A TÉCNICA DO STENCIL
Por A. P.
A técnica do stencil permite a produção de imagens sobre um suporte mediante a interposição de um objeto vazado. A imagem ou padrão é recortada em uma superfície plana onde aplicaremos a tinta. O stencil-objeto geralmente é feito numa folha de material fino como papel, plástico, madeira ou metal, com letras ou um desenho recortados.
A aplicação de tinta sobre esse padrão vazado, recortado, que é o objeto intermediário (stencil-objeto) criará o padrão ou imagem sobre o suporte (papel, tecido, muro, etc). Essa imagem produzida na superfície subjacente, também é denominada de stencil. Assim, a palavra stencil é usada tanto para o objeto com a imagem recortada, desenho ou padrão, como para a imagem resultante sobre o suporte.
As áreas vazadas do stencil-objeto (que é uma espécie de negativo) permitem que a tinta atinja apenas algumas partes da superfície; a imagem resultante, portanto, é uma espécie de positivo no suporte. A tinta é aplicada com pincel batedor, ou com spray, (tinta spray de lata) ou aerógrafo.
A principal vantagem do stencil é que ele pode ser reutilizado para produzir repetidamente as mesmas letras ou desenhos. Embora os stenceis de aerossol ou pintura possam ser feitos para uso único, normalmente eles são feitos com a intenção de serem reutilizados. Para serem reutilizáveis, eles devem permanecer intactos após a produção de um desenho e a remoção do estêncil da superfície de trabalho.
Em alguns stenceis a forma ou desenho é mais complexa necessitando manter certas áreas móveis (as ilhas) unidas ao padrão original, isso é feito conectando-se essas ilhas de estêncil, seções de material que estão dentro de "buracos" recortados no estêncil, à outras partes do estêncil através de pontes que são seções estreitas ou finas, de material que não são cortadas.
A técnica do estêncil nas artes visuais também é chamada de pochoir. Uma técnica relacionada que encontrou aplicabilidade em algumas composições surrealistas é a aerografia, na qual a pintura com spray é feita em torno de um objeto tridimensional para criar um negativo do objeto em vez de um positivo de um desenho de estêncil.
Essa técnica foi usada em pinturas rupestres datadas de 30.000 aC, como já mencionado acima, onde mãos humanas foram usadas para produzir contornos de impressões de mãos entre pinturas de animais e outros objetos. O artista borrifou o pigmento ao redor de sua mão usando um osso oco, soprado pela boca para direcionar o fluxo de pigmento ou tinta (Fig. 1, 2). Os stênceis podem ser feitos com uma ou várias camadas de cores usando diferentes técnicas, com a maioria dos estênceis projetados para serem aplicados como cores sólidas, (Fig. 3).
A serigrafia também usa um processo de stêncil. No caso da serigrafia o processo é muito semelhante, com a exceção de que não recortamos stenceis, estes são feitos quimicamente na tela usando-se uma emulsão fotossensível. Durante a impressão de tela, as imagens para stencil são divididas em camadas de cores. Várias camadas de estênceis são usadas sobre a mesma superfície para produzir imagens multicoloridas fortes de grande vivacidade. (WP).
Nossos ancestrais usavam essa técnica basicamente para comunicar uma ideia ou conceito e para sinalizar a passagem das estações do ano, rituais e muito provavelmente para transmitir uma história de domínio de toda a comunidade. Nessa atividade usavam a mão como objeto 3D o que produzia uma imagem negativa no suporte (parede da caverna) e na maioria das vezes era executada a luz de tochas e/ou fogueiras.
A datação das pinturas das cavernas da ilha Sulawesi, na Indonésia, feita por uma equipe de pesquisadores australianos e indonésios, mostra que elas têm em torno de 39.900 anos de idade, sendo apenas 900 anos mais recentes que a primeira representação conhecida, um disco vermelho desenhado na gruta El Castillo, no norte da Espanha. Enquanto que a caverna de Chauvet no sul da França apresenta uma datação de 30.000 anos e Lascaux (região da Dordonha) leste da França apresenta uma data de 17 mil anos para os desenhos parietais e artefatos (Fig. 1, 2, e 3).
Figura 1. Mão em stencil, Lascaux, França, ca. 30.000 anos.
Figura 2. Cueva de las manos, Santa Cruz, Argentina, ca. 7.300 – 700 anos.
Figura 3. Stencil de 8 camadas ou layeres (stencilstop).
