segunda-feira, 12 de outubro de 2015

PAISAGEM CONHECIDA


A palavra é o caminho
A palavra é tudo o que tenho 
Gosto de estar com pessoas
Gosto de contar histórias 
Gosto deste lugar de verão, de encontros, de proximidades
Gosto do passado sobretudo do passado acompanhado...
Gosto de ensinar  e aprender ouvindo, vendo. 
Gosto de falar.
Entretanto, hoje, ninguém quer ouvir 
Me sinto então, a margem do mundo;
Como na margem de um grande rio onde todos partem...
Onde todos passam... Uma curva 
Uma paisagem conhecida 
Passam e eu fico só 
Justo agora quando o mundo parece gozar de uma certa liberdade 
E todos poderem fazer algo e expressar seu sentimentos.
Eu estou aqui preso nesta cela solitária. 
A palavra é um lugar 
É um caminho 
Para algum lugar 
Para corações. 
Para lugar algum. 
Já não tenho mais...


terça-feira, 29 de setembro de 2015

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

HAROLDO DE CAMPOS

CANTICUM CANTICORUM 

HAROLDO DE CAMPOS
(Texto de Aroldo de Campos, publicado na biblioteca da Folha). 

Desses versos, ato contínuo, migrei para o "Céu Quarto" do "Paraíso" (12, 139-141), onde são louvados Rábano Mauro, 780-ca.856 ("Rabano è qui"/ "Rábano está aqui"), e Joaquim da Fiore, 1130-1210 ("e lucemi dal lato/ il calavrese abate Giovecchino/ di spirito profetico dotato" - "e ao meu lado reluz/ o calábrico Abade Giovacchino/ de espírito profético dotado). O primeiro, Abade de Fulda, ficou célebre por seus "poemas figurados" ("De laudibus sanctae Crucis"), poemas "cruciformes", em cores, com figuras superpostas a letras (há belos exemplos desses "carmina figurata" no catálogo "Poésure et Peintrie", da soberba exposição de poesia visual realizada em Marselha, em 1993, no Centre da la Vieille Charité; um ensaio do saudoso Paul Zumthor, publicado no nº 4 da revista "Change", 1969, "Carmina Figurata: Une Mode Carolingienne" é a melhor introdução sobre o assunto). O segundo é famoso por suas obras teológico-visionárias, entre as quais o "Liber Figurarum", no qual representa a "Árvore da História Humana". Na concepção joaquinita, a cada uma das pessoas da Santíssima Trindade correspondia uma época histórica: a Idade do Pai (de Adão à vinda de Cristo); a do Filho (que o monge calabrês imaginava prestes a se concluir nos anos em que escrevia); a do Espírito Santo, ou Idade da Concórdia, a era futura da Revelação da Verdade e da Paz escatológica.

Desse "Libro delle Figure", possuo uma preciosa edição, em dois volumes, presente magnífico do engenheiro-poeta Erthos Albino de Sousa. Leone Tondelli, organizador da publicação (Società Editrice Internazionale, Turim, 1953), é também autor de um erudito ensaio que constitui o volume explicativo da obra. Nele, examina as origens do "Liber Figurarum" e a sua difusão medieval até Dante. O poeta da "Commedia" exibe vários traços da recepção das idéias do visionário teólogo, cujo radicalismo "trinitarista"foi rejeitado pelo Concílio de Latrão (1215), mas cuja influência pervive, de modo mitigado, em São Boaventura, "Doctor Seraphicus", máximo expoente da chamada "escola franciscana", que introduz Giovacchino a Dante no "Paraíso" (12, 127-141).

