INÍCIO

15 julho 2022

STENCIL

A TÉCNICA DO STENCIL

Por A. P.


A técnica do stencil permite a produção de imagens sobre um suporte mediante a interposição de um objeto vazado. A imagem ou padrão é recortada em uma superfície plana onde aplicaremos a tinta. O stencil-objeto geralmente é feito numa folha de material fino como papel, plástico, madeira ou metal, com letras ou um desenho recortados.

A aplicação de tinta sobre esse padrão vazado, recortado, que é o objeto intermediário (stencil-objeto) criará o padrão ou imagem sobre o suporte (papel, tecido, muro, etc). Essa imagem produzida na superfície subjacente, também é denominada de stencil. Assim, a palavra stencil é usada tanto para o objeto com a imagem recortada, desenho ou padrão, como para a imagem resultante sobre o suporte.

As áreas vazadas do stencil-objeto (que é uma espécie de negativo) permitem que a tinta atinja apenas algumas partes da superfície; a imagem resultante, portanto, é uma espécie de positivo no suporte. A tinta é aplicada com pincel batedor, ou com spray, (tinta spray de lata) ou aerógrafo.

A principal vantagem do stencil é que ele pode ser reutilizado para produzir repetidamente as mesmas letras ou desenhos. Embora os stenceis de aerossol ou pintura possam ser feitos para uso único, normalmente eles são feitos com a intenção de serem reutilizados. Para serem reutilizáveis, eles devem permanecer intactos após a produção de um desenho e a remoção do estêncil da superfície de trabalho.

Em alguns stenceis a forma ou desenho é mais complexa necessitando manter certas áreas móveis (as ilhas) unidas ao padrão original, isso é feito conectando-se essas ilhas de estêncil, seções de material que estão dentro de "buracos" recortados no estêncil, à outras partes do estêncil através de pontes que são seções estreitas ou finas, de material que não são cortadas.

A técnica do estêncil nas artes visuais também é chamada de pochoir. Uma técnica relacionada que encontrou aplicabilidade em algumas composições surrealistas é a aerografia, na qual a pintura com spray é feita em torno de um objeto tridimensional para criar um negativo do objeto em vez de um positivo de um desenho de estêncil.

Essa técnica foi usada em pinturas rupestres datadas de 30.000 aC, como já mencionado acima, onde mãos humanas foram usadas para produzir contornos de impressões de mãos entre pinturas de animais e outros objetos. O artista borrifou o pigmento ao redor de sua mão usando um osso oco, soprado pela boca para direcionar o fluxo de pigmento ou tinta (Fig. 1, 2). Os stênceis podem ser feitos com uma ou várias camadas de cores usando diferentes técnicas, com a maioria dos estênceis projetados para serem aplicados como cores sólidas, (Fig. 3).

A serigrafia também usa um processo de stêncil. No caso da serigrafia o processo é muito semelhante, com a exceção de que não recortamos stenceis, estes são feitos quimicamente na tela usando-se uma emulsão fotossensível. Durante a impressão de tela, as imagens para stencil são divididas em camadas de cores. Várias camadas de estênceis são usadas sobre a mesma superfície para produzir imagens multicoloridas fortes de grande vivacidade. (WP).

Nossos ancestrais usavam essa técnica basicamente para comunicar uma ideia ou conceito e para sinalizar a passagem das estações do ano, rituais e muito provavelmente para transmitir uma história de domínio de toda a comunidade. Nessa atividade usavam a mão como objeto 3D o que produzia uma imagem negativa no suporte (parede da caverna) e na maioria das vezes era executada a luz de tochas e/ou fogueiras.

A datação das pinturas das cavernas da ilha Sulawesi, na Indonésia, feita por uma equipe de pesquisadores australianos e indonésios, mostra que elas têm em torno de 39.900 anos de idade, sendo apenas 900 anos mais recentes que a primeira representação conhecida, um disco vermelho desenhado na gruta El Castillo, no norte da Espanha. Enquanto que a caverna de Chauvet no sul da França apresenta uma datação de 30.000 anos e Lascaux (região da Dordonha) leste da França apresenta uma data de 17 mil anos para os desenhos parietais e artefatos (Fig. 1, 2, e 3).

Figura 1. Mão em stencil, Lascaux, França, ca. 30.000 anos.

Figura 2. Cueva de las manos, Santa Cruz, Argentina, ca. 7.300 – 700 anos.

Figura 3. Stencil de 8 camadas ou layeres (stencilstop).


As mais antigas máscaras para stencil foram feitas de material orgânico, e por isto, não se preservaram. Uma documentação mais precisa de aplicações do stencil, desenvolvida na China e Japão, datam por volta do ano 500 e 1000 a.C. (séc. V a X AD).

Os egípcios há mais ou menos 5.000atrás usavam o papiro e o couro como moldes para stencil para estampar motivos nas paredes ou muros de templos ou sepulturas, também usavam uma gama maior de pigmentos e pincéis para borrifar a tinta.

Os chineses já usavam essa técnica e a implementaram para decorar armaduras, estandartes de guerra e roupas feitas com seda. Os motivos (desenhos) tornaram-se mais complexos, entretanto usavam poucas cores.

Entretanto, foi no Japão, no reinado de Ryukyu no séc. XIV, que a técnica do stencil sobre diferentes tipos de tecido mais se aperfeiçoou. Isso deveu-se à introdução da primeira máscara lavável e reutilizável. Os japoneses usaram o stencil para estampar seus quimonos de seda, algodão, linho, lã e tecidos confeccionados com fibras de uma espécie de bananeira (Musa basjoo Siebold & Zucc. ex Iinuma (1874)) que deu origem ao estilo “bingata”, literalmente, “estilo vermelho” (Fig. 4, 5, e 6). O estilo bingata é uma técnica de pintura com stencil exclusiva da ilha de Okinawa.Essa técnica ainda é usada para tingir tecidos, geralmente com cores brilhantes com vários padrões ao mesmo tempo, tais como pássaros, peixes, água, água corrente, borboletas e flores. Acredita-se que essa técnica desenvolveu-se como uma síntese de processos de tingimento indianos, chineses e javaneses.

O estilo bingata, utiliza moldes de papel encerados que eram produzidos com folhas de amoreira grudados com tanino extraído do caqui, depois era defumado e posto para envelhecer, esse processamento torna o papel impermeável e reutilizável. Depois de pronto, os desenhos eram feitos sobre ele e cortados delicadamente e então aplicados sobre o tecido, usando-se pincéis e uma pasta de amido chamada “nori”.

