II
O relacionamento homoerótico na Grécia Antiga: uma prática
pedagógica
The homoerotic relationship in Ancient
Greece: a pedagogical practice
Tiago Souza Monteiro de ANDRADE (1)
Introdução
A
pesquisa está no alcance de qualquer pessoa que se disponha a recuperar no
passado o processo de constituição do espaço de tensões e conflitos que é o
presente e no qual se busca situar. Maria do Pilar de Araujo Vieira.
Na Grécia Antiga, era comum um homem adulto ter relações sexuais com um jovem. Nessa concepção, Dover (2007) apresenta o filósofo grego Sócrates, o qual era adepto ao amor homossexual e afirmava que o coito anal correspondia a melhor forma de inspiração. A visão do filósofo quanto ao sexo heterossexual, era a de que servia apenas para procriar. Para a educação dos jovens atenienses, esperava-se que os adolescentes aceitassem a amizade e os laços de amor com homens mais velhos, para absorver suas virtudes e seus conhecimentos de filosofia. Conforme Vieira, Peixoto e Khoury (2011, p. 17), “nas últimas décadas, se tenta pensar a história ainda que com muitas dessas referências, mas fora de esquemas e ortoxias, e se adota uma concepção de história que leva em conta toda a experiência humana a que não é alheio o historiador em seu trabalho”. Além disso, segundo as autoras, ao historiador cabe dar, ao objeto por ele eleito, uma explicação dos fatos humanos, centrando o eixo dessa explicação nos mecanismos que asseguram a exploração e a dominação de uns homens sobre os outros, no que diz respeito a fatores de ordem: econômica, política, social, cultural nas tradições e sistemas de valores nas diversas sociedades. Delimitar um trabalho não é atividade tão simples como se parece, uma vez que temos de estabelecer fronteiras espaço/temporais, cujos objetivos é não perder de vista o foco do trabalho.
(1) Professor Mestre - Departamento
de Letras - Faculdade de Presidente Prudente - FAPEPE - Avenida Presidente
Prudente, 6093 - Jardim Aeroporto - Presidente Prudente - CEP: 19053-210, São
Paulo, Brasil. A pesquisa que resultou neste artigo não contou com
financiamento de qualquer agência de fomento. E-mail: tygerstone@ig.com.br
FACES DA HISTÓRIA, Assis-SP, v.4, nº2,
p. 58-72, Jun.-Dez., 2017.
A priori, havíamos pensado em realizar um estudo diacrônico em relação ao assunto posto, ou seja, realizar-se-ia um levantamento sobre a homossexualidade desde a Grécia Antiga aos nossos dias. Todavia, haver-se-ia muito trabalho para tão pouco tempo. Em seguida, procuramos delimitar espaço/tempo para não perder de vista o objetivo da pesquisa, realizando, por sua vez, um estudo sincrônico. Dessa forma, neste estudo limitamos em estudar as práticas homoeróticas masculinas na Grécia Antiga, cujo objetivo foi descrever como o relacionamento homoerótico era concebido na sociedade helênica da época. Além disso, procuramos responder a indagações como: por que os atenienses aceitavam a homossexualidade tão prontamente, conformando-se com tanta satisfação a esse hábito; como a homossexualidade era integrada à heterossexualidade, e como a avaliação moral e estética de comportamentos homossexuais se relacionava com valores da sociedade grega clássica de um modo geral. Como apontam Vieira, Peixoto e Khoury (2011, p. 33), “[...] quando priorizamos responder a questões colocadas pela própria experiência, demonstram interesse em dar respostas a questões levantadas em sua atividade profissional, militância política ou problemas colocados pelo cotidiano”. De acordo com as autoras, anualmente os alunos se interessam pelas questões do ensino e da pesquisa seja por fatos relacionados a movimentos sociais, seja por setores marginalizados da população – homossexual, negro, indígena, mulher, entre outros. Nesse sentido, o presente trabalho justifica-se por tentar expor de forma clara como a homossexualidade, algo que inquieta muitos ainda hoje, era vista sob a óptica grega. A pesquisa científica nunca foi tão valorizada na história da humanidade quanto ela é hoje. Na Idade Média, a pesquisa ficou engessada, porque tudo o que a sociedade seguia era o que era imposto pela igreja. Desde então, a ciência vem ganhando espaço e, hoje, nós estamos em uma sociedade baseada no método científico de gerar conhecimento. No tocante à metodologia e aos procedimentos técnicos metodológicos, Gil (2009) cita quatro principais elementos que norteiam a pesquisa: i) a natureza, ii) forma de abordagem, iii) objetivos e iv) procedimentos técnicos. Referente à natureza, o trabalho enquadra-se em uma pesquisa básica, pois objetiva gerar conhecimentos novos úteis para o avanço da ciência sem aplicação prática. Quanto à forma de abordagem, trata-se de uma pesquisa qualitativa, ou seja, considerando que há uma relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, não pode ser traduzida em dados estatísticos. No que diz respeito aos objetivos, é uma pesquisa exploratória, já que envolve levantamento bibliográfico. Finalmente, quanto aos procedimentos técnicos, corresponde a uma pesquisa bibliográfica, pois será elaborada a partir da recuperação de estudos realizados no meio acadêmico-científico. O trabalho, desse modo, corresponde a uma pesquisa bibliográfica e descritivoqualitativa, amparada por estudos de DOVER (2007); HALPERIN, WINKLER, ZEITLIN (1990); PLATÃO (2011), CALLAGHER (1990) e FOUCAULT (1988). Sendo assim, o artigo encontra-se configurado em três seções: i) a construção social da sexualidade, ii) o “banquete” de Platão e, por fim, iii) a homossexualidade na Grécia Antiga, além das considerações finais que recuperam e dialogaram com os assuntos que envolveram o presente estudo.
A
construção social da sexualidade
Diferentemente
dos outros seres vivos, que já nascem programados para a vida a partir de uma
carga de informações genéticas que os informa como se comportar e agir perante
as diferentes situações, o ser humano vem ao mundo desprovido de tudo isso.