Um desses traços joaquinitas é a famosa transformação em água do último "M" da inscrição "Diligite justitiam/ qui judicatis terram" ("Amai a justiça, ó vós que julgais/governais a terra). Essa metamorfose é operada diante dos olhos do magno poeta pela circunvolução das almas dos justos, como se fosse "um grandioso e luminoso quadro ginástico" (Tondelli). Para formar o pescoço ("collo") dessa Águia Imperial, gótico-heráldica (o "M" aquilino é também uma inicial simbólica da Monarquia terrena), desenhada pelas "criaturas santas envoltas em luz" ("dentro ai lumi sante creature, "Paraíso", 13, 76-114), as "beatitudes se deixam "enliriar, ou seja, "amoldar em forma de lírio", "ingigliarsi", como diz Dante, forjando um de seus audaciosos neologismos verbais, enriquecedores do tesouro léxico italiano.

Pois bem, essa transfiguração, que se processa nos versos dantescos, teria sido diretamente inspirada num códice do "Liber Figurarum" pertencente ao Seminário Bispal Urbano de Reggio Emilia (ou noutro, similar, hoje na biblioteca do Corpus Christi College, da Universidade de Oxford). Esse códice contém magníficas figuras e gráficos em cores. As tábuas que o compõem são ricamente ornadas com técnicas de iluminura. As de nºs 5 e 6, por exemplo, representam "águias enliriadas" ou "formadas por lírios", como o "M" metamórfico dantesco. Pois, "Dante não copia a natureza, mas uma imagem estilizada; ou, sem mais: traduz no verso a figura do códice iluminado (Tondelli).

De Kircher a Cortázar

O "Mutus Liber" mostrou-se-me filiável, nesse sobrevôo aventuroso de minha memória icônica, a uma tradição ilustre de escrita pictural, da qual o "Liber Figurarum" joaquinita é apenas um exemplo. Outros muitos se poderiam mencionar, como "Oedipus Aegyptiacus" (1652-1654), do jesuíta Athanasius Kircher (1602-1680), com seus diagramas místicos, suas cartas herméticas e suas pranchas alegóricas, obra variamente abeberada "na sabedoria egípcia, na teologia fenícia, na astrologia caldéia, na cabala hebraica, na magia persa, na matemática pitagórica, na teosofia grega, na alquimia árabe e na filologia latina (Joscely Godwin, "Athanasius Kircher: A Renaissance Man and the Quest for Lost Knowledge", 1979). No cólofon desse tratado, a figura de Harpócrates (versão grega do Horus infantil, o deus-sol egípcio) aparece com um dedo sobre os lábios, como a pedir silêncio aos que fossem capazes de entender sua sigilosa mensagem.

O pensamento de Kircher, como aponta Octavio Paz ("Sor Juana Inés de la Cruz o Las Trampas de la Fe", 1982), exerceu, por seu turno, influência sobre Sor Juana, a monja-poeta mexicana (1651-1695). Em especial sobre "Primero Sueño", poema filosófico-alegórico, onde, entre outras imagens emblemáticas, ocorre a de duas pirâmides antagônicas: uma de sombra (representando o mundo sublunar), outra de luz (representando a região celeste). No frontispício da "Sphynx Mystagoga", de Kircher, vê-se uma figuração "barroca" das pirâmides do Egito, na expressão de J. Godwin). O "Primeiro Sueño" parece inspirar-se na "viagem astronômica" do jesuíta alemão (Karl Vossler "via Paz"), ou seja, no "Itinerarium Extaticum" ou "Inter "(Roma, 1656; Würzburg, 1660 e 1671).

Sor Juana alegoriza no poema a ascenção de alma à "esfera superior", onde é ofuscada por uma visão luminosa; enceguecida, não consegue mais se elevar e o corpo desperta. Isso --explica Paz--, durante o sono (e em sonho), ou seja, num "estado próximo da morte", equivalente à "morte provisória do corpo e à liberação também provisória da alma". Sem temer as censuras de "anacronismo" dos custódios estritos da "leitura de época", limitada ao horizonte de recepção do público do tempo, Octavio Paz vê no magno poema de Sor Juana, para além dos traços estilísticos de Gôngora, uma antecipação do "Coup de Dés" (1897), de Mallarmé, e do "Altazor" (1931), aeroépica do chileno Vicente Huidobro.

