sábado, 1 de setembro de 2012

O MITO DE PYGMALIÃO

O MITO DE PYGMALIÃO

Gostaria de contar aqui uma antiga história que talvez seja bem conhecida de todos, é a hístória de um rei artista chamado de Pygmalião. A história ficou conhecida como o mito de Pygmalião. 
Pygmalião rei de Chipre e escultor era capaz de ver muitas coisas ruins e deplorávsis nas mulheres de seu tempo, chegando ao ponto de odiá-las. Resolveu então ficar solteiro abraçando uma vida celibatária. Assim, em sua solidão decidiu que ocuparia seu tempo esculpindo com toda a sua virtuose e perícia, uma mulher em mármore que de tão bela, nenhuma outra mulher viva se aproximaria desse modelo.
O rei talhou então talhou no mais fino mármore um corpo magnífico, objeto de seus sonhos, à imagem daquilo que ele imaginava ser o objeto perfeito de seu desejo (Jeudy, 2002).
Era, de fato, a representação ideal, perfeita de uma donzela que ao ser vista dava a impressão de pulsante vida, mas que não se movia por modéstia ou pudor. A sua arte era tão perfeita, que parecia um produto da natureza.
Pygmalião admirava cada vez mais a sua obra definitiva e com tempo, acabou por se apaixonar pelo produto da sua criação e muitas, vezes, acariciava a estátua, como se para confirmar se estava viva ou não. E muitas vezes ele olhava incrédulo para a sua criação, não acreditando que fosse de pedra.
Acariciava-a, oferecia-lhe presentes do agrado das jovens apaixonadas, como conchas brilhantes, pedras polidas, pequenos pássaros e flores de várias cores, miçangas e âmbar. Vestiu-a com roupas adornou-a com jóias em seu pescoço e em seus dedos. Nas orelhas, colocou brincos e fios de pérolas sobre os seios. E mesmo vestida guardava o mesmo encanto de quando estava despida. Deitou a estátua num sofá, e chamou-a de sua mulher, colocou-lhe sobre a cabeça uma almofada, feita das mais suaves penas, como se ela conseguisse sentir-lhe a sua suavidade.
Na ilha (Chipre) havia um templo e festivais em honra a deusa Afrodite, num desses festivais, Pigmalião após cumprir os rituais para a deusa e tão atormentado pelo desejo que implorou a Afrodite, que lhe permitisse encontrar uma mulher igual à estátua. A deusa ouviu a súplica e, comovida bondosamente atendeu em parte o pedido. Não encontrando a deusa, mulher que pudesse ser comparada a estátua feita por Pigmalião, transformou esta em uma mulher viva. 
Quando o rei-escultor regressou ao seu palácio, sentou-se ao lado da escultura e beijou-lhe os lábios e estes estavam quentes, ao acariciar a pele sentiu a suavidade da pele de uma jovem e respondia ao toque de seus dedos. Até mesmo as veias quando pressionadas retomavam sua forma arredondada. Esta mesmo viva! E outra vez beijou com paixão e ardor os lábios do objeto do seu desejo. Ele lembrou-se do pedido e agradeceu à deusa por tamanha graça. A estátua abriu timidamente os olhos e ruborizada fitou-o longamente nos olhos. Ele a chamou de Galatéia e tiveram dois filhos o primeiro, menino, chamou-se Paphos e a segunda uma menina, chamou-se Metharme... 
 
O mito nos mostra que o corpo humano é o objeto fundamental da arte. Todavia, o mito nos faz pensar em dois pontos importantes: 1) que em vez de ser o duplo de si mesmo, o corpo esculpido é sobretudo a expressão soberana de uma alteridade composta até a quintessência das intenções do seu autor; e 2) que a vida da estátua não faz esquecer a morte de onde ela vem; saída das trevas que já a tornavam tão bela, ela acede à vida, conservando em si os mistérios de sua origem (Jeudy, 2002). Ficamos por enquanto com essas duas grandes questões que por si só ocupariam toda nossa vida em sua reflexão. 
 