Segundo BRASIL (2002, p. 15), “o modo de se comportar e de agir nos é dado
socialmente: aprendemos com nossos pais, com a comunidade da qual fazemos parte
e na escola.” Nesse sentido, podemos nos remeter a uma fala de Paulo Freire,
cujas palavras afirmam que não somos simples folhas de papel em branco, nas
quais a sociedade escreve uma história, visto que recriamos e reinventamos o
que nos é oferecido – a cultura. Por essa razão, a humanidade é tão plural!
Atualmente, com a rápida circulação de imagens e informações em revistas,
televisão e internet, percebemos, cada vez mais, como diferentes sociedades vêm
desenvolvendo modos diversos de existir no mundo. A sexualidade assume formas
diversas de acordo com as culturas e com o que a trajetória pessoal e a
criatividade individual determinam.
Cada sociedade possui um conjunto de regras, de padrões de comportamento e de concepções sobre o que é e para que serve a sexualidade. Tal conjunto de regras e padrões, que é informado, apreendido e utilizado pelos indivíduos, constitui o que chamamos de cultura sexual (BRASIL, 2002, p. 16).
Essa
cultura sexual informará, entre outras coisas, quem pode e, consequentemente,
quem não pode fazer sexo com quem, em termos de parentesco, de idade e de
status social, dentre outros indicadores. Tomando alguns exemplos de diferentes
sociedades, vemos que, no início do século XX no Brasil, entre nossos avós, era
comum o casamento de homens mais velhos com mulheres mais novas, cujas idades
variavam entre 12 e 15 anos, as quais logo iniciavam a vida sexual e
reprodutiva. Hoje, a gravidez na adolescência é considerada, na maioria das
vezes, um problema. Observamos, portanto, que os padrões mudam com o tempo e de
acordo com os diferentes espaços geográficos e culturais. De acordo com BRASIL
(2002, p. 25), na Nova Guiné, entre os Baruia, o sexo oral entre homens de
diferentes gerações e status é uma regra social e culturalmente aceita. Nesse
grupo cultural existe a crença de que a energia vital é transmitida pelo
esperma. Dessa forma, os homens mais novos, assim como as mulheres devem ser
alimentados pelos homens mais velhos com essa energia. Na Grécia Antiga,
sociedade sobre a qual este trabalho se debruçará, entre os atenienses, “apenas
os homens eram considerados cidadãos e tinham, portanto o direito e acesso ao
conhecimento” (BRASIL, 2002, p. 17). A partir dessa situação, “era comum e
legítimo o relacionamento sexual entre o professor e o aluno, considerado
o relacionamento mais sublime entre dois homens” (ibidem). A partir desses
exemplos, podemos verificar que a sexualidade é socialmente construída e, desse
modo, é passível de assumir várias formas, de modo que os padrões e as regras
mudam com o decorrer do tempo e da história e de acordo com distintos grupos
sociais.
Questões
de terminologia
Nas palavras de Gallagher (1990, p. 38), o termo homossexual significa mesmo sexo, podendo ser utilizado para denominar todo relacionamento com membros do mesmo sexo. Na prática seu uso é mais restrito. Uma definição de homossexualidade, sob este ponto de vista, poderia ser – “uma predominante, continuada e exclusiva atração psicossexual por membros do mesmo sexo.” (MACMILLAN, 1978, p. 667 apud GALLAGHER, 1990, p. 13). Segundo o autor, é exatamente ao nível da definição que encontramos nossas primeiras dificuldades em abordar a homossexualidade. A tentativa de categorizar os seres humanos em duas categorias mutuamente excludentes – heterossexuais e homossexuais – maioria e minoria, respectivamente, é uma simplificação demasiada e conduz a atitudes duvidosas, de acordo com ele. A natureza complexa da experiência sexual humana desafia qualquer divisão absoluta nesse sentido. Tendências homossexuais são um estágio no desenvolvimento de grande número de pessoas. Conforme Gallagher (1990, p. 14),
[...]
preferência sexual e comportamento sexual nem sempre são a mesma coisa. Entre
os extremos da heterossexualidade exclusiva e da homossexualidade exclusiva há
uma sequência de atitudes sexuais e de condições que não podem ser expressas
com exatidão pelo uso unívoco do termo comportamento homo (igual) ou hétero
(diferente) sexual.
Há,
além disso, segundo o que diz o autor, uma distinção entre a condição
homossexual, que seria atração exclusiva por pessoas do mesmo sexo e atos
sexuais, que corresponde a atos sexuais entre pessoas do mesmo sexo. Sendo
assim, a classificação simples de alguém como homossexual ou heterossexual não
é plenamente acurada ou de acordo com as possibilidades de desenvolvimento
inerentes a cada pessoa.
O
surgimento do termo
Para
Foucault (1988, p. 53), um dos pontos mais provocativos em sua obra é afirmação
de que o homossexual, enquanto categoria tem data de nascimento: 1870, com o
artigo de Carl Westphal – As sensações sexuais contrárias. É importante
salientarmos que o autor não disse que o homossexual tem data de nascimento, ou
seja, não significa que homens não faziam sexo com homens antes dessa data.
Isso por que, conforme Magnavita (2012, p. 18),
A homossexualidade é datada desde a Grécia Antiga, e não causava espanto. Passou a ser considerada uma doença misteriosa, sendo registrada no catálogo internacional de doenças no século XX. Essas implicações e pré-conceitos só foram abandonados após a década de 1990, quando deixou de ser considerada uma patologia.