Outro estilo de pintura japonês que se utiliza do stencil é o estilo Katazome. Esse método ou técnica de tingimento de tecidos se caracteriza pelo uso de uma pasta resistente a água (insolúvel) aplicada com stencil; sobre esse stencil então se aplica a pasta de arroz com um pincel ou espátula para bloquear a penetração do corante em determinadas áreas. O pigmento é adicionado à mão ou imerso na água.

Aos japoneses é creditado o desenvolvimento de uma solução única e criativa para um dos mais difíceis problemas da técnica de estêncil, que é o de como conter as formas soltas nos desenhos intricados. Estes detalhes foram afixados ao conjunto de formas cortadas por delicados fios de seda ou por fios de cabelo humano, que formam “pontes” que se tornam quase ou totalmente invisíveis no resultado final.

No Japão também se fazia uso do stencil combinado com a xilogravura de um único bloco. Era um método usado para imprimir camadas de cor na impressão final. Chamado de kappazuri-e ou katagamizuri-e (Fig.7a,b), consistia na aplicação de tinta sobre determinadas áreas da gravura através do stencil; para cada cor uma máscara diferente era cortada; e o resultado final deixava ver as pinceladas aplicadas, sobre a gravura.


Figura 4. Estampa produzida sobre tecido em estilo Bingata.

Figura 5. Bingata de Okinawa, com água corrente, folhas e pássaros.

Figura 6. Kimono Bingata com pinheiros e flores de cerejeira.

Figura 7a. Urakusai Nagahide (1800s) e Utagawa Kuniyoshi(1797 - 1861)Kappazuri.


Figura 7b. Urakusai Nagahide (1800s) e Utagawa Kuniyoshi(1797 - 1861)Kappazuri.

O método do stencil encontrou seu caminho para Europa via rotas comerciais da época a partir do final do séc. do século XIII e XIV provavelmente através das viagens de Marco Polo quando muitas ideias novas fluíram para o ocidente. Já no início do século XIV, e no sec. XV por volta de 1450, foi usado na decoração de igrejas, pisos, móveis e paredes. Além disso, essa técnica foi muito utilizada com a xilogravura para criar impressos que precisavam ser reproduzidos em larga escala, como as cartas de baralhos.

I can't live without my radio (yellow) (etsy)


Martin Whatson, artista de rua norueguês,  incorpora arte de rua com cores vibrantes em muros cinzas, para dar vida às paisagens urbanas.





Fontes







(Parte de um livro que estou escrevendo sobre Gravura)





OZYMANDIAS

OZYMANDIAS

by Percy Bysshe Shelley
Escrito: 1817 publicado: 1818

"Ozymandias" é um soneto escrito pelo poeta romântico inglês Percy Bysshe Shelley (1792–1822). Esse poema foi publicado pela primeira vez na edição de 11 de janeiro de 1818 do The Examiner of London. O poema foi incluído no ano seguinte na coleção de Shelley Rosalind and Helen, A Modern Eclogue; with Other Poems, e em uma compilação póstuma de seus poemas publicada em 1826. 

The Examiner (WP)

Shelley escreveu o poema em competição amigável com seu amigo e colega poeta Horace Smith (1779-1849), que também escreveu um soneto sobre o mesmo tema com o mesmo título. O poema explora o destino da história e os estragos do tempo: mesmo os maiores homens e os impérios que eles forjam são impermanentes, seus legados destinados a decair no esquecimento.

Ramessés II (1290-1189 AEC) XIX dinastia. 
(Egyptian escupture or Ramesses II, bust. British Museum)

Ozymandias

Na antiguidade, Ozymandias era o nome grego para o faraó Ramessés II (r. 1279–1213 aC), derivado de uma parte de seu nome no trono, Usermaatre. 
Em 1817, Shelley começou a escrever o poema Ozymandias, depois que o Museu Britânico adquiriu o Younger Memnon, um fragmento de cabeça e tronco de uma estátua de Ramessés II, que datava do século XIII a.C. 

Anteriormente, em 1816, o arqueólogo italiano Giovanni Battista Belzoni havia removido o fragmento de estátua de 6.580 kg do Ramesseum, o templo mortuário de Ramsés II em Thebas, Egito. A reputação do fragmento da estátua precedeu sua chegada à Europa Ocidental, depois de sua expedição egípcia em 1798, Napoleão Bonaparte não conseguiu adquirir o Younger Memnon para a França. Embora o Museu Britânico esperasse a entrega da antiguidade em 1818, o Younger Memnon não chegou a Londres até 1821. 

Shelley publicou seus poemas antes que o fragmento da estátua de Ozymandias chegasse à Grã-Bretanha, e a visão da erudição moderna é que Shelley nunca viu a estátua, embora ele possa ter aprendido sobre isso através de reportagens, pois era bem conhecido mesmo em sua localização anterior perto de Luxor.

O livro Les Ruines, ou méditations sur les révolutions des empires (1791) de Constantin François de Chassebœuf, conde de Volney (1757–1820), publicado pela primeira vez em uma tradução inglesa como The Ruins, or a Survey of the Revolutions of Empires (Londres): Joseph Johnson, 1792) por James Marshall, foi uma influência em Shelley. Shelley explorou temas semelhantes em seu trabalho de 1813, Queen Mab. Normalmente, Shelley publicava suas obras literárias de forma anônima ou pseudônima, sob o nome "Glirastes", um nome greco-latino criado pela combinação do latim glīs (dormouse, nome de um rato que hiberna por 6 meses) com o sufixo grego ἐραστής (erastēs, amante); o nome Glirastes se referia a sua esposa, Mary Shelley, a quem ele apelidou de dormouse. (WP)



Escultura egípcia do busto colossal de Ramesses II, "The Younger Memnon.
British Museum, UK.

Os nomes do faraó Ramessés II

Detalhe da cartucha de Ramessés II (1290-1189 AEC), XIX dinastia. 
(Egyptian antiquite detail of the cartridge of Pharaoh Ramses II; 1292-1186 BC)

Ramessés II nasceu em 1303 a.C. Filho do faraó Seti I e da rainha Tuya. Ele foi nomeado após o grande faraó Ramssés I, que era seu avó, morrer. Ele tinha cinco anos de idade quando seu pai assumiu o trono. Ele foi preparado por ele para se tornar um futuro líder. Porém, Ramessés II não foi o único a receber esse tratamento.

