INÍCIO

05 dezembro 2020

O CAPITALISMO NO SÉCULO XXI

 CAPITALISMO: UMA MÁQUINA DE FABRICAR DESIGUALDADE


"O Capital no século XXI":
documentário mostra o crescimento das desigualdades no mundo

O freio ao capitalismo sem limites depende, antes de tudo, da mobilização cidadã, segundo o economista Thomas Piketty.

Lula e Piketty encontro na Escola de Economia de Paris

O economista francês Thomas Piketty (Clichy 07/V/1971) é um economista francês que se tornou figura de destaque internacional com seu livro "O Capital no século XXI" Éditions du Seuil, (2013). Sua obra mostra que, nos países desenvolvidos, a taxa de acumulação de renda é maior do que as taxas de crescimento econômico. Segundo Piketty, tal tendência é uma ameaça à democracia e deve ser combatida através da taxação de fortunas. Lançado nos EUA pela editora da Universidade de Harvard, o livro ganhou espaço ampliado na rede mundial e passou a frequentar as páginas dos principais jornais e revistas ao redor do mundo. Elevado à categoria de “obra imprescindível” para compreender a economia nos tempos atuais. tornou-se um best seller. ele conseguiu romper a barreira do público especializado e encontrou seu nicho também junto aos leigos e aos não-economistas.



“Defendo o controle do capital e a superação do capitalismo. Só assim nos projetaremos no século XXI.”

A frase é do mais lido e debatido economista do mundo, o francês Thomas Piketty, no documentário “Le Capital au XXIe siècle”, que está passando em Paris há algumas semanas.



O filme resume, em imagens de filmes de ficção, cenas de documentários e entrevistas em diversos países – 400 anos de capitalismo e as principais teses do livro homônimo, best-seller mundial lançado em 2013. A obra transformou Thomas Piketty no mais respeitado crítico do sistema capitalista.

Por que o capitalismo precisa ser superado? Simplesmente porque como seu denso livro de mil páginas demonstra em detalhes, o sistema capitalista é, por natureza, uma máquina de fabricar desigualdades.

https://youtu.be/RPOqpBhwgco


Millionaires for Humanity

No ritmo atual, segundo o economista, as sociedades ocidentais reproduzirão em pouco tempo as abissais desigualdades de um século atrás. Elas haviam sido atenuadas, com maior ou menor intensidade, graças à luta dos trabalhadores e sindicatos e também a políticas de Estado, como o New Deal de Franklin Roosevelt, que lançou numerosos projetos públicos subvencionados pelo Estado federal, reformas financeiras e regulamentação, com o objetivo de superar a crise econômica e social de 1929.

Recém-eleitos, Trump e Macron – como Reagan fizera na década de 1980 – deram verdadeiros presentes fiscais, diminuindo os impostos dos milionários. Menos egoístas, 83 milionários do mundo assinaram, há duas semanas, uma carta aberta publicada no site « Millionaires for Humanity » pedindo para pagar mais impostos, a fim de financiar parte dos estragos da crise do Covid-19. Eles querem que os mais ricos paguem mais, « imediatamente », « de maneira permanente », a fim de contribuir com a retomada da normalidade econômico-social pós-Covid-19.

Essa carta foi publicada antes da reunião dos ministros de Finanças do G20 e da cúpula europeia extraordinária sobre a retomada do crescimento da União Europeia. No texto, eles pedem que os governos « aumentem os impostos de gente como nós. Imediatamente, substancialmente e de maneira permanente. »

Nenhum milionário brasileiro assinou a carta.

Brasil tem desigualdade da Belle Époque europeia

Realizado por Justin Pemberton e Thomas Piketty, o documentário tem entrevistas com especialistas como o economista Joseph Stiglitz (Prêmio Nobel de Economia), o economista francês Gabriel Zucman, o cientista político Ian Bremmer, a jornalista do “Financial Times”, Gillian Tett, além do próprio Piketty.

O filme faz uma retrospectiva da evolução das sociedades ocidentais em direção a patamares cada vez menores de desigualdade. O crescimento de uma classe média no pós-guerra, as conquistas sociais dos trabalhadores e a criação do salário mínimo permitiram grandes avanços.

Na Belle Époque (nos anos 1910), 1% da população que detinha os maiores patrimônios possuía mais de 60% do capital privado nacional na Europa, contra 45% nos Estados Unidos. Nessa época, 90% da população não possuía praticamente nada.

Segundo Piketty, o Brasil atual é um país, do ponto de vista da repartição da renda e do patrimônio, ainda mais desigual do que a Europa de antes da Primeira Guerra [1914-1918]. Os 50% mais pobres no Brasil em termos de renda têm apenas 10% da renda total,enquanto os 10% mais ricos têm mais de 50% do total. Se olharmos a propriedade, é ainda mais grave. Os 50% mais pobres têm 2% ou 3%, enquanto os 10% mais ricos têm 70% a 80%.

Ele estima que as elites brasileiras cometem um erro histórico ao não promover uma distribuição de renda eficaz. Segundo Piketty, uma política de redistribuição de renda traria certamente crescimento econômico ao país. Ele pensa que as políticas sociais implantadas nos governos do PT foram financiadas pela classe média e não pelos mais ricos pois não houve uma reforma tributária para estabelecer impostos mais progressivos.

Mas, como ouvi Fernando Henrique Cardoso afirmar na Maison de l’Amérique Latine, em janeiro de 2019, « no Brasil, as pessoas não veem com bons olhos a melhor distribuição das riquezas ».

Será que foi por isso que ele preferiu nem tentar entrar neste terreno polêmico ? Como foi mostrado em reportagens, no governo de FHC uma criança morria de fome a cada cinco minutos no Brasil.

Hoje, o Brasil não tem muita chance de sair do atual modelo pois Bolsonaro é visto por Piketty como um “Trump piorado”.

O economista afirmou recentemente em entrevista que a crise atual pode contribuir para uma mudança da ideologia dominante no sistema econômico, na Europa, nos EUA, e mesmo no Brasil, indo em direção de uma economia mais igualitária, mais social e mais sustentável.
«Espero que esse choque nos conduza nessa direção. Mas vai depender da mobilização de cada um». 
Depende, antes de tudo, da mobilização cidadã.

Leneide Duarte-Plon é co-autora, com Clarisse Meireles, de «Um homem torturado, nos passos de frei Tito de Alencar » (Editora Civilização Brasileira, 2014). Em 2016, pela mesma editora, a autora lançou « A tortura como arma de guerra, da Argélia ao Brasil: Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado». Ambos foram finalistas do Prêmio Jabuti. O segundo foi também finalista do Prêmio Biblioteca Nacional.


O CAPITAL NO SÉCULO XXI

“Paris School of Economics”: antes e depois da crise

Na França, por exemplo, em 2007 foi criada oficialmente uma escola de economia independente da estrutura das universidades públicas existentes naquele país. A medida gerou muita polêmica à época, em razão da natureza bastante conservadora e privatista dessa nova instituição e de seu próprio projeto fundador.

Bastante identificada com o pensamento hegemônico ortodoxo e monetarista naquele período, a escola resolveu ser conhecida por sua sigla em inglês. Ou seja, ela já nascia com um verdadeiro tapa na cara da tradição acadêmica e intelectual francesa. A estratégia foi pegar carona em uma conhecida congênere inglesa. Inspirando-se na original britânica do conservadorismo em economia, a nova faculdade deu-se o nome de “Paris School of Economics” (PSE), em analogia explícita à “London School of Economics” (LSE).

No momento da inauguração da instituição, seu diretor era um professor chamado Thomas Piketty - sim, o mesmo autor do campeão de vendas aqui comentado. No entanto, por uma impressionante ironia da História, a partir do segundo ano de sua existência, a PSE passou a conviver com a crise financeira de 2008 nos Estados Unidos e a importação de seus efeitos para o espaço da União Européia. Com isso, o corpo de professores, pesquisadores e alunos da nova faculdade passa a vivenciar esse processo de metamorfose ambulante, em busca de um novo paradigma explicativo da dinâmica econômica. Da noite para o dia perceberam-se órfãos do modelo que inspirou sua própria criação.

Assim, esse é o contexto mais amplo em que surge uma obra com um título bastante sugestivo, como o “O Capital no século XXI”. Piketty não tem suas bases de formação intelectual como economista na tradição deixada por Karl Marx. Aliás, ele deixa isso muito bem claro na introdução de seu livro. Porém, o fato é que uma das linhas de pesquisa que o francês empreendeu em anos mais recentes foi a busca de compreensão do fenômeno da acumulação de capital e da distribuição da renda e da riqueza na sociedade capitalista. E o instrumental que os modelos neoclássicos oferecem para esse fim não estava à altura das expectativas de Piketty. Em razão dessa lacuna, ele vai buscar nas proposições de Marx alguma luz para empreender sua pesquisa.

Uma das principais conclusões propostas pelo economista francês reside na forma como se manifesta o processo de concentração de renda e de riqueza ao longo das etapas do processo econômico. Sua base de dados é bastante extensa, envolvendo diversos países de diferentes continentes. Para os Estados Unidos, por exemplo, ele trabalha com informações estatísticas de um século. Já para alguns países europeus, ele opera com dados para um horizonte temporal de 140 anos. Um universo amplo o bastante para bem fundamentar suas conclusões.

Intervenção do Estado para reduzir desigualdade

As explicações de matriz conservadora procuravam assegurar que o processo econômico capitalista levaria a uma melhoria das condições de vida da população e que, a longo prazo, haveria uma tendência inequívoca à redução das desigualdades de renda e de riqueza. Desde que os agentes econômicos fossem deixados à ação livre das forças de oferta e de demanda, os mercados se ajustariam por si mesmos e o ponto de equilíbrio “ótimo” seria “naturalmente” atingido. Todo e qualquer tipo de intervenção do Estado seria mal visto, uma vez que só viria a provocar desarranjo e perturbação em uma tendência à maximização do bem estar de todos os setores envolvidos.

As pesquisas de Piketty, no entanto, caminham em sentido oposto. A partir de suas bases de dados, o que se verifica é uma tendência ao aprofundamento da desigualdade social e econômica ao longo do processo de produção e acumulação de capital. Tanto nos ciclos de expansão e crescimento quanto de retração da atividade econômica, o capitalismo incorpora e reproduz o gene da concentração de renda e de riqueza. Sempre que deixado à deriva para buscar seus caminhos de maximização de lucros via mercado, o sistema proporciona a ampliação da parcela do capital no resultado da atividade econômica, em detrimento da parte correspondente ao restante dos atores sociais – em especial, os que vivem da venda de sua força de trabalho como garantia de sobrevivência.

Em razão dessa tendência endógena do próprio sistema capitalista, o economista francês termina por corroborar algumas das teses que há muito vêm sendo defendidas por pensadores que nunca se alinharam com a visão da ortodoxia e do monetarismo. Piketty reconhece que apenas a intervenção do setor público é capaz de atenuar ou reorientar essa natureza perversa do capital, qual seja o aprofundamento dos níveis de desigualdade. Assim, as alternativas passariam pelo estabelecimento de políticas públicas corretivas dessa inércia rumo à concentração de poder e de riqueza. Isso significa uma maior tributação sobre a riqueza, em especial a financeira. Como o capital tem uma trajetória intrínseca que provoca exclusão e agravamento da desigualdade, caberia ao Estado intervir pela incidência de impostos para reorientar prioridades, reduzir as disparidades e promover maior de isonomia e inclusão.

Piketty avança na agenda, alertando inclusive para os riscos de natureza política e social. Assim, segundo o pesquisador, o capitalismo no século XXI traz extrema desigualdade, a ponto de eventualmente se converter em uma ameaça para as instituições democráticas. A esperança é que a leitura de seu livro sirva como um estímulo à adoção de medidas na direção sugerida. Propostas como a taxação das transações financeiras ou o imposto sobre as grandes fortunas já estão na mesa há muito tempo. Falta apenas a vontade política de implementá-las.

Piketty´s carrer


Após obter seu PhD, Piketty ensinou de 1993 a 1995 como professor assistente no Department of Economics at the Massachusetts Institute of Technology.
Em 1995, ingressou no French National Centre for Scientific Research (CNRS) como pesquisador, e em 2000 tornou-se professor (directeur d'études) na EHESS.

Piketty ganhou o prêmio de melhor jovem economista da França em 2002 e, segundo lista de 11 de novembro de 2003, é membro do conselho de orientação científica da associação À gauche, en Europe, fundada por Michel Rocard e Dominique Strauss-Kahn (membro do partido socialista, ex-diretor do FMI).

Em 2006, Piketty tornou-se o primeiro chefe da Paris School of Economics (Escola de Economia de Paris) que ajudou a fundar (PSE), criada nos moldes na LSE, London School of Economics and Political Sciences (Londres) criada em 1895. 
Ele saiu depois de alguns meses para servir como conselheiro econômico da candidata do Partido Socialista Ségolène Royal durante a campanha presidencial francesa. Piketty voltou a lecionar na EHESS e na Escola de Economia de Paris em 2007. Ele é colunista do jornal francês Libération e ocasionalmente escreve artigos para o Le Monde.

Em abril de 2012, Piketty foi coautor, juntamente com 42 colegas, de uma carta aberta em apoio ao então candidato do partido socialista à presidência da França, François Hollande. Hollande venceu a disputa contra o titular Nicolas Sarkozy em maio daquele ano. Piketty não ficou impressionado com a gestão de Hollande, mais tarde descrevendo-o como "sem esperança".

Em 2013, Piketty ganhou o prêmio bienal Yrjö Jahnsson, para economistas com menos de 45 anos que "fez uma contribuição em pesquisa teórica e aplicada que é significativa para o estudo da economia na Europa".

Em janeiro de 2015, ele rejeitou a ordem da Legião de Honra francesa, afirmando que recusou a nomeação por não achar que cabia ao governo decidir quem é o honrado.

Em 27 de setembro de 2015, foi anunciado que ele havia sido nomeado para o Comitê Consultivo Econômico do Partido Trabalhista Britânico, convocado pelo Chanceler Shadow John McDonnell e subordinado ao líder do Partido Trabalhista Jeremy Corbyn. A nomeação de Piketty, que já havia aconselhado Lord Wood, principal conselheiro político do ex-líder do Partido Trabalhista Ed Miliband, de que as taxas de impostos poderiam ser aumentadas acima de 50% para ganhos acima de um milhão de libras sem impactar a economia, foi vista como um golpe particular para a liderança do Partido Trabalhista devido ao seu grande sucesso no mundo editorial convencional. 

Sobre esta nomeação, ele afirmou que estava muito feliz em participar e auxiliar o Partido Trabalhista na construção de uma política econômica que ajude a resolver alguns dos maiores problemas que as pessoas enfrentam no Reino Unido e que houve uma oportunidade brilhante para o Partido Trabalhista construir fresca e nova economia política que exporá a austeridade pelo fracasso que tem sido no Reino Unido e na Europa. Em junho de 2016, ele renunciou ao seu cargo no Labour's Economic Advisory Committee (Comitê Consultivo Econômico do Trabalho), citando preocupações sobre a fraca campanha que o partido havia feito no referendo da UE.

Em 2 de outubro de 2015, Piketty recebeu um doutorado honorário da Universidade de Joanesburgo e em 3 de outubro de 2015 ele proferiu a 13ª Conferência Anual Nelson Mandela na Universidade de Joanesburgo. 

Em 11 de fevereiro de 2017, foi anunciado que ele havia se juntado à equipe de campanha do socialista Benoît Hamon na corrida presidencial deste último. 
Ele se encarregou dos assuntos da UE e, mais precisamente, do Tratado de Estabilidade Fiscal (ou TECG), enquanto Julia Cagé foi responsável pela plataforma econômica e fiscal do candidato. 
Piketty expressou sua opinião de que o TSCG deveria ser renegociado a fim de introduzir uma assembleia da zona do euro, composta por membros dos parlamentos da UE, um "governo democrático", disse ele, em comparação com o sistema atual, que ele vê como um "huis clos" ( uma "discussão privada a portas fechadas", um arranjo na câmera). Tal mudança atualmente requer a aprovação unânime de todos os membros da UE, e Piketty sugeriu que uma mudança nas regras pode ser necessária, dizendo que se países representando 80% da população da UE ou do PIB ratificarem um tratado, ele deve ser aprovado. Ele também é a favor de uma (credible and bold basic income"renda básica credível e arrojada", que é uma das principais propostas de Benoit Hamon, embora suas visões sobre o assunto sejam diferentes. O apelo em que Piketty e outros pesquisadores econômicos defendem sua versão da renda básica foi criticado como não "universal", uma crítica que ele respondeu em seu blog

Thomas Piketty ingressou na London School of Economics (LSE) em 2015 como o distinto Centenial Professor. Piketty continua sua pesquisa como parte do LSE International Inequalities Institute
Sua pesquisa econômica concentra-se principalmente nas desigualdades de riqueza e no uso de capital no século XXI. Piketty tem laços de longa data com a London School of Economics e concluiu seus estudos de doutorado na universidade no início dos anos 1990. Em adição às suas pesquisas, Piketty também ensina para alunos de pós-graduação na LSE. Sua abordagem de ensino e pesquisa é interdisciplinar e ele esteve envolvido no ensino do novo mestrado em Desigualdades e Ciências Sociais na London School of Economics.


