INÍCIO

03 junho 2024

SEXUALIDADES

LITERATURA SOBRE GÊNERO E SEXUALIDADE


SEXUALIDADE GREGA
MAD ABOUT THE BOY
Sexualidade grega ou desejo por rapazes

Leia também 1, 2, 3

 

Memento 

1) Apolo teve dois grandes amores a ninfa Dafne e o mortal Yacinto. Ambas as narrativas são reflexos culturais da Grécia antiga onde era costume cultuar a beleza do amante e não o gênero. Pois para os gregos a beleza estava ligada ao bem e ao que era bom aos olhos dos deuses.

2) Na aristocracia japonesa feudal o samurai que preferia manter relações apenas com mulheres era visto como péssimo guerreiro por conta de seu Yin e Yang (elementos feminino e masculino) desequilibrado.

3) No Império romano os homens se relacionavam com homens e mulheres e mulheres também seguiam esse padrão, entretanto devido ao modelo de sociedade patriarcal o relacionamento entre mulheres era praticado as escondidas.

4) A bissexualidade permeia toda historia humana, não surgiu no sec. XXI.

5) A resposta a esse dilema esta no monossexismo, a crença social de que existe apenas duas identidades sexuais possíveis de reconhecimento: heterossexual e homossexual. O monossexismo esta profundamente enraizado na cultura ocidental e produz um tipo de violência especifico: a bifobia. Voce já ou viu algum dizer que bifobia não existe, porque somente sofre discriminação quem esta acompanhado de uma pessoa do mesmo gênero? Essa é uma expressão classica da bifobia. Pessoas bissexuais são vitimas da bifobia todos os dias, quando tem sua identidade sexual estereotipada, apagada ou questinonada.

6) É comum que esse grupo ouça uma série de perguntas monossexistas ao longo da vida, por exemplo: voce gosta mais de homens ou de mulheres?

7) Acontece que não existe uma escala para a bissexualidade, o que define a identidade sexual é a autodeterminação.

8) Pessoas bissexuais também encontram dificuldades nos relacionamentos amorosos, porque são culturalmente taxadas de promiscuas.

9) E não é somente isso. Durante o inicio da epidemia da Síndrome de HIV-AIDS, pessoas bissexuais eram vista como vetores da doença, uma vez que tinham relacionamentos com ambos os sexos. i.e., transitavam sexualmente entre os gêneros.

10) Uma dica para superar o monossexismo é respeitar a autodeterminação de cada indivíduo sem questionamentos adicionais. Também é importante prestar atenção aos vícios de linguagem. Duas mulheres não formam necessariamente um casal lésbico e o beijo entre dois homens não é necessariamente um beijo entre gays

11) Melissa Bittencourt Jaeger (UFSC) sugere que deixemos de pensar as relações de poder de forma binária.

12) Por não se enquadrarem na categoria binária heterossexual/homossexual as bissexualidades tem sido apagadas e hipersexualizadas, tanto no territorio heterossexual como no território LGBTQIA. Jaeger apresenta uma visão plural; os movimentos sociais necessitam considerar a multiplicidade da vida e a singularidade dos sujeitos políticos.

13) Nada deve ser presumido sobre a sexualidade de ninguem, incluindo a sua. (Manifesto Bissexual, 1990) (catarinas).
13) Homoafetivo é o adjetivo que qualifica uma pessoa que gosta, sente atração por pessoas do mesmo sexo. O termo homoafetivo foi criado para diminuir a conotação pejorativa que se dava aos relacionamentos homossexuais, e tornou-se uma expressão jurídica para tratar do direito relacionado a união de casais do mesmo sexo.

O relacionamento homoafetivo não é configurado como união estável, como definiu o Superior Tribunal de Justiça, não existe uma legislação própria para a união entre pessoas do mesmo sexo, gerando assim direitos e obrigações como o direito a alimentos e à sucessões, como os casais heterossexuais.

O relacionamento homoafetivo já possui direito a um dos principais direitos sociais, a pensão em caso de morte do companheiro (a), bem como o direito ao auxilio reclusão, ambos podendo ser obtidos junto ao Instituto Nacional de Seguro Social. Algumas empresas estatais como Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Petrobras, entre outros, tem acatado a inclusão do dependente homoafetivo para fins de pensão por morte e beneficiário de seguro/previdência privada.

Atualmente, também já é possível incluir o companheiro (a) como dependente nos Planos de Saúde de natureza privada, e a Receita Federal também autorizou o casal a incluir seu companheiro na declaração de imposto de renda como dependente homoafetivo. (significados).


14) O sistema jurídico assegura tratamento isonômico e proteção igualitária a todos os cidadãos. Omitindo-se o legislador em regular situações dignas de tutela, as lacunas precisam ser colmatadas pelo Judiciário. Na presença de vazios legais, a plenitude do reconhecimento de direitos deve ser implementada pelo juiz que não pode negar proteção jurídica nem deixar de assegurar direitos sob a alegação de ausência de lei. Precisa assumir a justiça sua função criadora do direito. Preconceitos e posturas discriminatórias, que tornam silenciosos os legisladores, não devem levar também o juiz a calar. Imperioso que ele reconheça direitos às situações merecedoras de proteção, pois não pode se afastar do dever de fazer justiça. Para conceder direitos aos segmentos alvos da exclusão social, impositiva a aplicação da analogia que leva à invocação do princípio da igualdade na busca de identificação da semelhança significativa.
As uniões entre pessoas do mesmo sexo, ainda que não tuteladas expressamente nem na Constituição Federal nem na legislação infraconstitucional, existem e fazem jus à tutela jurídica. A ausência de regulamentação impõe que as uniões homoafetivas sejam identificadas como entidades familiares no âmbito do Direito de Família. A natureza afetiva do vínculo em nada o diferencia das uniões heterossexuais, merecendo ser reconhecido como união estável.(ibdfam)

O artigo 5º da C.F. ao elencar os direitos e garantias fundamentais proclama: todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza. Garante o mesmo dispositivo, modo expresso, o direito à liberdade e à igualdade. Repetitivos são os dois primeiros incisos da regra constitucional ao enfatizar a igualdade entre o homem e a mulher e a vedação de obrigar alguém a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei.

Mas de nada adianta assegurar respeito à dignidade humana, à liberdade. Pouco vale afirmar a igualdade de todos perante a lei, dizer que homens e mulheres são iguais, que não são admitidos preconceitos ou qualquer forma de discriminação. Enquanto houver segmentos alvos da exclusão social, tratamento desigualitário entre homens e mulheres, enquanto a homossexualidade for vista como crime, castigo ou pecado, não se está vivendo em um Estado Democrático de Direito.

Direito à sexualidade

A sexualidade integra a própria condição humana. É um direito humano fundamental que acompanha o ser humano desde o seu nascimento, pois decorre de sua própria natureza. Como direito do indivíduo, é um direito natural, inalienável e imprescritível. Ninguém pode realizar-se como ser humano, se não tiver assegurado o respeito ao exercício da sexualidade, conceito que compreende a liberdade sexual, albergando a liberdade da livre orientação sexual. O direito de tratamento igualitário independente da tendência sexual. A sexualidade é um elemento integrante da própria natureza humana e abrange a dignidade humana. Todo ser humano tem o direito de exigir respeito ao livre exercício da sexualidade Sem liberdade sexual o indivíduo não se realiza, tal como ocorre quando lhe falta qualquer outra das chamadas liberdades ou direitos fundamentais.

Aída Kemelmajer de Carlucci comunga do mesmo entendimento.

"El derecho a la livre determinación de cada uno es considerado hoy um derecho humano. La circunstancia de que no este mencionado em el catálogo que contienen los tratados nacionales e internacionales sobre derechos humanos no significa que no exista. Así como existe um derecho a la livre determinación de los pueblos, existe um derecho a la livre determinación del individuo."

As normas constitucionais que consagram o direito à igualdade proíbem discriminar a conduta afetiva no que respeita à sua inclinação sexual. A discriminação de um ser humano em virtude de sua orientação sexual constitui, conforme afirma Roger Raupp Rios precisamente, uma hipótese (constitucionalmente vedada) de discriminação sexual. Rejeitar a existência de uniões homossexuais é afastar o princípio insculpido no inc. IV do art. 3º da Constituição Federal, segundo o qual é dever do Estado promover o bem de todos, vedada qualquer discriminação, não importa de que ordem ou de tipo. Conforme José Carlos Teixeira Giorgis:
"A relação entre a proteção da dignidade da pessoa humana e a orientação homossexual é direta, pois o respeito aos traços constitutivos de cada um, sem depender da orientação sexual, é previsto no artigo 1º, inciso 3º, da Constituição, e o Estado Democrático de Direito promete aos indivíduos, muito mais que a abstenção de invasões ilegítimas de suas esferas pessoais, a promoção positiva de suas liberdades".
A orientação sexual adotada na esfera de privacidade não admite restrições, o que configura afronta a liberdade fundamental, a que faz jus todo ser humano, no que diz com sua condição de vida. Como todos os segmentos alvo do preconceito e discriminação social, as relações homossexuais se sujeitam à deficiência de normação jurídica, sendo deixados à margem da sociedade e à míngua do Direito.



