I
O NU MASCULINO NA HISTÓRIA DA ARTE: DO IDEAL CLÁSSICO À DESCONSTRUÇÃO CONTEMPORÂNEA
Thales Paim BSc,MSc,MM
Alair Gomes. Fotografia.
Introdução
O nu masculino ocupa um lugar central e paradoxal na história da arte ocidental. Ao mesmo tempo em que foi celebrado como o ápice da perfeição estética e divina, como no corpo de Apolo ou no David de Michelangelo, também foi sistematicamente relegado às margens do discurso artístico quando carregado de desejo explícito.
Como veremos, a nudez masculina nunca foi apenas uma questão anatômica: ela reflete as tensões culturais, os regimes de poder (manifestações do patriarcado) e os tabus de cada época.
Este trabalho propõe uma reflexão sobre essa trajetória, desde as primeiras representações pré-históricas até as abordagens contemporâneas que desafiam as noções tradicionais de masculinidade, sexualidade e poder.
1. Antiguidade clássica: o nascimento do ideal
1.1 Pré-História e as primeiras representações
Embora a figura feminina, as chamadas Vênus paleolíticas, domine o imaginário da arte pré-histórica, representações masculinas também existem, ainda que menos frequentes. As pinturas rupestres frequentemente retratam homens caçadores, geralmente em movimento, mas sem o mesmo desenvolvimento anatômico dado às figuras femininas. Nessas primeiras manifestações, o nu masculino não carregava um ideal estético, mas sim uma função narrativa e ritualística, associada à caça e à fertilidade.
Sobre as figuras femininas
As estatuetas femininas, popularmente conhecidas como "Vênus" do Paleolítico (datadas de 30.000 a 20.000 a.C.), são de fato as manifestações escultóricas mais abundantes desse período. Todavia, sua dominação no registo arqueológico e significado são ainda objeto de intenso debate acadêmico, não havendo consenso definitivo sobre evidencia de um “matriarcado”.
Por que as Vênus são predominantes e o que significam?
Fertilidade e sobrevivência
A interpretação hoje, mais aceita, é que as formas exageradas (seios, abdômen e nádegas grandes) representam símbolos de fertilidade, maternidade e sexualidade. Em um período de escassez absoluta e vida nômade na Era do Gelo, garantir a reprodução e a sobrevivência do grupo era crucial.
Rituais e maternidade
Muitas estatuetas não têm rosto ou cabeça, sugerindo que o foco não era a identidade individual, mas o papel biológico e mágico da mulher como fonte de vida.
A “Deusa-Mãe”
Pesquisadoras como Marija Gimbutas sugerem que essas figuras representavam uma “Deusa-Mãe” ancestral, sugerindo sociedades pré-patriarcais focadas na parceria e no feminino.
Autorretratos femininos
Estudos mais recentes sugerem que as estatuetas podem ser autorretratos feitos por mulheres, que esculpiam seus corpos de cima para baixo durante a gravidez.
Ausência de patriarcado ou evidência de matriarcado?
Sociedades pré-patriarcais/parceria
A arqueologia moderna tende a descrever essas sociedades mais como sociedades de parceria ou pré-patriarcais, em vez de matriarcados (dominação feminina). Acredita-se que homens e mulheres tinham papéis de igualdade ou complementaridade na busca pela sobrevivência.
Representação não é poder
O fato do registro arqueológico da arte ser dominada por formas femininas não significa necessariamente que as mulheres governavam a estrutura política (o que definiria um matriarcado), mas que o feminino tinha um valor sagrado e central na cosmovisão desses povos ancestrais.
Em resumo, as Vênus pré-históricas refletem a valorização da fertilidade e a importância da mulher para a continuidade do grupo, provavelmente em um contexto de igualdade entre gêneros (sociedade de parceria), sem que isso constitua uma evidência direta de que mulheres dominavam os homens (matriarcado).
1.2 Grécia Antiga: O Corpo como Virtude
É na Grécia Antiga que o nu masculino atinge seu status mais elevado. Diferentemente de outras civilizações antigas, como os egípcios, fenícios ou mesopotâmico, os gregos celebravam a nudez atlética como um ideal ético-estético. Os jogos pan-helênicos, documentados já no século VIII a.C. por Homero em seus Hinos, eram ocasiões de exibição e reverência ao corpo masculino. O poeta não hesitava em comparar a beleza física dos jovens à dos deuses.
A escultura grega evoluiu do kouros arcaico, figura rígida, de sorriso arcaico e anatomia esquemática, para a conquista do contrapposto e do cânone por Policleto no século V a.C. com seu Dorífero (Portador da Lança). Essa obra estabeleceu as proporções ideais do corpo masculino, como 7 cabeças e meia de altura (h=7,5 cabeças ou somente 7 cabeças) que influenciariam a arte ocidental por milênios.
O Cânone de Policleitos
Policleto, Πολύκλειτος, Polýkleitos de Sicião ou Argos, ativo entre c. 460 e c. 420-410 a.C., também conhecido como Policleto de Argos, Policleto de Sicião, Policleto, o Velho, ou Policlito, foi um dos mais notáveis escultores da Grécia Antiga, fundador, junto com Fídias, do Classicismo escultórico, e chamafo de “Pai da Teoria da Arte” do Ocidente.
O Cânone, Kanon, Κανον, de Policleto, desenvolvido por esse escultor grego (Policleto de Argos no século V a.C., por volta de 450-440 a.C.), foi um tratado técnico e uma escultura ilustrativa (o Doríforo, “Portador de Lança”) que estabeleceu regras precisas para a representação do corpo humano ideal, focando na beleza, harmonia e simetria matemática entre as partes. Atribui-se a ele a famosa máxima: “a perfeição surge pouco a pouco através de muitos números”.
Embora o tratado original tenha se perdido, as proporções são conhecidas através de relatos de autores antigos, como Galeno, e cópias romanas do Doríforo.
Policleitos de Argos. O Doríforo, a mais famosa criação de Policleto, em uma das melhores cópias antigas existentes, hoje no Museu Arqueológico Nacional de Nápoles.
Visão látego-dorsal (posterior) de uma cópia do Doríforo.
Kunsthistorisches Museum, Viena.
O Doríforo. Cópia moderna em bronze.
(Museu Pushkin).(WP)
Diadumeno, cópia moderna.(WP).
Cópia do Diadúmeno. Note-se em relação à imagem acima a diferença na base de apoio e a presença de pontes de mármore entre as mãos e os ombros e entre as pernas, além de um resíduo de outro elemento não identificado junto ao cotovelo esquerdo. Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque. (WP).
As Proporções do Cânone (Doríforo)
Altura Total
O corpo humano ideal deveria ter uma altura equivalente a 7 vezes o tamanho da cabeça (proporção 1:7). Isso resultava em figuras robustas e sólidas, típicas da arte clássica precoce.