“Não se diminui a desigualdade sem mexer no coração da riqueza”

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu nesta terça-feira (3) com o economista Thomas Piketty, na Escola de Economia de Paris. O autor de “O Capital no século XXI” tem coordenado um laboratório de estudos sobre a desigualdade no mundo e aproveitou a passagem do ex-presidente por Paris para convidar Lula a apresentar a experiência brasileira no combate à miséria. (Instituto Lula).
Lula e Piketty (03/III/2020)

A obra do economista o consagrou como um dos mais influentes de sua geração. Além disso, contribuiu para que temas como desigualdade e concentração de renda e riqueza alcançassem o centro do debate mundo afora. 
Em 2018, Piketty foi um dos intelectuais que assinaram o manifesto internacional em defesa da libertação do ex-presidente, à época mantido preso político em Curitiba.

A questão da desigualdade tem sido central na agenda de Lula nos últimos meses. “Quero agradecer a oportunidade de fazer o debate de uma coisa que me é muito cara. Nós temos que expor a desigualdade como um problema político, uma questão de dignidade humana. Não haverá diminuição da desigualdade se a gente não mexer no coração da riqueza”, avaliou. O encontro reuniu pesquisadores da desigualdade em todo o mundo, em especial na América Latina e Brasil.

É muito difícil compreender o Brasil se não levar em conta os 350 anos de escravidão. Somos uma sociedade escravagista, embora a escravidão formalmente tenha sido extinta. Ela existe na economia brasileira. Existe no patrimonialismo. A elite brasileira nunca efetivamente se deu conta da necessidade de elevar a qualidade de vida dos mais pobres”, expôs o ex-presidente Lula.

Lula refletiu ainda sobre os desafios práticos para a implementação de políticas para redução da desigualdade durante os anos em que esteve à frente da Presidência. “Para fazer uma reforma você precisa saber pra que e para quem. E ter consciência da correlação de forças na sociedade e nas instituições”, pontuou. “Quando ganhei as eleições, em 2002, o Congresso Nacional tinha 513 deputados. Eu tinha apenas 91. De 88 senadores, tínhamos apenas 14. Quando Dilma ganha, os deputados caíram de 91 pra 72 e os senadores para seis. E essa maioria trabalha pela manutenção do status quo, ou por sua agenda própria”.

Para Lula, essa lógica provocou uma perda de força no Estado. “Criou-se um mecanismo onde a sociedade privada vai dirigindo o Estado”.

O ex-presidente também fez uma exposição dos programas sociais como o Bolsa Família, Luz Para Todos e ProUni, que marcaram o legado dos governos petistas, e de como essas medidas incentivaram a economia, mesmo gerando incômodo em setores da elite. “Fazer transferência de renda foi uma decisão contra tudo e contra todos. Contra os chamados especialistas. Quando tomamos a decisão de criar o programa fome zero, muita gente no Brasil escrevia que era melhor investir em estradas, em infraestrutura. Meu argumento era: o povo não come cimento. O povo come feijão e arroz e é disso que ele está precisando agora”.

“Não existe explicação humanitária um cidadão ter 100 bilhões de dólares na sua conta e 100 milhões de pessoas não terem o que comer. Não sei quanto tempo vou viver. Mas se eu puder quero ajudar a criar indignação com a concentração de renda no mundo”, propôs Lula.

Ao final, Piketty anunciou que o encontro deve ser o primeiro de uma importante colaboração sobre o tema da desigualdade. “Foi muito interessante. Temos que garantir que continuemos em contato nesse intercâmbio e vamos tentar ir ao Brasil com nossa equipe para aprofundar esse debate”, disse o economista.





O CAFEZINHO

LULA, GRÉCIA ANTIGA E ALGUMAS LIÇÕES DE PIKETTY
(10/II/2017)
Por Miguel do Rosário

Estou cansado, muito cansado, dessa agenda política baseada exclusivamente na histeria interessada dos meganhas e da mídia. Cansado também dessa degradação ideológica em que o Brasil mergulhou, por culpa de uma imprensa irresponsável, cuja única razão de ser é justificar a terrível desigualdade econômica do país.

O discurso contra a corrupção é, na verdade, um diabólico diversionismo em relação ao principal problema nacional, que é a desigualdade de renda, que deve ser enfrentada com investimentos crescentes em educação, de um lado, e uma tributação mais eficiente sobre a renda e o capital.

Por isso a mídia plutocrática, em sintonia com as castas da burocracia, elegeram Sergio Moro como seu heroi. Aliás, toda a cúpula da Lava Jato pensa da mesma forma. Provavelmente, não tem consciência do papel que exerce, com seus discursos demagógicos que, no fundo, são puramente autoritários e falaciosos.

Em sua obra antológica sobre a desigualdade, Thomas Piketty fala da concentração da renda no mundo, analisando suas origens e evolução. Em países muito avançados socialmente, como os escandinavos, os 10% mais ricos recebem cerca de 25% da renda nacional (aí somando a renda de capital com renda de trabalho). Nos Estados Unidos, que é visto por Piketty como um país mais desigual, especialmente se comparado à Europa, os 10% mais ricos recebem mais de 50% da renda nacional, sendo que os 1%, sozinhos, ficam com mais de 20%.


Piketty então faz uma especulação: diz que se a renda dos 10% mais ricos chegasse a 90% da renda nacional, e a dos 1%, a mais de 50%, isso geraria, provavelmente, uma revolução, “a menos que um aparato peculiarmente repressivo exista para evitar que isso aconteça”.

Ele observa que o grau de concentração do capital, quando atinge um nível muito elevado, é fonte de “profundas tensões”, que dificilmente podem se reconciliar com o sufrágio universal.

Lembrei-me imediatamente do golpe no Brasil e das “profundas tensões”. Entretanto, logo a seguir, Piketty faz uma outra observação ainda mais pertinente: “de fato, se tal extrema desigualdade é ou não sustentável depende não apenas da efetividade do aparato de repressão, como também, e talvez principalmente, do aparato de justificação. 
Se as desigualdades são justificadas, (…) então é perfeitamente possível que a concentração de renda atinja recordes históricos.”

O que é a imprensa brasileira senão um “aparato de justificação” da desigualdade?

Eu acrescentaria o que são as instituições brasileiras senão instrumentos da manutenção das desigualdades?

Piketty não pode usar dados do Brasil, porque as nossas castas burocráticas, talvez por um astuto interesse de classe, não quiseram, não puderam, ou não se interessaram em lhe repassar dados detalhados sobre a renda no Brasil. O governo brasileiro, que nunca percebeu a importância da batalha de ideias, também não se empenhou em convencer as castas a fazê-lo.

Mas os índices que existem sobre o Brasil mostram que somos um dos países mais desiguais do mundo, embora tenhamos melhorado um pouco durante a era petista.

Ora, é muito sintomático que as políticas públicas que permitiram ao país reduzir um pouco sua desigualdade, amenizando as tensões sociais, sejam agora demonizadas ou mesmo deliberadamente alvos de destruição em massa por parte de um governo profundamente reacionário e dos setores que o apoiam.

Não é preciso ser nenhum gênio da economia ou política para prever que as tensões sociais vão continuar se aprofundado. O status quo então terá de elevar os investimentos em repressão, de um lado, e de “justificação”, de outro. A Lava Jato é um instrumento que mistura um pouco de repressão, na medida em que aterroriza a classe política, mas sobretudo de justificação, visto que suas lideranças ventilam discursos demagógicos que põem a corrupção como principal mal do Brasil, e não a desigualdade.

A classe política não é boba. Ela entende muito bem os recados ideológicos da Lava Jato. Quando o procurador-geral da República viaja a Davos, posando de estadista, e diz que a Lava Jato é “pró-mercado”, eles compreendem perfeitamente o significado oculto da expressão. Ela quer dizer: a Lava Jato é de direita, neoliberal, privatista, quer destruir empresas nacionais para entregar nossas riquezas para potências estrangeiras.

A polarização gera uma onda de estupidez política sem igual. Por exemplo, a dicotomia entre empresa pública versus empresa privada. Mais uma vez, a imprensa é culpada, porque ela fez do Brasil sua Coreia do Norte particular. Foram tantos anos de campanhas de desinformação, de jornalismo histérico, que o brasileiro médio não sabe que o primeiro mundo é cheio de empresas públicas extremamente eficientes, que existem, nos EUA, na Europa, no Japão, programas sociais abrangentes desde sempre, que a tributação nos países ricos incide sobre quem ganha mais, que Roosevelt instituiu um imposto de herança de 75% nos Estados Unidos, na década de 30. Em seu desespero para manipular a opinião pública, fazendo-lhe odiar qualquer medida de esquerda, a imprensa brasileira se tornou pior do que a Fox americana, e os governos petistas, por ignorância e covardia, não entenderam a gravidade do que estava acontecendo.

A parte da culpa que cabe à esquerda, em especial aos partidos políticos, foi também não ter feitos debates públicos sobre a relação entre ideologia, economia e regime político, para que as pessoas entendessem que é possível conciliar um regime democrático, capitalista, com liberdade de imprensa e de empreendimento, com soluções autenticamente socialistas, como uma educação e uma saúde públicas de qualidade, com programas sociais, estatais modernas, eficientes. São assim as economias avançadas, ou por acaso a Nasa, os metrôs de Nova York, Paris, Londres, as petroleiras da Noruega, as universidades europeias e chinesas, não são estatais, não são eficientes, e não são estratégicas para o desenvolvimento, para a mobilidade urbana, para o bem estar de seus respectivos países? Se a imprensa não mostra, o presidente da república tinha de vir à TV cobrir esse lacuna, ou os partidos políticos. Não adianta ficar só no discurso, só no blablá, mostrando Lula na TV. Tem que oferecer informação.

Entretanto, tenho observado, em minhas leituras, que a acusação de “ignorância” que se faz a governos populares carrega também um tanto de preconceito elitista contra a própria democracia, que é justamente o regime em que pessoas mais simples, mais intuitivas, menos experientes, assumem o poder.

Um dos livros que estou lendo é sobre as Origens da Democracia na Grécia Antiga, escrito por acadêmicos norte-americanos. Eles usam muitas fontes antigas, escritores e filósofos da antiguidade, e sempre precisam alertar ao leitor sobre o preconceito aristocrático presente nesses textos. Revoluções democráticas são vistas com maus olhos pelos intelectuais da época, justamente porque não são lideradas por… intelectuais. Aliás, o caráter profundamente antidemocrático, autoritário e, por fim, totalitário, que as revoluções comunistas assumem, não teria sido porque foram lideradas por intelectuais?

Plutarco, por exemplo, escrevendo sobre Sólon, o legislador ateniense que criou as primeiras leis democráticas da Grécia Antiga, menciona um escritor antigo, Anarcássis, que assim se expressa sobre as vicissitudes vividas pelas lideranças políticas da Ática: “Na Grécia, discorrem os sábios, mas decidem os ignorantes”.

Esta é uma máxima tipicamente aristocrática: a decisão dos “ignorantes”, na verdade, eram decisões democráticas, tomadas pela massa comum dos cidadãos, a maioria deles pobres.

Estas passagens me forçam, por isso mesmo, a fazer uma ponderação nas minhas próprias críticas ao erros do PT e de Lula/Dilma. Eu mantenho minha crítica sobre seus erros, sobretudo na esfera da política, em particular da comunicação política direta com a população, que foi abandonada. Mas talvez eu mesmo esteja incorrendo em outro erro, abraçando uma visão paternalista ou condescendente em relação ao povo, como se fosse possível, a Lula ou Dilma, “educar” politicamente o povo. Democracias não nascem de cima para baixo. Elas nascem de um longo processo de aprendizado popular, no qual a cultura democrática, que é baseada sobretudo na autoconfiança do povo, amadurece, desenvolve-se e, por fim, contamina todas as instituições e classes sociais, em especial as de baixo.

Neste sentido, Lula nunca teve esse poder, ou mesmo essa pretensão aristocrática, professoral, de “educar politicamente” o povo. Provavelmente, isso nem passou pela cabeça do presidente, que, por isso mesmo, talvez tenha sido a nossa liderança mais genuinamente democrática. Lula aceitava e entendia a sociedade brasileira como ela era, sem pretender, como querem intelectuais, sejam liberais, conservadores ou progressistas, mudá-la de cima para baixo. Ele tentou, ao contrário, mudá-la de baixo para cima, dando condições econômicas para que os setores mais vulneráveis da população conquistassem o mínimo conforto necessário para desenvolver um pensamento político autônomo.

Mas obviamente não deu tempo. O próprio povo entendeu que o tempo era curto e concedeu a Lula vários mandatos sucessivos. Então veio o golpe. Que ocorreu porque os setores políticos antidemocráticos, e aí talvez devemos incluir até mesmo a esquerda, mas em especial os ultrarricos e se partido, a mídia, não tinham paciência de aguardar que a cultura democrática tivesse mais alguns anos de consolidação.

Se não houvesse golpe e não houvesse, em especial, essa operação de guerra chamada Lava Jato, que destruiu as empresas de construção pesada que tocavam as grandes obras de infra-estrutura do país, Dilma iria inaugurá-las, essas obras: refinarias, usinas, siderúrgicas, portos, estradas, ferrovias. Lula ganharia as eleições em 2018 e novamente em 2022.

Piketty adverte ainda que uma análise sócio-econômica deve entender a profunda separação entre os 10% que ganham mais e os 1% do topo da pirâmide. Mesmo esses 1% também devem ser divididos. Há uma elite ainda mais ínfime, o milésimo percento, os 0,001%. Quando falamos em classe média, damos vazão a uma abstração um tanto idiota, porque não há sentido em comparar quem ganha 5 a 10 mil reais por mês, e aquele que aufere alguns milhões.

O campo progressista falhou em fazer entender essa diferença. Outro erro foi não ter explorado a profunda desigualdade existente dentro do serviço público. Um posicionamento progressista e democrático nessa esfera teria valido, ao governo federal, o apoio de uma grande massa de servidores públicos, de todas as instâncias. O golpe teria sido evitado.

A diferença entre os salários das castas e o simples mortais do serviço público é positivamente criminosa. Mas não adianta agora chorar o leite derramado. O campo progressista deveria patrocinar, com urgência, estudos e pesquisas, mostrando essas diferenças, fazendo comparações com o resto do mundo. Isso é fazer política! Os deputados federais do campo popular, assim como algumas universidades, tem acesso a recursos para levar adiante esse tipo e pesquisa. Por que não o fazem?

Por fim, eu gostaria de externar algumas reflexões sobre o que eu considero erros conceituais da esquerda, que tem consequências políticas e eleitorais muito negativas.

Não é só a Lava Jato e a campanha midiática que explica a derrota eleitoral do PT em 2016, por exemplo. Outros fatores, de ordem mais geral, talvez tenham influído.

Eu quero falar sobre alguns lugares-comuns que dizem muito sobre os erros, no meu ponto-de-vista que tem vitimado a esquerda e a conduzido por trilhas erradas, cada vez mais longe do bom senso popular – e isso não só no Brasil.

Por exemplo, a meritocracia. Há alguns dias, as redes sociais progressistas (que são enormes, por isso ganhamos quatro eleições presidenciais consecutivas) se encheram de festa pela conquista do primeiro lugar no concurso da faculdade de medicina da USP, por Bruna Sena, uma menina negra, pobre, moradora da periferia.

Rapidamente, os meios de comunicação tentaram, como sempre fazem nestes casos, manipular o seu exemplo como um símbolo da “meritocracia”. A jovem, revelando uma astúcia política que é cada vez mais comum nas novas gerações, respondeu, com visível irritação, que a “meritocracia é uma falácia”. Com honestidade quase doída, ela disse que o seu desempenho aconteceu porque recebeu “apoio”. A resposta dela, numa entrevista a um site, é um caso de estudo tão interessante que vale reproduzir um trecho:

A meritocracia é uma falácia. Eu consegui porque tive ajuda. Não dá para igualar as pessoas que não tiveram as mesmas oportunidades. Eu me esforcei muito, sim, mas não consegui só por causa disso, eu tive muito apoio. E é isso que a gente tem que dá para quem não tem oportunidade. A gente perde muitos gênios por aí, inclusive nas favelas porque não podem estudar. E eu fiquei com muito medo de que minha postagem servisse de argumento para a meritocracia. E eu vi comentários que se baseavam nisso. Mas eu sabia que ia acontecer. Eu quero frisar bem que a questão importante é a oportunidade. Eu consegui porque tive oportunidade. Eu tenho visto minha história como apoio à meritocracia e fico muito triste com isso.

Entende-se porque ela passou em primeiro lugar. Ela é brilhante – e progressista. Ela usou a expressão “meritocracia” conforme esta tem sido manipulada pelo pensamento dominante para enganar o povo e não lhe dar oportunidade, sob a “justificação” de que ele só não ascende socialmente porque lhe faltam méritos e esforço.

Ela comunicou-se perfeitamente. Mas há um erro profundo na teoria da moça, que é a teoria da esquerda, hoje em dia: que é de aceitar o significado negativo e enganoso ao termo “meritocracia” que a direita lhe conferiu.

Meritocracia não é uma falácia. É uma coisa boa. O pobre, na verdade, é o único que pode entender a meritocracia em sua acepção mais pura, mais verdadeira, e Bruna é um exemplo disso.

A falácia não está na meritocracia, que deve ser estimulada, e incorporada ao ideário progressista, e sim na alegação de que é possível algum tipo de meritocracia sem que haja, antes, uma oferta equânime e justa de oportunidades.


A gravidade desse erro, no meu ponto-de-vista, é porque o pobre, o cidadão comum, sem grandes posses, quer a meritocracia, quer viver num mundo meritocrático, porque ele sabe que a única maneira de ascender socialmente, é através de seu esforço pessoal, de seu trabalho, de seu empenho e determinação. Essa é a ideia na qual ele precisa acreditar, porque ele também sabe que apenas se acreditar, com todas as suas forças, em si mesmo, poderá efetivamente conseguir o que deseja. Se tiver uma oportunidade, ótimo, mas ele não pode esperar isso. Ele tem que lutar com que tem a mão.

