INÍCIO

23 julho 2022

JACK LONDON

JACK LONDON

"Os rejeitados e os inúteis! Os miseráveis, os humilhados, os esquecidos, todos morrendo no matadouro social. Os frutos da prostituição, prostituição de homens e mulheres e crianças, de carne e osso, de fulgor e espírito; enfim, os frutos da prostituição do trabalho. Se isso é o melhor que a civilização pode fazer pelos humanos, então nos dêem a selvageria nua e crua. Bem melhor ser um povo das vastidões e do deserto, das tocas e cavernas, do que ser um povo da máquina e do Abismo".
(Jack London)










John Griffith Chaney, nasceu em 12 de janeiro de 1876 e faleceu em 22 de novembro de 1916, mais conhecido como Jack London, foi um romancista, jornalista e ativista americano. Pioneiro da ficção comercial e das revistas  norte-americanas. Ele foi um dos primeiros autores norte-americanos a se tornar uma celebridade internacional e ganhar uma grande fortuna escrevendo. Ele também foi um inovador no gênero que mais tarde se tornaria conhecido como ficção científica.

London fazia parte do grupo literário radical “The Crowd” em San Francisco e um defensor apaixonado dos direitos dos animais, direitos dos trabalhadores e do socialismo. Em todos os seus livros faz uso de fatos de sua própria vida passada em grande parte na miséria e sem teto. Em seus escritos deixa transparecer uma crítica ferrenha ao capitalismo e a geração de desigualdade engendrada pelo modo de produção capitalista. 
Jack London escreveu várias obras que tratam desses tópicos, como seu romance distópico The Iron Heel, O tacão de ferro, sua exposição de não-ficção “The People of the Abyss”, O povo do abismo, “War of the Classes” e “Before Adam”.

Seus trabalhos mais famosos incluem “The Call of the Wild”, O chamado da natureza, e “White Fang”, Caninos brancos, ambos ambientados no Alasca e no Yukon durante a Corrida do Ouro de Klondike, bem como os contos “To Build a Fire”, “An Odyssey of the North” e “Love of life”. Ele também escreveu sobre o Pacífico Sul em histórias como “The Pearls of Parlay” e “The Heathen”, além de escrever sobre o surfe, sendo o pioneiro na reabilitação e no renascimento do surfe como esporte. Os surfistas do mundo todo devem muito a ele por esse fato único nesse esporte que ironicamente se tornou um tanto elitizado.





Saiba mais sobre Jack London nesta linha do tempo de sua notável vida e legado.


1876 - He's born in San Francisco on Jan. 12 and named John Griffith Chaney. His unwed mother, Flora Wellman, marries John London on Sept. 7, and he is renamed Jack London.

1879 - John London moves family to Oakland where he operates a truck garden near present Emeryville.

1886 - London family moves to Oakland after living on farms in San Mateo and Livermore. Jack discovers the Oakland Public Library.

1890-91 - Jack graduates from Cole Grammar School in Oakland and works at a salmon cannery for 10 cents an hour. He borrows money to buy a sloop, the Razzle Dazzle, and becomes an oyster pirate in San Francisco Bay.

1893 - He joins a sailing schooner for an eight-month journey to Japan, resulting in his first published story, “Typhoon of the Coast of Japan.”

1897-98 - Jack travels to the Klondike in Canada for its gold rush.

1900 - He marries Bessie May Maddern and publishes his first book, “The Son of the Wolf.” He also meets Charmian Kittredge. 

1901-02 - His daughters Joan and Beck are born. Jack travels to the slums of London's East End to research “The People of the Abyss.”

1903 - Visits Glen Ellen and separates from his first wife, Bessie.

1904 - “The Sea-Wolf” is serialized in “The Century Magazine. London covers the Russo-Japanese War for the San Francisco Examiner as a journalist. Bess files for divorce.

1905- London buys the old Hill Ranch in Glen Ellen, the first of seven land purchases that merge into his Beauty Ranch. He marries Charmian Kittredge.

1906 - He reports on the San Francisco earthquake for Collier's Magazine.