I

CULTURA POLÍTICA HOMOERÓTICA ENTRE A GRÉCIA ANTIGA E A (PÓS)MODERNIDADE: Cientificismo, Literatura e Historiografia


Um fenômeno fundamental que caracteriza o que chamamos de modernidade é o processo de autonomização das esferas axiológicas como pressupostos discursivos que dirigem a vida e a convivência dos seres humanos. Até o mundo medieval, essas esferas, entre as quais podemos citar a economia e a política, encontravam-se indiferenciadas, sobrepostas, heteronômicas. Essa marca do mundo moderno foi bem diagnosticada pelas obras de Max Weber. Nesse processo, o crítico e poeta Charles Baudelaire é visto como um dos prógonos responsáveis pela autonomização da esfera da arte, evidenciada de forma contundente no século XIX. No que diz respeito aos campos de nossa investigação – o erótico e o político – torna-se crucial pôr em foco outra esfera que, também, como parte desse mesmo fenômeno modernizante, foi submetida ao processo de autonomização: a esfera da Sexualidade. Com muita propriedade e lucidez, dela, tratou o filósofo e historiador Michel Foucault. Essa esfera discursiva autônoma criou duas identidades originais e antagônicas da modernidade, o heterossexual e o homossexual. Na Modernidade Ocidental, as experiências, os comportamentos e as identidades sexuais são estruturados pela sexualidade, enquanto um campo discursivo autônomo, construído por essa mesma Modernidade, que interpreta e organiza tais experiências, comportamentos e identidades na medida em que constitui e individualiza o ser no nível do ser sexual e, também, na medida em que potencializa e alarga o espaço de abrangência do sexual na totalidade da psique humana. Diferentemente de sexo, que é um fato natural, sexualidade é uma construção cultural. Ela representa a apropriação do corpo humano e de suas zonas erógenas através de um discurso ideológico. Essa visão da categoria sexualidade está associada, em particular, à monumental obra de Foucault, a trilogia que compõe A História da Sexualidade. (Santos, 2009)

É necessário, então, termos logo em mente que a modernidade criou a sexualidade. Como um dos sintomas mais recentes da autonomização dessa esfera, deveríamos lembrar, entre outras, as palavras de Zygmunt Bauman ao discutir a redistribuição pós-moderna do sexo: “somos tentados a tomar por hipótese que testemunhamos, atualmente, o divórcio entre o sexo e a família, semelhante ao divórcio entre a família e o negócio, detectado por Max Weber como um dos principais processos constitutivos do início da modernização.”1 Ou, quando esse mesmo autor, ao discutir a ética pós-moderna, diz: “as morais costumavam ser consideradas como muito importantes para serem deixadas a meros seres humanos. Agora, elas podem ser deixadas a ninguém mais.”2 (Santos, 2009).

O objetivo deste estudo será o de investigar e reconstituir o que denominamos de cultura política homoerótica, uma cultura que se estende da primeira metade do século XIX aos nossos dias. Ela liga-se de forma visceral à criação e estabelecimento da sexualidade e possui duas vertentes distintas, mas intimamente interligadas: a moderna, estruturada por um sujeito moderno ou sociológico, e a pósmoderna, na qual assistimos à emergência e atuação de um sujeito pós-moderno. A cultura política homoerótica representa, portanto, em grande medida, um dos eixos pelo qual se articula a própria construção da sexualidade. Ela é a conditio sine qua non desta, bem como seu pólo ‘negativo’. Foi da necessidade de criar, identificar, representar o homossexual que se criou a identidade heterossexual, o que perfaz um vasto processo de produção identitária que configura o termo fundamental da produção da sexualidade. Do ponto de vista político, a cultura política homoerótica constitui-se no pólo tensional permanente da estrutura maniqueísta da sexualidade. A dicotomia homossexual/heterossexual é central nesse processo histórico e se mascara enganosamente em universalidade e naturalidade. A própria categoria homossexual, ela mesma polissêmica, molda uma identidade padrão que se constitui num dos elementos culturais, numa das máscaras que a circunscrição do homoerotismo deu vida. Logicamente, a identidade heterossexual também funciona como uma máscara na discursividade da esfera da sexualidade. (Santos, 2009)(Santos, 2009).

Referimo-nos a um sentido específico da idéia de homoerotismo. A respeito desse termo, compartilhamos da clivagem psicanalítica proposta por Jurandyr Freire Costa em seus estudos sobre essa categoria. Esse autor chama a atenção para a esfera autônoma instituída pela construção das categorias da sexualidade no século XIX. O psicanalista diz:

"Teoricamente, como procuro mostrar, homoerotismo é preferível a “homossexualidade” ou “heterossexualidade” porque tais palavras remetem quem as emprega ao vocabulário do século XIX, que deu origem à idéia do “homossexual”. Isto significa, em breves palavras, que toda vez que as empregamos, continuamos pensando, falando e agindo emocionalmente inspirados na crença de que existem uma sexualidade e um tipo humanos “homossexuais”, independentemente do hábito lingüístico que os criou. Eticamente, sugiro que persistir utilizando tais noções significa manter costumes morais prisioneiros do sistema de nominação preconceituoso que qualifica certos sujeitos como moralmente inferiores pelo fato de apresentarem inclinações eróticas por outros do mesmo sexo biológico. Ora, com base em outras convicções, sustento que não temos nem motivos éticos nem teórico-científicos consistentes para defender a legitimidade dessas opiniões. Nesse tópico, advirto, além do mais, que a carga de preconceito contida no uso de palavras como “homossexualidade” ou “homossexual” é autônoma em relação à intenção moral de quem as emprega."


Seus argumentos se dispõem em dois níveis. O primeiro é de ordem teórica. O termo homoerotismo proporciona maior clareza, pois, “é uma noção mais flexível e que descreve melhor a pluralidade das práticas ou desejos dos homens same-sex oriented” 4 . Seria incorrer num grande erro etnográfico, diz o psicanalista, se interpretássemos “a idéia de ‘homossexualidade’ como uma essência, uma estrutura ou denominador sexual comum a todos os homens com tendências homoeróticas”.5 A vantagem teórica do uso da noção de homoerotismo, dessa forma, é a de tentar afastar-se tanto quanto possível desse engano. Primeiro, porque exclui toda e qualquer alusão a doença, desvio, anormalidade, perversão etc., que acabam por fazer parte do sentido da palavra “homossexual”. Segundo, porque nega a idéia de que existe algo como “uma substância homossexual” orgânica ou psíquica comum a todos os homens com tendências homoeróticas. Terceiro, enfim, porque o termo não possui a forma substantiva que indica identidade, como no caso do “homossexualismo” de onde derivou o substantivo “homossexual”.6

O autor esclarece que o termo homoerotismo não deve ser entendido como uma proposição conceitual com pretensões à validade universal, mas, somente como tática argumentativa, referindo-se a uma subjetividade que visa distanciar o interlocutor de sua familiaridade com a noção de “homossexualidade”7 . Uma subjetividade que se refere “meramente à possibilidade que tem certos sujeitos de sentir diversos tipos de atração erótica ou de se relacionar fisicamente de diversas maneiras com outros do mesmo sexo biológico.”8 Dito de outra forma, homoerotismo seria necessariamente uma, entre tantas, das subjetividades possíveis do ser humano e não “uma propriedade permanente da natureza de certos homens, que independe das descrições que a tornam visível e plausível aos nossos hábitos lingüísticos.”9 O segundo nível é de ordem histórica. Nesse ponto, o argumento do autor refere-se ao preconceito contra o homossexual que vem sendo construído socialmente desde o século XIX. O autor afirma:

"A palavra “homossexual” está excessivamente comprometida com o contexto médico-legal, psiquiátrico, sexológico, e higienista de onde surgiu. O “homossexual”, como tento mostrar, foi uma personagem imaginária com a função de ser a antinorma do ideal de masculinidade requerido pela família burguesa oitocentista. Sempre que a palavra é usada evoca-se, querendo ou não, o contexto da crença preconceituosa que até hoje faz parecer natural dividir os homens em “homossexuais” e “heterossexuais”.10

Para Costa, então, em termos psicanalíticos, homoerotismo é uma subjetividade possível do ser humano, uma potencialidade humana. Nesse caso, a pederastia dos gregos e a homossexualidade dos modernos seriam “duas formas de cristalização do imaginário cultural sobre a potencialidade homoerótica, e não dois nomes para o mesmo referente.”11 Destarte, a pederastia dos gregos e a homossexualidade dos modernos são formas distintas da potencialidade do homoerotismo; daí que os pederastas gregos não eram homossexuais. Homoerotismo, referindo-se a um desejo humano em potencial, a uma subjetividade do ser humano, continua Costa, é uma questão de prática lingüística. Não existe objeto sexual “instintivamente adequado ao desejo” ou vice-versa, como reitera a psicanálise. Todo objeto de desejo é produto da linguagem que aponta para o que “é digno de ser desejado” e para o que “deve ser desprezado” ou tido como indiferente; como incapaz de despertar excitação erótica.12