A esquerda que não oferece esse estímulo ao pobre, que não lhe mostra a meritocracia como uma virtude, comete um erro. Ela perde o pobre para a igreja evangélica. Além disso, será uma esquerda hipócrita, uma esquerda herdeira, elitizada, que não vê a meritocracia como uma virtude tão importante porque seus filhos já tem oportunidades – e esta talvez seja a explicação antropológica para o olhar blasé da esquerda para a meritocracia. O pobre, no entanto, entende a importância central da meritocracia para sua vida, para seus filhos. Isso não quer dizer, naturalmente, que ele não entenda igualmente a necessidade de apoio, de oportunidades, para que esta meritocracia possa se materializar.

O que eu quero enfatizar é que, para o pobre, a meritocracia é um valor moral, que precisa ser incutido profundamente no espírito de seus filhos para que elas possam ascender socialmente. Por isso mesmo ele irá procurar as instituições sociais ou políticas que legitimem esses valores que ele já possui em si mesmo.

A esquerda precisa ser meritocrática, porque este é um conceito profundamente positivo, progressista, popular, desde que seja explicado ao povo que o rico não é rico por causa de seus “méritos”, e sim porque ele teve mais oportunidades. O que não quer dizer que o filho do rico ou da classe média também não precisem de “méritos”, caso queiram um lugar à luz do sol. Chico Buarque teve as melhores oportunidades do mundo, mas ninguém lhe negará o mérito próprio que o levou a se tornar o que se tornou.

Entretanto, é óbvio que existe uma tensão histórica entre meritocracia e democracia. O poder, numa democracia, não pertence ao especialista mais renomado, ao jurista mais respeitado, ao intelectual mais inteligente, e sim àquele que tem mais votos. Mas esse é seu mérito: ter mais votos, e isso não é pouca coisa.

Outro erro comum da esquerda é dar uma conotação negativa ao termo “pragmatismo”. Este é um assunto importante porque a crise política que levou a esquerda brasileira, em especial o PT, à uma derrota política histórica, produziu também a seguinte falácia: a de que um dos culpados foi o pragmatismo ou o excesso de pragmatismo. Daí, a crise política, que poderia levar a esquerda às reflexões necessárias sobre seus erros, cede às suas franjas extremistas e infantis, segundo as quais ela não deveria ter feito “alianças” com ninguém.

Balela! A aliança do PT com o centro foi necessária, inteligente e pragmática. Se os aliados se revelaram corruptos, isso não é culpa da aliança em si. E não existe “excesso de pragmatismo”, que é uma expressão absurda, sem sentido. Pragmatismo é sempre bom e o seu excesso, melhor ainda.

Pragmatismo também é saber a hora, por exemplo, de refazer alianças, ou de rompê-las.

O PT errou porque esqueceu de se comunicar com o povo, de fazer uma “aliança política” com a população. Ele fez políticas públicas inéditas, históricas, em benefício do povo, mas esqueceu que era preciso estabelecer uma comunicação direta, constante, entre o governo, o partido e o povo. Isso não foi “excesso de pragmatismo”, isso foi a mais absoluta falta de pragmatismo.

O golpe aconteceu porque o PT não foi pragmático. Foi um partido que hiperidealizou as alianças com a mídia, com o centro, com os setores conservadores da sociedade.

Se a esquerda quiser voltar ao poder, evidentemente não poderá cair na falácia, vendida espertamente pela mídia, de que não precisa se aliar. Precisa sim, mas com pragmatismo, ou seja, cultivando a força das ruas, dos movimentos sociais, da imprensa alternativa, para se posicionar de maneira mais confortável e soberana perante as alianças necessárias que terá de estabelecer com setores do centro.

Neste sentido, a irritação principal da militância, em torno do possível apoio do PT a candidatura de Rodrigo Maia para a presidência da Câmara, não era contra o “pragmatismo” do partido, mas exatamente pelo oposto, porque não era uma posição pragmática: o partido perderia ainda mais base social, ou seja, incorreria no mesmo erro de Dilma, que abandonou completamente o fator “base social” de seu cálculo político na montagem de seu ministério. Sem base social, sem votos, de que vale o PT? Nada. Então a estupidez monstruosa do partido, em especial dos quadros que ocupavam posições de poder no governo, foi perder a sua base social. Sem esta força, perderam a única coisa que poderiam oferecer ao centro. Para ter base social, é preciso governar para o povo, falar ao povo, ouvir o povo, estar junto ao povo o tempo inteiro. Se tivesse agido assim, não teria havido o golpe.

A esquerda brasileira, se quiser se recuperar, precisa ir além do esquerdismo vulgar. Ela precisa recuperar valores que sempre foram queridos ao povo, e que foram inventados, lá atrás, pela própria esquerda, ou pelo campo progressista que lhe correspondia, como a meritocracia, a liberdade individual, o pragmatismo. Se a esquerda torcer o nariz para estas virtudes, perderá o povo, e voltará ao cercadinho acadêmico e elitista em que o sistema adora vê-la. Aliás, quando a esquerda dá mostras de se “comportar”, ou seja, de ocupar este cercadinho confortável e seguro, a grande mídia passa a tratá-la com uma doçura impressionante. Muitos quadros da ultra-esquerda, nos partidos, na academia, sentem isso na pele. A grande imprensa adora uma esquerda acadêmica, “esquerdista”, castrada, com voz fina, disposta a cantar na festa dos poderosos. Setores medrosos da burguesia, que não se identificam com os exageros conservadores, até porque estes não lhes interessam, são facilmente atraídos por essa esquerda de butique, que não oferece riscos, porque não ganha eleições, não ameaça o status quo.

Por outro lado, a esquerda pragmática, esta é tratada como inimiga de classe pelos setores mais reacionários do capital, porque eles sabem que ela pode despertar o interesse do próprio… capital, em especial o capital produtivo, o capital industrial, o capital da construção civil. Daí a Lava Jato. Ela também é a vingança do capital não-produtivo, do capital estrangeiro, do capital midiático, contra o capital industrial, que se aliou ao PT para ampliar seu poder econômico e político.

A Lava Jato passou a criminalizar qualquer relação entre o PT, Lula, e as grandes empresas, como se fosse possível a um governo, a um partido de massas, tocar adiante uma administração sem ouvir, sem negociar, sem estabelecer parcerias, com os setores estratégicos do capital nacional. Claro, a mídia, associada aos setores golpistas e reacionários da burocracia, à meganhagem, insuflará no ouvido do homem comum a palavrinha mágica: olha, é corrupção! Olha essa obra, custou bilhões! Olha esse operador aqui, ganhou milhões! É muito fácil insuflar a inveja de uma classe média que se esfola dia e noite para pagar um dos custos de vida mais caros do planeta.

O PT, naturalmente, e isto sim foi um erro, deveria ter levado adiante essas parcerias sem jamais esquecer de se comunicar diretamente com a população. Uma Copa do Mundo, uma Olimpíadas, jamais poderiam ser levadas adiante sem um projeto popular progressista, que oferecesse uma narrativa original, popular e inteligente, ao mundo. Não fazer isso fez parte do pacote de estupidez e inacreditável ausência de criatividade que caracterizou o governo Dilma. A mesma coisa vale para os projetos de infra-estrutura, como as hidrelétricas, que deveriam vir acompanhados de ousadas, ou mesmo revolucionárias campanhas em prol das populações indígenas. Tudo isso é comunicação, é política, é acumulação de forças para as batalhas no parlamento, nas ruas, na mídia, nos tribunais.


POST SCRIPTUM

Todos temos certeza que Piketty tocou no ponto fulcral do problema. Depois de 400 anos de acumulação do capital, desde o início do capitalismo, e agora na fase do neoliberalismo totalitário (Chile está aí para não nos deixar mentir) o capitalismo se mostrou a fonte de suas proprias crizes que levam a tristeza, a morte e à acumulação da riqueza nas mão de poucos que tem estômago para explorar seus irmãos. 

Por que temos certeza que Thomas Piketty acertou na sua análise? Porque aqui no Brasil onde a midia e os institutos conservadores e retrógrados que estudam modos de manutenção do status quo, se arvoram em defender o capital dos ataques. Estão mostrando sua cara. 
Publicações apareceram detratando e afirmando que o autor da obra "O capital no século XXI" usou dados errados, deturpou os dados, fez inferências vãs. 
Dá para ver que estão desesperados. E chegará um dia que nem todos os institutos e toda mídia golpista e a serviço da produção da pobreza, e todas as instituições de estado como congressos e câmaras de deputados não conseguirá mais conter a onda de desespero que eles mesmo possibilitaram. 
E a classe média hipócrita achando que um dia será elite. Pensem, apedeutas: não riqueza suficiente no planeta todo para que todas as classes médias do planeta cheguem a ser elite. A elite é a suprema exploradora. E mesmo assim, estão fazendo o trabalho sujo da elite ignara, torpe e boçal. Um pouco de humanidade e de humildade seria suficiente para reconhecer o papel de trabalhadores que a classe média desempenha, se achando elite. Somente a luta justifica a vida. E o objetivo da vida é conseguir para todos os trabalhadores condições dignas e salários que os possibilitem viver com felicidade e alegria junto aos seus, sua família, seus ente queridos. É tão pouco o que traz dignidade: educação para os filhos, creches, postos de saúde e segurança pública. 
A elite extrativista brasileira não pensa além de seu umbigo. Não vê que se todos os trabalhadores tiverem poder econômico mínimo esse dinheiro será investido aqui mesmo? Gerando mais trabalhos e mais serviços? Mas não, nem um centavo a a mais sai do seu bolso. Mesmo do bolso do governo que retira de todos. Retira mais dos pobres do que dos ricos. Esse limiar que fica claro na obra de Piketty esta chegando rápido. E então nada conterá o rompimento da barragem... São séculos de exploração e de vida de quinta categoria. São centenas de anos sendo caçados e empurrados para a periferia. E a classe média como turiferários desse monstro ganancioso que é a elite, permanece gravitando ao redor recebendo migalhas. 
(6/XI/2020)



Bibliografia













RECLAMANDO DAS RECLAMAÇÕES



Eu gostaria de reclamar das reclamação

por Tyler Cowen, 3 de dezembro de 2020 
(às 12h33 em Economics Travel)


… Reclamar em um hotel… muitas vezes produz um retorno relativamente alto, seja sua reclamação justificada ou não. Se você disser à recepção que seu quarto não foi limpo de maneira adequada e rápida, ou contatar a rede de hotéis com uma mensagem semelhante, há uma boa chance de que você receberá um upgrade ou pontos extras em sua conta. 

A maioria dos hotéis tem quartos vazios na maior parte do tempo, então eles não estão abrindo mão de muitas receitas ao conceder esses favores. Eles podem até estar transformando você em um cliente mais fiel.

A injustiça que você cita não precisa ser tão séria, o que importa é que você chamou a atenção deles. Isso significa que você está procurando um benefício, talvez com um motivo explorador, mas ainda assim a administração do hotel pode responder. Se você é um reclamante por natureza, provavelmente também publicará em sites de viagens, e os hotéis querem evitar isso. 

O serviço básico e o modelo de preços dos hotéis nunca foram igualitários para começar, e isso também torna mais fácil para eles darem uma folga. Eles costumam cobrar preços diferentes dependendo do horário e da maneira da reserva, então, se eles lhe derem um favor especial, ninguém olhará de solsaio (no one looks askance).

A “economia de reclamar” básica está ficando clara: Reclame quando o custo marginal do serviço extra for baixo. Reclame quando a reputação do vendedor for avaliada on-line de maneira significativa. Reclame quando as normas do serviço forem outra coisa que não igualdade de tratamento. 

Reclamar para as companhias aéreas é complicado. Muitas vezes, eles têm estoque grátis para dar ou oferecer com desconto, mas, ao contrário dos hotéis, quase todos os seus clientes têm do que reclamar! (O mesmo costuma acontecer com os serviços de mídia social.) A menos que seu caso seja sólido e bem documentado, as companhias aéreas também tendem a ser muito mesquinhas em relação às reclamações. Tendem a ser e normalmente são. A regra para companhias aéreas é "mesquinharia acima de tudo".

À medida que o progresso avança e mais serviços se tornam automatizados, homogeneizados e funcionando bem, as empresas se parecerão mais com hotéis do que com companhias aéreas, pelo menos do ponto de vista das reclamações e de seus reclamantes. 

Haverá menos motivos para reclamações, mas as reclamações que surgirem serão muito bem tratadas. O retorno de uma reclamação será muito alto e, se você (como eu) não ama a maioria dos reclamantes, pode achar isso um pouco perturbador. 

… Que tal reclamar sobre a economia de reclamar? A triste realidade é esta: reclamar é mais lucrativo precisamente quando e onde é menos necessário. Essa é a regra geral para países ditos "civilizados", industrializados ou ricos ou colonialistas. 

P.S.: 

Um amigo me disse certa ocasião: onde existe um preço existe margem para negociação. No atual estágio do capitalismo, onde a concentração de renda é a lei, o ponto de fuga e o objetivo, as reclamações tem menos impacto, custam menos, mesmo em companhias que são avaliadas on-line em tempo real. Não há para onde correr ou voce paga ou não viaja ou não se hospeda... 







30 novembro 2020

A POLIGRAFIA DE JOHANNES TRITHEMIUS


JOHANNES TRITHEMIUS 
(*1462 +1516)

Nascido Johannes Zeller de Heidenberg, foi um abade beneditino alemão e um polímata que foi ativo na Renascença alemã como lexicógrafo, cronista, criptógrafo e ocultista. Ele teve uma influência considerável no desenvolvimento do ocultismo do inicio da era moderna e posteior. Seus alunos incluíam Heinrich Cornelius Agrippa e Paracelsus. O apelido Trithemius refere-se à sua cidade natal, Trittenheim, no rio Mosela, na época parte do Eleitorado de Trier.
Iohannes Trithemius 
(1/II/1462-13/XII/1516)
(Fonte: Alchetron)

Influenced by humanism, Hermetic writings, Neoplatonism, Pythagorean numerology, Renais-sance Platonism, medieval scholasticism (Albert the Great), and Kabbalah, Trithemius created aconception of mystical magic (Brann 1981,1999; Zambelli 2007). He worked with alchemi-cal and astrological precepts leading to mysticalmagical illumination, which was kept in secret.



Quando Johannes ainda era criança, seu pai Johann von Heidenburg morreu. Seu padrasto, com quem sua mãe Elisabeth se casou sete anos depois, era hostil à educação e, portanto, Johannes só poderia aprender em segredo e com muitas dificuldades. Ele aprendeu grego, latim e hebraico. 

conta-se que em um sonho, um jovem trajado de brancoteria lhe aparecera e apresentou duas tabuletas, uma coberta de inscrições e a outra de figuras pintadas. A figura onírica, entendida pelo jovem como um anjo, teria dito: “Escolha aquela destas duas tabuletas que você deseja” (Coulianu, 1987), Trithemius escolheu aquela preenchida por inscrições, e o anjo lhedisse: “Deus ouviu suas orações e dará a você ambas as coisas que pediu e muito mais do que você está em posição de pedir”. O primeiro pedido do futuro abade era o de aprender tudo o que havia nas Sagradas Escrituras, porém o segundo pedido nunca foi tornado público. Quanto à segunda tabuleta, Couliano considera que ela premiaria o jovem Trithemius com as capacidades mnemônicas, às quais teriam se dedicado também Giordano Bruno (1548-1600) e Giambattista della Porta (1535-1615). Já a tabuleta escolhida teria lhe presenteado coma capacidade de saber tudo o que havia para ser sabido no mundo. Essa hipótese interpretativa de Couliano (1987) está amparada no profundo esforço que o futuro abade demonstrou por toda sua vida, seja na construção da biblioteca do monastério de Sponheim, famosa por sua riqueza literária, seja pelo seu ímpeto de leitor e de escritor, ou mesmo, pelo próprio projeto que embalou sua Steganographia.

A partir deste sonho epifânico, Trithemius iniciou sua jornada intelectual, primeiramente patrocinado por seu tio paterno, Peter Heidenberg. Começou sua alfabetização com um cura local. 
Quando ele tinha 17 anos, ele fugiu de sua casa e vagou em busca de bons professores. Partindo em sua peregrinatio academica, viajando, para Trier, Colonia, pela Holanda e pelos territórios alemães, até Heidelberg, onde teve seu primeiro contato com o Studium Generale (Mclean, 1982), que compreendia o trivium: gramática, retórica e dialética, e o quadrivium: aritmética, música, geometria, astronomia (Verger, 1999). Durante esse período, Trithemius travou contato e amizade com grandes nomes do humanismo alemão como Johann Von Dalberg (1455-1503), Conrad Celtis (1459-1508), Jacob Wimpfeling (1450-1528) e Johannes Reuchlin (1455-1522). Também foi ali que ele ajudou a fundar a Sociedade Renana de Literatura (Brann, 1998).

Viajando com um amigo da universidade de volta para sua cidade natal em 1482, ele foi surpreendido por uma nevasca e se refugiou na abadia beneditina de Sponheim, perto de Bad Kreuznach. Ele decidiu ficar e foi eleito abade em 1483, com a idade de 21 anos. Ele se propôs a transformar a abadia de um lugar negligenciado e indisciplinado em um centro de aprendizagem e conhecimento. 

Os relatos contam que o monastério estava em ruínas, e os monges entregues ao ócio. Em oito anos o jovem abade reerguer o monastério e aplicando com rigor a Regra de São Bento (Ora et labora). 