Entre o trono e Ramssés II, havia seu irmão mais velho, que como filho mais velho do faraó, se tornou príncipe. No entanto, por alguma razão desconhecida, o jovem morreu aos 14 anos de idade. Assim, com a morte de seu irmão, Ramessés II se tornou príncipe e, aos 25 anos de idade, se tornou faraó. 

Após se tornar príncipe, Ramssés II ajudou seu pai em expedições militares. Aos 22 anos, já liderava o exército egípcio. Quando faraó, Ramessés II travou diversas batalhas para proteger as fronteiras do Egito. Seu comando sobre o exército era notável. Ele liderou uma tropa de cerca de 20 mil homens contra o magnifico exército Hitita, no que ficou conhecido como a Batalha de Kadesh. O faraó egípcio lutou bravamente, escapando da morte para recuperar as províncias perdidas para seus inimigos. Ramessés II entrou para os livros de história como um dos heróis de guerra mais corajosos e estratégicos (fatos).

Entretanto a relação com esses vizinhos nunca foram de paz e harmonia, como relata Kawaminami (2019).

O contato entre egípcios e hititas antes da (XIX) 19ª Dinastia egípcia oscilou entre aproximações comerciais, diplomáticas e disputas territoriais. Durante a (XVIII) 18ª Dinastia, Amenhotep III (1390-1352 a.C.) e Akhenaton (1352-1336 a.C.) haviam estabelecido uma relação de igualdade com o reino de Hatti, a qual conhecemos pelas cartas de Amarna, que foram encontradas em 1887, no sítio de Tell el-Amarna, no Egito. São cerca de 400 cartas escritas em tabletes, em cuneiforme na língua acadiana, que datam da segunda metade do século XIV a.C. e representam parte da correspondência egípcia com reinos aliados e reinos subalternos no Antigo Oriente Próximo (PFOH, 2016, p.30). Nestas correspondências, os chamados “Grandes Reis” estabeleceram uma aliança (em teoria, entre iguais) em irmandade e trocavam presentes, além de, por vezes, negociarem acordos matrimoniais. Faziam parte desta aliança os reinos do Egito, Babilônia, Assíria, Mitani e Hatti (Rainey, 2015, Kawaminami, 2019).

A negociação dos casamentos interdinásticos (ou diplomáticos) foi uma prática repleta de tensões e conflitos entre os reis envolvidos nela. Esta prática representava uma consolidação da irmandade e da relação igualitária entre dois reis e permitia o envio de presentes e bens ligados ao dote e contra-dote do matrimônio. Nesse contexto, os Grandes Reis do Antigo Oriente Próximo enviavam algumas de suas filhas em casamento para o faraó que, em contrapartida, não enviava uma princesa egípcia em matrimônio para esses reis, o que gerou conflitos e questionamentos aos reis egípcios envolvidos. Para os faraós, não enviar uma de suas princesas em casamento representava uma perspectiva cultural de superioridade frente aos reinos estrangeiros (frequentemente representados nas fontes egípcias como o caos), uma vez que, caso uma filha do faraó se casasse com um rei que não fosse egípcio, isto seria uma representação do Egito submetido ao caos, a um reino considerado inferior. Isso traria diversas implicações do ponto de vista faraônico, como a possibilidade de uma reclamação do trono do Egito por um possível herdeiro, fruto de um matrimônio diplomático, assim como do ponto de vista cultural dos egípcios. Apesar da unilateralidade desse posicionamento e das constantes discussões nas negociações matrimoniais, os Grandes Reis enviavam, mesmo assim, suas filhas em casamento para Amenhotep III e Akhenaton, provavelmente devido a grande quantidade de ouro (material escasso na região da Mesopotâmia e da Anatólia) que os faraós enviavam como presentes matrimoniais e como contra-dote.

Estátua colossal do faraó Ramssés II em Luxor

Ramssés tinha um verdadeiro fascínio pela arquitetura. Em seu longo governo, que durou 66 anos (1279 a.C. a 1213 a.C.) foram construídas e reformadas estruturas, monumentos e templos. Durante seu reinado, promoveu um verdadeiro renascimento arquitetônico em termos de diversidade e design. Duas grandes obras que ele construou foram: o templo Ramesseum e Abu Simbel. Ramessés II modificou, usurpou ou construiu muitos edifícios do zero, e o mais esplêndido deles, de acordo com as práticas de sepultamento real do Novo Reino, teria sido seu templo memorial: um local de culto dedicado ao faraó, deus na terra, onde sua memória teria sido mantida viva após sua morte. Os registros remanescentes indicam que o trabalho no projeto começou logo após o início de seu reinado e continuou por 20 anos.

Ramesseum, originalmente chamada de Casa de milhões de anos de Usermaatra-Setepenra que se une a Tebas, a cidade no domínio de Amon. 
Usermaatra-Setepenra foi o prenome de Ramsés II.
(Por Marc Ryckaert, MJJR)

O projeto do templo mortuário (funeráro) de Ramessés, o Ramesseum, segue os cânones padrão da arquitetura de templos do Novo Império. Orientado a noroeste e sudeste, o próprio templo compreendia dois pilares de pedra (portais, com cerca de 60 m de largura), um após o outro, cada um levando a um pátio. Além do segundo pátio, no centro do complexo, havia um salão hipostilo coberto de 48 colunas, circundando o santuário interno. Um enorme poste ficava diante da primeira corte, com o palácio real à esquerda e a estátua gigantesca do rei aparecendo na parte de trás.

Planta do templo de Ramesseum.

O templo era dedicado ao deus Amom e ao próprio faraó, encontrando-se hoje num estado bastante deteriorado. Nas paredes do templo foram representados eventos como a Batalha de Cades e a celebração da festa do deus Mim, assim como uma procissão dos numerosos filhos do faraó. Este templo é identificado com a "Tumba de Osimandias" descrita pelo historiador grego Diodoro Sículo no século I a.C. Na décima oitava posição cita o faraó Merneptá, filho e sucessor de Ramessés II, e naquele local havia sido descoberto um papiro que continha uma obra literária chamada "Conto do Camponês Eloquente" e textos de caráter médico.

Cartucha

Segundo Jamille (2020) Os hieróglifos egípcios foram desenvolvidos em algum momento entre o Período Pré-Dinástico e a Época Tinita (também chamada de Época Arcaica). Em verdade, existe um consenso entre os acadêmicos de que esta complexa escrita egípcia surgiu justamente durante a época de unificação do Alto e Baixo Egito. E os nomes próprios do Egito Antigo usualmente falavam de algum aspecto do indivíduo como “A Bela Chegou”, “Aquele que Vive para Amon”, etc. 





