INÍCIO

17 março 2026

ARTE ABSTRATA E ABSTRAÇÃO

ARTE ABSTRATA E ABSTRAÇÃO 

Enviado por Thales Paim MSc, BSc, MM

A arte abstrata, ou abstracionismo, constitui uma das transformações decisivas da linguagem artística no século XX. Diferentemente das tradições figurativas, ela não se orienta pela representação reconhecível de objetos, figuras humanas ou paisagens, mas pela organização autônoma de formas, cores, linhas, texturas e campos cromáticos. Nessa perspectiva, a obra deixa de buscar a imitação do mundo sensível, a mímesis, e passa a afirmar a autonomia dos elementos visuais como portadores de significação estética. 

Paim. Pintura digital

Paim. Pintura digital

Paim. Pintura digital

Em vez de reproduzir a aparência das coisas, a arte abstrata privilegia a expressão de estados interiores, ritmos formais e tensões visuais, abrindo espaço para uma experiência estética essencialmente subjetiva. A imagem já não depende de um referente objetivo no mundo exterior; ao contrário, ela se estrutura como um campo de relações internas, cuja interpretação se realiza no encontro do expectador e da obra. Por um lado temos a arte abstrata afirmando a ruptura com a figuração e enfatizando a autonomia dos elementos das artes visuais. 

Por outro lado nosso cérebro conta com um processo engenhoso e sintético: a abstração que é o processo mental de isolar um aspecto, conceito ou ideia de um objeto concreto, enfatizando no que é essencial e ignorando detalhes julgados desnecessários. É a capacidade de simplificar a complexidade, transformando experiências em conceitos gerais.

Em contraposição aos preceitos estéticos do Renascimento e à tradição da arte figurativa, a arte abstrata, também chamada de abstracionismo, distancia-se da proposta de narrar eventos ou representar a realidade de modo literal (mimese). Seu propósito fundamental é evocar sensações e estimular a imaginação do observador por meio da exploração das relações formais entre cores, linhas, planos e superfícies. Trata-se de uma linguagem plástica não representacional, que se desdobra, predominantemente, em duas vertentes: a abstração lírica e a abstração geométrica.

Arte abstrata uma reflexão 

Como artista e professor, vamos fazer uma reflexão sobre a natureza da imagem e a revolução silenciosa que a arte abstrata operou em nossa percepção estética. Para compreender a sua essência, é fundamental colocá-la em contraste com a sua antecessora milenar: a arte figurativa.

A Longa Sombra da Mímesis

Por mais de dois milênios, a arte ocidental foi dominada por um conceito central: a mímesis ou mimese. Originária da Grécia Antiga, a palavra grega μίμησις, mímēsis, é geralmente traduzida como “imitação” ou “representação”.
No entanto, para os seus formuladores, Platão e Aristóteles, o conceito era mais profundo do que uma simples cópia da realidade.
Para Platão, a mímesis era problemática. O mundo físico que percebemos já seria uma cópia imperfeita do mundo ideal das “Formas”. A arte, ao imitar o mundo físico, tornar-se-ia, portanto, uma “cópia da cópia”, afastando-se ainda mais da verdade. Era uma ilusão, um simulacro perigoso por enganar os sentidos.
Para Aristóteles, a mímesis tinha um valor cognitivo e catártico fundamental. Em sua Poética, ele defende que o ser humano tem um prazer natural em imitar e em reconhecer a imitação. A tragédia, por exemplo, imita ações humanas não para copiá-las servilmente, mas para universalizá-las, provocando no espectador a catarse (purificação da alma ou das emoções). A mímesis aristotélica não é cópia, mas sim uma representação idealizada e estruturante da realidade, que nos ajuda a compreendê-la. Assim, para Aristóteles, a mimese inclui tanto simulação (imitação) quanto emulação (superação) e implica identidade, embora não de modo completo, já que há semelhanças e diferenças na emulação e na simulação, quer dizer, há uma relação em que se percebe o que é emulado ou simulado, só possível pela aproximação da semelhança e pela distância da diferença. A mimética implica, por assim dizer, proximidade e distância, próprios da imitação (Silva, 2013).
Essa visão aristotélica, reinterpretada no Renascimento, solidificou a mímesis como o grande objetivo da arte. A pintura era vista como uma “janela para o mundo” (Alberti), e a excelência do artista era medida pela sua habilidade em iludir o olhar, em criar a ilusão de profundidade, volume e vida. A arte figurativa, portanto, sempre manteve um vínculo semântico com o mundo objetivo: um quadro representava algo reconhecível, uma maçã, uma pessoa, uma paisagem, um deus. O significado da obra estava, em grande parte, atrelado a esse objeto externo a ela.

