segunda-feira, 21 de maio de 2012

IMAGENS MARGENS









DURAÇÃO DE UMA IMAGEM






AS IMAGENS 
SÃO OBJETOS QUE TEM UMA DURAÇÃO 
UM DIA APARECEM 
E NO OUTRO APRODRECEM FELIZES CHEIAS DE LEMBRANÇAS...





POLÍTICA, SINDICATO E SONHOS

POLÍTICA, SINDICATO E SONHOS


Meus companheiros de luta no dia-a-dia na sala de aula. 
Hoje eu gostaria de contribuir com uma definição que embora talvez todos saibam, sempre é bom relembrar. 
Somos todos seres políticos. Ser político não significa só fazer campanha para um partido ou defender uma ideologia, pode ser isso também, mas já desde Aristóteles no século IV a.C se sabe que o homem é um ser político por natureza; e político é quem vive na  πολις, polis, i.e., na cidade. 
Por viver na cidade , mantém relações entre cidadãos que são iguais perante a lei; e  relações com os gestores da coisa pública. 
Portanto não há como negar a nossa essência que é o "ser político". 
Todavia, para interagirmos com os gestores do Estado necessitamos estar sindicalizados, unidos por um mesmo ideal, buscando um mesmo fim.  Esse fim se anastomosa, se liga indissoluvelmente com o bem comum da sociedade, a saber o esclarecimento, as melhores condições de vida, que passa por uma melhor educação.
E pasmem a palavra sindicato vem do latim:Συνδικός,  syndikós, que significa aquele que é escolhido para defender os direitos de um grupo ou corporação, syndikós: um procurador, um advogado, que assiste na organização dos trabalhadores na luta por seus direitos.
E essa palavra é mais antiga ainda, vem do grego: syn + dike (Συν + Δίκη) junto com a justiça. (Συν: junto com a Δίκη: justiça)
Dike (Δίκη) era filha de Têmis Θέμις com Zeus e representava a lei ou justiça divina, o bom conselho; era a deusa grega guardiã dos juramentos dos homens e da lei, e era costumeiro invocá-la nos julgamentos perante os magistrados. 
Sua filha Δίκη, é a deusa grega que preside os julgamentos, é a deusa da justiça.
Tem na mão direita uma espada que simboliza a força, elemento inseparável do direito, e na mão esquerda sustenta uma balança de pratos que representa a igualdade buscada pelo direito, pela aplicação da justiça. Nessa balança o fiel está desequilibrado, deslocado do meio. O fiel só irá para o meio (alcançando o equilíbrio) quando da realização da justiça, do ato justo, pronunciando o direito no momento de: ίσον, ison (o equilíbrio da balança, a igualdade). 
Para os antigos gregos o justo, o direito é identificado com o igual, com a igualdade entre os cidadãos. Ela tem os olhos bem abertos representando a busca incessante pela verdade.
Assim, a palavra sindicato tem uma longa e bonita história, em nossa cultura. É o que é associação de homens iguais entre si e perante a lei, que se organizam com justiça, para o bem comum, não somente do grupo em si mas do bem de toda uma sociedade. O sindicalizado então é aquele que defende a justiça, o modo justo de proceder. Ora para isso basta o principio magistral postulado por Ulpiano (c. 150 - 224 d.C.) que diz:  "Iuris praecepta sunt haec: honeste vivere, alterum non laedere, suum cuique tribuere", "os preceitos do direito são estes: viver honestamente, não lesar a outrem , dar a cada um o que é seu". O sindicato sempre deve seguir  essa máxima magistral e assim a sociedade chegará a uma vida cheia de bem-aventurança aqui em nosso tempo, através da luta e da informação; que em si é a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. 

(21/V/2012)




