he said.

"Maybe they had cultural adaptations to the cold we hadn't even thought were possible 900,000 years ago. Did they wear clothing? Did they make shelters, windbreaks and so on? Could they have they have the use of fire that far back?" he asked.

Scientists dated the footprints by studying their geological position and from nearby fossils of long-extinct animals including mammoth, ancient horse and early vole.

John McNabb, director of the Center for the Archaeology of Human Origins at the University of Southampton — who was not part of the research team — said the use of several lines of evidence meant "the dating is pretty sound."









POESIA

POESIA

A arte transforma a dura realidade! 
O que fica é a poesia! 
ποιέωfazer, produzir primeiro uma obra de arte.
POESIA ποιείν και ποιέσεις ... Produzir, trazer a luz, fazer (um novo amanhã)... Somos assim... Se ouvimos uma palavra, vemos uma imagem, essa palavra e essa imagem, transformam nossa vida... 
Para sempre.  Coragem é a arte de enfrentar com amor todas as situações e delas trazer a luz um novo momento uma nova vida! 
Uma nova imagem! 
Um conceito! 

SOBRE O CIÚME

CIÚME

Como homem ciumento eu sofro quatro vezes: por ser ciumento, por me culpar por ser assim, por temer que meu ciúme prejudique o outro, por me deixar levar por uma banalidade; eu sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum.
(Roland Barthes)

VENI DILECTE MI


VENI DILECTE MI
PALESTRINA
Song of Solomon 7:11 – 12

Veni, dilecte mi, egrediamur in agrum, 
commoremur in villis,
mane surgamus ad vineas, 
videamus si floruit vinea,
si flores fructus parturiunt, 
si floruerunt mala punica:
ibi dabo tibi ubera mea.

English translation 
Song of Solomon Cap 7 vers 11 e 12

Come, my beloved, let us go forth into the fields, 
and lodge in the vilages;
let us go out early to the vineyards, and see whether the vines have budded,
whether the grape blossoms have opened 
and whether the pomegranates are in bloom.
There I will give you my breasts.

CHOMSKY E A EDUCAÇÃO

CHOMSKY ANALUSA A EDUCAÇÃO VIA ECONOMIA 


O que se segue é uma transcrição editada de observações feitas por Noam Chomsky via Skype, no dia 4 de fevereiro de 2014, a membros e apoiadores da Adjunct Faculty Association [NT] do Sindicato dos Metalúrgicos, em Pittsburgh. As observações de Chomsky foram provocadas por perguntas feitas por Robin Clarke, Adam Davis, David Hoinski, Maria Somma, Robin J. Sowards, Matthew Ussia e Josué Zelesnick. A transcrição ficou a cargo de Robin J. Sowards e foi editada pelo próprio Chomsky.


Sobre o modelo de contratação de professores

Isso faz parte do atual modelo de negócios. É o mesmo que ocorre com a contratação de trabalhadores temporários na indústria ou com o que eles chamam de "associados" na Wal-Mart, funcionários que não tem direito a benefícios. É parte de um modelo de negócios privados projetado para reduzir os custos do trabalho e aumentar o servilismo no trabalho. A transformação das universidades em corporações, como tem ocorrido sistematicamente ao longo da última geração, como parte do assalto neoliberal geral sobre a população, veio acompanhada de um modelo de negócios onde o que importa é o lucro no final do balanço.

Os verdadeiros proprietários são os gerentes (ou legisladores, no caso das universidades estaduais) e eles querem manter os custos baixos e assegurar que o trabalho seja dócil e obediente. A melhor maneira de fazer isso é, fundamentalmente, contratar temporários. Assim como a contratação de temporários foi se disseminando na sociedade no período neoliberal, o mesmo fenômeno ocorreu nas universidades. A ideia é dividir a sociedade em dois grupos. Um grupo é às vezes chamado de “plutonomia” (plutonomy, um termo usado pelo Citibank para aconselhar seus investidores sobre onde aplicar seus recursos), o setor top da riqueza, concentrado principalmente nos Estados Unidos. O outro grupo, o restante da população, é um “precariado”, as pessoas que vivem uma existência precária.

Esta ideia, por vezes, torna-se bastante evidente. Quando Alan Greenspan testemunhou perante o Congresso, em 1997, sobre as maravilhas da economia, ele disse diretamente que uma das bases para o seu sucesso econômico era o que ele chamou de “maior insegurança dos trabalhadores”. Se os trabalhadores são mais inseguros, isso é muito “saudável” para socieadade, porque eles não ficar perguntando sobre seus salários, não vão entrar em greve, não vão pedir repartição de lucros, e vão servir a seus patrões de bom grado e de forma passiva. E isso é ótimo para a saúde econômica das empresas.

Na época, todo mundo achou o comentário de Greenspan muito razoável, a julgar pela falta de reação e pelo grande sucesso que ele gozava. Vamos transferir isso para as universidades: como garantir “maior insegurança dos trabalhadores”? Fundamentalmente, não garantindo o emprego, mantendo as pessoas penduradas em um galho que pode ser serrado a qualquer momento, de modo que elas saibam que é melhor calar a boca, receber pequenos salários, fazer o seu trabalho e se forem agraciados com a autorização para servir em condições miseráveis por mais um ano, devem se contentar com isso e não pedir nada a mais. Essa é a receita das corporações para manter uma sociedade eficiente e estável. Como a suniversidades se moveram na direção desse modelo de negócios, a precariedade é exatamente o que está sendo imposto. E nós vamos ver mais e mais do mesmo.

Há outros aspectos que também são bastante conhecidos na indústria privada, como um grande aumento dos níveis de administração e burocracia. Afinal, se você precisa controlar as pessoas, precisa ter uma força administrativa que faça isso. Assim, nas empresas dos EUA, mais do que em outros lugares, há sucessivos níveis de administração, uma forma de desperdício econômico, mas útil para o controle e a dominação. O mesmo ocorre em muitas universidades. Nos últimos 30, 40 anos, houve um aumento muito acentuado da proporção de administradores em relação ao número de professores e alunos. O nível de professores e alunos até aumentou, mas o de administradores subiu mais proporcionalmente.

Há um livro muito bom sobre esse tema, escrito por um conhecido sociólogo, Benjamin Ginsberg, chamado “The Fall of the Faculty: The Rise of the All-Administrative University and Why It Matters” (Oxford University Press, 2011), que descreve em detalhes esse estilo de administração com seus diversos níveis de administradores que, é claro, são muito bem pagos. Isso inclui os administradores profissionais, como os reitores, por exemplo, que costumavam ser membros do corpo docente que eram deslocados por alguns anos para exercer atividade administrativa e, depois, voltavam para seus afazeres acadêmicos. Agora, na maioria dos casos, eles são profissionais que contratam sub-reitores e secretários, fazendo proliferar toda uma estrutura administrativa. Esse é outro aspecto importante do atual modelo de negócios.

Mas o uso de mão-de-obra barata e fragilizada no trabalho é uma prática tão antiga quanto a iniciativa privada e os sindicatos surgiram em resposta a ela. Nas universidades, trabalho vulnerável e barato significa professores auxiliares e estudantes de pós-graduação. Alunos de graduação são ainda mais vulneráveis, por razões óbvias. A ideia é transferir as atividades universitárias aos trabalhadores precários, o que melhora a disciplina e o controle, e também permite a transferência de recursos para outras finalidades que não a educação. Os custos, naturalmente, são arcados pelos estudantes e pelas pessoas que são atraídas para estas ocupações vulneráveis. É uma característica normal dessa sociedade de gestão de negócios transferir os custos para o povo.

