INÍCIO

04 fevereiro 2023

HERMES DEUS DA INICIAÇÃO

HERMES O DEUS DA INICIAÇÃO
Ἑρμής


Artigo por Thales Paim M.:M.:

"Que outra liberdade psicológica temos nós, senão a liberdade de sonhar? Psicologicamente falando, é no devaneio que somos livres." 

(Gaston Bachelard. Dicionário de imagens, símbolos mitos, 2013)

“O homem nada sabe, mas é chamado a tudo conhecer.” 
(Hermes)



Introdução

Segundo Cerlot (1971), foram os egípcios quem deu forma, em sua religião e hieróglifos, à consciência do Homem sobre a dualidade material e espiritual, natural e cultural do mundo. 

Qualquer dos povos orientais, independentemente ou em conjunto, as várias civilizações da Mesopotâmia desenvolveram seus próprios sistemas particulares; ainda assim, esses sistemas eram apenas variações externas de um único padrão verdadeiro, íntimo e universal. 

Existem diferenças de opinião sobre a datação da primeira aparição, ou pelo menos a cristalização final, de alguns dos os símbolos mais importantes e complexos. Alguns escritores argumentam fortemente em favor de origens remotas. Krappe (35) sustenta que o estudo científico dos planetas e sua identificação com os deuses do panteão babilônico data apenas do Século VII a.C.; mas outros traçam esses primórdios desde a idade de Hammurabi (2000 a.C.) ou mesmo anterior. Por isso torna-se praticamente impossível asseverar com segurança os significados dos símbolos e sua importância tanto no passado quanto no presente. 

Assim, gostaria de citar a título de introdução o parágrafo de abertura do livro de Carl G. Jung, que trata dos símbolos. Esse aspecto da vida humana muito negligenciada e somente agora vem sendo mais estudada atualmente.

O homem utiliza a palavra escrita ou falada para expressar o que deseja transmitir. Sua linguagem é cheia de símbolos, mas ele também, muitas vezes, faz uso de sinais ou imagens não estritamente descritivos. Alguns são simples abreviações ou uma série de iniciais como ONU, UNICEF ou UNESCO; outros são marcas comerciais conhecidas, nomes de remédios patenteados, divisas e insígnias. Apesar de não terem nenhum sentido intrínseco, alcançaram, pelo seu uso generalizado ou por intenção deliberada, significação reconhecida. Não são símbolos: são sinais e servem, apenas, para indicar os objetos a que estão ligados. O que chamamos símbolo é um termo, um nome ou mesmo uma imagem que nos pode ser familiar na vida diária, embora possua conotações especiais além do seu significado evidente e convencional. Implica alguma coisa vaga, desconhecida ou oculta para nós. Muitos monumentos cretenses, por exemplo, trazem o desenho de um duplo enxó. Conhecemos o objeto, mas ignoramos suas implicações simbólicas. Tomemos como outro exemplo o caso de um indiano que, após uma visita à Inglaterra, contou na volta aos seus amigos que os britânicos adoravam animais, isto porque vira inúmeros leões, águias e bois nas velhas igrejas. Não estava informado (tal como muitos cristãos) que estes animais são símbolos dos evangelistas, símbolos provenientes de uma visão de Ezequiel que, por sua vez, tem analogia com Hórus, o deus egípcio do Sol e seus quatro filhos. Existem, além disso, objetos tais como a roda e a cruz, conhecidos no mundo inteiro, masque possuem, sob certas condições, um significado simbólico. O que simbolizam exatamente ainda é motivo de controversas suposições. Assim, uma palavra ou uma imagem é simbólica quando implica alguma coisa além do seu significado manifesto e imediato. Esta palavra ou esta imagem têm um aspecto "inconsciente" mais amplo, que nunca é precisamente definido ou de todo explicado. (Jung, O homem e seus símibolos. Rio de Janeiro, RJ, Ed. Nova Fronteira, 1964).

Além dessa peculiaridades e de sua evolução temporal, os símbolos, em qualquer forma que possam aparecer, geralmente não estão isolados; eles aparecem em aglomerados, dando origem a composições simbólicas que podem evoluir com o tempo (como no caso da contação de histórias), no espaço (obras de arte, emblemas, gráficos desenhos), ou no espaço e no tempo (sonhos, drama, pelas teatrais). É preciso lembrar que, no simbolismo, cada detalhe invariavelmente tem algum significado particular, e que a forma como um símbolo é orientado também chama a atenção para sua importância e significado: por exemplo, uma chama apontada para baixo representa a vida erótica; enquanto, apontando para o céu, expressa purificação (Cerlot, 1971).

Assim como Jung nos fala, que acontece com as palavras, imagens e síbolos atuais muito mais difícil será recuperar os significados de símbolos dos antigos humanos que deram origem ao ocidente como nós o conhecemos hoje. Certa vez eu apresentei um seminário preliminar sobre simbologia na arte e tentei esclarecer apenas um único símbolo que aparecia na história da arte desde a era do bronze. Imaginem tentar abarcar os significados de um símbolo nos últimos 3 a 4 mil anos. É verdadeiramente impossível. Por isso foi preliminar e uma aproximação sobre símbolos em geral. Este trabalho tem o objetivo de tentar traçar um breve paralelo sobre o significado do deus Hermes como deus da iniciação que toque nos ritos iniciáticos das ordens secretas atuais.


HERMES
Hermes do grego antigo Ἑρμής, Hermés.


Na mitologia grega, é dos deuses olímpicos. É filho de Zeus e de Maia, e possuidor de vários atributos.

Hermes é uma divindade muito antiga, sendo cultuado provavelmente desde o neolítico. Possivelmente era um deus da fertilidade, dos rebanhos, da magia, da divinação, das estradas e viagens, entre outros atributos.

Hermes em grego antigo Ἑρμῆς, como uma divindade Olímpica na religião e mitologia grega antiga, é considerado o arauto dos deuses. Ele também é considerado o protetor dos arautos humanos, viajantes, ladrões, mercadores e oradores. Ele é capaz de se mover rápida e livremente entre os mundos do mortal e do divino, auxiliado por suas sandálias aladas. Hermes desempenha o papel do psicopompo ou “guia da alma”, um condutor e guia da almas desencarnadas para a vida após a morte. Dos mercadores, oradores, viajantes, arautos, surge o dom da palavra e da criação e da astúcia. Uma ciência é nomeada com seu nome, a hermenêutica a ciência, a técnica, a habilidade que tem por objeto a interpretação de textos religiosos ou filosóficos, especialmente das Sagradas Escrituras cristãs, a Bíblia. A hermenêutica lida com a correta interpretação dos textos, do sentido das palavras, para entender sua mensagem e seu contexto. 

Hermes Kriophoros, que leva o cordeiro.
Cópia romana tardia de original grego do século V a.C.
Museu Giovanni Barracco, Roma.

Hermes é considerado o protetor dos arautos humanos, viajantes, ladrões, mercadores e oradores. Ele é capaz de se mover rápida e livremente entre os mundos do mundo mortal ao divino, auxiliado por suas sandálias aladas. Hermes desempenha o papel do psicopompo ou “guia da alma”, um condutor de almas para a vida após a morte.