1907 - London sets sail on what will be a two-year adventure in the South Pacific aboard the Snark, a sailboat. He contracts a tropical disease, and health problems force him to return home.

1909 - He publishes semi-autobiographical novel, “Martin Eden.”

1910 - Charmian gives birth to a baby girl, Joy, who lives only 38 hours.

1911 - London moves to his Beauty Ranch and begins building his dream home.

1913 - Wolf House is destroyed by fire weeks before the Londons are to move in. London publishes “John Barleycorn” and “The Valley of the Moon.” Drives wagon and four horses to the Northwest.

1916 - He publishes “The Acorn Planter”.

1916 - Jack London dies at Beauty Ranch on Nov. 22.

1955 - Charmian London dies.

1959 - London's nephew, Irving Shepard, transfers 40 acres of Beauty Ranch to the state, including the House of Happy Walls, London's gravesite and the Wolf House ruins.

1960 - Jack London State Park opens to the public.

1979 - State purchases an additional 756 acres of Beauty Ranch from the Irving family, greatly expanding Jack London Historic State Park.

2012 - Jack London Park Partners group reaches agreement with the state to take over management of the park.

2016 - Jack London Park Partners launches a capital campaign to recharge the museum at the House of Happy Walls, and embarks on a yearlong commemoration of Jack London.


JACK LONDON E O MERCÚRIO BRONZEADO

Por Gabriel Pierin (1)

John Griffith Chaney, conhecido com o pseudônimo Jack London, foi um jornalista e ativista político norte-americano. Nascido em São Francisco, em 1876, ele se tornaria um dos primeiros escritores a alcançar o sucesso mundial.

Veleiro Snark construído por Jack London

Das suas inúmeras obras, “O Cruzeiro do Snark” narra suas viagens a bordo de um veleiro que ele mesmo construiu. Nele, London escreveu as experiências vividas enquanto navegava pelo Pacífico. Em 1907, o jornalista alcançou as ilhas havaianas.

No início do ano 1900, o Havaí tornara-se território dos Estados Unidos. A população havaiana foi praticamente dizimada na segunda metade do século XIX por doenças trazidas pelos europeus. Além disso os missionários cristãos consideravam a íntima relação dos nativos com o mar o caminho para a depravação moral.

O surfe estava praticamente perdido quando o destino cruzou o caminho do havaiano George Freeth com os escritores Alexander Humer Ford e Jack London. Num dos relatos mais impactantes de sua obra, London escreveu:

“E de repente, lá fora, onde um grande volume de água fumante ergue-se para o céu, elevando-se como um deus do mar da confusão de espuma e de um branco agitado, na crista vertiginosa, derrubada, saliente e decadente, precária aparece a cabeça escura de um homem.

Rapidamente ele se levanta através do branco correndo. Seus ombros negros, seu peito, seus lombos, seus membros – tudo é projetado repentinamente na visão de alguém.

Onde, no momento anterior, havia apenas a ampla desolação e o rugido invencível, agora há um homem, ereto, cheio de estatura, sem

lutar freneticamente naquele movimento selvagem, não enterrado, esmagado e golpeado por aqueles poderosos monstros, mas de pé sobre todos eles, calmo e soberbo, equilibrado no cume vertiginoso, os pés enterrados na espuma agitada, a fumaça salgada subindo até os joelhos, e todo o resto no ar livre e na luz do sol, e ele está voando pelo ar, voando para a frente, voando rápido como a onda em que ele está.

Ele é um Mercúrio – um Mercúrio bronzeado.”

O escritor ficou fascinado e tentou correr uma onda em pé. O fracasso nas primeiras tentativas foi superado com a ajuda de Alexander Humer Ford. “Sai dessa, prancha”, disse Ford. “Olhe para o jeito que você está tentando montá-la. Pegue a minha. É do tamanho certo para um homem”.

London aprendeu a surfar e apoiou a criação do Outrigger Canoe Club, o primeiro clube de surfe da história, considerado um marco no renascimento do surfe e da cultura de praia havaiana.

O sucesso do surfe rompeu barreiras e fronteiras. George Freeth foi levado para os Estados Unidos para mostrar sua arte e era anunciado como o “homem que andava sobre as águas”. No seu rastro, Duke Kahanamoku percorreu o mundo, transformando-se no primeiro grande embaixador do espírito Aloha.