Ramesses

Nome de Alexandre o grande em hieróglifos (WP)

Mas, os nomes dos membros da realeza tinham um adicional especial: durante os primeiros séculos da era dos faraós os nomes dos reis eram representados dentro de símbolos retangulares chamados “serekh”. Com o tempo a tradição mudou e os nomes dos reis, assim como das rainhas, princesas e príncipes passaram a ser escritos dentro do que nós convencionamos a chamar de “cartuches” palavra francesa para cartucho. 

Por que cartuche? Por que em francês? Esse foi um apelido dado pelos soldados franceses durante a invasão napoleônica ao Egito no século XVIII. De acordo com eles o símbolo oval com um tracinho em sua ponta lembrava os cartuchos das balas de suas espingardas.

Já o motivo do seu formato provavelmente tem a ver com o “shen”, símbolo da eternidade ou a amplitude do domínio real. Mas é certo que, ao contrário do que dizem alguns, nada tem a ver com o ouroboros, serpente que morde a cauda. Tal como o serekh, a finalidade de se escrever um nome real dentro de um cartuche era conferir proteção divina. Contudo, se fosse de interesse de um rival político ou um desafeto destruir a memória de um faraó, era só apagar o seu nome, não raramente juntamente com seu cartuche (1, 2).

Como ler textos em hieroglifos veja aqui.

Ozymandias por Shelley (poemhunter)


OZYMANDIAS
by Percy Bysshe Shelley
Escrito: 1817 publicado: 1818

I met a traveller from an antique land
Who said: Two vast and trunkless legs of stone
Stand in the desert. Near them on the sand,
Half sunk, a shatter'd visage lies, whose frown
And wrinkled lip and sneer of cold command
Tell that its sculptor well those passions read
Which yet survive, stamp'd on these lifeless things,
The hand that mock'd them and the heart that fed.
And on the pedestal these words appear:
"My name is Ozymandias, king of kings:
Look on my works, ye Mighty, and despair!"
Nothing beside remains: round the decay
Of that colossal wreck, boundless and bare,
The lone and level sands stretch far away.



OZYMANDIAS
by Percy Bysshe Shelley
trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos. [1989]
(em: Ode ao vento oeste e outros poemas, editora Hedra, p. 41)

Ao vir de antiga terra, disse-me um viajante:
Duas pernas de pedra, enormes e sem corpo,
Acham-se no deserto. E jaz, pouco distante,
Afundando na areia, um rosto já quebrado,
De lábio desdenhoso, olhar frio e arrogante:
Mostra esse aspecto que o escultor bem conhecia
Quantas paixões lá sobrevivem, nos fragmentos,
À mão que as imitava e ao peito que as nutria
No pedestal estas palavras notareis:
“Meu nome é Ozimândias, e sou Rei dos Reis:
Desesperai, ó Grandes, vendo as minhas obras!”
Nada subsiste ali. Em torno à derrocada
Da ruína colossal, a areia ilimitada
Se estende ao longe, rasa, nua, abandonada.


Traduções "pescadas" na internet aqui.


OZYMANDIAS
by Percy Bysshe Shelley
trad. Ivan Justen Santana. [2009]
em: blog Um sim em si, 17/03/09
.
Topei um viajante duma antiga aldeia
Que disse: Há duas pernas de pedra, sem corpo,
De pé no deserto. Perto delas, na areia,
Um rosto meio enterrado jaz, cujo torto
Lábio de escárnio e de frio orgulho alardeia
Que seu escultor tais paixões reconhecia,
As quais ainda vivem, e ali são as marcas
Que a mão tripudiava e o coração nutria.
No pedestal, palavras que sempre lembrei:
“Eu sou Ozymândias, monarca dos monarcas:
Olhai minhas obras, ó Fortes, e tremei!”
Nada mais restou: ao redor da corrosão
Do colossal destroço, nuas e sem lei,
As ermas areias se estendem na amplidão.


OZYMANDIAS
by Percy Bysshe Shelley
trad. Adriano Scandolara. [2015]
em: Folha de São Paulo, 03/05/15, aqui
e em Prometeu Desacorrentado e outros poemas [2015], p. 307


Ouvi um viajante de uma antiga terra
Dizer: “um par de pernas jaz truncado
No deserto. E, perto, a areia enterra
Os restos de um semblante estilhaçado
Que diz, com lábio e cenho frio de guerra,
Como à pedra sem vida se esculpiu
Tais paixões vivas na obra que se fez
Que a mão logrou e o coração nutriu.
E, ao pedestal, palavras há inscritas:
Meu nome é Ozimândias, rei dos reis,
Curva-te, Ó Grande, ao fausto que ora fitas!
Nada mais resta: sós, ao longe, à margem
Da imensa ruína, nuas e infinitas,
As areias compõem toda a paisagem”.


OZYMANDIAS
by Percy Bysshe Shelley
trad. John Milton e Alberto Marsicano. [2010]
em: Sementes aladas, editora Ateliê, p. 51.


Conheci um viajante de uma terra ancestral
Contou-me: Sem tronco, duas pernas enormes
Erguem-se no deserto… Perto delas no areal,
Semienterrada, a cabeça em partes disformes,
Franze o cenho, e o escárnio de um comando glacial,
Mostra-nos que o escultor captou bem o seu estado
Que ainda sobrevive estampado nessas pedras estéreis,
A mão que dele troçou e o coração que foi alimentado;
E no pedestal estão grafadas as seguintes palavras:
“Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Ó Poderosos, rendei-vos ao olhar minhas obras!”
Nada além permanece. Ao redor do desolamento
Da ruína colossal, infinitas e desertas
As areias planas e solitárias se estendem ao vento.


OZYMANDIAS
by Percy Bysshe Shelley
trad. Joedson Adriano. [2012]
em: blog pessoal do tradutor, 28/06/12.

Eu encontrei um viajante de uma terra antiga
Que disse: duas destroncadas e vastas pernas de pedra
Permanecem no deserto. Na areia a elas contígua,
Um tanto soterrada, fendida face queda,
De carranca e hirto lábio e escárnio de quem castiga
Que dizem que seu escultor tais paixões bem traduziu
Que ainda sobrevivem, impressa em coisas inúteis,
A mão que as macaqueou e o coração que as nutriu.
No pedestal em palavras aparece declarado:
“Meu nome é Ozymândias, eu sou o rei dos reis;
Olhai minhas obras, grandes, e ficai desesperados!”
Nada ali remanesce: ao redor da decadência
Daquela colossal ruína, desmedido e despido,
O páramo plano areoso se estende em longa distância.