Nesses termos, poderíamos analisar uma cultura política homossexual, mas esta estaria necessariamente circunscrita nos limites da homossexualidade, o que excluiria várias outras representações da subjetividade homoerótica, construídas a partir do século XIX, que não se expressaram em termos de homossexualidade. Reconstituir a cultura política homoerótica, decerto, permitiu-nos explorar um horizonte muito mais amplo e complexo de subjetividades homoeróticas que, inclusive, recobre temporalidades anteriores à parte mais expressiva e definitiva da história da construção da sexualidade, cujo início, certamente, data dos anos finais do século XIX. Nessa cultura homoerótica inclui-se não somente a semântica da categoria homossexual, mas também a representação do urninge, do uranista, do queer e das múltiplas configurações homoeróticos expressas por personagens em obras oriundas de três grandes campos literários. Sujeitos antigos, modernos e pós-modernos: como no caso do pederasta grego, o perfil psíquico do urninge, do uranista, dos personagens literários (como um Vautrin, um Hallward, um Aschenbach) e do queer, em graus variados, destoa do perfil psíquico do homossexual. Os referentes são múltiplos. Compõem, conseqüentemente, uma diversidade de representações homoeróticas, um mosaico de subjetividades homoeróticas. Compõem uma cultura política homoerótica. Nessa reconstituição da cultura política homoerótica é de suprema importância a análise do impacto, da reverberação do homoerotismo grego (Pederastia) nos discursos da modernidade, através da releitura da construção das tradições decorrentes dessa reverberação e sua relação, tanto com a produção da identidade e da psique homossexuais (e com as outras subjetividades homoeróticas), quanto com a emancipação da homossexualidade enquanto movimento e pensamento politizados em busca de direitos civis, sociais e políticos. Três ordens de fontes são analisadas para recompor essa cultura: obras de cunho médico-científico, obras literárias e obras historiográficas que lidaram, nos séculos XIX e XX, com o homoerotismo grego. Revelam-se nelas uma multiplicidade de abordagens, de representações, de imagens do homoerotismo grego que compõem um imaginário e uma discursividade permanentemente em pauta nos debates gerados em torno das construções das subjetividades homoeróticas modernas, particularmente, da construção da categoria e da identidade homossexual. Essas três ordens de fontes, portanto, compõem importantes vetores pelos quais passaram a integração da cultura política em questão. No conjunto, elas exprimem, em suas abordagens, representações e imagens do homoerotismo grego, uma variedade de usos políticos e referências iluminadoras que alimentam, corporificam, retesam e norteiam as diversas subjetividades do homoerotismo no mundo moderno enquanto parte essencial da constituição da sexualidade. A nossa proposta de reconstituição da cultura política homoerótica tem como uma de suas fundamentações teórico-metodológicas o campo das Culturas Políticas13. Orientou-nos, também, a noção de que “a política trata da convivência entre diferentes. Os homens se organizam politicamente para certas coisas em comum, essenciais num caos absoluto, ou a partir do caos absoluto das diferenças.”14 E, ainda, a constatação de que “o político deixou de ser da ordem pública, do Estado, em oposição à ordem privada. O pessoal tornou-se político, o micropolítico é privado. As identidades são ‘máscaras’ criadas para se obter o sucesso em múltiplas relações e situações.”15

Esse objeto de pesquisa transita na fronteira em que se cruzam a história cultural e a história política. Evidentemente, as construções das subjetividades homoeróticas retratadas em nossa análise, em especial o caso mais complexo, sólido, duradouro e socialmente reconhecível da construção da homossexualidade, são manifestações da ordem da cultura e da política. A história da homossexualidade ou a construção da identidade homossexual, por seu turno, é, contundentemente, a história de uma luta política. Essa construção está imersa no político na medida em que, o homossexual, surgindo como sujeito específico no plano das sociedades modernas, quer se afirmar enquanto um elemento social na luta pelos seus direitos civis, sociais e políticos. E a expansão de tal expressão social caminha integrada ao jogo político da democracia, apoiando-se nele e por meio dele, e, em muitos casos, assumindo uma postura comumente identificada como de esquerda para a efetivação de suas conquistas em direção à justiça social, à cidadania e à integração (ou não) na sociedade. Ao investigar o que é manifesto pela linguagem, pretende-se compreender os modos pelos quais o mundo moderno construiu e tomou consciência da identidade da homossexualidade e das sensibilidades homoeróticas. “Que o cultural prepara o terreno do político aparece desde já como uma evidência de que alguns retiraram estratégias”16 e “a cultura atravessa todas as esferas de uma sociedade, nas representações do sagrado, do econômico, do social, da justiça, das idades”17 e (por que não dizer?) do erótico.



Leia na integra esse excelente trabalho aqui.

Fonte




II

 

O relacionamento homoerótico na Grécia Antiga: uma prática pedagógica

 

The homoerotic relationship in Ancient Greece: a pedagogical practice

Tiago Souza Monteiro de ANDRADE (1)

 

Introdução

 

A pesquisa está no alcance de qualquer pessoa que se disponha a recuperar no passado o processo de constituição do espaço de tensões e conflitos que é o presente e no qual se busca situar. Maria do Pilar de Araujo Vieira.

Na Grécia Antiga, era comum um homem adulto ter relações sexuais com um jovem. Nessa concepção, Dover (2007) apresenta o filósofo grego Sócrates, o qual era adepto ao amor homossexual e afirmava que o coito anal correspondia a melhor forma de inspiração. A visão do filósofo quanto ao sexo heterossexual, era a de que servia apenas para procriar. Para a educação dos jovens atenienses, esperava-se que os adolescentes aceitassem a amizade e os laços de amor com homens mais velhos, para absorver suas virtudes e seus conhecimentos de filosofia. Conforme Vieira, Peixoto e Khoury (2011, p. 17), “nas últimas décadas, se tenta pensar a história ainda que com muitas dessas referências, mas fora de esquemas e ortoxias, e se adota uma concepção de história que leva em conta toda a experiência humana a que não é alheio o historiador em seu trabalho”. Além disso, segundo as autoras, ao historiador cabe dar, ao objeto por ele eleito, uma explicação dos fatos humanos, centrando o eixo dessa explicação nos mecanismos que asseguram a exploração e a dominação de uns homens sobre os outros, no que diz respeito a fatores de ordem: econômica, política, social, cultural nas tradições e sistemas de valores nas diversas sociedades. Delimitar um trabalho não é atividade tão simples como se parece, uma vez que temos de estabelecer fronteiras espaço/temporais, cujos objetivos é não perder de vista o foco do trabalho.

 

(1) Professor Mestre - Departamento de Letras - Faculdade de Presidente Prudente - FAPEPE - Avenida Presidente Prudente, 6093 - Jardim Aeroporto - Presidente Prudente - CEP: 19053-210, São Paulo, Brasil. A pesquisa que resultou neste artigo não contou com financiamento de qualquer agência de fomento. E-mail: tygerstone@ig.com.br

 

FACES DA HISTÓRIA, Assis-SP, v.4, nº2, p. 58-72, Jun.-Dez., 2017.