A grande obra

Aliás, também na imaginação de outros escritores latino-americanos inscreve-se a miragem mallarmaica da Grande Obra --"L'Oeuvre", da qual o "Lance de Dados" seria apenas um esboço: algo como uma Enciclopédia do Verbo, ao mesmo tempo o espelho do mundo e a sua decifração, manipulada combinatoriamente por um poeta-"operador", que tem traços do Adepto alquímico (ver meu ensaio "A Arte no Horizonte do Provável", no livro do mesmo nome, em especial as referências a J. Scherer, "Le Livre de Mallarmé", 1957). Refiro-me agora a Morelli, o Mallarmé cortazariano em "Rayuela" (1963): "Mi libro se puede leer como a uno le dé la gana. 'Liber Fulguralis', hojas mánticas...". Ou então a Oppiano Licario e à sua "Súmula", Nunca Infusa, de Excepciones Morfológicas", "curso délfico" que permitirá aos discípulos (Cemi e Fronesis) "interpretar a significação do tempo, ou seja, a penetração tão lenta como fulgurante do homem na imagem".

Estou-me reportando a "Paradiso"(1966), do cubano Lezama Lima, e ao seu complemento inacabado, "Oppiano Licario" (1977). O "dom icárico", a única obra de Oppiano, a "Súmula, um manuscrito de cerca de 200 páginas, tendo no centro um poema de oito ou nove páginas, era "o Livro, o Espelho, a Chave". Guardado numa caixa chinesa, acaba sendo destruído por um cão, que, ao tentar refugiar-se de uma enchente, salta na mesa onde está a caixa, abre-a a dentadas e dispersa as folhas na água. Resta apenas o poema. Mas os discípulos devem refazer a festa licárica e reconstruir o "Livro Sagrado", alcançar a união no "Eros estelar", a iluminação. Testamento de Lezama, morto em 1976, seu inconcluso "Oppiano Licario", como a "Súmula Nunca Infusa", que, ao se perder, desemboca no "vazio primordial, se sacraliza", termina em aberto, metáfora enigmática de si mesmo...

Aurora Consurgens

Venho seguindo até aqui, nessa minha leitura personalíssima do "Mutus Liber", uma indicação alternativa de seu erudito comentador, J.J. de Carvalho: leio esse livro ("história do Ser Só que finalmente se encontra com Aquilo Que É Só", ou, ainda, "história da conjunção, da caminhada a dois em busca da integração total"), como uma "obra de ficção". Uma obra intrigante, cujo "anônimo autor buscou reconciliar a produção de significantes estéticos --expressões, portanto, do exercício da livre imaginação-- com símbolos arcanos, inevitavelmente submetidos ao controle de uma tradição iniciática". No caso, é a vertente estética, sobretudo, a que me fala ao olho prazeroso da mente.

E daqui volto ao ponto de partida. Marie-Louise von Franz, que estudou e traduziu o texto alquímico "Aurora Consurgens", considera-o "uma experiência religiosa imediata do inconsciente". Parece-lhe que o enigmático escrito, gravitando em torno da morte, registra, antes de mais nada, o sonho de um moribundo, no qual o passamento, o transe final, é descrito como um casamento místico. Adotando o pressuposto da inadmissibilidade de sua atribuição a São Tomás de Aquino, acaba, no entanto, por referir e comentar longamente uma lenda biográfica, segundo a qual o teólogo, pouco antes de morrer, teria tido crises místicas e visionárias, testemunhadas por seu secretário, Reginaldo de Piperno. Depois duma delas, teria declarado que não podia prosseguir escrevendo, já que seus escritos lhe pareciam "palha" (palea sunt).