OZYMANDIAS
by Percy Bysshe Shelley
trad. Tomaz Amorim Izabel. [2013]
em: Ponto Virgulina, 12/09/13

Conheci um viajante de antiga terra
que disse: ― Duas pernas destroncadas, pétreas,
estão no deserto. Perto delas, soterra
a areia meia face despedaçada,
cujo lábio firme e poderio de olhar, frio,
diz que seu escultor bem lhe leu as paixões
que sobrevivem, nas meras coisas sem vida,
à mão que zombou e ao coração que nutriu.
E no pedestal tais palavras aparecem:
“Meu nome é Ozymandias, o rei dos reis:
Vejam minhas obras, ó fortes ― desesperem-se!”
Nada resta: junto à ruína decadente
e colossal, de ilimitada aridez,
areias, lisas e sós, ao longe se estendem.


OZYMANDIAS
by Percy Bysshe Shelley
trad. André Vallias. [2015]
em: Acontecimentos, 12/03/15


Disse o viajante de uma antiga terra:
“Duas pernas de pedra, no deserto,
Despontam gigantescas, e bem perto
Há um rosto destroçado que descerra
Os lábios num sorriso de comando
Que atesta: o escultor leu com mestria
Paixões que na matéria inerte e fria
A mão que as entalhou vão perdurando.
‘Meu nome é Ozymândias, rei dos reis:
Desesperai perante as minhas obras!’
Alerta uma inscrição no pedestal.
Mas são ruínas tudo o que ali sobra,
E um mar de areia, em árida nudez,
Circunda a decadência colossal”.


OZYMANDIAS
by Percy Bysshe Shelley
trad. Pedro Mohallem. [2015]

Ouvi de um viajante de um antiga aldeia:
— Duas pernas de pedra vastas e sem tronco
Há no deserto, e, próximo a elas, jaz na areia
Um rosto espedaçado, cujo aspecto bronco,
Franzido o lábio e ufano o riso, delineia
O triunfo do escultor, que tais paixões bem lera,
Prevalecendo, assim, impressas na aridez,
Ao seio que as nutrira e à mão que escarnecera.
E sobre o pedestal pode-se ver gravado:
MEU NOME É OZIMÂNDIAS, REI DOS REIS:
CURVAI-VOS TODOS ANTE O MEU LEGADO!
Nada mais resta: em torno ao palco derradeiro
De escombros colossais, chão liso e ilimitado,
O deserto se estende ao horizonte inteiro.


OZYMANDIAS
by Percy Bysshe Shelley
trolldução de Pedro Mohallem. [2015]

Conheci um sujeito viajante
que disse: — Uns pedregulho no deserto
tão erguido, e afundado, lá por perto
na areia, um cabeção, cujo semblante,
o beiço velho e a cara de mandão
falam que o escultor fez um serviço
tão bom, que a coisa morta vive! e nisso
pusera a mão de fada e o coração;
No meio, tem umas palavra boa:
“Meu nome é Ozimândia, o Pirocudo:
se liga só ni mim, negada, e chora!”
Nada além de ruínas resta: tudo
foi-se, e apenas a estátua se apregoa
no deserto que a tudo leva embora.


OZYMANDIAS
by Percy Bysshe Shelley
trad. Henrique Hill. [2015]

Disse-me, de uma antiga terra, um viajante:
— Duas pernas de pedra, vastas, destroncadas
Erguem-se no deserto. Meio afundado ante
Elas, na areia, um rosto com as feições quebradas,
Que o lábio crespo e o escárnio de frio comandante
Dizem que o artista bem seus sentimentos leu,
Que vivem ainda, impressos em tal aridez,
O peito que os nutriu e a mão que escarneceu.
Do pedestal essas palavras o olho extrai:
“Meu nome, ó Grandes, é Ozymândias, rei dos reis,
As minhas obras vede e vos desesperai!”
Nada mais resta, só decadência se hasteia
Da colossal ruína que se sobressai
Naquele plano e solitário mar de areia.


OZYMANDIAS
by Percy Bysshe Shelley
paráfrase de Henrique Hill. [2015]

Um caba réi dos cafundó do Judas
Disse que no Sertão viu dois pernote
Sem corpo. Uma cabeça que a carcunda
Era a areia e que tinha, além duns corte,
Um beiço réi e risada bem manduda
Dizendo que quem fez foi de primeira,
Que o troço era meio vivo, a mão
Boba e o peito até tinha safadeza.
E na base ele viu umas palavra:
“Beija meus pés, purquê Ozimandião
É dono até do que o teu vô lavrava!”
E é só: junto aos tramboio véi da estártua,
A tal da seca ali era bem braba,
Nuinha, sem fim e pra lá de farta.


OZYMANDIAS
by Percy Bysshe Shelley
trad. Luis Fernando Pinheiro. [2015]

Topei co’ um viajor de antiga aldeia
Que disse: — Um pétreo par de pernas jaz
Sem torso no deserto. E ali na areia
Um rosto semi-imerso e roto traz
Do lábio o esgar, do mando frio a veia,
Cujo escultor tão bem captara o esp’rito,
Que sobrevive, impresso na aridez,
À mão que o escarnecia, e à alma a nutri-lo.
E isto no pedestal se lê em laivos:
“Meu nome é Ozymândias, Rei dos reis,
Vede a minha obra, ó vós, e desperai-vos!”
Nada além resta: em volta da sucata
Da ruína imensa, sem contorno e calvos,
Estendem-se os sem-fins de areia chata.



OZYMANDIAS
by Percy Bysshe Shelley
trad. Guilherme Gontijo Flores [2015]


Eu vi um viajante arcaico certo
dia dizer que perna pétrea e vasta
jaz destroncada no deserto. E perto,
fundo na areia, um rosto que desbasta
rugas no lábio e régio olhar aberto
diz que o escultor sabia o sentimento
que sobrevive no que hoje é “ex-”:
a mão entalha, o peito é alimento.
E sobre o pedestal letras dispostas:
“Meu nome é Ozimândias, rei dos reis:
olhem e chorem ante as minhas portas!”
Ao lado o nada; tudo é decadência
do colossal naufrágio e sobrepostas
areias nuas nadam sem clemência.