Os economistas cooperam com esse esquema. Suponha que você encontre um erro em sua conta corrente e ligue para o banco para tentar corrigi-lo. Bem, você sabe o que acontece. Vai telefonar e ouvirá uma mensagem gravada dizendo: “Nós amamos você, aqui está um menu de opções”. Talvez esse menu tenha o que você está procurando, talvez não. Se acontecer de você encontrar a opção correta, ouvirá alguma música e, de vez em quando, uma voz dirá: “Aguarde, por favor, enquanto transferimos a sua ligação”. Finalmente, passado algum tempo, você até poderá ser atendido por um ser humano a quem poderá fazer uma breve pergunta. Os economistas chamam isso de “eficiência”, um sistema que reduz custos trabalhistas para o banco. É claro que impõe custos para você e esses custos são multiplicados pelo número de usuários, que pode ser enorme, mas que não é contado como um custo no cálculo econômico.

Se você olhar o modo como a socieade funciona, verá esse tipo de prática em todo lugar. Assim, a universidade impõe custos aos alunos e professores que não são apenas temporários, mas colocados em um modelo que garante que eles não terão segurança. Tudo isso é perfeitamente normal dentro de modelos de negócios corporativos. É prejudicial para a educação, mas a educação não é seu objetivo.

Na verdade, se olharmos para mais longe, veremos que as raízes desse modelo são mais profundas ainda. Se voltarmos para o início dos anos 1970, quando muitas dessas coisas atuais começaram, havia muita precoupação em praticamente todo o espectro político sobre os temas do ativismo dos anos 1960.
Essa época foi chamada de “era dos problemas”, porque o país estava finando civilizado, e isso é periogoso. As pessoas estavam se tornando politicamente engajadas e estavam tentando conquistar direitos para grupos com os chamados “interesses especiais”, como as mulheres, os trabalhadores, os agricultores, os jovens, os idosos, e assim por diante. Isso levou a uma reação grave, o que foi muito evidente. 

No final liberal do espectro político, há um livro chamado The Crisis of Democracy: On the Governability of Democracies (New York University Press, 1975 - Crise da Democracia: Sobre a Governabilidade das Democracias), um relatório elaborado por Michel Crozier, Samuel P. Huntington e Joji Watanuki para a Comissão Trilateral, uma organização de liberais internacionalistas. O governo Carter saiu praticamente todo de suas fileiras. Eles estavam preocupados com o que chamavam de “crise da democracia”. Para eles, o problema é que havia um “excesso de democracia”. Na década de 1960, havia pressões partindo de diversos setores da população, esses “interesses especiais” que referi, para tentar obter direitos na arena política. Para os autores, estava se colocando muita pressão sobre o Estado e isso era errado. Havia um “interesse especial” que eles deixaram de fora, que era o do setor empresarial. Mas esse interesse, para eles, se confundia com o “interesse nacional” de que não seria o caso de falar dele.

Os demais “interesses especiais” estavam causando problemas e esses autores disseram: “nós temos que ter mais moderação na democracia”, o público tem de voltar a ser passivo e apático. Eles estavam particularmente preocupados com as escolas e as universidades, que não estavam fazendo devidamente seu trabalho de “doutrinar os jovens”. O ativismo estudantil, sua participação nos movimentos de direitos civis, anti-guerra, feminista, ambiental, entre outros, mostrava que os jovens não estavam sendo doutrinados corretamente.

Como se doutrina os jovens? Há certo número de modos de fazer isso. Um deles é sobrecarregá-los com uma dívida irremediavelmente pesada. A dívida é uma armadilha, especialmente a dívida do estudante, que é enorme, muito maior do que a dívida do cartão de crédito. É uma armadilha para o resto de sua vida, porque as leis são projetadas para que você não fique de fora. Se uma empresa, por exemplo, fica muito endividada, ela pode declarar falência, mas os indivíduos quase nunca podem se aliviar de uma dívida por meio da falência. Eles podem até mesmo tirar sua seguridade social se você não pagar. Essa é uma técnica disciplinar. Eu não digo que foi conscientemente produzida para ter esse efeito, mas certamente tem esse efeito. 

É difícil argumentar que há algum fundamento econômico para ele. Basta dar uma olhada pelo mundo: na maioria dos casos, o ensino superior é gratuito. Em países com os mais elevados índices de educação, como a Finlândia, o ensino superior é gratuito. Em um país capitalista rico bem sucedido como a Alemanha, é gratuito. No México, um país pobre, com padrões de educação bastante decentes considerando as dificuldades econômicas que enfrentam, é gratuito. Agora olhe para os Estados Unidos: se voltarmos para os anos 1940 e 50, veremos que o ensino superior estava muito perto da gratuidade. O GI Bill deu educação gratuita para um grande número de pessoas que, sem isso, nunca teria conseguido ir para a faculdade.

Foi muito bom para eles, para a economia e para a sociedade, sendo uma das razões para a elevada taxa de crescimento econômico naquele período. Mesmo em faculdades particulares, a educação era muito perto de ser gratuita. Eu fui para a faculdade, em 1945, em uma universidade da Ivy League, a Universidade da Pensilvânia, onde a taxa de matrícula foi de US$ 100. Isso talvez desse US$ 800 dólares hoje. E foi muito fácil obter uma bolsa de estudos. Então era possível morar em casa, trabalhar e ir para a escola sem grandes gastos. Hoje a situação é ultrajante. Tenho netos na faculdade que têm que pagar sua matrícula e trabalhar, o que é quase impossível. Para os alunos essa é uma técnica disciplinar.

Outra técnica de doutrinação é cortar o contato entre o aluno e o professor. Isso se faz com turmas grandes, professores temporários que estão sobrecarregados e mal conseguem sobreviver com seu salário. E uma vez que você não tem nenhuma estabilidade no emprego não é possível construir uma carreira. Você não pode seguir em frente e planejar evoluir na carreira. Estas são todas técnicas de disciplina, doutrinação e controle.

É muito parecido com o que você esperaria encontrar em uma fábrica, onde os trabalhadores têm que ser disciplinados para serem odebientes e não, por exemplo, para desempenhar um papel na organização da produção ou do local de trabalho. Essas funções são exclusivas dos gerentes. Pois esse modelo foi transportado para as universidades. E creio que não deve surpreender ninguém, que já teve alguma experiência com a iniciativa privada, a forma como funcionam.

Sobre como o ensino superior deve ser

Antes de tudo, devemos deixar de lado qualquer ideia de que houve algo como uma “idade de ouro”. As coisas eram diferentes e, em certo sentido, melhores no passado, mas longe de setem perfeitas. As universidades tradicionais eram extremamente hierarquizadas, com muito pouca participação democrática na tomada de decisões. Uma parte do ativismo dos anos 1960 queria justamente tentar democratizar as universidades, incluindo, por exemplo, representantes dos estudantes nas comissões do corpo docente. Esses esforços tiveram algum grau de sucesso. A maioria das universidades tem algum grau de participação dos estudantes nas decisões da instituição. Penso que deveríamos nos mover nesta direção: uma instituição democrática, onde as pessoas envolvidas (professores, alunos e funcionários) participam na definição das políticas da instituição e de como elas são exectutadas. E o mesmo deveria valer para uma fábrica.

Estas não são ideias radicais, devo dizer. Elas vêm diretamente da tradição do liberalismo clássico. Se lermos, por exemplo, John Stuart Mill, uma figura importante dessa tradição, veremos que ele concordava com a ideia de que os locais de trabalho deveriam ser administrados pelas pessoas que trabalham neles. Isso seria sinônimo de liberdade e democracia (ver, por exemplo, de John Stuart Mill, Princípios de Economia Política, livro 4, cap.7) 

Podemos encontrar essas mesmas ideias nos Estados Unidos. Tomemos o caso dos Cavaleiros do Trabalho (Knights of Labor, primeira organização trabalhista nacional importante da história dos EUA, fundada em 1869 - NT). Um de seus objetivos declarados era “estabelecer instituições cooperativas, que tenderão a substituir o sistema de salários com a intordução de um sistema industrial cooperativado”. Ou ainda em alguém como John Dewey, filósofo “mainstream”do século 20, que defendeu não só uma educação voltada a desenvolver a independência criativa nas escolas, mas também o controle das indústrias pelos trabalhadores, o que ele chamou de “democracia industrial”.