Hóspede, pouco tempo mais tarde, dos monges do convento de Santa Maria di Fossa Nuova, o Aquinata, a pedido deles, ter-lhes-ia ministrado um seminário sobre o "Cântico dos Cânticos. "No meio da aula, quando interpretava as palavras 'Vem, meu bem-amado, saiamos para o campo!' ('Veni, dilecte mi, egrediamus in agrum!'), ele morreu". Para M.L. von Franz, o texto "Aurora Consurgens" --"um mosaico, um quebra-cabeças, de citações extraídas da 'Bíblia' e de alguns dos primeiros escritos alquímicos-- seria, em substância, uma paráfrase do "Canticum Canticorum", por muitos séculos atribuído a Salomão, o Rei-Sábio (hoje essa "ficção de autoria" está desfeita; o "Shir Hashshirim", escrito em hebraico tardio por um anônimo, não pode remontar ao reinado salomônico, devendo ser datado de algum momento entre os séculos 5 e 6 antes de nossa era).

E quanto ao projeto de Umberto Eco? Não sei, sinceramente, que fim levou. Há cerca de três anos, em Milão, fiz-lhe uma indagação a esse respeito. Respondeu-me, vagamente, que, dos destinatários de sua carta-convite, pouquíssimos se sentiram estimulados a prestar-lhe colaboração; só a minha lhe chegara com presteza. Mudou de assunto, evasivo. Tenho-me perguntado, desde então, se o amigo Umberto não estará, secretamente, com base nessa "Aurora Consurgente", urdindo uma nova teia fabular, para um outro aliciante e engenhoso relato romanesco, da família de "O Nome da Rosa", "O Pêndulo de Foucault" ou "A Ilha do Dia Anterior". Neste último, aliás, não deixou expresso, em cólofon, que "não se pode escrever senão fazendo um palimpsesto de um manuscrito encontrado" (cito-o no traslado de seu prestimoso turgimão brasileiro, Marco Lucchesi)? O tempo o dirá.

Haroldo de Campos é poeta, ensaísta e tradutor de poesia. 

Fonte







A ARTE DE COOPERAR


ARTE DE COOPERAR

Hoje não há mais cooperação entre os artistas...
O que há são indivíduos isolados e um deserto entre artistas ilhas. 
Há algum tempo atrás (até digamos a década de 1980) existia um grande e continuo diálogo entre os artistas. Existia até cooperação na execução das obras. Ninguém sentia-se invadido ou melindrado por um amigo fazer ou auxiliar na execução de uma obra.   
Neste diálogo tudo era discutido, investigado. 
Discutiam sobre tudo do mundo, principalmente sobre a arte, seu papel e especialmente sobre o trabalho de cada um. 
Esta época foi muito importante para a produção de uma arte com sintomas universais e universalizante. Essas discussões desembocaram na época dos curadores, onde são eles que contam histórias a partir de acervos que eles investigam, discutem e mostram.  
O papel do artista ficou relegado ao de mero produtor de algo, de um objeto, um bem. 
Hoje vemos a cooptação da arte pelas grandes empresas e empresários milionários. 
Nós os artistas cedemos nossa liberdade de pensar o mudo coletivamente a outros, fazendo arte disfarçada com um arremedo de estética universal. 
Pensar é difícil e muitas vezes revela o sofrimento que vivemos. 
Nada justifica essa perda de momentos de aprendizado e aprofundamento em torno do objeto e da produção artística por parte dos artistas. É como se tivéssemos assinado uma carta não de alforria mas de escravidão perante o mercado como testemunho.
O que devemos fazer para retomar o campo das discussões em torno do fazer artístico? 
O que se espera de animais falantes é a discussão com os pares. 
Organizar pequenos grupos afins que queiram voltar a discutir a arte e que desenvolvem-se como indivíduos. Discussões  esteticamente guiadas e criticamente embasadas. 
Essa atitude humilde de que não sou dono da verdade, de que o outro pode contribuir para o enriquecimento da ideia inicial e da proposta estética do trabalho. 
ACPAIM. 

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

AQUI ESTOU...