A diferença fundamental é que, a partir do século XIX, o discurso vigente falava a respeito de uma espécie ou até mesmo de categoria de criatura denominada: homossexual. De acordo com Foucault (1988, p. 53), antes de 1870, havia a recriminação contra atos homossexuais, mas supostamente não se aventava que existisse algo como homossexual substantivado. Segundo o autor, um indivíduo que praticasse o coito homoerótico não era rotulado como pertencente a uma subclasse específica da humanidade. Era simples. Bastava que ele, após o ato confessional, redimisse-se a partir de práticas consideradas purificadoras. Dessa forma, podemos dizer que o sujeito não era algo, mas sim tinha feito algo. O investimento das instituições de poder vigentes, a Igreja, por exemplo, limitase a prescrever orações como forma de redenção contra o ato considerado pecaminoso. Embora saibamos, por meio da História, que nos séculos XVI e XVII, muitos tenham sido mortos pela Inquisição, por conta de práticas homossexuais. A partir de 1870, ocorre uma mudança de paradigma: nasce o conceito de homossexual, alguém com uma diferenciação de desejo que abarcava todo o seu ser. Quando Foucault (1988, p.55) afirma que o homossexual é construído, ele não está afirmando que as pessoas se tornam homossexuais por conta de influências ambientais. O fato é que se descobrir desejando o mesmo sexo a partir da data em questão, passou a ter uma implicação diferenciada, ou seja, o sujeito não estava apenas tendo um desejo, mas ele se descobria parte de um subconjunto, como denomina o autor, da humanidade. Enfim, essa marca recaía sobre o sujeito como um ferro de marcar gado. Afinal, ele pertencia a uma classe que havia se tornado alvo de estudo científico. Desse modo, não era ele quem dizia de si, e de seu desejo, mas as autoridades da época. Todavia cabe dizer que a origem do termo – homossexual – apresenta controvérsias e cabe-nos discorrer sobre outro ponto de vista em relação ao surgimento da expressão. A preocupação científica com o homossexual teve início no século XIX. A expressão homossexual foi criada em 1848, segundo Rodrigues (2004, 47), pelo psicólogo alemão Karoly Maria Benkert. De acordo com o autor, sua definição para o termo recaía “além do impulso sexual normal dos homens e das mulheres, a natureza, do seu modo soberano, dotou à nascença certos indivíduos masculinos e femininos do impulso homossexual (...). Esse impulso cria de antemão uma aversão direta ao sexo oposto”. (RODRIGUES, 2004, p. 24). Conforme aponta Rodrigues (2004, 47), em 1897 o inglês Havelock Ellis publicou o primeiro livro médico sobre homossexualismo em inglês, Sexual Inversion (2). Como muitos da época, ele defendia a ideia de que a homossexualidade era congênita e hereditária. A opinião científica, médica e psiquiátrica vigente era de que a homossexualidade era uma
(2)
Tradução em Língua Portuguesa: Inversão sexual.
Doença resultante de anormalidade genética associada a problemas mentais na família. A teoria, junto às ideias emergentes sobre pureza racial e eugenismo nos anos 1930, torna fácil entender por que a lobotomia(3) foi indicada para os homossexuais. Finalizada essa seção, trataremos de algumas discussões sobre o assunto contidas na obra O Banquete de Platão.
O “banquete” (Συμπόσιον, Sympósion) de Platão Quanto ao aspecto moral da prática da pederastia, houve uma investigação bastante atenta pela própria sociedade grega antiga, de modo que enquanto algumas de suas características foram consideradas repugnantes, outras foram consideradas como o melhor que a vida poderia ofertar. Nas Leis (4) do filósofo Platão, o coito anal entre homens é descrito como contrário à natureza, segundo o autor há a necessidade de uma lei que corrobore com a proibição de tal comportamento, sendo sua proposta provavelmente deferida como correta. Antes de iniciarmos uma discussão sobre a obra, façamos uma breve apresentação do autor: Platão Πλάτων (amplo) (5) nasceu em Atenas, por volta de 427 a.C., numa família aristocrática. Viveu oitenta anos e escreveu inúmeras obras, de maneira dialogada, em que Sócrates, seu mentor, corresponde, geralmente, ao principal interlocutor. No diálogo O Banquete, Platão trata do amor, mediante os diálogos dos participantes de uma festa, os quais intervêm sucessivamente, cada qual expondo a sua teoria sobre o assunto. A obra O Banquete, também conhecida como Simpósio (em grego antigo: Σμπόσιον, transl. Sympósion) (6) é um diálogo platônico escrito por volta de 380 a.C.
Configura-se basicamente de uma série de discursos sobre a natureza e as qualidades do amor - Eros. O Banquete é, juntamente com o Fedro, um dos dois diálogos de Platão em que o tema principal é o amor. Tò sumpósion (7), em grego, é em geral traduzido como O Banquete, mas, no sentido atual, corresponderia a uma festa entre, nas quais, normalmente, bebese mais do que se come. Trata-se, portanto, de uma celebração na casa de Agaton, poeta trágico ateniense. Sócrates é o mais importante dentre os homens presentes. Entre outros, também participam Aristodemo, amigo e discípulo de Sócrates; Fedro, o jovem retórico; Pausânias, amante de Agaton; o médico Erixímaco; Aristófanes, comediante que ridicularizava Sócrates e o político Alcibíades. Procuramos destacar nesta seção os argumentos dos intervenientes relativos à homossexualidade dispostos na obra em questão. A antiguidade grega, a que pertenceu Platão, caracterizava-se pelo politeísmo, isto é, crença em diversos deuses. Nessa concepção, a cada um atribuía-se a responsabilidade por determinados fenômenos, como, por exemplo, o deus Amor, responsável pelo sentimento de afeição entre as pessoas; assinalava-se, ainda, pela bissexualidade masculina, em que se aceitavam as relações sexuais de homens tanto com mulheres como entre homens, e pela pederastia, relacionamento entre o erastes e o eromenos: aquele, sendo o mais velho por volta de 25 anos, procurava um rapaz entre 12 e 15 anos (o eromenos), a quem, sob a aprovação dos respectivos pais, servia de amigo e educador até os seus 18 anos, quando a relação passava a ser de amizade, exclusivamente, sem conteúdo sexual que, de resto, não compreendia penetração anal e sim o coito intercrural (8).
Autor da primeira fala do texto de Platão, Fedro, concebe o Amor como o mais antigo dos deuses e o que mais benefícios propiciam aos homens, o mais apto para felicitar o ser humano e torná-lo virtuoso, durante a sua vida e após a sua morte, “pois, diz ele, não conheço vantagem maior para um jovem do que ter um amante virtuoso”. O Amor inspira o que é necessário para levar-se uma vida honrosa, a saber, a vergonha do mal e o desejo do bem: se um Estado ou um exército se compusessem apenas de amantes e de amados, não haveria povo que professasse tanto horror ao vício e apreciasse tanto a busca da virtude.