A priori, havíamos pensado em realizar um estudo diacrônico em relação ao assunto posto, ou seja, realizar-se-ia um levantamento sobre a homossexualidade desde a Grécia Antiga aos nossos dias. Todavia, haver-se-ia muito trabalho para tão pouco tempo. Em seguida, procuramos delimitar espaço/tempo para não perder de vista o objetivo da pesquisa, realizando, por sua vez, um estudo sincrônico. Dessa forma, neste estudo limitamos em estudar as práticas homoeróticas masculinas na Grécia Antiga, cujo objetivo foi descrever como o relacionamento homoerótico era concebido na sociedade helênica da época. Além disso, procuramos responder a indagações como: por que os atenienses aceitavam a homossexualidade tão prontamente, conformando-se com tanta satisfação a esse hábito; como a homossexualidade era integrada à heterossexualidade, e como a avaliação moral e estética de comportamentos homossexuais se relacionava com valores da sociedade grega clássica de um modo geral. Como apontam Vieira, Peixoto e Khoury (2011, p. 33), “[...] quando priorizamos responder a questões colocadas pela própria experiência, demonstram interesse em dar respostas a questões levantadas em sua atividade profissional, militância política ou problemas colocados pelo cotidiano”. De acordo com as autoras, anualmente os alunos se interessam pelas questões do ensino e da pesquisa seja por fatos relacionados a movimentos sociais, seja por setores marginalizados da população – homossexual, negro, indígena, mulher, entre outros. Nesse sentido, o presente trabalho justifica-se por tentar expor de forma clara como a homossexualidade, algo que inquieta muitos ainda hoje, era vista sob a óptica grega. A pesquisa científica nunca foi tão valorizada na história da humanidade quanto ela é hoje. Na Idade Média, a pesquisa ficou engessada, porque tudo o que a sociedade seguia era o que era imposto pela igreja. Desde então, a ciência vem ganhando espaço e, hoje, nós estamos em uma sociedade baseada no método científico de gerar conhecimento. No tocante à metodologia e aos procedimentos técnicos metodológicos, Gil (2009) cita quatro principais elementos que norteiam a pesquisa: i) a natureza, ii) forma de abordagem, iii) objetivos e iv) procedimentos técnicos. Referente à natureza, o trabalho enquadra-se em uma pesquisa básica, pois objetiva gerar conhecimentos novos úteis para o avanço da ciência sem aplicação prática. Quanto à forma de abordagem, trata-se de uma pesquisa qualitativa, ou seja, considerando que há uma relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, não pode ser traduzida em dados estatísticos. No que diz respeito aos objetivos, é uma pesquisa exploratória, já que envolve levantamento bibliográfico. Finalmente, quanto aos procedimentos técnicos, corresponde a uma pesquisa bibliográfica, pois será elaborada a partir da recuperação de estudos realizados no meio acadêmico-científico. O trabalho, desse modo, corresponde a uma pesquisa bibliográfica e descritivoqualitativa, amparada por estudos de DOVER (2007); HALPERIN, WINKLER, ZEITLIN (1990); PLATÃO (2011), CALLAGHER (1990) e FOUCAULT (1988). Sendo assim, o artigo encontra-se configurado em três seções: i) a construção social da sexualidade, ii) o “banquete” de Platão e, por fim, iii) a homossexualidade na Grécia Antiga, além das considerações finais que recuperam e dialogaram com os assuntos que envolveram o presente estudo.

 

 

A construção social da sexualidade 

 

Diferentemente dos outros seres vivos, que já nascem programados para a vida a partir de uma carga de informações genéticas que os informa como se comportar e agir perante as diferentes situações, o ser humano vem ao mundo desprovido de tudo isso. Segundo BRASIL (2002, p. 15), “o modo de se comportar e de agir nos é dado socialmente: aprendemos com nossos pais, com a comunidade da qual fazemos parte e na escola.” Nesse sentido, podemos nos remeter a uma fala de Paulo Freire, cujas palavras afirmam que não somos simples folhas de papel em branco, nas quais a sociedade escreve uma história, visto que recriamos e reinventamos o que nos é oferecido – a cultura. Por essa razão, a humanidade é tão plural! Atualmente, com a rápida circulação de imagens e informações em revistas, televisão e internet, percebemos, cada vez mais, como diferentes sociedades vêm desenvolvendo modos diversos de existir no mundo. A sexualidade assume formas diversas de acordo com as culturas e com o que a trajetória pessoal e a criatividade individual determinam.

 

Cada sociedade possui um conjunto de regras, de padrões de comportamento e de concepções sobre o que é e para que serve a sexualidade. Tal conjunto de regras e padrões, que é informado, apreendido e utilizado pelos indivíduos, constitui o que chamamos de cultura sexual (BRASIL, 2002, p. 16).

Essa cultura sexual informará, entre outras coisas, quem pode e, consequentemente, quem não pode fazer sexo com quem, em termos de parentesco, de idade e de status social, dentre outros indicadores. Tomando alguns exemplos de diferentes sociedades, vemos que, no início do século XX no Brasil, entre nossos avós, era comum o casamento de homens mais velhos com mulheres mais novas, cujas idades variavam entre 12 e 15 anos, as quais logo iniciavam a vida sexual e reprodutiva. Hoje, a gravidez na adolescência é considerada, na maioria das vezes, um problema. Observamos, portanto, que os padrões mudam com o tempo e de acordo com os diferentes espaços geográficos e culturais. De acordo com BRASIL (2002, p. 25), na Nova Guiné, entre os Baruia, o sexo oral entre homens de diferentes gerações e status é uma regra social e culturalmente aceita. Nesse grupo cultural existe a crença de que a energia vital é transmitida pelo esperma. Dessa forma, os homens mais novos, assim como as mulheres devem ser alimentados pelos homens mais velhos com essa energia. Na Grécia Antiga, sociedade sobre a qual este trabalho se debruçará, entre os atenienses, “apenas os homens eram considerados cidadãos e tinham, portanto o direito e acesso ao conhecimento” (BRASIL, 2002, p. 17). A partir dessa situação, “era comum e legítimo o relacionamento sexual entre o professor e o aluno, considerado o relacionamento mais sublime entre dois homens” (ibidem). A partir desses exemplos, podemos verificar que a sexualidade é socialmente construída e, desse modo, é passível de assumir várias formas, de modo que os padrões e as regras mudam com o decorrer do tempo e da história e de acordo com distintos grupos sociais. 

 

Questões de terminologia 

Nas palavras de Gallagher (1990, p. 38), o termo homossexual significa mesmo sexo, podendo ser utilizado para denominar todo relacionamento com membros do mesmo sexo. Na prática seu uso é mais restrito. Uma definição de homossexualidade, sob este ponto de vista, poderia ser – “uma predominante, continuada e exclusiva atração psicossexual por membros do mesmo sexo.” (MACMILLAN, 1978, p. 667 apud GALLAGHER, 1990, p. 13). Segundo o autor, é exatamente ao nível da definição que encontramos nossas primeiras dificuldades em abordar a homossexualidade. A tentativa de categorizar os seres humanos em duas categorias mutuamente excludentes – heterossexuais e homossexuais – maioria e minoria, respectivamente, é uma simplificação demasiada e conduz a atitudes duvidosas, de acordo com ele. A natureza complexa da experiência sexual humana desafia qualquer divisão absoluta nesse sentido. Tendências homossexuais são um estágio no desenvolvimento de grande número de pessoas. Conforme Gallagher (1990, p. 14), 

 

[...] preferência sexual e comportamento sexual nem sempre são a mesma coisa. Entre os extremos da heterossexualidade exclusiva e da homossexualidade exclusiva há uma sequência de atitudes sexuais e de condições que não podem ser expressas com exatidão pelo uso unívoco do termo comportamento homo (igual) ou hétero (diferente) sexual. 

 

Há, além disso, segundo o que diz o autor, uma distinção entre a condição homossexual, que seria atração exclusiva por pessoas do mesmo sexo e atos sexuais, que corresponde a atos sexuais entre pessoas do mesmo sexo. Sendo assim, a classificação simples de alguém como homossexual ou heterossexual não é plenamente acurada ou de acordo com as possibilidades de desenvolvimento inerentes a cada pessoa. 

 

O surgimento do termo 

 

Para Foucault (1988, p. 53), um dos pontos mais provocativos em sua obra é afirmação de que o homossexual, enquanto categoria tem data de nascimento: 1870, com o artigo de Carl Westphal – As sensações sexuais contrárias. É importante salientarmos que o autor não disse que o homossexual tem data de nascimento, ou seja, não significa que homens não faziam sexo com homens antes dessa data. Isso por que, conforme Magnavita (2012, p. 18), 

A homossexualidade é datada desde a Grécia Antiga, e não causava espanto. Passou a ser considerada uma doença misteriosa, sendo registrada no catálogo internacional de doenças no século XX. Essas implicações e pré-conceitos só foram abandonados após a década de 1990, quando deixou de ser considerada uma patologia.

