Milly Lacombe
(05/11/2022)
Uma das mais eficazes ferramentas do capitalismo, especialmente em sua versão neoliberal, é a capacidade de inverter todas as pautas. Antes mesmo de Lula sair vencedor da eleição já escutávamos intelectuais liberais falando em anistia e em pacificação.
As mesmas pessoas que passaram quatro anos numa boa vendo Bolsonaro afundar o Brasil em violências de todos os tipos, da lentidão para comprar vacinas até a congratulação a policiais que se comportavam como milicianos passando pelos inúmeros sigilos de 100 anos em qualquer suspeita de malfeito ou corrupção, agora pedem que Lula e sua turma sejam os pacificadores.
Querem que aqueles que passaram quatro anos sendo abusados sejam os pacificadores.
Criticam Gleisi Hoffmann por ela não aceitar ou reconhecer o pedido de perdão de um pastor que há mais de quatro anos prega o diabo em nossas vidas e explicam, sempre vestidos de suas aparentes razoabilidades e imparcialidades, que o Brasil não aguenta mais essa polarização.
Primeiro: não existe polarização. Existe um campo democrático e o extremismo.
Segundo: não cabe ao campo que há tantos anos é criminalizado, excluído, oprimido, abusado, assediado em todas as suas formas de vida aplicar pacificação nenhuma.
Terceiro: não haverá pacificação sem punição.
Não haverá pacificação sem a construção de um espaço de memória, de investigações e confrontos a respeito de um passado nem tão distante como o da ditadura.
Foi por não fazermos isso que trouxemos à presidência um tarado pelo que acontecia nos porões da ditadura.
Um homem que goza com a morte e que foi capaz de passar quatro anos tranquilamente no poder sem ser apontado por esses intelectuais liberais que agora exigem pacificação pelo que ele realmente é: um extremista de direita.
Foi por não fazermos isso que aceitamos calados que boa parte do empresariado apoiasse financeiramente essa tragédia como se ela fosse parte aceitável do jogo político, apenas "um dos campos".
Agora é a hora de colocar todo esse horror na mesa e fazer uma autópsia do que passamos.
Investigar, processar, punir.
Punir quem torturou e assassinou Genivaldo, punir quem estrangula crianças que gritam "Lula", punir policiais e políticos prevaricadores, punir quem pede propina em compra de vacina, punir quem mete sigilo de 100 anos em tudo, punir quem idealizou e executou o Bolsolão, punir juiz que atua como justiceiro, punir empresário que praticou assédio eleitoral... a lista é longa e certamente cada um de nós vai ser capaz de se lembrar de mais alguma desumanidade que deveria estar nela.
Só assim poderemos, um dia, chegar à pacificação verdadeira e duradoura. Qualquer outro trajeto nos levará ao ambiente cantado pelo O Rappa: "paz sem voz não é paz, é medo".
Sem o caminho da investigação e da punição, falar em pacificação é coisa de gente intelectualmente desonesta que não vê a hora de 2026 chegar para eleger Tarcisios ou algum dos filhotes de Bolsonaro.
Não tem pacificação sem punição e quem estiver falando que tem está jogando contra você e contra o Brasil democrático.
Quem estiver falando em pacificação antes de falar em punição está simbolicamente compactuado com o racismo, o fascismo, o nazismo, a LGBTfobia, o machismo e a misoginia.
São as mesmas pessoas que naturalizaram a extrema-direita, que em 2018 disseram que Haddad e Bolsonaro eram dois extremos equivalentes, que vibravam com as arbitrariedades da Lava Jato e que, mais uma vez, se fantasiam de uma inexistente imparcialidade para vender suas ideologias como universais.
Esqueçam esse papo furado cheio de interesses pessoais.
Só temos um caminho a seguir: Hora do campo democrático capturar o passado para que, assim, possa haver algum futuro.
II
A esquerda deve, como Marx, exigir o cumprimento das promessas da modernidade. É o momento de exigir que a lei seja aplicada com igual intensidade independente da posição de raça, classe ou qualquer diferença social. Também temos que exigir que as instituições funcionem a fim de salvaguardar liberdades e cidadania e que as forças de segurança pública atuem para proteger os brasileiros e para assegurar a premissa da presunção de inocência. No mesmo tom, devemos exigir dos tribunais o julgamento justo e a presença juízes imparciais. A esquerda não deve ser punitivista, não temos qualquer potência para executar tal proposição, temos é que exigir a presença do Estado Democrático de Direito. As punições serão decorrentes de julgamento justo e da aplicação da lei.
III
A POSSE, COMO CULTURA
Augusto Boal
No dia da posse, devemos decretar a prorrogação da Primavera por quatro anos ininterruptos.
Em todas cidades e em cada povoado, cada um de nós deverá dar vida à sua Imagem do Sonho.
O Projeto Cultural do Governo Lula deve resplandecer desde o primeiro dia, desde a posse!
Lula falou contra a fome e a favor da solidariedade dos oprimidos: devemos transformar, em arte, suas palavras. Temos que estetizá-las.
Estetizar significa transmitir pelos sentidos e não apenas pela razão.
Lula falou palavras: temos que mostrá-las como sólidas, palpáveis e beliscáveis.
Temos que teatralizá-las, pintá-las, esculpi-las, cantá-las, torná-las concretas, fotografáveis, filmáveis.
Como fazer? É muito simples!