A Emancipação do olhar: a Arte Abstrata e a ruptura 
com a mímesis

A arte abstrata, que inicia no final do século XIX e emerge com força no início do século XX, promove uma ruptura radical com essa tradição de dois milênios de pesquisa, reflexão e aprimoramento. Ela não é apenas um estilo, mas uma mudança de paradigma filosófico. Sua característica fundamental é a ausência de mímesis, a renúncia voluntária à representação do mundo visível.
Ao abolir o objeto reconhecível, ou a imitação, a arte abstrata rompe o vínculo semântico com a realidade externa. O quadro deixa de ser uma “janela” e torna-se um objeto em si mesmo e passa a ser um espelho, um campo autônomo de forças plásticas. O que vemos não é a imagem de uma coisa, mas a própria coisa: a tela, a tinta, a linha, a cor, a textura, a ação, o gesto. Essa ausência de mímesis manifesta-se de diversas maneiras:

1. Abstração Lírica ou Sensível (Kandinsky)
Na abstração lírica, a arte busca expressar diretamente o mundo interior do artista, emoções, sensações, espiritualidade, sem a intermediação de figuras reconhecíveis. Kandinsky acreditava que a cor e a forma eram capazes de produzir uma “vibração na alma” do espectador, tal como a música, uma arte intrinsecamente não-figurativa. A pintura deveria ser um instrumento de expressão pura, libertando-se da tirania do objeto.

2. Abstração Geométrica ou Construtiva (Mondrian, Malevich)
Na concepção de Mondrian, a arte deveria buscar a realidade última e universal, que ele acreditava residir nas estruturas subjacentes ao mundo, as linhas retas, os ângulos retos e as cores primárias. Sua arte não imita a natureza, mas pretende revelar as suas leis plásticas fundamentais. Enquanto Malevich, com seu Suprematismo, levou essa ideia ao extremo ao apresentar um simples quadrado preto sobre um fundo branco. Para ele, o “quadrado preto” era o “grau zero” da pintura, a completa emancipação da arte do peso do mundo objetivo, um ícone da sensibilidade não-objetiva.

3. Expressionismo Abstrato (Pollock)
Nas drippings paint de Pollock (Action painting) , a mímesis é totalmente abolida. A tela, estendida no chão, torna-se uma arena para a ação do artista. O que vemos é o registro direto do movimento, do gesto, da energia vital do pintor. A pintura é um evento, um rastro um vestígio de um processo, e não a representação de algo exterior a ela.

A nova experiência estética: do reconhecimento à vivência

A ausência de mímesis na arte abstrata altera fundamentalmente o papel do espectador. Diante de uma obra figurativa, nossa mente inicia um processo de reconhecimento e identificação: “Isto é uma mulher”, “Isto é uma montanha”. Esse reconhecimento nos dá uma segurança inicial, uma âncora no mundo conhecido. A partir daí, podemos então apreciar como o artista representou aquela mulher ou montanha (a pincelada, a cor, a composição).
Diante de uma obra abstrata, esse processo de reconhecimento é negado. Somos confrontados com o “nada figurativo”, o que pode gerar, num primeiro momento, estranhamento ou frustração. No entanto, é exatamente nesse vazio que se abre a possibilidade de uma nova experiência estética. Sem a muleta do tema, somos convidados a uma vivência direta dos elementos plásticos:
Somos forçados a sentir a tensão entre uma linha e outra.
A vibrar com a dissonância ou a harmonia das cores.
A perceber o peso, a leveza, a densidade das formas e texturas.
A acompanhar o ritmo visual do gesto do pintor.

A obra de arte abstrata não conta uma história, não ilustra um mito, não retrata uma pessoa. Ela apresenta uma realidade, em vez de re-apresentar uma realidade conhecida. Ela é, em sua essência, um convite à introspecção e à percepção pura, um diálogo silencioso entre a materialidade da obra e a subjetividade do espectador.

Em suma, se a arte figurativa, por meio da mímesis, nos devolve o mundo transformado pela mão do artista, a arte abstrata nos oferece algo mais radical: a possibilidade de experienciar o próprio ato criador e a potência expressiva da matéria, libertos da obrigação de imitar as aparências. Ela não é a negação da realidade, mas a afirmação de uma nova realidade: a da própria arte.


Resumindo

Abstracionismo geométrico. 
Em contrapartida, o abstracionismo geométrico, amplamente desenvolvido pelo holandês Piet Mondrian (1872–1944), ancora-se em princípios da racionalidade, princípios filosóficos particulares de Mondrian, no equilíbrio estrutural e rigor compositivo. Mondrian buscava uma arte universal, baseada na simplificação das formas e no uso de elementos plásticos elementares, como linhas retas, ângulos retos e cores primárias, expressando uma harmonia pautada pela reflexão intelectual e pela ordenação do espaço pictórico.

