INÍCIO

18 maio 2024

CAPITALISMO DO DESASTRE

 CAPITALISMO DO DESASTRE 


Trecho do texto de Tatiana Dias para o Intercept, 18 de maio de 2024.


(...)

No domingo, o Fantástico fez uma reportagem em tom esperançoso mostrando como foi a recuperação de Nova Orleans, e o que os gaúchos podem aprender com ela. 

A história de superação da cidade pode ser, sim, lida com essa lente inspiradora. Mas a economia de recuperação de desastres tem um lado sombrio, e é a tempestade perfeita para os urubus da crise criarem novas fronteiras de acumulação de capital, e implantarem as reformas e medidas antipopulares que tanto desejam.

É o fenômeno descrito como capitalismo de desastre. O caso de Nova Orleans, por exemplo, é um dos exemplos analisados pela autora canadense Naomi Klein no seu livro "A doutrina do choque – a ascensão do capitalismo do desastre".

Esse conceito de "choque" vem do economista Milton Friedman, vencedor do Nobel de Economia em 1976 e um dos principais influenciadores da linha econômica liberal dos Chicago Boys.

Naomi Klein mostra que foi assim no Chile, após o golpe que derrubou Salvador Allende. Também na Bolívia, que atravessou uma crise econômica em 1980. Malásia, Filipinas, Coreia do Sul, Brasil e Indonésia, entre outros, também passaram por processos semelhantes nos anos 1990. No início do século 21, foi a vez dos EUA, em choque com a Guerra ao Terror, com uma retórica que favoreceu a privatização de serviços de defesa nacional.

Klein argumenta que o fenômeno se repetiu também depois de desastres naturais. Na América Central, após o furacão Mitch, e também no Sri Lanka, depois do tsunami em 2004, e em Nova Orleans com o Katrina. Em todos os casos, o estado foi reduzido com privatizações, e as corporações ganharam liberdade com desregulamentação.

Naomi Klein mostra, por exemplo, que, nos EUA, a passagem do Katrina serviu como ponto de partida para uma série de privatizações, incluindo o sistema educacional.

No Sri Lanka foi semelhante: o governo, defendendo que a reconstrução do país não poderia ficar a cargo de políticos, decidiu criar um novo órgão, chamado Força Tarefa, composto basicamente de banqueiros e empresários. O grupo propôs um plano de reconstrução que ia de acordo com seus próprios interesses comerciais: expulsou moradores de áreas pobres e fortaleceu o turismo de luxo.

Aqui no Brasil, a mesma agenda foi implementada depois do rompimento da barragem do Fundão. Uma excelente tese de doutorado da UFMG descreve o crime ambiental de Mariana, em Minas Gerais, como o primeiro grande experimento desse capitalismo no Brasil.

Na ocasião, argumenta a autora Claudia Rojas, a primeira terapia de choque foi o rompimento abrupto e violento. O segundo foi um programa econômico neoliberal e impopular para reparar os danos, que "permitiu às corporações responsáveis inaugurar um novo mercado e conquistar os últimos bastiões do estado", diz a tese.

Por fim, e não menos perverso, os atingidos foram submetidos a "mecanismos e técnicas de tortura coletiva, que contribuíram para reduzir o gasto social, neutralizar a resistência e consolidar a ascensão do capitalismo de desastre no Brasil". Por exemplo, com a pressão para assinatura de acordos com indenizações irrisórias.

A autora mostra como o capital se fortalece com as crises que ele mesmo fomenta e reproduz continuamente. Primeiro, com a consolidação do papel das corporações privadas nas respostas às crises. No caso da barragem, por exemplo, o dinheiro de reparação foi gerido por uma fundação privada, e não pelas vítimas ou pelo estado.

Segundo a autora, esse processo permite o avanço da classe capitalista transnacional. E isso acontece de uma maneira sofisticada, com ONGs e projetos de recuperação, novas instituições e protocolos, de maneira que as próprias corporações ditem as regras e as respostas à crise. Grandes consultorias internacionais especializadas em reputação, sabe?

O capitalismo de desastre também se manifesta com agendas liberais que "alargam o espaço privado em detrimento do espaço público". Em Mariana, por exemplo, isso aconteceu com a privatização de serviços essenciais como assistência às vítimas e respostas a emergências ambientais, que ficaram a cargo das próprias empresas e fundações privadas.

Agora, preste atenção no que está acontecendo no Rio Grande do Sul: a contratação da consultoria especializada em crises corporativas no lugar de pesquisadores de universidades públicas, o pix do governador Eduardo Leite, os pedidos de doações a entidades privadas.

Combine isso com a narrativa predominante das fake news de direita: é a descredibilização do poder público, a ideia de que a ação estatal é "burocrática" e está "atrapalhando" os voluntários, é o helicóptero fake da Havan criado por inteligência artificial resgatando pessoas, é a ideia de um heroísmo privado e atuante sobre a ineficiência do poder estatal.

A resposta ao choque, que se descortina agora, é justamente o fortalecimento da agenda neoliberal em resposta à tragédia: o estado está reduzido, inoperante, então vamos substituí-lo. O Rio Grande do Sul é o novo laboratório da crise.

Friedman argumentava que só as crises econômicas poderiam produzir mudanças. Ou seja: o período após um trauma coletivo é o mais propício para reformas que, em outras ocasiões, dificilmente seriam aceitas. Privatizações radicais, por exemplo.