Envergadura dos Braços
A distância entre as pontas dos dedos com os braços estendidos (envergadura) era igual à altura total da figura.
Cabeça
A altura da cabeça era usada como a unidade de medida modular (a “cabeça” ou “módulo”).
Torso e Pernas
O torso e as pernas mediam, cada um, aproximadamente três vezes a altura da cabeça.
Largura dos Ombros
A largura máxima dos ombros era cerca de duas vezes a altura da cabeça (algumas interpretações sugerem outras medidas de palmos, mas o sistema de 7 cabeças foca na altura).
Medidas Relacionais (Baseadas em Falanges): Policleto utilizava uma relação geométrica baseada na proporção de 1:√2 (1 para raiz quadrada de 2)
(o lado de um quadrado para a sua diagonal) para calcular medidas menores, como o comprimento dos dedos e falanges, garantindo simetria harmônica.
Características do Cânone
Contrapposto
O Doríforo ilustra o uso do contrapposto, onde o peso do corpo está em uma perna, gerando uma tensão e relaxamento alternados nas partes opostas do corpo (quadril e ombros inclinados em sentidos opostos).
Diferença com Lisipo
Mais tarde, o escultor Lisipo introduziu um cânone de 8 cabeças, criando figuras mais esguias, em contraste com a robustez de 7 cabeças de Policleto.
O objetivo de Policleto era a symmetria, não no sentido de espelhamento esquerdo-direito, mas de adequação harmônica entre todas as partes do corpo (proporção).
Kanon de Policleitos
Curva S, relacionada ao contrapposto.
(WP)
Na escultura da Grécia antiga, a curva em S é um conceito artístico tradicional em que o corpo e a postura da figura são representados de forma sinuosa ou serpentina. Está relacionada e é uma extensão do termo artístico contraposto, que se refere à representação de uma figura curvada ou com o peso e, consequentemente, o centro de gravidade deslocados para um lado. No entanto, a curva em S envolve uma área maior do corpo do que o contraposto e, portanto, é considerada um desenvolvimento técnico mais avançado. O conceito de "curva em S" foi provavelmente inventado pelo famoso escultor grego Praxíteles, filho de Cifissodoto, que viveu no século IV a.C.(WP)
Cânone de oito cabeças de Lisipo.
Cânone de oito cabeças de Lisipo.
Cânone de oito cabeças de Lisipo.
O Efebo, de Crítio, c. 480 a.C., considerado um precursor do contrapposto clássico. Museu da Acrópole de Atenas.
O contraposto foi historicamente um importante desenvolvimento escultórico, pois seu surgimento marca a primeira vez na arte ocidental em que o corpo humano é usado para expressar uma disposição psicológica mais relaxada, e movimento. Isso confere à figura uma aparência mais dinâmica ou, alternativamente, relaxada.
No plano frontal, resulta em níveis opostos de ombros e quadris; por exemplo, se o quadril direito estiver mais alto que o esquerdo, correspondentemente o ombro direito estará mais baixo que o esquerdo, e vice-versa. Pode ainda abranger a tensão à medida que uma figura passa de repousar sobre uma determinada perna para caminhar ou correr sobre ela (a chamada ponderação). A perna que suporta o peso do corpo é conhecida como perna engajada, e a perna relaxada é conhecida como perna livre. Geralmente, a perna engajada está reta ou ligeiramente flexionada, e a perna livre está ligeiramente flexionada. O contraposto é menos enfatizado do que a curva em S mais sinuosa e cria a ilusão de movimento passado e futuro. Um estudo de rastreamento ocular de 2019, ao mostrar que o contrapposto atua como um estímulo supranormal (que desencadeia uma resposta acima do que se espera) e aumenta a atratividade percebida, forneceu evidências e insights sobre por que, na representação artística, deusas da beleza e do amor são frequentemente representadas em pose de contrapposto. Isso foi posteriormente apoiado por um estudo de neuroimagem. O termo contrapposto também pode ser usado para se referir a múltiplas figuras que estão em contrapose (ou pose oposta) umas às outras em uma composição, o que confere movimento e leveza (WP).
O Efebo Westmacott, Museu Britânico.
Depois da queda do Império Romano, e com a concomitante ascensão do Cristianismo como religião dominante na Europa, toda a cultura pagã, onde se inseriu a obra de Policleto, caiu em profundo descrédito e foi incansavelmente perseguida pelos cristãos, a ponto de ser destruída a vasta maioria das estátuas de heróis, deuses e atletas da Antiguidade, que passaram a ser vistas como indecentes por sua frequente nudez, quando não como ídolos diabólicos e enganosos. Entretanto, a partir do século XII iniciou-se um processo de recuperação do naturalismo na escultura através do ensino humanista nas universidades, e pouco mais tarde acendeu-se o interesse pelas relíquias escultóricas da Antiguidade. Ao final da Idade Média seu nome voltou a ser lembrado, e cada vez com maior frequência, entre os literatos e artistas, como atestam as referências feitas por Nicola Pisano, Petrarca e Dante Alighieri. Dante, aliás, o colocou na sua Divina Comédia como criador de uma arte incomparável.
No Renascimento, com a maciça recuperação dos ideais clássicos, a volta do nu à cena artística e o entendimento do ser humano como o centro da Criação e imagem da Divindade, sua obra foi novamente considerada um modelo ideal de perfeição, atrás somente dos próprios renascentistas, que muitas vezes orgulhosamente se consideravam superiores aos gregos e comparavam favoravelmente suas criações às do antigo mestre. O cânone de proporções da figura humana estabelecido pelo romano Marco Vitrúvio Pólio, na Antiguidade é tido como uma derivação do padrão de Policleto, e quando as obras de Vitrúvio foram redescobertas na Renascença suas ideias se tornaram um modelo largamente reproduzido. Os maiores teóricos e artistas da época, como Donato Bramante, Michelangelo, Leonardo da Vinci e Andrea Palladio, deveram muito a Vitrúvio em suas pesquisas sobre proporções, ao mesmo tempo em que estavam cientes do legado de Policleto através do conhecimento das citações antigas a respeito do seu próprio Cânone. Pouco mais tarde, Vasari instalou Policleto logo após Fídias no panteão dos artistas gregos, a nação que como nenhuma outra atingira a excelência nas artes, e Andreas Vesalius, chamado de o “Pai da Anatomia Moderna”, referiu-se a Policleto quando disse que o propósito da anatomia é a revelação de uma medida ideal para o corpo.(WP)
Apolo belvedere. Museu Vaticano.