A diferença fundamental é que, a partir do século XIX, o discurso vigente falava a respeito de uma espécie ou até mesmo de categoria de criatura denominada: homossexual. De acordo com Foucault (1988, p. 53), antes de 1870, havia a recriminação contra atos homossexuais, mas supostamente não se aventava que existisse algo como homossexual substantivado. Segundo o autor, um indivíduo que praticasse o coito homoerótico não era rotulado como pertencente a uma subclasse específica da humanidade. Era simples. Bastava que ele, após o ato confessional, redimisse-se a partir de práticas consideradas purificadoras. Dessa forma, podemos dizer que o sujeito não era algo, mas sim tinha feito algo. O investimento das instituições de poder vigentes, a Igreja, por exemplo, limitase a prescrever orações como forma de redenção contra o ato considerado pecaminoso. Embora saibamos, por meio da História, que nos séculos XVI e XVII, muitos tenham sido mortos pela Inquisição, por conta de práticas homossexuais. A partir de 1870, ocorre uma mudança de paradigma: nasce o conceito de homossexual, alguém com uma diferenciação de desejo que abarcava todo o seu ser. Quando Foucault (1988, p.55) afirma que o homossexual é construído, ele não está afirmando que as pessoas se tornam homossexuais por conta de influências ambientais. O fato é que se descobrir desejando o mesmo sexo a partir da data em questão, passou a ter uma implicação diferenciada, ou seja, o sujeito não estava apenas tendo um desejo, mas ele se descobria parte de um subconjunto, como denomina o autor, da humanidade. Enfim, essa marca recaía sobre o sujeito como um ferro de marcar gado. Afinal, ele pertencia a uma classe que havia se tornado alvo de estudo científico. Desse modo, não era ele quem dizia de si, e de seu desejo, mas as autoridades da época. Todavia cabe dizer que a origem do termo – homossexual – apresenta controvérsias e cabe-nos discorrer sobre outro ponto de vista em relação ao surgimento da expressão. A preocupação científica com o homossexual teve início no século XIX. A expressão homossexual foi criada em 1848, segundo Rodrigues (2004, 47), pelo psicólogo alemão Karoly Maria Benkert. De acordo com o autor, sua definição para o termo recaía “além do impulso sexual normal dos homens e das mulheres, a natureza, do seu modo soberano, dotou à nascença certos indivíduos masculinos e femininos do impulso homossexual (...). Esse impulso cria de antemão uma aversão direta ao sexo oposto”. (RODRIGUES, 2004, p. 24). Conforme aponta Rodrigues (2004, 47), em 1897 o inglês Havelock Ellis publicou o primeiro livro médico sobre homossexualismo em inglês, Sexual Inversion (2). Como muitos da época, ele defendia a ideia de que a homossexualidade era congênita e hereditária. A opinião científica, médica e psiquiátrica vigente era de que a homossexualidade era uma

 

(2) Tradução em Língua Portuguesa: Inversão sexual.

Doença resultante de anormalidade genética associada a problemas mentais na família. A teoria, junto às ideias emergentes sobre pureza racial e eugenismo nos anos 1930, torna fácil entender por que a lobotomia(3) foi indicada para os homossexuais. Finalizada essa seção, trataremos de algumas discussões sobre o assunto contidas na obra O Banquete de Platão.

O “banquete” (Συμπόσιον, Sympósion) de Platão Quanto ao aspecto moral da prática da pederastia, houve uma investigação bastante atenta pela própria sociedade grega antiga, de modo que enquanto algumas de suas características foram consideradas repugnantes, outras foram consideradas como o melhor que a vida poderia ofertar. Nas Leis (4)  do filósofo Platão, o coito anal entre homens é descrito como contrário à natureza, segundo o autor há a necessidade de uma lei que corrobore com a proibição de tal comportamento, sendo sua proposta provavelmente deferida como correta. Antes de iniciarmos uma discussão sobre a obra, façamos uma breve apresentação do autor: Platão Πλάτων (amplo) (5)  nasceu em Atenas, por volta de 427 a.C., numa família aristocrática. Viveu oitenta anos e escreveu inúmeras obras, de maneira dialogada, em que Sócrates, seu mentor, corresponde, geralmente, ao principal interlocutor. No diálogo O Banquete, Platão trata do amor, mediante os diálogos dos participantes de uma festa, os quais intervêm sucessivamente, cada qual expondo a sua teoria sobre o assunto. A obra O Banquete, também conhecida como Simpósio (em grego antigo: Σμπόσιον, transl. Sympósion) (6)  é um diálogo platônico escrito por volta de 380 a.C. 

Configura-se basicamente de uma série de discursos sobre a natureza e as qualidades do amor - Eros. O Banquete é, juntamente com o Fedro, um dos dois diálogos de Platão em que o tema principal é o amor. Tò sumpósion (7), em grego, é em geral traduzido como O Banquete, mas, no sentido atual, corresponderia a uma festa entre, nas quais, normalmente, bebese mais do que se come. Trata-se, portanto, de uma celebração na casa de Agaton, poeta trágico ateniense. Sócrates é o mais importante dentre os homens presentes. Entre outros, também participam Aristodemo, amigo e discípulo de Sócrates; Fedro, o jovem retórico; Pausânias, amante de Agaton; o médico Erixímaco; Aristófanes, comediante que ridicularizava Sócrates e o político Alcibíades. Procuramos destacar nesta seção os argumentos dos intervenientes relativos à homossexualidade dispostos na obra em questão. A antiguidade grega, a que pertenceu Platão, caracterizava-se pelo politeísmo, isto é, crença em diversos deuses. Nessa concepção, a cada um atribuía-se a responsabilidade por determinados fenômenos, como, por exemplo, o deus Amor, responsável pelo sentimento de afeição entre as pessoas; assinalava-se, ainda, pela bissexualidade masculina, em que se aceitavam as relações sexuais de homens tanto com mulheres como entre homens, e pela pederastia, relacionamento entre o erastes e o eromenos: aquele, sendo o mais velho por volta de 25 anos, procurava um rapaz entre 12 e 15 anos (o eromenos), a quem, sob a aprovação dos respectivos pais, servia de amigo e educador até os seus 18 anos, quando a relação passava a ser de amizade, exclusivamente, sem conteúdo sexual que, de resto, não compreendia penetração anal e sim o coito intercrural (8). 

Autor da primeira fala do texto de Platão, Fedro, concebe o Amor como o mais antigo dos deuses e o que mais benefícios propiciam aos homens, o mais apto para felicitar o ser humano e torná-lo virtuoso, durante a sua vida e após a sua morte, “pois, diz ele, não conheço vantagem maior para um jovem do que ter um amante virtuoso”. O Amor inspira o que é necessário para levar-se uma vida honrosa, a saber, a vergonha do mal e o desejo do bem: se um Estado ou um exército se compusessem apenas de amantes e de amados, não haveria povo que professasse tanto horror ao vício e apreciasse tanto a busca da virtude. 

Fedro defende seu posicionamento, dizendo que “assim, pois eu afirmo que o Amor é dos deuses o mais antigo, o mais honrado e o mais poderoso para a aquisição da virtude e da felicidade entre os homens, tanto em sua vida como após sua morte” (PLATÃO, 2011, p.20). 

Nesse ensejo, Lacerda Neto (2008, p. 20), diz que homens unidos assim, ainda que poucos, poderiam vencer aos demais: nenhum deles desejaria ser observado pelo seu amante, em rendição ou em debandada; ao contrário, preferiria morrer mil vezes a abandonar em perigo o seu bem-amado e deixá-lo sem auxílio. Por isso, unicamente os amantes são os que sabem morrer um pelo outro, trate-se de homens ou de mulheres, como foi o caso de Aquiles, que defendeu Pátroclo, vingou-o à custa da própria vida e morreu-lhe sobre o corpo, abnegação pela qual os deuses tributaram-lhe mais honras do que a qualquer outro homem. 

A seguir, Pausânias distingue dois tipos de amor, o popular e o celestial, dos quais o primeiro inspira baixezas, devem-se louvar todos os deuses e dizer o dom de cada um, pois as ações, em si mesmas, não são nem belas nem feias, mas sim na maneira como são feitas, que resulta a beleza ou a feiura, isto é, “o que é belo e corretamente feito fica belo, o que não o é fica feio” (PLATÃO, 2011, p.21). 

Dessa forma, “o amar e o Amor não é todo ele digno de ser louvado, mas apenas o que leva a amar belamente” (Ibidem). Por sua vez, o amor celestial inspira necessariamente o amor aos homens, especificamente aos jovens, cuja inteligência principia a desenvolver-se, ou seja, os adolescentes. Segundo Lacerda Neto (2008), o seu objeto não é o de aproveitar-se da imprudência de um jovem amigo e seduzi-lo para deixá-lo depois, e, rindo-se da sua vitória, correr em busca de outro qualquer; unem-se com o pensamento de não se separarem mais e de passarem toda a vida com o que amam. A despeito das relações sexuais, segundo Dover (2007), entre os amantes masculinos, pondera que na Élida e na Beócia, é bom conceder os seus favores a quem nos ama; a ninguém, jovem nem velho, isto parece mal, enquanto na Jônia e nas regiões submetidas ao domínio dos bárbaros - os persas, tal costume reputa-se vergonhoso e proscrito, juntamente com a filosofia e a ginástica. É porque os tiranos, indubitavelmente, não querem que entre os seus súditos surjam indivíduos de grande valor, nem amizades nem uniões vigorosas, que são as que formam o Amor. Assim, diz Lacerda Neto (2008, p. 26) que nos Estados em que se considera vergonhoso conceder os seus favores a quem nos ama, procede esta severidade da iniquidade dos que a estabeleceram, da tirania dos governantes e da covardia dos governados. 

Enquanto em Atenas, preferia-se amar claramente a fazê-lo à socapa (9), e aos homens virtuosos e generosos, mesmo que desprovidos de beleza; reputava-se belo conquistar-se o afeto do amante e humilhante não o obter, propósito para o qual se admitiam todos os meios possíveis: súplicas, lágrimas, juras, baixezas, que em outras circunstâncias, seriam vexatórias, e que, no caso do amante, seria espetacular. 