Em seu livro "O corpo como objeto de arte" Henry-Pierre Jeudy relata um romance (Le chef-d´œuvre inconnu) de Balzac onde este fala do modelo. O pintor para chegar a forma, deveria descer a fundo na intimidade da forma, perseguir com amor e perseverança suficiente os seus desvios e fugas. A beleza é algo sério e difícil, que não se deixa capturar assim, sendo preciso esperar seu melhor momento, espreitá-la, sitiá-la e enlaçá-la estreitamente para forçá-la a se entregar. Ora essa passagem ja diz muito sobre o que seja a beleza... 
É ela um aspecto apreendido apenas pelo intelecto capaz de reconhecê-la, detectá-la... não que somente alguns possuam a capacidade de reconhecer a beleza passando em sua frente... mas melhor a capturam aqueles que refletem sobre a forma que cotidianamente envolvem-nos... por estar tão próxima é ela distanta para evadir-se do nosso horizonte. 
Pygmalião reconheceu e refletiu sobre a beleza e a deusa retirou da escuridão a animação daquela forma fria e vazia de sentimento para tornar-se bela em vida. Ora a deusa deu-lhe um passado mesmo que este seja a morte e um futuro mesmo que esse seja o esquecimento e o envelhecimento a decadência. 
Mas do reino dos objetos de arte ela ascendeu a vida. Elas mesmo, bela, pode então contemplar a beleza, num gesto de auto-reconhecimento. 

OS RIOS DA FORMA
 

O CORPO COMO UMA IMAGEM DESEJADA


O CORPO COMO UMA IMAGEM DESEJADA (UM ENSAIO)
A. C. PAIM


“With photography, I like to create fiction out of reality. I try and do this by taking society's natural prejudice and giving this a twist.” (Martin Parr)

“Se as paixões se excitam no olhar e crescem pelo ato de ver, não sabem como se satisfazer; o ver abre o espaço ao desejo, mas ver não basta ao desejo. O espaço visível atesta ao mesmo tempo potência de descobrir e minha impotência de realizar. Sabemos o quanto pode ser triste o olhar desejante .”
(Jean Starobinski, L'oeil vivant)



Resumo
Neste artigo apresento corpo como mais um objeto de arte do cotidiano, pois a percepção do corpo humano no dia-a-dia é condição prévia de uma verdadeira experiência estética (Jeudy, 2002). Para além de intervenções já muito estudadas que usam o corpo como suporte (tatoos, piercings etc), está a passagem, transformação (Dubois, 2011) do real (corpo) em imagem fotográfica (imagem fotográfica baseada em um referente cotidiano, a figura humana, corpo humano, transformado em uma obra de arte pensada para desencadear a estesia do olhar, sem no entanto se resolver no simples ato de ver) (Barthes, 1984, Jeudy, 2002, Novaes, 2006, Fabris, 2011). O corpo passa de um ser (ontos) com sua história de vida, para ser uma obra de arte bidimensional (objeto), com duração e significado diverso da do corpo físico, orgânico e biológico, veiculando outra história e incitando a estesia do olhar. A imagem fotográfica do corpo pode então ser alterada, modificada e com isso agregar um novo valor ao conceito de corpo.


Palavras chaves
Corpo, Fotografia, Imagem pessoal, Corpo-vestígio, Identidade, Registro, Memória.

1. Apresentação

O presente projeto constitui-se em um processo de experimentação e descoberta. Experimentação pela apropriação da fotografia e seus resultados específicos. Descoberta por provocar o olhar com imagens banais. E essa nova dimensão dada à imagem pode conduzir a uma nova mensagem, que surte entre a vista “ordinária” e a visão “extraordinária” (Greimas, 2002). Como diz Lyons em Silveira (2004):

(...) um fazedor de imagens (...) não é um ingrediente anônimo na sociedade, e suas observações são observações importantes para outras pessoas, não apenas para satisfazer algo em termos desse público, mas para provocar algo nesse público, fazê-lo ver mais do que viu antes. 