Para Dewey, enquanto as instituições cruciais da sociedade (como produção, comércio, transporte e mídia) não estiverem sob o controle democrático, então a “política (será) a sombra projetada sobre a sociedade pelos grandes negócios” (“A Necessidade de um novo partido”, 1931). Essa ideia quase elementar, que tem raízes profundas na história dos Estados Unidos e no liberalismo clássico, deveria ser uma espécie de segunda natureza para as pessoas que trabalham e ser aplicada igualmente para as universidades.

Há algumas decisões em uma universidade onde não é o caso de ter (transparência democrática) porque, por exemplo, é preciso preservar a privacidade do aluno. Existem vários tipos de questões sensíveis, mas na maioria da atividade normal da universidade não há razão para a democracia direta não ser considerada legítima e útil. No meu departamento, por exemplo, por 40 anos tivemos representantes dos estudantes participando de reuniões do departamento.

"Governança compartilhada" e controle dos trabalhadores

A universidade é, provavelmente, a instituição em nossa sociedade que está mais próxima da ideia de um controle democrático dos trabalhadores. Dentro de um departamento, por exemplo, é normal que um professor possa determinar uma parte substancial de como será seu trabalho: o que vai ensinar, quando, como deve ser o currículo. A maioria das decisões sobre o trabalho real do departamento passa pelos professores. Há, é claro, um nível superior de questões que não fica sob seu controle. Pode-se indicar alguém para lecionar, digamos, e essa recomendação pode ser rejeitada pelos reitores ou administradores. Isso não acontece com muita frequência, mas pode acontecer. E isso sempre tem a ver com questões mais estruturais que, embora sempre tenham existido, representavam um problema menor quando os professores participam da administração.

Sob sistemas representativos, você tem que ter alguém fazendo o trabalho administrativo, mas esses mandatos devem ser revogáveis em algum momento. Isso ocorre cada vez menos. Existem cada vez mais administradores profissionais, em vários níveis, tomando decisões cada vez mais distantes do controle do corpo docente. Eu mencionei antes o livro “The Fall of the Faculty”, de Benjamin Ginsberg, que entra em muitos detalhes sobre como isso funciona em universidades como John’s Hopkins, Cornell e algumas outras.

Enquanto isso, o corpo docente se vê cada vez mais reduzido à categoria de trabalhadores temporários que têm a garantia de uma existência precária, sem perspectiva de evoluir na carreira. Eu tenho conhecidos que são efetivamente professores permanentes, mas eles não têm esse status na prática, tendo de se aplicar a cada ano de modo a serem nomeados novamente. Essas coisas não deveriam acontecer. E a situação dos auxiliares foi institucionalizada: eles não fazem parte do corpo de tomada de decisões e não tem segurança no emprego, o que só amplia o problema. Esse pessoal também deveria ser integrado ao processo de tomada de decisões, uma vez que fazem parte da universidade. 

Portanto, há muito o quê fazer, mas podemos entender facilmente porque essas tendências estão se desenvolvendo. Isso tem a ver com a imposição de um modelo de negócio em quase todos os aspectos da vida. É a ideologia neoliberal sob a qual a maior parte do mundo tem vivido há 40 anos. Ela é muito prejudicial para as pessoas e não encontra resistência na maioria dos casos. Só duas regiões conseguiram escapar dela: a Ásia Oriental, onde ela nunca predominou, e a América do Sul, nos últimos 15 anos.

Sobre a alegada necessidade de “flexibilidade”

“Flexibilidade” é um termo que é muito familiar para os trabalhadores na indústria. Parte daquilo que costuma ser chamado de “reforma trabalhista” consiste em fazer o trabalho mais “flexível”, ou seja, fazer com que seja mais fácil contratar e demitir pessoas. É, mais uma vez, uma forma de garantir a maximização de lucro e de controle. “Flexibilidade”, supostamente, é uma coisa boa, assim como a “maior insegurança dos trabalhadores”. Deixando de lado a indústria, onde é exatamente isso o que ocorre mesmo, mas universidades não há justificativa para esse tipo de prática. 

Consideremos o caso de um curso com baixo número de matriculados. Isso não é um grande problema. Uma de minhas filhas ensina em uma universidade e me disse que sua carga horária sofrerá alteração porque um dos cursos que estava sendo oferecido teve poucos matriculados. Ok, o mundo não acaba por causa disso. O professor ou professora pode dar um curso com uma metodologia diferente ou buscar outra alternativa. As pessoas não têm que ser jogadas fora ou ficar inseguras por causa da variação do número de alunos matriculados em um curso. Há várias possibilidades de ajuste para essa situação. A ideia de que o trbaalho deve atender às condições de “flexibilidade” é apenas mais uma técnica padrão de controle e dominação. Por que não dizer que os administradores devem ser jogados fora se não há nada para se fazer naquele semestre? A mesma situação se aplica aos altos executivos das indústrias: se o trabalho tem que ser flexível, o que dizer da gestão? A maioria deles é bastante inútil ou até prejudicial. Então vamos nos livrar deles. E você pode continuar assim.

Para tomar uma notícia dos últimos dias, que tal Jamie Dimon, CEO do banco JP Morgan Chase? Ele teve um aumento bastante substancial, quase o dobro de seu salário, por gratidão por ter salvo o banco de acusações criminais que teriam levado seus executivos para a cadeia. Conseguiram escapar com apenas US$ 20 bilhões em multas por atividades criminosas. Bem, eu posso imaginar que se livrar de alguém assim pode ser útil para a economia. Mas não é disso que as pessoas estão falando quando falam sobre a “reforma trabalhista”. São as pessoas que trabalham que devem sofrer. Devem sofrer por ter um trabalho inseguro, por não ter certeza sobre de onde sairá o pão de amanhã. Por isso, devem ser disciplinadas e obedientes e não fazer perguntas ou pedir por seus direitos. Essa é a maneira pela qual os sistemas tirânicos operam. E o mundo dos negócios é um sistema tirânico. Quando essa lógica é imposta às universidades, ela refletirá as mesmas ideiais. Isso não é nenhum segredo.

Sobre a finalidade da educação

Estes debates remontam ao Iluminismo, quando as questões de ensino superior e educação de massa estavam sendo levantadas, e não mais apenas a educação para o clero e a da aristocracia. Havia basicamente dois modelos discutidos nos séculos 18 e 19, e foram discutidos com imagens bastante sugestivas. Uma imagem da educação dizia que ela deve ser vista como um vaso que deve ser preenchido com água. Isso é o que chamamos hoje em dia de “ensinar para testar”: você derrama água dentro do vaso e, em seguida, ele devolve a água. Mas é um vaso muito permeável, como muitos de nós que passamos pela experiência da escola podemos constatar, já que podemos memorizar algo para um exame pelo qual não tínhamos muito interesse e, uma semana depois, não lembrarmos mais do que se tratava. O modelo do vaso nos dias de hoje é chamado de “nenhuma criança deixada para trás”, “ensinando para testar”, “corrida para o topo” e outras coisas semelhantes em universidades. Os pensadores ilumistas eram contrários a esse modelo.

O outro modelo foi descrito pela imagem de uma corda estendida ao longo da qual o aluno progride em seu próprio caminho, sob sua própria iniciativa, talvez seguindo a corda, talvez decidindo ir para outro lugar, talvez levantando questões. Seguir a corda significa impor algum grau de estrutura. Assim, um programa de educação, seja ela qual for, um curso sobre física ou algo assim, não será um vale tudo, terá certa estrutura. Mas o seu objetivo é que o aluno adquira a capacidade de investigar, de criar, inovar e desafiar – isso é que é a educação. Um físico mundialmente famoso, foi questionado uma vez por um aluno sobre qual seria o conteúdo do curso no semestre. Sua resposta foi: “não importa o que vamos tratar, mas sim o que você vai descobrir”. Você ganha capacidade e auto-confiança para desafiar e criar. Dessa forma você internaliza o tema do estudo e pode ir em frente. Não é uma questão de acumular uma quantidade fixa de fatos que, em seguida, você pode descrever em uma prova e amanhã já não lembrar.