Para Trithemius, a vida de um monge deveria ser guiada pela leitura, meditação, oração e contemplação. Como ensejava a Regra de São Bento e desejava o próprio Trithemius, para aquele monastério. Ele restaurou e ampliou a biblioteca de St. Martin. Os registros do mosteiro mostra que por volta de 1483, ano em que Trithemius foi eleito abade, essa biblioteca contava com menos de cinquenta volumes, em 1502 o número de obras havia atingido mil seiscentos e quarenta e seis, e em 1505 já havia atingido aproximadamente dois mil volumes. Transformando o mosteiro em um ponto de peregrinação de humanistas e daqueles que desejavam conhecimento.

Ele frequentemente serviu como orador principal e secretário do capítulo no capítulo anual da Congregação Bursfelde de 1492 a 1503, a reunião anual de abades reformistas. Trithemius também supervisionou as visitas das abadias da Congregação.
 
Trithemius escreveu extensivamente como historiador, começando com uma crônica de Sponheim e culminando em uma obra de dois volumes sobre a história da Abadia de Hirsau. Seu trabalho foi distinguido pelo domínio da língua latina e pelo fraseado eloqüente. Embora pairem duvidas sobre a fidedignidade dos fatos por ele descrito.  

As regras de São Bento e as exigências de Treithemius levaram a divergência e a tensões crescentes entre o abade e os monges congregados. 

Nessa época Joaquim I Nestor eleitor de Brandenburgo (1484-1535) (Kurfürst von der Pfalz), marquês eleitor Palatino (da Marca de Brandemburgo ou marquezado de Brandemburgo) , convidou o abade para encontrá-lo em uma assembléia dos príncipes eleitores alemães, que se realizou naquele mesmo ano, em Colônia. No ano seguinte em 1506, Trithemius renunciou ao cargo de abade em Saint Martin, retornando à sua peregrinatio academica da juventude, passando boa parte do tempo em Berlim, como convidado de Joaquim de Brandemburgo. Ainda em 1506 ele aceitou a oferta do bispo de Würzburg, Lorenz von Bibra (bispo de 1495 a 1519), para se tornar o abade da Abadia de São Tiago (Jacob), o Schottenkloster (missões fundadas por monjes irlandeses e da costa oeste da Escócia, o novo posto de abade de St. Jacob, em Wurzburg, onde viveu até falecer em 1516 (Mendonça Jr, Brann, 1998).

Johannes Trithemius 

Trithemius foi sepultado na igreja desta abadia, uma lápide erigida em sua homenagem pelo famoso escultor e entalhador alemão Tilman Riemenschneider (ativo na transição do período gótico tardia e inicio do renasciemento). Em 1825, a lápide foi transferida para a igreja Neumünster, ao lado da catedral. Sendo danificada no bombardeio de 1945 e posteriormente restaurada pela oficina de Theodor Spiegel. 

Notavelmente, o polímata alemão, médico, estudioso do direito, soldado, teólogo e escritor ocultista Heinrich Cornelius Agrippa (1486–1535) e o médico, alquimista e astrólogo suíço Paracelso (1493–1541) estavam entre seus alunos.



Bibliografia



https://www.academia.edu/13352004/PART%C3%8DCIPES_DO_SEGREDO_O_ENCONTRO_DO_MAGUS_E_DO_SECRETARIUM_NAS_TRANSFORMA%C3%87%C3%95ES_DO_REGIMEN_MEDIEVAL


http://profs.sci.univr.it/~giaco/download/Watermarking-Obfuscation/Trithemius.pdf




BECKER, Udo. Dicionário de símbolos. São Paulo. Paulus, 1999.

CHEVALIER, Jean. Dicionário de símbolos (mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números). Rio de Janeiro, José Olympio, 1991.

FARIA, Ernesto. Vocabulário Latino. Belo Horizonte: Livraria Garnier, 2001.

Bibliograifa de Mendonça Jr. 

BORCHARDT, Frank L. The magus as Renaissance man.Sixteenth Century Journal,XXI,1 (1990), 57-56.

BRANN, Noel L. Trithemius and Magical Theology: A Chapter in the Controversy over Occult Studies in Early Modern Europe. State University of New York Press, 1998.

BURCKHARDT, Jacob. A cultura do Renascimento na Itália. Brasília: Ed. UnB, 1991. 

BURKE, Peter. Os usos da alfabetização no início da Itália moderna. In: BURKE,BURKE, Peter & PORTER, Roy (Orgs.). História social da linguagem. São Paulo:UNESP, 1997.

CLARK, Stuart. Pensando com demônios: a ideiade bruxaria no princípio da Europa Moderna. São Paulo: Edusp, 2006.

COULIANU, Ioan P. Eros and magic in the renaissance. University Of Chicago Press,1987.

DELUMEAU, Jean. A civilização do renascimento. V.II. Lisboa: Editorial Estampa,1983.

DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa: o sistema totêmico na Austrália. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

ELIADE, Mircea. Tratado de história das religiões. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1993.






Obras

Exhortationes ad monachos, 1486
De institutione vitae sacerdotalis, 1486
De regimine claustralium, 1486
De visitatione monachorum, about 1490
Catalogus illustrium virorum Germaniae, 1491–1495
De laude scriptorum manualium, 1492 (printed 1494) Zum Lob der Schreiber; Freunde Mainfränkischer Kunst and Geschichte e. V., Würzburg 1973, (Latin/German)
De viris illustribus ordinis sancti Benedicti, 1492
In laudem et commendatione Ruperti quondam abbatis Tuitiensis, 1492
De origine, progressu et laudibus ordinis fratrum Carmelitarum, 1492
Liber penthicus seu lugubris de statu et ruina ordinis monastici, 1493
De proprietate monachorum, before 1494
De vanitate et miseria humanae vitae, before 1494
Liber de scriptoribus ecclesiasticis, 1494
De laudibus sanctissimae matris Annae, 1494
De scriptoribus ecclesiasticis, 1494[13]
Chronicon Hirsaugiense, 1495–1503
Chronicon Sponheimense, c. 1495-1509, Chronik des Klosters Sponheim, 1024-1509; Eigenverlag Carl Velten, Bad Kreuznach 1969 (German)
De cura pastorali, 1496
De duodecim excidiis oberservantiae regularis, 1496
De triplici regione claustralium et spirituali exercitio monachorum, 1497
Steganographia, c. 1499
Chronicon successionis ducum Bavariae et comitum Palatinorum, c. 1500-1506
Nepiachus, 1507
De septem secundeis id est intelligentiis sive spiritibus orbes post deum moventibus, c. 1508[14] (The Seven Secondary Intelligences, 1508), a history of the world based on astrology;
Antipalus maleficiorum, 1508
Polygraphia, 1508
Annales Hirsaugienses, 1509–1514. The full title is Annales hirsaugiensis...complectens historiam Franciae et Germaniae, gesta imperatorum, regum, principum, episcoporum, abbatum, et illustrium virorum, Latin for "The Annals of Hirsau...including the history of France and Germany, the exploits of the emperors, kings, princes, bishops, abbots, and illustrious men". Hirsau was a monastery near Württemberg, whose abbot commissioned the work in 1495, but it took Trithemius until 1514 to finish the two-volume, 1,400-page work. It was first printed in 1690. Some consider this work to be one of the first humanist history books.
Compendium sive breviarium primi voluminis chronicarum sive annalium de origine regum et gentis Francorum, c. 1514
De origine gentis Francorum compendium, 1514 - An abridged history of the Franks / Johannes Trithemius; AQ-Verlag, Dudweiler 1987; ISBN 978-3-922441-52-6 (Latin/English)
Liber octo quaestionum, 1515

Johannes Trithemius (1462-1516) 






ARTIGO

A poligraphia de Johannes Trithemius: reflexões acerca das relações entre Esoterismo 
e política nos séculos XV e XVI.

Francisco de Paula Souza de Mendonça Júnior 
(Doutor em História e Culturas Políticas, Universidad Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Brasil, 2014. Codiretor do CEEO-UNASUR. Contato: kirijy@gmail.com)

Palavras-Chave 
Johannes Trithemius, Polygraphia, Comunicação Secreta, Esoterismo, Política 
Keywords 
Johannes Trithemius, Polygraphia, Secret Communication, Esotericism, Politics


Resumo 
Este artigo debate o papel que a concepção esotérica de segredo teve na construção dos métodos de comunicação cifrada, buscando compreender como a concepção de que o mundo estaria repleto de signos secretos da mensagem deixada pelo Criador à sua criação ajudou a estes homens a forjar seus métodos de comunicação secreta, e, mais do que isso, ajudou-os a perceber a dimensão secreta não só da linguagem como também da ação humana. Tal empreitada é realizada através da discussão da obra Polygraphia, de autoria do abade alemão Johannes Trithemius (1462-1516), mantendo diálogo com outras obras pertinentes. 

Abstract 
This article discusses the role the esoteric concept of secret had in the construction of encrypted communication methods. We seek to understand the concept that the world is full of secret signs of the message left by the Creator to help His men forge these methods of secret communication. Furthermore , this secret communication helped them become aware of the secret dimension not only of language but also of human action. Thus this paper has been written whilst discussing the opus Polygraphia, written by a German abbot, Johannes Trithemius (1462-1516), it also maintains a dialogue with other relevant works.


No ano de 1508, já haviam se passado cinquenta e quatro anos desde que Johannes Trithemius havia nascido no vale do Moselle. Desde que ele havia abraçado a vida monástica sobre as direções de São Bento haviam se completado vinte e seis anos, sendo que vinte e cinco deles ele ocupou a posição de abade. Boa parte de um pouco mais de meio século de vida Trithemius foi empregada na busca daquilo que lhe foi uma grande paixão: o conhecimento. Para tanto conseguiu ao longo de seu período como abade no monastério de Saint Martin, em Sponheim, construir uma biblioteca que chegou a possuir um acervo de cerca de 2000 volumes, por volta de 1502. Apresentando uma qualidade pouco recomendada a um monge, quanto mais a um abade, Trithemius falou dela sem muita preocupação em esconder o orgulho que possuía de seu feito: 

Nem vi em toda Germânia, nem ouvi tão rara, e tão prodigiosa Biblioteca, ainda que muitas tenha visto, onde seja tanta abundância de livros incomuns, em geral, mas raros, ocultos, secretos e prodigiosos e de tal natureza, qual fossem reencontrados com dificuldade em outro lugar1. 




Por um lado Trithemius seguia as prerrogativas da Regra de São Bento, conforme a qual os monges deveriam dedicar parte do seu tempo à leitura, o que implicaria que o abade mantivesse uma biblioteca dentro do monastério. Entretanto, por outro, tal exigência beneditina possibilitou que ele continuasse perseguindo um objetivo que o acompanhava desde a infância, obter conhecimento. Sua biblioteca refletia isso, ainda que os catálogos tardios tenham se perdido, as referências em suas obras demonstram que o abade teve acesso a um variado espectro de temas e autores, incluindo alguns que parecem um tanto inesperados em um primeiro olhar. Conforme rastreou Coulianu2 , Trithemius citou em seu Antipalus Maleficiorum, de 1508, diversas obras ligadas à magia e ao pensamento esotérico, como a Calvicula Salomonis, o Picatrix e o Sepher Raziel, dentre diversos outros. Isso nos parece um indicativo de que ele teve fácil acesso a estas obras, lembrando que seu Antipalus foi escrito após uma visita sua à biblioteca de Saint Martin. Antes de retornarmos à vida do abade no ano de 1508, recuemos por volta de dois anos. Trithemius vivia momentos terríveis em Sponheim. Se em 1483 começava uma fase emblemática na vida de Trithemius, o ano de 1506 trazia um ponto final, bem como um recomeço. Sua situação à frente do monastério de Saint Martin havia se tornado insustentável e após um ano primeiro na companhia dos príncipes palatinos em Colônia, e posteriormente na companhia de Joaquim de Brandenburgo em Berlim, Trithemius viu-se obrigado a renunciar ao seu posto de abade em Sponheim, abandonando assim o trabalho de uma vida. Essa tempestade havia começado ainda em 1499, quando um descaminho fez com que sua carta endereçada ao seu amigo Arnold Bostius caísse nas mãos do prior do monastério de Ghent, onde seu confrade3 residia. Tal missiva falava de sua famosa Steganographia, arte pela qual Trithemius prometia a comunicação secreta à longa distância por meio de espíritos 4.

Principiou-se aí sua fama de demonomago, alcunha que ainda hoje lhe é conferida por algumas penas. Sua renúncia, porém, não se deu em função de tal polêmica, mas sim em decorrência de seu atrito com os monges de seu antigo monastério. Estes acusavam o abade de exigi-los para além do devido em suas tarefas no scriptorium, dada a sua paixão desmedida pelos livros. Possivelmente pela perseguição tanto interna quanto externa, Trithemius decidiu partir de Sponheim, deixando para trás sua biblioteca adorada. Ainda em 1506 ele tornou-se abade do monastério de Saint Jacob, em Wurzburg, onde permaneceu até sua morte, ocorrida no ano de 1516. Retornemos ao ano de 1508 na vida de Trithemius. Já havia dois anos que ele fora forçado a trocar Sponheim por Wurzburg e somente naquele momento ele realizou a primeira das suas duas últimas visitas à biblioteca de Saint Martin. O agora abade de Saint Jacob tentou reaver algumas das obras que havia deixado para trás, ao menos aquelas em grego e hebraico, talvez as mais raras, porém estava velho e cansado demais para um recomeço. Contentou-se com duas visitas ao seu velho acervo, uma em 1508 e outra em 1515, já na soleira da morte. Trithemius não foi apenas um leitor ardoroso, mas também um escritor reconhecido entre os seus. Sua pena trilhou caminhos variados, da exortação aos escribas e a vida monástica aos temas esotéricos. Essa mudança na última porção da sua vida não esmoreceu seu ímpeto de escrever. Produziu em Wurzburg ao menos quatro de suas mais afamadas obras: o Liber Octo Quaestionum, o Antipalus Maleficiorum, o De Septem Secundeis e a Polygraphia. Obras de caráter variado, mas que dialogam com um tema em comum, a magia e a posição dos homens de poder ante a ela. Sua obra mais polêmica, a Steganographia, como já foi dito, tratava da comunicação secreta e Trithemius resolveu retornar a este tema na Polygraphia. Pretendemos agora refletir sobre esse retorno do abade de Saint Jacob ao tema que trouxe perseguição e calúnia para ele, mas que também o tornou um homem ilustre em seu tempo. O ano de 1508 foi aquele no qual Trithemius concluiu sua obra Polygraphia, ao menos seu manuscrito, porque sua primeira versão impressa surgiria apenas em julho de 1518, por Johannes Haselberg, um livreiro de Haia, nos Países Baixos. Em 1561 Jacques Kerveur imprimiria em Paris a primeira tradução da obra em língua vernácula, realizada para o francês por Gabriel Coulanges5 . Somente temos conhecimento das versões impressas da obra, não sabendo se uma versão manuscrita teria circulado e sobrevivido e, nesse caso, onde ela poderia se encontrar. A Polygraphia é composta de seis livros, mais a clavícula6. Cada um destes livros foi dedicado a uma técnica de comunicação secreta distinta, mas todas de alguma forma lidando com a ideia de cifragem por substituição, ou seja, os elementos da mensagem original são substituídos por outros, sendo a relação de substituição entre os elementos originais e os criptográficos de conhecimento apenas do autor da mensagem e do indivíduo a quem ela se endereça. Debrucemo-nos mais demoradamente sobre essa obra.


1. Nec vidi in tota Germania, neque esse audivi tam raram, tanque mirandam Bibliothecam, licet plures viderim, in qua sit librorum tanta copia non vulgarium, neque communium, sed rarorum, abditorum, secretorum mirandunque et talium, quales alibi vix reperiantur. Johannes Trithemius. Em: Ioan Coulianu, Eros and magic in the renaissance (Chicago: University Of Chicago Press, 1987), 166. [Tradução minha]. 
2. Coulianu, Eros and magic, 167. 
3. Juntamente com Bostius e Sebastian Brant (1457-1521), Trithemius fundou em 1497 a Fraternidade de Joaquim, cujo objetivo era defender a concepção imaculada da Virgem Maria por sua mãe, Sant'Ana. Coulianu, Eros and magic, 168
4. Noel L. Brann, Trithemius and Magical Theology: A Chapter in the Controversy over Occult Studies in Early Modern Europe (New York: State University of New York Press, 1999). 
5. Trabalhamos com digitalizações destas duas edições impressas, a latina e a francesa. 
6. A tradução para o francês consta apena de cinco livros, uma vez que o Gabriel Coulanges suprimiu o segundo livro do original latino.