Com o passar dos séculos seu mito foi se ampliando extensamente, tornando-se o mensageiro dos deuses e patrono da ginástica, dos ladrões, dos diplomatas, dos comerciantes, da astronomia, da eloquência e de algumas formas de iniciação, além de ser o guia das almas dos mortos para o reino de Hades.

No mito de Osíris, Thoth dá a Ísis as palavras para restaurar, as diversas partes de seu marido, permitindo que o casal conceba um filho Hórus. Após uma batalha entre Hórus e Set, Thoth oferece conselhos e sabedoria.

Com o domínio da Grécia pelo império romano, Hermes foi levado para Roma e então assimilado ao deus Mercúrio, e através da influência egípcia, sofreu um sincretismo com Thoth, surgindo o personagem de Hermes Trismegisto. 

Thoth era um deus da lua, um Deus lunar. A Lua não apenas fornece luz à noite, permitindo que o tempo seja medido sem a luz direta do sol, mas suas fases e proeminência lhe deram uma importância significativa na astrologia/astronomia primitiva. 

Os ciclos da Lua também organizavam muitos dos rituais e eventos da sociedade egípcia, tanto civis quanto religiosos. Conseqüentemente, Thoth tornou-se gradualmente um deus da sabedoria, da magia e da medição e regulação dos eventos e do tempo. Dizia-se então que ele era o secretário e conselheiro do deus sol Ra, e com Ma'at (verdade/ordem) ficava ao lado de Ra na viagem noturna pelo céu. Thoth foi creditado pelos antigos egípcios como o inventor da escrita sagrada (hieróglifos) e sua interpretação.


Hermes Trismegisto, ou “Hermes três-vezes-grande”

Segundo uma das versões desse sincretismo, Hermes havia viajado ao Egito e lhe dado leis e a escrita. Lá  havia um Deus chamado Tot que era imensamente popular. Esse deus, estava relacionado ao tempo, ao destino, à ordem cósmica, à lei, à sabedoria, à cultura e ao conhecimento, à religião e instituições civis, aos rituais, ao oculto e à magia, e era também juiz e guia dos mortos. 
Assim, com a conquista romana do Egito e existindo vários pontos de contato entre ambos os deuses (Tot e Hermes), nessa assimilação Hermes adquiriu o status de sacerdote, filósofo e governante, e Tot foi também magnificado em seu culto com vários atributos de Hermes. 

Ambas as assimilações tiveram grande importância, criando rica tradição e perpetuando sua imagem através dos séculos até à contemporaneidade, exercendo significativa influência sobre a cultura do ocidente.

As primeiras descrições literárias sobre Hermes datam do período arcaico da Grécia, (800 a 500 aC) e o mostram nascendo na Arcádia.

Já no primeiro dia de vida realizou várias proezas e exibiu vários poderes: furtou cinquenta vacas do rebanho do Deus Apolo, seu irmão, inventou o fogo, os sacrifícios, sandálias mágicas e a lira.

No dia seguinte, perdoado pelo furto das vacas, foi investido de poderes adicionais por Apolo e por seu pai Zeus, Hermes por sua vez concedeu a Apolo a arte de uma nova música, sendo admitido no Olimpo como um dos grandes deuses.

Com o passar do tempo inúmeros outros escritores ampliaram e ornamentaram sua história original, tornando-o inclusive um demiurgo, e surgiram múltiplas versões de sua história, não raro divergentes em vários detalhes, preservando-se porém suas linhas mais características. Foi um dos deuses mais populares da Antiguidade clássica, teve muitos amores, tanto masculinos como femininos, e gerou prole numerosa. Com o advento do Cristianismo, foi comparado a Cristo em sua função de intérprete da vontade do Logos, o Criador. As figuras de Hermes e de seu principal distintivo, o caduceu, ainda hoje são conhecidas e usadas por seu valor simbólico, e vários autores o consideram imagem do Deus tutelar da cultura ocidental contemporânea.




Como já referido, Hermes foi citado pela primeira vez em tabuletas escritas em Linear B pela civilização Micênica, datadas em mais de mil anos antes de Cristo, mas a identificação do nome não é clara, e sua etimologia é controversa. 

Para alguns estudiosos a origem etimológica da palavra Hermes é simplesmente desconhecida, ou não tem origem grega.

Pode ter derivado de hermeneus, que significa intérprete. Platão, dando voz a Sócrates, tentou estabelecer uma origem do nome, dizendo que Hermes estava ligado ao discurso, à interpretação e à transmissão de mensagens, todas atividades ligadas ao poder da fala (eirein), e segundo supunha no curso do tempo eirein havia sido embelezada e transformada em Hermes.

A ideia mais corrente é que tenha derivado de herma, um altar ou marco de estrada que lhe era dedicado desde tempos remotos, possivelmente da era do bronze ou mesmo antes do Paleolítico e Neolítico. Pesquisadores interpretam o Home Hermes como significando "aquele do monte de pedras", a forma primitiva das hermas, (atualmente ermida: pequena capela situada ao lado de caminhos geralmente afastada de cidades, em locais ermos, como um local para meditar e descansar) mas esta origem também é disputada.

As origens de seu mito também são incertas, e as opiniões variam entre considerá-lo um deus autóctone da Grécia, cultuado desde o Neolítico, ou como uma importação asiática, talvez através de Chipre ou da Cilícia bem antes do início dos registros escritos na Grécia.

A partir do que se tem observado, evidencias escritas e relatos antigos, sugere que seu culto já estava estabelecido na Grécia desde uma época bastante remota, provavelmente fazendo dele um deus da natureza, dos agricultores e dos pastores. 

É possível também que tenha sido desde o início uma divindade com atributos xamânicos, ligados à divinação, à expiação, à magia, aos sacrifícios, à iniciação e ao contato com outros planos de existência, num papel de mediador entre os mundos visível e invisível.

Seja qual for sua origem e seu papel original, tornou-se um dos deuses mais presentes em toda a mitologia grega, e dificilmente algum dos mitos principais não conta com a sua participação, assumindo uma grande quantidade de epítetos, formas e atributos.

Entre as funções mais comumente associadas a ele na literatura e na arte grega estão as mensageiro dos deuses, e o deus das habilidades da linguagem, do discurso eloquente e persuasivo, das metáforas, da prudência e da circunspecção, também das intrigas e razões veladas, da fraude e do perjúrio, da sagacidade e da ambiguidade, por isso era patrono dos oradores, dos arautos, dos embaixadores e diplomatas, dos mensageiros, dos viajantes e dos ladrões.

Fontes antigas afirmam que ele teria inventado o fogo, a lira, a sírinx, um tipo de flauta, o alfabeto, os números, a astronomia, uma forma especial de música, as artes da luta, da ginástica e do cultivo da oliveira além das medidas e pesos.