Estes são dois modelos bem distintos de educação. O ideal iluminista foi o segundo e eu acho que é isso que devemos nos esforçar em buscar. Essa é a verdadeira educação, do jardim de infância à pós-graduação. Na verdade, existem programas desse tipo, muito bons, para o jardim de infância.

Sobre o amor de ensinar

Nós certamente queremos que as pessoas, tanto professores como alunos, se envolvam em atividades que sejam gratificantes, agradáveis, estimulantes e excitantes. Eu realmente não acho que isso seja difícil. As crianças são criativas, curiosas, querem saber coisas, querem entender as coisas, e, a menos que sejam submetidas a um processo, essas coisas ficam com elas o resto de sua vida. Se você tem oportunidade de seguir esse compromisso, é uma das coisas mais gratificantes da vida. Isso é verdade se você é um físico pesquisador ou se você é um carpinteiro. Você está tentando criar algo de valor, lidando com um problema difícil e tentando resolvê-lo. Acho que isso é o que faz funcionar o tipo de coisa que você quer fazer. 

Em uma universidade que funciona razoavelmente, você encontra pessoas que trabalham o tempo todo porque elas adoram o que estão fazendo. É o que elas querem fazer. Elas receberam a oportunidade, têm os recursos e são encorajadas a serem livres, independentes e criativos. O que poderia ser melhor? É o que elas gostam de fazer. E isso, repito, pode ser feito em qualquer nível.

Vale a pena pensar sobre alguns dos programas educacionais imaginativos e criativos que estão sendo desenvolvidos em diferentes níveis. Alguém me descreveu, dias atrás, um programa de ciência que está usando em escolas de ensino médio, por meio do qual os alunos são provocados por uma pergunta interessante: "Como pode um mosquito voar na chuva?" Essa é uma pergunta difícil quando você pensa sobre isso. Se algo batesse em um ser humano com a força com que um pingo de chuva bate em um mosquito ele seria achatado imediatamente. Então como é que o mosquito não é esmagado instantaneamente? E como pode o mosquito continuar voando? Responder essa pergunta é um trabalho muito difícil que envolve entrar em questões de matemática, física e biologia, questões suficientemente desafiadoras  para alguém querer encontrar uma resposta para elas.

Isso é o que a educação deve ser em todos os níveis, desde o jardim de infância. Existem programas de jardim de infância em que, por exemplo, é dada uma coleção de pequenos objetos para cada criança: seixos, conchas, sementes, e coisas assim. Em seguida, a classe recebe a tarefa de descobrir quais são as sementes. O processo começa com o que chamam de uma "conferência científica": as crianças conversam entre si e tentam descobrir quais são as sementes. Há alguma orientação de professores, é claro, mas a idéia é fazer com que as crianças pensem sobre o tema. Depois de um tempo, são feitas várias experiências para tentar descobrir quais são as sementes. Nesse ponto, cada criança recebe uma lupa e, com a ajuda do professor, olham para dentros das rachaduras da semente e encontram o embrião que faz a semente crescer. Estas crianças aprendem algo, realmente, não apenas sobre sementes e o que faz com que as coisas cresçam, mas também sobre como descobrir. Eles estão aprendendo a alegria da descoberta e da criação, e é isso o que você carrega de forma independente, para fora da sala de aula, para além de qualquer curso.

O mesmo vale para toda a educação, até a pós-graduação. Em um seminário de pós-graduação razoável, você não esperar que os alunos baixem a cabeça para copiar e depois repetir o que você diz. Você espera que eles lhe digam quando você está errado ou que cheguem a novas idéias, para desafiar, para perseguir algum sentido que não tinha sido pensado antes. Isso é o que a verdadeira educação é em todos os níveis, e é isso o que deve ser incentivado. Esse deveria ser o propósito da educação. Não é para despejar informações na cabeça de alguém, que depois vai “vazar” esse conteúdo, mas para permitir que eles se tornem pessoas criativas, independentes, capazes de encontrar emoção na descoberta e criação e criatividade em qualquer nível ou em qualquer domínio de seus interesses.

Sobre o uso da retórica corporativa contra as corporações

Isso é como perguntar como você deve justificar, perante o proprietário de escravos, que as pessoas não devem ser escravos. Você está em um nível de investigação moral onde provavelmente é muito difícil encontrar respostas. Somos seres humanos com direitos humanos. É bom para o indivíduo, é bom para a sociedade e mesmo para a economia, em sentido estrito, que as pessoas sejam criativas, independentes e livres. Todos se beneficiam se as pessoas são capazes de participar, de controlar seu destino, de trabalhar uns com os outros. Isso pode não maximizar o lucro e dominação, mas por que deveríamos perseguir esses valores?

Conselhos para professor temporário organizar sindicatos

Você sabe melhor do que eu o que tem que ser feito, o tipo de problemas que você enfrenta . Então, vá em frente e faça o que tem que ser feito. Não se deixe intimidar , não se assuste, e reconheça que o futuro pode estar em nossas mãos, se estamos dispostos a compreendê-lo.

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Notas:

(*) Noam Chomsky OCCUPY: Class War, Rebellion and Solidarity é publicado pela Zuccotti Park Press .

[NT] A expressão “Adjunct Faculty” utilizada por Chomsky no texto original designa, nos Estados Unidos, os professores universitários contratados em regime temporário para dar um curso durante um semestre ou um ano, não possuindo qualquer estabilidade de emprego. Essa categoria não corresponde ao “professor adjunto” das universidades públicas brasileiras, que são concursados e possuem estabilidade de emprego.
Tradução: Louise Antonia León

Fonte
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Educacao/Chomsky-Sobre-a-precarizacao-do-trabalho-e-da-educacao-na-universidade/13/30389

HAROLDO DE CAMPOS

HAROLDO DE CAMPOS 


HAROLDO DE CAMPOS
Especial para a Folha 

Desses versos, ato contínuo, migrei para o "Céu Quarto" do "Paraíso" (12, 139-141), onde são louvados Rábano Mauro, 780-ca.856 ("Rabano è qui"/ "Rábano está aqui"), e Joaquim da Fiore, 1130-1210 ("e lucemi dal lato/ il calavrese abate Giovecchino/ di spirito profetico dotato" - "e ao meu lado reluz/ o calábrico Abade Giovacchino/ de espírito profético dotado). O primeiro, Abade de Fulda, ficou célebre por seus "poemas figurados" ("De laudibus sanctae Crucis"), poemas "cruciformes", em cores, com figuras superpostas a letras (há belos exemplos desses "carmina figurata" no catálogo "Poésure et Peintrie", da soberba exposição de poesia visual realizada em Marselha, em 1993, no Centre da la Vieille Charité; um ensaio do saudoso Paul Zumthor, publicado no nº 4 da revista "Change", 1969, "Carmina Figurata: Une Mode Carolingienne" é a melhor introdução sobre o assunto). O segundo é famoso por suas obras teológico-visionárias, entre as quais o "Liber Figurarum", no qual representa a "Árvore da História Humana". Na concepção joaquinita, a cada uma das pessoas da Santíssima Trindade correspondia uma época histórica: a Idade do Pai (de Adão à vinda de Cristo); a do Filho (que o monge calabrês imaginava prestes a se concluir nos anos em que escrevia); a do Espírito Santo, ou Idade da Concórdia, a era futura da Revelação da Verdade e da Paz escatológica.

Desse "Libro delle Figure", possuo uma preciosa edição, em dois volumes, presente magnífico do engenheiro-poeta Erthos Albino de Sousa. Leone Tondelli, organizador da publicação (Società Editrice Internazionale, Turim, 1953), é também autor de um erudito ensaio que constitui o volume explicativo da obra. Nele, examina as origens do "Liber Figurarum" e a sua difusão medieval até Dante. O poeta da "Commedia" exibe vários traços da recepção das idéias do visionário teólogo, cujo radicalismo "trinitarista"foi rejeitado pelo Concílio de Latrão (1215), mas cuja influência pervive, de modo mitigado, em São Boaventura, "Doctor Seraphicus", máximo expoente da chamada "escola franciscana", que introduz Giovacchino a Dante no "Paraíso" (12, 127-141).