O projeto utilizará linguagem especifica da fotografia pela minha paixão por esse meio de expressão. A apresentação final poderá ser uma instalação fotográfica ou uma mostra (tradicional).
Os procedimentos da fotografia permitem ao mesmo tempo registrar, bem como, a partir do registro ressignificar imagens e torná-los mais ou menos abrangentes, dando-lhes um novo status, que ultrapassa sua relação imediata com o referente.
As imagens que faço apresentam certo viés narrativo ou de narração onde as seqüenciais podem contar uma historia ou mesmo sugerir conceitos implícitos. Elas suscitam mais do que contam o que aproxima o fruidor de uma espécie de voyeur espreitando algo que esta prestes a acontecer ali em sua frente ou que esta acontecendo in locus. Essas seqüencias se constituem num pequeno recorte da vida de outras pessoas de onde retiro uma história ou momento da vida ou saliento um conceito geral ou particular (Certeau, 1994).
Essas imagens passariam despercebidas ou nem seriam imagens, assim através dessa construção do olhar eu as incluo no horizonte da arte. Essas imagens podem, agora seguir outro caminho diferente de seus referentes físicos e despertar a estesia do olhar e o sentido da paixão, entendida como em Aristóteles daquilo tudo que faz variar o juízo e de que seguem sofrimento e prazer (Novaes, 2002, Greimas, 2001).
A seqüência de imagens com palavras também guarda uma similaridade ou uma aproximação com a publicidade (cartazes publicitários e capas de revistas). Essa característica pode ser muito interessante para elaborações artísticas que privilegiem a ironia como uma das categorias estéticas. 
Essa forma de mostrar as imagens como uma seqüência no tempo me leva a pensar no modo como se contam histórias. Histórias têm inicio meio e fim, não necessitam aparecer nessa ordem, como bem sabemos. Assim, mesmo podendo ser deslocadas de sua seqüência original, elas ainda mantêm uma relação entre si, que agora sobrepostas com outras imagens levam a entrever outros conceitos que não estavam antes explícitos.
Desta forma, mesmo se tratando de imagens ordinárias, cotidianas e, portanto banais, levam-nos a perceber outra dimensão da vida e dos nossos próprios desejos. As imagens apresentadas no portfólio lembram ou dialogam ou tem uma relação estreita com as obras fotográficas de Alair Gomes, Duane Michals, Barbara Kuger e Wolfgank Tilmans. Esses artistas investigam o universo do cotidiano e das situações degradantes da existência humana, o que aproxima todos os seres humanos. Essas fotos do cotidiano evidenciam um olhar da arte sobre o banal ressignificando-o. A leitura (de um texto ou imagem) é um "ato de espreitamento", uma viagem de nômade, sem paradas obrigatórias: o telespectador lê a paisagem de sua infância na reportagem da atualidade ou numa fotografia, pois ler "é constituir uma cena secreta", lugar onde se entra e se sai à vontade; é criar cantos de sombra e de noite numa existência submetida à transparência tecnocrátrica (Certeau, 1994, Saliba, 2009). Ou, como concluiu poeticamente Marguerite Duras: "Talvez se leia sempre no escuro... a leitura depende da escuridão da noite. Mesmo que se leia em pleno dia, fora, faz-se noite em redor do livro" (Cruvinel, 2004), o que poderia bem ser aplicado á leitura da imagem fotográfica. Necessitamos que o mundo nos seja narrado constantemente. Ler (e lemos imagens) tal como ver e escrever, não é viver o que personagens vivem, mas imaginar o que eles sentem. E assim descortinar uma idéia própria sobre o mundo, sobre a beleza, sobre a feiúra e sobre o desejo.
Estas fotos se inserem no mundo narrando algo, mesmo que veladamente. Representam um recorte da vida do modelo que foi retratado não prescindindo do lugar onde ocorreu o acontecimento. Coloca o observador como um “voyeur” a espiar a vida do outro, misturando (fruidor e modelo-imagem) mesmo que por alguns momentos naquela vida que se desenrola ali ante de seus olhos.