OZYMANDIAS
by Percy Bysshe Shelley
trad. Matheus “Mavericco”. [2015]


Alguém de antigas plagas me contara:
― Pernas de pedra sem um corpo estão
Na areia. Perto, quase imersa, a cara
De alguém, quebrada, jaz, cuja expressão,
Boca e escárnio bélico escancaram
O quão bem o escultor lera o intento,
Tanto que lá vivem, na estátua-túmulo,
A mão que riu, o seio que deu alento.
E no pedestal lê-se isto somente:
“Rei dos reis Ozymândias me intitulo;
Veja minha obra, ó grande, e se atormente!”
Nada mais resta: próximo ao resquício
Da colossal ruína, segue em frente
O deserto sem término ou início.


Busto de Percy B. Shelley (americanart)

Percy Shelley 
(Google images)









Fonte












Nome escrito em hieroglifo (mini)





14 julho 2022

ARTE GREGA


Attic red-figure kylix (Getty Museum)
No interior deste fragmento de uma grande taça ateniense de figuras vermelhas, um jovem senta-se desanimado. Envolto em sua capa, ele descansa a cabeça abaixada em sua mão. Um homem mais velho e barbudo está diante dele, apoiado em um cajado. Embora nenhuma das figuras seja nomeada, a composição se aproxima de outras cenas que mostram a missão de Ulisses à tenda de Aquiles, episódio descrito na Ilíada de Homero. Aquiles ficou profundamente ofendido quando Briseis, sua concubina, foi tomada por Agamenon, e assim se retirou do campo de batalha e ficou de mau humor em sua tenda. Durante sua ausência, os gregos se saíram mal na batalha e, assim, seus líderes enviaram uma delegação para convencer Aquiles a retornar. Mesmo o astuto Ulisses, no entanto, mostrou-se incapaz. Somente a morte de seu querido companheiro Pátroclo motivaria Aquiles a voltar à luta.

A parte externa da taça mostra uma cena mitológica – Hércules competindo com os filhos de Eurito em uma competição de arco e flecha – e, do outro, o que parece ser um grupo de figuras sentadas e em pé assistindo a um par de atletas lutando boxe ou luta livre.


Correndo ao redor do pé deste copo está a inscrição: “Kleophrades, filho de Amásis, o fez”. Não só o oleiro Kleophrades nos diz que ele fez o vaso, mas ele nomeia seu pai, Amásis, que também era oleiro. Evidentemente, o ofício havia passado pela família. Para decorar a taça, Kleophrades passou a vasilha para Douris, que assinou seu nome no tondo.

On the interior of this fragment of a large Athenian red-figure cup, a youth sits despondently. Wrapped in his cloak, he rests his downcast head in his hand. An older, bearded man stands before him, leaning on a staff. Although neither figure is named, the composition is close to other scenes that show the mission of Odysseus to Achilles' tent, an episode described in Homer’s Iliad. Achilles took deep offense when Briseis, his concubine, was taken by Agamemnon, and so withdrew from the battlefield and sulked in his tent. During his absence, the Greeks fared badly in battle, and so their leaders sent a delegation to convince Achilles to return. Even the wily Odysseus, however, proved unable. Only the death of his dearest companion Patroklos would motivate Achilles to rejoin the fighting. 

The outside of the cup shows a mythological scene—Herakles competing with the sons of Eurytos in an archery contest—and, on the other, what appears to be a group of seated and standing figures watching a pair of athletes boxing or wrestling. 

Running around the foot of this cup is the inscription: “Kleophrades, son of Amasis, made [it]”. Not only does the potter Kleophrades tell us that he made the vase, but he names his father, Amasis, who was also a potter. Evidently the craft had passed down through the family. To decorate the cup, Kleophrades passed the vessel to Douris, who signed his name on the tondo.



CATÁLOGO RAISONNÉ
Caskey-Beazley, Pinturas de vasos áticos (MFA), no. 009.

Embora este kylix represente um arqueiro solitário (toxotai), ele se agacha atrás de seu escudo como se estivesse participando de uma emboscada. Seus pés repousam sobre o contorno do tondo no qual ele está contido. Ele está nu, exceto por um bashlyk (um chapéu pontudo com abas de orelha e lapelas que podem ser enroladas no pescoço para se aquecer). Este chapéu está associado aos citas, a antiga cultura nômade da Ucrânia moderna, da Rússia do sul da Europa e da Crimeia, que eram famosos na Grécia por seu domínio do arco e flecha. Este arqueiro também é identificado por uma aljava Cita chamada gorytos; pende de uma alça de ombro executada em esmalte diluído e tem uma borda curva porque também funcionava como uma caixa de arco. O arco (toxon) deste arqueiro está  infelizmente escondido atrás de seu escudo. O tiro com arco estava tão fortemente ligado à identidade cita (Scythian) na pintura grega durante o período arcaico, no entanto, que o próprio indivíduo denota o ato de atirar com o arco. O escudo é decorado com um cavaleiro avançando para a direita com uma lança. Este elemento da composição sugere uma batalha maior e o inimigo invisível que este arqueiro mira.
(PROVENIÊNCIA: Em 1901: com Edward Perry Warren (de acordo com os registros de Warren: Comprado em Atenas: de Locris.); comprado pela MFA de Edward Perry Warren, dezembro de 1901).

CATALOGUE RAISONNÉ
Caskey-Beazley, Attic Vase Paintings (MFA), no. 009.
DESCRIPTION
Although this kylix depicts a lone archer (toxotai), he crouches behind his shield as if he was participating in an ambush. His feet rest on the outline of the tondo in which he is contained. He is nude except for a bashlyk (a pointed hat with ear flaps and lappets which could be wrapped around the neck for warmth). This hat is associated with the Scythians, the ancient nomadic culture of modern-day Ukraine, Southern European Russia, and Crimea, who were famed in Greece for their mastery of archery. This archer is also identified by a Scythian quiver called a gorytos; it hangs from a shoulder strap executed in dilute glaze and has a curved edge because it also functioned as a bow case. The bow (toxon) of this archer is poignantly hidden behind his shield. Archery was so heavily linked to Scythian identity in Greek painting during the Archaic period, however, that the individual himself denotes the act of shooting the bow. The shield is decorated with a horseman charging towards the right with a spear. This element of the composition suggests a larger battle and the unseen enemy at which this archer takes aim.
(PROVENANCE: By 1901: with Edward Perry Warren (according to Warren's records: Bought in Athens: from Locris.); purchased by MFA from Edward Perry Warren, December 1901).















