Asherah, Partner of Yahweh
But who was Asherah to the ancient Israelites? And why is she often found paired with Yahweh, the Hebrew god? Historians and archaeologists have pieced together Asherah’s narrative and found large chunks of it interwoven in the artifacts from the region and in the scriptures of the Hebrew Bible itself. Evidence suggests that Asherah was observed in ancient Israel and Judah as early as the 12th century BC, to a few decades before the fall of the southern kingdom of Judah (587-588 BC), a time known as the pre-exilic period.
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Yahweh and his Asherah
As much as the ruling elite tried to inhibit Asherah and Yahweh’s “marriage,” their union appears solidified in an ancient blessing seen with some regularity at a number of excavation sites in the region. The inscription reads: “I have blessed you by Yahweh....and his Asherah.” Not only was this engraving found in the 9th-8th century BC Israelite caravanserai, Kuntillet Ajrud, the same text was found in a number of sites thought to be Yahweh sanctuaries, such as in Samaria, Jerusalem, Teman, and in the Biblical kingdom of Judah, at the ancient burial site of Khirbet el-Qom, dating to 750 BC.
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Os israelitas tinham um deus que só eles seguiram. Mas isso não quer dizer que esse foi seu único deus desde o início. A própria Bíblia deixa claro que muitas vezes o povo escolhido traiu a seu deus por outros deuses. O próprio rei Salomão terminou a vida criando templos a deuses cananeus: Quemós e o infame Moloque (1 Reis 11:7).
Mas não é a única dica que a Bíblia dá de que os israelitas nem sempre viram seu deus como único. O principal deus do panteão cananeu era El, e sua esposa era Asherah. Entre os judeus, a palavra El se tornou o termo genérico para deus, usado para se referir ao próprio deus da Bíblia, em versões como EI Shaddai (Deus todo-poderoso, Gênesis 17:1) ou o quase suspeitamente politeísta Elohim (Deus dos deuses).(
aventura)
Asherah a companheira de Deus
“Se Asherah for a mulher de Deus, isso seriamente compromete as bases do monoteísmo”, diz pesquisadora britânica ao comentar sobre a personagem controversa.
A pesquisadora Francesca Stavrakopoulou ao lado de uma imagem de Asherah
No livro do profeta Jeremias, parte do Antigo Testamento da Bíblia e possivelmente escrito no século 7 a.C., há curiosas menções a uma “rainha dos céus”. Especialistas contemporâneos acreditam se tratar, na verdade, de uma divindade antiga que foi cancelada com o advento do monoteísmo patriarcal: Asherah, a esposa de Javé.
A história se torna ainda mais interessante quando contextualizamos que Javé é justamente o Deus judaico-cristão, ou seja, aquele que “sobreviveu” das antigas mitologias medio-orientais para se tornar a divindade única do monoteísmo. Em outras palavras, Asherah seria então a mulher de Deus.
Defensora desta tese, a teóloga britânica Francesca Stavrakopoulou, professora na Universidade de Exeter, fez um documentário sob o tema, exibido pela BBC. “Se Asherah for a mulher de Deus, isso seriamente compromete as bases do monoteísmo”, diz ela, no programa.
No vídeo, ela promove uma investigação sobre o tema, ouvindo especialistas e mostrando a presença da deusa em escrituras e esculturas do mundo antigo. Na Bíblia hebraica, o nome Asherah aparece 40 vezes, mas, na maior parte das versões traduzidas, o termo foi suprimido e substituído.
É o caso do trecho, constante no livro dos Juízes, em que está escrito que “os filhos de Israel fizeram o que é mau aos olhos do Senhor: eles se esqueceram do Senhor, seu Deus, e serviram aos Baalim e às Asherás” — este excerto é a versão da Tradução Ecumênica Bíblica.
O que era uma deusa, Asherá, acabou reduzido às estatuetas da deusa, o que justificaria o plural. Mas a metonímia se torna ainda mais redutora em outras versões, como na tradução Almeida Revisada Atualizada, em que Asherá é substituída por “poste-ídolo”.
Na famosa tradução para o inglês conhecida como Authorized King James Version, o mesmo trecho usa o termo “groves” (bosques) no lugar de Asherá.
