PENSADORES
1. Heráclito de Éfeso
Ἡράκλειτος ὁ Ἐφέσιος
Heráclito é um dos primeiros e mais importantes expoentes da filosofia pré-socrática. Seu pensamento (que nos chegou hoje através de fontes secundárias, tais como: os 126 fragmentos oriundos do seu livro e extraídos de sua doxografia e das interpretações de outros filósofos) recebeu durante o percurso histórico da filosofia a alcunha de obscuro, ou enigmático. A questão que se impõe para nós é: o que no pensamento e palavra deste pensador merece essa designação? Na tentativa de elaborarmos essa questão, tomaremos como guia a interpretação que Heidegger faz da palavra desse pensador.
A designação obscuro (Σκοτεινός), em torno de Heráclito, surgiu já durante seu período histórico (Grécia antiga – Século IV a.C.) quando contam-se duas histórias a seu respeito. A primeira estória conta:
“diz-se (numa palavra) que Heráclito assim teria respondido aos estranhos vindos na intenção de observá-lo. Ao chegarem, viram-no aquecendo-se junto ao forno. Ali permanecem, de pé, (impressionados sobretudo porque) ele os (ainda hesitantes) encorajou a entrar, pronunciando as seguintes palavras: ‘Mesmo aqui, os deuses também estão presentes4”;
e a segunda:
“Dirigiu-se, porém, ao santuário de Artemis para lá jogar dados com as crianças; voltando-se aos efésios que se puseram de pé ao seu redor, exclamou: ‘Seus infames, o que estão olhando aqui tão espantados? Não é melhor fazer o que estou fazendo do que cuidar da πόλις junto com vocês? 5”.
Heráclito ao que se nota não seguia os hábitos sócio-políticos de sua época; ele tinha um modo diferente do tradicional. Contudo, mesmo que a designação de “o obscuro” atribuída a ele pelos seus contemporâneos seja embasada em seu caráter a-político e nos seus modos pouco convencionais, que nos chegou através dessas duas anedotas, isso não é ainda suficiente para darmos conta do sentido mais radical da obscuridade de seu pensamento. Contudo, apenas a análise do caráter de Heráclito baseados nos fatos que compõe a sua biografia não justifica o uso tão prolongado de um “apelido” e, tampouco, justificaria que esse caráter de obscuridade fosse atribuído à linguagem utilizada por Heráclito como se o seu modo de ser tivesse “contaminado” o seu estilo de escrita.
Ainda na Grécia antiga, agora dos séculos III e II a.C., Heráclito continuou a ser chamado de obscuro, mas neste contexto devido principalmente às interpretações em torno dos seus dizeres expressos em seu livro (naquela época integral). Algumas dessas abordagens e interpretações se apoiavam nas análises das estruturas e das regras da linguagem que eram aplicadas ao seu pensamento na tentativa de compreendê-lo. No entanto, as interpretações do pensamento de Heráclito que se nortearam por esse tipo de análise, não podem ser vistas, como já alertado inicialmente, como interpretações destoantes ou como uma fonte literária infiel. Ou seja, quando, por exemplo, Aristóteles critica o pensamento de Heráclito, o que está em jogo, fundamentalmente para esse pensador, não é o que Heráclito de fato estava dizendo, mas o que ele (Aristóteles) queria afirmar acerca da sua própria filosofia. Assim, o que Aristóteles faz, notadamente no livro I da sua Metafísica, é uma filosofia da história6. Sendo assim, não se trata de uma simples doxografia ou simplesmente de uma crítica anacrônica ao pensamento que o antecedeu, mas trata-se de uma visada radical buscando aquilo que, em todo o pensamento que o antecedeu, permanece impensado. Desta maneira não podemos considerar as interpretações que Aristóteles (ou Platão) fizeram do pensamento de Heráclito como interpretações anacrônicas e injustificadas por procurarem, na obra desse autor (ou ainda, nos testemunhos ou fala de seus discípulos) questões ou procedimentos de análise que eram de todo estranho na época de Heráclito. O que se verifica nas falas de Platão e Aristóteles sobre o pensamento de Heráclito é uma “transformação do que foi transmitido”7. Na Retórica de Aristóteles, principalmente no livro III, observa-se a análise em torno do estilo e da composição do discuro retórico, no qual são elencados alguns elementos inerentes a esse tipo de discurso, tais como: clareza, correção gramatical, ritmo, o uso da metáfora e outros. É nesse contexto que temos uma passagem na qual Aristóteles analisa o estilo de Heráclito:
Convém absolutamente que o que se escreve seja fácil de ler e compreender, o que é a mesma coisa. É o que se dá quando há muitas conjunções e não se dá quando há poucas ou quando não é fácil pontuar como nos escritos de Heráclito. Pois pontuar os escritos de Heráclito é um trabalho, por ser incerto se tal pontuação se liga a uma palavra anterior ou posterior como no começo do seu escrito: ‘Deste logos... tenham ouvido’ (é do fragmento 1. V. p. 85). Pois é incerto saber pela pontuação a que se liga o aeî sempre8.