Um desses traços joaquinitas é a famosa transformação em água do último "M" da inscrição "Diligite justitiam/ qui judicatis terram" ("Amai a justiça, ó vós que julgais/governais a terra). Essa metamorfose é operada diante dos olhos do magno poeta pela circunvolução das almas dos justos, como se fosse "um grandioso e luminoso quadro ginástico" (Tondelli). Para formar o pescoço ("collo") dessa Águia Imperial, gótico-heráldica (o "M" aquilino é também uma inicial simbólica da Monarquia terrena), desenhada pelas "criaturas santas envoltas em luz" ("dentro ai lumi sante creature, "Paraíso", 13, 76-114), as "beatitudes se deixam "enliriar, ou seja, "amoldar em forma de lírio", "ingigliarsi", como diz Dante, forjando um de seus audaciosos neologismos verbais, enriquecedores do tesouro léxico italiano.

Pois bem, essa transfiguração, que se processa nos versos dantescos, teria sido diretamente inspirada num códice do "Liber Figurarum" pertencente ao Seminário Bispal Urbano de Reggio Emilia (ou noutro, similar, hoje na biblioteca do Corpus Christi College, da Universidade de Oxford). Esse códice contém magníficas figuras e gráficos em cores. As tábuas que o compõem são ricamente ornadas com técnicas de iluminura. As de nºs 5 e 6, por exemplo, representam "águias enliriadas" ou "formadas por lírios", como o "M" metamórfico dantesco. Pois, "Dante não copia a natureza, mas uma imagem estilizada; ou, sem mais: traduz no verso a figura do códice iluminado (Tondelli).

De Kircher a Cortázar

O "Mutus Liber" mostrou-se-me filiável, nesse sobrevôo aventuroso de minha memória icônica, a uma tradição ilustre de escrita pictural, da qual o "Liber Figurarum" joaquinita é apenas um exemplo. Outros muitos se poderiam mencionar, como "Oedipus Aegyptiacus" (1652-1654), do jesuíta Athanasius Kircher (1602-1680), com seus diagramas místicos, suas cartas herméticas e suas pranchas alegóricas, obra variamente abeberada "na sabedoria egípcia, na teologia fenícia, na astrologia caldéia, na cabala hebraica, na magia persa, na matemática pitagórica, na teosofia grega, na alquimia árabe e na filologia latina (Joscely Godwin, "Athanasius Kircher: A Renaissance Man and the Quest for Lost Knowledge", 1979). No cólofon desse tratado, a figura de Harpócrates (versão grega do Horus infantil, o deus-sol egípcio) aparece com um dedo sobre os lábios, como a pedir silêncio aos que fossem capazes de entender sua sigilosa mensagem.

O pensamento de Kircher, como aponta Octavio Paz ("Sor Juana Inés de la Cruz o Las Trampas de la Fe", 1982), exerceu, por seu turno, influência sobre Sor Juana, a monja-poeta mexicana (1651-1695). Em especial sobre "Primero Sueño", poema filosófico-alegórico, onde, entre outras imagens emblemáticas, ocorre a de duas pirâmides antagônicas: uma de sombra (representando o mundo sublunar), outra de luz (representando a região celeste). No frontispício da "Sphynx Mystagoga", de Kircher, vê-se uma figuração "barroca" das pirâmides do Egito, na expressão de J. Godwin). O "Primeiro Sueño" parece inspirar-se na "viagem astronômica" do jesuíta alemão (Karl Vossler "via Paz"), ou seja, no "Itinerarium Extaticum" ou "Inter "(Roma, 1656; Würzburg, 1660 e 1671).

Sor Juana alegoriza no poema a ascenção de alma à "esfera superior", onde é ofuscada por uma visão luminosa; enceguecida, não consegue mais se elevar e o corpo desperta. Isso --explica Paz--, durante o sono (e em sonho), ou seja, num "estado próximo da morte", equivalente à "morte provisória do corpo e à liberação também provisória da alma". Sem temer as censuras de "anacronismo" dos custódios estritos da "leitura de época", limitada ao horizonte de recepção do público do tempo, Octavio Paz vê no magno poema de Sor Juana, para além dos traços estilísticos de Gôngora, uma antecipação do "Coup de Dés" (1897), de Mallarmé, e do "Altazor" (1931), aeroépica do chileno Vicente Huidobro.

A grande obra

Aliás, também na imaginação de outros escritores latino-americanos inscreve-se a miragem mallarmaica da Grande Obra --"L'Oeuvre", da qual o "Lance de Dados" seria apenas um esboço: algo como uma Enciclopédia do Verbo, ao mesmo tempo o espelho do mundo e a sua decifração, manipulada combinatoriamente por um poeta-"operador", que tem traços do Adepto alquímico (ver meu ensaio "A Arte no Horizonte do Provável", no livro do mesmo nome, em especial as referências a J. Scherer, "Le Livre de Mallarmé", 1957). Refiro-me agora a Morelli, o Mallarmé cortazariano em "Rayuela" (1963): "Mi libro se puede leer como a uno le dé la gana. 'Liber Fulguralis', hojas mánticas...". Ou então a Oppiano Licario e à sua "Súmula", Nunca Infusa, de Excepciones Morfológicas", "curso délfico" que permitirá aos discípulos (Cemi e Fronesis) "interpretar a significação do tempo, ou seja, a penetração tão lenta como fulgurante do homem na imagem".

Estou-me reportando a "Paradiso"(1966), do cubano Lezama Lima, e ao seu complemento inacabado, "Oppiano Licario" (1977). O "dom icárico", a única obra de Oppiano, a "Súmula, um manuscrito de cerca de 200 páginas, tendo no centro um poema de oito ou nove páginas, era "o Livro, o Espelho, a Chave". Guardado numa caixa chinesa, acaba sendo destruído por um cão, que, ao tentar refugiar-se de uma enchente, salta na mesa onde está a caixa, abre-a a dentadas e dispersa as folhas na água. Resta apenas o poema. Mas os discípulos devem refazer a festa licárica e reconstruir o "Livro Sagrado", alcançar a união no "Eros estelar", a iluminação. Testamento de Lezama, morto em 1976, seu inconcluso "Oppiano Licario", como a "Súmula Nunca Infusa", que, ao se perder, desemboca no "vazio primordial, se sacraliza", termina em aberto, metáfora enigmática de si mesmo...

Aurora Consurgens

Venho seguindo até aqui, nessa minha leitura personalíssima do "Mutus Liber", uma indicação alternativa de seu erudito comentador, J.J. de Carvalho: leio esse livro ("história do Ser Só que finalmente se encontra com Aquilo Que É Só", ou, ainda, "história da conjunção, da caminhada a dois em busca da integração total"), como uma "obra de ficção". Uma obra intrigante, cujo "anônimo autor buscou reconciliar a produção de significantes estéticos --expressões, portanto, do exercício da livre imaginação-- com símbolos arcanos, inevitavelmente submetidos ao controle de uma tradição iniciática". No caso, é a vertente estética, sobretudo, a que me fala ao olho prazeroso da mente.

E daqui volto ao ponto de partida. Marie-Louise von Franz, que estudou e traduziu o texto alquímico "Aurora Consurgens", considera-o "uma experiência religiosa imediata do inconsciente". Parece-lhe que o enigmático escrito, gravitando em torno da morte, registra, antes de mais nada, o sonho de um moribundo, no qual o passamento, o transe final, é descrito como um casamento místico. Adotando o pressuposto da inadmissibilidade de sua atribuição a São Tomás de Aquino, acaba, no entanto, por referir e comentar longamente uma lenda biográfica, segundo a qual o teólogo, pouco antes de morrer, teria tido crises místicas e visionárias, testemunhadas por seu secretário, Reginaldo de Piperno. Depois duma delas, teria declarado que não podia prosseguir escrevendo, já que seus escritos lhe pareciam "palha" (palea sunt).