Objetificação para configurar idolatria
Stavrakopoulou identifica isso como um padrão no Antigo Testamento: a substituição de menções originalmente atribuídas à mulher de Deus por simplificações que configuravam idolatria ou elementos da natureza, sobretudo “árvore”, “árvore da vida” e “bosque”.
“A arqueologia hoje mostra que Asherá não foi sempre um objeto”, afirma a pesquisadora, no documentário. “Ela foi uma poderosa divindade, a mulher do Deus chefe El”.
À BBC News Brasil, por e-mail, a pesquisadora definiu Asherah como “o antigo nome hebraico de uma importante deusa adorada em várias culturas levantinas [Levante é uma ampla área do Oriente Médio] no segundo e primeiro milênios a.C.” Ela ressalta que o conhecimento que temos dela é maior a partir da cidade-estado de Ugarit, onde hoje é a Síria, no final da Idade do Bronze.
“Ela era a mãe dos deuses e consorte do deus-supremo, El”, pontua ela. “Antigas inscrições hebraicas do século 8 a.C. a associam a Javé, a divindade patrona do antigo Israel e Judá. Essas inscrições sugerem que ela era uma deusa protetora, concedendo bênçãos divinas aos adoradores, e que ela desempenhou um papel crucial na mediação entre os humanos e o deus-supremo Javé”, completa.
Para os cananeus, El era o deus criador. E pesquisadores contemporâneos acreditam que o Deus bíblico, Javé, seja a fusão de deuses de mitologias antigas, inclusive El, no processo de monoteização.
“A Bíblia usa a palavra Asherah e a sua forma plural, asherim, várias vezes. O termo é limitado à literatura que foi composta durante e após o reinado de Josias, no fim do século 7 a.C., e aparece de duas maneiras diferentes”, explica à BBC News Brasil o teólogo americano Daniel McClellan, cujo mestrado foi sobre estudos judaicos na Universidade de Oxford.
“Uma das formas de uso é em referência à deusa, mas este não é o uso mais comum da palavra. A maior parte do uso é em referência a uma imagem divina, um ídolo, que pode ter sido representado ou se assemelhado a uma árvore. Este fato resulta, provavelmente, da associação feita entre a deusa Asherah, na arte, com árvores.”
Stavrakopoulou lembra que, embora a Bíblia “frequentemente se refira a Asherah”, isso costuma ocorrer “quase sempre em termos negativos”. “Ela é lançada como uma divindade ‘estrangeira’, adorada tanto por cananeus quanto por israelitas idólatras e judaítas [referente aos habitantes de Judá], vilipendiados por criar imagens ou objetos sagrados que manifestam sua presença”, contextualiza, lembrando que “essas imagens e objetos também recebem o nome de ‘asherah’”.
“A maioria dos estudiosos concorda que o retrato bíblico de Asherah é deliberadamente distorcido e depreciativo, e que ela provavelmente era adorada como um membro importante de um antigo panteão israelita e judaico, no qual Javé desempenhou um papel de liderança”, acrescenta a teóloga.
McClellan situa as origens da divindade na Idade do Bronze (de 3300 a 1200 a.C.), entre o povo hurrita, que habitou parte da Mesopotâmia até os séculos 14 ou 13 a.C. De lá, segundo o pesquisador, o culto se espalhou para a antiga Ugarit, a Anatólia (hoje, Turquia), a Fenícia “e o território atualmente ocupado por Israel e Palestina”.
“Ela foi identificada como a consorte ou parceria das altas divindades Anu, da Mesopotâmia, e El, do mundo semítico ocidental, desempenhando assim um papel significativo nos panteões do antigo sudoeste asiático”, complementa ele. “Estava associada à fertilidade e à guerra e, nos primeiros anos de sua existência, estava associada ao mar e à pesca.”
A ideia de Asherah como mulher de Deus se confirma por achados arqueológicos que vão além de sua representação imagética. Conforme conta McClellan — e também mostra Stavrakopoulou no documentário —, antigas inscrições hebraicas foram descobertas em escavações com textos que mencionam Javé “e a sua Asherah”.