Essa abordagem tem três distintos caminhos, o primeiro é constituído pelas fotos no qual emprego um viés fotojornalístico, onde as pessoas são transformadas em imagem sem o saber, elas não estão esperando serem fotografadas. Em outra, o modelo tem ciência e percebe que tem alguém olhando e por isso pode mudar seu comportamento e por último estão as imagens com modelos geralmente amigos e conhecidos que se deixam dirigir para a produção de uma determinada imagem.
Esta transformação de atos cotidianos como por ex.: exercitar-se numa academia, caminhar na calçada, ou no parque, são situações que aparentemente gratuitas e fortuitas podem ser significativas na construção do olhar estético. Também as imagens são um aparecimento, entendido como um olhar a tal ponto compenetrado no ordinário que, atravessando-o e perpassando-o, é o próprio extraordinário que se expõe na dimensão do ordinário (Heidegger, 2002). Assim, as imagens, como um aparecimento, desencadeiam a reflexão sobre o ordinário da minha existência. Toda imagem pode ser definida como uma ocorrência em algum lugar, nesta cidade, em algum momento no tempo, um “aconteceu” um “isto foi!”.  
As imagens selecionadas para o projeto poderão ser classificadas em categorias diretamente relacionadas ao corpo, tais como imagens de espaços, instrumentos, equipamentos etc. Essas imagens, mesmo tendo acontecido em um tempo definido ou estando relacionadas a uma historia, podem muito bem ser complementadas por palavras ou textos, o que ampliaria seu alcance conceitual e isso abre outra chave de interpretação.
O presente trabalho se insere no sistema das artes no sentido da especificidade da produção que esta sendo proposta, em que se busca trabalhar com um gênero artístico valorizado na atualidade (fotografia), mas intrinsecamente relacionado à existência de seu autor como uma espécie de trabalho auto referencial.
O trabalho dialoga com o tempo atual inserindo-nos em um universo da imagem do qual já somos parte, a partir de uma aceitação tácita de nossa condição como seres humanos dotados de corpo e imagem. Essas imagens estão a nossa volta produzindo um prazer visual, fazendo da imagem um dos meios de interpretação do mundo relacionando-a própria vida cotidiana.
Conforme colocado anteriormente o trabalho dialoga com alguns artistas fotógrafos como Alair Gomes, Duane Michals, Barbara Kruger e Wolfgang Tilmans mas também com teóricos considerando as ideias contidas em suas obras como: Philipe Dubois (O ato fotográfico), Susan Sontag (Sobre a fotografia), André Rouillé (A fotografia entre o documento e a arte contemporânea), Françoise Soulages (Estética da fotografia – perda e permanência) . No Brasil as discussões sobre as imagens tendo como foco a fotografia foram principalmente desenvolvidas por Annateresa Fabris (O desafio do olhar, Fotografia e artes visuais no período das vanguardas históricas), sendo que atualmente as discussões em pauta nos cursos de pos-graduações em arte tem gerado teses de doutorado tais como o trabalho de L.E.R. Achutti (Fotoetnografia), Alexandre Santos (A fotografia como escrita pessoal: Alair Gomes e a melancolia do corpo-outro), bem como o trabalho de Paulo Silveira (A página violada) e o capítulo relativo ao uso da fotografia em livros.
Assim, o projeto apresenta um viés da historia da fotografia (Louis Jacques Mandé Daguerre, Joseph Nicéphore Niépce, William Henry Fox Talbot entre outros), além da fotografia e processos artísticos contemporâneos, tal com Luiz Monforte (A fotografia pensante; no uso de processos alternativos fotográficos).
No tocante a arte, o uso da fotografia (através de métodos como raspagens de negativos, ampliação, reenquadramento de imagens, bem como o uso de métodos alternativos de fotografia como marrom de Vandyke, papel salgado e cianotipia, separados ou juntos (colagens), podem fazer da imagem uma transcrição pessoal da natureza, capaz de evocar sentimentos no expectador-fruidor. Com a fotografia é possível realizar infinitas montagens e gerar novos significados possibilitando novos entendimentos do que é apresentado, como também salientar a incapacidade de uma imagem dar conta do real; esse fato torna a fotografia extremamente útil e heurística na arte contemporânea.
Os conceitos teóricos estão relacionados à seqüencialidade, imagens, memória, transformação, fotografia, registros, símbolos, vestígios e  publicidade.