Apolo foi um dos deuses mais importantes e populares da mitologia grega. Um dos doze olímpicos, era filho de Zeus (filhos dos Titãs Chronos e Rheia) e da Titânide Leto (filha dos Titãs Ceos e Febe), e irmão gêmeo de Ártemis. Seus atributos e funções eram inúmeros, o que o tornou um dos deuses mais venerados da Grécia Antiga, preservando seu prestígio também na era romana. Seu mito tem origens remotas, e no tempo de Homero já tinha grande destaque no panteão grego. Era identificado com o sol e com a luz da verdade, da razão e da consciência. Deus da profecia e da inspiração artística, era patrono do mais famoso oráculo da Antiguidade, o Oráculo de Delfos, e líder das Musas. Era também um deus civilizador e pacificador, presidindo sobre as leis da religião e sobre as constituições das cidades. Iniciador, pedagogo e o perfeito erastes, era símbolo da juventude eterna e o protetor dos jovens que ingressavam na vida adulta. Era o deus da morte súbita, das pragas e doenças, mas também o deus da cura e da proteção contra as forças malignas. Além disso era o deus da beleza, da perfeição, da harmonia e do equilíbrio, estava ligado à natureza, às ervas e aos rebanhos, e era protetor dos pastores, marinheiros e arqueiros. Teve inúmeros amores e grande descendência, e foi associado sincreticamente a numerosos deuses de outras tradições. Seu simbolismo e iconografia atravessaram os séculos e permanecem até hoje influentes na cultura ocidental.
Marcantonio Raimondi. Apolo belvedere, mostrando a estátua em 1530. Gravura em metal.
O Apolo Belvedere, cópia romana de um original helenístico do século II a.C., resgatado do mar em 1479, foi consagrado por Johann Joachim Winckelmann (1717-1768), fundador da história da arte moderna, como a expressão máxima do cânone ocidental.
É crucial compreender que, para os gregos, a perfeição física masculina estava intrinsecamente ligada ao atletismo e à pederastia, uma relação pedagógica e erótica entre homens adultos e jovens. Como afirma Mario Perniola, “a experiência grega da desnudez, antes mesmo de se manifestar na arte, já se expressa como ideal ético-estético nos jogos das festas pan-helênicas”.
2. Renascimento: o resgate do corpo divino
Com o Renascimento, o ideal clássico do nu masculino retorna com força renovada. Artistas como Leonardo da Vinci, Michelangelo e Rafael colocam o corpo humano no centro da investigação, sobretudo artística, mas também científica, inspirados pelos ideais do Humanismo e do Neoplatonismo.
A historiadora renascentista Maya Corry explica essa ênfase no corpo masculino a partir da teologia cristã: “é o corpo masculino, não o feminino, que é feito à imagem de Deus”. A perfeição anatômica de Cristo e dos santos justificava o estudo minucioso do nu masculino como forma de aproximação do divino.
Michelangelo Buonarroti (1475-1564) é, sem dúvida, o grande nome dessa tradição. Sua carreira desenvolveu-se na transição do Renascimento para o Maneirismo, e seu estilo centrou-se “na representação da figura humana e em especial no nu masculino, que retratou com enorme pujança”. O David (1501-1504), originalmente concebido para o alto da catedral de Florença, mas instalado na Piazza della Signoria como símbolo da República, representa o auge dessa celebração do corpo heróico. Estudos recentes indicam que um esboço em cera na Casa Buonarroti, conhecido como “Nu masculino II”, pode ser um estudo preparatório para essa obra-prima.
No entanto, há um aspecto prático frequentemente negligenciado: o ateliê renascentista era um ambiente exclusivamente masculino. Como explica Martin Clayton, curador da King's Gallery, “seria contra todas as normas sociais uma mulher se despir na frente de qualquer homem que não fosse o marido”. Consequentemente, “o ateliê da artista teria sido um ambiente masculino e, na ausência de modelos profissionais,” os artistas usavam modelos masculinos para todas as figuras, inclusive as femininas. Isso, segundo Clayton, “levou a mal-entendidos e distorções nas representações do corpo feminino” na época.
Michelangelo Buonarriti. Davi.
3. Século XIX: tensões e moralidade
O século XIX representa um momento de profunda negociação em torno do nu masculino. As academias de belas artes, tanto na França quanto no Brasil, com a Academia Imperial de Belas Artes (AIBA), possuíam um rigoroso esquema de ensino baseado no desenho de figura humana, ainda dominado pelos ideais de beleza da Antiguidade greco-romana.
Contudo, como aponta Stephanie Dahn Batista em O Corpo Falante (2011), o nu na segunda metade do século XIX em Paris passava por um momento de negociação entre “o mundo particular/sexualizado e o mundo geral idealizado”. A nudez masculina, quando desprovida de seu revestimento mitológico ou heroico, tornava-se suspeita.
Um marco importante é o Narciso de Léon Galand (1904), recusado pelo júri do Salão oficial e exposto no Salon des Refusés. A obra causou escândalo por mostrar um Narciso “com cabelos longos e nenhum músculo”, rompendo com o ideal de virilidade clássica e introduzindo uma “fragilidade e feminilidade única e nunca vista antes”. Para Matheus Yehudi, organizador da exposição Male Nudes (2021), 1800 é uma “data significativa na história da representação do nu masculino na arte” porque “carrega em seu contexto histórico e político uma moralidade específica em relação ao corpo masculino”
No final do século XIX, um fenômeno peculiar emerge: fotógrafos como o Barão Wilhelm von Gloeden (1856-1931) e Guglielmo von Plüschow viajam ao Mediterrâneo para produzir imagens de jovens nus em cenários que evocavam a Arcádia clássica. Trabalhando em Taormina, na Sicília, esses artistas buscavam “imitar na fotografia a essência dos gregos”, criando um “humanismo homoerótico europeh”. Seus trabalhos, no entanto, foram confiscados como material pornográfico; quando os negativos de Von Gloeden foram devolvidos após a Segunda Guerra Mundial, “apenas algumas centenas permaneceram intactos”.
Von Gloeden. Fotografia. (revista)
Von Gloeden. Nu. Fotografia. (WP).
Von Gloeden. Nu.(WP)
4. Do simbolismo à modernidade
4.1 Magnus Enckell e o androginismo simbolista
O pintor finlandês Knut Magnus Enckell (1870-1925) representa um capítulo significativo nessa história. Primeiro artista finlandês a romper com o naturalismo, Enckell aproximou-se do Simbolismo durante sua estadia em Paris, fortemente influenciado por Pierre Puvis de Chavannes e pelas ideias de Sâr Péladan sobre idealismo e misticismo. Adotou o “padrão de beleza andrógina” em suas obras, como em O despertar (1893), no qual usou “composição rigorosa e cores transparentes para sugerir uma atmosfera espiritual”. Enckell era homossexual, aspecto que “se reflete em suas pinturas eróticas” e em seus retratos de “homens jovens nus” aos quais atribuía “uma carga erótica que não era comum entre seus contemporâneos.
Knut Magnus Enckell (1870-1925). Menino com caveira.
Aquarela e carvão sobre papel, 1895.