“Uma dessas inscrições foi escrita diretamente sobre um desenho de divindades masculinas e femininas com braços entrelaçados”, relata ele. O teólogo afirma que “é provável que Asherah também fizesse parte do primeiro panteão israelita”.
Essas descobertas arqueológicas começaram a ocorrer a partir dos anos 1950. “E o que se encontrou mostra que ela foi uma figura central nesse judaísmo antigo”, comenta à BBC News Brasil o pesquisador Thiago Maerki, estudioso de textos antigos e membro da Hagiography Society, dos Estados Unidos.
“Nos anos 1960, foram descobertas estátuas quebradas, representando mulheres, perto do Templo de Salomão, em Jerusalém. Acredita-se que o fato de elas estarem juntas seja o indicativo de que foram ali depositadas quando houve a determinação, por parte do rei, da destruição de todas as representações de Asherah”, diz Maerki.
A deusa proibida
Segundo a teóloga Stavrakopoulou, as “tentativas de distorcer e difamar” a deusa provavelmente começaram na segunda metade do primeiro milênio a.C, “depois que o templo de Jerusalém foi temporariamente destruído pelos babilônios em 587 a.C.”.
“À medida que o templo foi reconstruído, o mesmo aconteceu com a adoração a Javé: e Javé tornou-se um deus intolerante com todas as outras divindades, incluindo a deusa Asherah”, comenta ela.
Nesse processo, segundo sua explicação, Javé “assumiu os papéis de outras divindades”. Ao mesmo tempo em que a religião se “masculinizaria”, com a ideia de que “havia apenas um deus, e ele era homem”, Asherah passou a ser tratada como “uma divindade falsa ou ilegítima” e sua adoração passou a ser tachada como “primitiva”.
Em artigo intitulado "Asherah: a deusa proibida", publicado em 2007 na Revista Aulas, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a teóloga Ana Luisa Alves Cordeiro explica como apagamento de Asherah se deu durante o processo de transformação das religiões politeístas em uma crença monoteísta.
“Reconstruir a presença da deusa Asherah na vida de mulheres e homens no antigo Israel é um esforço de, a partir de uma perspectiva feminista e de gênero, trazer elementos que nos ajudem numa maior aproximação do que foram os espaços religiosos e vitais deste povo”, escreve ela.
“Esta reconstrução é algo necessário, uma vez que estamos diante de textos sagrados marcados pelo sistema patriarcal, onde há o domínio do pai e quiriarcal, onde há o domínio do senhor.”
Este processo não ocorreu de uma hora para outra e, ao que tudo indica, passou a ser enfatizado nas escrituras a partir do século 8 a.C., com o profeta Oseias equiparando a adoração de outras divindades que não Javé ao pecado da idolatria. É a partir de então, e sob este contexto, que as menções a Asherah começam a ser ressignificadas na literatura antiga.
Cordeiro pontua as modificações da representação da deusa ao longo desses séculos, lembrando que, entre 1800 e 1500 a.C., ela costumava ser esculpida como uma deusa-nua, “destacando o triângulo púbico, emergindo também representações em forma de ramos ou pequenas árvores estilizadas, combinação que vem a ser denominada ‘deusa-árvore’.
Algum tempo depois, essa metáfora arbórea também sofre mudanças, “aparecendo em forma de uma árvore sagrada flanqueada por cabritos ou como um triângulo púbico, que substitui a árvore”.
“Neste período, já se nota a tendência de substituição do corpo da deusa pelos seus atributos, em especial a árvore”, enfatiza a pesquisadora, destacando que houve “uma mudança decisiva no campo das figuras de material mais precioso: as deusas nuas foram substituídas em grande parte por deuses guerreiros (…).”
“A deusa continua perdendo representatividade na religião oficial, onde divindades masculinas ganham cada vez mais força, principalmente a partir de características dominadoras e guerreiras”, afirma ela.
Apesar de evidências históricas desses processo, há ainda uma resistência na aceitação. “A dificuldade ou relutância com que alguns acadêmicos bíblicos encaram a evidência da pluralidade divina (…) pode muito bem refletir, em parte, um choque cultural ou um desconforto decorrente das preferências religiosas e filosóficas das tradições intelectuais ocidentais (…)”, escreve Stavrakopoulou, no capítulo que assina do livro "The Bible and the feminism".