Pela sua constante mobilidade e outras qualidades intelectuais relacionais, foi considerado o deus do comércio e do intercâmbio social, da riqueza advinda dos negócios, especialmente do enriquecimento súbito ou inesperado, das viagens, das estradas e encruzilhadas, das fronteiras e das condições limítrofes ou transitórias, da mudanças, dos umbrais, dos acordos e contratos, da amizade, da hospitalidade, do intercurso sexual

Hermes também é considerado o deus do jogo de dados, por ter inventado o jogo com um casco de tartaruga, deus dos sorteios, da boa sorte; dos sacrifícios e dos animais sacrificiais, dos rebanhos e pastores, da fertilidade da terra e do gado.

Seu ministério a Zeus não se resumia à condição de mensageiro, mas fora incumbido ainda de servir a sua taça, por isso era o deus dos banquetes, e de conduzir a sua carruagem. 

Também é o deus que leva as almas dos mortos para o reino de Hades, e quem dirigia os sonhos enviados aos mortais por Zeus.

Uma das mais importantes, entre as primeiras descrições do mito de Hermes, do período  arcaico, consta no Hino Homérico a Hermes, uma criação anônima dos séculos VII ou VI a.C. que trata de seu nascimento e primeiras proezas. 

O Hino inicia com uma saudação ao deus, chamando-o de Senhor do Monte Cilene e da Arcádia, dos rebanhos de ovelhas, e mensageiro dos deuses.

Também o nomeia como filho de Zeus, fruto de seu amor adúltero com Maia, uma ninfa filha de Atlas e Pleione, a mais velha, sábia e bela de sete irmãs, as Plêiades.

Vivendo em uma caverna, escondida dos olhares humanos e principalmente do notório e tempestuoso ciúme de Hera, esposa de Zeus, Maia deu à luz a “uma engenhosa criança do sexo masculino, este hábil planejador de artifícios, o perseguidor e capturador de gado, o pastor dos sonhos, este cidadão da noite que espreita nos umbrais”. 

Logo ao nascer ele não demorou à mostrar sua origem divina: nascido pela manhã, já ao meio-dia estava tocando a lira, e à tardinha furtou o gado de seu irmão Apolo.

Ao sair da caverna, deparou-se com uma tartaruga, e disse que ela lhe anunciava boa sorte. Ao mesmo tempo conferiu-lhe dons: enquanto vivessem as tartarugas seriam uma proteção contra o mau-olhado, e ao morrerem aprenderiam a cantar belas canções. Tomou-a então e a levou para dentro, matou-a e usou seu casco para fazer o corpo, a caixa de ressonância, da primeira lira.

Com tripas de ovelha fez sete cordas, que afinou em harmonia. Logo, com o instrumento que inventara, acompanhou seu próprio canto, elevando uma canção em honra a seus pais.

Sentindo fome, saiu para espreitar os arredores, já imaginando planos astuciosos para obter comida. O sol já estava se pondo, e Hermes se dirigiu para as montanhas da Piera; Πιερί; Pieria, uma região mediterrânea localizada hoje na Síria, ao norte da desembocadura do rio Orontes e aos pés das montanhas de mesmo nome (Piéria), onde pastava calmamente o gado do divino Apolo.

Observando o rebanho ele escolheu cinquenta vacas, e as conduziu, tangendo-as com um bastão, por caminhos labirínticos para evitar ser seguido através dos rastros. Também fez com que o gado andasse de marcha-ré, com o objetivo de não ser rastreado, e para si confeccionou um par de sandálias mágicas com folhas de tamareira e mirtilo, para que pudesse deslizar pelo caminho e prosseguir com rapidez, sem deixar pegadas reconhecíveis.

Um velho viticultor o viu, mas foi avisado para nada relatar a ninguém. Enquanto ia com o gado em direção à sua caverna, deteve-se junto ao rio Alfeu, alimentou o rebanho e deu-lhe de beber. Ao mesmo tempo inventou o fogo, friccionando folhas de loureiro com uma acha de lenha. Assim fez uma fogueira e assou duas reses, deleitando-se com o aroma.

Dividiu a carne e a gordura em doze porções e as colocou em um lugar alto, como um monumento à sua própria façanha. Quanto ao resto dos despojos, queimou-os no fogo, jogou suas sandálias no rio, apagou a fogueira, escondeu as outras reses em Pilos e eliminou todos os vestígios de suas ações.

Então voltou para a gruta, passou pelo portão através do buraco da fechadura sob a forma de fumaça ou névoa, e se deitou no berço como se nada tivesse acontecido. Entretanto sua mãe a tudo observara, e repreendeu-o, dizendo que ao concebê-lo Zeus havia criado um bom problema tanto para os deuses como para os homens. Hermes entretanto replicou vigorosamente, afirmando sem temor sua origem divina e reivindicando um tratamento igual ao que recebia seu meio-irmão Apolo. Se Zeus o negasse, ele então se transformaria num príncipe dos ladrões. Se Apolo o perseguisse, destruiria seu santuário e tomaria seu ouro.

Chegando Apolo junto de seu rebanho, percebeu a falta das cinquenta vacas e iniciou sua busca. Encontrou o viticultor, que embora não tenha acusado Hermes do furto, deu algumas pistas vagas. Uma ave voou como num augúrio, e Apolo de imediato suspeitou de Hermes, mas ficou perplexo ao ver os rastros confusos que o rebanho deixara, e as estranhas marcas das sandálias de Hermes. 

Assim partiu direto para a caverna onde Hermes nascera, e o encontrou fingindo dormir, em seu berço. Perscrutou o lugar com sua luz mas não encontrou o gado, e exigiu do bebê que revelasse onde o escondera, sob severas ameaças. 

Hermes negou qualquer conhecimento do caso, e alegando sua pouca idade, disse que jamais poderia ter sido o autor do furto. Mas Apolo não se deixou iludir, e entre aborrecido e divertido com a situação inusitada, chamando-o de enganador e ardiloso, previu que em muitas noites Hermes penetraria nas casas dos homens e silenciosamente os privaria de seus bens, e tomaria o gado dos pobres pastores. Assim ganharia fama como Mestre dos Ladrões. Tomou a criança em seus braços e a levou para o tribunal de Zeus, no Olimpo, para que a disputa fosse resolvida. Mesmo diante do pai o menino negou as acusações, e Zeus, rindo, ordenou que ele revelasse o esconderijo do gado.

Obediente, Hermes cumpriu o mandado, mas vendo Apolo que a criança pudera matar duas reses ainda tão pequena, temeu sua futura força, e tentou impedir que ele crescesse atando-o com grossas ramagens de salgueiro, mas o menino as rompeu, caíram longe, e ao tocar o chão imediatamente cresceram tanto que cobriram todo o gado, surpreendendo Apolo. Então Hermes tomou da lira e começou a cantar toda a teogonia, celebrando Mnemosine, a deusa da memória, acima de todos os deuses. 

Encantado, Apolo disse que sua canção valia bem cinquenta vacas, parecia superior a tudo que ele mesmo, como deus da música, conhecia, e havia concebido e que a disputa poderia encerrar em paz. 

E prometeu fazer do irmão um líder entre os imortais, assegurando conceder-lhe muitos dons. Hermes, louvando o irmão, disse que por sua vez lhe dava a ciência desse novo canto e da execução à lira, recomendando que os praticasse com dignidade. 