Fedro defende seu posicionamento, dizendo que “assim, pois eu afirmo que o Amor é dos deuses o mais antigo, o mais honrado e o mais poderoso para a aquisição da virtude e da felicidade entre os homens, tanto em sua vida como após sua morte” (PLATÃO, 2011, p.20).
Nesse ensejo, Lacerda Neto (2008, p. 20), diz que homens unidos assim, ainda que poucos, poderiam vencer aos demais: nenhum deles desejaria ser observado pelo seu amante, em rendição ou em debandada; ao contrário, preferiria morrer mil vezes a abandonar em perigo o seu bem-amado e deixá-lo sem auxílio. Por isso, unicamente os amantes são os que sabem morrer um pelo outro, trate-se de homens ou de mulheres, como foi o caso de Aquiles, que defendeu Pátroclo, vingou-o à custa da própria vida e morreu-lhe sobre o corpo, abnegação pela qual os deuses tributaram-lhe mais honras do que a qualquer outro homem.
A seguir, Pausânias distingue dois tipos de amor, o popular e o celestial, dos quais o primeiro inspira baixezas, devem-se louvar todos os deuses e dizer o dom de cada um, pois as ações, em si mesmas, não são nem belas nem feias, mas sim na maneira como são feitas, que resulta a beleza ou a feiura, isto é, “o que é belo e corretamente feito fica belo, o que não o é fica feio” (PLATÃO, 2011, p.21).
Dessa forma, “o amar e o Amor não é todo ele digno de ser louvado, mas apenas o que leva a amar belamente” (Ibidem). Por sua vez, o amor celestial inspira necessariamente o amor aos homens, especificamente aos jovens, cuja inteligência principia a desenvolver-se, ou seja, os adolescentes. Segundo Lacerda Neto (2008), o seu objeto não é o de aproveitar-se da imprudência de um jovem amigo e seduzi-lo para deixá-lo depois, e, rindo-se da sua vitória, correr em busca de outro qualquer; unem-se com o pensamento de não se separarem mais e de passarem toda a vida com o que amam. A despeito das relações sexuais, segundo Dover (2007), entre os amantes masculinos, pondera que na Élida e na Beócia, é bom conceder os seus favores a quem nos ama; a ninguém, jovem nem velho, isto parece mal, enquanto na Jônia e nas regiões submetidas ao domínio dos bárbaros - os persas, tal costume reputa-se vergonhoso e proscrito, juntamente com a filosofia e a ginástica. É porque os tiranos, indubitavelmente, não querem que entre os seus súditos surjam indivíduos de grande valor, nem amizades nem uniões vigorosas, que são as que formam o Amor. Assim, diz Lacerda Neto (2008, p. 26) que nos Estados em que se considera vergonhoso conceder os seus favores a quem nos ama, procede esta severidade da iniquidade dos que a estabeleceram, da tirania dos governantes e da covardia dos governados.
Enquanto em Atenas, preferia-se amar claramente a fazê-lo à socapa (9), e aos homens virtuosos e generosos, mesmo que desprovidos de beleza; reputava-se belo conquistar-se o afeto do amante e humilhante não o obter, propósito para o qual se admitiam todos os meios possíveis: súplicas, lágrimas, juras, baixezas, que em outras circunstâncias, seriam vexatórias, e que, no caso do amante, seria espetacular.
Todos,
naquela cidade, achavam-se persuadidos de ser louvável amar e ser amigo do
amante. Não é honroso, prossegue Pausânias, concederem-se favores sexuais a um
homem vicioso e por maus motivos, sendo-o, em contrapartida, fazê-lo por boas
causas, a um homem praticante da virtude. É homem vicioso o amante que ama o
corpo, de preferência à alma: seu amor não poderá ser duradouro, pois ama algo
que não dura, porém o amante de uma bela alma permanece fiel por toda a vida
porque ama o que é duradouro; por isto, os costumes induzem a que se examine a
pessoa no que diz respeito ao seu caráter e ao seu comportamento, antes de
comprometer-se com ela. Também se considerava decoroso um indivíduo servir
sexualmente a quem o amava, retribuindo-o a priori, se desejasse adquirir
conhecimento e instrução, ao segundo, se capaz, este, de infundir-lhe ciência e
virtude.
Toma
a palavra Aristófanes, que explica a origem da homossexualidade tanto masculina
como feminina, assim como da heterossexualidade. Segundo ele, havia três tipos
de seres humanos, dos quais, um correspondia aos homens; outro, às mulheres, e
um terceiro, a uma criatura mista, masculina e feminina, denominada de
andrógino. Todos os humanos apresentavam-se como duplos, dotados de quatro
braços, outro tanto de pernas e duas faces em uma só cabeça, até Júpiter
desmembrá-los, transformando-os em criaturas singulares. A partir disso, cada
metade procura a outra, que lhe corresponde; ao se encontrarem, copulam entre
si, uma metade masculina com a feminina, ou duas masculinas ou duas femininas,
o que originou, respectivamente, os heterossexuais, as tríbades (10) e
os homossexuais.
De
acordo com Lacerda Neto (2008, p. 28), os homens procedentes da separação dos
homens primitivos, buscam, reciprocamente, o sexo masculino. Enquanto são
jovens amam aos homens, desfrutam deitando-se com eles, por estar em seus
braços são os mais destacados entre os adolescentes e os adultos, como se
possuíssem uma natureza muito mais viril. Sem razão alguma, acusasse-os de não
terem pudor, e não é por falta de pudor que procedem assim; é porque possuem
uma alma corajosa e valor e caráter viris, que buscam aos seus semelhantes, e a
prova disto é que, com a idade, mostramse mais aptos para o serviço do Estado
do que os outros. Ao chegarem à idade adulta, amam, por conseguinte, aos
adolescentes e aos jovens, e se se casam e têm filhos, não é por seguir os
impulsos da sua natureza, senão porque a lei os constrange a tal. O que eles
querem, é passar a vida em celibato, juntos uns dos outros. Quando um desses
homens encontra o outro ou a sua metade, características como a simpatia, a
amizade e o amor despontam em ambos, sem que os prazeres libidinosos ou
devassos pareçam corresponder à causa disto. Graças ao amor, continua
Aristófanes, os homens e as mulheres serão felizes se encontrarem a sua metade
e retornarem ao seu primitivo estado de união que, se correspondia ao melhor, o
que mais se aproximar dele deve equivaler, necessariamente, também ao melhor.