Primeiro: em todas as praças de todos os povoados do país inteiro, vamos realizar Feiras Culturais com as quais, desde manhã bem cedo, antes que fuja a noite – desde a primeira luz! – vamos acordar o sol com orquestras, bandas e blocos; pintores e escultores; artistas de circo e teatro, bordadeiras, poetas e repentistas, corais e solistas – ao ar livre, em vielas e descampados, todos em sincronia, nas cidades e nos campos, todos nós, em toda parte, vamos mostrar nossa arte. Vamos saudar o dia!
Segundo: em praças e ruas, o povo deve instalar mesas improvisadas, com toalhas limpas e lindas – mesmo que sejam de papel de embrulho, bordadas com tesoura e lápis de cor – para as quais deve trazer pão e comida, e dividi-los com Amor.
Terceiro: isto é importantíssimo – todos devem estar comendo na hora da posse do Presidente Lula! No ato do juramento, quando ele disser – “Eu Juro!” – todos, no país inteiro, todos ao mesmo tempo, devemos levar à boca alimento, e mastigar com bravura, pois acabar com a fome ele jura: juremos juntos, comendo, juremos o mesmo juramento! O brinde ao seu governo deve ser mastigado com ganas e com verdade.
Devemos ser companheiros, comer o mesmo pão, o pão coletivo. Com nossas mãos abertas, oferecer, ao próximo, comida.
Quarto: a população deve dar o que tiver de descartável em suas casas e possa, a outros, ser útil: sapatos, roupas, móveis, espelhos, panelas, livros, quadros, violões e reco-recos, quaisquer objetos que tenham serventia, que saiam do armário e venham todos à luz do dia. Dar e trocar!
Quinto: para essas Feiras, devem ser convidadas comunidades estrangeiras que vivam no Brasil, para que tragam sua dança, música, comida – vamos dialogar.
Sexto: após a posse, em ruas e praças, todos os esportes serão praticados; pingue-pongue, jogo de malha e peteca, bola de gude, pulo de corda e carniça, voleibol, basquete, luta romana e grega, corridas, ginástica, trapézios… Tudo é Cultura.
Sétimo: em uma tribuna visível, cidadãos terão direito a três minutos de fala para fazerem propostas de governo, que deverão ser levadas a sério, às Câmaras, analisadas, votadas. A sério, que com a lei não se brinca!
Enquanto em Brasília dura a festa, no Brasil vive a alegria. Depois, vamos dormir mais cedo: o Dia da Posse será prenúncio e mostra do Mandato Popular – será proclamado o Dia da Cultura.
Estamos sonhando, é verdade, e o nosso sonho é sonho. Mas, se hoje sonhamos, é porque temos agora o direito de sonhar o sonho verdadeiro: hoje, sonhar não é proibido: sonhar é possível. Sonhar… não é sonho.
Sonhemos!
(Augusto Boal in memoriam, 2002)
IV
Via (RQM)
Anti-PeTismo é tudo...Vale tudo.... Afrontar a democracia exigindo golpe e autoritarismo...Postar-se contra avanços básicos de cidadania já presentes nas sociedades liberais (EUA), como por exemplo, o casamento gay, cotas raciais e muitos outros...
Também é ser contra o feminismo presente em Simone de Beauvoir...
Contra questões de ciências humanas do ENEM, saberes básicos do ensino médio tão evidentes como o saber que diz que o planeta Terra gira em torno do sol...
Enfim, a crise política é a da civilização contra a barbárie....
O anti-petismo é apenas a síntese das forças brutais que apavoradas diante de avanços fundamentais tremem dentro do ovo da serpente...
(Escrito de um amigo em 2015).
Reflexão:
Escrito visionário de análise profunda e lógica. O mundo se vê diante desse monstro gigantesco, Hidra de Lerna, teratogênica, metastática. Onde existir um direito aí há um espaço para o mercado, aí há uma mercadoria. Será que esse câncer se alastrará até não sobras tecido social vivo? A luta contra a civilização no mundo todo que no Brasil produziu o antipetismo é de fato uma destruição continua da civilização, do humano que há em cada um de nós. É o fascismo continuado de cada pessoa, em todos os dias em todos os momentos.
V
Mamifestar-se na porta de quartéis exigindo que as FA tomem o poder, é ato criminoso. Um ato totalmente ilegal, sem qualquer amparo na Constituição Cidadã de 1988, uma massa de autoritários questionando o resultado das eleições, ou seja, a própria lógica democrática das urnas, que elegeu todos inclusive o governo que questiona o processo eleitoral. É grave, sobretudo nas imediações do alto comando militar. Quem são os criminosos? É preciso jornalismo-ação, investigativo e imparcial, para esclarecer toda essa situação. Há certamente volume expressivo de integrantes da tal "família militar", da ativa e da reserva, pensionistas bem pagos e vazios de realidade brasileira. A paisagem composta por criminosos que ameaçam a Defesa do Estado Democrático é inaceitável. É crime incitar um poder contra o outro, ou contra o estado democrático de direito. Então, porque os militares estão permitindo a estada desses criminosos em sua área, já que não é ação democrática exigir o fim do Estado democrático? Teriam “algo” a ganhar com isso? Seriam eles os mentores ideológicos dessa anomalia? Se não são os mentores, quem estaria por trás dessas manifestações fascistas?
(SOBRE OS ATOS ANTIDEMOCRATICOS DE NÃO ACEITAR OS RESULTADOS DAS URNAS, AQUI EM POA E EM TODO O BRASIL)