Abstracionismo lírico. 
O abstracionismo lírico, cujo principal expoente é o artista russo Wassily Kandinsky (1866–1944), caracteriza-se pela ênfase no expressionismo subjetivo, na intuição criadora e na liberdade formal do artista. Para Kandinsky, a arte deveria expressar emoções internas e verdades espirituais, aproximando-se da musicalidade e da dimensão simbólica da cor. 

Hilma af Klint é considerada uma pioneira da arte abstrata e sua obra é caracterizada por uma fusão única que combina elementos do abstracionismo lírico com formas geométricas e simbólicas, frequentemente motivada por sua busca espiritual e mística. Principais características da obra de Hilma Af Klint:
Abstracionismo Geométrico e Simbólico. Ela utilizava frequentemente formas geométricas, como círculos, espirais e triângulos, além de diagramas e mapas, especialmente visíveis em séries como “Primordial Chaos”.
Abstracionismo Lírico e Orgânico. Ao mesmo tempo, suas obras, como a série “The Ten Largest” (As Dez Maiores), exibem formas orgânicas, cores pastéis vibrantes (rosa, laranja, azul) e linhas fluidas que evocam sentimentos e uma linguagem espiritual, características do abstracionismo lírico.

Além desses dois fundadores, o abstracionismo consolidou-se como uma das correntes mais influentes da arte moderna por meio da contribuição de inúmeros artistas que expandiram suas fronteiras estéticas e conceituais. Entre os nomes de maior relevância internacional, destacam-se:

Hilma af Klint (1862 – 1944) foi uma artista e mística sueca e pioneira do abstracionismo, e na escrita automática; cujas pinturas foram consideradas uma das primeiras obras abstratas conhecidas na história da arte ocidental.

Paul Klee (1879–1940), artista suíço cuja obra dialoga com a poética das formas, o simbolismo e a musicalidade.

Pieter Cornelis Mondriaan (1872–1944), conhecido após 1911 como Piet Mondrian, foi um pintor e teórico da arte Holandês, considerado um dos maiores artistas do século XX. Ele foi um dos pioneiros da arte abstrata do século XX, ao mudar sua direção artística da pintura figurativa para um estilo cada vez mais abstrato, até chegar a um ponto em que seu vocabulário artístico foi reduzido a simples formas geométricos básicos.

Willem de Kooning (1904–1997), pintor holandês radicado nos Estados Unidos, figura central do expressionismo abstrato.

Kasimir Severinovich Malevich (1879–1935), pintor ucraniano, criador do suprematismo e autor do icônico Quadrado Negro.

Robert Delaunay (1885–1941), artista francês pioneiro no uso da cor como elemento estrutural e rítmico.

Hans Hartung (1904–1989), pintor alemão associado à abstração lírica, à gestualidade (bestialismo) e a linguagem do inconsciente (o que enriqueceu sua linguagem plástica).

Pierre Soulages (1919–2022), pintor e escultor francês conhecido por suas obras em preto e pela exploração da luz a partir da textura da matéria.

Jean Fautrier (1898–1964), pintor e escultor francês, precursor da arte informal;
(Tachismo, do francês, tache = mancha): O tachismo foi uma reação ao cubismo e ao expressionismo abstrato (1) e é caracterizado por pinceladas espontâneas, gotejamentos (dripping paint) e manchas de tinta diretamente do tubo e, às vezes, rabiscos que lembram a caligrafia. O tachismo está intimamente relacionado ao informalismo ou à arte informal (i.e., ausência de formas), que, em seu contexto crítico de arte francesa da década de 1950, se referia não tanto a um sentido de “arte informal”, mas sim a “uma falta ou ausência da própria forma”, não formal ou não formulada, e não a uma simples redução da formalidade. A arte informal tratava mais da ausência de estrutura, concepção ou abordagem premeditada (sans cérémonie). 

Em resumo, o tachismo é um estilo de pintura abstrata informal (ausência de formas) que surgiu na França entre as décadas de 1940 e 1950, caracterizado pelo uso de manchas, borrões, gotejamentos e pinceladas rápidas e espontâneas. É considerado a vertente europeia do expressionismo abstrato dos norte-americano, focando na gestualidade, na emoção e no acaso, sem formas geométricas (2).

Jean Dubuffet (1901–1985), pintor francês criador do conceito de art brut (arte bruta).

Antoni Tàpies (1923–2012), pintor catalão cuja obra incorpora materiais não convencionais e forte densidade expressiva.

Jackson Pollock (1912–1956), pintor americano, expoente máximo do action painting e da abstração gestual.