 

Todos, naquela cidade, achavam-se persuadidos de ser louvável amar e ser amigo do amante. Não é honroso, prossegue Pausânias, concederem-se favores sexuais a um homem vicioso e por maus motivos, sendo-o, em contrapartida, fazê-lo por boas causas, a um homem praticante da virtude. É homem vicioso o amante que ama o corpo, de preferência à alma: seu amor não poderá ser duradouro, pois ama algo que não dura, porém o amante de uma bela alma permanece fiel por toda a vida porque ama o que é duradouro; por isto, os costumes induzem a que se examine a pessoa no que diz respeito ao seu caráter e ao seu comportamento, antes de comprometer-se com ela. Também se considerava decoroso um indivíduo servir sexualmente a quem o amava, retribuindo-o a priori, se desejasse adquirir conhecimento e instrução, ao segundo, se capaz, este, de infundir-lhe ciência e virtude. 

 

Toma a palavra Aristófanes, que explica a origem da homossexualidade tanto masculina como feminina, assim como da heterossexualidade. Segundo ele, havia três tipos de seres humanos, dos quais, um correspondia aos homens; outro, às mulheres, e um terceiro, a uma criatura mista, masculina e feminina, denominada de andrógino. Todos os humanos apresentavam-se como duplos, dotados de quatro braços, outro tanto de pernas e duas faces em uma só cabeça, até Júpiter desmembrá-los, transformando-os em criaturas singulares. A partir disso, cada metade procura a outra, que lhe corresponde; ao se encontrarem, copulam entre si, uma metade masculina com a feminina, ou duas masculinas ou duas femininas, o que originou, respectivamente, os heterossexuais, as tríbades (10) e os homossexuais. 

 

De acordo com Lacerda Neto (2008, p. 28), os homens procedentes da separação dos homens primitivos, buscam, reciprocamente, o sexo masculino. Enquanto são jovens amam aos homens, desfrutam deitando-se com eles, por estar em seus braços são os mais destacados entre os adolescentes e os adultos, como se possuíssem uma natureza muito mais viril. Sem razão alguma, acusasse-os de não terem pudor, e não é por falta de pudor que procedem assim; é porque possuem uma alma corajosa e valor e caráter viris, que buscam aos seus semelhantes, e a prova disto é que, com a idade, mostramse mais aptos para o serviço do Estado do que os outros. Ao chegarem à idade adulta, amam, por conseguinte, aos adolescentes e aos jovens, e se se casam e têm filhos, não é por seguir os impulsos da sua natureza, senão porque a lei os constrange a tal. O que eles querem, é passar a vida em celibato, juntos uns dos outros. Quando um desses homens encontra o outro ou a sua metade, características como a simpatia, a amizade e o amor despontam em ambos, sem que os prazeres libidinosos ou devassos pareçam corresponder à causa disto. Graças ao amor, continua Aristófanes, os homens e as mulheres serão felizes se encontrarem a sua metade e retornarem ao seu primitivo estado de união que, se correspondia ao melhor, o que mais se aproximar dele deve equivaler, necessariamente, também ao melhor. Concluída a fala de Aristófanes, reúne-se Alcebíades ao grupo dos convidados, para alarme de Sócrates, que interpelou a Agaton, o anfitrião, alegando que o amor de Alcebíades é um verdadeiro apuro. Sócrates dizia que, desde que passou a amá-lo, não pôde observar nem falar a nenhum outro jovem, sem que, por despeito ou zelos, entregasse a excessos incríveis. 

 

Após enaltecer as qualidades de Sócrates, observa Alcebíades: “Vede o ardente interesse que Sócrates demonstra pelos belos mancebos e adolescentes e com que paixão busca por eles, e até que ponto eles o cativam”. Supondo Alcebíades que Sócrates interessava-se pela sua beleza, acreditou que, cedendo-se a ele sexualmente, ele comunicaria o seu conhecimento: tentou seduzi-lo em diversas circunstâncias, sem sucesso, até resolver expor-lhe os seus intuitos:

 

Penso que tu és o único amante digno de mim e parece-me que não te atreves a revelar-me os teus sentimentos. Da minha parte, posso assegurar-te que seria bem pouco razoável se não buscasse comprazê-lo nesta ocasião, como em qualquer outra em que pudesse ficar-lhe agradecido, por mim próprio, como por meus amigos. Não tenho maior empenho do que aperfeiçoar-me o quanto me seja possível e não vejo ninguém cujo auxílio para isto possa serme mais proveitoso do que o teu (PLATÃO, 2011, p.23).

 

 

Com a resposta de Sócrates, conforme aponta Lacerda Neto (2008, p. 30), ponderando-lhe que trocariam valores desiguais, o da beleza física pela aquisição da sabedoria, após o que, Alcebíades apressou-se a abraçá-lo e passaram juntos à noite. Em seguida, Sócrates desdenhou-lhe da beleza e insultou-a, o que originou queixas de Alcebíades, das quais, e dos abundantes elogios que formulou a Sócrates, resultou, da parte dos comensais, a impressão de que prosseguia encantado por ele. Terminada a presente seção, sigamos para última, cujo objetivo é tratar da homossexualidade na Grécia Antiga, ampliando alguns dos pontos já apresentados nessa seção.

 

(3) Lobotomia: Desenvolvida pelo neurocirurgião português António Egas Moniz, consistia em uma técnica cirúrgica que cortava um pedaço do cérebro dos doentes psiquiátricos, mais precisamente nervos do córtex pré-frontal. 

 

(4) Para maiores esclarecimentos consultar: Platão. As Leis. Tradução de Edson Bini. São Paulo: Edipro, 1999. 

 

(5)  Platão, 427-347 a. C. O Banquete. Porto Alegre-RS: L&PM, 2011. 

 

(6) Ibidem. 

(7)  Ibidem.

 

(8)  Vocábulo do latim inter (entre) e crus (pernas), também conhecido como sexo femoral ou sexo interfemoral, consiste em uma série de posições sexuais com e sem penetração em que um dos participantes coloca seu pênis entre as pernas do outro (muitas vezes com lubrificação), onde ambos obtêm prazer mediante a fricção genital resultante, simulando o coito com penetração.

 

(9)  Socapa: fazer de maneira disfarçada, às escuras. 

(10) Tríbade: adeptos ao tribadismo, ou seja, corresponde à homossexualidade feminina, em que a relação se dá pelo atrito dos órgãos genitais.

 

 

A homossexualidade na Grécia Antiga 

 

O relacionamento homoerótico na Grécia Antiga teve seus aspectos explorados por diversos autores da Antiguidade Clássica, tais como Heródoto, Ateneu, Xenofonte e Platão, este último sobre o qual discorremos na seção anterior. A maneira mais conhecida e socialmente significativa de relação sexual entre indivíduos do mesmo sexo na Grécia era entre homens adultos e jovens, conhecida como pederastia; os casamentos heterossexuais, da mesma maneira, eram geralmente arranjados de acordo com as idades dos cônjuges, envolvendo homens na faixa dos trinta anos de idade casando com garotas no início da adolescência. Não se conhece com precisão sobre as relações homoeróticas envolvendo mulheres na sociedade geral grega, porém existem exemplos que datam desde pelo menos a época da poetisa Safo. Segundo Dover (2007, p. 14), “as informações que temos a respeito de qualquer forma de sexualidade feminina são pouquíssimas em comparação com a grande abundância de testemunhos acerca da homossexualidade masculina.” Ademais, cabe dizer que o teor do presente trabalho debruçar-se-á apenas nas relações homoeróticas masculinas. Conforme aponta Dover (2007, p. 14), a forma mais comum de relações homoeróticas entre homens na Grécia Antiga era a paiderastia - pederastia - (amor de/por garotos). Após os 12 anos de idade, desde que o adolescente concordasse, transformava-se em um parceiro passivo até por volta dos 18 anos, com a aprovação de sua família. Normalmente, dos 25 aos 30 tornava-se um homem, logo se esperava que assumisse o papel ativo. Tratava-se, como já exposto, da relação homoerótica entre um homem mais velho e um adolescente. Em Atenas, o indivíduo mais velho era chamado de erastes, e sua função era a de proteger, amar e agir como um exemplo para seu amado - chamado de eromenos, cuja recompensa para seu amante estaria em sua juventude, beleza e potencial. De acordo com Halperin, Winkler e Zeitlin (1990, p. 18) havia protocolos sociais complexos, a fim de proteger os jovens da vergonha associada com o ato de serem penetrados sexualmente. Em outros termos, segundo os autores, o eromenos devia respeitar e honrar o erastes, mas não desejá-lo sexualmente. Embora ser cortejado por um homem mais velho fosse, consideravelmente, um rito de passagem para os rapazes, um jovem que fosse visto correspondendo o desejo erótico de seu erastes poderia sofrer um considerável estigma social. Em Esparta, quando o menino entrava em apuros, as autoridades procuravam, como responsável, o seu erastes e não o pai. Era esta característica de muitas sociedades guerreiras. Havia entre eles o costume do guerreiro, entre 18 e 25 anos, manter em sua companhia um menino, com o qual copulava entre as coxas, não uma mulher, uma vez que não eram permitidas no acampamento. Quando seu período de serviço militar era concluído, o jovem presenteava o menino com armas, um escudo e lança, e depois partia e se casava. Em outras palavras, com os gregos, ele passava por uma fase homossexual, que a um ponto socialmente determinado era interrompida, e depois tornava-se heterossexual. Nesse sentido, Dover afirma:

 

 

[...] a cultura grega diferia da nossa em sua aceitação da alternância de preferência homossexuais ou heterossexuais num mesmo indivíduo, e sua negativa implícita de que esta alternância ou coexistência criasse problemas específicos para o indivíduo ou para a sociedade (DOVER, 2007, p. 13). 