Entregou-lhe a lira, e disse que passaria a cuidar dos rebanhos. Apolo então lhe deu seu próprio bastão e o ordenou como pastor divino. Então levaram as reses de volta à sua origem e voltaram para o Olimpo. Para si Hermes fez outro instrumento, a sírinx, uma espécie de flauta. Mas Apolo, temendo que no futuro Hermes voltasse a enganá-lo, pediu que o irmão fizesse um juramento solene de jamais armar novos estratagemas contra ele ou suas posses, no que Hermes consentiu. 

Feita a paz entre os irmãos, do céu Zeus mandou sua águia em sinal de aprovação, selando sua aliança. Satisfeito, Apolo prometeu novos benefícios: o faria rico, honrado e famoso, hábil em tudo o que empreendesse que fosse bom, tanto na palavra como nos atos, e capaz de levar tudo a termo, mas não pôde compartilhar com ele os dons da profecia e do conhecimento da vontade de Zeus, que só Apolo possuía, impedido que estava pelo pai de fazê-lo. 

Em compensação, deu a Hermes três virgens aladas, que ensinavam a divinação e diziam a verdade quando alimentadas com mel. Também tinham o poder de levar os empreendimento ao seu termo, à sua conclusão. 
Se Hermes decidisse, depois de aprender esse saber ele poderia ensinar esta arte a alguns homens de sua escolha. 

Zeus confirmou os dons que Apolo seu a Hermes, e acrescentou outros: atribuiu-lhe o comando das aves divinatórias, dos leões, dos ursos, dos cães e de todos os rebanhos da Terra, além de fazê-lo mensageiro junto a Hades, é guia das almas dos mortos até o portal do Hades, ambas função de grande prestígio.

Hermes amarrando as sandálias cópia romana de um original grego, provavelmente de Lisipo.

Hermes o Deus dos caminhantes, do comércio, da interpretação.

Vários outros escritores do período helenista citaram Hermes e ampliaram o rol de seus feitos. Calímaco disse que ele se disfarçou como um ciclope para assustar as Oceânides desobedientes à sua mãe, e que ele era o deus do aprendizado fácil. Filóstrato o chamou de deus da sabedoria, da filosofia e das recompensas. 

Um dos Hinos Órficos é dedicado ao Hermes Khthonios, indicando que ele também era um deus do mundo subterrâneo. Ésquilo o chamara por este epíteto várias vezes. Outro Hino Órfico dedicado a Hermes, sua associação com os jogos atléticos é celebrada em tom místico. 

Flégon de Trales disse que ele era invocado para afastar fantasmas, e Pseudo-Apolodoro relatou vários eventos em que Hermes teria participou como na Gigantomaquia em defesa do Olimpo; colocou Hércules à venda como escravo para que este expiasse a morte de Iphitos; recebeu a incumbência de levar Dionísio bebê para ser cuidado por Ino e Athamas, e depois pelas ninfas da Ásia; acompanhou Hera, Atena e Afrodite num concurso de beleza; favoreceu o jovem Hércules dando-lhe uma espada quando ele terminou sua educação, e emprestou suas sandálias a Perseu para que ele matasse a Górgona com mais facilidade. 

Ao longo do Helenismo Hermes adquiriu um status particularmente importante como imagem do Logos e intérprete da vontade divina, e passou de ser um mero caractere expressivo para agir criativamente, assumindo funções de demiurgo, um acréscimo que é atribuído principalmente aos estoicos, gnósticos e neoplatônicos. Aparentemente nesta época se iniciou a fusão de Hermes com o deus egípcio Thoth, ou Tot que veio a florescer na figura de Hermes Trismegisto.


Caduceu de Hermes

O caduceu, do Latin: cādūceus, do grego: κηρύκειον, kērū́keion, kerykeion, "varinha do arauto, ou bastão", é o bastão carregado por Hermes na mitologia grega e, consequentemente, por Hermes Trismegistus na mitologia greco-egípcia.

Esse bastão ou cajado também era usado por arautos em geral, por exemplo, por Iris, a mensageira de Hera. É um bastão curto entrelaçado por duas serpentes, às vezes encimadas por asas.

Em latim, Caduceus é a tradução do grego kherykeion, que significa bastão dos arautos. Ele servia de salvo-conduto, conferindo imunidade ao seu portador quando em missão de paz. As primeiras representações do primitivo caduceu não apresentava asas na extremidade superior, estás  só foram acrescentadas mais tarde.





Caduceus 

Hermes tinha a capacidade de deslocar-se com a velocidade do pensamento e por isso tornou-se o mensageiro dos deuses do Olimpo e o deus dos viajantes e das estradas.

Como o comércio na antiguidade era do tipo ambulante e se fazia especialmente através dos viajantes, Hermes foi consagrado como o deus do comércio. Outra tarefa a ele atribuída foi a de transportar os mortos à sua morada subterrânea (Hades).

Com a conquista da Grécia pelos romanos, estes assimilaram os deuses da mitologia grega, trocando-lhes os nomes: Asclépio passou a chamar-se Esculápio e Hermes, Mercúrio.


Significados do Caduceu

Este símbolo está associado ao equilíbrio moral e também ao caminho de iniciação. Acredita-se também que esteja relacionado ao caminho de ascensão da energia kundalini.

O bastão ou cajado corresponde ao eixo do mundo e as serpentes aludem à força Kundalini, que permanece adormecida e enroscada sobre si mesma na base da coluna vertebral. importante lembrar que a coluna vertebral é símbolo da faculdade evolutiva da energia pura.

A serpente da direita chama-se Od e representa a vida livremente dirigida. Já a da esquerda recebe o nome de Ob, que é a vida fatal. Há quem diga que uma representa a saúde e a outra a doença. O globo dourado no cimo chama-se Aur, que está associado à luz equilibrada.

As serpentes opostas figuram como forças contrárias que podem se associar, mas não se confundir. Elas representam tanto o conhecimento, que verticaliza o homem rumo ao alto, como o equilíbrio entre o bem e o mal, já que estão em posições inversas.

O Caduceu também é visto como ícone de retidão de caráter, motivo pelo qual foi adotado como símbolo de algumas profissões. Ele também está associado ao poder e, em uma perspectiva mística, simboliza o centro do mundo. Um exemplo de caduceu usado ainda hoje é o bastão do Cardeal da Ucrânia, onde duas serpentes douradas se entrelaçam ao redor de um globo encimado por uma cruz. 

Na Grécia Antiga o Caduceu tinha poderes mágicos e muitas lendas associavam ele com a transformação de tudo o que ele tocava em ouro. Além disso, os gregos acreditavam que ele tinha o poder de atrair as almas dos mortos que, assim poderiam ser guiadas até o Hades. Diz-se que mesmo as trevas, poderiam converter-se em luz com o poder do Caduceu.

Na iconografia romana, muitas vezes era representado sendo carregado na mão esquerda de Mercúrio, o mensageiro dos deuses.

Alguns relatos sugerem que a mais antiga imagem conhecida do caduceu tem suas raízes na Mesopotâmia com o deus sumério Ningishzida; seu símbolo, um bastão com duas cobras entrelaçadas em torno dele, remonta a 4000 BC a 3000 BC.

Como objeto simbólico, representa Hermes ou o Mercúrio romano e, por extensão, comércios, ocupações ou empreendimentos associados ao deus.