Em busca de uma escrita mística, bela e secreta: 
A Polygraphia de Trithemius


No primeiro livro Trithemius apresenta trezentos e oitenta e seis colunas organizadas em pares, estando distribuídas em cento e noventa e duas páginas, totalizando nove mil, duzentos e sessenta e quatro vocábulos. Cada coluna é composta de vinte quatro letras, sendo a última o W ou duplo V, como nomeia o abade. A inserção do W no alfabeto latino adotado por Trithemius teve uma dupla justificativa: por um lado o abade afirmou que cada coluna deveria conter vinte e quatro letras para que o método fosse funcional, e por outro o W seria uma letra de uso recorrente na língua alemã, conforme informou o próprio Trithemius7 . Cada coluna era na verdade uma "dupla coluna", uma vez que continha a associação de uma letra (grammata) a uma palavra latina (paraphrasmata), indicando assim sua relação direta. A mensagem secreta deveria ser escrita da seguinte maneira: o operador deveria escolher a palavra mais apropriada de cada coluna, em sequência, de cada uma das trezentas e oitenta e seis colunas, retornando à primeira delas e repetindo o processo quantas vezes fossem necessárias. As letras (grammata) seriam escolhidas de forma que o texto original (mônada) pudesse ser desmembrado em outro (binário), por substituição de cada letra por seu equivalente na respectiva coluna. Em hipótese alguma ele deveria escolher mais de uma palavra por coluna ou mesmo saltar alguma coluna, pois se assim procedesse provocaria a falha de sua escrita secreta. Procedendo da maneira correta garantiria que a mônada, a mensagem secreta, fosse compatível com seu binário, a mensagem aberta. Caso observasse todas essas regras, este operador garantiria o sucesso da "operação cabalística", como classificou Trithemius8 . O abade descreve tal operação como uma forma da noite ocultar o dia, onde a primeira se refere ao binário e à segunda à mônada. Ele chega a alertar inclusive de que existe o risco das trevas noturnas dominarem o esforço dessa escrita secreta, mas que o homem realmente versado nessa arte é capaz de fazer que as luzes do dia iluminem as trevas, em qualquer que seja a situação9 . É recorrente essa associação entre trevas e segredo, bem como entre a luz e o mistério revelado. Em seu Magia Naturalis, Giambattista della Porta10 fala de formas de escrita invisível que somente seriam perceptíveis à noite. A associação soa um tanto óbvia, uma vez a noite traz consigo a diminuição ou ausência de luminosidade, e a consequente impossibilidade de se enxergar com clareza, porém tal relação vinda da pena de um homem como Trithemius tem mais significado. Lembre-se que o abade esteve envolvido com o pensamento esotérico que circulou nos séculos XV e XVI, logo a noite tornava-se mais significativa. Ela era o momento da observação astrológica, da realização dos rituais ou simplesmente onde estes homens poderiam encontrar a paz necessária para buscar a fagulha de divindade que repousava dentro deles, como proclamou o arauto hermético. Assim, a noite é o momento de lidar com o segredo, seja desvendando-o ou dando-lhe mais uma demão de sombra. Trithemius disse que o sucesso do método criptográfico proposto nesse primeiro livro se basearia não apenas na expertise do operador, mas também no cuidado deste em indicar ao seu destinatário, binário ou cabalístico, o método empregado. O abade aponta que sem uma chave que permitisse a adequada decriptação, a mensagem real ou mônada jamais poderia ser descoberta senão por aquele que a escreveu 11. Eis aqui mais uma vez manifesta o orgulho do abade, ainda que o tenha feito de forma oblíqua, pois ele acredita e afirma que seu método seria intransponível, a menos que o leitor dispusesse da correta relação entre grammata e paraphasmata. Na clavícula que Trithemius12 escreveu para esclarecer sua Polygraphia, muito provavelmente numa atitude que buscava evitar as polêmicas nas quais se envolveu em função de sua Steganographia, ele apresentou quinze regras para a boa e precisa operação do método proposto neste primeiro livro da Polygraphia. Em sua maioria elas repisavam ideias recorrentes, como o cuidado ao selecionar os paraphrasmata, que não se deveria escolher mais de um de cada coluna ou menos saltar colunas ao escolhê-los, enfim reforçava ideias já apresentadas ao leitor. Porém algumas dessas regras tratam de temas específicos, o que apresenta preocupações muito reveladoras por parte do abade. A oitava regra afirma que para a realização dessa "escrita mística" o autor deveria possuir uma cópia bem feita da Polygraphia. Já a décima segunda regra afirmava que dada à versatilidade deste método os reis e príncipes poderiam possuir formas de escrita secreta para cada um de seus comandados ou amigos, garantindo assim que os interesses reais pudessem ser mantidos em segredo mesmo quando o rei estivesse tratando com os seus homens de confiança. Na décima quarta regra Trithemius13 alegou que sua Polygraphia continha uma série de influências da medicina, da matemática e da astronomia, e mais do que isso, que ela estaria relacionada com os santos, todas as coisas visíveis e invisíveis, área de atuação da magia natural. O segundo livro da Polygraphia repetiu o mesmo método de escrita secreta, baseado na relação de transposição entre grammata e paraphrasmata 14, distribuídos ao longo de cento e cinquenta e três páginas, em trezentos e oito colunas, mais uma vez duas colunas por página, totalizando sete mil, trezentos e noventa e dois paraphrasmata. Este livro tem como peculiaridade ter sido suprimido da tradução francesa da Polygraphia. Este fato aparentemente banal e sem maior importância, pode na verdade ser revelador da forma como a obra foi recebida e quais intenções moveram Gabriel de Coulanges a traduzi-la. A grande originalidade do segundo livro foi Trithemius tê-lo composto de forma a aproveitar as palavras de importantes orações do universo católico. Conforme ele disse, não haveria uma forma mais discreta de enviar suas mensagens secretas

"Em uma única narração pode ser discernida [a] evidente diversidade que nasce de [uma] oração, desde que seja construída sobre nosso senhor filho de Deus, [e] esta em verdade seja elevada à mãe dele sempre intacta virgem. Estão, porém, no segundo livro trezentos e oito palavras do alfabeto pela ordem colocada à frente, também sobre diversas matérias. Com efeito, em princípio o discurso narrativo seja dirigido para a própria nossa senhora, depois seja ampliado sobre os vinte e quatro alfabetos da oração dominical, em seguida seja submetido à salvação angélica, consequentemente a Salve Rainha, e finalmente a breve oração da [Sant'] Anna, santa mãe da virgem Maria mãe de Deus15."


7. Gabriel Coulanges em sua tradução substituiu o W pelo &, que significaria "et". A justificativa permaneceu a mesma: a necessidade de vinte e quatro letras para o sucesso do método da Polygraphia e a recorrência do ''et" na língua francesa. 
8. Johannes Trithemius - Polygraphiae libri sex, Ioannis Trithemii Abbatis Peapolitani, quondam Spanheimensis, ad Maximilianum Caesarem (Oppenheim: Haselberg, 1518), 22-23. 9 Trithemius, Polygraphiae, 23.
10. Giambattista della Porta. Magiae naturalis, sive de miraculis rerum naturalium libri IIII (Antuerpiae: In aedibus Ioannis Steelsii, 1562), 51. 
11. Trithemius, Polygraphiae, 23. 
12. Trithemius, Polygraphiae, 524-528. 
13. Trithemius, Polygraphiae, 527.
14. Trithemius, Polygraphiae, 528. 
15. In sola narratione orationis menifeste diuersitas orta cernitur, quoniam illa de domino nostro Dei filio componitur, ista uero ad matrem eius sempre intactam uirginem eleuatur. Sunt autem in secundo libro dictionibus alphabeta per ordinem praeposita octo et trecenta, sub diuersis tamen materiis. Nam a principio narratio sermonis ad ipsam dominam nostram dirigitur, postea oratio Dominica sub alphabetis uigintiquatuor ampliatur, deinde saluatio subiicitur angélica, consequenter Salue Regina, et postremo breuis oratio de sancta matre uirginis Mariae dei parentis Anna. Trithemius, Polygraphiae, 528. [Tradução do autor do artigo].


Se o primeiro livro continha paraphrasmasta mais voltadas à composição de textos dedicados aos interesses mais imediatos da política, este segundo está voltado aos aspectos mais espirituais do mundo cristão. Assim estavam devidamente contemplados na Polygraphia tanto os interesses políticos do Trithemius sempre próximo dos príncipes do palatinado e interessado em fazer-se próximo ao imperador do Sacro Império RomanoGermânico, como também os interesses do abade Trithemius, conhecido exortador da reforma monástica e dos valores da vida monacal. Se assim os interesses do abade estavam contemplados, para Coulanges não se deu da mesma forma. Entendemos como plausíveis, e não excludentes entre si, duas explicações para que ele tenha suprimido o segundo livro de sua tradução. Em primeiro lugar esse livro não acrescentava nada de novo em termos de técnica de comunicação secreta, uma vez que era a repetição do que Trithemius havia proposto no primeiro, sendo provável que ele tenha considerado que seria melhor suprimilo a fim de não cansar o leitor com a repetição enfadonha de uma mesma técnica de escrita. Em segundo lugar, e o que consideramos mais decisivo em sua opção, tem-se aquilo que Trithemius via como um trunfo desse segundo livro, ou seja, o caráter essencialmente religioso dos paraphrasmata. A tradução para o francês foi oferecida a Carlos IX da França (1550-1574), o que fica claro na dedicatória da obra, onde ele elogia as qualidades do rei francês, que teriam sido compartilhadas pelo seu irmão, o então falecido Francisco II (1544-1560), bem como a utilidade dessa obra para as necessidades do monarca. A tradução foi publicada em 1561, ano em que foi Carlos foi coroado rei de França, com apenas onze anos. Entendemos que Gabriel Coulanges buscou ofertar ao jovem monarca um espelho de príncipe, a fim de ensinar ao jovem rei como utilizar o segredo a seu favor, bem como evitar que o mesmo segredo fosse utilizado contra ele. Desde o reinado de Francisco II a França se via envolta em conflitos religiosos, devido o crescimento do número de protestantes, especialmente na nobreza, e dos conflitos destes com os católicos. Parece-nos que Coulanges suprimiu o segundo livro da Polygraphia de sua tradução devido ao seu teor altamente relacionado com o culto católico. Buscava assim colocar a si e à sua obra fora desse conflito, o que poderia torná-los mais interessantes aos olhares da corte. O método apresentado no terceiro livro repetia os procedimentos já aplicados nos dois livros anteriores. Mais uma vez, a mensagem poderia ser decifrada pela identificação da correta relação entre paraphrasmata e grammata. Neste terceiro livro, que correspondeu ao segundo na tradução de Coulanges, os paraphrasmata foram organizados em três colunas por página, ao invés de duas, o que totalizou cento e trinta seis colunas, num total de três mil duzentos e sessenta e quatro vocábulos. Trithemius afirmou que tais vocábulos seriam oriundos de línguas bárbaras, mas tudo indica que sua composição foi aleatória. Eles são compostos de um radical que é invariável na mesma coluna e de um sufixo16 que se alterna vinte e quatro vezes, como se o radical fosse declinado. Segue abaixo um exemplo da aplicação deste método.

Abrin madon badis, cadulur pasu, adin loroff masara damis, boda omo dromi drus uares mastron pha lares medas rassut madebor tara, mesen baiu phosat, galos, prosol fane lemoros, aroso cabil neso, hamol heliet rhamil fesia doron hubur rodex. Nesta narrativa de [um] falso sermão está contida essa breve sentença dos amigos informantes do perigo ao amigo: Não venha à cúria, porque o rei está indignado contigo17.

O método apresentado no quarto livro é muito semelhante ao do terceiro livro. Mais uma vez os paraphrasmata foram organizados em três colunas por cada página, totalizando cento e dezoito colunas, dois mil oitocentos e trinta e dois paraphrasmata. Se nos livros anteriores da Polygraphia os grammata estavam representados numa coluna paralela a dos paraphrasmata, Trithemius propunha uma mudança. Agora os grammata já não mais estavam ao lado dos paraphrasmata, mas dentro deles, mais especificamente como sua segunda letra. Lembrando que permanece o aviso de que o uso ideal seria a escolha de um ou mais vocábulos por coluna, de forma sucessiva, utilizando quantas colunas forem necessárias, além de voltar ao começo delas se fosse preciso. Segue um exemplo de aplicação desse método.

Echorah hanasar dulay semalas, chorion suriel anephor schabaras, busarat uimaro tropon tumelech amasar. Para este intelecto secreto por todos os meios pegarei não mais que a segunda letra da dicção e descobrirás este sentido oculto, Evite este homem. Porque a segunda letra em Ecorach é c, em habasara a, em dulayu u, em semalas e. Junte estas quatro letras e farão a palavra, Cave [Evite] 18.

O método proposto por Trithemius em seu quinto livro é baseado no que ele nomeou como tábua reta, tábua inversa e tábua orquemática. Tais tábuas são compostas por vinte e quatro colunas e vinte e quatro linhas. A primeira posição é ocupada pela letra C, que funciona como um vértice do qual partem as demais linhas e colunas, para a tabela inversa a letra que ocupa essa função de vértice é a letra Y. Seguem as figuras que ilustram ambas tabulas.




16. Esse sufixo é composto por uma vogal e uma consoante, aparentemente escolhida por um processo que Trithemius chamou de orquemal, ou seja, elege-se uma sequência alfabética onde algumas letras são excluídas criando assim um "alfabeto alternativo". Por exemplo, a sequência da primeira coluna (abra, abre, abri, abro, abru, abras, abres, abris, abros, abrus, abran, abren, abrin, abron, abrun, abral, abrel, abril, abrol, abrul, abrax, abrex, abrix, abrox) segue essa lógica. O radical é abr-, as cinco vogais se alternam como uma espécie de elemento de ligação entre o radical e a consoante final, e as consoantes s,n,l e x também se alternam. Assim surgem vinte e quatro paraphrasmata distintos para as vinte e quatro grammata, conforme exige o método da Polygraphia.
17. Abrin madon badis, cadulur pasu, adin loroff masara damis, boda omo dromi drus uares mastron pha lares medas rassut madebor tara, mesen baiu phosat, galos, prosol fane lemoros, aroso cabil neso, hamol heliet rhamil fesia doron hubur rodex. In hac narratione ficti sermonis haec breuis arcani sententia continetur amici de periculo auisantis amicum. Non uenias ad curiam, quia rex tibi indignatur. Trithemius, Polygraphiae, 530. [Tradução minha]. 18 Echorah hanasar dulay semalas, chorion suriel anephor schabaras, busarat uimaro tropon tumelech amasar. Pro huius intellectu mysterii de qualibet dictione secundam duntaxat literam accipito et inuenies hunc sensum latentem, Caue hunc uirum. Nam secunda litera in Ecorach est c, in habasara a, in dulayu u, in semalas e. coniunge has quatuor literas et facient hoc uerbum, Caue. Trithemius, Polygraphiae., 531. [Tradução autor do artigo].

O método de aplicação de tais tabelas é simples: se escreve uma coluna à esquerda em vermelho, contendo os vinte e quatro caracteres do alfabeto e outra à direita em negro, onde se deslocam em algumas unidades os caracteres do alfabeto. Estando assim grammata à esquerda e paraphrasmata à direita. 


É possível que as cores vermelha e negra escolhidas para as colunas sejam alusões ao dia e á noite, metáfora utilizada por Trithemius na obra para identificar a mensagem aberta e a mensagem criptografada. Por exemplo, tem-se A=B, B=C, D=E, e assim por diante. As possibilidades são muito grandes, considerando que a equivalência pode ser feita começando de qualquer letra do alfabeto. A única regra é que quando as letras coincidirem, a da coluna em vermelho com a da coluna em negro, elas devem ser eliminadas, para garantir o segredo da mensagem19. 


Neste mesmo livro Trithemius também apresentou o que ele chamou de tábua orquemal, onde demonstrava mais um uso para a transposição via tábua reta ou inversa. Se nas tábuas reta e inversa se tratou de escolher uma letra pela qual começar a compor as colunas de equivalência, nessa tábua o abade ousou um pouco mais. Ele passou a agrupar os paraphrasmata em relação aos grammata ampliando o deslocamento entre um e outro através de um valor fixo. Não mais se tratava de deslocar os elementos da coluna em negro em uma posição em relação à coluna em vermelho, ele criou relações específicas para cada coluna. Como se pode ver na figura 3, Trithemius fez com que a primeira coluna em negro fosse escrita começando pelas letras "pares" e depois pelas "ímpares"; na segunda coluna elas foram escolhidas em intervalos de quatro posições a partir da letra Y, numa espécie de progressão aritmética; a última coluna começou com a letra O e seguiu o alfabeto até completar as vinte e quatro posições, e assim por diante. Trithemius propunha um sistema de comunicação secreta que buscava ser versátil e intransponível uma vez que o leitor não possuísse acesso à chave de leitura correta.

Fonte: Trithemius, Polygraphiae, 480.

Trithemius definiu o orchema como a operação onde não apenas ocorria a transposição de letras, mas também um salto. De origem grega, língua que fascinou a Trithemius, orchema teria como equivalência no latim a palavra transilitio, ação de passar ou de saltar por cima de algo, neste caso de algumas letras. Para o abade a comunicação secreta por meio dos orchema seria a mais segura de todas, além da mais versátil também20. Fica cada vez mais claro que a Polygraphia possui uma ampla dependência do pensamento matemático, uma vez que está amplamente baseada em transposições e progressões aritméticas. Os séculos XV e XVI, tão marcados pelo redescoberta dos grandes autores da Antiguidade, também foram o palco da renovação do pensamento matemático, onde a abstração matemática passava a conviver com sua aplicação prática nos esforços de percepção do mundo sensível21. Senhor de uma imensa biblioteca, além de estar em contato com homens que viajaram para a Itália a fim de colocar-se em contato com as ideias que floresciam em Florença, como fizera seu amigo Johannes Reuchlin, Trithemius22 também reconheceu o valor da matemática, percebendo nela uma das grandes ferramentas para o indivíduo desejoso de dominar a arte proposta na Polygraphia. 

No sexto e último livro Trithemius mostrou-se mais abertamente envolvido com temas de natureza esotérica. Ele partiu dos temas caros aos iniciados para buscar formas de comunicação secreta. Como primeiro tópico o abade debruçou-se sobre a astrologia. Segundo ele, os astros governariam o mundo dos homens por meio de suas influências astrais, o spiritus do qual tratou Ficino, se revezando no período de "trezentos e cinquenta e quatro anos lunares23, igualmente quatro meses, e ainda o mesmo número de dias e horas24". O tema do governo astral é recorrente na obra do abade. Em 1499 ele já havia tratado disso em sua Steganographia, e em 1508 retornou a ele, de forma mais leve em sua Polygraphia e depois escreveu uma obra dedicada exclusivamente ao tema, o De Septem Secundeis. 