A ARTE NUA

A ARTE NUA
fisiculturismo, facebook e arte

Toda as tardes após as aulas chego em casa coloco uma bermuda uma camiseta, entro no facebook e combino com meus amigos a hora de chegarmos na academia. Nesses momentos em que dedico um tempo para o corpo lembro-me das discussões a respeito da ditadura da forma e o quanto isso pode se tornar uma obsessão para muitos. Chegar na forma ideal, corpos torneadas perfeitamente trabalhados, “sarados”, a forma das esculturas gregas nuas clássicas. Não raro muitos amigos meus fazem uso de perigosas drogas anabolizantes para alcançar a forma ideal. E qual seria essa forma ideal? A grande arte nos lega diversos exemplos de corpos nus ao longo da história e esse ideal ora aparece mais como uma reflexão do que como uma lei para que nos conformemos a uma dada forma física. Localizo as páginas dos meus amigos no “face” e constato que tanto a minha própria foto quando a de muitos dos meus amigos exibem uma imagem de um torso nu mais ou menos a semelhança de um kourós grego. É certo que a arte tem um papel preponderante nessa abordagem do corpo uma vez que reteve esses exemplos de formas ideais como pontos máximos da estética clássica.
Ao longo da história da arte figurativa, as representações do nu sempre tiveram um lugar de destaque tanto na escultura quanto na pintura. Contudo é na Grécia que o nu alcança posição proeminente no interior da arte, com suas esculturas em pedra, em que figuras são apresentadas de pé, utilizando-se dos cânones e dos ensinamentos da representação egípcia e assíria. Todavia, logo após esse inicio a representação do nu na Grécia, seguiu caminhos próprios pela ênfase que é dada à observação direta dos corpos, tanto em repouso quanto em movimento. A rigidez e a dureza presente nas representações anteriores dão lugar às tentativas de fornecer imagens mais realistas e convincentes da figura humana. Desse modo as representações de atletas permitem o aperfeiçoamento da representação do corpo humano em movimento, como mostra o Discóbolo, obra do escultor ateniense Myron (ca. 450 a.C.) ou mesmo o grupo Laocoonte (obra de Agesandro, Atenodoro e Polidoro de Rodes, do século I a.C.) No caso do Discóbulo, onde o atleta nu é flagrado no momento ápice do movimento, i.e., logo antes de arremessar o disco, ou Laocoonte, o sacerdote de Apolo que sendo o único a pressentir o perigo que representava o cavalo deixado pelos gregos como presente à Tróia, foi castigado, juntamente com seus filhos, por serpentes marinhas enviadas por Poseidon. Nessas obras todos os detalhes anatômicos aparecem com exatidão, a contração dos músculos, o movimento e a concentração do atleta, bem como a expressão da dor, de pavor, do medo. Saio de casa e dou uma corrida para aquecer antes dos exercícios, nessa corrida passo por muitos outros corredores de verão que desejam alcançar “a forma” ideal do dia para noite e se matam um mês antes das férias de verão chegando mesmo ao stress físico, mas por ser o tempo curto não conseguem e desistem, culpam a genética, a alimentação, a falta de tempo e o trabalho pelo seu não sucesso. 

Kourós arcáico 
Efebo 
 

 Discóbulo de Myron sec. IV a.C.  
      
 Laocoonte e seus filhos


Laocoonte e seus filhos atacados por uma serpente enviada por Posseidon

Vênus de Milos
 
Voltando a arte, penso que subjacente a essa representação ideal de corpo está a ideia, clássica, de que a beleza é a manifestação da verdade, havendo, portanto uma identificação da ordem, da harmonia ao belo ao bem e ao verdadeiro. Essa concepção está associada ao ideal de beleza, ordem, proporção, simetria, harmonia e equilíbrio que os artistas procuram representar para alcançar a graça e a beleza sensível como, por exemplo, na Vênus de Milos, obra de Alexandros de Antioquia (sec. I a.C.). Desta forma o corpo nu é apresentado como uma realidade sensível e ao mesmo tempo aperfeiçoado segundo o pensamento grego de que tudo que pertence à esfera do humano e divino pode ser passível de arte, isto é aprimorado.
Chego na academia. Um sem número de outras pessoas já estão lá se exercitando, claro que muitos estão lá pelos benefícios que os exercícios físicos trazem para a saúde, entretanto existe uma boa parcela que deseja chegar nessa forma ideal, de um corpo esculpido torneado, legado a nós pela história da arte. No vestiário há uma constante e eterna disputa sobre que abdome é mais sarado, quantos segmentos aparecem no abdome, que bíceps é mais trabalhado, qual o tamanho em centímetros do bíceps, qual perna de quem tem maior panturrilha ou quanto de massa magra se tem no corpo. Não entro muito nessa discussão, pois me acho longe dessa forma, tão rigidamente cultuada e desejada, meu objetivo é outro; ao fazer exercícios, almejo uma vida mais saudável.  
O corpo (Fonte: internet)








 Olympia de Manet

Ao ver meus colegas nus no vestiário retomo o meu pensamento sobre o nu na história; mesmo sendo descartado na Idade Média o nu reaparece no renascimento italiano onde a escultura de bronze, intitulada Davi do escultor florentino, Donatello, constitui-se na primeira figura nua em tamanho natural desde a antiguidade clássica. Michelangelo também apresenta suas muitas obras representando figuras nuas, entre elas Davi (na escultura) e os inúmeros nus na pintura da capela Sistina.
De todo modo, essas representações estão fortemente ligada às doutrinas filosóficas que unem o idealismo platônico, os cânones do classicismo da arte grega antiga, com um novo idealismo para formar o humanismo renascentista.
A representação do corpo humano baseada em um ideal de beleza da arte clássica é também exercitada por Albrecht Dürer e Leonardo. Esses artistas experimentam regras de proporção e noções de harmonia em estudos com corpos nus. Já mais recentemente pode-se citar Olympia de Manet que esta entre os mais conhecidos e célebres nus da arte moderna. Já com Gustave Courbet o nu da Origem do mundo de 1866 reduz a mulher ao órgão sexual feminino mostrando um tom pornográfico e mundano. E mesmo em Picasso o nu representa um papel importante em toda sua produção.
Assim a representação do nu vem passando desde seu início por mudanças; da ênfase na trindade suprema: como representação do bem, do belo e do verdadeiro, através das ideias humanistas do renascimento, para a pornografia, chegando à arte contemporânea como mais um aspecto do ser humano no mundo como, por exemplo, O “Nu descendo uma escada” de Duchamp. 






