INÍCIO

29 março 2025

TALBÓTIPO: HISTÓRIA, TÉCNICA E ARTE

TALBÓTIPO: PIONEIRISMO NA FOTOGRAFIA


Se a fotografia parece um meio extremamente complexo hoje, talvez haja algum conforto no fato de que ela foi igualmente difícil de ser dominada e reproduzida por seus inventores. Coube ao erudito cavalheiro William Henry Fox Talbot (1800–1877) a invenção processo negativo-positivo (em oposição ao processo direto-positivo de Daguerre), essa técnica oscila entre arte e ciência, estética e documentação, o mágico e o empírico. (artforum).

William Henry Fox Talbot (1800-1877) (1)

O "calótipo", ou "talbótipo", era um processo de “revelação”, a melhoria de Talbot em seu processo anterior de desenho fotogênico pelo uso de um sal de prata diferente (iodeto de prata em vez de cloreto de prata) e um agente de revelação (ácido gálico e nitrato de prata) para trazer uma imagem “latente” invisivelmente leve no papel exposto. Isso reduziu o tempo de exposição necessário na câmera para apenas um ou dois minutos para assuntos sob luz solar intensa. O negativo translúcido do calótipo tornou possível produzir quantas impressões positivas fossem desejadas por impressão de contato simples, enquanto o daguerreótipo era um positivo direto opaco que só poderia ser reproduzido sendo copiado com uma câmera. Por outro lado, o calótipo, apesar do encerado do negativo para tornar a imagem mais clara, ainda não era extremamente nítido como o daguerreótipo metálico, porque as fibras do papel borravam a imagem impressa. O processo mais simples de papel salgado era normalmente usado ao fazer impressões de negativos de calótipo.

Talbot reproduzia imagens de seus espécimes botânicos no seu “Early Album of Photogenic Drawing Specimens” (compilado nas décadas de 1830 e 1840) representam o domínio da ciência, que Talbot abraçou.  
Talbot foi além, há também há muitas imagens com uma inclinação mais artística: naturezas-mortas, exteriores arquitetônicos, paisagens e estudos de figuras. 
Em sua obra histórica, “The Pencil of Nature” (1844), o primeiro livro ilustrado com fotografias da história da humanidade (comparado por Beaumont Newhall, primeiro curador de fotografia do MoMA, à Bíblia de Gutenberg) (artforum).  

Segundo Schwendener (s/d), com muitos artistas contemporâneos explorando métodos e processos históricos (alternativos) e imagens feitas com câmeras obscuras, as fotos de Talbot não parecem tão antiquadas quanto se poderia imaginar. Seus negativos em papel ou calótipo iluminados por espelhos por trás, os “desenhos fotogênicos” de plantas (à la “rayografias” de “Man Ray”) e obras em sépia de tom misterioso tornam o trabalho de Talbot visualmente rico e estranhamente contemporâneo para alguém que trabalhou no alvorecer do meio.  

WILLIAM HENRY FOX TALBOT, nasceu em 11 de fevereiro de 1800 em Melbury Sampford (Dorset, UK) e morreu em 17 de setembro de 1877 em Lacock Abbey, (próximo a Chipenham, Wiltshire, UK). 

William Henry Fox Talbot e possivelmente Antoine Claudet, Nicolaas Henneman dormindo em Lacock ou Reading, Inglaterra, 1844/45.

Talbot era um proprietário de terras, erudito e cientista, além de químico e pioneiro da fotografia. A talbotipia ou talbótipo é um processo fotográfico inicial (early photographic technique) inventado por William Henry Fox Talbot em 1830. Nesta técnica, uma folha de papel coberta com cloreto de prata (AgCl, composto químico sólido, cristalino cúbico, branco, pouco solúvel em água (nearly insoluble in water) mas solúvel em uma solução de água e amônia, ou tiosulfato de sódio (hipo)), é exposta a luz em uma câmara escura. Aquelas áreas tocadas pela luz tornam-se negras, produzindo uma imagem negativa. O aspecto revolucionário desse processo esta baseado na descoberta de Talbot de um composto químico (Ácido gálico = substância que ocorre em muitas plantas em ambos estados: livre ou combinado com ácido galotânico, em plantas do gênero Caesalpina sp) que pode ser usado para “desenvolver” a imagem no papel, i.e., acelerar a reação química do cloreto de prata que foi exposto a luz. O processo desenvolvido permitiu um tempo de exposição muito mais curto, caindo de uma hora (Daquerreótipo) para um minuto (talbótipo = talbotype).
Em 1839, o mesmo ano que Louis M. Daguerre anunciou seu método de fixação de imagens em uma placa de cobre tratada com prata, (silvered copper plate) William Henry Fox Talbot, publicou “The Art of Photogenic Drawing” (A arte do desenho fotogênico), uma descrição de como ele procedeu para capturar imagens permanentemente em papel. Quatro anos antes, Talbot produziu minúsculas vistas fotográficas de Lacock Abbey sua casa em Wiltshire. Pelo tratamento dessas pequenas imagens (pictures) com cera (de abelha), Talbot foi capaz de usá-las como negativos e posteriormente imprimir cópias. Embora ele tivesse inventado o processo fotográfico negativo/positivo, as primeiras imagens de Talbot eram pequenas, requeriam um tempo de exposição muito longo e eram desprovidas de detalhamento e brilho do daguerreótipo (lacked the sharpness of detail and brilliance of the daguerreotype).

Fotomicrografia de asas de insetos por Talbot usando um microscópio solar (1)

Talbot continuou seus experimentos e melhorou a qualidade de sua fotografias
Cobrindo o papel com iodeto de prata (AgI = silver iodide) e desenvolvendo as imagens com uma solução de galo-nitrato de prata (ácido gálico + prata). 
Talbot patenteou seu novo processo em fevereiro de 1841 descrevendo suas imagens como “Calotypes”.

Em 1835 ele publicou seu primeiro artigo documentando suas descoberta fotográfica, do papel negativo. Sua obra: The Pencil of Nature (1844-46) foi o primeiro livro com ilustrações fotográficas. Talbot também publicou muitos artigos sobre matemática, astronomia e física. Sob pressão da Royal Academy e da Royal Society, Talbot teve que relaxar seu controle sobre a produção das calotipias (calotypes) em agosto de 1852, permitindo que amadores e artistas usassem o processo, mas ele insistiu que todo o fotógrafo profissional que queria usar seu processo de calotipia para tirar retratos (for taking portraits) tinha que comprar uma licença que geralmente envolvia uma quantidade anual de 100 a 150 libras.

Janela de treliça nada casa de Talbot (Lacock Abbey), agosto de 1835. Um positivo do que pode ser do negativo de câmera mais antigo existente.(1)

Há polêmica em torno da paternidade da fotografia principalmente em torno da paternidade da ideia. Os ingleses, que reivindicam como sua a invenção da máquina fotográfica, argumentam que o processo “negativo-positivo” criado por Talbot foi único, e tornou-se a base da fotografia como a conhecemos. 
Foi de Talbot a primeira foto reproduzida em papel (talbótipo), e o primeiro livro com fotos. 