Ao tratar do tema na Polygraphia, Trithemius colocou-se num ponto intermediário entre o que fez na Steganographia e o que faria no De Septem Secundeis. Se na primeira não esmiuçou a relação entre o governo dos astros e o mundo dos homens e na última desfiou cada conta desse rosário, na Polygraphia buscou apresentar uma síntese dessa sucessão planetária no governo universal, apontando as consequências dessas influências para a história da humanidade. O primeiro planeta a governar foi Saturno, seguido por Vênus, Júpiter e Mercúrio. É interessante que Marte tenha ficado de fora de sua síntese. O planeta era conhecido à época e Trithemius tratou dele e de suas influências na Steganographia25, ao falar da perfeita conjunção astrológica para que se realizasse o aprendizado da Steganographia, e em seu De Septem Secundeis, ao tratar das influências deste astro, transmitidas e operadas por seu anjo, Samael. Ao excluir Marte, possivelmente Trithemius optou por não tratar de assuntos bélicos, temática associada ao planeta vermelho. Elemento importante dessa concepção de um governo planetário é a ideia que tal governo ocorreria por meio da ação de anjos associados a cada um destes planetas. Estes "anjos-planetários" seriam simultaneamente personificações da influência planetária, bem como agentes dessa mesma influência. Essa percepção remete à concepção do daimon hermético, figura importante na composição da imagem angélica no século XV 26.


Trithemius começou essa síntese por Saturno. Sob o domínio deste astro, exercido por meio de seu anjo Orifiel, os homens teriam se tornado agricultores, caçadores, fundadores de cidades, e também rudes, silvestres, tristes e simples. Além disso, ter-se-iam mantido por toda a vida incultos e guiados unicamente pelos anseios da carne. O governo de Saturno e Orifiel foi substituído pelo governo de Vênus e de seu anjo Anael. Sob essa influência os homens se tornaram cultivadores e construtores de casas. Também seria durante esse período que teriam florescido diversas artes manuais, como a tecelagem e o lanifício. Os homens sob a atuação de Anael se tornaram ainda mais submissos à carne e à volúpia, e por isso resolveram tomar "belas esposas", com as quais tiveram muitos filhos. Também criaram jogos, cantigas, o canto e a cítara, o que mostrava também outra forma de apego à carne, de acordo com Trithemius. O terceiro planeta a governar foi Júpiter, também conhecido como Jove, e seu anjo Zachariel. Sob essa influência os homens teriam se tornado "inquietos de desejo" e mais dedicados à caça. Nesse período teriam começado a construir tendas e a se adornar com vestimentas variadas. Durante o reinado de Júpiter Trithemius afirma que teria sido maior o prejuízo para o reino de Deus, ocorrendo uma maior divisão entre os homens bons e os homens maus, entre aqueles que invocam a Deus e aqueles que estão presos ao mundo e à carne. A morte de Adão teria ocorrido nesse momento, como marca dessa crise. 

O último governo planetário de que tratou Trithemius em sua Polygraphia foi o de Mercúrio e seu anjo Raphael, que teria começado no mês de fevereiro de 1055 e terminado em 1410. Este período guardou um momento de virada para a humanidade, uma vez que foi quando a literatura teria surgido. Trithemius afirmou que as primeiras letras teriam sido criadas a partir da observação de plantas, árvores e animais, possibilitando assim que alcançassem sua grande diversidade, além de permitir que o mundo se "ornasse de mais civilidade". Patrono dos poetas, Mercúrio por meio de Raphael ainda esconderia em suas fábulas promessas secretas. Essa ideia remete diretamente à concepção de segredo presente no pensamento de Trithemius, onde a comunicação escrita é capaz de ocultar segredos em seu bojo. 

A criação das letras e da literatura marcaria também o fim do domínio da carne e da volúpia sobre os homens. O abade viveria sobre o próximo governo planetário, regido por Samael. Como apontou Trithemius27 em seu De Septem Secundeis se tratava do terceiro período de Samael. No primeiro havia ocorrido o dilúvio, no segundo houve a ruína de Tróia, assim surgia no horizonte a sombra da tragédia. Conforme Trithemius, no ano de 1508 restavam ainda dezessete anos da influência de Marte para afligir o reinado de Maximiliano I, e um dos objetivos de seu De Septem Secundeis foi instruir o imperador dos perigos representados pelas influências astrais, numa concepção de que a história é mestra da vida, logo o passado prepararia para enfrentar o presente por meio de seu exemplo.


19. Trithemius, Polygraphiae, 466-479.
20. Trithemius, Polygraphiae, 533-534. 
21. Eugenio Garin, Ciência e vida civil no Renascimento italiano (São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1996). 
22. Trithemius, Polygraphiae, 481. 23 Como ficará claro no De Septem Secundeis, Trithemius utilizou duas marcações de tempo: os anos lunares e os anos do Senhor. O primeiro serviria para marcar eventos desde o começo dos tempos, como a sucessão angélica, e o segundo a história propriamente cristã. 
24. annis lunaribus trecentis quinquaginta quatuor, mensibus item quatuor, ac diebus horisque totidem Trithemius, Polygraphiae, 486. [Tradução minha]. 
25. Trithemius, Polygraphiae, 157-158. 26 Bruce Gordon, The renaissance angel, em Peter Marshall e Alexandra Walsham orgs., Angels in the early modern world (Cambridge: Cambridge University Press, 2006).




Após essa síntese sobre a influência planetária ao longo da história humana, Trithemius retornou à comunicação secreta. Não existe um método proposto neste último livro que difira do que foi proposto nos demais livros, prevalecendo a regra geral da transposição entre paraphrasmata e grammata para se realizar a comunicação secreta. O que chama a atenção nesse livro é a variedade de alfabetos propostos, todos seguindo a regra de conterem vinte e quatro letras. Estes alfabetos mesclavam caracteres gregos e latinos, o que pode ser percebido mesmo naqueles que parecem inventados unicamente para o propósito da Polygraphia. 

Ao apresentar o alfabeto que Honório Tebano, autor medieval relacionado à magia e a quem se atribui a autoria do Liber iuratus, Trithemius mostrou ideias interessantes. Primeiramente classifica tal alfabeto como parte de um conjunto de "tolices mágicas", porém ressaltou que o "ministério" de Honório Tebano estaria "escondido" em tais tolices. Trithemius teve acesso a tal alfabeto pelo trabalho de Petrus de Apono ou Pietro d'Abano autor do Heptameron, clara influência do De Septem Secundeis de Trithemius, bem como fonte da ideia de que o universo seria regido pela sucessão dos sete anjos-planetários presente na obra do abade alemão. Essa referência pode ser compreendida como uma crítica, mas entendemos como uma referência positiva. Se Honório ocultou seu conhecimento em "magicis fatuitates" assim também o teria feito Trithemius, e pensamos que a ideia aqui não é detratar a magia simplesmente, mas mostrar que em seu interior pode repousar conhecimento verdadeiro. Continuando, Trithemius se apoia em um autor que considera e estima, Pietro d'Abano, para tratar do alfabeto de Honório Tebano. E, mais uma vez a erudição de Trithemius acerca de temas esotéricos transborda, mesmo na Polygraphia, sua obra "livre dos equívocos da fé"28.


27. Johannes Trithemius, Traité des causes secondes: précédé d'une vie de l'auteur, d'une bibliographie et d'une préface, et accompagné de notes (Paris: Chamuel Éditeur, 1897), 145-147. 
28. Trithemius, Polygraphiae, 498.


Ao apresentar um alfabeto dedicado à alquimia, Trithemius aproveitou a chance para esclarecer sua opinião acerca desta disciplina. Como já havia alertado ao seu discípulo Johann Steinmoel 29, seria pecado se valer dos conhecimentos relativos à Ars Magna para obter facilidades na vida, como o enriquecimento sem esforço. Para Trithemius30 se envolver com a alquimia resultava em ruína física, moral e espiritual, devido à sua natureza traiçoeira. Nas palavras do abade ela prometia amar a muitos, porém mantinha-se casta. Esta amante ardilosa levava os incautos aos erros da mentira, vaidade e lascívia, resultando em desespero, pobreza e mendicidade. Assim sendo, a casta meretrix deveria ser evitada a todo custo, preservando assim os conhecimentos esotéricos para que sirvam de instrumentos da vontade do Senhor.

29. Brann, Trithemius and magical theology, 103-104. 
30. Trithemius, Polygraphiae, 499.


Considerações finais Em sua Steganographia e novamente em sua Polygraphia, Trithemius buscou mostrar que o uso de formas de escrita secreta ocorria desde a Antiguidade, encontrando nele mesmo um representante deste esforço antigo. Ele traça uma genealogia da comunicação secreta passando por grandes figuras históricas que trataram do tema, como César, Arquimedes, Cícero, Carlos Magno, Beda, Mathias Corvino, Pitágoras. Dessa forma, associados à comunicação secreta estavam imperadores, matemáticos, monges e reis que aplicaram a magia como ferramenta em seu reinado. E ele se colocava como sucessor legítimo destes homens, o herdeiro deste legado secreto. E tais personagens, assim como o próprio abade, se debruçaram sobre o tema da comunicação secreta com o objetivo de obter meios que os permitissem proteger seus assuntos dos olhares dos curiosos e dos inimigos, que poderiam agir como verdadeiros demônios31. Ante uma ameaça tão grande contra os interesses do príncipe, Trithemius buscou ofertar uma ferramenta à altura da necessidade. Assim, sua Polygraphia seria capaz de tratar, de forma secreta e segura, dos mais variados temas que o bom governo exigia, versando sobre os quatro elementos, os rios, o reino vegetal, história e fábula, existência e inexistência, os homens e as bestas, o singular e o universal, tudo isso com honestidade e discrição32. A capacidade do método proposto na Polygraphia seria tal que Trithemius chegou a afirmar: "Quem poderá enumerar as gotas do mar? E quem penetrará o inescrutável coração do homem?" 33. A resposta que ele daria a sua própria indagação é simples: o indivíduo que dominasse aquilo que ele propôs em sua obra.

31. Trithemius, Polygraphiae, 11. 
32. Trithemius, Polygraphiae, 220. 
33. Guttas maris dinumerare quis poterit? Et cor hominis inscrutabile quis penetrabit? Trithemius, Polygraphiae, 221. [Tradução minha].

Existe uma intenção central na obra de Trithemius em ajudar o homem bom a se defender do homem mau. É uma ideia que já estava presente na justificativa da criação da Steganographia 34, e que volta ao cerne da motivação para a Polygraphia.


A real matéria à qual tratamos na Polygraphia, para a conveniência da coisa pública entre os homens bons é muito boa, útil e honesta, que portanto alistamos [uma] persuadida causa racional, a fim de que restituíssemos [os] homens bons em seus segredos, [que] um para o outro sejam anunciados todos os ministérios deles e seguros da investigação dos depravados. Em verdade nem os depravados assim como os perversos, que frequentemente também abusam das boas invenções, [mesmo] que fosse apresentada a ocasião que hão de ser enganados os mais simples, e menos cautelosos na apreciação das coisas, transmitimos modos místicos ou ocultos no qual há de ser escrito, oculto à qual a verdade envolta na medula escondemos na forma [de] algumas coisas35.

Embalado pelo desejo de evitar os olhares indesejados dos homens maus, capazes de utilizar sua arte para a ruína do bem comum, Trithemius uma vez mais teria recorrido aos escritos enigmáticos para proteger seu método do risco de cair em mãos erradas: "Sejam ocultados sob os mistérios enigmáticos: nem [os] bacuceus façam de qualquer modo manifestos os segredos das corujas" 36. Porém, após todos os problemas que teve principalmente devido às acusações de Bovillus, o abade se preocupou em esclarecer ao leitor de suas reais intenções. Assim explica que toda a obscuridade que possa ser encontrada na Polygraphia seria uma forma de buscar garantir que o homem mau não a compreendesse, salvaguardando assim os interesses do homem bom, que coincidiam com a manutenção do bem comum. Trithemius afirmou ainda que toda acusação contra sua obra nada mais seria do que a prova da ignorância do leitor, que incapaz de compreender a essência do que ali era proposto acusava-lhe injustamente. Assim, Trithemius se defendia ao mesmo tempo em que desqualificava seus detratores, da mesma maneira que respondeu à Bovillus. Como complemento a esse discurso de defesa, Trithemius ainda compôs um autorretrato que corroborava sua argumentação.

34. Johannes Trithemius, Steganographie: Ars per occultam Scripturam animi sui voluntatem absentibus aperiendi certu (4to, Darmst. 1621), 3. 
35. Materia uero quam in polygraphia tractamus, ad reipublicae commodum inter uiros bonos multum est bona, utilis et honesta, quam idcirco rationabili causa persuasi conscripsimus, ut eius ministerio bonos homines in suis arcanis alterutrum nunciandis tutos et securos a prauorum inuestigatione redderemus. Verum ne prauis atquae peruersis, qui bonis etiam frequentius abutuntur inuentis, occasio praeberetur decipiendi simpliciores, minusquae cautos in aestimationem rerum, modos in ea scribendi mysticos tradidimus siue occultos, latentem quae in medulla ueritatem tegumentis quibusdam operuimus figurarum. Trithemius, Polygraphiae, 516. [Tradução minha]. 
36. Celantur sub aenygmatibus mysteria: ne bacuceis fiant bubonum arcana quomodolibet manifesta Trithemius, Polygraphiae, 16. [Tradução minha].


Sou com efeito cristão, sou presbítero sob a norma do divino pai [São] Bento e monge: eu amo a Cristo, e já que posso com sinceridade de mente adoro sempre devoto: não existem para mim, não existiram, e [por] Deus protetor não existirão comércios com demônios: nenhuma em magia, necromancia, ou estudos em arte profana: não [existem] ocupações, não [existem] documentos. Quem sobre mim sente de outro modo, sente mal, faz injúria, e defende [em] aberto a mentira de Bovillus 37.


O discurso que Trithemius teceu para se defender não dialoga bem com aquilo que na prática apresentou em sua vida. Ele afirma que não possui nenhuma relação com "documentos de magia" quando em sua biblioteca em Sponheim havia vários livros acerca do tema, e ele mesmo escreveu obras de cunho mágico, como o De Septem Secundeis. Além de sua inteiração com importantes nomes do esoterismo de sua época, como Cornelius Agrippa. Acreditamos que ao escrever essa defesa, o abade tivesse em mente expressamente a acusação que sofreu de Bovillus, a de ser um demonomago. Havia nos séculos XV e XVI uma percepção que diferenciava a magia natural e a demonomagia. Homens como Ficino, Pico e Girolamo Cardano38 viam a magia natural como honesta e pia, uma forma legítima de entrar em contato com o mundo natural e por meio dele obter contato com o Criador, influencia oriunda da cabala e do hermetismo. Porém, estes mesmos homens viam com horror e repúdio o comércio com espíritos malignos, ligando tal prática à superstição e à ignorância. Trithemius pensava da mesma forma. Exortou Maximiliano I a combater as feiticeiras e dedicou ao mesmo algumas obras de magia. Portanto, acreditamos que sua defesa se alicerce na refutação de seu comércio com espíritos malignos, e não em uma negação em relação à magia. Nas páginas de sua obra o abade teria tratado apenas com anjos, prática que não agredia a ortodoxia católica da época. De fato, era um momento no qual florescia o culto angélico. Dessa forma, ele negava praticar a magia de uma forma negativa, voltada à demonomagia e à necromancia, mas não a negava a Ars Notoria propriamente. Por mais que o abade tenha insistido que sua Polygraphia era uma obra totalmente desvinculada da magia, vários conceitos de origem mágica permeiam-na. O conceito matemático da mônada, o um indivisível, era percebida na época como uma ideia carregada de noções místicas, que dialogavam diretamente com o hermetismo, por exemplo, onde existe a ideia de que todo o mundo criado se origina e retorna ao Criador, o que formaria assim um conjunto único e indivisível.

37. Sum etenim christianus, sum presbyter sub norma divi patris Benedicit et monachus: christum diligo, : nulla mihi sunt, nulla fuerunt, et protectore deo nulla erunt cum daemonibus commertia: nulla in magicis, necromanticis, seu profanis artibus studia: nullae occupationes, nulla documenta. Qui de me aliter sentit, male sentit, iniuriam facit, et apertum Bouilli mendacium defendit. Trithemius, Polygraphiae..., p.16. [Tradução minha]. 
38. Stuart Clark, Pensando com demônios: a ideia de bruxaria no princípio da Europa Moderna (São Paulo: Edusp, 2006).

O conteúdo esotérico no texto de Trithemius não é uma finalidade, mas na verdade um instrumento. Ao menos parte de sua vida adulta o abade viveu em contato com o imperador e os príncipes eleitores, e foram frequentes seus esforços em oferecer-lhes instrumentos e conhecimentos que lhes fossem úteis para a prática do bom governo, sendo a Polygraphia mais um desses esforços. Dedicada a Maximiliano I, a quem Trithemius39 chamou de "imperador do mundo", a Polygraphia tinha claro o objetivo de oferecer aos homens bons um instrumento por meio do qual pudessem comunicar seus assuntos reservados aos amigos, de forma discreta e segura. Para Trithemius os homens bons poderiam estar entre os laicos ou os clérigos, mas principalmente entre reis e príncipes, homens que ele entendia como mais capazes de atuar para salvaguardar os interesses da cristandade40. Dada a missão que percebia atribuída ao imperador, salvaguardar o bem comum dos perigos causados pelos homens maus, Trithemius buscou oferecer uma ferramenta que julgou como a mais adequada para tal missão.