Hóspede, pouco tempo mais tarde, dos monges do convento de Santa Maria di Fossa Nuova, o Aquinata, a pedido deles, ter-lhes-ia ministrado um seminário sobre o "Cântico dos Cânticos. "No meio da aula, quando interpretava as palavras 'Vem, meu bem-amado, saiamos para o campo!' ('Veni, dilecte mi, egrediamus in agrum!'), ele morreu". Para M.L. von Franz, o texto "Aurora Consurgens" --"um mosaico, um quebra-cabeças, de citações extraídas da 'Bíblia' e de alguns dos primeiros escritos alquímicos-- seria, em substância, uma paráfrase do "Canticum Canticorum", por muitos séculos atribuído a Salomão, o Rei-Sábio (hoje essa "ficção de autoria" está desfeita; o "Shir Hashshirim", escrito em hebraico tardio por um anônimo, não pode remontar ao reinado salomônico, devendo ser datado de algum momento entre os séculos 5 e 6 antes de nossa era).

E quanto ao projeto de Umberto Eco? Não sei, sinceramente, que fim levou. Há cerca de três anos, em Milão, fiz-lhe uma indagação a esse respeito. Respondeu-me, vagamente, que, dos destinatários de sua carta-convite, pouquíssimos se sentiram estimulados a prestar-lhe colaboração; só a minha lhe chegara com presteza. Mudou de assunto, evasivo. Tenho-me perguntado, desde então, se o amigo Umberto não estará, secretamente, com base nessa "Aurora Consurgente", urdindo uma nova teia fabular, para um outro aliciante e engenhoso relato romanesco, da família de "O Nome da Rosa", "O Pêndulo de Foucault" ou "A Ilha do Dia Anterior". Neste último, aliás, não deixou expresso, em cólofon, que "não se pode escrever senão fazendo um palimpsesto de um manuscrito encontrado" (cito-o no traslado de seu prestimoso turgimão brasileiro, Marco Lucchesi)? O tempo o dirá.

Haroldo de Campos é poeta, ensaísta e tradutor de poesia. Prepara uma nova edição de "Galáxias" (Editora 34) e um novo livro de poemas, "Crisantempo", a sair na coleção "Signos" da editora Perspectiva. 





A FALA VISÍVEL DO MUNDO

Haroldo de Campos comenta obra alquímica

HAROLDO DE CAMPOS 
ESPECIAL PARA A FOLHA

Em outubro de 1989, num envelope timbrado da Universidade de Bolonha, recebi da parte de Umberto Eco uma carta curiosa. O romancista e semioticista, de quem sou amigo desde os anos 60, referia-me uma pesquisa em andamento sobre os diversos modos de interpretação de um texto. Dizia-me que havia selecionado um escrito alquímico, atribuído (falsamente) a São Tomás de Aquino, do qual me enviava cópia no original latino e numa tradução francesa, indicando-me como fonte o livro de Marie-Louise von Franz, discípula de Jung, "Aurora Consurgens - Le Lever de l'Aurore" ("A Aurora Nascente"), La Fontaine de Pierre, 1982. As razões da escolha, segundo Eco explicava, haviam sido as seguintes: a) o autor e a época do texto eram incertos; b) o estilo, obscuro; c) como todos os textos alquímicos, podia ser lido ou em referência a uma prática pré-científica ou em sentido místico-alegórico.
Comunicou-me, ademais, que resolvera submeter o texto a um grupo de estudiosos, entre os quais me incluía (os outros, arrolados ao pé da página, eram: Maria Corti, Jonathan Culler, Gilles Deleuze, Jacques Derrida, Jacques Geninasca, Fernando Gil, Algirdas Julien Greimas, Thomas S. Kuhn, Thomas Pavel e Cesare Segre). Nenhum deles -acrescentava Eco- era profissionalmente historiador da alquimia ou ligado a práticas alquímicas. Por outro lado, cada colaborador teria plena liberdade para ler e comentar o texto do modo que lhe aprouvesse, a saber: 1) remetendo-o ao seu contexto histórico; 2) relacionando-o com interpretações que já lhe tinham sido dadas; 3) como puro texto "poético" ou "filosófico", do qual se ignorasse autor e época; 4) como exemplo linguístico de "estilo alquímico"; etc.
Surpreso com o convite (e com a ilustre companhia em que Eco me incluía), depois de ler o texto que me havia remetido e refletir sobre ele; depois, também, de recorrer como subsídio ao livro "Alquimia - Introdução ao Simbolismo e à Psicologia", de M.L. von Franz (Cultrix, 1987; tradução do original inglês de 1980), decidi contribuir ao inquérito umbertiano, na minha precípua condição de poeta, com um "metapoema, um poema metalinguístico-hermenêutico, que encapsulasse minha reação interpretativa ao intrigante escrito alquímico que é "Aurora Consurgens". Encaminhei a Umberto Eco, no dia 6 de janeiro de 90, o poema -até agora inédito- (leia na pág. ao lado), em versão para o italiano por mim mesmo elaborada, justificando (como ele também pedia em sua carta-convite) as razões de meu modo de proceder: "Da minha parte, sinto-me apenas capaz de responder à tua demanda, colaborando com um outro enigma (não uma decodificação, mas, ao invés, um suplemento enigmático à sua ambiguidade): um poema-glosa". Isto porque, num sentido mais específico, já havia a minuciosa exegese junguiana de M.L. von Franz; um esclarecimento maior dos problemas do texto dependeria do aprofundamento dessa análise num nível histórico e contextual, coisa que não estava evidentemente ao meu alcance.
O 'Mutus Liber'
Entre eles, a versão integral em prosa de "A Linguagem dos Pássaros", composição alegórico-mística do poeta persa súfi Farid ud-Din Attar (ca. 1120-1193), versão feita por Rizek e Álvaro de Souza Machado a partir da tradução francesa de Garcin de Tassy (1863), comparada com outras fontes; dessa obra, conheço a elaborada tradução inglesa, com propósitos de re-criação, em "dísticos heróicos", rimados, por Afkham Darbandi e Dick Davis, "The Conference of Birds" (Penguin Classics, 1984). Outro item é a reunião, sob o título "A Sabedoria Divina" ("O Caminho da Iluminação"), de três tratados do místico silesiano Jacob Bõhme (1575-1624), visionário influente no romantismo alemão, em versão de Américo Sommerman, incluindo um estudo do sistema bõhmiano pelo grande poeta polonês Adam Mickiewicz.
Para a minha apreciação do "Mutus Liber", ajudaram-me algumas leituras precedentes no campo da mística e da alquimia, neste último caso sobretudo por instigação de minha amiga Ana Maria Alfonso Goldfarb, especialista em história das ciências, discípula do saudoso professor Simão Mathias (de quem também recordo um belo ensaio de 1977 sobre o alquimista árabe Jabir Ibn Hayyan, "um personagem misterioso", versado em filosofia grega, na mística sufi e autor de tratados sobre lógica e sobre arte poética).
Em 1987, Ana Goldfarb publicou "Da Alquimia à Química" (Nova Stella/Edusp). Para Goldfarb, "a Alquimia efetua uma ritualização mística em três tempos: o da negra morte da matéria; o de seu alvo renascer e o de sua rubra transmutação em ouro", como resume Marilena Chaui na resenha que lhe dedicou (nesta Folha, 23 de janeiro de 1988), na qual ressalta, ademais, que, "evitando interpretações de estilo junguiano (ou dos arquétipos do inconsciente coletivo), a autora decide-se vigorosamente pela história (das idéias, social, econômica e política)". Na conclusão de seu estudo, Ana Goldfarb mostra como a Alquimia, "baseada numa cadeia de mistérios", não resistiu "à passagem para um universo onde o mistério é inadmissíve"l. Diante do novo modelo do cosmo, o dos "mecanicistas", oposto frontalmente à "antiga cosmologia mágico-vitalista", âmbito onde florescera, a Alquimia, "esvaziada de seu sentido original" teria desaparecido como tal, sobrevivendo residualmente, no universo "mecanicista", não como "forma de conhecimento da natureza", mas, tão-somente, como, entre outras projeções, "figura poética".
A poesia hieroglífica
É como "figura poética" que me interessa precipuamente a "Grande Obra" ("Opus Magnum") alquímica, paradigma, em certo sentido, daquele "Livro Universal", sonhado por poetas como Mallarmé ou Velimir Khlébnikov (recorde-se, deste último, o poema "Edinaia Kniga", "O Único Livro, de 1920, por mim traduzido em "Poesia Russa Moderna").
O "Mutus Liber" ilustra, num dos seus níveis, o currículo iniciático de um "Adepto silencioso" -um "Liberto", outro significado possível de "Liber", como aponta com sutileza o comentador brasileiro-, alguém livre, desvencilhado de suas peias, mas que se conserva (e reserva) em mudez, "que não fala sobre os mistérios que ao cabo desvela. Ao folhear esse álbum alquímico, pensei no terceto final de um célebre soneto esotérico de Fernando Pessoa (o último do tríptico "No Túmulo de Christian Rosencreutz"):
"Calmo na falsa morte a nós exposto,
O Livro ocluso contra o peito posto,
Nosso Pai Roseacruz conhece e cala.
Dante e a fala visível
Mas, sobretudo, pensei nos versos de Dante ("Purgatório, 10, 95-96"):
"... esto visibile parlare,
novello a noi perchè qui non si trova,
("...este falar visível/ que é novo e entre nós outros não se encontra).
Esses versos se referem a figuras murais, entalhadas no mármore, cuja "fala visível" o peregrino Dante podia "ouvir" ("ouver, diria mais apropriadamente Décio Pignatari), como se cada uma delas não fosse "imagine che tace" (uma "imagem muda"), mas pessoa viva e dotada de voz.