Nus de Michelangelo Buonarroti

Albrecht Dürer




Estudos da figura humana por Leonardo da Vinci
Gustave Courbet - L'Origine du monde  (A origem do mundo)
Nu descendo uma escada - Marcel Duchamp
A história do nu na arte tem um caminho particular mostrando diferentes ideias que subjazem a abordagem desse assunto, desta forma pode-se questionar sobre o que seja essa arte dita contemporânea. Para tanto se pode proceder como nos nus, onde o que estava envolto em véus ou roupagens pode ser despido, revelando-se o que esta por baixo e assim, desvelar, deixar nu diante de nossos olhos, suas características e seus predicados, sem medo, pois não seremos transformados em cervo e devorados pelos cães como Acteon ao surpreender a deusa nua em seu banho.
Percebe-se na contemporaneidade que a arte pode ser uma pratica técnico-filosófico-plástica. Vejamos porque ela pode ser vista a partir dessa perspectiva. Do ponto de vista da técnica: para os antigos gregos que criaram a arte como fenômeno cultural, a arte em si já suportava uma dimensão técnica, assim, a técnica é um saber fazer (habilidade resultado do aprendizado e da prática), desde que esse saber fazer seja colocado num sentido de aperfeiçoamento, i.e., do aprimoramento do modo de ser humano. Por conter em si uma técnica pode conter em si um sistema de pensamento, uma ideia? Pode-se crer que sim, pois, para se fazer algo e imprimir neste algo uma mensagem é necessário que esse pensamento-mensagem seja lógico-filosófico, inteligível. Ora, para ser lógico-filosófico é necessário que responda perguntas, apresente camadas de sentido, que coloque questões, que instigue o expectador-fruidor. Ela deve, portanto ser geradora de reflexão no sujeito que a contempla, nesse sentido desestabilizadora de uma pensamento vigente no sujeito.
E por último a arte contemporânea pode ser plástica, pois se vale de uma linguagem material no espaço, pois a ideia esta plasmada num suporte e num determinado espaço. A arte esta sempre em questão uma vez que questiona a si própria e leva a questionamentos existenciais do sujeito artista. Apresenta-se também como um conceito pois esta sempre em disputa e em debate.
Ora, a arte enquanto conceito, etimologicamente falando, pode-se afirmar que mesmo estando contido em si, por isso mesmo torna-se um verdadeiro logogrifo permanente no tempo, necessitando ser despida para que se dê a contemplação de sua mensagem.
Assim, apresentada em suas múltiplas camadas de sentido, pode ser referida também como desconstrutora da estética clássica, que tem no belo seu ápice e seu centro, colocando em seu lugar outras categorias igualmente importantes. Pode-se afirmar que a arte contemporânea seja uma transgressão? Sim, se por transgressão entender-se a desobediência do cânone tradicional; ou seja, da maneira tradicional de mostrar uma ideia, de contar uma história. Deste modo, a arte contemporânea viola a maneira estabelecida durante séculos, desde o renascimento ao inicio do século XX, que vinha sendo usada para mostrar a realidade.
Pode-se também afirmar que a arte contemporânea é um acontecimento (happening) sincronizado entre texto-contexto, imagem e som, construção e apresentação de uma nova imagem do mundo. Uma imagem digital que pode ser acessada em rede. A arte é vida para as vanguardas.
Navegando na internet entre as diferentes páginas de blogs, fotoblogs e do facebook, constata-se que a arte surge como uma rede de pensamentos que se espalha como um discurso que é ouvido por uma multidão de pessoas. A arte vista como uma obra-discurso pode ser tudo, desde que seja legitimada, sobretudo porque tem a ver com um conceito cultural e, portanto social. Assim, ela reflete os anseios, desejos, ideias e mazelas da classe que a criou. Todavia, o fruidor da arte deve se descolar dos ideais tradicionais incluindo os ideais acadêmicos do século XIX, sendo função uma das funções da arte a substituição no expectador-fruidor do seu gosto convencional e assim, este, pode questionar a realidade e sua própria dimensão no mundo atual. Depreende-se daí que essa rede de significados iniciam uma mudança de paradigmas tanto na ideia do que seja a arte quanto nos objetos artísticos.
Seguindo em frente e tentando desvelar o que seja a arte para poder-se contemplá-la em sua totalidade, pode-se perguntar se existe um sentido e qual o sentido da arte contemporânea?