Na Antiguidade posterior, o caduceu forneceu a base para o símbolo astrológico que representa o planeta Mercúrio. Assim, por meio de seu uso em astrologia, alquimia e astronomia, passou a denotar o planeta e o metal elementar de mesmo nome. Diz-se que a varinha acordaria os adormecidos e faria os acordados dormirem. Se aplicada aos moribundos, sua morte era suave; se aplicado aos mortos, eles voltariam à vida.















REFLEXÕES PRELIMINARES 
SOBRE A SIMBOLOGIA 


Como podemos perceber, Hermes ou Mercúrio tem como característica a comunicação, em seus mais diferentes aspectos. Seu chapéu de abas largas (desabado) com pequenas asas. Suas sandálias aladas garantiam uma agilidade própria dos Deuses, em qualquer caminho, além de carregar consigo o famoso “caduceu”, um bastão com duas serpentes se entrelaçando e com asas na sua parte superior.

Provavelmente todos já o vimos, uma vez que o caduceu é o símbolo do comércio. Símbolo da ascensão aos Mistérios Divinos, o caduceu foi representado de diversas maneiras, mas em geral busca representar a evolução espiritual. No caso do comércio, essa evolução estava ligada ao lucro a partir da compra e venda das mercadorias. Esses três símbolos estão ligados à comunicação, seja entre os deuses, entre deuses e os homens e entre os próprios homens. A comunicação pela palavra e pelos símbolos é um uma característica eminentemente humana, devendo ser estudada, cultivada e burilada para que possa aproximar as pessoas entre si, comunicar o que é difícil, aproximar os homens da divindade, e como meio ela serve de caminho para o espírito perscrutar a vastidão do universo seja ele das ideias ou do cosmo material.

O deus grego Hermes indubitavelmente apresenta muitos atributos, e está ligado a muitos mitos de outras importantes divindades. Gostaria de analisar aspectos que o aproximam do caráter iniciático desse deus como um deus da iniciação.


Atributos do deus Hermes


Chapéu Pétasos com asas (chapéu de abas moles) 

Sandálias aladas (Talária)

Caduceu com asas e com as serpentes entrelaçadas  (bastão ou cajado)



Chapéu Pétasos

O chapéu Pétaso, do grego: πέτασος, pétasos, era um tipo de chapéu de origem tessaloniana usado pelos antigos gregos, trácios e etruscos, de abas largas e copa um pouco elevada, feito normalmente de feltro de lã, ou couro. Era usado principalmente por viajantes e fazendeiros que trabalhavam no campo. Seu uso tinha a finalidade de proteção da cabeça dos caminhantes e dos que labutavam no campo. Usado como proteção contra os raios solares e dos ventos frios, da chuva e da neve.
Hermes usando o chapéu Pétaso e o caduceu (WP).

Geralmente representações clássicas do deus Hermes ou Mercúrio costumam ser identificadas pela presença de um pétaso, normalmente com pequenas asas.

A cabeça é a origem da sabedoria e liberdade, e sede da “mente” da alma e do espírito.

Os gregos do século VIII inventaram o chapéu como o conhecemos hoje, com abas largas e uma copa que se elevava sobre a cabeça.

Dava proteção para a cabeça e também conferia dignidade a quem o usava.

Hermes quando foi investido por seu pai, Zeus, ganhou um chapéu com abas e com pequenas asas, para desempenhar seu cargo de mensageiro dos deuses e por isso tinha que se deslocar rapidamente.

Era engraçado, “Parece um garoto na primavera da vida”, disse Homero sobre Hermes ao descrevê-lo usando o pétaso.

A relação do chapéu com a sabedoria manteve-se na Idade Média representando simbolicamente a proteção para a cabeça do dono contra o sol, o chapéu é como um elmo que confirma e protege a sabedoria que se encontra na cabeça.

Desta forma, o chapéu pode ser entendido como uma distinção, mostrando a autoridade de quem o usa. Uma autoridade consolidada pela reflexão crítica que leva a sabedoria; a sabedoria leva a proteção tanto dos elementos quanto das ameaças do mundo.


As asas do chapéu

As asas são emblemas onipresentes e essenciais da liberdade, da leveza, da inteligência, da inspiração, do espírito, da alma, do céu, da luz, do divino. 

As asas são atributos solares, e de luz, também estão ligadas à expressão poética, a leveza e a profundidade das palavras que vão no caminho certo, certeiras como flechas ao alvo. 

Asas na cabeça significa também uma mente imaginativa, engenhosa, poética no sentido de poiésis (a ideía de criação, criar ou fazer algo que antes existia apenas como ideia, torna-la visível, poesia). A Poiésis do grego: ποίησις, poíesis, palavra com significado relacionado à técnica poiética, poética. A poiética indica a ideia de criar ou fazer. 
A etimologia vem do grego antigo: poiein, riar, produzir, com sufixo: -sis, referindo-se a ação. É uma das modalidades da atividade humana dividida por Aristóteles no século IV aC, dentre teoria e práxis. Em que teoria é a busca pelo verdadeiro conhecimento, práxis é a ação destinada a resolução de problemas e a poíesis então seria o impulso do espírito humano, da mente para criar algo a partir da imaginação e dos sentimentos.

Assim, as asas também estão associadas à espiritualidade, a libertação da alma pela conquista, pelo aprendizado. Representa a conquista, uma vez que as asas não são recebidas, mas adquiridas por meio de uma educação.

Os anjos no cristianismo, criaturas aladas, são os mensageiros de Deus, e que aparecem na Bíblia juntamente com as asas de Deus, o todo poderoso, aquele que concede asas aos seus filhos, que supostamente as perderam no momento do pecado original, mas que podem recuperá-las, trilhando o caminho do bem, pela ascese, (do grego ἄσκησις, áskesis, “exercício espiritual”, derivado de ἀσκέω, “exercitar”) que é conjunto de práticas e disciplinas caracterizadas pela austeridade e autocontrole do corpo e do espírito, que acompanham e fortalecem a especulação teórica em busca da verdade de forma a se aproximarem de Deus, o pai, e de seus ensinamentos. 

Segundo Ronnenberg (2012), as penas especializadas das asas dos pássaros permitem-lhes pairar e planar, fazer voltas no ar, mergulhar a velocidades incríveis, ou como o beija-flor, voar até para trás. No nosso desejo de liberdade ilimitada, identificamo-la com o voo, e com as asas. Na nossa imaginação, transcendemos o mundo material, abandonando a terra e o peso do corpo. As asas sustêm-nos. “A esperança é uma coisa com asas”, disse Emily Dickinson. Platão declarou: “a função da asas é levar aquilo que é pesado elevando-o à região acima, onde habitam os deuses”. 

Com asas, podemos observar simultaneamente as coisas da perspectiva terrena e da perspectiva celestial. A intuição e inspiração parecem surgir inesperadamente e com asas, vindas do nada, como um primeiro sinal de qualquer ato criativo. Todo o gênero de coisa alada nos une com o mundo do além: a pomba branca do Espirito Santo e de Afrodite, o corvo negro e o anjo corvo, meio pássaro, meio humano, demônio e duende, as vozes do destino, Mercúrio, o espírito alado da alquimia, os antigos xamãs que voavam para outros mundos nas suas asas mágicas e a própria imaginação tem asas. Elas voltam, cada um com sua mensagem única.