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A BOLHA FASCISTA

A elite exige de Lula posicionamentos irrelevantes, 
diz ex-banqueiro




Reportagem por Daniela pinheiro Colunista do TAB
09/07/2022

Este texto é parte da versão online da edição de sexta-feira (8) da newsletter de Daniela Pinheiro. No conteúdo completo, a colunista fala sobre o show de Marisa Monte em Lisboa, a polêmica da estátua 'A Foda dos Nus' na imprensa portuguesa e mais. 


Não queria que meus filhos vivessem na bolha no Brasil'

Em março passado, o ex-banqueiro e empreendedor social Paulo Dalla Nora Macedo, 47, despachou dois contêineres com toda sua mobília, uma preciosa coleção de obras de arte, que inclui 65 quadros de artistas plásticos de renome nacional e internacional, toda biblioteca de clássicos e se mudou com a mulher e os dois filhos para Lisboa. Diferentemente da leva de brasileiros que ruma para Portugal, ele não estava fugindo da violência, nem da crise econômica, também não era por conta da corrupção endêmica no país ou porque estava preparado para desfrutar a aposentadoria. Sua questão foi o bolsonarismo. Ou melhor, o que sobrará dele.

Para Dalla Nora, foi a impossibilidade de continuar lidando com um jeito de ser, de pensar, de agir, de um grupo de pessoas que se identifica com o atual mandatário e que deve manter o protagonismo mesmo com Bolsonaro fora do governo. "Aquelas pessoas que saíram do armário, na acepção ruim da expressão, e se sentiram autorizadas a expressar o racismo, a misoginia, o preconceito, a desfaçatez e até a falta de educação sem pudor, elas não vão desaparecer do dia para a noite". Ele acha que o Brasil piorou, e a elite, da qual participa, tem sua responsabilidade.

Dalla Nora era herdeiro de uma empresa de transportes e seguros no Nordeste, comprada pela gigante Prosegur, e foi um dos sócios do Banco Gerador, vendido em 2016. Desde então, passou a investir em diferentes negócios, dedicar-se a causas sociais e tentar elevar o debate político nacional. É vice-presidente do Instituto Política Viva, um grupo ativo nas discussões e ações para mudar o rumo do país. Também criou o Poder do Voto, que ajuda cidadãos a acompanhar e entender votações no Congresso. Em Lisboa, vai ser restaurateur. Em breve, inaugura um bistrô francês, cujas receitas levam ingredientes brasileiros e que é decorado com obras de artistas modernistas. Não será para todo mundo: um prato de moqueca com dendê e carabineiro (um tipo de camarão) vai custar 48 euros. Em uma hora de conversa, ele contou por que os ricos ainda apoiam o governo, como o bolsonarismo afetou sua vida e mais. O depoimento foi condensado e editado para melhor compreensão.

“Saí do Brasil por uma conjunção de fatores motivados por um gatilho específico. Primeiro, não queria mais que meus filhos vivessem na bolha que vivemos lá”.

Em São Paulo, capital financeira, opções de lazer privadas, tudo é fechado: é clube, praia, escolas, academia. Queria que eles tivessem um pouco o que eu tive no Recife até os meus 20 anos: mais liberdade, mais diversidade. Outro dia, fomos aqui na piscina pública de Oeiras. Foi ótimo, mas vários amigos meus ficaram chocados. Por que eu fui para uma piscina pública? A elite não conhece e não se interessa em conhecer o Brasil. Sabem mais da ruazinha em Nova York ou em Miami do que um entroncamento no Pina. O cara entra no carro e vai para o trabalho. Quando vai para a praia, vai de helicóptero, chega lá e vive na bolha. O que é aquele Epcot Center que se chama Trancoso? Aquilo não é Nordeste, aquilo não é o Brasil. Isso sempre me incomodou muito. Uma vez em Recife, eu estava em um jantar em torno de Jarbas Vasconcelos onde estava também o vice-presidente do Bradesco. De repente, ele sugeriu que se acabassem com as escolas públicas e se distribuíssem vouchers escolares para a população. Assim, cada um poderia escolher onde estudar. Ele não sabe que na maioria das cidades só tem uma escola pública?

A segunda razão foi que eu também queria ter uma experiência de vida mais longa no exterior. E a terceira foi a piora no ambiente no Brasil. O bolsonarismo é latente e não está só no governo. Está espalhado por todo canto. Hoje é impossível empreender no país sem se relacionar com o bolsonarismo. É do cara que vai ser seu fornecedor ao prestador de serviços jurídico, administrativo, financeiro. E é muito difícil lidar com essa mentalidade. O bolsonarismo é a maneira como esse grupo pensa estrategicamente, como eles são, como eles tocam a vida pessoal e os negócios. A maneira como tratam as mulheres ou subalternos no elo mais fraco da cadeia, a moral elástica, a falta de empatia total pelo outro. Basta ver as piadas que continuam fazendo. Claro que o machismo, a falta de educação e respeito sempre existiram no Brasil. Mas piorou muito. Esse comportamento deplorável aflorou. Quem tinha um pouquinho de pudor e se continha não tem mais. Isso me incomodava demais. Até porque o lado profissional sempre transborda para o pessoal nos negócios. Você acaba saindo para almoçar, convive com a pessoa, não tinha como evitar.

Durante a pandemia, ficou mais visível. Discutia muito com essas pessoas. Saí de três e fui expulso de outros três grupos de WhatsApp de empresários, prestadores de serviços, investidores. As conversas, a lógica como encaravam uma questão humanitária de saúde pública, como é a pandemia, os argumentos de por que iam manter os negócios abertos quando o mundo inteiro pregava o confinamento, era tudo absurdo. Invisto em alguns negócios, como uma empresa que fabrica película solares para vidros e outra de softwares para o sistema financeiro. Conversava com muita gente. A maioria absoluta dizia que não ia obedecer confinamento, que ia manter seus negócios abertos porque só ia morrer pobre e velho e "então foda-se". Ouvi isso inúmeras vezes. Um deles até disse: "Se eu pegar, eu vou para o Einstein [referindo-se ao Albert Einstein, instituição de excelência no país] e então foda-se". Você começa a pensar: eu quero fazer negócio com gente assim? Se eu faço, eu não estou colaborando com esse pensamento? Eu não quis mais.

Tenho uma filha de 10 anos com paralisia cerebral. E eu também percebi como o ambiente piorou para ela nos últimos dois anos. Na escola, mas principalmente no clube. O incômodo das pessoas com a presença dela, uma postura clara para explicitar que ela não pertencia àquele grupo, que a presença dela causava desconforto nas outras crianças e, obviamente, nos pais. Isso não era assim, mudou muito rapidamente. E se piorou no meu nível, imagina para as pessoas que têm muito menos do que eu.