17 maio 2024

BARRETE FRIGIO

O BARRETE DA LIBERDADE



A República, pintura alegórica da república brasileira obra de Manuel Lopes Rodrigues, 1896. Óleo sobre tela, 230 x 120 cm, Museu de Arte da Bahia.

O barrete frígio incorpora a capacidade que temos de, quando juntos, decidir coletivamente nos levantar para lutar pelo melhor. Esse poderoso símbolo figura em inúmeras bandeiras modernas e contemporâneas e foi escolhido como mascote das olimpíadas francesas de verão de 2024.




AGRONEGÓCIO NECROPOLÍTICO

Ó REIS DO AGRONEGÓCIO, 
Ó PRODUTORES DE ALIMENTO COM VENENO

“Reis do Agronegócio” 
(música de Chico César, letra de Carlos Rennó)

Ó donos do agrobiz, ó reis do agronegócio,
Ó produtores de alimentos com veneno,
Vocês que aumentam todo ano sua posse,
E que poluem cada palmo de terreno,
E que possuem cada qual um latifúndio,
E que destratam e destroem o ambiente,
De cada mente de vocês olhei no fundo
E vi o quanto cada um, no fundo, mente.

Vocês desterram povaréus ao léu que erram,
E não empregam tanta gente como pregam.
Vocês não matam nem a fome que há na Terra,
Nem alimentam tanto a gente como alegam.
É o pequeno produtor que nos provê e os
Seus deputados não protegem, como dizem:
Outra mentira de vocês, Pinóquios véios.
Vocês já viram como tá o seu nariz, hem?

Vocês me dizem que o Brasil não desenvolve
Sem o agrebiz feroz, desenvolvimentista.
Mas até hoje na verdade nunca houve
Um desenvolvimento tão destrutivista.
É o que diz aquele que vocês não ouvem,
O cientista, essa voz, a da ciência.
Tampouco a voz da consciência os comove.
Vocês só ouvem algo por conveniência.

Para vocês, que emitem montes de dióxido,
Para vocês, que têm um gênio neurastênico,
Pobre tem mais é que comer com agrotóxico,
Povo tem mais é que comer, se tem transgênico.

É o que acha, é o que disse um certo dia
Miss Motosserrainha do Desmatamento.
Já o que acho é que vocês é que deviam
Diariamente só comer seu “alimento”.
Vocês se elegem e legislam, feito cínicos,
Em causa própria ou de empresa coligada:
O frigo, a múlti de transgene e agentes químicos,
Que bancam cada deputado da bancada.

Até comunista cai no lobby antiecológico
Do ruralista cujo clã é um grande clube.
Inclui até quem é racista e homofóbico.
Vocês abafam mas tá tudo no YouTube.

Vocês que enxotam o que luta por justiça;
Vocês que oprimem quem produz e quem preserva;
Vocês que pilham, assediam e cobiçam
A terra indígena, o quilombo e a reserva;
Vocês que podam e que fodem e que ferram
Quem represente pela frente uma barreira,
Seja o posseiro, o seringueiro ou o sem-terra,
O extrativista, o ambientalista ou a freira.

Vocês que criam, matam cruelmente bois,
Cujas carcaças formam um enorme lixo;
Vocês que exterminam peixes, caracóis,
Sapos e pássaros e abelhas do seu nicho;
E que rebaixam planta, bicho e outros entes,
E acham pobre, preto e índio “tudo” chucro:
Por que dispensam tal desprezo a um vivente?
Por que só prezam e só pensam no seu lucro?

Eu vejo a liberdade dada aos que se põem
Além da lei, na lista do trabalho escravo,
E a anistia concedida aos que destroem
O verde, a vida, sem morrer com um centavo.
Com dor eu vejo cenas de horror tão fortes,
Tal como eu vejo com amor a fonte linda –
E além do monte o pôr-do-sol porque por sorte
Vocês não destruíram o horizonte… Ainda.

Seu avião derrama a chuva de veneno
Na plantação e causa a náusea violenta
E a intoxicação “ne” adultos e pequenos –
Na mãe que contamina o filho que amamenta.
Provoca aborto e suicídio o inseticida,
Mas na mansão o fato não sensibiliza.
Vocês já não ´tão nem aí co´aquelas vidas.
Vejam como é que o Ogrobiz desumaniza…:

Desmata Minas, a Amazônia, Mato Grosso…;
Infecta solo, rio, ar, lençol freático;
Consome, mais do que qualquer outro negócio,
Um quatrilhão de litros d´água, o que é dramático.
Por tanto mal, do qual vocês não se redimem;
Por tal excesso que só leva à escassez –
Por essa seca, essa crise, esse crime,
Não há maiores responsáveis que vocês.

Eu vejo o campo de vocês ficar infértil,
Num tempo um tanto longe ainda, mas não muito;
E eu vejo a terra de vocês restar estéril,
Num tempo cada vez mais perto, e lhes pergunto:
O que será que os seus filhos acharão de
Vocês diante de um legado tão nefasto,
Vocês que fazem das fazendas hoje um grande
Deserto verde só de soja, de cana ou de pasto?

Pelos milhares que ontem foram e amanhã ser-
Ão mortos pelo grão-negócio de vocês;
Pelos milhares dessas vítimas de câncer,
De fome e sede, e fogo e bala, e de AVCs;
Saibam vocês, que ganham “cum” negócio desse
Muitos milhões, enquanto perdem sua alma,
Que a mim não faria falta se vocês morressem;
Saibam que não me causaria nenhum trauma.




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