 

 

O autor ainda complementa apontando que os gregos tinham consciência de que os indivíduos diferem em suas preferências sexuais, mas sua língua não tinha substantivos correspondentes a um homossexual ou um heterossexual, uma vez que eles consideravam que virtualmente todos respondem, em momentos diferentes a estímulos homossexuais e heterossexuais. Além disso, “nenhum homem penetra outros homens e se submete à penetração por outros homens numa mesma fase de sua vida” (DOVER, 2007, p. 126). Os gregos antigos não concebiam a ideia de orientação sexual como um identificador social, do mesmo modo que as sociedades ocidentais vêm fazendo ao longo do último século. A sociedade grega não distinguia entre desejo e comportamento sexual com base no gênero de seus participantes, mas sim pela extensão com que tais desejos ou comportamentos se conformavam às normas sociais, que eram baseadas, por sua vez, no gênero, idade e status social. Todavia, há pouco material a respeito de como as mulheres viam a atividade sexual, isso pelo fato de as mulheres não terem representação social e serem consideradas seres inferiores. Dias (2010, p. 32) apresenta um recorte sobre o relacionamento homoerótico na Antiguidade aludindo a deuses, reis e heróis, afirmando que:

 

 

Na Grécia, o livre exercício da sexualidade fazia parte do cotidiano de deuses, reis e heróis. O mais famoso casal da mitologia grega era formado por Zeus e Ganimede. Lendas falam do amor de Aquiles por Pátroclo e dos constantes raptos de jovens por Apolo. Até hoje, se indaga sobre o caráter e a importância de tais práticas, se perversão admitida, instituição pedagógica ou ritual iniciatório, sendo questionado se tais hipóteses seriam excludentes entre si. A bissexualidade estava inserida no contexto social, e a heterossexualidade aparecida como preferência de certo modo inferior e reservada à procriação. Vista como uma necessidade natural, a homossexualidade restringia-se a ambientes cultos, como manifestação legítima da libido, verdadeiro privilégio dos bem-nascidos. Não era considerada uma degradação moral, um acidente ou um vício. Todo indivíduo poderia ser homossexual ou heterossexual, dois termos, por sinal, desconhecidos na língua grega. Nas Olimpíadas, os atletas competiam nus, exibindo sua beleza física. Era vedada a presença das mulheres nas arenas, por não terem capacidade para apreciar o belo. Também nas representações teatrais, os papéis femininos eram desempenhados por homens travestidos ou mediante o uso de máscaras (DIAS, 2010, p. 35).

 

 

Em relação à Esparta, esta é a posição de Vecchiatti (2008, p. 44):

 

Já na cidade-estado de Esparta, cuja sociedade dava mais ênfase ao desenvolvimento militar do que ao cultural, a visão do amor entre homens tinha um enfoque um pouco diferenciado. Era ela estimulada dentro do exército espartano, para torná-lo ainda mais eficiente. Isso se explica por um simples fato: com a existência constante de relacionamentos homoafetivos dentro do exército, quando este ia para a guerra, o soldado estaria lutando não apenas por sua cidade-estado, mas igualmente para proteger a vida de seu amado, o que, obviamente, aumentaria o grau de dedicação do combatente.

 

 

Como pudemos observar nos fragmentos supramencionados, a peculiaridade das sociedades gregas era a segregação da população masculina cidadã em acampamentos e cantinas. A deliberada privação da autoridade dos pais de famílias, e a sua transferência para o grupo de maior idade, e àqueles aos quais era delegada a responsabilidade pelos vários grupos etários de meninos, adolescente, jovens e homens mais velhos. A sociedade espartana, por exemplo, era permanentemente organizada como um exército em treinamento. Os gregos antigos, segundo Dover (2007), no contexto das cidades-Estado pederásticas corresponderam aos pioneiros a estudar, a sistematizar, a descrever e a estabelecer a pederastia como uma prática sócio-educacional, ou seja, uma prática pedagógica que, de acordo com seus princípios, o jovem que cumprisse com essa trajetória estaria preparado para ser um cidadão grego por completo. Era um aspecto importante da vida militar, civil, artística e filosófica. Ainda existem debates entre os estudiosos sobre o quanto essa prática era difundida entre as classes sociais ou se estava limitada à aristocracia. 

 

 

Considerações finais 

 

Na Grécia antiga, a homossexualidade não equivalia ao que modernamente designa-se por este vocábulo: na atualidade, ele indica a atração de homens por homens e a sua consequência propriamente sexual, a penetração do pênis no reto, ao passo que na Grécia antiga a cópula homossexual considerava-se desprezível e somente se admitia entre um grego e um jovem, respectivamente nos papéis de ativo e passivo. A assim chamada homossexualidade grega encarnava um costume altamente moral de finalidade educadora; a intimidade física entre o erastes e o eromenos verificava-se no âmbito de uma relação, antes de tudo, formadora do caráter do mais moço, em que o mais velho desempenhava um papel significativo na transmissão de valores. Nada disso se reproduziu nas demais sociedades, ao longo da história. Longe de encarnar uma simples forma de satisfação genital, a pederastia grega encarnou uma elevada espécie de relacionamento humano que muitos autores verberaram por ignorarem o seu aspecto educador ou, mais provavelmente, por entenderem-no como licença institucionalizada à penetração anal, o que, na verdade, não o caracterizava. O advento do cristianismo provocou a censura da homossexualidade, o fim da pederastia grega, e a instauração da homofobia que por séculos vem caracterizando as sociedades ocidentais. Independentemente de classe social, raça, religião ou postura política, o amor homossexual sempre esteve presente na História. Segundo Foucault (1988), não existe povo na terra onde a homossexualidade não se manifeste. O presente artigo objetivou mostrar como a relação homoerótica era encarada e considerada como prática pedagógica pelos helênicos. Ademais, versou como a homossexualidade era encarada pela sociedade grega clássica, de modo que, para o propósito desta pesquisa, a homossexualidade foi definida como a disposição para buscar prazer sensorial através do contato corporal com pessoas do mesmo sexo. A finalidade era que experiência e sabedoria fossem transmitidas por meio dessa prática, considerada pelos gregos como um ritual de passagem. Certamente, para outros propósitos, esta definição poderá parecer inadequada e superficial, mas a cultura grega diferia da nossa em sua aceitação da alternância de preferências homossexuais e heterossexuais num mesmo indivíduo, e em sua negativa implícita de que esta alternância ou coexistência criasse problemas específicos para o indivíduo ou para a sociedade. Evidentemente, aos olhos da sociedade moderna, essa prática receberia outra nomenclatura, sendo considerada crime. O helenista inglês Kenneth J. Dover, cuja obra é uma das referências neste trabalho, baseou sua análise das contradições da homossexualidade masculina nas representações de ânforas, vasos ilustrados que os gregos eram mestres em produzir. O autor mostrou que a sociedade grega era francamente favorável ao relacionamento entre dois homens, embora aquele que penetrasse fosse considerado mais viril. Segundo ele, o homem adulto perseguia os mais jovens, mas sexo entre homens da mesma idade era algo escandaloso. A homossexualidade grega lícita era sempre entre um adulto e uma criança ou jovem adolescente. Segundo Naphy (2004) em toda a história e em todo o mundo a homossexualidade tem sido um componente da vida humana. Desse modo, aos olhos do autor, não pode ser considerada antinatural ou anormal. Não há dúvida de que a homossexualidade é e sempre foi menos comum do que a heterossexualidade. Entretanto, a homossexualidade é claramente uma característica muito real da espécie humana. Para muitos, ainda hoje o continua sendo uma questão de tempo. Ao longo do trabalho, tentamos discorrer sobre algumas inquietações e procuramos responder por que os gregos aceitavam a homossexualidade tão prontamente, conformando-se, com tanta satisfação. Essa prática, considerada pedagógica pela Grécia Antiga, corresponde a algo que era aceito porque seus pais, tios, avós e demais gerações anteriores também aceitavam. Esses valores eram transferidos pela sociedade como um estágio, pelo qual os jovens gregos haveriam de passar, a fim de que se tornassem homem por completo. Nenhuma discussão que vise demonstrar que a homossexualidade de um modo geral é natural ou contrária à natureza, saudável ou doentia, legal ou ilegal, de acordo com a vontade de Deus ou contra ela, demonstra se determinado ato homossexual é moralmente certo ou moralmente errado.