Pode-se iniciar investigando se a arte contemporânea é uma linguagem, se nela há um conteúdo e se há nela formas de expressar esse conteúdo. Pode-se ir mais alem questionando-se se nela há uma narrativa de algo ou de um acontecimento. Ora, por analogia com a linguagem, a comunicação se dá através de um conjunto de palavras que herdamos, e através destes sinais nos fazemos entender e entendemos as mensagens dos outros com quem interagimos. Na arte em geral e na arte contemporânea especificamente, a linguagem é menos visível para o leigo, porém ela existe e é através dela que nos chega à mensagem codificada na obra, que a faz possuidora de um sentido. Logo, se há uma linguagem esta se baseia em sinais, e o conjunto desses sinais constitui um conteúdo que dá forma a mensagem.
Esse conteúdo, como as palavras de um texto ou discurso, deve apresentar um significado, um sentido lógico. Logo, por associação, a arte que é uma linguagem deve apresentar um significado inteligível. E, como na linguagem cotidiana, onde se aprende palavra por palavra para descrever cada realidade do mundo, na arte deve ser necessariamente igual. A arte tem um sentido tanto para o artista pensador-criador quanto para o sujeito expectador-fuidor da obra. Nela pode-se notar a existência de uma quebra, de uma pausa onde o objeto “obra de arte” transforma-se em sujeito, e sua descrição por outro sujeito se da através das sensações e mais importante entre a articulação que ocorre entre o sentir e o pensar. Assim, a arte torna-se o mais acessível dos discursos, falando a cada um segundo seu entendimento, pois entendimento esta baseado na sua história pessoal de cada sujeito, na concepção de mundo e no entendimento da história social e política da humanidade.
Na academia um amigo perguntou-me se havia uma maneira de tornar mais visível os músculos trabalhados. Um outro que estava ali perto adiantou-se e logo afirmou que ele depilava todo o corpo para tornar mais visíveis os músculo, uma vez que os pelos impedem a visão. Ouvindo essa narrativa me indago ai se há na arte uma narrativa de algo ou de um acontecimento. Ora, a arte por si só é uma narrativa individual de como o artista (pensador-criador) narra uma ideia ou um conceito para outrem. Assim, a obra de arte contemporânea, é em si mesma uma narração de um ponto de vista individual, particular, enraizado na história do pensamento humano e na história da arte.
Todavia ao se entender o sentido como um propósito, razão de ser, uma lógica, a resposta pode ser negativa num primeiro momento. Entretanto se refletirmos mais aprofundadamente pode-se notar o fio condutor de obras que abertamente mostram um não-sentido. Filosoficamente sentido é a faculdade de conhecer de um modo imediato e intuitivo, o qual se manifesta nas sensações propriamente ditas. Dessa perspectiva a arte nem sempre apresentará de maneira explicita esse sentido. Nem por isso ela deixará de apresentar uma face heurística inerente, a sua face nua que ora espera-se contemplar.
Passo de um exercício para outro enquanto penso na possibilidade de trazer arte para aquele lugar onde estou. Com meu celular fotografo meus amigos... muitos dos quais nem sabem que estão sendo fotografados, claro que depois de fotografá-los eu mostro as fotos e pergunto se posso postar no meu blog. Todos concordam, e lá vão as imagens para sua viagem, como imagens seguir seu destino, sendo consumidas na grande rede.
Transformados em imagens cotidianas meus amigos se transmutam em arte num outro espaço, o espaço virtual da rede. Transformados em imagens digitais que tem uma existência de duração efêmera. Embora suas formas mais ou menos esculpidas por anos de exercícios, eles sempre demonstram uma certa insatisfação quanto a forma de seu corpo.
Agora seus corpos transmutados em imagens e salvos em seus álbuns do “facebook” passam a mediar relações entre sujeitos. Poder-se-ia dizer que este é um papel da arte contemporânea, entre tantos outros que pode apresentar? Suas imagens são agora obras de arte, que dependem do mais superficial dos sentidos a visão, para aproximar sujeitos. Deste modo, essas imagens são um discurso pelo de sentido em si mesmo.                                              
Pode-se imaginar que na bienal como a 8ª Bienal do Mercosul as obras (imagens no caso da fotografia, ou vídeo, esculturas, instalações e performances) sejam uma multidão falando baixinho, sussurrando. Bastaria então lançar o olhar para elas para que imediatamente, elas como sujeitos, falassem abertamente com o expectador, o sujeito que as contempla. Uma das obras impactantes e que arrebata o expectador é a obra da artista Leslie Shows intitulada “Display of properties” em que a artista usa um conjunto de bandeiras brancas arranjadas em fila acima de uma parede branca na qual se aplicou tinta deixando-a escorrer, como se as cores que compunham as bandeiras abandonassem elas próprias seus suportes, as bandeiras, e escorressem pela parede. Os símbolos, brasões e signos, ainda continuavam íntegros enquanto as cores, misturadas, compõem algo como uma paisagem misteriosa, anastomosada, abstrata e caótica, enigmática. 