Eis-me aqui
Inexpugnável, terrível e sublime matéria-onipresente. 
Quero deixar aqui, ante vós, em teu alter, meu quinhão de matéria.
Gostei muito de usá-la !
Fui ha muitos lugares que queria que todos os humanos vissem... Lugares simples que supunha universais. 
Senti todos os sentimentos, e os que mais deixaram marcas em minha memória foram os sentimentos amorosos e afetivos, abstratos em essência. 
Dei graças por todos os 18.250 nasceres do sol 
E todos os dias encontrei vontade para acordar e sair da cama. 
Fiz muitas pessoas sorrirem e acredito que nunca fiz ninguém chorar por algum ato ou gesto meu, embora eu tenha chorado por muitas pessoas as quais amei. Mas isso foram as flores da vida. Embora eu tenha visto um deserto durante toda vida eu me esforcei até meu último átomo para criar nesse deserto um oásis, um campo vicejante com flores perfumadas e árvores verdes frondosas, insetos, aranhas, tatuzinhos-de-jardim, formigas, abelhas atarefadas. 
Quero deixar aqui essa matéria, que alguém, algum dia irá usar. 
Quero entregar essa matéria que ascendeu muitas fogueiras no passado, vendo as fagulhas subirem para o infinito. Fogueiras que iluminaram e aqueceram. 
Fogueiras geradoras de proximidades. 
Matéria que apertou muitas mãos 
Que ajoelhou, que meditou, que chorou, que perdeu, que encontrou, e perdeu para sempre, restando só a lembrança daqueles momentos...
Entrego essa matéria, para estar no teu seio e nunca mais partir. 
Para todo sempre estarei colado nesse torrão cujo orbe eu tanto amei. 
Estarei eternamente vendo o desenrolar da nossa história como matéria física e biológica. 
Asseguro que nenhuma outra porção física deste mundo sentiu o perfume dos lírios e de todas as outras flores na primavera e ficou tão feliz por poder ser um com o próprio perfume que também é feito de átomos. Ou que encontrou cores em todos os olhares. Muitas  vezes o meu próprio eu se perdeu nas nuances eletromagnéticas dos entes. 
Entrego essa matéria que respirou, andou, correu, nadou, desejou, estudou, que almejou amor, e que conheceu o amor como o meu mais estimado filósofo, que na origem mesmo do "nosso" pensamento disse "Physis kryptesthai philein"  (φύςις κρύπτεσθαι φιλει) [o] "surgimento favorece o encobrimento" embora Platão tenha separado "ser" e "aparência", para Heráclito "aparecer" é a forma constitutiva da presença, é o modo como o ser se dá. Ele se dá no encobrimento. No dia mesmo de minha concepção eu adentrei ao encobrimento, entrando e estando para sempre na physis que "é".
Aqui está minha parte matéria que adentra ao encobrimento, como o sol que declina (se põe) no mar ou atrás das montanhas. 
Como dizem as equações quânticas antes do surgimento da matéria não existia nem mesmo o tempo e por isso não haveria tempo nem espaço para a ação de "entes". Logo, eu entrego aqui a minha matéria de volta ao universo. Agradecido por cada momento que vivi. 
Entrego este "quanta, esse mol" de matéria sei que minhas irmãs as bactérias, que estudei e amei tão profundamente, serão as primeiras, fico feliz por entregar a elas, esta minúscula porção de matéria, já usada; a elas que foram as primeiras a chegar nesta Terra. 
Entrega minha matéria ao fogo que foi o primeiro a existir. Ele mesmo dando a luz a novas formas de existência e servindo de modelo físico e simbólico para nossa subsistência na terra. Entrego ao fogo que cria destruindo e destrói criando. 
Aqui está a porção que eu usei todos esses dias. 

