domingo, 2 de outubro de 2011

HISTÓRIA DE DOIS QUADRADOS

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
INSTITUTO DE ARTES
ARTES VISUAIS

PROF. DR.: PAULO ANTONIO DA SILVEIRA


HISTÓRIA DE DOIS QUADRADOS
1922

EL LISSITZKY
(Lazar Markovich Lissitzky)
(1890-1941)

 Por:
ANTONIO CARLOS PAIM





HISTÓRIA DE DOIS QUADRADOS
EL LISSITZKY, 1922

O livro de Lissitzky “História de dois quadrados” publicado em 1922, possivelmente é uma exploração e uma experimentação visual no âmbito do suprematismo e do construtivismo. Na própria capa ele deixa claro sobre o que o livro trata usando três signos, ou seja, uma palavra (apnas) e dois  outros símbolos universalmente conhecidos o numeral 2 e um quadrado vermelho.
Todos esses elementos estão inscritos em um retângulo desenhado com uma linha fina e ocupa dois quintos da página. Este “retângulo título” esta delineado no retângulo que constitui a capa do livro.
A palavra (PRO) usada no título está em tamanho pequeno, a esquerda do número dois, enquanto os outros dois elementos estão em tamanho grande e ocupam praticamente todo o espaço da página, o que contribui para dar-lhe grande destaque.
A palavra PRO em russo (ПРО) significa: sobre, a cerca de, quanto à, a respeito de, e está inclinada, formando um ângulo com os outros dois elementos (o numeral DOIS e o quadrado vermelho).
Fora do quadrado onde repousam esses três elementos do título, quase como uma nota de rodapé, todavia localizada no centro, está localizada a assinatura do autor inscrita em um retângulo negro em um ângulo agudo de 45º, inclinado em direção à direita, i.e., a abertura do ângulo da assinatura esta voltada para a direita da página.
Ângulos são tidos como significando movimento e dinamismo, ao contrário da linha reta horizontal, que lembra sempre equilíbrio, quietude e calma. Essa inclinação desempenha importante papel na composição do que esta sendo mostrado na imagem, que embora abstrata, representa uma sentença inteligível.
O livro foi escrito PARA TODAS AS CRIANÇAS como está expressamente referido na segunda página. Aqui ele usou uma enorme letra P, (R latino) inclinado ou enviesado, para salientar esse efeito de som no espaço, precedida por PARA TODAS, PARA TODAS em ângulo com a palavra CRIANÇAS, como se fosse um eco reverberando no espaço e no tempo. Devemos lembrar que nessa época o rádio estava iniciando sua história e já nesta época se usava representar o som saindo em ângulo, ou inclinado, enviesado, do auto-falante, i.e., espalhando-se para todos os lados a partir de um ponto, invadindo o espaço. Desta forma ele escolheu apresentar o aspecto do som através de sua representação no espaço tridimensional como um ângulo das palavras, desta forma presentificando o som pela visão1. Lembremo-nos que quando mais distante da fonte da qual o som emana mais fraco é o som. Talvez por isso a representação em ângulo, como se as palavras se afastassem da fonte que as produziu.

“…Since, he wrote, "the words on the printed page are learnt by sight, not by hearing," he chose number and image on the cover, and only used a word1.”

Além disso, a história toda fora produzida EM SEIS CONSTRUÇÕES. Seguindo-se um pouco mais adiante lê-se o seguinte aviso: 

NÃO LEIA, (ESTE LIVRO) PEGUE

PAPEL.......................................................... DOBRE
LÁPIS.............................................................PINTE
BLOCOS DE MADEIRA............................ CONSTRUA.

Nessa sentença a linha que une as palavras, ziguezagueia seguindo o percurso que o olho faria em um texto ocidental normal impresso numa página. Fica claro aqui que ele esta se referindo ao livro como um todo, e acrescenta a sentença “não leia esse livro”. Ele não fora feito para ser lido...
Aqui nos deparamos com a filosofia de Lissitzky, segundo a qual devemos passar (pular) do mundo do papel bidimensional (da representação), para o mundo real tri e quadrimensional; i.e., passar da leitura passiva, às ações no mundo real.