 Display of properties - Leslie Shows

Sente-se como se algo ficasse petrificado ali em nossa frente, ou melhor, dizendo, dentro do expectador. É como se o real (a obra) se deixasse aprisionar naquele efêmero instante dito da “experiência estética” que agora identifico como pertencente à estética clássica. Sobretudo pela presença tátil-visível da obra ali “me olhando”, interrogando-me. Sem dúvida ela falava comigo na primeira pessoa.
E parafraseando Merleau-Ponty é como se o que eu tivesse visto “acabasse sempre pela experimentação tátil de um obstáculo erguido diante de mim, obstáculo talvez perfurado, feito de vazios”. Mas logo se volta a estar ali em frente à obra e como diz Paolo Fabri a respeito do livro Da imperfeiçãoi de Greimas, intificam-se esses vazios não como vazios, mas como sinuosidades em que o sujeito e o objeto se reposicionam em um novo espaço transicional de saber e de sabor, é um sentir outro insustentável e irrepetível, do qual tem ou resta somente a reversível nostalgia ou a respiração da esperança; luto ou entusiasmo, leque de cartões-postais ou repertório de maravilhas.
Outra obra que chamo atenção chama-se “The new world clímax” do artista Barthélémy Toguo. Ele produziu grandes carimbos feitos com troncos de árvores, que de longe chamam atenção por suas dimensões; e com estes carimbos gigantescos entintados imprimiu mensagens em folhas de papel branco. Diante dessa obra tem-se a mesma sensação da obra anterior. Seja pela monumentalidade desse objeto cotidiano (carimbo), o que levou-nos a imaginar a impossibilidade de se tomar na mão tal objeto e imprimir o que quer que seja. Apenas gigantes poderiam usar tais carimbos. 