Karel Appel (1921-2006). Christiaan Karel Appel, conhecido como Karel Appel, foi um pintor, designer, artista gráfico, escritor e escultor holandes e co-fundador do grupo CoBrA, em 1948. Seu estilo é caracterizado pelo expressionismo abstrato, figuração crua e intenso uso de cores vibrantes, marcado pela espontaneidade e energia gestual. Como cofundador do movimento CoBrA, (acrônimo para Copenhage, Bruxelas, Amsterdã. Ele rejeitava o academicismo, inspirando-se na arte infantil, folclórica e bruta, criando figuras distorcidas com camadas espessas de tinta.

Esses artistas, cada qual a seu modo, o ampliaram os horizontes da criação artística no século XX, afirmando a abstração como um campo plural, dinâmico e permanentemente aberto à pesquisa e experimentação.

Hilma af Klint (1862–1944).

Paul Klee (1879–1940).

Piet Mondrian (1872–1944)

Willem de Kooning (1904–1997).

Willem de Kooning (1904–1997).

Willem de Kooning (1904–1997).

Kasimir Severinovich Malevich (1879–1935).

Kasimir Severinovich Malevich (1879–1935).

Kasimir Severinovich Malevich (1879–1935).

Robert Delaunay (1885–1941).

Robert Delaunay (1885–1941).

Robert Delaunay (1885–1941).

Robert Delaunay (1885–1941).

Robert Delaunay (1885–1941).

Robert Delaunay (1885–1941).

Hans Hartung (1904–1989).

Hans Hartung (1904–1989).

Hans Hartung (1904–1989).

Hans Hartung (1904–1989).

Pierre Soulages (1919–2022).

Pierre Soulages (1919–2022).

Pierre Soulages (1919–2022).

Pierre Soulages (1919–2022).

Pierre Soulages (1919–2022).

Jean Fautrier (1898–1964).

Jean Fautrier (1898–1964).

Jean Fautrier (1898–1964).

Jean Fautrier (1898–1964).

Jean Fautrier (1898–1964).

Jean Dubuffet (1901–1985)

Jean Dubuffet (1901–1985)

Jean Dubuffet (1901–1985)

Jean Dubuffet (1901–1985)

Jean Dubuffet (1901–1985)

Antoni Tàpies (1923–2012).

Antoni Tàpies (1923–2012).

Antoni Tàpies (1923–2012).

Antoni Tàpies (1923–2012).

Antoni Tàpies (1923–2012).

Antoni Tàpies (1923–2012).

Antoni Tàpies (1923–2012).

Antoni Tàpies (1923–2012).

Antoni Tàpies (1923–2012).


Antoni Tàpies (1923–2012).

Antoni Tàpies (1923–2012).

Antoni Tàpies (1923–2012).

Jackson Pollock (1912–1956).

Jackson Pollock (1912–1956).

Jackson Pollock (1912–1956).

Jackson Pollock (1912–1956).

Jackson Pollock (1912–1956).

Jackson Pollock (1912–1956).

Jackson Pollock (1912–1956).

Karel Appel (1921-2006).

Karel Appel (1921-2006).

Karel Appel (1921-2006).

Karel Appel (1921-2006).

Karel Appel (1921-2006).

Karel Appel (1921-2006).

Karel Appel (1921-2006).

Karel Appel (1921-2006).

Karel Appel (1921-2006).

Karel Appel (1921-2006).

Karel Appel (1921-2006).



EXERCÍCIO: ABSTRAINDO UMA ÁRVORE 

A abstração lírica de uma árvore é uma interpretação artística que vai além da forma física da entidade árvore, focando na essência, emoção, ritmo e cor que ela evoca, em vez de uma representação realista calçada na mimese. É uma abordagem centrada na "necessidade interior" do artista, comum na arte abstrata desde os fundadores como Wassily Kandinsky, Piet Mondrian, que associava cores e formas a sentimentos.

Aqui estão os elementos chave que definem uma abstração lírica de uma árvore:Expressão Emocional: A árvore não é apenas verde e marrom; ela pode ser representada por cores vibrantes que transmitem energia, tristeza, ou calma, como em estudos cromáticos.
Formas Orgânicas e Sensíveis: Ao contrário da geometria estrita, a abstração lírica utiliza linhas fluidas, manchas de cor e traços gestuais para sugerir galhos, raízes e folhas, focado na "alma" da planta.
A "Árvore de Sons" (Kandinsky): Exemplo claro onde a estrutura da árvore é diluída em cores e formas, sugerindo ritmo e música visual.
Simbolismo da Natureza: A árvore abstrata frequentemente simboliza conexão entre céu e terra, crescimento, renovação e o equilíbrio da vida, focando mais na sua força espiritual do que física.
Técnicas Comuns: Pinturas em aquarela com bordas suaves, uso de espátula para texturas ricas (remetendo ao estilo de Leonid Afremov), e sobreposição de transparências para dar leveza.

Essa abordagem artística transforma a árvore em uma "poesia visual", onde a experiência pessoal do espectador é tão importante quanto a intenção do pintor.









Fonte







Arte urbana