Fonte 
Site do Jornal Folha de São Paulo. 



ET IN ARCADIA

 Et in Arcadia...

Estou deixando o espaço virtual para me dirigir ao espaço hipnótico de morpheus. Onde as musas e as ninfas das regatos, bosques e colinas dançam e cantam para manter o ser das coisas.  
Chegarei lá na arcádia onde "ela" também esta... 
Et in arcadia ego...

ARTE - ARS - ΤΕΧΝΗ - (01/VIII/2014)

ARTE - ARS - ΤΕΧΝΗ 


τέχν-η, ἡ, (τέκτων) art, skill, cunning of hand, esp. in metalworking, Od.3.433, 6.234, 11.614; also of a shipwright, Il.3.61; of a soothsayer, A.Ag.249 (pl., lyr.), Eu.17, S.OT389, etc.; τέχναι ἑτέρων ἕτεραι Pi.N.1.25; ὤπασε τ. πᾶσαν Id.O.7.50.
craft, cunning, in bad sense, δολίη τ. Od.4.455, Hes.Th.160: pl., arts, wiles, Od.8.327.332, Hes.Th.496,929; δολίαισ τέχναισι χρησάμενοσ Pi.N.4.58; τέχναισ τινόσ by his arts (or simply by his agency), Id.O.9.52, P.3.11; τέχνην κακὴν ἔχει he has a bad trick, Hes.Th.770, cf. Pi.I.4(3).35(53), S Ph.88, etc.
way, manner, or means whereby a thing is gained, without any definite sense of art or craft, μηδεμιῇ τ. in no wise, Hdt.1.112; ἰθέῃ τ. straightway, Id.9.57; πάσῃ τ. by all means, Ar.Nu.1323, Th.65, Ec.366; παντοίᾳ τ. S.Aj.752, etc.; οὐκ ἀποστήσομαι . . οὔτε τ. οὔτε μηχανῇ οὐδεμιᾷ IG12.39.22; πάσῃ τ. καὶ μηχανῇ X.An.4.5.16; μήτε τ. μήτε μηχανῇ μηδεμιᾷ Lys.13.95.
an art, craft, πᾶσαι τέχναι βροτοῖσιν ἐκ Προμηθέωσ A.Pr. 506, cf. IG12.678; τὴν τ. ἐπίστασθαι to know the craft, Hdt.3.130; φλαύρωσ ἔχειν τὴν τ. ibid.; τῆσ τ. ἔμπειροσ Ar.Ra.811; ταύτην τέχνην ἔχει he makes this his trade, Lys.1.16, cf. 6.7; ἐν τῇ τ. εἶναι practise it, S.OT562, Pl.Prt.317c; ἐπὶ τέχνῃ μαθεῖν τι to learn a thing professionally, opp. ἐπὶ παιδείᾳ, ib.312b, cf. 315a; τέχναι καὶ ἐργασίαι X.Mem.3.10.1; τέχνην τὸ πρᾶγμα πεποιημένοι having made a trade of it, D.37.53; τέχνασ ἀσκεῖν, μελετᾶν, ἐργάζεσθαι, to practise them,X. Cyr.1.6.26,41 (Pass.), Oec.4.3; πατρῴαν τέχναν ἐργάζεσθαι ἁλιεύεσθαι Πρακτικὰ Ἀρχ. Ἑτ.1932.52 (Dodona, iv B.C.); ἰατρὸσ τὴν τ. POxy. 40.5 (ii A.D.); τεθεραπευκὼσ ἀνεγκλήτωσ τῇ τ., of a barber, PEnteux. 47.3 (iii B.C.); παραμενῶ πρὸσ ὑπηρεσίαν τῆσ τ. (viz. weaving) Sammelb. 7358.20 (iii A.D.); ἀπὸ τεχνῶν τρέφεσθαι live by them, X.Lac. 7.1.
an art or craft, i.e. a set of rules, system or method of making or doing, whether of the useful arts, or of the fine arts, Epich.171.11, Pl.Phdr.245a, Arist.Rh.1354a11, EN1140a8; ἡ ἐμπειρία τέχνην ἐποίησεν, ἡ δ' ἀπειρία τύχην Polus ap. eund.Metaph. 981a4; ἡ περὶ τοὺσ λόγουσ τ. the Art of Rhetoric, Pl.Phd.90b; οἱ τὰσ τ. τῶν λόγων συντιθέντεσ systems of rhetoric, Arist.Rh.1354a12, cf. Isoc.13.19, Pl.Phdr.271c, Phld.Rh.2.50 S., al.; hence title of various treatises on Rhetoric (v. VI; but rather tricks of Rhetoric, in Aeschin. 1.117); τέχνῃ by rules of art, Pl.Euthd.282d; ἢ φύσει ἢ τέχνῃ Id.R. 381b; τέχνῃ καὶ ἐπιστήμῃ Id.Ion532c; ἄνευ τέχνης, μετὰ τέχνησ, Id.Phd.89e: τ. defined as ἕξισ ὁδοποιητική, Zeno Stoic.1.20, cf. Cleanth. ib.1.110.
= τέχνημα, work of art, handiwork, κρατῆρεσ . . , ἀνδρὸσ εὔχειροσ τέχνη S.OC472; ὅπλοισ . . , Ἡφαίστου τέχνῃ Id.Fr. 156, cf. Str.14.1.14, PLond.3.854.4 (ii A.D.), Paus.6.25.1, al.
= συντεχνία, ἡ τ. τῶν λιθουργῶν, τῶν σακκοφόρων, Dumont-Homolle Mélanges d' archéol. et d' épigr.p.378 No.65,66 (Perinthus); τ. βυρσέων, συροποιῶν, IGRom.1.717,1482 (both Philippopolis); τοὺσ καταλειπομένουσ ἀπὸ τῇσ τ. BGU1572.12 (ii A.D.); ὁ χαλκεὺσ ἀπὸ τῆσ τ. SIG 1140 (Amphipolis).
treatise on Grammar, D.T. tit., or on Rhetoric, Anaximenes Lampsacenus tit.


τέχν-ασμα, ατοσ, τό, anything made or done by art, handiwork, κέδρου τεχνάσματα, of a cedar coffin, E.Or.1053; τ. σιδήρου implement of iron. 