Concluída a fala de Aristófanes, reúne-se Alcebíades ao grupo dos convidados,
para alarme de Sócrates, que interpelou a Agaton, o anfitrião, alegando que o
amor de Alcebíades é um verdadeiro apuro. Sócrates dizia que, desde que passou
a amá-lo, não pôde observar nem falar a nenhum outro jovem, sem que, por
despeito ou zelos, entregasse a excessos incríveis.
Após
enaltecer as qualidades de Sócrates, observa Alcebíades: “Vede o ardente
interesse que Sócrates demonstra pelos belos mancebos e adolescentes e com que
paixão busca por eles, e até que ponto eles o cativam”. Supondo Alcebíades que
Sócrates interessava-se pela sua beleza, acreditou que, cedendo-se a ele
sexualmente, ele comunicaria o seu conhecimento: tentou seduzi-lo em diversas
circunstâncias, sem sucesso, até resolver expor-lhe os seus intuitos:
Penso
que tu és o único amante digno de mim e parece-me que não te atreves a
revelar-me os teus sentimentos. Da minha parte, posso assegurar-te que seria
bem pouco razoável se não buscasse comprazê-lo nesta ocasião, como em qualquer
outra em que pudesse ficar-lhe agradecido, por mim próprio, como por meus
amigos. Não tenho maior empenho do que aperfeiçoar-me o quanto me seja possível
e não vejo ninguém cujo auxílio para isto possa serme mais proveitoso do que o
teu (PLATÃO, 2011, p.23).
Com
a resposta de Sócrates, conforme aponta Lacerda Neto (2008, p. 30),
ponderando-lhe que trocariam valores desiguais, o da beleza física pela
aquisição da sabedoria, após o que, Alcebíades apressou-se a abraçá-lo e
passaram juntos à noite. Em seguida, Sócrates desdenhou-lhe da beleza e
insultou-a, o que originou queixas de Alcebíades, das quais, e dos abundantes
elogios que formulou a Sócrates, resultou, da parte dos comensais, a impressão
de que prosseguia encantado por ele. Terminada a presente seção, sigamos para
última, cujo objetivo é tratar da homossexualidade na Grécia Antiga, ampliando
alguns dos pontos já apresentados nessa seção.
(3)
Lobotomia: Desenvolvida pelo neurocirurgião português António Egas Moniz,
consistia em uma técnica cirúrgica que cortava um pedaço do cérebro dos doentes
psiquiátricos, mais precisamente nervos do córtex pré-frontal.
(4)
Para maiores esclarecimentos consultar: Platão. As Leis. Tradução de Edson
Bini. São Paulo: Edipro, 1999.
(5)
Platão, 427-347 a. C. O Banquete. Porto Alegre-RS: L&PM, 2011.
(6)
Ibidem.
(7)
Ibidem.
(8)
Vocábulo do latim inter (entre) e crus (pernas), também conhecido como sexo
femoral ou sexo interfemoral, consiste em uma série de posições sexuais com e
sem penetração em que um dos participantes coloca seu pênis entre as pernas do
outro (muitas vezes com lubrificação), onde ambos obtêm prazer mediante a
fricção genital resultante, simulando o coito com penetração.
(9)
Socapa: fazer de maneira disfarçada, às escuras.
(10)
Tríbade: adeptos ao tribadismo, ou seja, corresponde à homossexualidade
feminina, em que a relação se dá pelo atrito dos órgãos genitais.
A
homossexualidade na Grécia Antiga
O
relacionamento homoerótico na Grécia Antiga teve seus aspectos explorados por
diversos autores da Antiguidade Clássica, tais como Heródoto, Ateneu, Xenofonte
e Platão, este último sobre o qual discorremos na seção anterior. A maneira
mais conhecida e socialmente significativa de relação sexual entre indivíduos
do mesmo sexo na Grécia era entre homens adultos e jovens, conhecida como
pederastia; os casamentos heterossexuais, da mesma maneira, eram geralmente
arranjados de acordo com as idades dos cônjuges, envolvendo homens na faixa dos
trinta anos de idade casando com garotas no início da adolescência. Não se
conhece com precisão sobre as relações homoeróticas envolvendo mulheres na
sociedade geral grega, porém existem exemplos que datam desde pelo menos a
época da poetisa Safo. Segundo Dover (2007, p. 14), “as informações que temos a
respeito de qualquer forma de sexualidade feminina são pouquíssimas em
comparação com a grande abundância de testemunhos acerca da homossexualidade
masculina.” Ademais, cabe dizer que o teor do presente trabalho debruçar-se-á
apenas nas relações homoeróticas masculinas. Conforme aponta Dover (2007, p.