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

PEQUENA E RESUMIDA BIOGRAFIA


Esta é a única e resumida biografia que escreverei
Sei que não durarei muito tempo. 
Essa vida é curta para todos os sonhos, desejos e aspirações. 
Nasci no mês de junho no inverno de 1965. Não lembro muito dos meus primeiros anos, apenas alguns fatos que mais parecem retalhos unidos a um longo tecido branco. O que forma uma colcha com umas manchas, um deserto com alguns oásis distantes. 
Mais parece um palimpsesto que foi raspado e sobre o que havia antes fora reescrito e desenhado uma outra história tentando corrigir a antiga. 
Logo após meu nascimento fui para casa com meus pais. Minha avó paterna e meu pai sempre moraram em uma fazenda; e meus avós maternos sempre trabalharam para outros nunca possuindo a terra onde moravam. Lembro que aos dois anos brincava entre as folhas de uma alameda que havia em frente de casa formada por gigantescas árvores de plátanos. 
Lindos e perfumados, sua sombra e seus galhos era tudo que eu conhecia do mundo até então. Do outro lado da estrada havia uma imensa encerra para o gado, construída de grandes tábua já desgastadas pelo tempo.  Aos três anos andava na margem do lago que havia no sítio e lá tomei banho pelado com os guris que trabalhavam na fazenda com meu pai. Lembro nitidamente que havia um trapiche de madeira e a cor de chá da água calma e profunda parecia me ameacar. Lá os caras ficavam deitados nus ao sol da tarde no verão. Essa foi a imagem mais fortemente gravada em minha memória a do corpo molhado cheio de gotas e dos músculos ao sol da tarde que termina. A imagem indelével da beleza do corpo masculino. 
Corri entre os infindáveis mal-me-queres (flor-das-almas) nas coxilhas, nas primaveras sempre temendo que de uma hora para outra pudesse aparecer um touro furioso, e ai sim eu teria que correr para valer e me atirar por debaixo da cerca de arame farpado que separavam o campo da estrada. Aos cinco anos explorava um riacho que passava calmo, pelo vale, onde ficava minha casa, buscando conchas de caramujos. Eu seguia o riacho até que minha casa ficasse pequena e desaparecesse da vista. 
Sentia medo por estar sozinho e voltava correndo, antes que minha mãe me chamasse, pois se isso acontecesse era castigo na certa. Meu mundo sempre foi feito de silêncio e pensamento. 
Quando chegou a idade de ir para o colégio tive muito medo das outras pessoas, eu era tido como estranho por meus colegas por não falar muito; mas fiz alguns bons amigos nessa primeira experiência escolar. Brincava mais com as meninas porque elas me convidavam e conversavam comigo e a maioria dos outros meninos só tentavam me espancar. Embora, sempre que eu revidasse eu vencesse a luta, acabava usando demasiada força. Costumávamos ir, meu irmão e eu, em grupo com outros meninos, a um rio próximo aos trilhos do trem na estrada para a Cidade-dos-meninos, um colégio que ficava nas montanhas, e sempre acabava sozinho pois sempre havia outros que tentavam me afogar ou me bater. Um dia tive que correr muito para não ser derrubado dentro da parte mais profunda, até que não ouvi mais as vozes dos meus perseguidores, que me chamavam de "menininha" pelos meus cabelos compridos. 
Me escondi em um tronco e fiquei ali, brincando sozinho na areia, e desde então não mais convidei nem fui com grupos tomar banho de rio. 
Sentado, ficava observando o rio construir seu caminho entre pedras e areia. Admirava espantado como a água esculpia as rochas e construía as curvas e meandros ora violenta em alguns locais por entre pedras, ora calma e caudalosa em outros, espraiando-se em areias brancas. 
Decidi então desenhar os riachos e afluentes desse rio que eu tanto gostava de tomar banho. Fiz um cadernos de folhas brancas, peguei caneta, lápis e borracha, coloquei tudo numa mochila improvisada com um saco de pano, cortei um cajado e todo final de semana lá estava eu explorando e desenhando o rio, as flores as rochas, as árvores. Assim, o tempo foi passando, longe das pessoas com quem eu gostaria de estar. Mas me resignava pois naturalizei que os outros eram assim, e a melhor forma era mater distância. 
Sempre soube que queria ser professor e ensinar aos outros coisas boas e importantes e lindas e edificantes que tornassem a vida melhor. 