Persio Arida (ex-presidente do BNDES e do Banco Central no governo FHC) disse que os ricos ainda apoiam Bolsonaro por medo de retaliações econômicas, como uma dura da Receita Federal, algo assim. Eu não acho que seja só isso. Existe um compartilhamento de valores de grande parte da elite com o bolsonarismo. Apoiam Bolsonaro porque compartilham e compactuam com valores que ele prega. Eu estava naquele almoço no BTG Pactual, que reuniu Bolsonaro, Paulo Guedes, com o crème de la crème da elite financeira ainda na campanha de 2018. Sabe quando ele foi mais aplaudido? Não foi quando ele falou de economia, de finanças. Foi quando ele fez "arminha" com a mão. Saiu aplaudido de pé. Isso não tem nada a ver com bolsa, com câmbio, com medo da Receita Federal, não é?

Há também uma reação frente à perda de poder social da elite brasileira. Não posso mais dar uns tapas na minha mulher, não posso não pagar minha empregada, tenho que conviver com um bando de gays, o que está acontecendo aqui? Veja o caso do ex-presidente da Caixa Econômica, o Pedro Guimarães, o caso do Robinho, ambos com denúncias graves de assédio sexual. Vai falar com esse pessoal e ver o que eles acham disso de verdade. Para eles, aquilo é um monte de mulher interesseira atrás de dinheiro. Não existe sequer a reflexão de que estavam cometendo um crime, fazendo algo absurdo. Essa gente quer viver como seus avós. E o engraçado é que essa revolta é de um bando de homem branco de 60 anos que está se sentindo oprimido, coitadinhos, não é? Uma vez, ouvi de um conhecido desses de quem perdi a amizade que "o bolsonarismo é libertador". Isso explica tudo. É como se fosse possível voltar a falar e agir como trogloditas impunemente.

Tudo isso para dizer que o gatilho que me fez sair do Brasil foi o ambiente para a minha filha. É um incômodo muito forte. Eu sou economista, não sou sociólogo, antropólogo, mas sabe-se que vai levar anos para sairmos desse retrocesso civilizatório pelo qual estamos passando no Brasil. Põe aí dez anos, no mínimo. Meus filhos são pequenos, e não queria que eles vivessem esse clima nos anos mais importantes de formação. Minha grande frustração é ver pessoas bem-intencionadas e inteligentes que não perceberam o tamanho do buraco em que nos metemos e como vai ser difícil sair dele. Exigem de Lula posicionamentos absolutamente secundários, terciários até, para o momento em que vivemos. Ficam repetindo: "Ah, o Lula tem que ter uma agenda mais ampla", "Ah, o Lula tem que ser menos à esquerda", "Ah, e a economia digital, a ESG, as criptomoedas, a responsabilidade fiscal" e, claro, "Ah, a terceira via!". Que terceira via? Que economia digital nessa hora? É como se você estivesse com um paciente na UTI com a aorta estourada, está saindo sangue pela boca e pelo nariz, e o médico sugere que ele se trate com alimentação saudável da horta!

Percebam: estamos no fundo do poço da merda. Parem com essa baboseira, com essas prioridades equivocadas. Não adianta ficar cobrando o impossível. E mais: Lula não é Emmanuel Macron (presidente da França). Não vai ser ele quem vai guiar o país para a economia digital. A elite cobra dele uma coisa que ele não sabe e não está capacitado para fazer. É preciso salvar o paciente primeiro. Isso é que é fundamental. É preciso sair desse buraco civilizatório e normalizar um pouco as instituições. Depois, vê-se o resto.

Eu nunca votei no Lula, será a primeira vez. O mercado financeiro ganhou dinheiro demais no governo dele, nem compara com o que ganha hoje com Bolsonaro. Tenho dificuldade de entender qual é o ponto de parte da elite ao dizer que Lula e Bolsonaro são iguais. Por isso, acho que essa briga se dá toda no campo da simbologia. É o que Lula é, é o que Bolsonaro é, o que eles defendem e o que eles representam. Não tem nada a ver com a economia. Eu não deixei de acreditar no Brasil. Por isso, estou abrindo um restaurante 100% brasileiro, com arte brasileira, que vai valorizar a cultura brasileira, que vai mostrar o Brasil bom, não o que machuca. Outro dia me perguntaram se vou receber bolsonaristas no restaurante. Bom, não é o dono que escolhe os clientes, mas assim como é difícil encontrar bolsonaristas em livrarias, imagino que será raro tê-los aqui.



A TIRANIA DO MÉRITO 

Michael J. Sandel

(...) Pessoas com um menor nível de formação educacional há muito tempo estão mais expostas do risco de morrer em decorrência do uso de álcool ou de drogas, ou por suicídio do que quem tem diploma universitário. Mas essa divisão por diploma em casos de morte tem se agravado cada vez mais. Até 2017, homens. sem diploma universitário tinham três vezes mais probabilidade de morrer em decorrência de "mortes por desespero" do que pessoas que se formaram na faculdade. Pode-se pensar que a causa subjacente é infelicidade decorrente de pobreza, e que diferenças em formação educacional existem apenas porque quem tem menos formação educacional provavelmente é pobre. Case e Deaton levam em consideração essa possibilidade, mas pensam que não é convincente. O aumento dramático no número de mortes por desespero entre 1999 e 2017 não corresponde a um aumento geral da pobreza. Os dois também investigaram estado por estado e não encontraram qualquer relação convincente entre mortes por suicídio, overdose de drogas e álcool e o aumento nos níveis de pobreza. Algo mais do que a privação material estava incitando o desespero, algo distinto da difícil condição de pessoas lutando para sobreviver na sociedade meritocrática sem as credenciais que ela honra e recompensa. As mortes por desespero, Case e Deaton concluíram, "refletem a perda de um modo de vida para a classe trabalhadora branca e com menos formação educacional, em longo prazo, e que se desdobrou lentamente”.



SANDEL, J. Michael. A tirania do mérito. O que aconteceu com o bem comum. Rio de Janeiro, RJ, Ed. Civilização Brasileira, (2020).







fontes 



SANDEL, J. Michael. A tirania do mérito. O que aconteceu com o bem comum. Rio de Janeiro, RJ, Ed. Civilização Brasileira, (2020).