14), a forma mais comum de relações homoeróticas entre homens na Grécia Antiga
era a paiderastia - pederastia - (amor de/por garotos). Após os 12 anos de
idade, desde que o adolescente concordasse, transformava-se em um parceiro
passivo até por volta dos 18 anos, com a aprovação de sua família. Normalmente,
dos 25 aos 30 tornava-se um homem, logo se esperava que assumisse o papel
ativo. Tratava-se, como já exposto, da relação homoerótica entre um homem mais
velho e um adolescente. Em Atenas, o indivíduo mais velho era chamado de
erastes, e sua função era a de proteger, amar e agir como um exemplo para seu
amado - chamado de eromenos, cuja recompensa para seu amante estaria em sua
juventude, beleza e potencial. De acordo com Halperin, Winkler e Zeitlin (1990,
p. 18) havia protocolos sociais complexos, a fim de proteger os jovens da
vergonha associada com o ato de serem penetrados sexualmente. Em outros termos,
segundo os autores, o eromenos devia respeitar e honrar o erastes, mas não
desejá-lo sexualmente. Embora ser cortejado por um homem mais velho fosse,
consideravelmente, um rito de passagem para os rapazes, um jovem que fosse
visto correspondendo o desejo erótico de seu erastes poderia sofrer um
considerável estigma social. Em Esparta, quando o menino entrava em apuros, as
autoridades procuravam, como responsável, o seu erastes e não o pai. Era esta característica
de muitas sociedades guerreiras. Havia entre eles o costume do guerreiro, entre
18 e 25 anos, manter em sua companhia um menino, com o qual copulava entre as
coxas, não uma mulher, uma vez que não eram permitidas no acampamento. Quando
seu período de serviço militar era concluído, o jovem presenteava o menino com
armas, um escudo e lança, e depois partia e se casava. Em outras palavras, com
os gregos, ele passava por uma fase homossexual, que a um ponto socialmente
determinado era interrompida, e depois tornava-se heterossexual. Nesse sentido,
Dover afirma:
[...]
a cultura grega diferia da nossa em sua aceitação da alternância de preferência
homossexuais ou heterossexuais num mesmo indivíduo, e sua negativa implícita de
que esta alternância ou coexistência criasse problemas específicos para o
indivíduo ou para a sociedade (DOVER, 2007, p. 13).
O
autor ainda complementa apontando que os gregos tinham consciência de que os
indivíduos diferem em suas preferências sexuais, mas sua língua não tinha
substantivos correspondentes a um homossexual ou um heterossexual, uma vez que
eles consideravam que virtualmente todos respondem, em momentos diferentes a
estímulos homossexuais e heterossexuais. Além disso, “nenhum homem penetra
outros homens e se submete à penetração por outros homens numa mesma fase de
sua vida” (DOVER, 2007, p. 126). Os gregos antigos não concebiam a ideia de
orientação sexual como um identificador social, do mesmo modo que as sociedades
ocidentais vêm fazendo ao longo do último século. A sociedade grega não
distinguia entre desejo e comportamento sexual com base no gênero de seus
participantes, mas sim pela extensão com que tais desejos ou comportamentos se
conformavam às normas sociais, que eram baseadas, por sua vez, no gênero, idade
e status social. Todavia, há pouco material a respeito de como as mulheres viam
a atividade sexual, isso pelo fato de as mulheres não terem representação
social e serem consideradas seres inferiores. Dias (2010, p. 32) apresenta um
recorte sobre o relacionamento homoerótico na Antiguidade aludindo a deuses,
reis e heróis, afirmando que:
Na
Grécia, o livre exercício da sexualidade fazia parte do cotidiano de deuses,
reis e heróis. O mais famoso casal da mitologia grega era formado por Zeus e
Ganimede. Lendas falam do amor de Aquiles por Pátroclo e dos constantes raptos
de jovens por Apolo. Até hoje, se indaga sobre o caráter e a importância de
tais práticas, se perversão admitida, instituição pedagógica ou ritual
iniciatório, sendo questionado se tais hipóteses seriam excludentes entre si. A
bissexualidade estava inserida no contexto social, e a heterossexualidade
aparecida como preferência de certo modo inferior e reservada à procriação.
Vista como uma necessidade natural, a homossexualidade restringia-se a
ambientes cultos, como manifestação legítima da libido, verdadeiro privilégio
dos bem-nascidos. Não era considerada uma degradação moral, um acidente ou um
vício. Todo indivíduo poderia ser homossexual ou heterossexual, dois termos,
por sinal, desconhecidos na língua grega. Nas Olimpíadas, os atletas competiam
nus, exibindo sua beleza física. Era vedada a presença das mulheres nas arenas,
por não terem capacidade para apreciar o belo. Também nas representações
teatrais, os papéis femininos eram desempenhados por homens travestidos ou
mediante o uso de máscaras (DIAS, 2010, p. 35).
Em
relação à Esparta, esta é a posição de Vecchiatti (2008, p. 44):
Já
na cidade-estado de Esparta, cuja sociedade dava mais ênfase ao desenvolvimento
militar do que ao cultural, a visão do amor entre homens tinha um enfoque um
pouco diferenciado. Era ela estimulada dentro do exército espartano, para
torná-lo ainda mais eficiente. Isso se explica por um simples fato: com a
existência constante de relacionamentos homoafetivos dentro do exército, quando
este ia para a guerra, o soldado estaria lutando não apenas por sua
cidade-estado, mas igualmente para proteger a vida de seu amado, o que,
obviamente, aumentaria o grau de dedicação do combatente.
Como
pudemos observar nos fragmentos supramencionados, a peculiaridade
das sociedades gregas era a segregação da população masculina cidadã em
acampamentos e cantinas. A deliberada privação da autoridade dos pais de
famílias, e a sua transferência para o grupo de maior idade, e àqueles aos
quais era delegada a responsabilidade pelos vários grupos etários de meninos,
adolescente, jovens e homens mais velhos. A sociedade espartana, por exemplo,
era permanentemente organizada como um exército em treinamento. Os gregos
antigos, segundo Dover (2007), no contexto das cidades-Estado pederásticas
corresponderam aos pioneiros a estudar, a sistematizar, a descrever e a
estabelecer a pederastia como uma prática sócio-educacional, ou seja, uma
prática pedagógica que, de acordo com seus princípios, o jovem que cumprisse
com essa trajetória estaria preparado para ser um cidadão grego por completo.
Era um aspecto importante da vida militar, civil, artística e filosófica. Ainda
existem debates entre os estudiosos sobre o quanto essa prática era difundida
entre as classes sociais ou se estava limitada à aristocracia.