“O próprio conceito de um ‘Deus’ monoteísta e transcendente, que continua a dominar o discurso cultural ocidental, é o de uma divindade única e solitária de desempenho e envolvimento ‘macro-religioso’ (…).”
McClellan conta que as tentativas de marginalizar ou apagar Asherah começaram “provavelmente por volta do reinado de Josias”, no século 7 a.C., “que implementou uma campanha de centralização do culto para garantir” um monopólio da fé no templo de Jerusalém.
Datam desta época livros bíblicos como o do Deuterônomio. “Um dos principais objetivos do Deuteronômio e de outros livros bíblicos que se lhe seguiram, conhecidos como literatura deuteronomista, era eliminar o culto a Asherah”, diz o teólogo.
A tática principal era associar o nome dela a um ídolo, e não a uma deusa. “Outra era recontar as histórias dos reis que vieram antes de Josias e pintá-los como reis perversos que estavam conscientemente violando a lei quando permitiam a adoração de Asherah”, acrescenta.
Deu tão certo que, segundo frisa o teólogo, a partir de meados do século 4 a.C. “o judaísmo já havia praticamente esquecido que a deusa Asherá havia feito parte do panteão israelita primitivo”.
Esse processo foi intensificado com a ajuda do exílio babilônico, ocorrido no século 6 a.C. “A literatura que foi escrita para ajudar Israel a permanecer fiel à sua identidade étnica e ao seu Deus Javé, na sequência dessa crise, ajudaram a reescrever a compreensão que Israel tinha de si próprio”, analisa McClellan.
“Isso incluiu a vilipendiação do culto a Asherah, que tinha lugar antes do reinado de Josias, e a autocompreensão de Israel avançaria dando prioridade a esse novo entendimento do papel de Javé como objeto exclusivo do culto israelita.”
O teólogo conclui que “a continuação do culto a Asherah não teria qualquer chance em tal ambiente”.
“Nesse contexto patriarcal, a figura de Javé se torna símbolo da representação do sagrado masculino, que de fato justificaria a dominação masculina em vários aspectos sociais, econômicos, religiosos e políticos”, contextualiza Maerki.
“A gente pode dizer que a religião oficial de Israel vai adquirir uma identidade unicamente masculina e o feminino, assim como a deusa Asherah, vai para o plano secundário.”
Uma sociedade que privilegia o masculino
Talvez estejam aí as raízes da sociedade patriarcal que se formaria no Ocidente, afinal.
“O apagamento de Asherah e o surgimento dessa cultura mais centrada na figura de um Deus masculino é, apesar de distante da nossa época e da nossa realidade contemporânea, algo que tem muito a dizer simbolicamente sobre as relações entre homens e mulheres no nosso mundo”, reflete Maerki.
“Porque vivemos em um mundo marcado pelo machismo, pela centralidade do homem, e pela luta das mulheres cada vez mais por igualdade.”
“Quando a gente vê o apagamento da deusa, estamos pensando naquilo que seria o início de uma cultura patriarcal que, depois, imperaria no mundo”, completa.
Mas é uma história que vem sendo revisitada e reescrita. Como comenta Stavrakopoulou em seu texto, “mais recentemente, a maior parte dos estudiosos bíblicos e historiadores das antigas sociedades israelitas e judaicas passaram a reconhecer este retrato antigo”.
Ela acrescenta que, nas últimas décadas, a maneira de estudar o assunto vem sofrendo mudanças, “motivas em parte pela influência persuasiva da crítica feminista, queer, pós-colonial e sociocientífica” e isso desafia “seriamente a confiança na fiabilidade histórica” de como a Bíblia retrata o passado, bem como mostra como tanto os escritores dos textos considerados sagrados quanto seus estudiosos ao longo dos últimos séculos “podem, muitas vezes, terem deturpado as realidades religiosas”.
No e-mail trocado com a reportagem, a teóloga acredita que Asherah foi vítima de um longo e exitoso processo de difamação. “A campanha da Bíblia contra Asherah foi tão bem-sucedida que, mesmo no mundo antigo, sua adoração como deusa plena logo desapareceu”, afirma. “Com o surgimento do monoteísmo, consolidou-se a crença de que havia apenas um deus, e esse deus era masculino.”