 Barthelemy Toguo - The new world climax
Frente a ambas (obras) experimenta-se essa estesia de uma plenitude visual inteligível; para chegar a ideia que não designa apenas o aspecto não sensível do que é sensivelmente visível: é a essência daquilo que se pode escutar, tocar, sentir e ver, para tentar chegar à própria sensação estética contemporânea que não fica ao nível da visão apenas mas resgata aquele olhar primeiro, o olhar de uma criança que interroga mesmo com os olhos.
Entretanto, as obras não se mostraram nem simples nem abstratas em sua opticidade inelutável, são como esculturas de mármore, ali plasmadas em sua clareza visível-tátil. Nos momentos em que estamos frente à obra ela nos olha e fala conosco, ela presta atenção em nós de maneira como uma árvore ou uma rocha não o fazem, pois uma árvore e uma rocha não possuem um lado voltado especialmente para o sujeito que a observa.
Poder-se-ia estender o conceito de Greimas dizendo que não existiria, como ele quer que exista, dois momentos ou duas estéticas ditas respectivamente clássica ou evanescente, ou estética do aparecimento e do desaparecimento? Não seriam eles momentos de apreensão distintos da experiência estética frente a uma obra de arte? A esperança de saber tudo do que esta sendo dito ali naquele momento? Identifica-se algo no objeto, a sua pregnância, sua exalação energética, mas também identifica-se no próprio sujeito que observa um papel ativo e empreendedor frente a esse “objeto-sujeito” que se volta para mim.
Da academia volto para casa cansado, mas nunca satisfeito. Ora a arte também nunca nos satisfaz, esperamos mais desse encontro com a obra, e passa-se de uma obra para outra, de um discurso para outro.
Desta forma, o segredo das aparências (realidades) não está no objeto (enquanto obra) que aparece e parece ter se revelado ou desvelado, desnudado pelo sujeito ou para o sujeito que olha, mas está na incompletude dessa ação enquanto tal; é o estado de estesia a espera do estético. É o estado do que está por vir através do que aparece (obra) para mim. Assim, despida de seu caráter apenas matérico, a obra revela, se despe, e apresenta-se com lado totalmente inteligível e íntimo que somente eu posso conhecer. É assim na rede mundial de computadores e entre elas o “facebook” onde as imagens tentam mostrar um discurso oculto, mas que se quer compreensível a todos. 
Ora, sua maneira de aparecer, nua para cada um é como num conto, numa narrativa em que se pode pensar simultaneamente: existe mesmo ou é produto da minha própria mente? Pode-se refletir sobre esse aspecto do fazer artístico tomando as micro-nações.
A obra Sealand, uma micro nação, nos traz o inexistente que ganha existência através da imaginação do artista, e se reveste de significados que podemos revelar ao refletir sobre sua precária existência. Essa obra lida com nossa capacidade de interpretar o que vemos como realidade existente, e se apropria do método amplamente usado pelos museus para mostrar ou apresentar algo que existe na realidade e se quer destacar, seja a forma, conteúdo ou função. Em síntese apropria-se de um método (o método científico de apresentar algo ao público) para tornar real, palpável e presente uma realidade imaginada.
Do ponto de vista legal e físico, i.e., factual, a micro-nação existe de fato, como plataforma marinha ela realmente existe e esta localizada em algum lugar no Atlântico Norte. É uma plataforma abandonada no meio do oceano atlântico fora das águas continentais de qualquer pais. Assim, ela é apresentada como uma nação constituída legalmente entre as nações do mundo. Esse procedimento de justaposição do inexistente (irreal, imaginário e ficcional) ao real leva a um estranhamento extremo ao ponto de acreditarmos que o que esta sendo ali apresentado faz parte do mundo real em vez de ser o produto da imaginação de alguém. Esse procedimento visa imprimir a essa narrativa imaginária um cunho verídico, o estatuto de um fato, o que leva a conclusão de que se trata de um texto dentro do texto uma vez que se constitui com um todo, i.e., que tem em si o sentido não necessitando de outra explicação ou argumentação para sua existência. E, como o senhor do texto: “uma mão uma face” de Julio Cortazár, somos aos poucos conduzidos inexoravelmente para dentro do mundo ficcional penetrando nessa ideia sem nos darmos conta que é uma ficção. Assim, ao final, estamos sendo mais um visitante de uma terra estranha sem questionarmo-nos de sua existência real.
Desta forma, a obra “sealand” se constitui em uma obra que apela para nosso sentido de credulidade, acreditamos no que estamos vendo, dando crédito de realidade a uma obra ficcional, uma vez que não é dito em nenhum momento que essa obra é uma ficção. Assim, constituída a obra se fia totalmente em nossa capacidade de visão que o próprio Greimas admite ser o mais superficial dos sentidos, instalados no real, a profundidade do que esta sendo mostrado nos induz, sobretudo a uma intimidade, e como no olhar de Palomar-Calvino, instaura-se o lampejo a meio caminho do objeto termina por aflorar o seio nu. Ou seja, acreditamos que o que vemos é uma verdade, ou na melhor das hipóteses uma das verdades possíveis do mundo.  Acredito que a obra faça isso através do uso de certos artifícios como apresentar uma plataforma existente (foto da plataforma, localização bem como sua história que é de domínio público) e a esses fatos, outros fatos agora ficcionais são construídos, levando-nos a crer que se alguns fatos são reais todos são. O equivalente a um silogismo falso em filosofia, na qual uma premissa é falsa, mas a conclusão é supostamente verdadeira. Somos seduzidos (propensos) a pensar que o que é apresentado é de fato real, não sabemos se o que esta ali em nossa frente é uma ilusão forjada pela arte ou um fragmento da realidade esquecida no tempo. Esse estranhamento termina por instaurar um discurso fundador de uma nova estética onde se inventa um passado inequívoco, e formando um futuro e que nos dão a sensação de estarmos dentro de uma história de um mundo conhecido. O que caracteriza essa nova maneira de pensar como fundadora é que ela cria uma nova tradição, uma ressignificação do que veio antes e instaura aí uma memória outra. Essa obra tem todas as características encontradas na estética greimasiana que funda uma nova tradição ao reinterpretar o estético de forma diversa da estética tradicional ou clássica. Dessa forma, despimos a arte de mais um de seus antigos véus que nos impedem de olhar sua totalidade com os olhos contemporâneos os olhos do hoje. Novamente pode-se voltar às obras e seus conceitos para despir a arte de seus véus.
 Z.A.P. Container com a obra SEALAND
 Moedas de Sealand
 Moedas