O que se nota, em Aristóteles, é a preocupação com a clareza da escrita e a forma inteligível mais clara acerca da formulação de conceito; tal preocupação prescinde da análise daquilo que, de fato, está em pauta no pensamento de Heráclito. Essa preocupação de Aristóteles se deve à necessidade imposta pelo tipo de pensamento que para ele (Aristóteles) está em jogo. Sem desconsiderar a problemática exposta por Aristóteles, devemos então entendê-la como uma apropriação e interpretação do pensamento de Heráclito inerente ao próprio jogo do pensamento - no qual a filosofia se plasma desde o diálogo que se estabelece entre diferentes épocas históricas e diferentes correntes filosóficas. Nesse diálogo, muitas vezes, o que menos importa é a correção histórica e a análise dos fatos e ditos dos filósofos, muitas vezes o erro e o desvio no interior desse diálogo é o que de fato irá dar o tônus, a força próprio do ato de filosofar9. Esse erro ou desvio é o que acaba por nos lançar naquilo que, no pensamento, ainda permanece impensado. Mas, voltemos a Heráclito e a sua palavra.
4 HEIDEGGER, Martin. A origem do pensamento ocidental. In: Heráclito, 1998. p. 22. 5 Ib. Idem. p. 25.
(…)
Se, desde a Renascença, pintava-se nos olhos uma pequena janela, também dava-se ao espelho, fora ou dentro do quadro, um lugar privilegiado: era com ele que se avaliava a pintura genuína do modelo, era por ele que se configurava o longínquo como paisagem, era nele que o pintado via-se, na própria tela, repetido, representado.
Janela e espelho: os pintores costumam dizer que, ao olhar, sentem-se vistos pelas coisas e que ver é experiência mágica.
A magia está em que o olhar abriga, espontaneamente e sem qualquer dificuldade, a crença em sua atividade, a visão depende de nós, nascendo em nossos olhos, e em sua passividade , a visão depende das coisas e nasce lá fora, no grande teatro do mundo.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lã estão os poemas que esperam ser escritos.
[...]
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
[...]
Chega mais perto e contempla as palavras cada
uma tem mil faces secretas sob a face neutra
Ver as palavras. Delas chegar perto. Contemplá-las: antes do poema são coisas visuais e, como todo visível, "tem mil faces secretas sob a face neutra". Antes que espalhem sentido e beleza, antes que falem, vejamo-las em sua mudez. Acerquemo-nos delas "em estado de dicionário". Quais escolheremos? Aquelas que nos fazem ver o vínculo secreto entre o olhar e o conhecimento. Até mesmo aquela que o designa na filosofia — teoria do conhecimento — pois théoria, ação de ver e contemplar, nasce de théorein, contemplar, examinar, observar, meditar, quando nos voltamos para o théorema: o que se pode contemplar, regra, espetáculo e preceito, visto pelo théoros, o espectador.
Na ampla gama do espectro que vai de phaós (luz, luz dos astros, luz do dia, luz dos olhos, flama, vir à luz, nascer, vivente) phaiós (sombrio, cinza, escuro, luto), da luz à treva, da vida à morte, espalham-se as palavras do visível: taphaea (os olhos), que pitagóricos e platônicos chamarão de faróis, ' 'os olhos portadores de luz"; phantós (o visível e o que pode ser dito ou manifestado pelas palavras), a linguagem sendo uma forma da visibilidade; phaédo (o sol), phaeino (brilhar, irradiar, iluminar), phaidós (brilhante, luminoso, claro, sereno, puro, alegre), phaidrôo (fazer brilhar, tornar radioso, alegrar), phaino (fazer brilhar, fazer aparecer, mostrar e mostrar-se, manifestar e manifestar-se, dar a conhecer o caminho, guiar, dar a conhecer pela palavra, explicar), phainómenos (visivelmente, manifestamente, claramente), donde virão fenômeno (e seu conhecimento: fenomenologia), fantasia, fantasma, fantástico, assinalando o parentesco que enlaça visão, imaginação e palavra como resultados do ato da luz. Óphis é ação de ver e sua sede, a vista, mas é também espetáculo, aparição, sonho, visão e visão mística; e, conjugado no perfeito, é aspecto exterior, aparência do visto. Opheio é desejar ver, ser curioso e ávido, a curiosidade, dirá santo Agostinho, é afecção primordial dos olhos, que se dizem to ósse, sede do ato visual. Oráo é ver com olhos atentos e fixos, examinar, ver com o espírito, e oratistés é o visionário, donde, para nós, oráculo. Ósse phaeiná, olhos brilhantes dizia Homero, de quem neles fixa algo, osséia, e de (Pág.: 35) quem, vendo em espírito, adivinha, prevê e imagina, ossomai.
