quinta-feira, 2 de junho de 2011

AMOR É FOGO QUE ARDE SEM SE VER

Amor é fogo que arde sem se ver

 LUÍS VAZ DE CAMÕES 

(1524-1580)

 

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

 

 

 

LUÍS VAZ DE CAMÕES (1524 - 1580)

Eu cantarei de amor tão docemente



Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns têrmos em si tão concertados,
Que dois mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.

Farei que amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia e pena ausente.

Também, Senhora, do desprêzo honesto
De vossa vista branda e rigorosa,
Contentar-me-ei dizendo a menor parte.

Porém, para cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa,
Aqui falta saber, engenho e arte. 



  My song of Love I will so sweetly sing

 
My song of Love I will so sweetly sing,
     In such fair concord of concerted phrase,
     That twice a thousand chances Love displays
Shall breasts unmovèd with emotion wring.

I'll so do Love new Life to all shall bring,
     Limning nice secrets in a thousand ways,
     Soft angers, sighs that yearn for bygone days,
Foolhardy daring, Absence and her sting.

Yet, Ladye, of that honest open scorn
     Shown by your aspect, rigorously bland,
          I must content me saying minim part:

To sing the graces which your gest adorn,
     Your lofty composition marvel-plan'd,
          Here lack me Genius, Lere, and Poet-art.