Donde seja necessário teu governo ó gloriosíssimo César Maximiliano, assim como vestir a pele hercúlea, e vibres a clava nas mãos, e foi dado a ti por Deus o empreendimento de purgar o mundo destes monstros [que o] assolam. Nunca existirá paz no reino [a menos que] sejam suprimidos os bacuceus do meio. Que perturbam a paz do reino, se esse reino demonstra [ter] inimigo. Estes são ladrões que assediam os caminhos itinerantes, pilham outros, dos quais hoje a terra está cheia, e jamais é segura a caminhada na estrada41.

Após todas essas considerações é o momento de retornar ao ano de 1508. Trithemius estava se estabelecendo em Wurzburg, como abade do monastério Saint Jacob. Era um homem experimentado, que já havia vivido muita coisa. Há longos quatro anos vinha se defendendo da acusação de Bovilus, que ainda que não tenha resultado em problemas com a Igreja, havia maculado sua reputação com a mancha da demonomagia. Era nessa altura um abade respeitado, um reconhecido exortador dos valores da vida monástica. Porém, estava acostumado à vida nas cortes, por mais que isso não condiga com sua condição de monge. Era próximo o bastante de Maximiliano I para escrever-lhe sobre variados assuntos, desde genealogia a combate às feiticeiras. Quando acusado de ter fraudado uma genealogia para agradar ao imperador, Trithemius viu-se livre de maiores incômodos, graças à intervenção do monarca. Quando sua relação com os monges de Saint Martin atingiu uma crise sem volta, foi entre os príncipes palatinos que ele encontrou abrigo e a posição de abade em Wurzburg. Por um lado, em 1508 Trithemius se via recomeçando sua trajetória como homem da Igreja, mas por outro lado viu sua relação com o imperador e os príncipes eleitores consolidada.

39. Trithemius, Polygraphiae, 516. 
40. Trithemius, Polygraphiae, 517. 
41. Unde foret necessarium reipubliçe tuae o gloriosissime Caesar Maximiliane, ut pellem indueres herculeam, clauamquae uibrares in manibus, et seuis his monstris orbem tibi a deo purgares commissum. Numquam pax erit in regno nisi bacucei tollantur e medio. Qui regni pacem turbat, se hostem esse regnis demonstrat. Hi sunt latrones qui uias itinerantium obsident, rapiunt aliena, quibus hodie plena est terra, et nunquam tuta est ambulantibus uia. Trithemius, Polygraphiae, 522. [Tradução minha].  


O ano de 1508 também teve outros significados para Trithemius. Foi o ano em que revisitou a biblioteca que ajudou a construir em Sponheim, e após esse reencontro escreveu obras marcantes sobre temas relativos à magia e à feitiçaria. Nessa fase de sua vida seu pensamento foi particularmente influenciado pelo Heptameron de Pietro d'Abano. Escreveu acerca da influência dos planetas no destino da humanidade, mais especificamente como os anjos associados a cada um dos planetas agia o spiritus destes astros sobre a vida dos homens. Conforme escreveu no seu De Septem Secundeis, o ano de 1508 estaria dentro do período regido por Marte, quando atuaria o anjo Samael pela terceira vez desde o princípio dos tempos. Cada período sob os auspícios de Samael teria sido marcado por uma grande tragédia, capaz mesmo de alterar os caminhos da humanidade. E, ao que tudo indica, Trithemius estava particularmente preocupado com isso.

Maximiliano I também vivia um ano especial em 1508. Apesar de estar no poder desde a morte de Frederico III, em 1493, somente quinze anos depois ele foi entronizado imperador do Sacro Império-Romano Germânico. E não foi gratuita a preocupação de Trithemius com as influências perigosas que vinham com Samael. Todo o governo de Maximiliano estava sob a influência de Marte, cujo terceiro ciclo havia iniciado em 1525. Conforme suas obras indicam, Trithemius esperava por uma mudança drástica no mundo que conhecia. No De Septem Secundeis chegou mesmo a falar que nasceria uma nova religião, remetendo ao sempre assustador tema do cisma e da queda da Igreja Romana. Mas o seu verdadeiro temor estava direcionado aos descaminhos que poderiam se abater sobre o imperador. É interessante que não mencione o papa, num ambiente de concorrência política entre Império e Papado. Porém, não pode sumir das vistas a proximidade entre Trithemius e Maximiliano I, bem como dos demais príncipes eleitores. Seja pela proximidade ou pelo fato de viver em territórios alemães, a queda do imperador e de suas cortes teria um efeito nefasto mais imediato nas ambições de Trithemius. Ele se encontrava distante do papa, mas suficientemente próximo do imperador e dos príncipes alemães para que isso lhe proporcionasse bons frutos, como proteção nas muitas polêmicas nas quais se envolveu ou mesmo o providencial cargo de abade em Wurzburg, em 1506.

Em 1508 Trithemius era um homem em um recomeço, seria desastroso que perdesse o apoio imperial ou dos príncipes em consequência da presença de Samael. Sendo assim, retomou seus esforços de fornecer meios para que estes príncipes pudessem enfrentar os tempos difíceis que ele acreditava estarem se aproximando. Desde a Steganographia ele acreditava que a comunicação secreta era a maneira mais eficaz de se evitar que os esforços dos homens maus prevalecessem sobre os interesses dos homens bons, ou melhor, as reviravoltas da Fortuna, causando o caos no reino e o prejuízo do bem comum. Nove anos após sua primeira empreitada na comunicação secreta, o abade retomou o tema, buscando livrar-se das polêmicas que macularam sua obra anterior, mas sem abandonar os conceitos que ajudaram em sua composição. O homem que escreveu a Polygraphia buscava ofertar a Maximiliano I uma ferramenta por meio da qual pudesse manter suas ações e interesses fora do alcance dos bacuceus, numa visão que demonizava os homens que perniciosamente atentavam contra o bem-comum. Se o De Septem Secundeis foi uma tentativa de alertar para os perigos de Samael e das demais influências planetárias pela descrição histórica dessa atuação, a Polygraphia foi um esforço de se evitar tais influências perigosas, ou melhor, de domá-las, numa atitude típica dos homens influenciados pelas ideias que floresciam na Itália do século XIV e que se espalhavam pela Europa.

Por meio de sua Polygraphia, Trithemius buscou que o segredo fosse utilizado como ferramenta de defesa dos interesses do imperador e dos príncipes, instrumentalizando o saber esotérico numa ferramenta política contra a ameaça das mudanças políticas que ele acreditava que seriam trazidas por Samael, anjo de Marte. Instrumento para a salvaguarda e garantia do bem comum, caso a Polygraphia e seus métodos de comunicação secreta garantissem que os interesses e o poder do imperador e seus príncipes fossem protegidos, Trithemius também resguardava a proteção que recebia desses. Conhecedor dos perigos que a Fortuna traz em seus descaminhos e antevendo uma mudança de consequências imprevisíveis, Trithemius buscou instrumentalizar os indivíduos que por várias vezes lhe haviam garantido providencial apoio. Certa vez o abade disse que os segredos ordinários cabiam apenas aos amigos ordinários e os segredos importantes aos amigos importantes, pois o homem que Trithemius era em 1508 mais do que nunca se viu interessado em proteger e manter-se próximo dos amigos importantes.


Fontes Primárias 

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Della Porta, Giambattista. Magiae naturalis, sive de miraculis rerum naturalium libri IIII. Antuerpiae: In aedibus Ioannis Steelsii, 1562. 

São Bento. Regra de São Bento. Rio de Janeiro: Edições Lumen Christi, 1992. 

Trithemius, Johannes. Polygraphiae libri sex, Ioannis Trithemii Abbatis Peapolitani, quondam Spanheimensis, ad Maximilianum Caesarem. Oppenheim: Haselberg, 1518. 

Trithemius, Johannes. Polygraphie et universelle escriture cabalistique de MJ Trithéme Abbé. Paris: Jacques Kerver Imprimeur, 1561. 

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Trithemius, Johannes. The steganographia of Johannes Trithemius. Edinburgh: Magnum Opus Hermetic Sourcebook, 1982. 

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Escólios 




Criptografia

 
A chart from Steganographia copied by Dr John Dee in 1591




Background


Encryption has its roots in mathematics and the history of encryption stretches back to the Greeks where the Greeks, when wanting to convey secret messages would shave their heads, write the message and allow the hair to grow back. The word 'encryption' comes from the Greek word 'crypto' meaning 'hidden'.

Encryption has been applied in many forms:
  • Transposition - rearranging text
  • Substitution - changing the text, code
  • Cipher - moving letters, a Crib is cipher text turned into plain text, an example is a mono-alphabetic cypher (Caesar cypher) where the decryption key is the number of alphabet places moved.
  • Polyalphabetic - having many cipher alphabets for each message
  • Digraph - cipher of pairs of letters that are common
  • Nomenclature - substituting letters and words
  • One way pad - where a random key is used per sheet of a pad containing hundreds of sheets and both sender and receiver have the same pad.

Polybius Square


A classic cypher is the Polybius Square where arbitrary numbers are assigned to rows and columns of a 5 x 5 square. The English alphabet is then entered into the cells with the letters 'I' and 'J' occupying the same cell:


A word such as 'HELLO' is then given by the code 34 96 48 48 18. The problem with this type of cypher is that the same code is used for the same character each time, so it is easily decypherable.

Trithemius Progressive Key


The Trithemius Progressive Key allows a change of key for every character. This is an extension of the poly-alphabetic cipher and provided it is done in an ordered fashion then we are able to control the cypher.


Vigenere Key Method


Vigenere Key Method uses a keyword. The keyword dictates the row choices for encryption and decryption for each successive character in the message. Using the keyword KEY, means we successively use rows 'K', (10th row), row 'E' (4th row) and row 'Y' (24th row).


As an example, using KEYKEYKEY we can translate the word HELLO into RIJVS. The problem with this is the key is repeated.

Variations include the Vigenere auto (plain) key method, which starts with a single letter or word used as a priming key. The priming key dictates the starting row or rows for encrypting the first or first few plain text characters. Next the plain text characters of the message itself are used to determine the rows. So instead of repeating the keyword (as you do in the Vigenere cipher) you append the plain text to the keyword and use the resulting word as they key to encrypt the plain text. This means that there is no reptition of the key and the key effectively becomes as long as the message itself.

The problem with long keys is the the number of combinations and the time taken to search these combinations. For a useable system the lookups must be quicker.

Many of these techniques are being used in an extended fashion when encryting data in today's networks. Papers by Dr Horst Feistel (1970, DES), Diffie and Hellman (1976), Rivest, Shamir and Adleman (1977, RSA) and Zimmerman (1979, PGP) have formed the bedrock for encryption techniques used today. The basic idea is to encrypt data using an encryption key, send the ciphertext across a public domain and to decrypt the data using a decryption key.

You can have Symmetric encryption algorithms where the same key is used to encrypt and decrypt the data. These include DES, DES-3 (block ciphers), RC2, RC4, RC5 (stream ciphers), AES and Rijndael (up to 256 bits key length) and it can be fast, so it tends to be used for large volumes of data. The problems come when you want to share the key without compromising security. You can have Asymmetric encryption algorithms where the encryption keys and the decryption keys are different. Examples include RSA, Diffie Hellman and Elliptic Curves. Key lengths range from 512 bits to 2048 bits. Diffie Hellman is used specifically for key management. Asymmetric encryption algorithms are much slower and are therefore used for low volume encryption.

Key management is critical in the encryption environment, the security is only as good as its weakest point. It is no good sharing a key over the telephone or via E-mail if the conversation is prone to eavesdropping. Key management looks after the generation, storage, the exchange, verification and destruction of keys.

Random number generation is the basis of good key generation. Radioactive decay is one of the best sources of random numbers because the Keyspace (the number of possible keys) is very large. On average, you would have to search through half an algorithm's keyspace before finding the correct key. With symmetric algorithms, key lifetimes are typically short i.e. of the order of seconds or minutes, and 40/56 bit keys (e.g. DES) are now considered weak. 112/168 bit keys e.g. 3DES, are currently OK with 256 bit keys (e.g. AES) likely to be the norm in the future. With asymmetric algorithms 768/1024 bit keys are considered to be fine with a move towards 1536/2048 bit keys in the future. Asymmetric keys tend to last longer.

Data Encryption Standard (DES)


In the early 1970s, development of the Product Cypher System or Block Cypher as used in IBM's Lucifer System led to a number of variations. The concept was to use a Substitution-Permutation Network (SPN), which is a series of linked mathematical operations. These SP-networks consist of Substitution Boxes (S-boxes) and Permutation (P-boxes) that transform blocks of input bits into output bits. These transformations are operations that are efficient to perform in hardware, e.g. OR, Exclusive-OR (XOR) etc.

The operation called Modulo 2 addition is mainly used and this is the same as an Exclusive-OR operation on binary numbers, one digit at a time, for example:


Operand 1 could be the unencrypted text, Operand 2 the key and the result could be the encrypted text. There is a problem with this which is that you could reverse the process i.e. taking the example above:


S-boxes substitute or change input bits into output bits. A well-designed S-box will ensure that changing one input bit will change about half of the output bits. It will also have the property that each output bit will depend on every input bit. P-boxes transpose bits across S-box inputs. At each round the key is combined using a group operation such as XOR.

One variant of the Lucifer system, uses a 48-bit key and operates on 48-bit blocks. The cipher is a SP-network and uses two 4-bit S-boxes. The key selects which S-boxes are used. The cipher can operate on 24-bits at a time, and also sequentially on 8-bits at a time.
The Lucifer system variant that was based on the Feistel Network, after some modifications has led to the USA's Data Encryption Standard (DES).

The DES algorithm takes a key and performs a series of simple logical operations on it. These include permutations, substitutions etc. using SP-networks. As mentioned before, these operations are designed such that they can be implemented within hardware and therefore be fast.

A 64-bit block of plaintext is split into a left-hand 32-bit block and a right-hand 32-bit block. Of the 64 bits 56 bits are used for encryption and the remaining 8 bits are used for parity (7 x 0's and the LSB for even parity). You can get 40 bit encryption with DES where a 40 bit key is used along with 16 known bits. A section of the key called the subkey is then input into a function along with the right-hand block. The function expands the 32-bit block into 48-bits and adds the subkey. The function then performs a substitution via the S-Box and then a transposition via the P-box resulting in a 32-bit block again. The right-hand and left-hand blocks are swapped around and the whole operation repeated on the new right-hand block. This continues for 16 rounds in total until the ciphertext is produced.

DES can operate in Electronic Code Book (ECB) mode where a message of 5 x 64 bit blocks is operated on block by block. Or DES can operate in Cypher Block Chaining (CBC) mode where the output from DES operating on the first 64 bit block (of five) is fed into the algorithm along with the second block, and so on, the initial number to start off the chain is a random value called the Initialisation Vector (IV).

3DES


3DES is much stronger than DES because 2 or 3 keys are used to increase key strength. Two keys give 112 bits (2 x 56) encryption, and three keys give 168 bits (3 x 56) encryption. 3DES works by using the first key to encrypt the blocks just as in DES. Then the second key is used to decrypt the blocks, followed by the third key that encrypts the blocks again. If only two keys are being used for 112 bit encryption, then the first and third keys are the same.

Confidentiality


Data is made private via the use of encryption such as Data Encryption Standard (DES) (RFC 2405), 3DESInternational Data Encryption Algorithm (IDEA) and Blowfish (RFC 2406).

The concept of Feasibility is used to describe the difficulty of cracking a particular encryption algorithm. In the world of encryption nothing is considered to be impossible, however an algorithm is considered infeasible if it is considered to be complex enough not to be solved with current computer technology or techniques in a reasonable amount of time.

There are two methods of distributing keys used in encrypting and de-encrypting the data, the Shared Key method and the Public Key method.

Shared Key


In a shared key environment e.g. for symmetric encryption or for HMACs, a single key is used for encryption and decryption of the data, therefore both peers need to know this shared key. The problem with this method is that there has to be a way of making sure both peers know this key without compromising the security of this key. Using the telephone or mailing the key is not really that secure, plus it is not scalable for large secure networks where there are many peer to peer sessions each with different keys. There needs to be a way of securing key exchange over an insecure path.

Diffie-Hellman Key Exchange addresses this problem and Internet Key Exchange (IKE) (RFC 2409) uses this Diffie-Hellman to ensure that a shared key can be generated and shared across a public connection in a way that is infeasible for anyone to work out the key. This shared key can then be used with an encryption algorithm such as DES, 3DES, IDEA etc. A summary of how Diffie-Hellman operates is as follows:
  1. Peers P and Peer Q have been given the same publicly viewable numbers m and n.
  2. Peer P picks a very large secret random number x and calculates mxmod n to give P.
  3. Peer Q picks a very large secret random number y and calculates mymod n to give Q.
  4. Peer P and Peer Q exchange P and Q publicly, so anyone can see these numbers. The numbers x and y remain known only to the relevant peer and they are not transmitted.
  5. Peer P then performs the calculation Qxmod n to give the value K.
  6. Peer Q then performs the calculation Pymod n to give the value L.
  7. Now as it happens, Qxmod n gives the same value as mxymod n which is the same as Pymod n, so K and L are equal, therefore Peers P and Q have negotiated a shared secret that has not been transmitted.
The modulus arithmetic makes it very difficult for an attacker to find a value for either x or y especially if the numbers involved are very large. Calculating PBase m for instance, is not trivial when modulus is involved with large numbers. Instead an attacker will attempt to intercept the exchange and become an intermediary between the peers and negotiate two shared secrets with each of the peers and fool them into thinking that they are talking with each other.