As asas são constituídas de penas. As penas são sensíveis à mais leve brisa e são, portanto, emblema da capacidade que a psique tem de captar “as correntes invisíveis e perceptíveis”. Se prestarmos atenção nessas correntes e as seguirmos, como acontece em mitos e em alguns contos de fadas, podem revelar-se-nos novas possibilidades ou descobrir para onde tendem as energias psíquicas. 

Os pensamentos, intuições e imaginação são muitas vezes representados como penas que são apanhadas e levantadas num sopro de inspiração. As penas formam asas com as quais se pode transcender o concreto, escapar as amarras e subir a alturas criativas ou a visões espirituais. 

Na alquimia o estado do Opus era dado pela coloração as penas da ave do espírito: no nigredo era pretas, uma vez que muito estava ainda na escuridão; no albedo, brancas, uma vez que o conhecimento tinha trazido as coisas à luz; e no rubedo, vermelhas, significando a atualização do conhecimento que estava na alvorada (Ronnenberg, 2012).

Esse aspecto alado do pétaso e das sandálias estão relacionadas intimamente com a iniciação onde o postulante deve morrer para a matéria para ressurgir para luz. E o ressurgimento requer asas que elevem o corpo acima da matéria, é um aprendizado, laborando sobre a matéria bruta a partir do caminho ensinado ao aprendiz, pelos mestres.
 

Sandálias aladas

O aspecto alado, conferido pelas asas, presente no chapéu pétaso e nas sandálias talária representa que os pés que mantém o homem na realidade, no solo, na terra  irresvalável, como bem disse Hesiodo na Teogonia, agora podem deslizar sem deixar rastros, flutuar, voar. Além disso com a rapidez de uma agia, ou um raio. E na cabeça o chapéu alado, assegura a visão, a imaginação e a sabedoria clara do lugar que se quer chegar.

A Talária de Mercúrio do latim: tālāria ou as Sandálias Aladas de Hermes, do grego antigo: πτηνοπέδῑλος, ptēnopédilos ou πτερόεντα πέδιλα, pteróenta pédila são sandálias aladas, um símbolo do deus mensageiro grego Hermes (Mercúrio).
Sandálias aladas de Hermes, as Talária (WP). 
(πτηνοπέδῑλος, ptēnopédilos ou πτερόεντα πέδιλα, pteróenta pédila)

Há duas versões para as sandálias, a primeira diz que o próprio Hermes as produziu com folhas de tamareira e mirtilo, e que não deixavam rastros (não deixar rastro significa literalmente flutuar, voar), outra versão afirma que elas foram feitos pelo deus Hefesto de ouro imperecível e servem para transportar o deus tão rápido quanto o voo das aves. 

Hefesto em grego antigo: Ἥφαιστος, Hēphaistos, é um deus cujo equivalente na mitologia romana chama-se Vulcano. Hefesto era filho de Zeus e Hera, rei e rainha dos deuses ou, de acordo com alguns relatos, era filho partenogênico de Hera. Representa o deus da tecnologia, dos ferreiros, artesãos, escultores, dos metais, da metalurgia, do fogo, dos vulcões e do lume. Como outros ferreiros mitológicos, porém ao contrário dos outros deuses, Hefesto era manco, o que lhe dava uma aparência grotesca aos olhos dos antigos gregos, talvez por isso ele vivia no subsolo, longe da visão de seus pares. Servia como ferreiro dos deuses, e era cultuado nos centros manufatureiros e industriais da Grécia, especialmente em Atenas. Ele foi expulso do Monte Olimpo por sua mãe Hera por causa de sua claudicância (ou claudicação, i.e., por ser manco), resultado de uma deficiência congênita. Em outro relato, ele teria sido expulso por Zeus para proteger Hera de seus avanços, caso em que sua condição teria sido o resultado de sua queda, e não o motivo dela. Como um deus ferreiro, Hefesto fez todas as armas dos deuses do Olimpo. O culto de Hefesto foi baseado em Lemnos. Os símbolos de Hefesto são um martelo de ferreiro, uma bigorna e um par de pinças.

Hefestos, , Ἥφαιστος, Hephaestus, Hḗphaistos
Hephestus trabalhando na forja escultura de Guillaume Coustou the Younger Escultura no Louvre (WP)

Na literatura grega antiga, as sandálias de Hermes são primeiramente mencionadas por Homero como ἀμβρόσια χρύσεια; ambrósia khrýseia, imortal/divina e de ouro, embora não sejam descritas como aladas.

A descrição das sandálias aladas aparece pela primeira vez no poema intitulado: Escudo de Héracles escrito por volta de 600-550 aC, que fala de πτερόεντα πέδιλα (pteróenta pédila), literalmente, sandálias aladas.

O hino homérico a Hermes de uma data um pouco posterior cerca de 520 aC, não afirma explicitamente que as sandálias eram aladas, embora permitissem que ele se deslocasse sem deixar pegadas enquanto roubava o gado de Apolo.

De acordo com a literatura, foi por volta do século V aC que as sandálias aladas passaram a ser consideradas como acessórios comuns embora não indispensáveis do deus Hermes.

Uma obra posterior que se refere às sandálias como sendo aladas são os Hinos Órficos XXVIII a Hermes datados do século III aC ao século II dC.

Perseu usa as sandálias de Hermes para ajudá-lo a matar Medusa. De acordo com Ésquilo, Hermes entrega suas sandálias a Perseus diretamente. Em uma outra versão, Perseus deve recuperá-las das Gréias (Graias), junto com um chapéu específico e que tornava invisível a pessoa que o usasse e um saco chamado de kibisis.

Uma das mais antigas representações conhecidas: Perseu, vestindo a talaria e carregando o kibisis sobre o ombro, vira a cabeça para matar Medusa neste relevo pithos orientalizado , c. 660 aC, Louvre (WP).

As sandálias separam o corpo do solo, da Terra, dos espinhos, de pedras afiadas e da sujeira que existe naturalmente no chão. As sandálias de Hermes separam o mundo do ar espiritual, do divino, do mundo do solo, mundo material e terreno. 

As sandálias aladas como os símbolos e ideias representadas por Hermes se misturam. Ele, enquanto Deus dos viajantes, Deus dos que caminham pelas estradas, é também aquele que leva nossa alma para outra dimensão, pois essa alma agora, separada do corpo, também tem um caminho a ser percorrido. 

Hermes, simbolicamente, leva os seres humanos do mundo material, objetivo, “vivo”, para o mundo invisível, subjetivo, o mundo dos “mortos”.

As sandálias, talárias, não deixam rastros, sustentam o peso do corpo flutuando, e mais, elas se deslocam quem as calça a uma velocidade inimaginável, própria dos deuses. As sandálias de Hermes tem a capacidade de transportar o deus entre as dimensões do céu e da terra. Transportam Hermes entre as dimensões visíveis e invisíveis, entre o reino dos vivos e o reino dos mortos. Por isso ele é o guia das almas dos mortos em seu caminho para o Hades.  