Stavrakopopulou, contudo, entende que vestígios desse feminino divino resistiram tanto no judaísmo como no cristianismo.
“No judaísmo antigo, a sabedoria divina estava intimamente associada a uma “árvore da vida”, e a sabedoria de Deus era personificada como figura semelhante a uma deusa criada pelo próprio Javé”, diz.
“Em vários textos judaicos antigos, ela atua como mediadora entre os adoradores e o Senhor. Em algumas formas de cristianismo tradicional, Maria, a mãe de Jesus, tornou-se uma mãe celestial, mediando bênçãos entre Deus e seus adoradores.”
II
Será que uma deusa pagã, atacada na Bíblia como uma das maiores inimigas do culto ao Deus verdadeiro, poderia ser, na verdade, a esposa Dele? De forma bastante simplificada, esse é um dos principais debates que dividem os historiadores da religião do antigo Israel nos últimos tempos. Inscrições misteriosas, pequenas estatuetas de cerâmica e o próprio texto da Bíblia indicariam que a deusa em questão, conhecida como Asherah, não teria sido adorada como rival de Javé, o Deus judaico-cristão, mas sim como sua companheira.
Isso, é claro, para um dos lados do debate. Para outros pesquisadores, os símbolos da deusa Asherah (cujo nome às vezes é aportuguesado como "Asserá") teriam sido simplesmente "incorporados" pelo culto de Javé, sem que a deusa fosse adorada como entidade distinta pelos antigos israelitas. A ambigüidade é, em parte, lingüística: embora Asherah fosse o nome de uma deusa dos cananeus (habitantes pagãos da Palestina), a palavra também é um substantivo comum, "asherah", que designa um poste de madeira usado para cerimônias religiosas.
"As posições estão bem marcadas: uns acreditam que se trata de um símbolo cúltico, outros já assumem que se trata de uma deusa. No entanto, uma coisa não necessariamente exclui a outra, porque o poste também simbolizava a deusa, de forma que uma referência a ele sugere o culto a Asherah", diz Osvaldo Luiz Ribeiro, doutorando em teologia bíblica da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ).
Menções numerosas
"Na Bíblia hebraica existem mais de 40 referências a Asherah e ao seu símbolo, inclusive demonstrando a sua presença dentro do Templo de Jerusalém, o Templo de Javé", conta Ana Luisa Alves Cordeiro, mestranda em ciências da religião na Universidade Católica de Goiás. Nessas referências, a deusa é sempre retratada como uma influência religiosa negativa dos povos vizinhos sobre os
israelitas, competindo com o culto do verdadeiro Deus. Cordeiro está estudando o impacto da reforma religiosa liderada por Josias, rei de Judá (o reino israelita do sul), por volta do ano 620 a.C., na qual o símbolo da deusa teria sido arrancado do Templo e queimado.
No entanto, o culto a Asherah parece ter sido mais importante fora de Jerusalém, nos chamados "lugares altos", afirma a pesquisadora. Em tais locais, o poste de madeira era substituído por árvores vivas como símbolo da deusa. "Eram santuários ao ar livre, nos topos das montanhas. Isso evidencia uma profunda ligação com a natureza", diz Cordeiro. O culto a Asherah seria uma forma de reverenciar a fertilidade feminina e o papel da mulher como doadora ou mantenedora da vida. "E a árvore é o símbolo dessa abundância", avalia a pesquisadora.
Durante muito tempo, esse tipo de culto foi considerado uma influência religiosa estrangeira sobre o povo de Israel, conforme o que dizia a Bíblia. Mas o consenso atual é que os israelitas não tiveram uma origem separada dos cananeus, seus vizinhos pagãos. A maior parte dos habitantes de Judá e Israel (nome um tanto confuso do reino israelita do norte) parecem ter sido um grupo de origem majoritariamente cananéia que foi assumindo uma entidade cultural distinta aos poucos. E, entre os cananeus, Asherah era a esposa de El, o soberano dos deuses -- mais ou menos como Zeus, na mitologia grega, tinha sua mulher divina, a deusa Hera.
Evidência direta?