2. Onde se chega ao corpo, sua imagem, como em um labirinto, e se encontram as dúvidas...
O mito de Pygmalião nos diz que ele desacreditando das mulheres esculpiu uma estatua representando a mulher mais lindo do mundo. A deusa Afrodite compadecida do rei escultor transformou a estátua em uma mulher viva. Esse mito mostra que o corpo humano é o objeto fundamental da arte. Todavia, o mesmo mito nos faz pensar em dois pontos importantes: 1) que em vez de ser o duplo de si mesmo, o corpo esculpido é sobretudo a expressão soberana de uma alteridade composta até a quintessência das intenções do seu autor; e 2) que a vida da estátua não faz esquecer a morte de onde ela vem; saída das trevas que já a tornavam tão bela, ela acede à vida, conservando em si os mistérios de sua origem (Jeudy, 2002). Ficamos por enquanto com essas duas grandes questões que por si só ocupariam toda nossa vida em sua reflexão e partamos para outras histórias. Em outro momento Henry-Pierre Jeudy relata um romance (Le chef-d´œuvre inconnu) de Balzac onde este fala do modelo. O pintor para chegar a imagem, deveria: descer a fundo na intimidade da forma, perseguir com amor e perseverança suficiente os seus desvios e fugas. A beleza é algo serio e difícil, que não se deixa capturar assim, sendo preciso esperar seu melhor momento, espreitá-la, sitiá-la e enlaçá-la estreitamente para forçá-la a se entregar.
Mas a dúvida persiste sempre quando interpretamos uma imagem, um gesto: o que significa, onde esta a beleza disto que ora vejo?
Saliento aqui que existe, aliando a história de Pygmalião à de Balzac, agora um terceiro elemento a considerar: uma categoria estética, a beleza com a qual devemos nos preocupar.
Ora, corpo todos temos, e todos já posamos para fotos. Todos nós já nos tornamos objetos do olhar de alguém e de alguma lente voltada em nossa direção. Há que equacionar esses pontos todos ao mesmo tempo: o mistério da origem do corpo (e do olhar objetificante, reificante, da lente), a duração (o problema da morte) e o problema da beleza. Apresentar o seu corpo ao outro (artista ou não) como objeto de arte é o inicio de um prazer estranho de desapropriação. Não precisamos interpretar o corpo, contudo precisamos interpretar uma fotografia do corpo. Como isso é possível? Como se dá esse mistério de acréscimo? Algo completo, o corpo, ao ficar incompleto (fotografia) é acrescido de algo que não esta no modelo, ou não é pressuposto pelo corpo de outrem. Que mistérios há nessa passagem? Segundo Jeudy (2005) o modelo se esquiva de sua transfiguração como objeto de arte, visto que seu corpo já o é. Pois o corpo que adota uma imobilidade e se mostra, é visto como um objeto de arte. Na história de Pygmalião e Galatéia, a deusa não transforma um corpo vivo em estátua (objeto de arte); Pygmalião não faz de uma mulher viva um objeto de arte. Ele concebe uma estátua e ardentemente deseja que esta ganhe vida. É como no romance de Balzac, quando Poussin e seu amigo Porbus, vão contemplar o quadro do velho pintor que em toda vida havia pintado uma única tela (a figura de sua amada) nada vêem exceto manchas superpostas e um pé admirável em um canto do quadro. Ele a idealizou, cobriu sua figura e viveu com sua imagem para sempre.
Questiono-me por que o corpo tem sido o centro de tanta atenção, sendo encontrado nu, ou virtualmente nu em revistas, nos jornais, televisão, comerciais e outdoors. Por que muitos escritores, filósofos, artistas, e fotógrafos estão profundamente preocupados com esse assunto? É a urgência da vida em épocas de doenças como câncer, DSTs, genocídios, guerras civis, é também o esvaziamento da vida promovido pela tecnologia ou é um fenômeno da moda? O pensamento cartesiano binário: vida-morte, macho-fêmea, masculino-feminino, jovem-adulto, natureza-cultura, tem sido posto a prova a todo momento. Com as obras “Your body is a battleground” ou “We are not what we seem” Barbara Kruger ilustra bem esses questionamentos.




