quarta-feira, 4 de março de 2015

FLUXO DE IMAGENS


1 A fonte 

Quando fecho os olhos 
Em minha lembrança 
Surgem milhares de imagens 
Como uma fonte que logo se transformam em um poço 
Um lago 
Brotam como um olho d'Água brota entre as pedras e areia
Imagens de corpos
De corpos sobrepostos 
De partes de pessoas e seres 
Que desaparecem
Que apontam
Que olham para lugar algum 
Para Lugar nenhum 
Olham para (um) infinito
Olham para dentro de si mesmos
Seres que andam 
Que se vão 
Sem olhar para trás 
Sem querer voltar
Vão para o esquecimento 
Sem destinos 
Sem passados ou futuros 
Apenas um breve momento de existência 
Seres parados figuras estáticas que querem movimento, mover-se, sair de onde estão 
Sair de onde são. 
Imagens de xícaras de cafés sobre as mesas aconchegantes de um bar
Drapeados que parcialmente cobrem uma figura e desaparecem entre uma colunata banhada por uma luz pálida e lânguida de um amanhecer de um céu de outono. 
Mãos que buscam, partes íntimas 
Calor latente pulsações sistólicas 
Olhos que miram longe sem nada apreender 
Janelas abertas para o céu sem estrelas, sem luz. Sem nem sequer saber o que foi, é ou será um instante de amor. 
Desaparecem sobrem camadas de rochas e fósseis duros que um dia também desaparecerão sem vestígios. 
Camas vazias esperançosas um coração que em um flash revela atrás de si um bosque de árvores sem folhas envolto em neblina
Uma folha cordiforme amarelada que caiu
Um pixel um reticulado que se esvai rumo a abstração deixando em suspense um sentido 
Um significado perdido 
Não consigo fechar os olhos sem ver
Imagens de olhos que me olham 
Sou eu mesmo que me vejo nelas 
Dentes e arcadas dentárias que parecem falar 
Epiderme e ossos, órbitas-janelas-Almas 
Rostos desconhecidos 
Lábios e pernas 
Mamilos 
Umbigo 
Pelos...
Como um círio pascal que queima incessantemente derretendo-se em formas que se acumulam e se agigantam 
Mudam, se misturam, se acumulam 
Camadas sobre camadas...
Segredos 
Imagens de microscópios eletrônicos que magnificam o ínfimo o invisível o não-dito que existe para logo em seguida deixar de ser... Sem ser nomeado 
Sou eu que presentifica o mundo em imagens sou eu que que as cantam 
Que as realizam, musa sem vóz que tange instrumentos surdos, musa sem habilidades, sem nome. 
Dores que vem como espinhos enormes, uma floresta deles 
onde não há lugar nem para o olhar descansar. Tudo doi. Tudo foi. Tudo se afasta
Uma dor que aumenta 
E que não tem fim. 
Substâncias químicas que parecem centopéias, fosfolipidios cnidarios ácidos fosfóricos escadas caracóis espirais sem fim, tentáculos... Todos desaparecem uns sobre os outros como em um buraco negro obscuro em um céu de estrelas feitas de escuridão. Matéria escura ignota e oculta
Teias de aranhas que vibram dentro dos núcleos dos átomos 
Lembranças de sons de folhas secas 
E do perfume dos brotos das folhas dos plátanos molhados pela chuva
E o vento que sopra e se acalma 
E aquela luz indireta da lua como o olhar de corujas que enxergam distante tão longe que desaparecem de tão sábias. Viram tudo pois viram o Nada. Seus corpos foram tocados pelo nada inaugural de onde tudo se fez.  


2 De lágrimas 

Dizem que Deus está na chuva, minha vó dizia, e que seu estivesse triste era para eu chorar na chuva pois ninguém veria minhas lágrimas... E minhas lágrimas comoveriam a Deus pois elas gostaria pois elas se misturariam a Ele e tudo ficaria bem. 
Hoje fecho os olhos e vejo que nunca os abri realmente... Não para ver o mundo, o amor, a amizade... 
O mundo me manteve encarcerado neste calabouço. 
Neguei toda forma de humanidade que existia em mim. 
Esqueci de como eu via as imagens se formando 
E como eram fortes e desejadas. 
A fonte está lá 
De tristeza e dor 
Mas são águas salgadas ...



(4/III/2015)