Lembro que tive um primeiro grande amor que por ela estar em outro estágio de desenvolvimento não me deu muita atenção, o que me levou a ficar pela primeira vez com um amigo da quinta série.  Essa foi minha primeira paixão homoafetiva, hoje penso. Mas nos separamos quando mudei de colégio. Tive outros amores sem o envolvimento do outro (eram somente amores platônicos de minha parte, eu era muito tímido para falar e o mundo muito preconceituoso para aceitar). 
Eu passei para o segundo grau (atual ensino médio) e fui fazer o curso técnico da universidade. Lá conheci outro grande amor (não importa se somente eu sentia o amor) ele era meu amigo e isso já me deixava muito feliz. 
Sempre quis revelar o que para mim era um grande segredo, um segredo mortal pois "pecaminoso" e destrutivo, mas toda vez esbarrei nos preconceitos dos outros. 
Meus tios e até meus pais diziam que seria humilhante para eles terem filhos "diferentes". Eles nem ousavam dizer "a" palavra pejorativa. 
Então, a única saída era o silêncio. 
Um silêncio duradouro e frustrante.  
Com isto, nunca tive o benefício de trocar carinhos com outra pessoa de forma saudável nem construí relações afetivas por medo. Medo da condenação, medo de apontarem o dedo em minha direção e me classificarem com nomes  terríveis, medo de ser espancado. Somente depois da faculdade fui encontrar alguém interessante que treinava comigo na academia. Nos tornamos grandes amigos, amigos inseparáveis por um bom tempo, ele tinha 20 anos e eu 27. Era calmo, carinhoso, amigo antes de tudo. Aqueles foram os mais luminosos anos da minha vida. Andávamos de bike juntos, acampávamos, viajávamos para a praia... Dormíamos juntos, ríamos juntos. 
Mas ele começou a fumar e usar drogas, com seus amigos do quartel, hábitos que eu não tinha e não queria nem mesmo experimentar. Por fim nos separamos. Sofri muito, chorei como nunca antes em toda minha vida... Nunca mais o vi desde então. Ainda sonho com ele, desejo vê-lo outra vez, mas é impossível. Conheci alguns outros mas nunca foi sério o suficiente. 
Desde então, eu me apaixonei pela ideia que eu tinha do outro... até que nunca mais sai para encontrar ninguém. Há dez anos vivo sozinho. Nunca mais beijei ninguém, nunca mais toquei em ninguém.  Sou como aquela mosca da fábula de Esôpo que diz que tendo já comido, já bebido e já tomado banho que importava então a morte. 
Agora a minha única grande espera é o dia final. 
Parece estranho que minha vida termine apenas nesse lugar escuro e silencioso, nesse lugar horrível, mas por muitos anos houve sorriso e felicidade, houve abraços e desejo e eu não tive que prestar contas a ninguém nem procurar ninguém que me completasse, pois ali, do meu lado, estava alguém com quem eu desejava passar o resto da vida. 
Desde então eu venho elaborando a ideia de que morrer é mais agradável do que essa dor da perda, essa dor da solidão, essa dor que não passa. 
Na morte meus átomos se misturarão com outros e talvez nesse outro lugar encontrem a felicidade que busquei. 
A verdade é que o amor para mim se foi. Passou como passam as flores-das-almas em novembro, passou como passam as nuvem num céu num dia de vento. Passou deixando consternados  todos os meus pensamentos. 
Ele se foi na ponta dos pés como veio, numa tarde de sol no verão, sentou e me convidou para vermos o por do sol.  
Ele se foi e me deixou sozinho. 
E eu não sei o que fazer. Ele levou consigo o meu amor, levou junto a alegria de viver que uma vez eu conheci. Sinto-me vazio da vida que conheci, da vida que experimentei. 
Terá nossa história individual esse esquema? 
Seguirá esse caminho, esse padrão? 
É triste se constatar que sofreremos no fim; que no fim estaremos tão sozinhos como nunca antes estivemos.  
Não tenho como fazer você acreditar em minhas palavras, uma vez que tudo pode  ter se passado em minha mente doentia.  
Me sinto desolado mas a vida, eu aprendi, é assim mesmo. 
Estar perto do fim, permite-me senti-lo aproximando-se como feito fosse de matéria escura ou um buraco negro... não se pode percebê-los a menos que já se esteja orbitando esse "dies irae", esse ponto ômega; o principium et finis em Latin, ou initium et finis, ou primus et novissimus (o último momento, o primeiro e único).
Todavia, não diminui a solidão nem o desejo de sentir novamente aquele toque que legitima a existência. 
Quero, então, quando chegar o fim, reter esses momentos felizes que vivi, e que no último segundo da minha vida, eles invadam minha memória, então, fecharei meus olhos, meu coração baterá uma última vez e dormirei nessas lembranças felizes para sempre. 
(ACP 6/IX/2015) 