Exemplos de obras de Barbara Kruger (note a obra: Your body is a battleground)

Segundo Ewing (2000) é urgência. O corpo tem sido considerado por escritores e artistas devido a sua reestruturação por cientistas, cirurgias plásticas (reconstruções faciais, implante silicone nos seios, peitorais e glúteos), e até mesmo pela engenharia genética como a possibilidade da clonagem humana.
Desta forma eu apresento o corpo mais uma vez para questionar esses princípios de classificação sociais que em vez de incluir, excluem. Tem sido argumentado que a pornografia tem contribuído para a degradação do corpo de ambos os gêneros e que a propaganda é a glorificação de uma visão idealizada da juventude. Quero questionar, com imagens cotidianas e banais, nossos atos diários em prol de um corpo (ideal) que não existe. E para isso as imagens banais do cotidiano são úteis para mostrar que o que existe mesmo é o nosso próprio corpo e não um corpo idealizado. Não existe uma maneira de ser como o outro (ideal da publicidade) nem mesmo através da cirurgia. Somos essencialmente diferentes. Nosso pensamento geralmente é muito linear e cartesiano e descolamos do sujeito, do indivíduo suas características e as perseguimos; desta forma perseguimos objetivos inalcançáveis como ser igual a tal ou tal pessoa especialmente pela beleza e atributos físicos. Assim, através da arte, que tem o papel de rearranjar e reestruturar nosso julgamento, acomodando e fundindo tudo, desejos, conhecimento, vida e arte numa realidade só, eu questiono o “ser do humano” e sua imagem. A arte então desestabiliza ou pode desestabilizar e colocar o indivíduo (o seu eu) no centro dos processos, e que modelos são para admirar não para seguir. A arte (através da fotografia) é assim um gerador de saber, amplia o horizonte do ser humano. Promove uma espécie de transformação da visão de nosso corpo considerado comum, em criaturas de ficção radiantes de mistérios como Danto supõe para a obra de arte (Danto 2005). Roland Barthes escreveu: “Assim que me sinto olhado pela objetiva, tudo muda: eu vou logo fazendo “pose”, fabrico-me instantaneamente um outro corpo, metamorfoseio-me antecipadamente em imagem. E Jeudy (2002) conclui que o ato de fotografar faz-nos passar da crença no estado de sujeito ao estado de objeto e, nesse sentido, esse é um momento de experiência da morte. Não ser mais sujeito mas saber-se um objeto nisto consiste a morte do que era anteriormente. Assim, a transformação de sujeito em imagem fotográfica, chega-se a uma categoria estética, é ao mesmo tempo morte e recomposição da ideia de vida (Fabris, 2006, 2011). Como bem salientou Barthes (1984):
“A fotografia é um campo cerrado de forças. Quatro imaginários aí se cruzam, aí se defrontam, aí se deformam. Diante da objetiva, sou ao mesmo tempo: aquele que eu me julgo, aquele que eu gostaria que me julgassem, aquele que o fotógrafo me julga e aquele que ele se serve para exibir sua arte”.

E continua dizendo, que não é nem um sujeito nem um objeto, mas antes um sujeito que se sente tornar-se objeto, vivendo uma microexperiência de morte, tornando-se um espectro (spectru), um fantasma, tornando-se enfim um ser “Todo-Imagem”, i.e., a morte em pessoa.
A fotografia tem uma realidade própria que não corresponde necessariamente à realidade que envolveu o assunto, objeto de registro, ela pode contar uma história em apenas um fotograma ou narrar uma história em muitos “frames” (Cossoy, 2009, Cotton, 2010) é por isso que fotografo. Por ser o homem o único ser vivo (até prova em contrário) que sabe de sua finitude, de sua duração. Por ser um ser atormentado, produzimos e legamos a posteridade, por meio de processos de transformação da realidade, um acervo de visões de vida construído pelo uso das mais variadas linguagens (Humberto, 2000). Minhas fotografias tentam mostrar esse universo com ironia.