Resumo
Como vimos, o talbótipo, também conhecido como calótipo, foi um dos primeiros processos fotográficos desenvolvidos na história, esse processo fotográfico foi criado por William Henry Fox Talbot em 1841. Essa técnica revolucionária permitia a produção de múltiplas cópias a partir de um único negativo, diferentemente do daguerreótipo, que gerava imagens únicas e não reproduzíveis.


Processo histórico do Talbótipo

1. Preparação do Papel: O papel é sensibilizado com nitrato de prata e ácido gálico (atualmente usa-se ácido) cítrico, tornando-o fotossensível. 

2. Exposição: O papel era colocado em uma câmera escura e exposto à luz por alguns minutos, capturando a imagem em negativo. 

3. Revelação: O negativo era revelado quimicamente, realçando os tons escuros e claros. 

4. Fixação: A imagem era então fixada com hipossulfito de sódio para evitar o escurecimento contínuo. 

5. Positivo: O negativo era usado para criar cópias positivas em papel sensibilizado, permitindo reproduções. 

Vantagens e Limitações

Vantagens
Possibilidade de múltiplas cópias. 
Uso de papel, mais barato e flexível que placas metálicas. 


Limitações
Imagens menos nítidas que o daguerreótipo. 
Maior tempo de exposição. 


TALBÓTIPO OU CALÓTIPO
(TALBOTYPE)


MATERIAL NECESSÁRIO

Sal de cozinha (NaCl)
Nitrato de prata (AgNO3)
Papel de desenho de boa qualidade (para uso nas provas e trabalhos)
Fixador (tiosulfito de sódio)
Luz ultra-violeta ou luz do sol
Chassis com vidro para colocar o negativo
Negativo bem contrastado
No mínimo três bacias: duas para lavagem, outra para o fixador

Salga do papel

1 litro de água
20 g de sal de cozinha ou 20 g de cloreto de amônio (NH4)Cl
Dissolver bem o sal na água deixar um tempo (5 min) descansando
Colocar a solução numa bacia e mergulhar a folha de papel por 5 minutos
Resultados melhores se obtém preparando os papéis anteriormente com alguns dias de antecedência. 


Soluções 

Solução A
50 ml de água destilada
12 g de Nitrato de prata

Solução B
50 ml de água destilada
6 g de ácido cítrico

Misturar a solução A e B (depois de dissolvidos)
Guarde a solução num vidro fosco com tampa de rosca (ao abrigo da luz)
Fazer as solução A em um ambiente com luz atenuada (luz vermelha).
Aplicar no papel com pincel
Secar o papel (pendurando-o em um varal, no escuro)
Fazer uma marca no lado em que a solução não foi aplicada.


Impressão (cópia) 

Tendo feito um negativo bem contrastado,
Coloque o lado da emulsão do negativo em contato com a emulsão do papel
Colocar no chassi (prensar com o vidro)
Levar ao sol ou na mesa de luz (que pode ser ultra-violeta UV) 
Sol: 2 a 3 minutos 
Luz UV: 5 a 7 minutos 

Tratamento 

lavar bem em água corrente (da torneira) por pelo menos 20 minutos para tirar o excesso de nitrato de prata, isto evita que os sais continuem se alterando mudando de cor a imagem.


Fixação 

Solução do Fixador

500 ml de água 
25 ml de hipossulfito de sódio anidro (Tiosulfito de sódio)
2 g de carbonato de sódio
Dissolver bem 
Mergulhe o papel com a imagem (foto) deixando o fixador agir de 2 a 5 minutos 

P.S. : se voce decidir usar o fixador comercial (fixador Kodak) use uma diluição de 10 vezes (por ex.: 1ml de fixador para 9 ml de água) 
Pendure a folha para secar 

Lavagem final 

Lavar novamente por no mínimo 30 minutos. 


Encolagem a gelatina

Para tornar o papel menos poroso, pode-se usar uma solução de gelatina (o que faz com que as fibras do papel fiquem mais juntas) e evita que os sais de prata penetrem para o interior das fibras do papel tornando a imagem menos nítida. 
Para isso voce vai precisar: 

300 ml de água
2 g de gelatina comestível incolor e sem sabor
6 g de sal de cozinha

Pese 2 g de gelatina e mergulhe em 100 ml de água (deixar descansar por 15 minutos), quando a gelatina inchar complete com
200 ml de água quente (45°C) e misture até dissolver bem, por fim dissolva o sal. 

Com a solução ainda líquida pincele ou mergulhe a folha de papel e deixe por 30 segundos, retire e deixe secar. 

P.S.: tenha o cuidado de impregnar toda a superfície do papel. 
Cuidando sempre para evitar as bolhas, que impedem a gelatina de percolar no papel.
Depois que as folhas secarem pincele o nitrato de prata (no escuro ou sob luz vermelha)
Siga normalmente os passos como do papel salgado.

Atenção: 
Segundo alguns autores o papel impregnado com gelatina dura em torno de 2 semanas, todavia eu já usei o papel com mais de duas semanas, e produziu imagens nítidas. 

VANTAGENS E LIMITAÇÕES 

Vantagens 

Esta técnica produz cópias estáveis com as altas luzes delicadas e é considerada a técnica mais antiga de cópia fotográfica existente (talbótipo). 

Inconvenientes

Cloreto de prata é muito sensível a sujeira e poluição, por isso manter o atelier bem limpo, livre de contaminantes.

Características

A primeira fotografia que podia ser copiada de um negativo, em um papel com gelatina e prata, tinha suas qualidades próprias: um aspecto atraente, macio e rico, parcialmente resultante das fibras de papel do qual o negativo era feito. 
As linhas, no entanto, não eram bem definidas, o que tornava os detalhes apagados e enevoados. O aspecto do calótipo lembra um desenho artístico a carvão e muitos fotógrafos usaram-no deliberadamente para obter um resultado pictórico, em particular em cenas de arquitetura, paisagens e naturezas-mortas.

Legado

O talbótipo estabeleceu as bases para a fotografia moderna, introduzindo o conceito de negativo-positivo, ainda utilizado até hoje. Sua influência é evidente nos processos fotográficos posteriores, como a impressão em albumina e o filme flexível. 

O talbótipo marcou a transição da fotografia como curiosidade científica para uma forma de arte e documentação acessível, consolidando seu lugar na história da imagem.



Bibliografia

Webb, Randall & Reed, Martin. Alternative photographic process. A working guide for image makers. NY, Silver Pixel Press, 2000. 

James, Christopher and James, C. P. The Book of Alternative Photographic Processes. s/l, Delmar Thomson Learning, 2002. 

Talbot, W. H. F. The Pencil of Nature. London: Longman, Brown, Green & Longmans, 1844. 

Newhall, B. The History of Photography. New York: Museum of Modern Art, 1982. 

Laverdrine, B. Photographs of the Past: Process and Preservation. Los Angeles: Getty Publications, 2009.
