Adivinhar e cair na superstição se dizem osseoumai, que é também consultar presságios e ameaçar com os olhos. Da mesma raiz indo-européia, ok, no latim, virão occulum (olho), occultus (oculto), occultatio (ocultamento). E de kelo virá ceio (esconder), por isso dizemos cella (esconderijo, cela, cova) e clandestinus. É esse largo parentesco que a pequena frase de Aristóteles, no Sobre a Alma, resume:
É porque a vista (óphis) é o sentido mais desenvolvido, a palavra imaginação (phantãsia) tira seu nome da luz (pháos), porque sem a luz (photós) é impossível que seja visto (estiideín).
Se pháos é a fonte luminosa, da raiz leuk virá lúknos (a lâmpada, o iluminado). Leukós é o brilhante, o iluminado, esplendoroso, claro, branco, puro e límpido; leukaíno, embranquecer, clarear, tornar brilhante; lukonakaia, a iluminação, e leukophaés, o esplendor da brancura.
No latim, lux, a fonte luminosa (correspondente a pháos) e lumen, o iluminado (correspondente a leukós e lúknos). O lume recebido da luz para que vejamos faz com que os olhos sejam ditos, agora, lumina.
Mas, o que é ver? Porque Aristóteles escreve ideín da raiz indo-européia weid, ver é olhar para tomar conhecimento e para ter conhecimento. Esse laço entre ver e conhecer, de um olhar que se tornou cognoscente e não apenas espectador desatento, é o que o verbo grego eidô exprime.
Eidô, ver, observar, examinar, fazer ver, instruir, instruir-se, informar, informar-se, conhecer, saber, e, no latim, da mesma raiz, vídeo, ver, olhar, perceber, e viso, visar, ir olhar, ir ver, examinar, observar. Donde, visita (ver freqüentemente) que, na versão latina da Bíblia, significa manifestação de Deus ao homem para exame rigoroso ou benevolente de seus atos. ' 'Estar sob a visita de Deus'' é ter-Lhe os olhos sobre nós, ser por Ele visitado. Ele que, em sua onisciência, tem o poder para dizer: provideo (ver de antemão) e por isso é providentia que nos protege contra um outro olhar, o improvisus da caprichosa Fortuna. Se aceitamos Sua visita, também há de proteger-nos do mau olhado, invideo (invejar).
Aquele que diz: eidô (eu vejo), o que vê? Vê e sabe o eidós: forma das coisas exteriores e das coisas interiores, forma própria de uma coisa (o que ela é em si mesma, essência), a idéia. Quem vê o eidós, conhece e sabe a idéia, tem conhecimento, eidotês, e por isso é sábio vidente, eidulis. Quem viu, pode querer fabricar substitutos do visto e, na qualidade de eidolopóios, pode fabricar as formas aparentes das coisas, eidolon (ídolo, simulacro, imagem, retrato). No entanto, se o ver fabricador buscar a semelhança no ato mesmo de ver, estará na eikasia (representação, crença, conjetura, comparação) e tentará fabricar eikon (ícone, pintura, escultura, imagem, imagem refletida no espelho) a partir do eikô (ser semelhante, assemelhar-se, verossímil, provável). Eis por que Platão, que partira à procura do eidós, cuidará para separá-lo do eidolon e do eikon.
Quem olha, olha de algum lugar. Skópos se diz daquele que observa do alto e de longe, vigilante, protetor, informante e mensageiro. Pratica o skopeuô (observar de longe e do alto, espiar, vigiar, espionar) alojando-se no skopé, o observatório (como o cientista soberano e também o policial, no panopticon de Bentham). Por isso, sua prática não é apenas vigiar e espiar, mas significa, ainda, refletir, ponderar, considerar e julgar, tornando-se skopeutês: aquele que observa, vigia, protege, reflete e julga, situando-se no alto. Donde, altura e eminência desse olhar que se diz skopiá. Dessa raiz indo-européia, spek, em latim, se dirá specio (ver, olhar, observar, perceber), specto (Pág.: 36) (ver, olhar, examinar, ver com reflexão, provar, ajuizar, esperar, acautelar-se).
Olhar reflexivo e sábio que vê a species (forma das coisas exteriores, figura, aparência, forma e figura formadas pelo intelecto, esplendor, formosura, semelhança, correspondendo ao grego eidós, a idéia).
Eis por que, falando latim, a filosofia expunha a idéia com os nomes de espécie sensível, dada aos olhos do corpo, e espécie inteligível, dada ao olho do espírito. Idéia e espécie: uma só e mesma palavra usada para o corpo e a alma por que são capazes de ver e, portanto, de saber.
Heráclito de Éfeso.
Detalhe do afresco: A escola de Athenas.
Rafaello Sanzio (1483-1520)
A escola de Athenas (1509-1510)
Fontes

















