Sealand no Atlântico Norte

 Assim, uma das possíveis leituras que faço dessas obras citadas é de que o mundo deve ser a casa do homem e não ser uma área delimitada pela cor, sexo, religião, pobres e ricos. O que nos leva ao conceito de transformação, uma vez que é necessário transformar nossa visão de mundo para evoluirmos como espécie e como seres humanos. A esses possíveis significados das obras da bienal, outros podem ser acrescentados como a estética da espera que de longe precede seu núcleo de sentido que possivelmente o artista estava preocupado em mostrar. Identifica-se aqui novamente a estética da evanescência, pois se fica a esperar algo que nunca ocorrerá; ninguém virá para mover os carimbos, ninguém os tomará e com eles carimbará papéis. As bandeiras não se reconstituirão. Apenas em nossa imaginação isso poderá acontecer.
Seguindo nessa via pode-se ver que objetos cotidianos, agigantados, tranformados, distorcidos podem ser apropriados para fazer falar o sentido metafórico da arte contemporânea. Esses objetos desproporcionais podem ser responsáveis pelo deslocamento do sentido, fazendo-nos ver um conceito antes escondido e velado nos objetos ordinários. Além disso, sua densidade, seu peso e sua carga matérica nos remetem ao conceito de dificuldade extrema; para mover esses corpos. Seu deslocamento é penoso, trabalhoso, triste custoso. Sua monumentalidade, peso e densidade é um obstáculo para seu uso. Não se pode imprimir sua mensagem: “Border no not cross, ou Palmares, ou Haiti ou Departament of foreign affaires, Telaviv point check, Territory islas Malvinas occupied, NYPD”... Suas palavras impressas transmitem o peso de seus corpos, que agora despidos da matéria-madeira se mostram pertencentes a outra dimensão da vida humana, a saber, ao direito de ir e vir que diz respeito aos princípios do direito universal do homem. Nota-se aqui a arte despida de sua aura construtiva, artesanal, puramente retiniana, levando-nos a contemplar seus conceitos nus, o que nos permite uma reflexão mais profunda de nossa própria existência.
Partindo dos direitos humanos como conceito explicitado pela arte, pode-se ponderar sobre nosso alimento cotidiano, não digo só de alimento físico que pode manter o corpo para os exercícios na academia, pensar e navegar nas páginas do facebook, mas do alimento espiritual, i.e., da arte.