Public Key Encryption


Each peer creates two keys, one private and one public. The public key is made available publicly and is used to encrypt data by anyone wishing to send you information. The private key is used by the receiver to decrypt the data. In a large secure environment, public keys are held in central locations for better management. It is considered infeasible to work out the private key from the public key.

Using a public/private key method to encrypt data is around 1000 times slower than using the shared key method, so the shared key method is good for large data volumes.

A popular public key encryption algorithm is Rivest, Shamir and Adleman (RSA) and is used in IKE. Key lengths can vary between 512 bits to 2048 bits.

The following is a list of Public Key Cryptography Standards (PKCS):
  • PKCS #1 Encryption that defines RSA DSS
  • PKCS #2 (ditto)
  • PKCS #3 (ditto)
  • PKCS #3 Diffie-Hellman Key Agreement (defines implementation)
  • PKCS #5 Password-Based Encryption (how to encrypt derived password)
  • PKCS #6 Extended Certificate Syntax (Extension Attributes, X.509v2)
  • PKCS #7 Cryptographic Message Syntax (Placement of Attributes)
  • PKCS #8 Private key Information Syntax (Placement of Keys)
  • PKCS #9 Selected Attribute Types (All Attribute types used in PKCS)
  • PKCS #10 Certificate Request Syntax (CMP)
  • PKCS #11 Cryptographic Token Interface (API, Cryptoki)
  • PKCS #12 Key Movement Exchange Syntax (Portable format of Keys)
  • PKCS #13 Elliptic Curve Cryptography
  • PKCS #14 Pseudo-Random Number Generation
  • PKCS #15 Cryptographic Token Information Syntax

Integrity


A check that ensures data has not been changed during transfer. This uses a unique hash value that acts like a fingerprint. This hash is calculated by the sender each time any data is sent, it is also calculated when received and the two values compared. MD5 hashing is used often here.

The two peers agree a hashing algorithm and use this to input the data and the shared key that they have agreed. This produces a hash value which is sent with the data. This hash value is one-way only, it is not like encryption where the resultant form can be decrypted! The receiving peer peforms the same hashing operation using the data and the shared key and if the hash value is the same the data is considered to be reliable. Using a shared key that is inputted into the hashing algorithm is called Keyed-Hashing for Message Authentication or Hash Message Authentication Code (HMAC) as detailed in RFC 2104. An HMAC combines hashing with authentication.

One of the most popular hashing algorithms, or HMACs, used today is Message Digest 5 (MD5). Whatever the size of the input data, the output has is always a 128-bit hashed value, even if the data is merely one character. If two very similar pieces of data are sent, the has values for each will be utterly different so that no pattern can be deduced, there is an avalanche effect, if the data changes a little, the digest changes alot.

The National Institute of Standards and Technology (NIST) designed another hashing algorithm called Secure Hash Algorithm (SHA-1) which is often used as well and produces a 160 bit hash.

Origin Authentication and Certification Authorities (CA)


The infrastructure that encompasses public key management is called the Public Key Infrastructure (PKI) and is explained in RFC 2510 and is to do with identifying the users rather than authenticating them. PKI servers called Certification Authority (CA) and Registration Authority (RA) servers form centres of trust for the users.

Certification Authority (CA)


We need to ensure that the public keys being used are genuinely from the sender i.e. that they are not being falsely produced by an intruder (Trust), and conversely the sender cannot get away with denying that the message came from them (Nonrepudiation). Origin authentication is about checking that the station with whom you are communicating is who they say they are. This stage uses Digital Signatures and the concept of a Certification Authority (CA) that assigns these digital signatures.

Typical well-known CAs used by e-commerce include the following:
  • VeriSign®
  • Entrust®
  • Netscape® iPlanet
  • Windows® 2000 Certificate Server
  • Thawte®
  • Equifax
  • Genuity
When a device (the subject) creates the private and public keys, the public key is sent along with the device details to the CA server and these are processed in a personal fashion so that they can be verified as genuine. Of course, this personal verification has to be very good for the CA to have credence. The CA is a trusted third party that hold the public keys, plus the CA produces a Digital Certificate that contains the sender's name (the subject), details such as serial numbers etc. and their public key. The X.509 standard for the certificate is that which the CA adheres to and gives you confidence that if that CA issues you somebody's public key, that the CA has verified that that certficate belongs to that somebody. X.509 is at version 3 i.e. X.509v3 and produces the certificate in one of three file formats:
  • Distinguished Encoding Rules (DER-encoded X509 certificate) - Binary format encoding of the certificate file in ASN.1. For example, an imported certificate from a Microsoft Windows NT IIS 4.0 server.
  • Privacy Enhanced Mail (PEM) - a base64 encoding of the certificate file (PEM-encoded X509 certificate). For example, an imported certificate from an Apache/SSL UNIX server.
  • PKCS12 - Standard from RSA Data Security, Inc. for storing certificates and private keys. For example, an imported certificate from a Microsoft Windows 2000 IIS 5.0 server.
The certificate contains the following:

  1. Serial number of subject device
  2. Issuer (CA) X500 name
  3. Valid period so that there is an expiration time
  4. Subject X500 name
  5. Subject public key
  6. Key and certificate usage
  7. Any extensions
  8. CA Digital Signature, either via RSA or DSA.
The CA uses its own private key with the first five components to produce the CA digital signature.

Once the certificate has been created, this can be downloaded from the CA in whatever format is suitable for the subject device, and stored and distributed by the owner. As described above, the certificate contains details about the owner, details about the certificate issuer, the owner's public key, validity, expiration dates, and associated privileges.

The CA digitally signs this certificate with its own private key, so that the subject device can then send this certificate to those that want its public key. Digital Signature Standard (DSS) with its Digital Signature Algortihm (DSA) and RSA Signatures are examples of algorithms used with digital signatures on the CAs. DSS was established to provide an alternative to RSA when signing certificates, this was because RSA is already use within the PKI for key exchange and it was felt a good idea to have a separate algorithm for digital signatures. As a consequence, DSS/DSA is purely used for signing certificates. Using the PKI public key cryptography, the CA keeps a private key and publishes a public key. The private key is used to encrypt the data. The receiver uses the CA's public key to decrypt the data and thereby verify it (note that this is the opposite to the earlier use of the public key to encrypt data!).

CA Servers are used to store these digital certificates and are publicly accessible. Those receiving data with the certificate need to obtain the CA's public key in order to verify the CA's signature and check that no alterations have occurred. Certification Authorities have Root CA Certificates. These root CA certificates are installed in releases of all the major web browsers such as Internet Explorer, Netscape, Opera, etc. When you use your browser you are automatically relying on a collection of root CA certificates that the browser vendor has deemed you can trust. If an SSL certificate is issued by one of the trusted root CAs to a subject device/server, then you will inherently trust that SSL certificate and the gold padlock will appear transparently during secure sessions. This eliminates the need for clients to have to go on to the Internet to obtain the CA's public key (particularly useful if the clients sit behind a firewall that denies them access to the Internet).

If the root certificate is not installed on the client's browser then the client will see a warning indicating the requirement to download a certificate because the browser does not have a certificate from the CA used to issue the device's certificate.



The clients and servers communicating with each other must have certificates digitally signed from the same CA or from the hierarchy of CAs that trust each other. A certificate is verified when the client checks it with the CA using the CA's public key within the PKI. Once verified, the client can trust the public key within the certificate for the server/subject device to which it wants to connect. The users trust the CA to distribute, revoke, and manage keys and certificates in such a way as to prevent any security breaches. Users need to be able to determine the degree of trust that can be placed in the authenticity and integrity of the public keys contained in the certificates. The information upon which such determinations can be made is documented in the Certificate Policy and the Certification Practice Statement of the CA.

In summary, the CA performs the following tasks:
  • Issues users with keys/Packet Switching Exchanges (PSEs) (though sometimes users may generate their own key pair, private and public keys)
  • Certifies users' public keys
  • Publishes users' certificates
  • Issues Certificate Revocation Lists (CRLs)
  • Generate the certificate based on a public key. Typically a Trust Center (SSL server or other SSL termination device offering content) generates the pair of keys on a smart card or a USB token or within the server itself.
  • Guarantees the uniqueness of the pair of keys and links the certificate to a particular user
  • Manages published certificates
  • Is part of cross certification with other trusted CAs in a hierarchy
Sometimes, the tasks of Certification and Registration are separated out and are carried out by different servers (Note: Entrust and Verisign do not do this!). Some CA servers use Lightweight Directory Access Protocol (LDAP) for certificate retrieval.

Registration Authority (RA)


The Registration Authority (RA) is responsible for recording and verifying all information the CA needs. In particular, the RA must check the user's identity to initiate issuing the certificate at the CA. This functionality is neither a network entity nor is it acting online. The RAs will be where users must go to apply for a certificate. A RA has two main functions:
  • Verify the identity and the statements of the claimant
  • Issue and handle the certificate for the claimant

Certificate Revocation List (CRL)


A CRL is a digitally signed list of revoked certificates that is issued by the CA. This list is updated on a scheduled basis and distributed to relying parties. Certificates have expiry times assigned to them and also some certificates become out of date due to device or personnel changes within an organisation. The CRL provides a means of revoking previously issued certificates. The older a certificate is, the more likely it is to be cracked, so it is good practice to renew certificates regularly.

Due to the latency involved in publishing a CRL, a relying party may not receive notification of a revoked certificate in time. On-line mechanisms may be used to communicate the current status of a certificate. A widely used standard for determining the on-line status of a certificate is the IETF Internet X.509 Internet Public Key Infrastructure Online Certificate Status Protocol (OCSP) (RFC 2560).

Some CAs operate a Certificate Revocation List (CRL) which is a list of certificates that have been revoked, e.g. because they have expired. The peers downloads this CRL and uses it as an added check to see if the other peer's certificate is still valid. CRLv2 has the following format:
  1. CRL Issuer
  2. This Update
  3. Next Update
  4. User Certificate serial number
  5. Date of Revocation
  6. User Certificate serial number
  7. Date of Revocation
  8. Reason for Revocation
  9. Digital certificate of CA that issued the CRL
The CRL issuer's digital certificate is generated from the first item down to the last listed user revoked plus the CRL issuer's private key.

Anti-Replay


Sequence numbers and authentication is used to ensure that duplicate packets and old packets are rejected. This prevents an intruder copying a conversation and using it to work out encryption algorithms.



ANEDOTAS TRITHEMIANAS

Há relatos na tradição coultista que dão conta de que o abade possuía notáveis habilidades paranormais. Conta-se que em certa ocasião, Trithemius, seu discípulo Agrippa e um terceiro personagem cuja identidade se desconhece, alteraram o estado de consciência de uma tal Anna Sidow. Durante o transe, ela anunciou na casa do Príncipe Eleitor os casos de falecimentos que iriam acontecer na citada casa e... acertou. Alguns investigadores interpretaram este sucesso como uma precognição obtida pelo abade através da mulher.

Outros dos trabalhos mais relevantes de Johannes Trithemius é De septem secundeis, id est intelligentiissine spiritibus orbes post Deum moventibus, ou seja, das sete causas secundárias ou inteligências depois de Deus, uma cronologia mística na qual desenvolve uma concepção cíclica da história da Humanidade. Segundo sua teoria, aparentada com o gnosticismo e a tradição hindu, sete anjos (os sete gênios maiores da Cabala, que correspondem aos sete anjos do Apocalipse de São João) governam os planetas desde o começo da Criação, alternando-se no poder a cada 354 anos e quatro meses. A cada época de silêncio e escuridão, seguirá o reino da luz, e assim sucessivamente.

Neste tratado, Trithemius elabora uma complexa cronologia na qual não faltam surpreendentes predições. Supostamente, fixou em uma delas, 400 anos antes de que se produzisse o acontecimento, a data exata, 1917, da declaração de Balfour, na qual se puseram as bases para a criação de um Estado judeu.


INVOCANDO ESPÍRITOS


Entretanto, a obra mais excepcional e controversa de Johannes Trithemius é a Esteganografia. O autor, como já mencionamos, explicava que o argumento central deste tratado era o de expor diferentes técnicas para enviar mensagens secretas a longa distância. Porém, além disso, uma parte considerável da obra está dedicada à enumeração de diversos tipos de espíritos, como se se tratasse de um moderno dicionário esotérico. Trithemius lhes põe nomes, lhes classifica hierarquicamente e determina as horas do dia, planetas e constelações que estão associados a eles.

Quando James A. (Jim) Reeds enfrentou a difícil tarefa de decifrar a Esteganografia, fez a si mesmo, em primeiro lugar, a seguinte questão: Trata-se de uma exposição de técnicas criptográficas disfarçada de magia natural ou, pelo contrário, é primeiramente um tratado de magia que o autor ocultou por trás de uma aparência criptográfica?

Desde 1606 é sabido que os primeiros volumes da Esteganografia, repletos de orações de caráter devocional aparentemente banais e de confusos textos para realizar invocações, contêm mensagens cifradas ocultas. Mas agora, quase 500 anos depois, descobriram-se códigos similares no terceiro e mais enigmático livro. Das 180 páginas numeradas da edição de 1608, 159 pertencem aos dois primeiros volumes e apenas 21 ao terceiro. Neste último livro pode-se ler um prefácio sucinto e um capítulo, provavelmente incompleto, no qual se apresentam estranhas tabelas numéricas encabeçadas por símbolos zodiacais e planetários.

Mas, como enviar mensagens secretas com a ajuda dos espíritos? Nos volumes I e II, Trithemius facilita as instruções precisas para fazê-lo. Por exemplo, anotava-se uma oração simples em um pedaço de papel e, depois de um curioso ritual, invocava-se aos anjos. Uma destas conjurações, que à Inquisição pareceram inequivocadamente demoníacas, começava pela seguinte frase: “Padiel aporsy mesarpon omeuas peludyn malpreaxo...”. Realmente, o simples fato de mencionar estas palavras enigmáticas pode resultar inquietante, mas não tem nada de diabólico. Trithemius utilizou um simples código de transposição de letras com uma seqüência determinada. Se aplicarmos dito código, o resultado fica menos misterioso: “padiel aPoRsY mesarpon oMeUaS peludyn mAlPrEaXo...”. Destacamos em maiúsculas as letras codificadas. A solução é a expressão latina primus aprex... Depois de decodificar as inúmeras “conjurações” presentes nos dois primeiros volumes da Esteganografia, obtêm-se uma série de frases banais, provavelmente escolhidas ao azar. Conseqüentemente, é certo que Trithemius havia descoberto uma forma de enviar mensagens secretas à distância, ainda que não pareça que os espíritos tivessem muito a ver com ela.



ALFABETO INVERTIDO

O terceiro livro da Esteganografia, com suas obscuras tabelas numéricas, supunha um verdadeiro desafio para qualquer especialista em criptografia. Jim Reeds descobriu uma abundante bibliografia sobre este campo na Alemanha em livros do século XVII. Comprovou que muitos autores incluíam nos títulos de seus livros frases como “Justificando Trithemius”. Uma destas obras foi publicada em 1676. Seu autor, Wolfgang Heidel, assegurava ter decifrado o código secreto do livro III. Curiosamente, Heidel também utilizou um código criptográfico para revelar o conteúdo de suas investigações, de maneira que ninguém o entendeu. E mais, muitos pensaram que Heidel tivesse fracassado em seu intento e queria simplesmente apropriar-se ilicitamente de um mérito que não possuía.

Foi apenas em 1996 quando Thomas Ernst, investigador da Universidade de Pittsburgh, conseguiu decifrar a verdadeira natureza do código. Ernst, que consultou muitas cópias do manuscrito original da Esteganografia em Wolfenbütel (Alemanha) e no Vaticano, publicou os resultados de sua investigação em 1996. Talvez por fazê-lo em alemão e em uma revista pouco conhecida, sua valiosa descoberta não teve a repercussão que merecia.

Finalmente, Jim Reeds, investigador dos laboratórios ATT, depois de transcrever o livro original e microfilmá-lo para fazê-lo compatível com seu computador, resolveu o misterioso código de Trithemius em apenas dois dias. Com efeito, Reeds descobriu que o abade beneditino tinha utilizado a ordem alfabética ao contrário e tinha estabelecido letras a números. A dificuldade consistia em que Trithemius não havia utilizado letras atuais (como o “k” e o “y”), mas sim outras inexistentes na atualidade. Após substituir adequadamente os sinais, Reeds solucionou as mensagens secretas ocultas no emaranhado de números e sinais. Ainda que as mensagens codificadas resultassem bastante inócuas, aparentemente frases escolhidas ao azar, esta descoberta confirma que Johannes Trithemius é sem dúvida alguma a figura mais destacada da moderna ciência da criptografia.


PROPÓSITO ENIGMÁTICO

Mas, este descobrimento suprime o caráter “mágico” da obra de Trithemius? Na opinião de Jim Reeds, esta descoberta não afeta a personalidade de Johannes Trithemius como figura chave do movimento ocultista do século XVI. Pelo contrário, Reeds crê que esta descoberta incrementará o interesse pela enigmática vida e obra do abade beneditino. Contudo, o investigador americano continua se perguntando por que Trithemius utilizou a retórica da magia para fins tão claramente científicos. Qual era seu propósito? Talvez estas frases aparentemente tão banais, resultado da decodificação da Esteganografia, não sejam tão banais. Talvez encerrem o verdadeiro segredo do abade e mago Johannes Trithemius.