Knut Magnus Enckell (1870-1925). Narciso. Óleo sobre tela. 1897.
Knut Magnus Enckell (1870-1925). O Adônis Moribundo. 1915. Homens nus e atléticos eram e continuam sendo um tema recorrente na obra de Magnus Enckell.
(Imagem: Signe and Ane, Fundação Gyllenbers/Matias Uusikylä).
Knut Magnus Enckell (1870-1925). Retrato de homem nu. Óleo, c. 1920.
Knut Magnus Enckell (1870-1925). Fauno despertando. Óleo sobre tela. 1914.
Knut Magnus Enckell (1870-1925). Homem e cisne.1918. Óleo sobre tela.
4.2 Andy Warhol e a Virada dos Anos 1970
A virada radical ocorre nos anos 1970, em Nova York, com a explosão da liberdade sexual pós-Stonewall. Andy Warhol (1928-1987) foi “um dos primeiros artistas a apresentar, na História da Arte ocidental, a questão do desejo do corpo masculino”. Sua série Torso, imagens serigráficas de torsos masculinos anônimos, frequentemente obtidas de revistas pornográficas, transformou o corpo masculino em “produto e reprodução”, despersonalizando o nu e, ao mesmo tempo, celebrando seu potencial erótico de forma explícita. Vincent Fremont, chefe do estúdio da Factory, relata que “as galerias ficaram com medo de mostrá-las”, evidenciando que, mesmo nos anos 1970, o nu masculino ainda enfrentava resistência institucional que não se aplicava ao nu feminino.
5. Fotografia contemporânea e a desconstrução do olhar
Antes de Mapplethorpe veio George Dureau.
A fotografia tornou-se o meio privilegiado para a reconfiguração do nu masculino na contemporaneidade. Pense em fotografias de nus homoeróticos dos anos 1970 e 1980 e um nome provavelmente se destacará acima de qualquer outro, Robert Mapplethorpe. Embora Mapplethorpe tenha sido de fato o primeiro a expor suas fotografias carregadas de erotismo em uma galeria, num momento em que uma onda de libertação gay e revolução sexual tomava conta da cidade, sobretudo do cenário artístico, até ele próprio buscava influências fora de sua cidade.
Um fotógrafo pioneiro no que diz respeito ao nu masculino poderia, na verdade, ser encontrado mais ao sul, em Nova Orleans. George Dureau era dez anos mais velho que Mapplethorpe, e as afirmações de que o “enfant terrible” de Nova York foi fortemente influenciado por ele estiveram presentes ao longo da vida de ambos, com historiadores e escritores de arte frequentemente chamando Mapplethorpe de aluno de Dureau. Embora existam distinções claras entre o trabalho dos dois artistas, as semelhanças básicas são que tanto Dureau quanto Mapplethorpe eram gays e fotografavam homens nus em preto e branco, com quem também frequentemente se envolviam, e que, em geral, eram homens negros. No entanto, também há diferenças marcantes tanto em suas obras quanto em suas abordagens. O trabalho de Mapplethorpe há muito é marcado por acusações de fetichização racial, especialmente em relação à sua exposição “Black Males”, na qual ele apresentou exclusivamente nus masculinos negros, o que levou a críticas de que ele os retratava como objetos sexualizados, em vez de seres humanos. Já Dureau, embora não esteja totalmente livre dessas críticas, discutivelmente conseguiu conduzir suas relações com seus modelos de maneira diferente, ao, como ele dizia, humanizá-los.
Seja como for, o nome de Mapplethorpe é amplamente conhecido, enquanto o de Dureau é muito pouco. Apenas dois livros dedicados à obra de Dureau foram publicados: o recente “George Dureau: The Photographs”, pela editora Aperture, e outro intitulado “New Orleans”, publicado 20 anos antes, em 1985. Já sobre Mapplethorpe, há uma grande variedade de títulos e filmes. Enquanto Mapplethorpe morreu em 1989, Dureau continuou produzindo até que uma batalha de dois anos contra a doença de Alzheimer o impedisse, vindo a falecer em 2014, aos 83 anos. Em reconhecimento ao trabalho de sua vida, aqui vai um guia no estilo “se você gosta de Mapplethorpe, deveria conhecer a fotografia de Dureau”.
George Dureau (1930-2014, New Orleans), "Emmett Johnson Painting," 1985, vintage silver gelatin photograph, signed and dated lower right, titled and numbers "AP" lower left, presented in a mat and black frame, H.- 14 5/8 in., W.- 14 1/2 in., Framed H.- 23 in., W.- 23 in.
George Dureau
Robert Mapplethorpe (1946-1989) é uma figura central nesse processo. Seus nus masculinos, frequentemente de corpos negros, com genitálias explícitas e em poses que remetiam tanto à escultura clássica quanto à iconografia sadomasoquista, desafiaram frontalmente as convenções. A “adoração ao corpo masculino de Mapplethorpe”, como descrita por críticos, elevou o nu masculino a objeto de contemplação estética sem renunciar à sua carga erótica.
Robert Mapplethorpe (1946-1989)
Robert Mapplethorpe (1946-1989)
Robert Mapplethorpe (1946-1989)
Robert Mapplethorpe (1946-1989)
Robert Mapplethorpe (1946-1989)
Outros fotógrafos contemporâneos como Larry Clark (1943 - ) e Bruce Weber também são mencionados nessa tradição. Clark documenta a juventude marginalizada com um realismo cru, enquanto Weber cria imagens de corpos masculinos idealizados que transitam entre a moda e a arte.
Larry Clark
Lawrence Donald “Larry” Clark (nascido em Tulsa, Oklahoma a 19 de janeiro de 1943) é um cineasta, fotógrafo, escritor e produtor de cinema americano, mais conhecido por seu controverso filme adolescente Kids (1995) e por seu livro de fotografias Tulsa. Seu trabalho se concentra principalmente em jovens que se envolvem com o uso de drogas ilícitas, sexo com menores de idade e violência, e que fazem parte de uma subcultura específica, como o surfe, o punk rock ou o skate.
Sua mãe era fotógrafa de retratos em Tulsa, e Clark trabalhava no negócio da família, vendendo o trabalho dela de porta em porta. Depois do ensino médio, estudou fotografia na Layton School of Art em Milwaukee, Wisconsin (1961-63), e então retornou a Tulsa para fotografar seu círculo de amigos enquanto eles viviam, sem constrangimento, suas vidas de uso de drogas, violência e sexo diante de sua câmera. Em 1971, essas fotografias foram publicadas em “Tulsa”, um livro que se tornou um clássico controverso por seu retrato implacável, porém imparcial, de seus amigos. Em uma entrevista à ARTForum em 1995, Clark disse: “A única coisa que eu queria fazer em Tulsa era ir direto ao ponto... e contar a verdade.” O livro seguinte de Clark, “Teenage Lust” (1983), é uma autobiografia com estrutura livre, contada por meio de fotografias de família, recortes de jornais e as próprias fotografias de Clark. Ele explora o tema da masculinidade emergente em “1992” (1992) e “A Perfect Childhood” (1995), ambos com foco em garotos adolescentes, uma população que Clark considerava tanto “sexualizada quanto demonizada”.
Desde seu livro marcante “Tulsa” (1971), Clark produziu uma extraordinária gama de fotografias e filmes. O trabalho de Clark representa, provavelmente melhor do que o de qualquer outro fotógrafo, a importante transição histórica do fotojornalismo documental da década de 1950 para as explorações fotográficas mais pessoais e investigativas das décadas de 1970 e 1980. Suas primeiras fotografias em preto e branco (Tulsa) têm raízes na era de W. Eugene Smith, Robert Frank e Diane Arbus, e influenciaram o trabalho de fotógrafos posteriores como Nan Goldin e Richard Prince, além de inspirar filmes premiados como “Taxi Driver”, de Martin Scorsese, “Rumble Fish”, de Francis Ford Coppola, e “Drugstore Cowboy”, de Gus Van Sant. Seus recentes longas-metragens independentes (como “Kids”, “Bully” e “Ken Park”) demonstram sua contínua relevância para a pesquisa e para o público contemporâneo.
Clark é conhecido por sua abordagem franca de temas desafiadores. Esses temas são parte integrante de suas explorações sobre diversos assuntos da cultura americana: a exploração de adolescentes na mídia de massa americana (ídolos adolescentes como modelos e objetos sexuais); as confusões criadas para os telespectadores adolescentes por imagens de violência e sexualidade intensas; a responsabilidade dos adultos, especialmente dos pais, pelos problemas enfrentados pelos jovens; e os aspectos ambíguos e em grande parte inexplorados da construção da masculinidade na cultura americana.
Suas colagens e vídeos do final da década de 1980 e início da década de 1990 ampliam essa investigação, revelando as maneiras pelas quais a mídia de massa e o capitalismo, alternadamente, cria, rejeita, erotiza os jovens e demoniza-os. Em 1995, Clark lançou seu primeiro longa-metragem, “Kids”, que estreou no Festival de Cinema de Sundance daquele ano e foi aclamado como “um clássico instantâneo” e “um alerta”. “Kids” foi seguido por “Another Day in Paradise” (1998), “Bully” (2001), “Teenage Caveman” (2001) e “Ken Park” (2002). Atualmente, ele está trabalhando em um novo filme. O trabalho de Clark está representado nas coleções de fotografia de quase todos os principais museus, incluindo o Metropolitan Museum of Art, o Museum of Modern Art, o Whitney Museum of American Art, o San Francisco Museum of Modern Art e o Houston Museum of Fine Arts.
Larry Clark. Runaway, California. 1974. Gelatin silver print (11 x 14 inches).
Larry Clark (1954 - ).
Larry Clark (1954 - ). Kids.
Larry Clark (1954 - ). Kids 4. 1995.
6. O nu masculino na arte brasileira
O Brasil também possui uma tradição significativa na representação do nu masculino, embora frequentemente menos estudada. Artistas como Almeida Júnior (1850-1899) produziram obras como Derrubador Brasileiro (1871), que, embora inserida nos padrões acadêmicos, já apresentava um “olhar moderno da forma”.
Almeida Júnior (1850-1899). Derrubador Brasileiro. Óleo sobre tela. (1871)(WP).
No modernismo, Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti exploraram o nu masculino em diálogo com a antropofagia e a construção da identidade nacional. Mais recentemente, artistas como Antonio Obá, Rodolpho Parigi e Rafael Dambros vêm desafiando as convenções. Rafael Dambros, por exemplo, trabalha com “nus masculinos com caneta esferográfica e em grandes dimensões” e realiza “uma releitura da iconografia católica, expondo a sensualidade e a sexualidade dentro da fé e da religião”.
Obras de Rafael Dambros.
A exposição Male Nudes: Um salão de 1800 à 2021, realizada na Mendes Wood DM (2021), ofereceu um panorama dessa tradição, reunindo desde os desenhos acadêmicos franceses do século XIX até as instalações contemporâneas, incluindo uma pintura de Eliseu Visconti e fotografias de Wolfgang Tillmans.
Alair Gomes.
Alair Gomes nasceu em Valença, no Rio de Janeiro, em 1921 e morreu no Rio de Janeiro em 1992. Formado originalmente em Engenharia Civil e Elétrica, Alair foi um homem de vastos interesses, dedicando décadas ao estudo da física, da filosofia da ciência e da biologia. Essa base estrutural e científica é fundamental para compreendermos o rigor quase matemático de sua produção visual, que floresceu tardiamente, a partir dos anos 1960.
Observa-se no obra de Alair Gones uma ruptura fascinante com o modernismo documental de sua época. Ele não buscava o “instante decisivo” de Cartier-Bresson, mas sim a construção de uma narrativa baseada na continuidade e na obsessão. Sua obra é definida pelo conceito de “Sonatinas”: sequências de fotografias que, como notas em uma partitura, capturam o movimento de corpos masculinos sob a luz solar das praias cariocas.
A importância de sua obra reside em três pilares principais. Primeiro, a introdução de uma estética homoerótica explícita e celebratória em um Brasil ainda sob forte conservadorismo. Alair transformou a orla do Rio de Janeiro em um palco de desejo, onde o corpo jovem e atlético era elevado à condição de escultura clássica grega.
Segundo, sua técnica de voyeurismo estético. Ao utilizar teleobjetivas para capturar rapazes na praia a partir de sua janela em Ipanema, Alair estabeleceu uma nova relação de distância e intimidade. Ele não era apenas um observador, mas um coreógrafo do olhar, organizando o caos do mundo natural em séries lineares que anteciparam discussões contemporâneas sobre o cinema estático e a vigilância.
Por fim, o legado de Alair é um dos maiores acervos individuais da fotografia brasileira, com cerca de 170 mil negativos. Sua obra ultrapassou as fronteiras nacionais, sendo hoje reconhecida em instituições como a Fondation Cartier, em Paris, como um marco da fotografia do século XX. Ele não apenas documentou corpos; ele sistematizou o desejo e provou que a ciência e a arte bebem da mesma fonte: a observação incansável da vida.
Alair Gomes.
Alair Gomes produziu um trabalho inovador e provocativo, considerando, em especial, o período em que foram criadas: as décadas de 1970 e 1980. Ao capturar a beleza e a vulnerabilidade do corpo masculino, ele explorava a sensualidade, a intimidade e a relação do homem com seu próprio corpo, numa época em que a nudez masculina era bastante censurada, principalmente quando remetia à ideia de homossexualidade. (sescsp).
Fotos de Alair Gomes
7. Desafios contemporâneos: gênero, poder e dissidência
A reflexão contemporânea sobre o nu masculino não pode ignorar as questões de gênero e poder que o atravessam. Como aponta Yehudi, “a representação da superioridade masculina violenta e absolutamente distorcida e o exercício do domínio masculino sobre os corpos dissidentes foram proclamados como normais ou naturais ao longo da história”.
Nesse sentido, o nu masculino pode ser compreendido como uma ferramenta de desconstrução do próprio poder patriarcal. Ao apresentar o corpo masculino em poses de fragilidade, vulnerabilidade ou passividade erótica, características tradicionalmente associadas ao feminino, os artistas contemporâneos subvertem os códigos de gênero. “O nu masculino pode ser entendido como uma forma de desafiar o poder masculino através da feminização da forma, sugerindo fragilidade”.
Artistas como Fernanda Azou, que pinta o irmão transexual, e Rodolpho Parigi, que cria um fauno queer, exemplificam essa expansão dos limites do que pode ser representado e de quem pode ser o sujeito do olhar.
O nu masculino na história da arte é, acima de tudo, um espelho das transformações culturais de cada época. Na Grécia Antiga, foi a expressão máxima da virtude cívica e do desejo pedagógico. Na idade média, foi demonizada e vilanizada, considerada pecaminosa. No Renascimento, tornou-se veículo para a contemplação da divindade através da perfeição anatômica. No século XIX, foi objeto de negociação entre o ideal acadêmico e a emergente moralidade burguesa. No século XX, especialmente a partir dos anos 1970, assumiu abertamente sua dimensão erótica e política, tornando-se campo de batalha pela liberdade sexual e pela desconstrução dos papéis de gênero.
O fato de o nu masculino ter sido historicamente mais aceito que o nu feminino, quando revestido de justificativas mitológicas ou religiosas, e ao mesmo tempo mais perseguido quando explicitamente erótico revela a complexa relação da cultura ocidental com o corpo, o desejo e o poder. A arte contemporânea, ao assumir essa tensão sem medi-la, talvez tenha finalmente permitido que o nu masculino seja simplesmente o que sempre foi: uma das mais belas e complexas formas de expressão da condição humana.
Referências
Arte que Acontece. Mendes Wood DM promove exposição sobre a história do nu masculino, 2021. Disponível em: [site da publicação]
Batista, Stephanie Dahn. O Corpo Falante: Narrativas e Inscrições num Corpo Imaginário da Pintura Acadêmica do Século XIX, 2011. Apud Academia.edu
FTA. Magnus Enckell. Disponível em: https://app.fta.art
Nusenovich, Marcelo. Et in Arcadia Ego. El “Arcadismo”: el humanismo homoerótico europeo y su relación con la muerte. Avances, nº 29, Universidad Nacional de Córdoba, 2020. Disponível em: https://revistas.unc.edu.ar/index.php/avances
Arte no Renascimento. FlipHTML5, 2022. Disponível em: https://fliphtml5.com
Nu masculino I. WikiItalia. Disponível em: https://pt.wikiital.com
Uma reflexão sobre o nu masculino e a rebeldia velada em Almeida Júnior e Alvim Corrêa. Academia.edu, 2019
Erotismo, ancestralidade e olhar de mestres. Jornal JÁ, 2017
Moreira, Éric. As Três Graças de Rafael e a nudez feminina no Renascimento. Aventuras na História, 2025.
II
UMA HISTÓRIA FASCINANTE: O NU MASCULINO NA ARTE
A hunky history: the male nude in art
on Mar 1, 2020 12:00:00 AM
Uma história fascinante: o nu masculino na arte precedido de um resumo sobre a nudez mas iliba na arte.
O nu masculino na arte não é tão comentado quanto sua contraparte feminina. No entanto, além de ser agradável aos olhos, o corpo masculino na arte é repleto de história e passou por uma série de transformações fascinantes nos últimos 2000 anos. Reunimos 9 momentos-chave para um breve passeio pela história da beleza masculina. Continue lendo e revelaremos tudo.
O nu masculino na arte, frequentemente ofuscado por sua contraparte feminina, oferece uma fascinante evolução de 2.000 anos dos ideais culturais, sociais e estéticos. Da idealizada atleticidade da Grécia Antiga à intensidade dramática do Renascimento, a representação dos homens transitou por lentes divinas, heroicas e homoeróticas, entre outras.
Aqui está um passeio relâmpago por 9 momentos-chave de uma história musculosa da arte:
Grécia Antiga (c. século V a.C.): As figuras de Kouros e estátuas posteriores, como o Doríforo de Policleto, estabeleceram o ideal atlético masculino, equiparando a perfeição física à virtude cívica.
Império Romano (c. século I a.C. – século II d.C.): Os romanos adotaram a estética grega, mas acrescentaram o retrato, mesclando corpos atléticos com rostos reais e específicos (ex.: Augusto de Prima Porta).
Renascimento (c. 1400): O Davi de bronze de Donatello reintroduziu o nu masculino em tamanho real e em posição autônoma, destacando a beleza jovem andrógina. Já em c. 1500: o Davi de Michelangelo redefiniu o nu masculino como uma figura monumental de força heroica, concentração intensa e detalhamento anatômico minucioso.
Barroco/Caravaggio (c. 1600): Caravaggio acrescentou drama intenso, sensualidade homoerótica e realismo (frequentemente usando modelos de rua) a cenas religiosas e mitológicas, como em Amor Vitorioso.
Neoclassicismo (c. 1700-1800): As esculturas de Antonio Canova retornaram à perfeição clássica refinada, de pele lisa, e a poses idealizadas.
Romantismo (início do século XIX): A Balsa da Medusa, de Théodore Géricault, destacou o corpo masculino em agonia, lutando contra a natureza, afastando-se do heroísmo sereno.
Fin-de-Siècle (c. 1885-1914): Escultores como Jef Lambeaux retrataram regimes musculares refletindo novos ideais modernos de masculinidade.
Modernismo e Contemporâneo (séculos XX-XXI): Artistas como Francis Bacon e fotógrafos como Robert Mapplethorpe desconstruíram ou hipersexualizaram a forma, explorando identidade, raça e vulnerabilidade, indo além dos ideais clássicos tradicionais.”
Aqui está um passeio relâmpago por 9 momentos-chave de uma história musculosa da arte:
Grécia Antiga (c. século V a.C.): As figuras de Kouros e estátuas posteriores, como o Doríforo de Policleto, estabeleceram o ideal atlético masculino, equiparando a perfeição física à virtude cívica.
Império Romano (c. século I a.C. – século II d.C.): Os romanos adotaram a estética grega, mas acrescentaram o retrato, mesclando corpos atléticos com rostos reais e específicos (ex.: Augusto de Prima Porta).
Renascimento (c. 1400): O Davi de bronze de Donatello reintroduziu o nu masculino em tamanho real e em posição autônoma, destacando a beleza jovem andrógina. Já em c. 1500: o Davi de Michelangelo redefiniu o nu masculino como uma figura monumental de força heroica, concentração intensa e detalhamento anatômico minucioso.
Barroco/Caravaggio (c. 1600): Caravaggio acrescentou drama intenso, sensualidade homoerótica e realismo (frequentemente usando modelos de rua) a cenas religiosas e mitológicas, como em Amor Vitorioso.
Neoclassicismo (c. 1700-1800): As esculturas de Antonio Canova retornaram à perfeição clássica refinada, de pele lisa, e a poses idealizadas.
Romantismo (início do século XIX): A Balsa da Medusa, de Théodore Géricault, destacou o corpo masculino em agonia, lutando contra a natureza, afastando-se do heroísmo sereno.
Fin-de-Siècle (c. 1885-1914): Escultores como Jef Lambeaux retrataram regimes musculares refletindo novos ideais modernos de masculinidade.
Modernismo e Contemporâneo (séculos XX-XXI): Artistas como Francis Bacon e fotógrafos como Robert Mapplethorpe desconstruíram ou hipersexualizaram a forma, explorando identidade, raça e vulnerabilidade, indo além dos ideais clássicos tradicionais.”
A hunky history: the male nude in art
O Deus
Estátuas de mármore representando os irmãos Kleobis e Biton / Biblioteca de Imagens De Agostini / G. Dagli Orti
"Atleta, cópia romana após um original de Policleto (fl. c. 450 – c. 415 a.C.) em Pompéia (mármore) (para detalhes, ver 119500), romano / Museu Arqueológico Nacional, Nápoles, Itália.
Nossa primeira parada neste breve passeio é a Grécia Antiga. Abrangendo vários séculos, a arte dos antigos gregos é difícil de resumir, mas certamente mostra uma tendência crescente à semelhança com a vida real. Basta observar a diferença entre os kouroi (ou 'jovens') do século VII a.C., com seus cabelos longos e corpos estáticos, e as estátuas do período clássico (século V a.C.), com sua compleição atlética e pose relaxada (caracterizada por uma leve inclinação do quadril), chamada contrapposto. Os gregos imaginavam seus deuses com aparência de humanos perfeitos e, assim, as imagens dessas divindades têm uma qualidade idealizante que se estendeu também a outros temas. A natureza idealizante do nu masculino nesse período é ainda mais profunda, pois a beleza física era frequentemente associada à bondade (na filosofia de Platão, por exemplo). Por fim, também foi sugerido que os abdômens trincados das estátuas podem ser mais do que mera beleza estética: sendo um povo militarista, os gregos representavam corpos masculinos semelhantes aos de soldados, com estruturas musculares que lembravam armaduras."
Antinous, o último humano deificado na história.
Antinous, o último humano deificado na história.
Antinous, o último humano deificado na história.
Antinous, o último humano deificado na história.
O PECADOR
Na Idade Média, o nu masculino sofre uma inversão de 180 graus: da nudez orgulhosa e descarada da Antiguidade, a nudez torna-se constrangedora. A estátua nua não só se torna um símbolo da religião pagã da Antiguidade (o que não era bem visto na cultura dominada pela Bíblia e pela Igreja Católica da época) e não havia necessidade de imagens semelhantes no Cristianismo, como a própria nudez assume uma posição mais complexa. Associada ao Pecado Original e a questões de (i)moralidade, a nudez quase se transforma em algo vergonhoso. Isso se reflete nos corpos pintados, desenhados e esculpidos, que se tornam esguios e delicados, sem a mesma ênfase no naturalismo.
Ms 41 f.42v Punição de dois adúlteros por meio de procissão de nus pela cidade, do ‘Livre Juratiore d’Agen’ (pergaminho), Escola Francesa, (século XIII) / Bibliothèque Municipale, Agen, França.
O HOMEM RENASCENTISTA

David, c.1440 (bronze), Donatello, (c.1386-1466) / Museo Nazionale del Bargello, Florença, Itália.
Hércules e a Hidra (têmpera no painel), Antonio Pollaiuolo (1432/3-98) / Galleria degli Uffizi, Florença, Itália.
Estudo de braços (pena e tinta sobre papel), Leonardo da Vinci (1452-1519) (atribuído a) / Louvre, Paris, França.
Desenhos anatômicos de Leonardo da Vinci.
Desenhos anatômicos de Leonardo da Vinci.
Desenhos anatômicos de Leonardo da Vinci.
Desenhos anatômicos de Leonardo da Vinci.
Luca Cambiaso (1527-1585).
Jean-Louis-André-Theodore Gerucault (1791-1824)
Desenho de Michelângelo.
Todos já ouvimos a expressão "Homem da Renascença", mas será que existe também algo como um "homem nu da Renascença"? O nu na Europa renascentista passa por mais uma transformação, impulsionada pela descoberta arqueológica de estátuas e artefatos da Antiguidade, inspirada na própria Antiguidade. Isso mesmo, o homem natural e musculoso da Grécia e Roma antigas está de volta.
O naturalismo do nu renascentista, contudo, não se baseia apenas na tradição antiga, mas demonstra uma mudança de pensamento mais ampla: em vez de ver a vida na Terra como um mero prólogo para uma vida após a morte agradável (como na Idade Média), a vida na Terra e, portanto, o “ser humano” passaram a ser muito mais valorizados. A corrente de pensamento associada a isso é chamada de “humanismo”, e o realismo do nu na Renascença demonstra essa nova importância e valorização do corpo humano. Com o renovado interesse pelo naturalismo nas artes, o nu também se torna um espaço para o artista demonstrar suas habilidades: com suas diversas texturas, profundidades e sombras, o corpo se transforma em um grande teste artístico. Para alcançar o naturalismo máximo, os artistas se envolveram cada vez mais com o estudo da anatomia.
LEVADOS AO EXTREMO
A Batalha de Cascina, ou As Banhistas, segundo Michelangelo (1475–1564), 1542 (óleo sobre painel), Aristóteles da Sangallo (1481–1551) / Com a gentil permissão de Lord Leicester e dos Curadores da Propriedade de Holkham, Norfolk.
Itália, Florença, Loggia della Signoria, estátua de mármore de Hércules derrotando o centauro Nesso, de Giambologna / Dorling Kindersley/UIG.
Ao longo dos séculos XVI e início do XVII, algo peculiar acontece: os artistas começam a explorar ao máximo o corpo masculino, indo muito além do físico naturalista e equilibrado da arte renascentista anterior. Os músculos começam a ficar salientes e os torsos e membros são contorcidos em posições impossíveis. A Batalha de Cascina, de Michelangelo (conhecida apenas por meio de cópias após a perda do original), é o exemplo máximo desse corpo masculino mais extremo, do tipo fisiculturista.