Na maçonaria é importante o simbolismo das sandálias descalçadas, essa atitude de retirar o sapado evoca a atitude de Moisés no Sinai, quando toma contato com a terra santa de pés descalços.  

As sandálias nos separam do mundo material, nos separam da sujidade do solo, e de todo aspecto que nos causaria dor e doença. Nos ritos de iniciação usa-se uma sandália ou alpargata que pode simbolizar nossa separação do mundo da matéria para ascender ao mundo da luz, ao mundo da verdade, e do conhecimento.   


Caduceu, bastão ou cajado de Hermes

O caduceu é constituido por um bastão ou cajado, com duas serpentes entrelaçadas nele no topo do bastão há duas asas pequenas.

As serpentes, que representam a dualidade humana, sobem até as asas no topo do bastão em busca de unirem-se em um único ponto. 
Serpentes são o emblema do conhecimento,

Para os Sateré-Mawé, que vivem há milênios na Amazônia, a serpente está presente no início da humanidade como a figura da mulher sedutora que de dia se deitava com o sol e à noite com a lua, sem que os dois astros percebessem que estavam sendo traídos, e dessa relação dupla, ela gerou um casal de gêmeos do qual não sabia quem era o pai. Tupana (Sol) ou Yurupary? (Lua) (Yamã, 2007). A figura de Tupana (sol) representa o dia e as coisas visíveis e a de Yurupary (lua), a noite e as coisas invisíveis, o mistério. O dia está também relacionado à energia masculina, e a noite à energia feminina. E a serpente por poder estar com ambos teria/seria o conhecimento e o mistério destes dois mundos (Nascimento s/d)

A imagem da serpente está associada ao mal, à morte e escuridão. Por ser considerado uma animal misterioso, traiçoeiro, venenoso e pronto para dar um bote a morte é seu maior significado. 

Contudo, a imagem da serpente constitui um símbolo muito rico em diversas culturas, podendo representar o rejuvenescimento, a renovação, a vida, a eternidade e a sabedoria. Todos conhedecemos a história da serpente no Édem, que ao lançar a dúvida na mente de Eva levou-a a colher o fruto proibido e a compartilha-lo com seu companheiro, Adão. A partir desse momento, a serpente fica associada, no Cristianismo, com o pecado, um animal traidor, calculista, do submundo associado ao demônio, ao diabo.

No relato Biblico as serpentes eram chamadas de Nachash Saraph, ou seja, serpentes abrasadoras, serpentes de fogo, serpentes ardentes.

Esta descrição se deve, provavelmente, à natureza do veneno tóxico e à coloração semelhante ao cobre brilhante. Estas serpentes são chamadas de ardentes, pela sua cor, ou pela fúria, ou pelo efeito de suas picadas, inflamando o corpo, causando-lhe imediatamente uma febre alta, queimando-o com uma sede insaciável. 
Aqueles que eram picados morriam rapidamente, ao que parece, era uma morte dolorosa. O salário do pecado é a morte, e uma morte dolorosa. 

O povo já não aguentando mais clamou ao senhor de Israel. Então Deus disse a Moisés: Faze uma serpente abrasadora, põe-na sobre uma haste, e todo aquele que for picado e olhar para a serpente, será curado e viverá. Deus ordena a Moisés que faça uma serpente de bronze. Todo aquele que olhasse para a serpente de bronze viveria. A serpente de bronze era apenas um símbolo da cura (cura que na verdade só era concedida por Deus através da obediência; olhar para a serpente). 

A serpente desde tempos imemoriais era associada com o rastejar, com a camuflagem, com o conhecimento do mundo material, por rastejar ela conhecia todos os segredos da terra e de suas entranhas. E Cristo passa a ser associado com a serpente que fora levantada para ser mirada, adorada e que dispensava a cura para quem a olhasse com fé.

Ainda hoje podemos encontrar esse antigo símbolo nos báculos dos Bispos Ortodoxos no Oriente. O báculo episcopal tem a cruz de Cristo com duas serpentes o que pode parecer desconcertante a primeira vista. O báculo do bispo nos lembra a serpente de bronze erguida por Moisés no deserto (Números 21). Quando os israelitas foram picados por cobras venenosas (sendo o sinal do pecado e da sabedoria terrena ou demoníaca), a serpente de bronze levantada era segundo hermeneutas a prefiguração da cruz de Cristo. Jesus Cristo “se tornou pecado” (2 Coríntios 5, 21) por nós e triunfou sobre o poder venenoso e letal do pecado. Portanto, as serpentes do báculo lembram essa história e as palavras do Senhor em João 3,14: “Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que seja levantado (crucificado) o Filho do Homem”. Outra forma interpretar as serpentes é vê-las não como símbolos de falsa sabedoria (Tiago 3,15), mas de verdadeira e santa sabedoria, como diz o Senhor (Mateus 10,16): “Eis que vos envio como ovelhas entre lobos. Por isso, sede prudentes como as serpentes e sem malícia como os pombos”.




Igrejas Católicas de Rito Bizantino (Albanesa, Bielorussa, Búlgara, Croata-Sérvia, Eslovaca, Grega, Húngara, Ítalo-Albanesa, Macedônica, Melquita, Romena, Russa, Rutena e Ucraniana), Rito Copta (Copta, Eritreia e Etíope) e Rito Antioqueno (Siro-Malankar). Também o usam os bispos da Igreja Siríaca Católica e os Armênios.

Portanto as serpentes são associadas à prudência, i.e., ao autocontrole, autodomínio, circunspecção, critério, discrição e equilíbrio.   


Ouroboros

O Ouroboros ou oroboro ou ainda uróboro, do grego Οὐροβόρος, que consome a cauda; do grego οὐρά: cauda e βόρος, consumo, comer; plural Ouroboroi ou Uroboroi é um conceito simbolizado por uma serpente que morde a própria cauda. O Ouroboros costuma ser representado pelo círculo, o que parece indicar, além do eterno retorno, a espiral da evolução, a dança sagrada de morte e reconstrução.

Famosa representação de Ouroboros do antigo texto alquímico A Crisopeia de Cleópatra, datado da época da Alexandria do século II, inclui as palavras Hen to pan, Um é o Todo. Suas metades pretas e brancas representam a dualidade gnóstica da existência. Antiga ilustração alquímica do Ouroboros com as palavras ἓν τὸ πᾶν, O Todo é Um, presente na obra de Cleópatra, a Alquimista. (MS Marciana gr. Z. 299. Datado do século X) (WP).

O ouroboros simboliza o ciclo da evolução voltada para si mesmo. O símbolo contém as ideias de movimento, continuidade, autofecundação e, em consequência, eterno retorno.

Para o gnosticismo, as serpentes, representadas no caduceu de Mercúrio entrelaçadas em um bastão e no Ouroboros, devorando a própria cauda, simbolizam a alma elevada, extasiada no nirvana, luminosamente entelequiada". Para Aristóteles a enteléquia é a realização plena e completa de uma tendência, potencialidade ou finalidade natural, com a conclusão de um processo transformativo até então em curso em qualquer um dos seres animados e inanimados do universo.