LUA NOVA: NOUMÊNIA

A FESTA DA LUA NOVA NO CALENDÁRIO RELIGIOSO ATENIENSE

ΝΟΥΜΗΝΙΑΣ
Νούμηνια
LUA NOVA: NOUMÊNIA

A Noumenia, νούμηνια, noumēnia, termo derivado do grego antigo noumênia: que era usado para designar o primeiro dia da NOVA LUA, era a celebração do primeiro dia de cada mês lunar no calendário ático, marcado pelo aparecimento da lua nova, o mais sagrado dos dias. 


Venus, Moon and Saturn in Blue Hour Sky.
(Betul Turksoy)

Earthshine. (Roger Hyman)

A. Paim


Lua registrada Hoje, 27/3/2025, às 05h57min, quase no final de sua fase quarto minguante.

Fases da lua (1)

A festa da Lua Nova: A Sagrada Noumenia em Atenas

No dia 29 de março, (hoje), de 2025, celebra-se a NOUMÊNIA, o dia da Lua nova, e nesse dia em especial, a terceira Lua nova do ano, conhecida como Luna Negra Sazonal.

Calendário Lunar de 2025.

Sob o manto prateado da primeira lua nova de cada mês, Atenas inteira respirava em harmonia com os deuses e com o cosmos. A Noumenia chegara, trazendo consigo o frescor do sagrado e a união do homem com a natureza, um dia que nem mesmo os assuntos de Estado ousavam perturbar. Plutarco a chama de “o mais sagrado dos dias”, e assim era: um tempo em que o celestial e o terreno dançavam entrelaçados, festejavam com carne, vinho e pão, oferendas de pão de cevada e mel era feito sob o olhar benevolente de Selene, Atenas Polias, Possêidon, Apolo, Hermes e Hécate, mas a mais importante oferenda era feito para a serpente guardiã da cidade, chamado de "Epimenia" por Heródoto e Hesíquio. A cobra era mantida no Erecteion, um templo que abriga a estátua de culto de Atena Polias. Em toda cidade celebravas Selene, cuja luz da lua nova banhava os lares atenienses em promessa de renovação e prosperidade. Nesse dia o aroma doce do incenso ou olíbano era sentido em todas as ruas.
Nenhuma assembleia se reunia, nenhum tribunal deliberava. As ruas, normalmente pulsantes com o burburinho da ágora, cediam espaço ao silêncio reverente, quebrado apenas pelo riso dos festejos domésticos e pelo tilintar das taças erguidas em honra dos deuses, Selene, Apolo, Hermes, Hécate. Em cada lar, as famílias ofereciam grãos, mel e ramos de oliveira aos altares domésticos, invocando a proteção de Apolo Noumenios e dos deuses ancestrais.  

Mas para alguns, a Noumenia era também um convite à fraternidade. Homens reuniam-se em simpósios secretos, não apenas para beber e filosofar, mas para celebrar a irmandade sob o signo da lua nova. Eram os neomeniastas, como os descrevera Lísias, companheiros de vinho e devoção, que viam naquele dia não apenas um rito, mas um laço indissolúvel entre o humano e o divino.  

As doze Noumenias do ano eram como pérolas em um colar sagrado, cada uma guardando a mesma essência: pureza, renovação e alegria controlada. Nenhuma outra festa religiosa podia atravessar seu limiar, pois este era o dia em que o tempo parava, e os atenienses lembravam-se de que, antes de cidadãos, eram filhos dos deuses e do cosmos.  

E assim, enquanto a lua nova ascendia no céu, Atenas mergulhava no êxtase do sagrado, onde cada lar era um templo, cada refeição uma oferenda, e cada riso uma prece. Porque a Noumenia não era apenas um dia no calendário, era um sopro dos deuses na alma da cidade.

Era celebrado por meio de um ritual público na Acrópole e por oferendas privadas de incenso, guirlandas de flores, vinho e bolos de cevada colocados em altares e santuários domésticos para Hécate e Hermes, que haviam sido limpos no dia anterior como parte do Deipnon. O Deipnon de Hécate era a refeição da deusa que era ofertada na primeiro dia da lua nova. No dia anterior seus altar era limpo e ornamentado com flores. No primeiro dia da lua nova pão de cevada e mel, vinho, e pão eram oferecidos a deusa. 

frankinsence, também conhecido como olíbano é uma resina aromática usada em incenso e perfumes, obtida de árvores do gênero Boswellia na família Burseraceae. A palavra vem do francês antigo “franc encens” (incenso de alta qualidade). Existem várias espécies de Boswellia que produzem olíbano verdadeiro: Boswellia sacra (sin. B. bhaw-dajiana, sin. B. carteri), B. frereana, B. serrata (B. thurifera) e B. papyrifera. A resina de cada uma é misturada em vários graus, o que depende da época da colheita.(1).

As árvores de olíbano, encontradas no norte da África e na Índia, Omã e Iêmen, estão cada vez mais sob pressão, em grande parte devido à exploração excessiva de sua resina aromática.(Fobar, 2019).

Incenso (1)

A Noumenia, Numênia ou Neomênia, em grego clássico: Νουμηνία, lua nova é o primeiro dia do mês lunar e também uma observância religiosa na Atenas Antiga e em grande parte da Grécia.

Definição e Contexto Histórico

A Noumenia, νούμηνια, noumēnia, termo derivado do grego antigo noumenia: nova lua, era a celebração do primeiro dia de cada mês lunar no calendário ático, marcado pelo aparecimento da lua nova. 
Considerada por Plutarco Moralia 828a como “o mais sagrado dos dias”, a Noumenia ocupava um lugar central na religiosidade ateniense, sendo rigidamente preservada de interferências profanas, nenhuma assembleia política ou evento cívico era realizado nessa data.  

Características Ritualísticas

1. Culto Doméstico e Público
As famílias atenienses realizavam oferendas caseiras a divindades protetoras, como Zeus Herkeios, guardião do lar, Héstia deusa do fogo sagrado e Apolo Noumenios, Deus associado associado ao ciclo lunar. Oferendas comuns incluíam bolos de cevada (popana), frutas, mel e incenso, simbolizando prosperidade e renovação. Em âmbito público, templos eram adornados, e sacrifícios menores ocorriam em santuários dedicados a Apolo e Ártemis, divindades lunares.  

2. Proibição de Atividades Profanas
Fontes como Lísias (em fragmentos de discursos) e Xenofonte (Helênica) confirmam que nenhuma assembleia da Bulé ou da Eclésia se reunia na Noumenia, reforçando seu caráter sagrado.  

Eventos judiciais e negócios públicos eram suspensos, seguindo a máxima religiosa de evitar miasma (contaminação ritual).  

3. Fraternidades Ritualísticas (Neomeniastas)
Grupos de homens, denominados νουμηνιασταί, noumēniastaí, noumeniaste, reuniam-se em simpósios privados para libações e banquetes em honra aos deuses, conforme atestado por Lísias. Essas confrarias reforçavam laços sociais sob auspícios divinos.  

Significado Religioso e Cosmológico

A Noumenia representava para os gregos a:
1) Renovação temporal: O recomeço do mês lunar, alinhando a vida cívica aos ciclos celestes.  
2) Purificação: Um dia de afastamento de impurezas, preparando a comunidade para o mês seguinte.  
3) Hierarquia do Sagrado: Sua inviolabilidade demonstrava a primazia do religioso sobre o político na estrutura social ateniense.  