Considerações
finais
Na
Grécia antiga, a homossexualidade não equivalia ao que modernamente designa-se
por este vocábulo: na atualidade, ele indica a atração de homens por homens e a
sua consequência propriamente sexual, a penetração do pênis no reto, ao passo
que na Grécia antiga a cópula homossexual considerava-se desprezível e somente
se admitia entre um grego e um jovem, respectivamente nos papéis de ativo e
passivo. A assim chamada homossexualidade grega encarnava um costume altamente
moral de finalidade educadora; a intimidade física entre o erastes e o eromenos
verificava-se no âmbito de uma relação, antes de tudo, formadora do caráter do
mais moço, em que o mais velho desempenhava um papel significativo na
transmissão de valores. Nada disso se reproduziu nas demais sociedades, ao
longo da história. Longe de encarnar uma simples forma de satisfação genital, a
pederastia grega encarnou uma elevada espécie de relacionamento humano que
muitos autores verberaram por ignorarem o seu aspecto educador ou, mais
provavelmente, por entenderem-no como licença institucionalizada à penetração
anal, o que, na verdade, não o caracterizava. O advento do cristianismo
provocou a censura da homossexualidade, o fim da pederastia grega, e a
instauração da homofobia que por séculos vem caracterizando as sociedades
ocidentais. Independentemente de classe social, raça, religião ou postura
política, o amor homossexual sempre esteve presente na História. Segundo
Foucault (1988), não existe povo na terra onde a homossexualidade não se
manifeste. O presente artigo objetivou mostrar como a relação homoerótica era
encarada e considerada como prática pedagógica pelos helênicos. Ademais, versou
como a homossexualidade era encarada pela sociedade grega clássica, de modo
que, para o propósito desta pesquisa, a homossexualidade foi definida como a
disposição para buscar prazer sensorial através do contato corporal com pessoas
do mesmo sexo. A finalidade era que experiência e sabedoria fossem transmitidas
por meio dessa prática, considerada pelos gregos como um ritual de passagem.
Certamente, para outros propósitos, esta definição poderá parecer inadequada e
superficial, mas a cultura grega diferia da nossa em sua aceitação da
alternância de preferências homossexuais e heterossexuais num mesmo indivíduo,
e em sua negativa implícita de que esta alternância ou coexistência criasse
problemas específicos para o indivíduo ou para a sociedade. Evidentemente, aos
olhos da sociedade moderna, essa prática receberia outra nomenclatura, sendo
considerada crime. O helenista inglês Kenneth J. Dover, cuja obra é uma das
referências neste trabalho, baseou sua análise das contradições da
homossexualidade masculina nas representações de ânforas, vasos ilustrados que
os gregos eram mestres em produzir. O autor mostrou que a sociedade grega era
francamente favorável ao relacionamento entre dois homens, embora aquele que
penetrasse fosse considerado mais viril. Segundo ele, o homem adulto perseguia
os mais jovens, mas sexo entre homens da mesma idade era algo escandaloso. A
homossexualidade grega lícita era sempre entre um adulto e uma criança ou jovem
adolescente. Segundo Naphy (2004) em toda a história e em todo o mundo a
homossexualidade tem sido um componente da vida humana. Desse modo, aos olhos
do autor, não pode ser considerada antinatural ou anormal. Não há dúvida de que
a homossexualidade é e sempre foi menos comum do que a heterossexualidade.
Entretanto, a homossexualidade é claramente uma característica muito real da
espécie humana. Para muitos, ainda hoje o continua sendo uma questão de tempo.
Ao longo do trabalho, tentamos discorrer sobre algumas inquietações e
procuramos responder por que os gregos aceitavam a homossexualidade tão
prontamente, conformando-se, com tanta satisfação. Essa prática, considerada
pedagógica pela Grécia Antiga, corresponde a algo que era aceito porque seus
pais, tios, avós e demais gerações anteriores também aceitavam. Esses valores
eram transferidos pela sociedade como um estágio, pelo qual os jovens gregos
haveriam de passar, a fim de que se tornassem homem por completo. Nenhuma
discussão que vise demonstrar que a homossexualidade de um modo geral é natural
ou contrária à natureza, saudável ou doentia, legal ou ilegal, de acordo com a
vontade de Deus ou contra ela, demonstra se determinado ato homossexual é
moralmente certo ou moralmente errado.
PLATÃO.
As Leis. Tradução de Edson Bini. São Paulo: Edipro, 1999. ______. O banquete.
Trad. Donaldo Schüler. Porto Alegre-RS: L&PM, 2011, 176 p. (Coleção
L&PM POCKET, v.711).
Bibliografia
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas Públicas e Saúde.
Coordenação Nacional de DST e Aids. Guia de prevenção das DST/AIDS e cidadania
para homossexuais. Brasília: Ministério da Saúde, 2002.
DIAS,
Maria Berenice. Manual do Direito das Famílias. 6. ed. rev. atual. e ampl. São
Paulo: Revista dos Tribunais, 2010.
DOVER,
Kenneth James. A homossexualidade na Grécia Antiga. Trad. Luís Sérgio Krausz.
São Paulo: Editora Nova Alexandria, 2007.
FOUCAULT,
Michel. História da sexualidade: a vontade de saber. 17. ed. Rio de Janeiro:
Edições Graal, 1988.
GALLAGHER,
Raphael. Compreender o homossexual. Trad. Victor Hugo Silveira Lapenta. São
Paulo: Editora Santuário, 1990. GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de
pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2009.
HALPERIN,
David; WINKLER, John; ZEITLIN, Froma. Before sexuality. Princeton University
Press, 1990. LACERDA NETO, Arthur Virmond de. A homossexualidade em Platão.
Revista Lado A: para pensar. Disponível em:
(Fonte
do artigo: FACES DA HISTÓRIA, Assis-SP, v.4, nº2, p. 58-72, Jun.-Dez.,
2017 )
Adendo e discussão (pelo Blogmaster)
Notas
do blogmaster
A
obra O Banquete, também conhecida como Simpósio (em grego antigo: Σμπόσιον,
transl. Sympósion) (6) é um diálogo
platônico escrito por volta de 380 a.C.
jovem servindo vinho num banquete (Sympósion; WP)
O Banquete de Platão, representado por
Anselm Feuerbach (1873),
Alte Nationalgalerie, Berlim (WP)
O
eromenos era um adolescente do sexo masculino envolvido em uma relação amorosa
com um homem adulto, denominado erastes. O relacionamento entre o eromenos e o
erastes era muito mais amplo que meramente sexual, como atesta a variação de
nomes nas diversas polei. Em Atenas, o eromenos era também chamado
"paidika".