“…It is the leap from passive reading to active construction, from the two-dimensional paper world to the three and four-dimensional real world1”.

Na página seguinte os protagonistas são apresentados: AQUI ESTÃO DOIS QUADRADOS. Acima dessa frase e dentro de um retângulo estão presentes dois quadrados um vermelho e um preto. O quadrado preto no canto superior esquerdo e o quadrado vermelho logo a baixo de forma inclinada ou em ângulo, deixando evidenciado seu dinamismo e movimento.
El Lissitzky escolheu cuidadosamente as cores, especialmente a cor vermelha que contrasta com o preto e os cinzas das figuras terrenas.
Na página seguinte o texto diz: VOANDO PARA A TERRA (VINDOS) DE LONGE. Nessa página vemos os dois quadrados no canto superior direito, ambos inclinados em direção a Terra (círculo vermelho), no canto inferior esquerdo. Poderia se especular sobre o porquê de a Terra ser representada no canto inferior esquerdo da página; seria devido ao seu peso ou densidade? Ou seriam as formas orgânicas, incluindo o círculo, formas representativas da arte passada? Não devemos nos esquecer que El Lissitzky fora aluno de Kasimir Malievitch (1878-1935) para quem o quadrado que nunca se encontra na natureza, era o elemento suprematista básico e era também o fecundador de todas as outras formas suprematistas (Stangos, 2000).  Sobre a Terra descansam figuras arquitetônicas como cubos, paralelepípedos, partes de toros, bem como troncos de pirâmides e trapézios, numa disposição aparentemente caótica sem nenhuma organização seja pelo tamanho, tipo ou perspectiva.

A sentença VOANDO PARA A TERRA esta inclinada no centro da base da página (rodapé). E a sentença DE LONGE esta escrito em caracteres pequenos abaixo de uma linha horizontal. E no canto inferior direito uma única vogal, E, significando o som e ela aponta para a próxima página. Aqui novamente o Lissitzky usa um recurso atualmente muito explorado em HQs (história em quadrinhos) na qual as palavras servem como elementos sinalizadores, apontando para onde o olho deve olhar, e para onde o pensamento deve seguir.  
Com relação ao uso da palavra impressa o próprio Lissitzky acredita que as palavras apresentam duas dimensões. Como som e como representação. Como som são função do tempo e como representação elas são função do espaço1. E que no livro em questão as palavras deveriam ter ambas as dimensões (ou seja como som e representação).

“…Lissitzky wrote at about this time, "Today we have two dimensions for the word. As a sound it is a function of time, and as a representation it is a function of space. The coming book must be both.1…”

