sexta-feira, 15 de março de 2013

"URDINDO-SE DA LUZ DANÇADA PELO ANJO..." (Haroldo de Campos)
















CROMOMUSEU - MARGS













MARGS, março de 2013
Como sempre vou periodicamente ao MARGS (Museu de Arte do Rio Grande do Sul, aqui em Porto Alegre. Nesta última vez como sempre gostei de quase tudo, todavia, a montagem foi mais um devaneio do curador do que propriamente colocar em relevo a produção de artistas do acervo que são consagrados ou mesmo os jovens. Todos ficam distantes e perdidos na profusão de cores com as quais as paredes foram pintadas. Se observarem bem em algumas fotos da para ver essa explosão colorida que dilui e afasta o olhar das obras que deveriam estar em destaque. 
Entretanto eu ressalto um aspeco relevante da curadoria: a colocação justaposta de artistas distantes no tempo e nas técnicas e temas abordados mas que de certa maneira me levou (e pode levar o expectador-fruidor) a fazer analogias através da aproximação de obras dispares. Pelo menos em mim despertou uma cascata de ideias interessantes. 
Contudo devo salientar que a proposta do curador foi mesmo esta "a cor no museu" CROMOMUSEU, o recorte feito abrange desde o sec. XIX até hoje (223 obras de 147 artistas). Lógico que a cor altera grande parte da percepção que temos do ambiente. Qualquer pessoa um pouco instruida ou que tenha uma educação formal e/ou autodidatica, percebe a presença ubíqua da cor. Claro que saber o que seja cor, de que é feita a cor, como ela chega ao nosso raciocínio e juízo e se mistura ao nosso próprio ser é um tanto mais complexo. Entretanto a curadoria tentou levar a essa percepção o observador incauto... incauto por chegar e ser bombardeado por uma saraivada projéteis de cor como num campo de "paintball" onde o inimigo mira em voce com uma arma de esferas cheias de tinta, cada jogador tem uma arma que dispara uma esfera plastica cheia de tinta que explode ao impacto com o corpo do adversário. É quase uma noite de fogos de artificio com cada fogo durando o tempo de nossa atenção àquela obra. Mas com uma luz estroboscópica piscando em todas cores no fundo impedindo de que se fique mais tempo considerando cada explosão de cor, cada bolinha de "paintball" que explode na nossa retina. 
Cromomuseu atrai pelos nomes que disparam as esferas de tinta no jogo de "paintball" e pela cor de casa fogo de artificio, mas é muita informação em todos os sentidos, sobrecarrega, e portanto pode anestesiar nosso sentido estético...
A área rica em cones no olho (a Fóvea) responsável pela visão das cores pode saturar-se com tamanha explosão de cores.
Em vez de provocar a estesia do olhar esse "big cromum",  neutraliza o nervo ótico, e a Áreas de associação visual (que processa a informação visual complexa) e o Córtex visual (região que detecta estímulos visuais simples). Mas como tudo tem seu lado bom, a informação esta lá. Deve se ir muitas vezes para retirar de cada aproximação um sentimento e um sentido. Como um voo em direção ao céu hiperurânia (ύπερουράνοσ τόποσ), toda vez que morremos (segundo Platão) chegamos mais perto de onde moram as verdadeiras essências, as ideias: εἶδος (eidos) e ἰδέα (ideia), as formas (μορφή (morphē) que, em cuja imagem se espelham os objetos compostos deste mundo. Assim, pela intervenção do curador podemos refletir, pensar, divagar e conhecer mais um pouco sobre a cor (e cores), embora sejamos nocauteados pela avalanche de cor que se precipita sobre nosso olho ao primeiro passo dentro das galerias do museu.