domingo, 30 de agosto de 2015

A IMAGEM DO FEMININO

A IMAGEM DO FEMININO 

(Um vídeo circula na internet há algum tempo e desde que vi a primeira vez há alguns anos atrás uma ideia cruzou pela minha cabeça: e se essas imagem femininas são imagens do desejo masculino? Então decidi escrever um textinho refletindo sobre essa perspectiva).

O vídeo apesar de belo em todos os aspectos (animação, direção, escolha dos retratos música etc) mostra mais como a mulher tem sido vista por artistas homens (pintores) desde o renascimento até a arte moderna. Vejo rostos clássicos idealizados pela libido masculina, mulheres com olhar distante, ora libidinosos ora santo envolta em uma aura de graça e pureza imaculada. Usando flores nos cabelos, que são lindos, ora cacheados, ora lisos, com taras e coroas ou lenços ou véus que remetem ao céu e a distâncias empíreas celestiais. Vestidas de graça e leveza, deusas distantes da humana matéria. No entanto repousam bem no fundo de nossa imaginação ocidental greco-romana-judaico-cristã. Entronizaras em um pedestal ou sagradas como uma pedra de Ara que não se pode tocar. 
São lindas? Sim, muito lindas! Sua beleza só pode ser comparada à sua distância da realidade. 
A mulher é reduzida apenas a um aspecto de seu ser: a sua beleza (a falta dela evita ser retratada). 
E sua personalidade? Seus anseios? Sua realidade?  Sua humanidade? 
São mais de 600 anos de representação feminina pelo sujeito masculino. Depois de Leonardo nada de novo apareceu, mesmo os impressionistas que derrubaram a arte renascentista, acabaram usando os cânones antigos para representar a beleza feminina. 
Poderíamos pensar que o cubismo em suas multifacetadas, multi-angulares perspectivas, bidimensionalmente representada da humanidade, fugiria dessa tradição. Mas tudo que se vê é a mudança de posição do olho. Ou melhor é a onipresença equiângular instantânea do ponto de vista masculino de um sujeito objetificado. A visão então permanece em sua tentação solipsista que elegeu uma forma elevando-a a cânone único de representação da figura feminina. 
Nem mesmo com a invenção da fotografia, (que é a captura das aparências de uma "coisa" por uma máquina) com seu viés de registro, de índice, de impressão,  foi capaz de sustentar uma visão honesta do feminino ser. Logo voltamos para aquela via artificial e convencional que através de softwares editores de imagens nos dão a visão idealista do feminino. Uma visão agora digital e isenta de todo referencial físico. Todavia, a mecanização, o registro, a impressão, são fatores de verdade apenas em virtude da crença moderna que deseja que a verdade cresça à medida que diminua a cota do homem na imagem (Rouillé, 2005). 
A imagem tornou-se um código (binário) de representação, não evocando mais um corpo é agora pura energia a percorrer o espaço tempo de nossa existência. Existência que se torna mais e mais precária pelo afastamento do referencial, do referente, do corpo real, do humano. 


Bibliografia 
ROUILLÉ, A. A fotografia entre documento e arte contemporânea. São Paulo, SENAC, 2005.