Leônidas em Termópilas, 480 a.C., 1814 (óleo sobre tela), Jacques Louis David (1748–1825) / Louvre, Paris, França / Bridgeman Images.
Estudo de um jovem nu (lápis sobre papel), Pierre-Paul Prud’hon (1758–1823) / Museu Condé, Chantilly, França. Leônidas em Termópilas, 480 a.C., 1814 (óleo sobre tela), Jacques Louis David (1748–1825) / Louvre, Paris, França / Bridgeman Images.
Henry Scott Tuke. The sunbathers. (1927).
Henry Scott Tuke. The bather, 1924.
Henry Scott Tuke. Três Companheiros, 1906.
Paul Cadmus drawings.
Paul Cadmus drawings.
Paul Cadmus drawings.
Paul Cadmus drawings.
Paul Cadmus drawings.
Paul Cadmus drawings.
Paul Cadmus drawings.
Paul Cadmus drawings.
Paul Cadmus drawings.
Paul Cadmus drawings.
Paul Cadmus drawings.
Paul Cadmus drawings.
Paul Cadmus drawings.
Paul Cadmus drawings.
Paul Cadmus drawings.
Paul Cadmus drawings.
Paul Cadmus drawings.
Paul Cadmus drawings.
Paul Cadmus drawings.
O estabelecimento de Academias de Arte por toda a Europa, do século XVI ao XVIII (incluindo as Academias Reais de Arte na França e na Inglaterra), teve um grande impacto no nu masculino. Essas academias não apenas trouxeram consigo um estilo clássico e bastante regulamentado, mas o desenho de modelo vivo era visto como um elemento central da educação artística, valorizando, mais uma vez, a percepção da estrutura corporal realista. Além disso, como as Academias privilegiavam grandes temas clássicos e históricos, o nu masculino frequentemente surge como um personagem forte, masculino e heroico.
MASCULINIDADE QUESTIONADA
O Sono de Endimião, 1791 (óleo sobre tela) (para cópia, veja 62246), Anne Louis Girodet de Roucy-Trioson, (1767-1824) / Louvre, Paris, França / © MEPL.
Do final do século XVIII até o século XIX, a aparência do corpo masculino deixou de ser um padrão preestabelecido. Na França, por exemplo, após as guerras napoleônicas terem revelado um lado menos heroico do conflito e alterado a aparência da população masculina (muitos homens agora marcados por cicatrizes ou membros amputados), os artistas experimentaram com um tipo diferente de corpo masculino, incluindo um corpo que não era explicitamente masculino, como o Endimião de Girodet. Essa tendência persistiu até o final do século XIX (basta observar, por exemplo, os homens com aparência juvenil, inspirados na Idade Média, da arte pré-rafaelita na Inglaterra), mas também houve o surgimento de retratos masculinos fortemente realistas por artistas como Courbet e Millet. A visão ideal de masculinidade ensinada nas academias deu lugar à representação de pessoas reais.
HOMEM MUDADO
Jovem em um Trem (óleo sobre tela), Marcel Duchamp (1887–1968) / Fundação Peggy Guggenheim, Veneza, Itália.
Auto-retrato em pé, 1910 (mídia mista), Schiele, Egon (1890–1918) / Graphische Sammlung Albertina, Viena, Áustria / De Agostini Picture Library / G. Nimatalla.
Nus ao Sol, Moritzburg (óleo sobre tela), Ernst Ludwig Kirchner (1880-1938) / Coleção Particular.
As vanguardas dos séculos XIX e XX revolucionaram a representação do nu: não apenas observamos um afastamento da tradição acadêmica estabelecida na arte, como também começamos a desconstruir a própria estrutura do corpo. Artistas como Picasso fragmentaram o corpo em pequenos pedaços, enquanto Egon Schiele o representou de forma torturada, os expressionistas alemães o pintaram em um arco-íris de cores e os surrealistas substituíram partes do corpo por objetos. Há muitos outros exemplos e, talvez pela primeira vez, torna-se praticamente impossível definir um estilo específico de nu. O que realmente unifica a figura masculina desse período é uma mentalidade: os limites e a composição do corpo não são finitos e podem ser misturados.
HOMEM DAS MASSAS
“Afinal, o que torna as casas de hoje tão diferentes, tão atraentes?”, 1956 (colagem), Richard Hamilton (1922–2011) / Kunsthalle, Tubingen, Alemanha.
Sem título, 1981 (óleo, acrílico e esmalte spray sobre tela), Jean-Michel Basquiat (1960–88) / Coleção particular / Foto © Christie’s Images.
Os nus masculinos do final do século XX constituem uma categoria de extremos: variam desde as figuras extremamente abstratas e expressivas de Willem de Kooning até o nu da Pop Art produzido em massa, como este de Richard Hamilton. A cultura de massa influencia grandemente as representações do corpo pelos artistas da Pop Art, mas este não é o único novo fenômeno cultural que se reflete. Keith Haring e Basquiat posteriormente fazem referência à arte e à cultura de rua com seu estilo de pintar o corpo.
HOMEM INQUIETANTE
Leigh Bowery (Sentado), 1990 (óleo sobre tela), Lucian Freud (1922–2011) / Coleção do Sr. e da Sra. Richard C. Hedreen / © The Lucian Freud Archive.
Três Estudos de Figuras em Camas, 1972, Francis Bacon (1909–92) / Coleção particular, Suíça.
Francis Bacon. Lithographie. 1978.
Francis Bacon. óleo sobre tela.
Pintor em atividade, Reflexão, 1993 (óleo sobre tela), Lucian Freud (1922–2011) / Coleção particular / © The Lucian Freud Archive.
Desde as últimas décadas do século XX até os dias de hoje, ainda questionamos o corpo. O corpo feminino, em particular, e seu potencial de objetificação e idealização, tem sido tema de intensos debates, mas a nudez masculina também passou por transformações nas últimas décadas. Novamente, não existe um único tipo de nu que se possa definir com precisão, mas os artistas agora não apenas modificam o corpo, como também chamam a atenção para suas qualidades e complexidades mais incômodas. Artistas como Lucian Freud, por exemplo, nos mostram um corpo masculino quase real demais, carnudo demais e perturbador demais para ser contemplado. O corpo contemporâneo é confrontador, político e, às vezes, francamente difícil de encarar. Em outras palavras, um mundo à parte da Grécia Clássica.
Transcrito de:
(10/VI/2022)







































































































