El Lissitzky acreditava que o artista podia servir como agente de mudança na sociedade2 e ele mesmo, pode então trabalhar para efetivar essa sua crença (visão) com toda força e criatividade especialmente no que se refere às artes gráficas.
Na página seguinte: a sentença E ELES VEEM está escrito próximo a uma linha vertical e outra horizontal, como se o olho varresse a cena para cima e para baixo, horizontal e verticalmente o mundo. Já a sentença: DESORDEM ALARMANTE está enviesada (inclinada, em ângulo) no canto inferior esquerdo da página, o que ao meu ver significa que essa desordem dinâmica perpetua-se ao infinito no tempo e no espaço, levando-nos a crer que é necessário a intervenção de uma força externa para que o mundo e as sociedade se organizem. 
As figuras brancas e pretas de blocos angulares e retangulares formam uma miscelânea; todas distribuídas sem uma perspectiva ou projeção uniforme, e todas elas parecem flutuar num espaço sem gravidade. É caótico e perturbador porque o olho não consegue organizar a cena logicamente, pois as figuras apresentam áreas iluminadas e sombreadas sem nenhuma lógica ou ordem humana. Na seqüência, os quadrados (vermelho e negro) com seus lados agudos (vértices) caem sobre os objetos brancos e negros desse mundo desorganizado e caótico espalhando-os em todas as direções. É um choque entre duas potências: as potências terrenas e as potências lógicas, fecundadoras (o quadrado), (i.e., a força do povo? da revolução?)
Esse impacto parece ter produzido um tipo de ordem que reinava na desordem a que está submetido esse mundo (o círculo vermelho), e desta forma os objetos são agrupados de acordo com seu tamanho e forma. Além disso, eles são dispostos segundo uma perspectiva racional, não caótica, assemelhando-se a prédios em uma cidade grande, assentados todos sobre o quadrado negro. No meio da composição existe um pequeno triângulo negro que aponta pra cima. O que estaria representando esse triângulo pequeno no topo da composição? Podemos apenas especular o porquê de Lissitzky ter escolhido usar essa figura arquetípica nesse momento. O quadrado negro se afasta (inclinado) em direção ao canto superior direito. E sobre a nova ordem paira o quadrado vermelho. Abaixo deste, as figuras-objetos vermelhas, negras e brancas, agora organizadas atravessam arcos com diferentes gradações de "cores" (cinza) desde a mais densa até à menos densa o que provavelmente para Lissitzky seriam as eras futuras pelas quais o mundo agora organizado atravessaria. Ele sabia que depois da síntese sobrevem novamente uma outra análise. 
Essa descrição preliminar visa ressaltar a característica inovadora do design do livro de Lissitzky, mostrando um repertório totalmente novo e avançado para o tempo em que foi concebido.
Em resumo o livro conta a história de dois quadrados. Nessa história, as “formas elementares são convertidas pelo contexto em configurações representacionais. Dois quadrados, um preto e outro vermelho, movem-se rapidamente em direção a um círculo vermelho (a representação da Terra). Neste círculo vermelho descansam um conjunto arquitetônico composto de cubos e retângulos, numa disposição aparentemente caótica sem nenhuma organização seja pelo tamanho ou tipo. O que é salientado pelas figuras que repousam na “Terra” e que estão em total desalinho. Ambos os quadrados colidem com essa massa caótica de objetos em total confusão (rude indigestaque molesa). Dessa colisão surge uma nova ordem. Agora as figuras totalmente alinhadas e em perspectiva atravessam eras de organização e equilíbrio sendo supervisionadas pelo quadrado vermelho que flutua sobre as novas figuras vermelhas e negras desse novo mundo. Não se pode deixar de salientar o viés político dessa obra e provavelmente assim como todas as outras produzidas nesse período da historia na Europa. Todavia a linguagem visual de Lissitizky teve um enorme valor durante todo o século XX e provavelmente até nossos dias3, 4. Alguns até mesmo especulam que essa obra de Lissitzky seria um “romance científico” uma alegoria da quarta dimensão e seu efeito sobre nosso mundo tridimensional5. Provavelmente essa obra contenha elementos que apóiam essa interpretação, pois Lissitzky tinha conhecimento dos debates sobre a quarta dimensão e suas supostas características. Em minha singela visão essa obra é a “magnum opus” de Lissitizk, na qual ele cuidadosamente escolheu as figuras geométricas e as palavras e as dispôs para construir uma cena com uma mensagem complexa porém inteligível e de alcance político-social, o que é evidenciado pela sentença já no inicio do livro onde ele afirma que esse livro é para todas as crianças.
Desta forma, segundo Meggs e Purvis (2009), pode-se aceitar a ideia que, quem melhor e mais completamente realizou o ideal construtivista-suprematista foi El Lissitzky e com isso influenciou profundamente o curso do design gráfico no século XX.


REFERÊNCIAS

Dicionário Oxford de Arte São Paulo, Martins Fontes. (2001).

Stangos, Nikos. Conceitos da arte moderna. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor. (2000).

Meggs, P. and Purvis, A. W. História do design grafico. São Paulo, Cosac & Naify. (2002)

Internet:








a) Rudis indigestaque molis: “massa confusa e informe” é como Ovídio (Metamorfoses I), descreve a matéria caótica.

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