Comparação com Outras Festividades

Diferentemente das Panatenaias ou Dionísias, a Noumenia não envolvia procissões grandiosas, mas sim rituais íntimos e descentralizados. Sua repetição mensal a tornava um eixo ritualístico perene, em contraste com festivais anuais.  
 

História

As palavras gregas ὁ μήν, o mês e ἡ μήνη, a lua são ambas tradicionalmente construídas da raiz proto-indo-européia: meH-, que significa “mensurar, medir”. 
Em alguns calendários antigos, o novo mês: ὁ νέος μήν, começava com a lua nova (ἡ νέα μήνη, e néa méne), expressões que fornecem a etimologia do termo noumenia ou neomênia, significando simultaneamente o dia da lua nova e primeiro dia do mês.

A Noumenia era marcada quando a primeira lasca da lua estava visível, e realizada em homenagem a Selene, Apolo Numênio, Héstia e os outros deuses domésticos helênicos. A Noumenia também era o segundo dia de uma celebração familiar de três dias realizada em cada mês lunar; O Deipnon de Hécate ocorre no último dia antes da primeira lasca da lua visível e é o último dia de um mês lunar, e então a Noumenia marca o primeiro dia de um mês lunar, seguido pelo Άγαθός Δαίμων Agathos Daimon, Bons Espíritos, no segundo dia do mês lunar.

A celebração em Atenas

A Noumenia foi considerada, nas palavras de Plutarco, “o mais sagrado dos dias” e nenhuma outra festa religiosa era permitida a infringir este dia, nem reunião governamental alguma era marcada para ocorrer na Noumenia. As dozes numênias do ano formavam um grupo homogêneo em sua identidade e observância estrita. Era um dia de relaxamento e festa para os cidadãos atenienses, em casa, ou para os homens, como com a fraternidade simposiasta relatada por Lísias (neomeniastas, νουμηνιασταί)Teofrasto alude a um banquete com a expressão "partilhar/participar da Noumenia" (Caracteres, 4.12) e Píndaro na Quarta Nemeia afirma: “meu coração é transportado como se pelo mágico deleite da Noumenia”. Uma das práticas religiosas particularmente associada era a colocação de incenso em estátuas de deuses. Aristófanes associa também o dia com as competições de luta livre da palestra. Uma feira mensal de caráter secular ocorria no dia com venda de animais e escravos (conforme relato de Aristófanes), pois no dia anterior dívidas eram coletadas, e um escravo comprado nesse dia poderia ser chamado de Numênio (Noumenios).

Era celebrada por um ritual público na Acrópole e por ofertas privadas de olíbano, guirlandas de flores, vinho e bolos de cevada colocados em altares domésticos e santuários domésticos de Hécate e Hermes, que haviam sido limpos no dia anterior como parte do Deipnon.

Os rituais oficiais de Estado para esse dia incluíam pequenas oferendas a deuses e deusas tidos como protetores de Atenas, como Atenas Polias e Posídon, mas o mais importante era feito para a serpente guardiã da cidade, chamado de "Epimenia" por Heródoto e Hesíquio. A cobra era mantida no Erecteion, um templo que abriga a estátua de culto de Atena Polias, a marca do Tridente de Posídon Erecteu e a fonte salgada, a oliveira sagrada que brotou quando Atena atingiu a rocha com sua lança e os locais de enterro dos dois primeiros reis de Atenas, Cécrops e Erecteu. A cobra era considerada o espírito vivo do Rei Cécrops.

Marino, em Vida de Proclo, relata que seu mestre Proclo tinha grande devoção pela Noumenia no século V: "Durante o primeiro dia do mês lunar, ele ficava sem comer, mesmo sem ter comido na noite anterior; e ele também celebrava a Lua Nova em grande solenidade e com muita santidade". É relatado também que Siriano celebrava a deusa-lua em seu aparecer, surpreendendo-se ao se deparar que o jovem Proclo também o fazia, quando do primeiro encontro entre eles em Atenas:

“Embora [Proclo] tenha sido ansiosamente convidado pelos professores de eloquência, como se tivesse vindo com esse propósito, ele desprezou as teorias e métodos oratórios. O acaso o levou a ouvir primeiro Siriano, filho de Filoxeno, em cuja palestra esteve presente Lacares, que era profundamente versado nas doutrinas dos filósofos, e na época era um assíduo ouvinte do filósofo, embora sua arte em sofística tanto excitasse admiração como Homero na poesia. Aconteceu que era tarde do crepúsculo, e o sol estava se pondo durante a conversa, e a lua tinha acabado de fazer sua primeira aparição, após partir de sua conjunção com o sol. Para poderem adorar a deusa sós e vagarosamente, procuraram despedir o jovem que para eles era um estranho. Mas, após ter dado apenas alguns passos da casa, Proclo―ele também vendo a lua deixando sua casa celestial―parou em seu caminho, desamarrou seus sapatos, e à vista deles adorou a deusa. Atingido pela ação livre e arrojada do jovem, Lacares disse então a Siriano esta admirável expressão de Platão sobre os gênios: “Eis aqui um homem que será um grande bem, ou o contrário!”. Tais são os presságios, para mencionar apenas alguns deles, que os deuses enviaram ao nosso filósofo assim que ele chegou a Atenas.”

Hoje ainda há quem  reviva as antigas religiões da Grécia antiga, onde se realizam muitas das mesmas práticas religiosas domésticas e consideram a Noumenia tão importante quanto suas contrapartes antigas. Nesse dia são feitas oferendas como incenso ou bolos de mel para Selene, Apolo, Héstia e seus deuses domésticos em seu altar familiar. 
Outras maneiras pelas quais esses dias são marcados, incluem decorar a casa ou a altar doméstico com buquês de flores recém colhidas, comer uma refeição familiar especial, fazer bolos de mel e substituir os ingredientes no kathiskos por água fresca, óleo e frutas e porções de comida. A Noumenia também é considerado um dia auspicioso para começar novos projetos.

Outras cidades gregas

De acordo com Heródoto, em Esparta, carne, farinha de cevada e vinho eram distribuídos aos cidadãos pelos reis na Noumenia.

Em Ólbia Pôntica, uma associação de neomeniastas honrava a Apolo Numênio no dia, conforme atesta um fragmento com o termo Νεομηνιαστέων.

Um dos ritos mais importantes, celebrado mensalmente durante a lua nova (pode ser que esse festival ocorra numa !ua Negra, que é o termo usado para se referir a uma segunda lua nova em um mesmo mês ou a um mês sem lua nova ou cheia. Ocorre devido à diferença entre o ciclo lunar (29,5 dias) e o calendário gregoriano (meses de 28, 30 e 31 dias). A Lua negra menos previsível do que a Lua Azul, que é a segunda lua cheia de um mês. Ocorre aproximadamente uma vez a cada 2 anos e 8 meses.  Existe também a Lua Negra Sazonal: que é a terceira lua nova em uma temporada de quatro luas novas. Ocorre cerca de uma vez a cada 33 meses). Na noite da Lua nova, é a noite em que não vemos a lua pois está em conjunção com o Sol, nesse dia celebra-se o Deipnon de Hécate (a refeição/oferenda de Hécate), um momento para aplacar as forças fantasmagóricas do submundo que, sob o comando de Hécate, vagavam pelo mundo dos vivos (Johnston, 1990). Essa refeição-oferenda também representava uma purificação ritualística que antecedia o início do novo mês lunar (Parker, 1983). Tradicionalmente, eram oferecidos à deusa alimentos como queijo, pães, mel, leite, ovos, alho e vinho (Burkert, 1985). Na antiguidade, pessoas em situação de extrema pobreza alimentavam-se dessas oferendas, deixadas em altares domésticos nos jardins das casas (Graf, 1985). No neopaganismo contemporâneo, esse rito transformou-se em uma oportunidade mensal para doações aos mais necessitados (Adler, 1986). Embora Hécate seja frequentemente associada às bruxas e às práticas mágicas no neopaganismo moderno, ela também desempenhava um papel fundamental como deusa doméstica, protegendo o lar contra forças nocivas (Johnston, 1990). As mulheres, ao saírem de casa, invocavam sua proteção, e seu altar era comumente localizado no pátio da residência, contendo uma imagem sua (Ogden, 2002). Hesíodo, em sua Teogonia (vv. 411-452), descreve Hécate como uma divindade de grande influência, com domínio sobre a terra, o céu e o mar, capaz de conceder prosperidade e vitória, mas também ruína e pobreza. 
No mito de Deméter e Perséfone, foi Hécate, portando suas tochas, quem guiou a deusa dos grãos através da escuridão em sua busca pela filha perdida (Hino Homérico a Deméter, vv. 51-61). Essa narrativa reforça o papel de Hécate como guia em momentos de desespero e escuridão. Animais como cadelas, cães negros, doninhas e outras criaturas noturnas ou de pelagem escura são tradicionalmente associados a ela (Johnston, 1990).  

Conclusão
A Noumenia era, portanto, um fenômeno religioso estruturante no calendário ático, equilibrando devoção privada, tabus sagrados e coesão social. Sua rigidez normativa, atestada por historiadores e oradores, reflete a profunda integração entre cosmovisão religiosa e ordem cívica na Atenas clássica. 

Hécate (Google image)


Referências

Adler, M. (1986). *Drawing Down the Moon: Witches, Druids, Goddess-Worshippers, and Other Pagans in America Today*. Beacon Press.  

Burkert, W. (1985). *Greek Religion*. Harvard University Press.  

Graf, F. (1985). *Nordionische Kulte: Religionsgeschichtliche und epigraphische Untersuchungen zu den Kulten von Chios, Erythrai, Klazomenai und Phokaia*. Verlag.  

Hesíodo. Teogonia. Tradução de Jaa Torrano.  

Hino Homérico a Deméter. Tradução de Gregory Nagy.  

Johnston, S. I. (1990). Hekate Soteira: A Study of Hekate’s Roles in the Chaldean Oracles and Related Literature. Scholars Press.  

Ogden, D. (2002). *Magic, Witchcraft, and Ghosts in the Greek and Roman Worlds. Oxford University Press.  

Parker, R. (1983). *Miasma: Pollution and Purification in Early Greek Religion*. Clarendon Press.  





Fonte

Plutarco, Moralia  
Lísias, Discursos (fragmentos)  
Xenofonte, Helênica

Mikalson, J. D. (1975). The Sacred and Civil Calendar of the Athenian Year.
Parker, R. (2005). Polytheism and Society at Athens.

Hesíodo. Teogonia. Tradução de Jaa Torrano.















28 março 2025

COLAGEM

COLAGEM: HISTÓRIA, TÉCNICA E ARTE

I
HISTÓRIA



Fonte da imagen: gifer

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Hannah Höch (1889-1978)

Hannah Höch

Hannah Höch

Hannah Höch

Hannah Höch

Hannah Höch

Segundo Fuão (2011), a collage como trajetória amorosa pretende dar ao leitor uma visão do fenômeno da collage, a partir de seus elementos constitutivos, como a tesoura (recorte), a cola, as figuras (fragmentos) e os encontros desses fragmentos e de figuras. 

A collage, como qualquer outra forma de representação, pressupõe a utilização de determinados materiais e instrumentos e, também, de certas etapas, que devem ser cumpridas ao longo do procedimento. 
A primeira etapa consiste na escolha dos elementos, das figuras que se pensa utilizar, e recortá-los, conforme a maneira que lhe interessa. A esta etapa denominei, obviamente, RECORTE. O material resultante desta operação constitui-se no que se denomina por FRAGMENTOS ou FIGURAS. 
A fase seguinte consiste em montar, casar as figuras recortadas. A este movimento, ou momen-to, costumo utilizar a expressão ENCONTROS, que serve para designar toda a sorte de aproximações que as figuras, liberadas de seu contexto anterior, costumam realizar.
As maiorias dos estudos da collage, ingenuamente, sempre tratam de colocá-la num jogo de oposição, de um binarismo entre um recortar-colar, rasgar-costurar, desmontar-montar, separar-unir, extrair-embutir, dispersar-organizar, quebrar-colar, cortar-costurar, ignorando o intervalo significativo que se dá entre essas etapas.

Basta olhar no programa de seu computador. Até mesmo os linguistas trataram de colocar como uma linguagem de oposição, não explicando como se dá a articulação das figuras. 

Nesse sentido, a fenomenologia dos encontros parece bastante oportuna para explicar este espaço de atuação do encontro das figuras, localizado exatamente no meio dos dois extremos, entre o cortar e o colar.
Finalmente, a última etapa, a que dá nome ao procedimento, é a utilização da COLA, e tem por objetivo fixar uma figura à outra, ou a um suporte.
Em cada etapa, em cada ação procuro revelar o significado que se esconde por trás de cada ato, evidenciando que a utilização desses instrumentos e materiais não são neutros e possuem, em sua essência, um profundo significado simbólico, muitas vezes desconhecido.

Seguindo o raciocínio de Fuão (2011) a importância e a extensa produção de collages foram brutalmente recortadas pelos historiadores da arte, que preferiram, comodamente, e às vezes até por ignorância, associá-la a um procedimento que aconteceu dentro do universo da pintura.

Quando comentam sobre suas origens, erroneamente, sempre tratam de vinculá-la, mais precisamente, ao cubismo, nas obras (figuras) de Braque, Picasso e Gris, ou ao dadaísmo, nas figuras de Hannah Höch e Raoul Hausmann, ignorando, assim, toda uma tradição popular da manipulação da imagem já dada, como nas Fotografias Compostas de Oscar Rejlander, Henri Robinson e Disderi, e esquecendo, que a collage não vem da pintura. 

Ela toma consciência, enquanto procedimento, com o advento da fotografia, e acaba por infiltrar-se em outras formas de arte, no século XX, como teatro, dança, música, literatura, poesia, fotografia, pintura, cinema, escultura, assumindo, em cada uma delas, características tão peculiares, que se tornou difícil aplicar um conceito geral em todos os âmbitos.
Muitas foram as tentativas de defini-la, entretanto sigo acreditando que uma das melhores e mais simples tentativas foi dada por Max Ernst: “Collage é a transfiguração de todas as coisas e seres, em uma mudança de significado.”

A collage é um processo de produção de novos objetos, formas e imagens, provenientes da associação de objetos e figuras já existentes. É um procedimento que tem seu produto originário da fusão associativa de formas e ideias, sendo um modo de deixar o mundo falar através de suas imagens, signos e fragmentos. 

É uma linguagem, uma conversa que grita contra a ordem das coisas, de seus conceitos e significados, de suas intolerâncias e preconceitos. É uma anti-linguagem, uma linguagem de violação de códigos.
Portanto, a collage pode ser apresentada em seu sentido surrealista, de uma mudança, de uma transformação no significado das figuras e seres em oposição à expressão “colagem”, utilizada para designar todo e qualquer trabalho que resulta da aplicação do material colado num plano, onde sua ênfase recai no tratamento do material e não em uma linguagem, como sugeriu Sergio Lima.

•  O que é colagem?
•  História da colagem. 
•  Materiais usados

A colagem é uma técnica, um processo e uma linguagem artística que consiste em combinar elementos pré-existentes (jornais, revistas, tecidos, madeira, cordão, linhas, papéis coloridos, botões etc.), para criar uma nova imagem, um novo significado. 

A colagem surgiu no início do século XX, no movimento cubista, e é considerada um dos achados mais importantes da arte moderna. 

A colagem, como muitas técnicas existe há muito tempo, especialmente feita popularmente sem grandes intenções. Todavia, a colagem como a conhecemos foi desenvolvida por Pablo Picasso e Georges Braque, quando, em 1911-1912, ambos começaram a incluir em suas obras papéis de embrulho, pedaços de toalhas de mesa, jornais e papéis de estofamento, madeira etc. 

Segundo Martins (2007), a colagem foi desenvolvida por Braque e Picasso em torno de 1911, no final da primeira fase do cubismo, dita “analítica”. Ela é justamente considerada como um dos achados mais relevantes da arte moderna e como um elemento central do cubismo. 

Nessa condição, a colagem é objeto de interpretações variadas. Para o crítico norte-americano Clement Greenberg (1909-1994), a colagem interrompe a sintaxe cubista do período analítico, estruturada à base de planos paralelos à superfície. Ao implicar materiais e elementos não estritamente pictóricos como papel-jornal, areia, linhas etc., a colagem romperia com o primado da interação simbiótica entre o ótico e o mental, que vinha se afirmando desde o início do modernismo como essencial na pintura. (Martins, 2007)

Para Giulio Carlo Argan (1909-92), por outro lado, a colagem assinala, no cubismo, uma inflexão materialista, rica em conseqüências. Nesta última perspectiva, pode-se examinar o recurso da colagem à luz da ambição de Cézanne e dos cubistas, de atualização do poder mimético das artes visuais. E, a partir daí, como um dos casos paradigmáticos em que a arte moderna rompe com a estética da contemplação, de extração kantiana, para optar, ao invés do “ótico”, pelo viés do “tátil”, na acepção de Walter Benjamin.(Martins, 2007).

Evolução

A colagem surgiu no contexto do Cubismo, se perpetuou no Dadaísmo, no Surrealismo e na Arte Pop

Artistas como Romare Bearden expandiram o limite da colagem, explorando temas políticos, sociais e culturais. 
A colagem se manifesta em diversas áreas, como publicidade, design gráfico, literatura e sobretudo na arte e mais contemporaneamente na arte digital. 

Importância da colagem

A colagem é uma das expressões mais versáteis dentro das artes visuais, permitindo, o recorte, a justaposição, sobreposição e o apagamento para alcançar novos significados, ultrapassando a arte puramente retiniana.

A colagem também é uma atividade divertida e que geralmente desperta o interesse de todas as pessoas. Além disso, a colagem contribui para o desenvolvimento infantil de inúmeras maneiras, estimulando a criatividade, a psicomotricidade e a expressão artística.

Características do dadaísmo

Basicamente, o dadaísmo foi um movimento de oposição radical. Assim, foi contra a organização, a lógica, os valores estéticos tradicionais e, também, dos seus contemporâneos. Por isso, é considerado anárquico e provocador. Foi irreverente e experimental, valorizou a improvisação, além de ter feito crítica ao capitalismo e ao consumismo. Defendeu, portanto, uma arte espontânea, com base no nonsense, isto é, na falta total de sentido. Dessa forma, assumiu um caráter caótico e absurdo.

Essa espontaneidade artística, contrária aos padrões estéticos acadêmicos, é ilustrada na famosa “receita dadaísta”, de Tristan Tzara.


II
TÉCNICA


Receita dadaísta, de Tristan Tzara

Pegue um jornal.
Pegue a tesoura.
Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar a seu poema.
Recorte o artigo.
Recorte em seguida, com atenção, algumas palavras que formam esse artigo e meta-as num saco.
Agite suavemente.
Tire em seguida cada pedaço um após o outro.
Copie conscienciosamente na ordem em que elas são tiradas do saco.
O poema se parecerá com você.

E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público.

O dadaísmo também é associado a duas técnicas artísticas:

Colagem
Técnica em que pedaços de diferentes tipos de materiais, como papel, tecido etc., são colados um ao lado do outro ou sobrepostos, de forma a criar uma imagem composta por essas combinações.

Ready-made
Deslocamento de um objeto de seu contexto para outro, de forma a gerar estranhamento. Um exemplo é a obra de arte Fonte, de Marcel Duchamp (1887-1968), em que um mictório é deslocado de seu contexto original para ser exposto em uma galeria de arte.(Souza, s/d).

PROCESSO DA COLAGEM

1) Materiais: tesoura, cola, papel para suporte, papéis coloridos, revistas velhas, fotos antigas, botões, cordões ou barbantes, jornais, folhas secas etc…

2) Ter uma ideia da arte, projeto ou mensagem que queres comunicar, se não conseguires pensar em nenhuma ideia, sugiro que comece a procurar materiais. Selecionar, cortar, recortar, imagens, palavras, letras individuais e pedaços de papéis coloridos, pode ajudar desenvolver uma ideia ou conceito e criar uma boa configuração e uma boa composição.

2) Fazer muitos recortes, inumeráveis recortes. Mesmo que aches que possua material suficiente podes sempre encontrar outra coisa. Quantas mais materiais diversificados e referências fotográficas tiveres, mais opções terás para o teu trabalho.

3) Colorir papéis. Qualquer coisa vai bem na colagem! Pode-se usar lápis de cor, pastel oleoso, carvão ou pincel e tintas, para colorir partes do teu trabalho. Se quiseres, podes trabalhar à moda antiga e usar café ou chá. Nesse caso é necessário usar como suporte um papel de gramatura maior que resista à água.  

4) Faca uma pesquisa e use outros artistas como referências. É importante obter ideias de outros artistas. Não só na colagem, mas também em outras técnicas como desenho, pintura, gravura etc.

5) A colagem também aceita objetos tridimensionais, como botões, tecidos, plásticos, folhas secas, e até lâminas de madeira. Em síntese qualquer material que possa se colado a um suporte bidimensional. Há colagens tridimensionais que são verdadeiras esculturas (e aqui a escultura e a colagem se interseccionam). 

6) Suporte. Uma folha A4, A3, A2 etc. servem, dependendo do tamanho da colagem que vc deseja produzir. Com esse material: suporte, recortes, cola, inicie seu projeto. Disponha sobre o suporte e estude o melhor local para cada recorte ou imagem. Estude como as imagens dialogam entre si, para tornar expresso sua intenção ou ideia ou conceito. 

7) Una vez decidida a posição de cada recorte, inicie a colagem no suporte (papel). E pronto, temos uma nova colagem no mundo.

III
ARTE DA COLAGEM

INSPIRE-SE NAS COLAGENS DE ARTISTAS QUE FIZERAM COLAGENS NO PASSADO 

Hanna Höch

Raoul Hausmann

Hannah Höch

Hanna Höch

Hanna Höch

Hanna Höch

Hanna Höch

OUTROS ARTISTAS 
OUTRAS COLAGENS

Romare Bearden

Romare Bearden

Romare Bearden

Romare Bearden

Romare Bearden

Romare Bearden











A. Paim


Kurt Schwitters
Kurt Hermann Eduard Karl Julius Schwitters (20 de junho de 1887 – 8 de janeiro de 1948) foi um artista alemão. Nasceu em Hanover, Alemanha, mas viveu no exílio a partir de 1937. Schwitters trabalhou em diversos gêneros e mídias, incluindo dadaísmo, construtivismo, surrealismo, poesia, som, pintura, escultura, design gráfico, tipografia e o que veio a ser conhecido como arte de instalação (que ele inventou). Ele ficou famoso por suas colagens, chamadas “Merz Pictures”. (WP)

Kurt Hermann Eduard Karl Julius Schwitters (20 June 1887 – 8 January 1948) was a German artist. He was born in Hanover, Germany, but lived in exile from 1937. Schwitters worked in several genres and media, including Dadaism, constructivism, surrealism, poetry, sound, painting, sculpture, graphic design, typography, and what came to be known as installation art. He is most famous for his collages, called “Merz Pictures”.

Kurt Schwitters. For Käte. (1947)

Kurt Schwitters

Kurt Schwitters

Kurt Schwitters. Das undbild (1919)

Kurt Schwitters


Kurt Schwitters

Kurt Schwitters

Kurt Schwitters







Kurt Schwitters

Kurt Schwitters


Kurt Schwitters


















































JACQUES VILLEGLÉ (1926 - 2022)

Jacques Mahé de la Villeglé (27 de março de 1926 – 6 de junho de 2022) foi um artista e aficionado francês de mídia mista, famoso por seu alfabeto com letras simbólicas e decolagens com cartazes rasgados ou lacerados. Foi membro do grupo artístico Nouveau Réalisme (1960-1970). Seu trabalho concentra-se principalmente no anônimo e nos vestígios marginais da civilização. O sociólogo Zygmunt Bauman o qualificou como um dos expoentes mais destacados da arte líquida, em sua obra "Vida Líquida", juntamente com Herman Braun-Vega e Manolo Valdés.

Jacques Villeglé: Estética e Interpretação e crítica do Espaço Urbano

Jacques Villeglé (1926–2022) foi um dos principais nomes do movimento Nouveau Réalisme, fundado em 1960 pelo crítico Pierre Restany. Sua obra é centrada na apropriação de cartazes públicos rasgados (affiches lacérées), transformando fragmentos de anúncios e mensagens urbanas em composições abstratas e cheias de significados políticos e estéticos.  

Estética do Acaso e da Apropriação

Villeglé via a cidade como um “museu a céu aberto”. Sua prática consistia em coletar cartazes vandalizados, destacando camadas de papéis sobrepostos, marcas de pichações e rasgos que revelavam a passagem do tempo e a intervenção anônima do público. Essa abordagem questionava a noção tradicional de autoria, propondo uma arte colaborativa com o acaso, o tempo e a sociedade.  

Sua estética dialoga com o décollage (oposto da colagem), onde a subtração de camadas gera texturas e cores inesperadas, novas mensagens e novas interpretações. O resultado muitas vezes lembra abstração lírica ou grafitti, antecipando discussões sobre street art e cultura urbana.  

Interpretação e Crítica Social

Os cartazes e obras descoladas de Villeglé não são apenas exercícios formais; eles documentam conflitos sociais. Camadas de propaganda política, publicidade e protestos revelam tensões da vida urbana. Por exemplo, em séries como “La France déchirée” (1961), os rasgos simbolizavam divisões políticas da Guerra da Argélia.  

O artista também ironizava o consumo massivo ao descontextualizar marcas e slogans, aproximando-se da Pop Art, mas com um olhar mais crítico. 

Para Restany, Villeglé era um “arqueólogo do presente”, expondo a memória coletiva através de ruínas midiáticas.   

Villeglé desafia a separação entre arte e vida, tornando visível o caos e a poesia das ruínas cotidianas. Sua obra permanece atual ao questionar quem controla os signos urbanos e como a arte pode surgir do ordinário e do cotidiano. 

Influências

Dadaísmo (as ready-made de Duchamp), Letrismo (interesse em tipografia), abstracionismo, e Situacionismo (crítica ao urbanismo capitalista).  

Exposições
Participou da Bienal de Veneza (1984) e teve retrospectivas no Centre Pompidou (2008). 

Fonte

RESTANY, Pierre. Le Nouveau Réalisme. Paris: Éditions de La Différence, 2007.  
VILLEGLÉ, Jacques. Cheminements. Paris: Éditions Jannink, 2003.  
  










































OUTROS ARTISTAS 























































Julian Iztueta

Julian Iztueta










COLAGENS DIGITAIS






MOVIMENTOS ARTÍSTICOS QUE USARAM 
A COLAGEM

A colagem começa dentro do movimento cubista e logo se espalha para outras tendências na arte.

Cubismo
Como já vimos, registros históricos apontam o surgimento da colagem dentro do movimento clubista. Os artistas acrescentaram papel para aumentar os efeitos de decomposição desta corrente. (totenart)

Surrealismo 
Os surrealistas utilizaram a técnica para incluir fotografias e rótulos comerciais. Assim, extrapolaram as suas imagens mentais com novas texturas. Criando assim a nova poesia plástica surrealista.

Futurismo e Dadaísmo
O futurismo italiano também tentou inovar com a colagem. Utilizaram jornais com tipografias diferentes para realçar o efeito visual. Assim cederam lugar à imagem textual: uma imagem construída através de gráficos. A técnica foi aperfeiçoada por dadaístas tais como Gino Severini ou Enrico Pranpolini.

Bauhaus e Construtivismo
A Escola Bauhaus na Alemanha foi um pilar fundamental para o desenvolvimento da colagem. Mergulhada no Construtivismo, a Bauhaus criou um curso para lidar com esta técnica.

