domingo, 30 de agosto de 2015

A IMAGEM DO FEMININO

A IMAGEM DO FEMININO 

(Um vídeo circula na internet há algum tempo e desde que vi a primeira vez há alguns anos atrás uma ideia cruzou pela minha cabeça: e se essas imagem femininas são imagens do desejo masculino? Então decidi escrever um textinho refletindo sobre essa perspectiva).

O vídeo apesar de belo em todos os aspectos (animação, direção, escolha dos retratos música etc) mostra mais como a mulher tem sido vista por artistas homens (pintores) desde o renascimento até a arte moderna. Vejo rostos clássicos idealizados pela libido masculina, mulheres com olhar distante, ora libidinosos ora santo envolta em uma aura de graça e pureza imaculada. Usando flores nos cabelos, que são lindos, ora cacheados, ora lisos, com taras e coroas ou lenços ou véus que remetem ao céu e a distâncias empíreas celestiais. Vestidas de graça e leveza, deusas distantes da humana matéria. No entanto repousam bem no fundo de nossa imaginação ocidental greco-romana-judaico-cristã. Entronizaras em um pedestal ou sagradas como uma pedra de Ara que não se pode tocar. 
São lindas? Sim, muito lindas! Sua beleza só pode ser comparada à sua distância da realidade. 
A mulher é reduzida apenas a um aspecto de seu ser: a sua beleza (a falta dela evita ser retratada). 
E sua personalidade? Seus anseios? Sua realidade?  Sua humanidade? 
São mais de 600 anos de representação feminina pelo sujeito masculino. Depois de Leonardo nada de novo apareceu, mesmo os impressionistas que derrubaram a arte renascentista, acabaram usando os cânones antigos para representar a beleza feminina. 
Poderíamos pensar que o cubismo em suas multifacetadas, multi-angulares perspectivas, bidimensionalmente representada da humanidade, fugiria dessa tradição. Mas tudo que se vê é a mudança de posição do olho. Ou melhor é a onipresença equiângular instantânea do ponto de vista masculino de um sujeito objetificado. A visão então permanece em sua tentação solipsista que elegeu uma forma elevando-a a cânone único de representação da figura feminina. 
Nem mesmo com a invenção da fotografia, (que é a captura das aparências de uma "coisa" por uma máquina) com seu viés de registro, de índice, de impressão,  foi capaz de sustentar uma visão honesta do feminino ser. Logo voltamos para aquela via artificial e convencional que através de softwares editores de imagens nos dão a visão idealista do feminino. Uma visão agora digital e isenta de todo referencial físico. Todavia, a mecanização, o registro, a impressão, são fatores de verdade apenas em virtude da crença moderna que deseja que a verdade cresça à medida que diminua a cota do homem na imagem (Rouillé, 2005). 
A imagem tornou-se um código (binário) de representação, não evocando mais um corpo é agora pura energia a percorrer o espaço tempo de nossa existência. Existência que se torna mais e mais precária pelo afastamento do referencial, do referente, do corpo real, do humano. 


Bibliografia 
ROUILLÉ, A. A fotografia entre documento e arte contemporânea. São Paulo, SENAC, 2005.