É aqui que a arqueologia traz dados surpreendentes sobre a questão. O sítio arqueológico mais importante para o debate sobre Asherah talvez seja o de Kuntillet Ajrud, localizado no Sinai egípcio, perto da fronteira com Israel. O lugar parece ter sido uma espécie de "pit stop" de caravanas no deserto, e também ter abrigado um antigo santuário.
Inscrição em hebraico do ano 800 a.C. no alto pede benção de "Javé de Samaria e sua Asherah". Casal abaixo do texto, com aspecto bovino, poderia retratar o deus e sua esposa, segundo alguns especialistas (Foto: G1, Reprodução)
Inscrições e desenhos em fragmentos de cerâmica de Kuntillet Ajrud revelam frases, datadas em torno do ano 800 a.C., pedindo a benção de "Javé de Samaria [capital do reino israelita do norte] e sua Asherah" e "Javé de Teiman e sua Asherah". No caso da primeira frase, há um desenho estranhíssimo de duas figuras com corpo humano e cabeça que lembra a de bovinos, uma delas com traços mais masculinos e outra com traços mais femininos. Será que era assim que alguns dos antigos israelitas imaginavam Javé e sua esposa Asherah?
"Temos outros dados que indicam a associação de Javé com a figura do touro, representando a força, o poder, principalmente no culto de Samaria", afirma Osvaldo Ribeiro, da PUC-RJ. Outros pesquisadores, como Mark S. Smith, da Universidade de Nova York, contestam a associação de Javé com uma consorte chamada Asherah nessas inscrições. Para eles, a gramática do hebraico é esquisita: o termo "sua Asherah" parece se referir a um objeto, não a uma pessoa ou a uma deusa.
"Eu acho complicado tirar uma conclusão como essa simplesmente com base no que sabemos do hebraico bíblico, porque se trata de uma língua morta. Nunca vamos ter certeza se realmente era impossível usar o pronome em 'sua Asherah' para se referir a uma pessoa", diz Ribeiro. De qualquer maneira, afirma o pesquisador, há outro dado arqueológico importante: inúmeras estatuetas de cerâmica, encontradas em todo o território israelita e com idades que abrangem centenas de anos, que parecem indicar uma deusa da fertilidade, com barriga de grávida e seios protuberantes. "Essas imagens continuam sendo comuns até o século 6 a.C., quando Jerusalém é destruída e parte de seus habitantes são exilados na Babilônia", lembra ele.
Outras estatuetas femininas feitas por antigos israelitas: os traços maternais, como seios fartos e ventres grávidos, são enfatizados nessas imagens (Foto: Reprodução)
Pós-exílio
Se o culto a Asherah era tão comum quando esses indícios esparsos indicam, o que teria levado ao fim dele? A Bíblia explica o processo como uma contaminação constante da religião de Israel pelos povos pagãos, a qual nem muitas reformas religiosas purificadoras, como a do rei Josias, foram capazes de apagar antes do exílio na Babilônia.
Ribeiro, no entanto, diz acreditar que muitas dessas histórias de reforma foram projeções dos sacerdotes do Templo de Jerusalém, elaboradas na época depois do exílio. "A comunidade dos que voltam da Babilônia se organiza em torno do Templo de Jerusalém, sob a liderança dos sacerdotes e com o apoio do Império Persa [que dominou a região depois de vencer a Babilônia]. Então, toda ameaça a esse processo de centralização do poder sacerdotal foi combatida, de forma que só acabou sobrando o culto a Javé. Foi um acidente histórico, num momento crítico, que acabou se tornando a visão dominante."
Já para Ana Luisa Cordeiro, da Universidade Católica de Goiás, os eventos antigos têm implicações para a própria visão excessivamente masculina de Deus que acabou se tornando dominante entre judeus e cristãos. Não é que a sociedade na qual Asherah era adorada fosse necessariamente igualitária entre homens e mulheres, pondera ela, mas pelo menos abria espaço para enxergar o sagrado com um lado feminino.
"Reimaginar o sagrado como Deusa é reimaginar as relações de poder, não numa tentativa de apagar a presença de Deus, mas sim de dar espaço ao feminino no sagrado, o feminino não como um atributo do Deus masculino, mas como Deusa", avalia Cordeiro.