Informalismo europeu e Pintura matérica
Da colagem com todos os tipos de materiais e dentro do informalismo europeu, emerge uma nova corrente. A pintura matérica, técnica em que a Espanha é uma das referências, juntamente com a Itália ou a França.

Contemporaneidade 
Na contemporaneidade, a técnica desenvolveu-se ainda mais. Em parte devido à facilidade com que os utilizadores podem aceder a fotocopiadoras, impressoras, máquinas fotográficas ou papéis de parede especificamente para esta tarefa. Para além da quantidade de programas de computador para criar montagens ou colagens digitais.



AS COLAGENS DE HANNAH HÖCH

Hannah Höch e a resistência dadaísta ao nazismo
Artigo de Sebastião Nunes (1)
25 de novembro de 2018

Visitei a velha dama da colagem em janeiro de 1978, pouco antes de sua morte, na pequena casa junto ao campo de aviação de Heiligensee, ao norte de Berlim, longe de tudo e de todos.

Hannah Höch (1889-1978) foi uma artista plástica e fotógrafa alemã, considerada uma das principais representantes do movimento dadaísta. Ela foi pioneira na técnica de fotomontagem, que é um tipo de colagem que utiliza fotografias. Hanna nasceu em Gotha, Alemanha, a 1 de novembro de 1889, e morreu em Berlim, Alemanha, a 31 de maio de 1978. Foi uma das criadoras da fotomontagem durante o período de Weimar. Ela utilizou a técnica de fotomontagem para parodiar “absurdos globais gigantes”. Combinou recortes de mídia impressa para criar seus trabalhos. Explorou temas como androginia, política, e papéis de gênero em mudança.

Foi uma ativista feminista importante,  seu trabalho encorajou a liberação e a agência das mulheres durante a República de Weimar. Por meio de sua obra, ela questionou a posição e os direitos das mulheres em um mundo patriarcal.

Colagem de Hanna Höch

Magra, encurvada e enrugada, ela tinha 88 anos na época. Quando ria, seu rosto lembrava o leito gretado de um rio nordestino no pico da seca. Era o retrato descarnado de uma época muito rica das artes plásticas alemãs, parte daquilo que os nazistas chamavam de “arte degenerada”.

Hannah Höch

Foi só no princípio de junho de 1978, alguns dias depois da notícia de seu falecimento, que liguei o gravador para ouvir o depoimento gravado em janeiro.

Cerveja, chá e flores

Chegar a seu refúgio não foi nada fácil. Consegui o endereço através de amigos que a conheceram e que, além de respeitarem seu confinamento, a protegiam da exposição excessiva que acontecia naqueles dias, quando finalmente, depois de décadas de anonimato, e ao contrário de tantos companheiros mortos, se tornara um ícone vivo da diversidade cultural germânica.

Quando paguei o táxi, o motorista praguejava, furioso por ir tão longe e se perder inúmeras vezes por ruas estreitas e becos sem saída.

Eu ligara antes e lá estava ela, diante do portão, vestindo um casaco grosso encimado por uma espécie de chapéu espesso e forrado, calçando botas maciças, tão pesadas que pareciam saídas de uma batalha da guerra distante mais de 30 anos.

Atravessamos o pomar e o jardim, pisando o chão enlameado, chicoteados pelos arbustos desfolhados que pingavam água das últimas chuvaradas.

Seus passos curtos e cuidadosos no chão escorregadio me conduziram ao interior de seu refúgio desde 1939, no qual vivera isolada e, graças a esse isolamento, mantivera escondida a mais preciosa coleção de objetos de arte produzida por ela mesma e por seus amigos, além de documentos e correspondência da época.

Na cozinha, na pequena mesa em que fazia suas refeições, me serviu cerveja e preparou chá verde para si própria, acompanhados por salsicha, batata assada e pão preto em pequenas porções.

Tempos de guerra

Assim começou o depoimento, que me permitiu gravar:

“Hoje pergunto a mim mesma, quando me interrogo sobre aqueles dias, como pude ser tão corajosa ou tão maluca para conservar, dentro desta casa ou enterrado no quintal, tanto material comprometedor, durante todos aqueles anos terríveis”.

Sorveu um pouco de chá e continuou:

“O armário em que guardava meus desenhos e colagens, frágeis demais para serem enterrados junto com esculturas, cerâmicas e outros objetos em baús de madeira e ferro, continha material suficiente para me levar à forca, e comigo todos os dadaístas que ainda viviam na Alemanha sob o nazismo.”

Nova pausa, sua respiração era difícil, mais um gole de chá, e prosseguiu:

“A partir de 1934, amedrontados, meus colegas, pelo menos a maior parte, começou a eliminar seus rastros e todas as recordações do que consideravam “pecados de juventude”, quero dizer, seus trabalhos artísticos. Mas eu, pessoalmente, nunca acreditei na milenária duração que o Terceiro Reich reivindicava para si. Também não me decidia a destruir as obras de meus amigos Hausmann, Schwitters e tantos outros, e de destruir com elas as recordações dos tempos em que, com entusiasmo e alegria, nossos grupos haviam trabalhado juntos”.

Mais uma pausa, mais um gole, e novo recomeço.

“Nós, os chamados “bolcheviques culturais”, estávamos todos na lista negra da polícia e sob estreita vigilância da Gestapo. Ninguém se encontrava com ninguém, por mais antiga que fosse a amizade e por maior que fosse a estima. O risco de morte pairava sobre cada um de nós todo o tempo. Até 1938 a maioria dos principais dadaístas já havia emigrado. Hans Richter e George Grosz foram para os Estados Unidos. Kurt Schwitters seguiu para a Noruega e Raoul Hausmann asilou-se na França. Dos membros ativos do velho grupo de dadaístas eu fui a única a ficar, com meus desenhos, colagens, esculturas e assombrações. Qualquer ruído estranho me apavorava”.

Depois da guerra

“Quando tudo terminou e a fumaça dos escombros se esvaiu, começamos a nos preparar para viver. Fiz minha primeira exposição de colagens na Galeria Rosen, aqui mesmo em Berlim, uma grande exposição. Depois, enquanto a vida retomava seu curso e as pessoas tentavam esquecer, pois esquecer é fundamental para permanecer vivo, os contatos recomeçaram. Schwitters me escreveu, de seu refúgio na Inglaterra, narrando os horrores da fuga, com a Gestapo em seu encalço. Depois, outros e outros me procuraram ou me escreveram. A vida voltava a ser digna de ser vivida. A arte renascia das cinzas do nazismo. Podíamos, pela primeira vez depois de tantos anos de pavor, respirar, caminhar, desenhar, expor e ganhar a vida com nossa arte até então tida como “degenerada”, amaldiçoada pela estupidez nazista”.

Isso foi tudo. A velha dama da colagem dadaísta está morta há 40 anos. Sua obra, prodigiosa em número e qualidade, encontra-se espalhada pelos museus do mundo. O nazismo é apenas uma sombra sangrenta, perniciosa e assustadora que, de tempos em tempos, ressurge num país ou noutro para atormentar os vivos.

A seguir algumas colagens de Hanna Höch.
















































































Fonte











Revisado e ampliado em 18/abril/2025


(Continuará…)



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