 

 

 

PLATÃO. As Leis. Tradução de Edson Bini. São Paulo: Edipro, 1999. ______. O banquete. Trad. Donaldo Schüler. Porto Alegre-RS: L&PM, 2011, 176 p. (Coleção L&PM POCKET, v.711).

 

 

Bibliografia BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas Públicas e Saúde. Coordenação Nacional de DST e Aids. Guia de prevenção das DST/AIDS e cidadania para homossexuais. Brasília: Ministério da Saúde, 2002.

DIAS, Maria Berenice. Manual do Direito das Famílias. 6. ed. rev. atual. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2010. 

 

DOVER, Kenneth James. A homossexualidade na Grécia Antiga. Trad. Luís Sérgio Krausz. São Paulo: Editora Nova Alexandria, 2007. 

 

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade: a vontade de saber. 17. ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988. 

 

GALLAGHER, Raphael. Compreender o homossexual. Trad. Victor Hugo Silveira Lapenta. São Paulo: Editora Santuário, 1990. GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2009. 

 

HALPERIN, David; WINKLER, John; ZEITLIN, Froma. Before sexuality. Princeton University Press, 1990. LACERDA NETO, Arthur Virmond de. A homossexualidade em Platão. Revista Lado A: para pensar. Disponível em:. Acesso em: 15 de jun. 2014. 



MAGNAVITA, Alexey Dodsworth. O surgimento dos homossexuais. Revista filosofia: ciência & vida. São Paulo: Escala, ano VI, n.70, p.14-22, maio 2012. 



NAPHY, William. História da homossexualidade. Edições 70, 2006. 



RODRIGUES, Humberto. O amor entre iguais. Mythos, 2004. 



VECCHIATTI, Paulo Roberto Iotti. Manual da Homoafetividade: da possibilidade jurídica do casamento civil, da união estável e da adoção por casais homoafetivos. São Paulo: Método, 2008. 



VIEIRA, Maria do Pilar de Araujo; PEIXOTO, Maria do Rosário da Cunha; 



KHOURY, Yara Maria Aun. A pesquisa em História. São Paulo: Ática, 2011. (Série Princípios).

 

 

(Fonte do artigo: FACES DA HISTÓRIA, Assis-SP, v.4, nº2, p. 58-72, Jun.-Dez., 2017 )

 

 

 

 

 

 

Adendo e discussão (pelo Blogmaster)

 

Notas do blogmaster

 

A obra O Banquete, também conhecida como Simpósio (em grego antigo: Σμπόσιον, transl. Sympósion) (6)  é um diálogo platônico escrito por volta de 380 a.C. 

 

jovem servindo vinho num banquete (Sympósion; WP)

 

O Banquete de Platão, representado por Anselm Feuerbach (1873), 

Alte Nationalgalerie, Berlim (WP)

 

O eromenos era um adolescente do sexo masculino envolvido em uma relação amorosa com um homem adulto, denominado erastes. O relacionamento entre o eromenos e o erastes era muito mais amplo que meramente sexual, como atesta a variação de nomes nas diversas polei. Em Atenas, o eromenos era também chamado "paidika".

 


Cena de namoro pedrástico; 6º c. Kylix ático de figuras negras. 

Louvre, Paris. (Marie-Lan Nguyen (2006)WP).

Pederastic, pederasta: do grego παίδ- pédh o radical grego para menino ou criança, com ραστής, érastís; palavra grega para amante; cf. eros. Latim tardio pæderasta foi emprestado no século XVI diretamente do grego clássico de Platão no Symposium. (O latim translitera αί como æ.)

 


Pederastic courtship (WP)

 

Amphora mostrando um homem com barba em cena tradicional de namoro pederástico mostrando o gesto de "para cima e para baixo": uma mão se estende para acariciar o jovem, a outra segura seu queixo para olhá-lo nos olhos. (Ânfora ateniense, c. 540 aC)

(By Painter of Cambridge 47 - Haiduc, WP) Blogmaster 

 

 

[...] a cultura grega diferia da nossa em sua aceitação da alternância de preferência homossexuais ou heterossexuais num mesmo indivíduo, e sua negativa implícita de que esta alternância ou coexistência criasse problemas específicos para o indivíduo ou para a sociedade (DOVER, 2007, p. 13).

 

Platão escreveu que os amantes do mesmo sexo eram mais abençoados que os mortais comuns. Mas então ele mudou de idéia, descrevendo o ato como "totalmente profano" e "a coisa mais feia". Então, por que os gregos antigos estavam tão confusos sobre a homossexualidade, pergunta James Davidson.

 

No mundo moderno, um adulto envolvido em atividade sexual com um menor pode ser considerado abuso sexual infantil ou estupro estatutário, dependendo da idade local de consentimento. As leis de idade de consentimento existem porque os menores são considerados incapazes de consentir significativamente em atividades sexuais até atingirem uma certa idade. Crianças pré-púberes e adolescentes não são socialmente iguais aos adultos, e os abusadores manipulam emocionalmente as crianças que vitimizam. Essas leis visam dar ao menor alguma proteção contra interação sexual predatória ou exploradora com adultos. Os efeitos do abuso sexual infantil podem incluir depressão, transtorno de estresse pós-traumático, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático complexo, propensão a mais vitimização na idade adulta e lesões físicas à criança, entre outros problemas. Abusadores sexuais modernos que preferem meninos podem se descrever como "amantes de meninos", e às vezes apelam para práticas na Grécia Antiga como justificativa.

 

 


Zeus (ou Júpiter) na forma de uma águia raptando Ganimedes; Baixo-relevo romano do século I d.C. (By I, Sailko, WP).

 

Existem diversos trabalhos onde erastés aparece escrito como “erasta” e erómenos como “erômeno”, como uma forma de tornar tais verbetes mais próximos da Língua Portuguesa tais nomes.

 

 

Todavia, optamos por utilizar neste capítulo os termos em seu original grego.2

 

 

Não há nos trabalhos historiográficos um acordo no que diz respeito à faixa etária do erómenos, uma vez que há autores que delimitam a idade deste entre 12 e 18 anos, enquanto outros a estendem até os 20 anos.

 

No presente trabalho foi adotada a faixa etária apresentada por Nikos A. Vrissimtzis para a designação da idade do mancebo envolvido na pederastia por acharmos os argumentos do autor muito pertinentes (VRISSIMTZIS, 2002: 104).2 não o convite dos candidatos que se apresentassem no momento propício para o início da pederastia.

 

Devemos elucidar que as relações pederásticas ocorriam somente entre os eupátridas3 e futuros eupátridas de Atenas e que era uma atividade predominantemente do círculo aristocrático, principalmente aquele que freqüentava os ginásios e os banquetes (MOSSÉ, 2004: 223).

 

Esta exclusividade tem uma explicação: nem todos os homens livres tinham vocação para exercer plenamente a vida política, nem se dedicarem à conquista de belos rapazes, mas somente os eupátridas ricos. Todavia, analisando a obra platônica, observamos que Sócrates fora erastés de diversos jovens, sem, contudo, ser detentor de grandes posses. A principal questão que norteia nossa análise encontra-se na compreensão da pederastia em Atenas enquanto uma instituição políticopedagógica, que visava à formação do futuro cidadão ateniense e que poderia ocorrer durante os banquetes aristocráticos.

 

***

 

"Aristóteles herdou as palavras eidos e genos, que haviam sido usadas, em particular, por Platão. Quando tomado em sentido classificativo, genos designa um grupo suscetível de ser dividido em pares de eide(espécie masculino e feminino) de formas específicas. Portanto, desse ponto de vista, o gênero Anthropo engloba o homem e a mulher como duas formas opostas. Partindo desse pressuposto acreditava-se que, no início do gênero humano, só existiam criaturas masculinas, não apresentando qualquer divisão sexual. Em seguida, por uma espécie de mutação degenerativa, veio ao mundo o genos das mulheres. As almas dos machos que se haviam mostrado covardes reencarnavam, depois de sua morte, num corpo diferente – um corpo de mulher. […] Usando um raciocínio análogo ao de Aristóteles, quando este explica o nascimento de uma moça em vez de um rapaz, como um desvio em relação ao modelo masculino, Platão situa o aparecimento da diferença sexual no momento em que, na história do homem, se quebra a perfeição original.

(BARBOSA, Renata Cerqueira. 'Gênero e Antiguidade: representações e discursos'. In:História Revista. Goiânia: Editora do Mestrado em História, V. 12, n. 2, jul./dez. 2007, p. 355.)"

 

 

 


Nenhum comentário: