INÍCIO

24 junho 2022

E COMEÇO AQUI

HAROLDO DE CAMPOS 







E começo aqui

e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem o que importa não é a viagem mas o começo da por isso meço por isso começo escrever mil páginas escrever milumapáginas para acabar com a escritura para começar com a escritura para acabarcomeçar com a escritura por isso recomeço por isso arremeço por isso teço escrever sobre escrever é o futuro do escrever sobrescrevo sobrescravo em milumanoites miluma-páginas ou uma página em uma noite que é o mesmo noites e páginas mesmam ensimesmam onde o fim é o comêço onde escrever sobre o escrever é não escrever sobre não escrever e por isso começo descomeço pelo descomêço desconheço e me teço um livro onde tudo seja fortuito e forçoso um livro onde tudo seja não esteja um umbigodomundolivro um umbigodolivromundo um livro de viagem onde a viagem seja o livro o ser do livro é a viagem por isso começo pois a viagem é o comêço e volto e revolto pois na volta recomeço reconheço remeço um livro é o conteúdo do livro e cada página de um livro é o conteúdo do livro e cada linha de uma página e cada palavra de uma linha é o conteúdo da palavra da linha da página do livro um livro ensaia o livro todo livro é um livro de ensaio de ensaios do livro por isso o fim-comêço começa e fina recomeça e refina e se afina o fim no funil do comêço afunila o comêço no fuzil do fim no fim do fim recomeça o  recomêço refina o refino do fim e onde fina começa e se apressa e regressa e retece há milumaestórias na mínima unha de estória por isso não conto por isso não canto por isso a não estória me desconta ou me descanta o avesso da estória que pode ser escória que pode ser cárie que pode ser estória tudo depende da hora tudo depende da glória tudo depende de embora e nada e néris e reles e nemnada de nada e nures de néris de reles de ralo de raro e nacos de necas e nanjas de nullus e nures de nenhures e nesgas de nulla res e nenhumzinho de nemnada nunca pode ser tudo pode ser todo pode ser total tudossomado todo somassuma de tudo suma somatória do assomo do assombro  e aqui me meço e começo e me projeto eco do comêço eco do eco de um  começo em eco no soco de um comêço em eco no oco de um soco no osso e aqui ou além ou aquém ou lá acolá ou em toda parte ou em nenhuma parte ou mais além ou menos aquém ou mais adiante ou menos atrás ou avante ou paravante ou à ré ou a raso ou a rés começo re começo rés começo raso começo que a unha-de-fome da estória não me come não me consome não me doma não me redoma pois no osso do comêço só conheço o osso o osso buco do comêço a bossa do comêço onde é viagem onde a viagem é maravilha de tornaviagem é tornassol viagem de maravilha onde a migalha a maravalha a apara é maravilha é vanilla é vigília é cintila de centelha é favila de fábula é lumínula de nada e descanto a fábula e desconto as fadas e conto as favas pois começo a fala

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Haroldo de Campos (1929-2003), poeta e tradutor brasileiro.

22 junho 2022

O DESENHO DE CARLOS ZÉFIRO


CARLOS ZÉFIRO
DESENHO DESEJO




Os "catecismos" eram desenhados diretamente sobre papel vegetal, eliminando assim a necessidade do fotolito, [4] e e impresso em diferentes gráficas em diferentes estados da Federação, gerando, inclusive, diversos imitadores. Em 1970, durante a ditadura militar, foi realizada em Brasília uma investigação para descobrir O autor daquelas obras pornográficas. Chegou-se a prender por três dias o editor Hélio Brandão, amigo do artista, mas a investigação terminou inconclusa.




 





Seus quadrinhos eram inspirados em quadrinhos românticos mexicanos publicados pela editora Editormex (cujas histórias possuiam apenas dois quadros por página) e em fotonovelas pornográficas de origem sueca. 

O nome Carlos Zéfiro foi tirado de um autor mexicano de fotonovelas. 

Para o jornalista Gonçalo Junior, os catecismos de Zéfiro não possuem nenhuma relação com os tijuana bibles, quadrinhos eróticos publicados nos Estados Unidos entre as décadas de 1930 e 1950, que usava como protagonists personages de desenhos animados, quadrinhos e até celebridades. 

Além de seus trabalhos como ilustrador, Alcides Caminha foi compositor, inscrito na Ordem dos Músicos do Brasil e parceiro de Guilherme de Brito e Nelson Cavaquinho, com quem compôs quatro sambas para a Mangueira, entre eles os sucessos: Notícia, gravado por Roberto Silva na década de 1950, e A Flor e o Espinho.






Caminha revelou sua identidade nas páginas da revista Playboy em 1991, após saber que o quadrinista baiano Eduardo Barbosa havia declarado ser o verdadeiro Carlos Zéfiro, Barbosa chegou a desenhar alguns "catecismos", entretanto Caminha foi identificado por Hélio Brandão. 

Em novembro do mesmo ano participou da I Bienal de Quadrinhos. Em 1992 recebeu o Troféu HQ Mix, pela importância de sua obra. 
















***
I


Carlos Zéfiro é o pseudônimo do servidor público brasileiro Alcides Aguiar Caminha (Rio de Janeiro, 25 de setembro de 1921 – Rio de Janeiro, 5 de julho de 1992) com o qual ilustrou e publicou, durante as décadas de 50 a 70, histórias em quadrinhos de cunho erótico que ficaram conhecidas por “catecismos”.


Alcides Caminha (o Zéfiro) posa com as coelhinhas da Playboy em 1991 (Reprodução/arquivo O Dia)


Alcides Aguiar Caminha, carioca boêmio, ilustrou e vendeu cerca de 500 trabalhos desenhados em preto e branco com tamanho de 1/4 de folha ofício (chegou a publicar num outro formato, 14 x 21 cm), um quadro por página2 contendo de 24 a 32 páginas3 que eram vendidos dissimuladamente em bancas de jornais, devido ao seu conteúdo porno-erótico, ficando conhecidos como “catecismos” e chegaram a tiragens de 30.000 exemplares.




Biografia


Casado desde os 25 anos, com Dona Serat Caminha teve 5 filhos e sempre escondeu de toda a família sua atividade paralela de desenhista e aposentou-se como funcionário público do setor de Imigração do Ministério do Trabalho.

Sua identidade somente se tornou pública em uma reportagem de Juca Kfouri para Revista Playboy (onde era editor na época) que foi publicada em 1991, um ano antes de sua morte.

Autodidata no desenho e concluinte do curso de segundo grau somente quando tinha 58 anos, manteve o anonimato sobre sua verdadeira identidade por temer ter seu nome envolvido em escândalo o que lhe traria problemas por se tratar de funcionário público submetido à Lei 1.711 de 1952 que poderia punir com a demissão o funcionário público por “incontinência pública escandalosa” e retirar os proventos com os quais mantinha a família.


Carreira

Os “catecismos” eram desenhados diretamente sobre papel vegetal, eliminando assim a necessidade do fotolito,4 e impresso em diferentes gráficas em diferentes estados da Federação, gerando, inclusive, diversos imitadores. Em 1970, durante a ditadura militar, foi realizada em Brasília uma investigação para descobrir o autor daquelas obras pornográficas. Chegou-se a prender por três dias o editor Hélio Brandão, amigo do artista, mas a investigação terminou inconclusa.

Seus quadrinhos eram inspirados em quadrinhos românticos mexicanos2 publicados pela editora Editormex (cujas histórias possuiam apenas dois quadros por página) e em fotonovelas pornográficas de origem sueca.

O nome Carlos Zéfiro foi tirado de um autor mexicano de fotonovelas. Na década de 1980, o quadrinista Sebastião Seabra adotou o pseudônimo Sebastião Zéfiro para não comprometer o trabalho que possuía como ilustrador de livros didáticos.

Para o jornalista Gonçalo Junior, os catecismos de Zéfiro não possuem nenhuma relação com os tijuana bibles, quadrinhos eróticos publicados nos Estados Unidos entre as décadas de 1930 e 1950, que usava como protagonistas personagens de desenhos animados, quadrinhos e até celebridades.

Além de seus trabalhos como ilustrador, Alcides Caminha foi compositor, inscrito na Ordem dos Músicos do Brasil e parceiro de Guilherme de Brito e Nelson Cavaquinho, com quem compôs quatro sambas para a Mangueira, entre eles os sucessos: Notícia, gravado por Roberto Silva na década de 1950, e A Flor e o Espinho.

Caminha revelou sua identidade nas páginas da revista Playboy em 1991, após saber que o quadrinista baiano Eduardo Barbosa havia declarado ser o verdadeiro Carlos Zéfiro, Barbosa chegou a desenhar alguns “catecismos”,3 entretanto Caminha foi identificado por Hélio Brandão. Em novembro do mesmo ano participou da I Bienal de Quadrinhos.

Em 1992 recebeu o Troféu HQ Mix, pela importância de sua obra.


Impacto na cultura popular


Seabra conseguiu junto a Editora Maciota que fosse publicado o trabalho de Zéfiro (na época ainda no anonimato), chegou a se especular que os artistas fossem parentes.

Após sua morte teve um trabalho publicado como homenagem póstuma em 1997 na capa e no encarte do cd Barulhinho Bom – Uma Viagem Musical da cantora Marisa Monte.3 Em 1998, as vinhetas de abertura e intervalos do Video Music Brasil 1998, da MTV Brasil foram claramente inspiradas nos folhetins de sua obra.

Em agosto de 1999, em Anchieta, bairro em que morava, foi inaugurada a Lona Cultural Carlos Zéfiro, com show da Velha Guarda da Portela e Marisa Monte. A cantora e o jornalista Juca Kfouri, que revelou a verdadeira identidade de Carlos Zéfiro nas páginas da Playboy, são os padrinhos da Lona Cultural, fundada e dirigida por um grupo de artistas locais, que tinha à frente Adailton Medeiros.

Em 2009, ao fazer uma crítica a corrupção do Senado Federal, o Jornal Extra do Rio de Janeiro publicou uma galeria de imagens inspiradas nos quadrinhos de Zéfiro.

Em Janeiro de 2011, os trabalhos de Zéfiro foram expostos ao lado de outros quadrinhos eróticos do resto mundo no Museu do Sexo, em Nova York. Em Março de 2011, Zéfiro foi tema da peça de teatro “Os catecismos segundo Carlos Zéfiro” escrito e dirigido por Paulo Biscaia Filho.



II

CARLOS ZÉFIRO VIROU CULT (2)


Por Luiz Carlos Prestes Filho, compartilhado da Tribuna da Imprensa Livre. 

Em entrevista exclusiva para o jornal Tribuna da Imprensa Livre, o produtor cultural, poeta e músico, Adailton Medeiros, relembra quando liderou o movimento para denominar a Lona Cultural de Anchieta com o nome do artista e compositor, Carlos Zéfiro: “O show de inauguração da Lona foi com a Marisa Monte e a Velha Guarda da Portela, quando ela cantou duas músicas do Alcides, o Zéfiro, acompanhada de pé pela plateia e toda a família dele, que ocupava a primeira fileira das cadeiras. O conceito e a imagem dele mudaram positivamente, passaram a enxergá-lo artisticamente e entender a sua importância para a cultura brasileira.” Quando pergunto sobre apropriação do nome e obra de Zéfiro, que sempre residiu no bairro de Anchieta, pela elite cultural da zona sul, Adailton responde:

“Zéfiro virou cult.“

Luiz Carlos Prestes Filho: Qual a diferença existente entre a produção cultural da periferia da cidade do Rio de Janeiro e da zona sul?

Adailton Medeiros: A principal diferença é que a Zona Sul sustenta uma cultura hegemônica e nós não. Hoje a nossa maior disputa é pela hegemonia da cidade. A nossa sociedade foi construída de forma a valorizar a propriedade e o poder de consumo e nesse aspecto estamos anos luz atrasados. O subúrbio ficou invisibilizado por muitos anos por conta da polarização asfalto/morro, zona sul/favela. A partir da década de 1990 que começam a surgir projetos socioculturais afirmativos, tendo como protagonistas as lideranças locais, que os criaram para um público do próprio território, no sentido de realizar e consumir, ou seja, o despertar do desejo de pertencimento, de garantia da sua legitimidade. Mas volto a dizer, produzimos cultura. Mas a ideia de nos tornarmos e vivermos como cineastas, bailarinos, músicos, artistas plásticos ainda é muito embrionária.

Produzimos cultura, mas não arte, como aquela reconhecida, produzida e consumida na zona sul.

Prestes Filho: Quais são os ícones culturais de Guadalupe e Anchieta, Ricardo de Albuquerque e Pavuna?

Adailton Medeiros: De Guadalupe o Profeta Gentileza, sua família ainda mora lá. Poderia citar o Caetano Veloso, que durante a juventude morou lá, tanto que a Lona Cultural de Guadalupe foi batizada com o título de uma de suas canções: “Terra”. De Anchieta, sem dúvida, Carlos Zéfiro, o famoso desenhista pornográfico dos anos 50 e 60, que dá nome a Lona Cultural do Bairro. Mas tem também o Lafayette, que nas décadas de 70 e 80 fez muito sucesso com o “Lafaiete e Seu Conjunto”. Sua discografia é enorme, tocou e fez arranjos para os maiores cantores da época.

De Ricardo considero o Eros Fidelis, um cantor e compositor que já foi gravado por Alcione, Jorge Aragão e muitos outros. Da Pavuna, a irreverente e corajosa, Jovelina Pérola Negra, uma das musas do samba que herdou o estilo da Clementina de Jesus.

Prestes Filho: O artista e compositor Carlos Zéfiro teve destaque na produção cultural de seu tempo?

Adailton Medeiros: Para mim, no Brasil, o Zéfiro é o criador da “Estética do Prazer Libertário”. Zéfiro era o desenhista e roteirista dos famosos “Catecismos”, uma revistinha de 16 páginas, no formato daquela cartilha das aulas de catecismo. Só que seus desenhos eram carregados de cenas de sexo apimentadas, com um diálogos curtos e eram vendidos nas bancas de jornais clandestinamente. Zéfiro influenciou na formação sexual de várias gerações. Quando digo que é o criador da “Estética do Prazer Libertário” é porque na época as mulheres eram muito reprimidas, e ainda são, mas eram muito mais. Geralmente, não recebiam informações sexuais antes do matrimônio, casavam para procriar praticando no máximo o “papai e mamãe”. Nas revistinhas de sacanagem do Zéfiro as mulheres também sentiam prazer, ficavam molhadas, transavam em todas as poses e formas, do oral ao anal e gozavam uma, duas, três, enfim, várias vezes, ou seja, sentir prazer e ter liberdade para senti-lo não era privilégio só dos homens, mas também e, principalmente, das mulheres.




Prestes Filho: A obra de Carlos Zéfiro é prova viva de que ocorreram profundas mudanças nos costumes e tradições brasileiras?

Adailton Medeiros: Com certeza e o maior exemplo está na sua própria família. Quando o Zéfiro morreu sua família queimou a maioria dos seus originais. Restaram poucos. Tomaram essa atitude por vergonha. De repente a Marisa Monte grava um CD chamado Barulhinho Bom, com encarte do Gringo Cardia baseado nos traços do Zéfiro. A gente ganha a confiança da família e prestamos uma homenagem a esse artista dando seu nome ao principal equipamento cultural do bairro de Anchieta, a Lona Cultural Carlos Zéfiro. Convidamos a Mariza Monte para ser a madrinha da Lona e o Juca Kfouri para ser o padrinho, pois foi ele que revelou a verdadeira identidade de Zéfiro para o Brasil, através de uma reportagem de três páginas, na revista Playboy, onde era também editor.

Ali o Brasil descobre que o Zéfiro, que além de todo o seu legado pornográfico, era um simples funcionário público chamado Alcides Caminha que, nas horas vagas, também era compositor. Parceiro de Guilherme de Brito e Nelson Cavaquinho, autor de uma das letras mais bonitas da música brasileira: “Tire o seu sorriso do caminho / que eu quero passar com a minha dor” – a canção “A flor e o espinho”. O show de inauguração da Lona foi com a Marisa e a Velha Guarda da Portela, quando ela cantou duas músicas do Alcides, o Zéfiro, uma delas a “Flor e o Espinho”, acompanhada de pé pela plateia e toda a família dele, que ocupava a primeira fileira das cadeiras. Para encurtar, o conceito e a imagem dele mudou positivamente, passaram a enxergá-lo artisticamente e entender a sua importância para a cultura brasileira.

Foi da vergonha ao orgulho, coroado com o casamento de uma de suas netas na sua casa, na Lona Cultural Carlos Zéfiro.

Prestes Filho: Como Carlos Zéfiro inspirou a sua atuação de produtor cultural? Influenciou suas produção musical?

Adailton Medeiros: Inspirou muito, senti que resgatar a sua história e valorizar seu território, meu também, tornou-se parte da minha missão de vida. Minha música e poesia, acredito que não sofreu sua influência. Para falar a verdade nunca me atentei para isso. Agora vou ter que rever.

Prestes Filho: É emblemático e contraditório a existência da Lona Cultural Carlos Zéfiro num bairro como Anchieta? Entre igrejas e templos da localidade o destaque para o nome deste artista valoriza a identidade de Anchieta?

Adailton Medeiros: Sim, o subúrbio sempre foi muito conservador e além disso estávamos passando por uma guinada grande no que diz respeito à política. A religião já estava infiltrada por completo, em especial os neopentecostais, e se fortalecia cada vez mais dentro dos gabinetes e fora deles, a cada dia pipocava uma nova igreja, seja numa garagem desocupada ou em espaços improvisados. A minha atitude de ir atrás do Juca Kfouri foi até por causa disso. Ninguém acreditava que levantaríamos uma Lona Cultural em Anchieta. Do inicio do movimento ao início da obra passaram-se 5 anos. A Região Administrativa (RA) era comandada por religiosos e eles quando viram que a obra da Lona estava quase toda pronta plantaram uma matéria no jornal “O Dia” de meia página, onde o repórter perguntava as pessoas o que elas achavam do nome da Lona e, acredito que a maioria não sabia quem era Carlos Zéfiro. O foca, provavelmente, o entregava como desenhista pornográfico. Tem uma fala de uma pessoa na matéria que não me esqueço, ela é mais ou menos assim: “… tanto nome de político bom pra botar na Lona vão botar logo o desse pervertido”. Ou seja, foi tão difícil que fizeram um movimento pra mudar o nome, o que não conseguiram. Também, queriam tirar o grupo que eu liderava da administração da Lona. O que ocorreu dois anos após a sua inauguração. Quanto ao nome valorizar a identidade de Anchieta, vamos lá: a maior referência geográfica de Anchieta é justamente a Lona, por consequência é o nome mais citado diariamente para qualquer informação.

Por outro lado, só consegui convencer a Marisa e o Juca a serem os padrinhos do projeto por causa do seu nome. Anchieta nunca viu tanto carro de imprensa quanto no dia da coletiva da Marisa e da Velha Guarda da Portela. Com isso Anchieta se descola das páginas policiais de jornais e revistas e ganha os espaços nobres nos cadernos de cultura, programas televisivos e radiofônicos. Por causa desse nome consegui trazer os mais respeitados cineastas, diretores de teatro, cantores, compositores e, como consequência natural, trazer público de outras localidades. Provocando uma maior mobilidade na cidade e uma interação riquíssima na plateia com quem era daqui e quem era de fora, de forma que o Zéfiro passou tanto a ser venerado a ponto de no carnaval de 2000 tornar-se enredo do “Bloco do Boi”, a maior manifestação cultural local.

Nesse ano o Bloco chegou a arrastar mais de 5 mil foliões.

Prestes Filho: Carlos Zéfiro residiu a vida inteira na periferia. A apropriação de seu nome e obra, que hoje é feita pela elite cultural da zona sul, demonstra a sua força? Prova a sua capacidade de derrubar fronteiras sociais e econômicas?

Adailton Medeiros: Quanto a primeira pergunta, sim. Zéfiro virou cult. Tanto que a Banca Cena Muda, de Ipanema, resolveu durante um tempo reeditar as revistinhas do Zéfiro e eu emprestei vários originais à Adda, dona da banca. Ela não queria dinheiro, queria é que todo mundo se apropriasse do Zéfiro. Quanto à segunda, o seguinte eu sempre tive um olhar sobre Zéfiro como passado, como história eu jamais pensei que pudesse imaginá-lo no presente e num futuro próximo.

Creio que na era Damares (atual titular do Ministério Mulher, Família e dos Direitos Humanos) Zéfiro nunca foi tão importante. Lá atrás sim, serviu como quebra de fronteiras; hoje diríamos, de paradigmas.

Prestes Filho: Quem são os artistas que hoje se destacam no cenário cultural de Anchieta, Guadalupe, Ricardo de Albuquerque e Pavuna? Algum destes tem relação com a identidade “zeferiana”?

Adailton Medeiros: Como disse lá no início, aqui ainda não temos o que poderíamos chamar de famosos, no máximo são notáveis, e nesse caso eu também me incluo. Nós ainda estamos no processo de construção e preparação. É importante saber que aqui ainda se tem a prática de ter que trabalhar ou servir o exército quando se completa 18 anos. Não conseguimos formar ainda uma geração de artistas que dê origem a uma subsequente e a apoie. Para muitos, a arte é ainda coisa de vagabundo. Basta você ver que os maiores defensores do Jair Bolsonaro, no Rio, estão aqui. Entendem a Lei Rouanet “como ninguém” e se orgulham em dizer que acabaram como a nossa mamata. São incapazes de reconhecer que somos iguais ou pelo menos muito parecidos. Para se ter uma ideia, quando surgiu esse movimento na década de 90, o principal objetivo era o de não perder a juventude para o tráfico e nem para o submundo da marginalidade. Na maioria dos casos fomos exitosos; porém, perdemos muitos talentos para o Mc Donald, Bob’s, Supermercados e Casas Bahia da vida e outros que só aumentam e retroalimentam à margem, com o argumento da dignidade de um emprego a qualquer custo e sacrifício.

Quando dignidade é muito mais que isso.

Prestes Filho: Quais equipamentos culturais estão a disposição da população local? O maior deles seria a quadra do GRES Beija-Flor de Nilópolis, localizado no município vizinho?

Adailton Medeiros: Sim, porém mais nas proximidades do carnaval. Lá são realizados alguns shows. Tirando isso temos a Lona “Jovelina Pérola Negra”, e a quadra da Unidos da Ponte, na Pavuna; as quadras do “Arame” e do Império Ricardense, em Ricardo; a Lona “Carlos Zéfiro” em Anchieta e o “Esporte Clube Anchieta”; a Lona “Terra”, em Guadalupe, o cinema no Shopping Jardim Guadalupe e o Ponto Cine, no Guadalupe Shopping, o maior exibidor de filmes brasileiros no mundo. São poucos os equipamentos, pouquíssimos e não há um interesse do poder público e nem da sociedade, de uma forma geral, de promover conhecimento e bem-estar social.

Em todos os lugares onde dou palestras costumo fazer paralelo com Euclides da Cunha, o cara que escreveu o primeiro livro determinista do Brasil, “Os Sertões”. No livro, Euclides abre a narrativa assim: “O sertanejo é antes de tudo um forte”. Eu costumo dizer: “O suburbano é antes de tudo um chato”. E a maior prova disso é um cara chamado Claudio Prado, que criou e construiu o Museu da Humanidade, em Anchieta, onde são guardados mais de 90 mil itens arqueológicos, entre estátuas, vidros, joias, armas, tecidos, roupas, objetos em metais, madeira e pedra, entre muitos outros, do Brasil e do mundo. Tudo aqui é na cara e na coragem.

Claudio Prado é um dos meus ídolos e mora pertinho; é um dos meus mestres, e é mais novo que eu. O Claudio simboliza muito a nossa missão, o nosso comprometimento com a “nossa terra de índio, onde nascem nossos filhos e estão enterrados nossos ancestrais”


III


CARLOS ZÉFIRO: OS BONS TEMPOS

Sacanagem sempre foi um negócio muito rentável, não importa a mídia da qual se fala. Nos quadrinhos não é diferente.
Hoje em dia vemos nas livrarias inúmeros álbuns de HQs com temática erótica, como os clássicos de Milo Manara ou as histórias de Giovanna Casotto, publicados no Brasil pela Conrad.

Entretanto, o quadrnho europeu é visto, tanto aqui quanto no Velho Continente, como arte e assim é tratado.
Brasileiros nunca deram muita bola pros gibis, "coisa de criança" é só a maneira mais famosa de denegrir a imagem da arte sequencial, mesmo em tempos onde brasileiros ganham Eisners e publicam muitas coisas lá fora.

Com este caráter típíco não era de se esperar que um autor de quadrinhos eróticos sobrevivesse nas bancas do Brasil, mas um homem tentou e, mesmo que não tenha conseguido, foi eternizado por seus trabalhos.

Em plena ditadura militar, um tal Carlos Zéfiro apareceu nas bancas com seus famosos "catecismos" (que tinham esse nome por serem vendidas dentro de revistas religiosas). Revistas que cabiam no bolso e passavam de mão em mão entre os adolescentes da época, ensinando a sacanagem aos jovens onanistas daquele tempo.




O enigmático Zéfiro teve suas atividades começadas nos anos 50, já na clandestinidade e tudo só piorou com o golpe de 64, mas lá estava o educador do Sexo, com seus quadrinhos safados e de qualidade duvidosa, já que erros de português eram frequentes e seus desenhos não eram obras-primas, mas isto era o de menos, porque o que interessava no trabalho de Zéfiro era a sacanagem.

Já foi chamado de Nelson Rodrigues dos quadrinhos justamente por colocar a sensualidade em situações corriqueiras e por sempre privilegiar a mulher. Em suas histórias as moças é que mandavam, elas eram o centro das atenções, assim como na obra de Rodrigues.
Empregadas, professoras, donas de casa, secretárias, e todas as mulheres foram retratadas em sua obra, mas o Sexo era o personagem principal. Sacanagem sempre foi algo rentável...

É óbvio que sua obra nunca foi preservada, já que raramente eram guardadas por seus compradores e também devido ao fato de não terem uma editora ou uma data de publicação, tudo com o intento de despistar os censores da época.

Em 1991 o editor da "Playboy" Juca Kfouri desvendou o mistério: Carlos Zéfiro era na verdade um funcionário do Depertamento de Imigração, o carioca Alcides Caminha. Um homem modesto e humilde que só se "revelou" devido a pressão de seus filhos. Foi um negócio interessante pra ele, já que pode vender originais e arrecadar algum dinheiro, mas não durou muito, já que o nobre professor deixou este mundo em 5 de julho de 1992, menos de um ano após ter sua indentidade revelada.

Mesmo em seus quinze minutos de fama, Alcides se mostrou humilde e disse ao ser perguntado se tinha consciência de que fazia parte da história cultural do país:

"não ligo muito para isso, não. Com sinceridade. Afinal é muita honra para um pobre marquês. Acho tudo na vida muito efêmero. Hoje se está no apogeu, amanhã no ostracismo e acabou"

Hoje, Alcides "Zéfiro" Caminha é exaltado, tendo alguns de seus catecismos(estima-se que existiram mais de 600) em livrarias e seu nome lembrado por muitos. Alcides também foi co-compositor de algumas músicas ao lado de Nelson Cavaquinho, como "Notícia" e "A flor e o espinho".

Leia a entrevista que ele concedeu a revista Semanário nº 186 de Fevereiro de 1992 e entenda um pouco mais sobre a trajetória do quadrinhista. (A página também contém outras informações e um pequeno acervo com obras de Zéfiro)

Seu lagado está em diversos lugares. Além de, lógico, quadrinhos eróticos beberem de Zéfiro, Marisa Monte usou a arte do mestre na capa de seu álbum “Barulhinho Bom”, de 1997 e a MTV já criou uma vinheta totalmente inspirada nos catescismos. Enfim, a sem-vergonhice de Carlos Zéfiro deixou marcas na cultura nacional.

Alcides deve ser eternamente lembrado pelos bons tempos de Carlos Zéfiro e suas obras são sim parte da cultura deste país, mas que seus quadrinhos jamais alcancem status de arte, porque a arte é feita pra se mostrar e sacanegem é feita pra se esconder.



IV

MACUNAÍNA EXIBE ZÉFIRO, O HERÓI DOS ADOLESCENTES


Herói dos adolescentes

O Cineclube Macunaíma retorna com suas exibições virtuais de 2021, nesta terça-feira, 19, às 20 horas, no canal da Associação Brasileira de Imprensa do YouTube, apresentando o documentário Em busca de Carlos Zéfiro (2019), de Silvio Tendler, que só foi exibido uma vez no Canal Curta e retirado do YouTube.

O jornalista e conselheiro da ABI, Juca Kfouri, descobriu a identidade de Zéfiro, em 1991, e publicou uma reportagem na revista PLAYBOY que está reproduzida aqui no site. Após a apresentação do filme haverá um debate, às 21h30, com o diretor do filme, além de Juca Kfouri; o curador do Macunaíma, jornalista Ricardo Cota (mediador); a artista visual Simone Rodrigues; a psicanalista Gloria Seddon; e o historiador José Carlos Sebe Bom Meihy. Em busca de Carlos Zéfiro estará à disposição do público a partir das 20hs desta terça-feira, até quinta-feira, 21, no mesmo horário. Inscrevam-se e divirtam-se.

Carlos Zéfiro, que comemora 100 anos em 2021, era o funcionário público Alcides Aguiar Caminha, autor dos catecismos, revistinhas com desenhos apimentados que ensinaram educação sexual aos adolescentes dos anos 1950, 1960 e 1970. O pacato bisavô, pai de cinco filhos e onze netos, foi casado a vida inteira com a mesma mulher e morador do subúrbio de Anchieta, sendo ainda parceiro de Nélson Cavaquinho e Guilherme de Brito em A flor e o espinho (“Tire seu sorriso do caminho”…), gravado por Elizeth Cardoso, em 1965. Ele morreu em 1992, aos 70 anos, mas as revistinhas ficaram para sempre na lembrança dos jovens das antigas gerações. Leia mais na entrevista de Juca Kfouri abaixo.

A verdadeira identidade de Carlos Zéfiro, o autor de quadrinhos eróticos e responsável pela iniciação sexual de muita gente

Por JUCA KFOURI (reportagem publicada pela PLAYBOY, de novembro de 1991, quando o jornalista era diretor da revista)

Carlos Zéfiro está vivo! Ídolo de algumas gerações, seu trabalho ensejou sonhos e orgasmos de quem tinha entre 10 e 20 anos na década de 60. Anos dourados, quando apareceram as revistinhas de Zéfiro, chamadas de catecismos, vendidas clandestinamente. Tinham 32 páginas com histórias da mais pura sacanagem, excitantes, criativas, invariavelmente com finais felizes e até moralistas. À venda nas bancas era acompa hada de um ritual. Além dos preços sempre altos, os jornaleiros obrigavam o jovem a comprar também uma publicação “séria” e punham o catecismo dentro dela. Uma coleção de 12 catecismos encadernados significava um testamento, que podia ser novo ou velho. A bíblia era composta por 24 catecismos.

Carlos Zéfiro está vivo e passa bem. Não tão bem como gostaria, é verdade, pois ainda se recupera de uma trombose que lhe pegou dormindo e paralisou totalmente o lado esquerdo do corpo. Mas, aos 70 anos, completados no último dia 26 de setembro, é um homem lúcido, simples, cativante e discreto, além de aterrorizado.

Ele talvez até preferisse não viver para ler o que aqui lerá, pois faz questão absoluta de manter o anonimato que cultivou por mais de trinta anos – desde quando seus quadrinhos eróticos povoaram as fantasias de algumas gerações de brasileiros, e as iniciaram sexualmente.

O medo de Zéfiro tem um número: 1 711, o da lei que rege o funcionalismo público e que prevê suspensão de pagamento da aposentaria doa ex-funcionário que for objeto de escândalo. E Zéfiro teme ser enquadrado como tal. E perder os parcos 80.000 cruzeiros que recebe depois de quarenta anos de serviços prestados ao Departamento de Imigrantes do Ministério do Trabalho.
Zéfiro, porém, não se pertence. Alvo da curiosidade de pesquisadores, professores universitários e de jornalistas, jamais se soube quem era ele. Havia quem dissesse que se tratava de um presidiário que criava as histórias na prisão. Outros difundiam que Zéfiro seria um ex-seminarista, versão que ganhava consistência por causa dos catecismos. Como se verá adiante, no entanto, além de funcionário público, Zéfiro era compositor, e dos bons. Tem pelo menos um grande sucesso em parceria com ninguém menos do que Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, considerado obra-prima e imortalizado por Elizeth Cardos em 1965: A Flor e o Espinho, cujos versos iniciais, que ajudou a escrever em 1956, falam por si mesmos. “Tire seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor”.

Quem mais perto esteve de Zéfiro foi o pesquisador Joaquim Marinho que, em 1983, pela Editora Marco Zero, organizou um livro com sete histórias completas de Carlos Zéfiro e reuniu intelectuais do porte do antropólogo Roberto da Matta e do jornalista Sérgio Augusto, hoje na Folha de São Paulo, para analisar a arte zefiriana.

Marinho chegou a achar que Zéfiro fosse o consagrado pintor Aldemir Martins. Depois seguiu uma pista que daria num usineiro de Recife, famoso intelectual da aristocracia da cana, “homem chegado à libertinagem refinada”, escreveu. Em vão.

E por que Zéfiro? Para o jornalista Sérgio Augusto a escolha de tal pseudônimo só poderia se referir a um dos deuses do vento da Grécia antiga. Foi o deus Zéfiro quem recolheu a deusa do amor Afrodite assim que ela nasceu e a levou em segurança para Chipre, cumprindo o seu papel de mensageiro de Eros, o deus do amor.

Já para Roberto da Matta, em sua Para uma Teoria de Sacanagem: uma Reflexão sobre a Obra de Carlos Zéfiro, a conclusão só poderia ser uma. “Quem é, afinal, Carlos Zéfiro? Todos nós, respondemos em coro, com aquela convicção formidável”.

É possível que sejamos mesmo, embora o nome de Zéfiro tenha sido escolhido por pura imitação. Era esse o nome do autor de uma fotonovela mexicana açucarada da Editora Mex que chegava ao Brasil semanalmente. O nosso Zéfiro se limitava a tirar a roupa dos personagens e a introduzir (epa!) uma elevada dose de boa libertinagem.

“Sabe por que nunca ninguém soube a origem do pseudônimo? Porque nunca ninguém perguntou”, revela o primeiro editor e distribuidor de Zéfiro, o livreiro Hélio Brandão, que guardou segredo sobre a verdadeira identidade do autor até que as evidências falaram mais alto.

Brandão, também chamado de Hélio Gordo, mais parece um personagem saído dos bons filmes de Fellini. Com cerca de 160 quilos e 60 anos, olhos vivíssimos, ele é uma testemunha fundamental não só para revelar a origem do pseudônimo mas, também, para comprovar que o verdadeiro Zéfiro é, tchan, tchan,tchan, tchan…o compositor Alcides Caminha.

Alcides Aguiar Caminha, eis o nome completo, um simpático bisavô, pai de cinco filhos, onze netos, casado a vida inteira com Dona Serrat, dono de uma casa pobre que desenhou e ergueu no subúrbio do Rio de Janeiro, zona norte, a cerca se 40 quilômetros do centro da cidade, no bairro Anchieta, a caminho de Nilópolis, na Baixada Fluminense.

Outro editor de Zéfiro, bem mais recente, nos anos 80, é José Eduardo de Souza, de 34 anos, dono da Editora New Wave, no Brás, em São Paulo. Ele, que não levou adiante a impressão de catecismos zefirianos por achar que “os jovens de hoje querem desenhos mais sofisticados”, avalia sem titubear. “Muita gente quis se fazer passar pelo Zéfiro. Mas o Caminha é autêntico. Eu comprava as histórias diretamente com ele”.

O próprio Caminha preferia que a certeza não fosse tanta. “Tem muita gente por aí que quer ser o Zéfiro, que o iitou. Me tira dessa”, apela intimidado com o fantasma da lei 1 711.

“Em vez de ser punido, Caminha deve ser homenageado, reivinda o premiado artista plástico Newton Mesquita.

De fato, Às portas do século XXI, não teria o menor cabimento nenhuma atitude punitiva contra um artista que faz parte da história recente do país. Em 1970, no entanto, a sotuação era bem diferente, sob a ditadura Médici.

Quem conta é Hélio Brandão: “Foi exatamente no dia em que o Brasil ganhou da Romênia na Copa do México. A Polícia Federal me levou preso porque haviam apreendido cerca de 50 000 exemplares de catecismos em Brasília. Depois que me livrei, felizmente sem maiores problemas, resolvi que nunca mais editaria o Zéfiro. Queimei tudo que eu tinha e desisti”, conta ainda magoado e, por incrível que pareça, ainda tenso.

Hélio distribuía os catecismos pessoalmente, banca por banca no Rio de Janeiro. “Tudo começou numa loja em cima do cine Presidente, onde funcionava a Editora Ouro. Nos reníamos lá à noite, discutíamos o roteiro e o Caminha desenhava. Ele fazia duas histórias por semana e deve ter produzido umas 600 revistas”, calcula.

Desde 1970 Hélio é dono de um sebo atrás do Teatro João Caetano, e, como Caminha, não ganhou muito dinheiro.

Caminha, por sinal, sócio da União Brasileira de Compositores, não ganhou dinheiro nem como Zéfiro nem como parceiro de Nélson Cavaquinho. “Cada seis meses eu pego uns 20 000 cruzeiros de direitos autorais”., conta, certo que nasceu no país errado. Nos Estados Unidos, por exemplo, os quadrinhos e a parceria em apenas um grande sucesso musical fariam dele um homem rico.

Mas que não se pense ser Caminha compositor de uma letra só. Ao lado de Nélson Cavaquinho, por exemplo, ele compôs Notícia, em 1954, e Capital do Samba, em 1956. Notícia, para se ter uma idéia, foi gravada pelo grande sambista Roberto Silva, ídolo de João Gilberto.

Sua influência musical vem do berço. O pai um elegante e viajado contador que trabalhava para a Drogaria Granado do Rio de Janeiro, era amante da ópera, da mãe e da irmã do célebre dentista Patápio Silva, “o maior de todos os tempos”, segundo Caminha.

Da união entre o pai e Paladina, a irmã de Patápio, nasceu Odilon Caminha, o Chico Bóia, um dos primeiros baterista do Brasil, já falecido.

Alcides Caminha seguiu a mesma rota. Amigos músicos e muitas mulheres, “tantas que é impossível calcular quantas foram, informa com um sorriso maroto, antes de reconhecer que “a Serrat é uma santa, pois a tudo perdoou”. “Igual ao professor Raimundo do Chico Anysio”, diz ele, “eu não pensava em outra coisa. Só pensava naquilo”.

Frequentador do Ponto dos Compositores, na porta do Teatro Carlos Gomes, ficou amigo de Nélson Cavaquinho e seu companheiro de boêmia. “Eu só não bebia. Um copo de cerveja me bastava. Não sei como não fiquei viciado em conhaque de alcatrão , a bebida preferida do Nélson, relembra.

Arquivista compulsivo, Caminha tem mais de 7 000 letrasbrasileiras antigas em suas pastas amontoadas no quarto de dormir, dividindo espaço com bem cuidadas referências entre fotos e ilustrações, de casais nus, de cenas íntimas, bases que sempre inspiraram seu lado Zéfiro.

“Há muitos anos que não desenho nada e jamais minha família soube dos catecismos. Não posso arriscar tudo a troco de nada, insiste no aninimato.

Torcedor do São Cristovão, ex-goleiro de talento, Caminha pesa menos de 60 quilos, muito pouco para seus 1,81 metro.

O artigo 207, capítulo V, da Lei 1 711, de 28 de outibro de 1952, que trata das penalidades, informa que “ a penas de demissão será aplicada nos casos de de incontinência pública e escandalosa, vícios de jogos proibidos e embriagues habitual”. Alcide “Carlos Zéfiro” Caminha não bebe, não joga e, seguramente, jamais produziu um escândalo que merecesse as manchetes nacionais. E, na absurda hipótese de vir a ser punido, verá que um fã seu não foge À luta nem teme arcar com aposentaria tão infame.

Carlos Zéfiro está vivo. Via Carlos Zéfiro!





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