As mais antigas máscaras para stencil foram feitas de material orgânico, e por isto, não se preservaram. Uma documentação mais precisa de aplicações do stencil, desenvolvida na China e Japão, datam por volta do ano 500 e 1000 a.C. (séc. V a X AD).
Os egípcios há mais ou menos 5.000atrás usavam o papiro e o couro como moldes para stencil para estampar motivos nas paredes ou muros de templos ou sepulturas, também usavam uma gama maior de pigmentos e pincéis para borrifar a tinta.
Os chineses já usavam essa técnica e a implementaram para decorar armaduras, estandartes de guerra e roupas feitas com seda. Os motivos (desenhos) tornaram-se mais complexos, entretanto usavam poucas cores.
Entretanto, foi no Japão, no reinado de Ryukyu no séc. XIV, que a técnica do stencil sobre diferentes tipos de tecido mais se aperfeiçoou. Isso deveu-se à introdução da primeira máscara lavável e reutilizável. Os japoneses usaram o stencil para estampar seus quimonos de seda, algodão, linho, lã e tecidos confeccionados com fibras de uma espécie de bananeira (Musa basjoo Siebold & Zucc. ex Iinuma (1874)) que deu origem ao estilo “bingata”, literalmente, “estilo vermelho” (Fig. 4, 5, e 6). O estilo bingata é uma técnica de pintura com stencil exclusiva da ilha de Okinawa.Essa técnica ainda é usada para tingir tecidos, geralmente com cores brilhantes com vários padrões ao mesmo tempo, tais como pássaros, peixes, água, água corrente, borboletas e flores. Acredita-se que essa técnica desenvolveu-se como uma síntese de processos de tingimento indianos, chineses e javaneses.
O estilo bingata, utiliza moldes de papel encerados que eram produzidos com folhas de amoreira grudados com tanino extraído do caqui, depois era defumado e posto para envelhecer, esse processamento torna o papel impermeável e reutilizável. Depois de pronto, os desenhos eram feitos sobre ele e cortados delicadamente e então aplicados sobre o tecido, usando-se pincéis e uma pasta de amido chamada “nori”.
Outro estilo de pintura japonês que se utiliza do stencil é o estilo Katazome. Esse método ou técnica de tingimento de tecidos se caracteriza pelo uso de uma pasta resistente a água (insolúvel) aplicada com stencil; sobre esse stencil então se aplica a pasta de arroz com um pincel ou espátula para bloquear a penetração do corante em determinadas áreas. O pigmento é adicionado à mão ou imerso na água.
Aos japoneses é creditado o desenvolvimento de uma solução única e criativa para um dos mais difíceis problemas da técnica de estêncil, que é o de como conter as formas soltas nos desenhos intricados. Estes detalhes foram afixados ao conjunto de formas cortadas por delicados fios de seda ou por fios de cabelo humano, que formam “pontes” que se tornam quase ou totalmente invisíveis no resultado final.
No Japão também se fazia uso do stencil combinado com a xilogravura de um único bloco. Era um método usado para imprimir camadas de cor na impressão final. Chamado de kappazuri-e ou katagamizuri-e (Fig.7a,b), consistia na aplicação de tinta sobre determinadas áreas da gravura através do stencil; para cada cor uma máscara diferente era cortada; e o resultado final deixava ver as pinceladas aplicadas, sobre a gravura.
Figura 4. Estampa produzida sobre tecido em estilo Bingata.
Figura 5. Bingata de Okinawa, com água corrente, folhas e pássaros.
Figura 6. Kimono Bingata com pinheiros e flores de cerejeira.
Figura 7a. Urakusai Nagahide (1800s) e Utagawa Kuniyoshi(1797 - 1861)Kappazuri.
Figura 7b. Urakusai Nagahide (1800s) e Utagawa Kuniyoshi(1797 - 1861)Kappazuri.
O método do stencil encontrou seu caminho para Europa via rotas comerciais da época a partir do final do séc. do século XIII e XIV provavelmente através das viagens de Marco Polo quando muitas ideias novas fluíram para o ocidente. Já no início do século XIV, e no sec. XV por volta de 1450, foi usado na decoração de igrejas, pisos, móveis e paredes. Além disso, essa técnica foi muito utilizada com a xilogravura para criar impressos que precisavam ser reproduzidos em larga escala, como as cartas de baralhos.
I can't live without my radio (yellow) (etsy)
Martin Whatson, artista de rua norueguês, incorpora arte de rua com cores vibrantes em muros cinzas, para dar vida às paisagens urbanas.
Fontes
(Parte de um livro que estou escrevendo sobre Gravura)





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