Noutra interpretação, a serpente rompe uma evolução linear, ao morder a cauda, marcando uma mudança, pelo que parece emergir num outro nível de existência, simbolizado pelo círculo. Para alguns autores, a imagem da serpente mordendo a cauda, fechando-se sobre o próprio ciclo, evoca a roda da existência.

Assim, aquele que busca conhecer a Verdade e as Leis da Natureza deve buscar unir as diferentes partes que o compõem. Esse nascimento espiritual, simbolicamente falando, representa a morte da matéria, dos desejos, dos instintos, que só é possivel através dos ensinamentos dos mestres depois da iniciação. Caso contrário continuará o homem a interpretar a vida como uma constante linearidade sem fim. 

Hermes, portanto, como um deus ligado ao ar, ao espiritual, aos ritos iniciáticos,  em algumas chaves de interpretação, pode ser considerado como uma divindade que representa a ascensão do espírito sobre a matéria. A partir da escuridão material pode-se chegar a luz bastando seguir o caminho ascendente.

A serpente que desde o tempo dos babilônios esteve relacionada com a cura e, portanto, com a atividade médica. Na lenda do príncipe Gilgamés, transmitida pela escrita cuneiforme, a serpente, após comer a erva da vida despiu-se de sua pele envelhecida e se rejuvenesceu. Tornou-se o símbolo de vários deuses da cura nas culturas antigas.

Uma outra interpretação do mito apresenta o caduceu como um atributo do deus Apolo que o deu a Hermes em troca da lira. Apolo é também considerado como deus da medicina pelos gregos e considerado o inventor da arte de curar. O juramento de Hipócrates inicia com o juramento em nome de Apolo, "juro por 
Apolo, médico, Asklépios, Hegéia e Panacéia...".

Segundo Carl Gustav Jung (1964), Ouroboros é um arquétipo primordial que desempenha um papel importante no processo de individuação, representando integração e assimilação da nossa sombra: Ouroboros se mata e se vivifica, fecunda-se e dá à luz a si mesmo. 

Ele simboliza o Uno, que procede do choque dos opostos e, portanto, constitui o segredo da matéria prima que inquestionavelmente provém do inconsciente do homem. É um antigo símbolo circular, que remonta a 5000 aC, que retrata uma cobra ou dragão devorando sua própria cauda. É um símbolo abstrato que surgiu em conjunto com a personificação do Ouroboros na história, como Python, Tiamat ou Quetzalcoatl. E que é usado especialmente para representar o ciclo eterno de destruição e renascimento.

A origem do ouroboros é atribuída por Macrobius aos fenícios, aparecendo como Leviatã e como Aion, como Oceanus. Como Kneph da antiguidade é a Serpente Primal, a divindade mais antiga do mundo pré-histórico. 

Platão descreveu um ser circular auto comedor como a primeira coisa viva no universo, uma besta imortal, mitologicamente construída. Este ser não precisava de olhos pois nada restava fora dele para ser visto, nem de ouvidos pois não havia nada para ser ouvido, e não havia atmosfera circundante para ser respirada; nem teria havido uso de órgãos com a ajuda dos quais ele pudesse receber sua comida ou se livrar do que já havia digerido, pois não havia nada que saísse dele ou entrasse nele: pois não havia nada além dele (interconexão).

Um texto funerário descoberto dentro da tumba do rei Tut, continha a imagem de Ouroboros. Essa imagem é retratada duas vezes, uma na cabeça e outra aos pés de uma figura que se acredita ser Ra-Osíris. Os egípcios acreditavam que a imagem de Ouroboros cobrindo Ra-Osíris era um símbolo para o início e o fim dos tempos. Os símbolos de ouroboros, juntamente com o texto e os desenhos, mostravam como os antigos egípcios viam a imortalidade humana e sua interconexão com os ciclos da natureza. O sol nascendo e se pondo todos os dias era o centro do mundo dos antigos egípcios. Eles acreditavam que Ra nascia todas as manhãs. Ele então viajaria pelo céu em seu barco. E então ao pôr do sol, ele morreria e se juntaria a Osíris no submundo. Então, na manhã seguinte, ele se levantaria novamente. A jornada diária de Ra pelo céu em seu barco não foi sem desafios, no entanto. A serpente gigante Apep estava sempre tentando criar o caos para ele. Na verdade, Apep também foi chamado de Senhor do Caos. Condizente com seu apelido, ele criava tempestades, raios e outros estragos para impedir o progresso de Rá pelo céu. Felizmente para Ra, Mehen “o Envelopador” o acompanhou em suas jornadas pelo céu e pelo submundo. Mehen, cujo nome significa “enrolado”, era um deus cobra que protegia Rá durante sua jornada. Assim, os arqueólogos assumem que os símbolos ouroboros do rei Tut representavam Mehen protegendo Ra (ou rei Tut) enquanto ele se movia pelos ciclos de vida, morte e renascimento.  Para os antigos egípcios, os ouroboros (e cobras em geral) simbolizavam a vida eterna. Além disso, quando Mehen lutou contra Apep (também conhecido como Senhor do Caos), o ouroboros simbolizava a capacidade de criar ordem a partir do caos (interconexão).

Na escola de pensamento Hermética greta, o Ouroboros é tomado como um reflexo da natureza cíclica da morte e do renascimento, da destruição e da criação, da transformação, conforme ilustrado pelo Hermetismo e Ciclos Cósmicos que afirma:  Como ilustração simbólica desse ponto de passagem, pode-se usar o exemplo do Ouroboros, a cobra engolindo a própria cauda e cuja boca é ao mesmo tempo lugar de destruição e fonte de geração. Isso ocorre porque o ato de comer/digerir é ao mesmo tempo destrutivo e generativo, dependendo da perspectiva que se adote. Neste caso, a cobra come sua própria cauda (destruição) e cresce a partir dela (geração) em um ciclo sem fim (interconexão).

O ouroboros é freqüentemente interpretado como um símbolo da eterna renovação cíclica ou um ciclo de vida, morte e renascimento; a descamação da pele da cobra simboliza a transmigração das almas. A cobra mordendo a própria cauda é um símbolo de fertilidade em algumas religiões: a cauda é um símbolo fálico e a boca seu símbolo complementar ou semelhante ao útero.

Assim, as serpentes do caduceu que representariam o equilíbrio quem vem da saúde/doença, luz/trevas, dia/noite, matéria/espirito,  elas se unem em um de seus lados, nos caduceus mais antigos, e estão ao redor de duas asas que representa o espírito renovado através da iniciação.

Hermes e seus aspectos




Todos esses aspectos relacionados ao deus da comunicação, dos caminhos, da poesia, se encontram em sua atuação como um deus iniciático. Que ensina o caminho para o aprendiz seguir em sua transformação. Seus objetos são estranhos para o homem atual, asas, penas, serpentes, chapéus... Mas todos estão no fundo impregnados de significados que dizem muito para o homem atual. 








Continuará...





Referências


RONNBERG. Ami. O livro dos símbolos.Reflexões sobre imagens arquetípicas. The archive for research in archetypal symbolism. Köln, Alemanha. Taschen, 2012.