Cena de namoro pedrástico; 6º c. Kylix
ático de figuras negras.
Louvre, Paris. (Marie-Lan Nguyen (2006)WP).
Pederastic, pederasta: do grego παίδ-
pédh o radical grego para menino ou criança, com ἐραστής,
érastís; palavra grega para amante; cf. eros. Latim tardio pæderasta foi
emprestado no século XVI diretamente do grego clássico de Platão no Symposium.
(O latim translitera αί como æ.)
Pederastic courtship (WP)
Amphora mostrando um homem com barba
em cena tradicional de namoro pederástico mostrando o gesto de "para cima
e para baixo": uma mão se estende para acariciar o jovem, a outra segura
seu queixo para olhá-lo nos olhos. (Ânfora ateniense, c. 540 aC)
(By Painter of Cambridge 47 - Haiduc, WP)
Blogmaster
[...]
a cultura grega diferia da nossa em sua aceitação da alternância de preferência
homossexuais ou heterossexuais num mesmo indivíduo, e sua negativa implícita de
que esta alternância ou coexistência criasse problemas específicos para o
indivíduo ou para a sociedade (DOVER, 2007, p. 13).
Platão
escreveu que os amantes do mesmo sexo eram mais abençoados que os mortais
comuns. Mas então ele mudou de idéia, descrevendo o ato como "totalmente
profano" e "a coisa mais feia". Então, por que os gregos antigos
estavam tão confusos sobre a homossexualidade, pergunta James Davidson.
No
mundo moderno, um adulto envolvido em atividade sexual com um menor pode ser
considerado abuso sexual infantil ou estupro estatutário, dependendo da idade
local de consentimento. As leis de idade de consentimento existem porque os
menores são considerados incapazes de consentir significativamente em
atividades sexuais até atingirem uma certa idade. Crianças pré-púberes e
adolescentes não são socialmente iguais aos adultos, e os abusadores manipulam
emocionalmente as crianças que vitimizam.
Essas leis visam dar ao menor alguma proteção contra interação sexual
predatória ou exploradora com adultos. Os efeitos do abuso sexual infantil
podem incluir depressão, transtorno de estresse pós-traumático, ansiedade,
transtorno de estresse pós-traumático complexo, propensão a mais vitimização na
idade adulta e lesões físicas à criança, entre outros problemas. Abusadores
sexuais modernos que preferem meninos podem se descrever como "amantes de
meninos", e às vezes apelam para práticas na Grécia Antiga como justificativa.
Zeus (ou Júpiter) na forma de uma
águia raptando Ganimedes; Baixo-relevo romano do século I d.C. (By I, Sailko, WP).
Existem
diversos trabalhos onde erastés aparece escrito como “erasta” e erómenos como
“erômeno”, como uma forma de tornar tais verbetes mais próximos da Língua
Portuguesa tais nomes.
Todavia,
optamos por utilizar neste capítulo os termos em seu original grego.2
Não
há nos trabalhos historiográficos um acordo no que diz respeito à faixa etária
do erómenos, uma vez que há autores que delimitam a idade deste entre 12 e 18
anos, enquanto outros a estendem até os 20 anos.
No
presente trabalho foi adotada a faixa etária apresentada por Nikos A.
Vrissimtzis para a designação da idade do mancebo envolvido na pederastia por
acharmos os argumentos do autor muito pertinentes (VRISSIMTZIS, 2002: 104).2
não o convite dos candidatos que se apresentassem no momento propício para o
início da pederastia.
Devemos
elucidar que as relações pederásticas ocorriam somente entre os eupátridas3 e
futuros eupátridas de Atenas e que era uma atividade predominantemente do
círculo aristocrático, principalmente aquele que freqüentava os ginásios e os
banquetes (MOSSÉ, 2004: 223).
Esta
exclusividade tem uma explicação: nem todos os homens livres tinham vocação
para exercer plenamente a vida política, nem se dedicarem à conquista de belos
rapazes, mas somente os eupátridas ricos. Todavia, analisando a obra platônica,
observamos que Sócrates fora erastés de diversos jovens, sem, contudo, ser
detentor de grandes posses. A principal questão que norteia nossa análise encontra-se
na compreensão da pederastia em Atenas enquanto uma instituição
políticopedagógica, que visava à formação do futuro cidadão ateniense e que
poderia ocorrer durante os banquetes aristocráticos.
***
"Aristóteles
herdou as palavras eidos e genos, que haviam sido usadas, em particular, por
Platão. Quando tomado em sentido classificativo, genos designa um grupo
suscetível de ser dividido em pares de eide(espécie masculino e feminino) de
formas específicas. Portanto, desse ponto de vista, o gênero Anthropo engloba o
homem e a mulher como duas formas opostas. Partindo desse pressuposto
acreditava-se que, no início do gênero humano, só existiam criaturas
masculinas, não apresentando qualquer divisão sexual. Em seguida, por uma
espécie de mutação degenerativa, veio ao mundo o genos das mulheres. As almas
dos machos que se haviam mostrado covardes reencarnavam, depois de sua morte,
num corpo diferente – um corpo de mulher. […] Usando um raciocínio análogo ao
de Aristóteles, quando este explica o nascimento de uma moça em vez de um
rapaz, como um desvio em relação ao modelo masculino, Platão situa o
aparecimento da diferença sexual no momento em que, na história do homem, se
quebra a perfeição original.
(BARBOSA,
Renata Cerqueira. 'Gênero e Antiguidade: representações e discursos'.
In:História Revista. Goiânia: Editora do Mestrado em História, V. 12, n. 2,
jul./dez. 2007, p. 355.)"

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