ARTE 

ΤΕΧΝΗ 

Techne" is a term, etymologically derived from the Greek word τέχνη (Ancient Greek: [tékʰnɛː], Modern Greek: [ˈtexni], that is often translated as "craftsmanship", "craft", or "art".

DESCRIÇÃO 
Techne is a term in philosophy[1] which resembles epistēmē in the implication of knowledge of principles, although techne differs in that its intent is making or doing as opposed to disinterested understanding.

As an activity, techne is concrete, variable, and context-dependent. As one observer has argued, techne "was not concerned with the necessity and eternal a priori truths of the cosmos, nor with the a posteriori contingencies and exigencies of ethics and politics. [...] Moreover, this was a kind of knowledge associated with people who were bound to necessity. That is, techne was chiefly operative in the domestic sphere, in farming and slavery, and not in the free realm of the Greek polis[2]

Aristotle saw it as representative of the imperfection of human imitation of nature. For the ancient Greeks, it signified all the mechanic arts, including medicine and music. The English aphorism, "gentlemen don’t work with their hands", is said to have originated in ancient Greece in relation to their cynical view on the arts. Due to this view, it was only fitted for the lower class while the upper class practiced the liberal arts of 'free' men (Dorter 1973).

Socrates also compliments techne only when it was used in the context of epistēmē. Epistēmē sometimes means knowing how to do something in a craft-like way. The craft-like knowledge is called a technê. It is most useful when the knowledge is practically applied, rather than theoretically or aesthetically applied. For the ancient Greeks, when techne appears as art, it is most often viewed negatively, whereas when used as a craft it is viewed positively because a craft is the practical application of an art, rather than art as an end in itself. In The Republic, written by Plato, the knowledge of forms "is the indispensable basis for the philosophers' craft of ruling in the city" (Stanford 2003).

Techne is often used in philosophical discourse to distinguish from art (or poiesis). This use of the word also occurs in the digital humanities to differentiate between linear narrative presentation of knowledge and dynamic presentation of knowledge, wherein techne represents the former and poiesis represents the latter.[citation needed]

Usage in art history
“In fact, techne and ars [sic] referred less to a class of objects than to the human ability to make and perform…. the issue is not about the presence or absence of a word but about the interpretation of a body of evidence, and I believe there is massive evidence that the ancient Greeks and Romans had no category of fine art.” (Shiner 2001 p. 19-20)

ARTE
Na Antiguidade Clássica não se vislumbrava qualquer diferenciação entre arte e técnica.

A teknê grega, bem como a ars latina referiam-se não só a uma habilidade, é um saber fazer, a uma espécie de conhecimento técnico, mas também ao trabalho, à profissão, ao desempenho de uma tarefa. O técnico era aquele que executava um trabalho, fazendo-o com uma espécie de perfeição ou estilo, em virtude de possuir o conhecimento e a compreensão dos princípios envolvidos no desempenho.

Sempre associada ao trabalho dos artesãos, a arte era susceptível de ser aprendida e aperfeiçoada, até se tornar uma competência especial na produção de um objeto. 


Fonte
App Ancient greek
Páginas da internet

ANAMORFOSE

ANAMORFOSE 

ΑΝΑΜΟΡΦΩΣΗ, ΑΝΑΜΟΡΦΣΗΣ
ἀναμόρφωσις =  anamórphosis: άνα + μορφή = άνα: para cima, acima, no alto, de baixo para cima, ao longo de, sobre + μορφή: forma, aparência, modo, tipo. Assim, pode-se dizer que ANAMORFOSE significa: retorno da forma, reiteração da forma, reversão da forma a um tipo, aparência". 


Fonte da imagem:

MUNDO LIVRE

NASCEMOS LIVRES?

Não nascemos livres. 
Nascemos engessados numa família neurótica, fruto de uma sociedade elitista, 
Uma sociedade consumista
conservadora e hipócrita. 
Somos reféns de um capitalismo neo-liberal escravizante maquiado de mercado "livre". 
Nos é ensinado que todos somos iguais perante a lei, mas o poder do capital torna o mundo para uns, livres, para outros uma prisão. 

HÁ EM MIM UM CÉU DE MERCÚRIO

Há em mim um Céu de mercúrio 

Existe em mim um sentimento
estético 
ético 
sensual
um caminho se inicia em mim 
rumo ao outro 
outros
onde caminhos chegam e partem 
ha em mim um por do Sol 
Um céu azul de primavera
um céu poente 
cores sangüíneas
Índigo, carmim, 
Rubia tinctorium 
Púrpura 
inefáveis ondas 
um céu sublime
ha no outro um céu 

Um céu de chumbo,
Mercurial brilho
Ouro e prata
Ferro 
Um céu enferrujado  
Ocre 
Enxofre 

Há em mim um olhar 
um olhar desejante 
um olhar anelante
Há no outro um olhar interrogador
Há em mim um céu amanhecendo 
um céu cinza 
e um céu de primavera
um céu de verão 

Há em minha memória 
objetos 
cores
formas 
linhas
áreas
desenhos
desejos
sensualidade
alteridade

Há em mim um eu 
sem abrigo
um eu sem lugar
um eu utopista
utopoide
um eu que se esconde
kriptoego que produz sonhos
sonhos de céus de mercúrio
sonhos sobrepostos 
justapostos 
sonhos desenhos
sonhos ut pictura
pintados
sonhos construídos
com rochas, madeira, água 
mercúrio, areia, ondas
espuma do mar
nuvens do céu 

formas amorfas
formas sem formas
formas informadas
formas formatadas
formais


ha em mim um eu que produz
Ideias, palavras, sonhos 
uma poiseis 
"Dinamis"
que muda e se estetisa
Há em mim um eu vazio
Esperando...

























PUER NOBIS NASCITUR

PUER NOBIS NASCITUR
Camerata Trajectina 

1. Puer nobis nascitur
Rector angelorum;
In hoc mundo pascitur
Dominus dominorum.

2. In præsepe ponitur
Sub fœno asinorum.
Cognoverunt dominum
Christum regem cœlorum.

3. Hinc Herodes timuit
Magno cum livore (dolore,)
Et pueros occidit,
Infantes cum livore. 

4. Qui natus est ex Marie
Die hodierna
Perducat nos cum gloria
(Ducat nos cum gratia)
Ad gaudia superna.

5. O et A et A et O
Cantemos in chorum
(Cum cantibus in choro,)
Cum canticis et organo,
Benedicamus domino.

5. O et A et A et O
Cum cantibus in choro,
Cum canticis et organo,
Benedicamus domino.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

SOBRE A FOTOGRAFIA

SOBRE A FOTOGRAFIA 

Li há algum tempo atrás um texto que falava sobre "glamurizar" a realidade através da fotografia.
Vi essas fotos há alguns anos atrás e lembro agora desse texto da cadeira de Fotografia da Elaine Tedesco. Esse "olhar" ou "artifício" usado por alguns fotógrafos que é a "fusão dor e beleza"(a fotografia não é um espelho do real) que é o discurso da mimese,  nem tampouco vestígio de um real que é o discurso do índice e da referência. O que se VÊ aqui é o ato fotográfico como um ato de interpretação do real, pois arrasta a realidade para o terreno da imagem (um gesto performativo) vide Nan Goldin, Jack Pierson, Wolfgang Tillmans etc, com a diferença de que nestas imagens há o requinte de uma fotografia de moda, o que ao meu ver esvazia a realidade. O que resta investigar é se a disposição estética é mobilizadora ou estéril, se permite um acesso ativo à compreensão da realidade ou se desnaturaliza tudo até a anestesia. Há aqui um universo a ser investigado. 



CECILIA MEIRELES

Alguns poemas de Cecília Meireles

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?


Encomenda

Desejo uma fotografia
como esta - o senhor vê? - como esta:
em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria, 
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia...
Não... Neste espaço que ainda resta, 
ponha uma cadeira vazia.


Murmúrio

Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.

Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.

Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!

 



Motivo da Rosa

Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verás, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.

E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias, 
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico, 
se permaneço ou me desfaço, 
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.