Mesa posta

Pode-se fazer uma analogia da arte como um banquete onde os pratos servidos e sua ordem seriam obras e interpretar uma exposição como a 8ª Bienal do Mercosul como sendo um lauto, suntuoso e abundante banquete, a espera. Mas nem só de banquete vive o espírito humano... e o alimento diário?
Um banquete supõe uma ordem de apresentação dos pratos como o antepasto, a sopa ou consommé, a entrada, o prato principal, os queijos e a sobremesa. 
Antepasto. Numa analogia com um banquete o estágio preparatório é o antepasto. Deste espera-se que excite nosso aparelho digestivo “mental”, que o torne exigente, e que aguce o apetite pelas “obras” que estão por ser servidas. Assim, as obras que incluiria nessa etapa seriam aquelas que lidem com visões política, social e problemas do homem contemporâneo. Obras que lidem com conceitos que tem paralelo na vida cotidiana. Como a migração, fronteiras, vida, morte, liberdade...
Sopa ou consommé. Seguindo o nosso banquete ideal artístico, a refeição propriamente inicia com uma sopa que continua o trabalho de preparação intelectual. Destina-se a dilatar com seu calor os vasos sanguíneos da mente e estimular nossas idéias e fornecer o volume de informação que o processo intelectual irá usar. Obras como as de Leslie Shows: Display of properties, Cristina Lucas: La liberté raisonnée e Emanuel Nasar: Bandeira, ambas adaptam-se perfeitamente a esse propósito.
Entrada. Obras interativas leves que tratem de assuntos cosmopolitas como as micronações:sealand, e a obra de Tatzuo Nichi ambas criam novos ambientes um como um principado de Sealend (no Atlântico norte) e Tatzuo com intervenção urbana, cuja intenção é produzir uma nova visão do homem com seus monumentos históricos e mobiliários urbano.
O prato principal. O prato principal (le plat de résistance ou plat principal, para os franceses). Nessa categoria devem ser servidas obras que irão ocupar de modo integral todas as funções intelectuais-mentais e dos quais irá obter os principais nutrientes “conceitos” necessários às funções vitais do organismo como humano no mundo. Nessa categoria, as obras que listo são: Eugenio Dittborn, Casa M com Vermelho pungente de Fernando Limberger, Replikashelvesystem de Daniel Acosta, The new world clímax de Barthélemy Toguo.
Queijos. Após o prato principal vem o prato de queijos (le plateau de fromages). Assim, após a refeição principal sugeriria as obras de Anna Bella Geiger: Variáveis, com sua diversidade de linguagem Marina Camargo: Atlas do céu azul (Norte da América do Sul). Muito bem vindo pode ser também obras do Atelier Subterrânea...
Chega-se enfim à sobremesa (le dessert). Quanto a sobremesa esta se destina a encerrar uma fruição de uma grande refeição como é o caso de uma Bienal tanto do Mercosul quando da Bienal de São Paulo. Assim, as obras que podem ser servidas nessa etapa dizem respeito a conceitos gerais contemporâneos como por exemplo de Elida Tessler que lida com a temporalidade que são traduzidos pelo processo de deterioração e decomposição (oxidação) de metais e Vitor Cesar (cartazes) ambos lidam com o ambiente da cidade e da cidade não vista.
Assim, com o espírito alimentado, podemos refletir plenamente tanto sobre nosso papel no mundo quando do papel da sociedade em nossa vida. Já no que se refere ao pão nosso de cada dia, que alimenta cotidianamente o espírito artístico em nós escondido, posso citar as diversas mostras e exposições semanais e mensais que ocorrem em nossa cidade, bem como visitas a museus que guardam, explicam e divulgam a arte produzida em nossa cidade. Desta forma, suprindo nosso espírito com obras instigantes que ligam nossa vida como sujeitos no mundo em transformação e em rede onde podemos também influir com nossa reflexão.
Ora, assim alimentados, nosso espírito pode contemplar as diferentes faces da arte nua, sem contudo temer ser aniquilado pela esfinge que era representada em pinturas de vasos e baixos-relevos gregos, freqüentemente assentada ereta. Era representada como uma mulher com as patas, garras e peitos de um leão, uma cauda de serpente e asas de águia. Em Édipo Rei de Sófocles, ela pergunta a todos os transeuntes o quebra-cabeça mais famoso da história, conhecido como o enigma da esfinge, decifra-me ou devoro-te. Diante da resposta errada ela estrangulava todos inábeis a responder. Vem daí seu nome grego, esfinge (sphingo), que significa estrangular. Também nós podemos ser estrangulados pelas garras da arte-esfinge, se não a despirmos de toda sua massa informe e confusa,  ousando contemplar sua beleza nua, sem medo da deusa do arco e da lira. Pode-se, parafraseando Heidegger dizer que, a “deusa da caça representada com tochas em ambas as mãos é chamada de fósforos, a portadora da luz. É a claridade sem a qual nada aparece, sem a qual nada pode sair do encobrimento para o desencobrimento, para o desvelamento. Ela é a deusa da aurora (a que afasta a escuridão), a deusa da luz e do jogo, e seu sinal sendo a lira que aparece em forma de arco. Arco e lira são o mesmo para o grego. A lira, agora arco, lança a flecha. O arco traz a morte (a morte suave e amável porque súbita). Ora, como então a deusa da aurora, do jogo e da luz pode ao mesmo tempo ser a deusa da morte, do sinistro, do crepúsculo, da rigidez? Surgir, iluminar-se, jogar e tocar caracterizam o vigor essencial da (ζοή) vida e do (ζώον) vivo. Como pode a deusa da vida ser também a deusa da morte? Mas o contrário é o que mais intimamente se atrai para o que contraria.”
Onde vigora o contrário dá-se a luta. E a luta é a essência da vida. A luta para manter nossos corpos jovens, a luta cotidiana para driblar a morte. Por isso nos fotografamos com o torso nu... para não nos esquecermos que temos uma forma e que essa forma tem uma história enraizada na arte. Por isso nossas imagens estão na rede, nos blogs e no “facebook”. Nada é mais humano para nós do que o corpo nu de outro ser humano. E a arte esta ai para afirmar isso em sua longa trajetória da representação do discurso do corpo desnudado de tudo o que é artificial.
A essência da vida é a luta diária para permanecermos conscientes de nossa existência no mundo. E que no mundo, como Greimas falava é possível ver a arte em tudo, mesmo numa folha ou numa gota de orvalho... Pois embelezar a vida procurando “saídas” não é por acaso reconhecer que este lugar de onde se sai “não é a vida”, e criar para ele um alhures imaginário nutrido de espera e esperança? Contudo a espera do inesperado se transforma em cada nível na espera esperada do inesperado. Conclui-se, portanto que o sujeito tende a fundir-se com o objeto voltando às cercanias do originário e como Greimas salienta, tatilidade e sinestesia são o limite sensível do qual se tenta o salto que, da percepção (que inaugura o conhecimento), se aproxima de um sentir articulado à afetividade profunda. É próprio do estético reatar o pacto originário do sensível e do senciente, do qual aflora, diretamente da percepção o pensamento. E a arte para mim é um discurso, mas um discurso desestetizador (uma vez que confronta concepções que são os basilares para estética clássica) e híbrido, já que usa de diferentes linguagens (e signos), colocando em questão o caráter das representações artísticas e a própria definição de arte. Nesse novo lugar desestetizado surge uma nova abordagem da estética que fundo o sujeito ao objeto inaugurando um novo modo de ver a própria arte. Assim como em Calvino os olhos de Palomar tocam o seio nu, nossos olhos podem tocar agora a arte nua e a partir daí por em movimento novos conceitos e novas abordagens do fenômeno chamado arte. 


  



Spencer Tunick - fotógrafo


 (imagens da internet)