Tês cartazetes meus onde exemplifico a ironia das imagens cotidianas; e apartir dessas imagens pretendo então produzir uma série de obras questionando a imagem do corpo presente na sociedade atual.

Ora, a arte por si só é libertadora por que é conhecimento. Como diz Pereira (2000), é conhecimento sobre nós mesmos como indivíduo e, sobretudo conhecimento sobre os outros, na medida em que nos permite investigar o sentido da própria vida.
Dentro desta perspectiva faço uso da fotografia no sentido de produzir conhecimento sobre mim mesmo e sobre o outro bem como sobre o mundo que dividimos, conhecimento sobre o aqui e agora. Por transformar essas imagens banais em imagens que questionam, que zombam, que fazem rir, enfim imagens estéticas, esses momentos tem possibilidade de passar do tempo para um estado mais duradouro de mensagem. Que nos faz parar e pensar.
Para tanto, o uso a fotografia aliada elementos da publicidade, à maneira de Joseph Beuys quando desenha o torso feminino empregando um alto grau de liberdade. Fiando-se na força do que é representado de maneira a experimentar a elevação que corresponde ao caráter transitório do referente (Dresler, 2006). 




Referências Bibliográficas

BARTHES, R. A câmara clara. Rio de Janeiro, RJ, Nova Fronteira, 1984.

CRUVINEL, M. de Fátima. Leitura: sentidos trilhados no movimento. LINGUAGEM Estudos e Pesquisas, Catalão, vol. 4-5 – 2004.

CERTEAU, Michel. de. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.

COTTON, Charlotte. A fotografia como arte contemporânea. São Paulo, Ed WMF Martins Fontes, 2010.

DRESLER, W. Joseph Beuys, in the MUMOK collection. Autria, Verlag, 2006.

DUBOIS, Phelipe. O ato fotográfico. Campinas, SP. Papirus; 2011.

DANTO, Arthur C. A transfiguração do lugar comum. São Paulo, SP. Cosac Naify, 2005.

EWING, W. A. The body. London, Thames and Hudson, 2000.

FABRIS, Annatereza e KERN, M. L. B. Imagem e conhecimento. São Paulo, SP, EDUSP, 2006.

FABRIS, Annatereza. O desafio do olhar. Fotografia e artes visuais no período das vanguardas históricas Vol 1. São Paulo, SP, WMF Martins Fontes, 2011.

GREIMAS, A. J. Da imperfeição. São Paulo, Hacker Editores, 2002.

HEIDEGGER, M. Heráclito. Rio de Janeiro, Editora Relume Dumará, 2002.

JEUDY, H.P. O corpo como objeto de arte. São Paulo, Editora Estação Liberdade. 2002.

KOSSOY, Boris. Realidades e ficções na trama fotográfica. São Paulo, Ateliê Editorial, 2009.

NOVAES, A. (Org.) O desejo. São Paulo, Companhia das Letras, 2006.

_______. (Org.) O olhar. São Paulo. Companhia das Letras, 2002.

_______. (Org.) Os sentidos da paixão. Companhia das letras, 2002.

PEREIRA, L.H.M.M. Fotografia, poética do banal. São Paulo, SP, Imprensa Oficial do Estado e Editora da UNB, 2000.

SANTOS, A. e SANTOS, M. I. (Org.) A fotografia nos processos artísticos contemporâneos. Porto Alegre, Unidade Editorial da Secretaria Municipal da Cultura: Editora da UFRGS, 2004. 

SALIBA, Elias Thomé. In: http://resenhasbrasil.blogspot.com.br/2009/06/invencao-do-cotidiano.html.