O surfe conquistou um porta-voz influente. London era um fenômeno literário e sua obra entusiasmou muita gente na costa norte-americana. Os jovens passaram a buscar nas ilhas havaianas o paraíso das ondas e o surfe seguiu vivo na terra dos reis.


O QUE TEMOS CONTRA JACK LONDON?


Ele era um excelente escritor e seus livros continuam a ser um verdadeiro prazer. Eu recomendo The Sea Dog, White Fang ou The Call of the Wild. Mas sua tão aclamada contribuição para o surf merece, no mínimo, um olhar crítico.

Snark (latitude38)

Jack London chegou ao Havaí em 1907, já um escritor famoso. Tentou surfar, surtou, escreveu sobre suas experiências de surf e sempre foi muito elogiado no mundo, pois com esses textos contribuiu para a "revitalização" do surf (que naquela época estava em claro declínio devido à chegada dos colonizadores ocidentais ao Havaí).

No entanto, historiadores como Scott Laderman ou Isaiah Helekunihi Walker, entre outros, mostraram que os americanos estavam tentando transformar o Havaí em um "estado do homem branco"; e que foi o publicitário Alexander Hume Ford quem levou Jack London para o surfe e o encorajou a escrever sobre isso, porque eles estavam promovendo o surfe e as ilhas para atrair turistas.

Mesmo aceitando que um e outro terão sua parcela de razão, não há como ler os textos que o próprio Jack London publicou sobre o surfe para tirar mais conclusões.

Onde Mark Twain viu e descreveu homens e mulheres de todas as idades desfrutando da "arte de surfar" (1872), Jack London descreveu (1911) jovens praticando um  novo "esporte", "surf-riding".

Além disso, para Jack London o surf era “uma batalha”, “uma luta contra o mar”. Nada mais e nada menos que “um esporte real para os reis naturais da terra”…

Em seus textos, os surfistas havaianos morenos não têm nome nem sobrenome, e ele destacou sobretudo um homem branco, nascido no Havaí de mãe americana, este com nome e sobrenome: George Freeth. Exatamente a mesma que o publicitário Alexander Hume Ford lhe apresentou.

Jack London acrescentou ao surf, não apenas um certo épico, mas também valores americanos; e transformou o "he'e nalu" ("deslizar sobre as ondas") dos havaianos no esporte "surf-riding".

Um esporte que logo seria masculino, individualista, exótico e anglófono. E que não acabou sendo "uma luta", "uma batalha contra o mar", porque um admirável havaiano que se destacou acima dos demais, Duke Kahanamoku, equilibrou um pouco essa perspectiva ianque com os valores polinésios.

Claro que os norte-americanos acabaram se apropriando do surf, assim como as ilhas havaianas. E eles ainda são os mestres do poleiro. Não importa que os brasileiros estejam subindo aos pódios. Basta ver em que mãos permanecem as marcas multinacionais, a liga mundial, a mídia de surf mais poderosa, etc.

Jack London foi um escritor extraordinário e um conhecido militante socialista, mas parece que, antes de tudo isso, ele era acima de tudo americano, um ianque.

 

VELEIRO SNARK

Tudo começou na piscina de Glen Ellen. Entre um mergulho e outro, costumávamos sair da água e deitar na areia, deixando nossos corpos ficarem saturados de ar quente e sol.







Roscoe era um iatista. Eu tinha ido para o mar por um tempo. Era inevitável que viéssemos a falar de barcos. Conversamos sobre pequenos barcos e como eles seguram o mar; nos lembramos do capitão Slocum e sua viagem de três anos ao redor do mundo no "Spray".

Roscoe na proa do Snark

Declaramos que a ideia de dar a volta ao mundo num barco de pequenas proporções, por exemplo quarenta pés, não nos assustava.

Também argumentamos que teríamos gostado da ideia. Finalmente, declaramos que nada no mundo seria mais bem-vindo para nós do que ter a chance de fazê-lo. 
-Vamos fazer isso - disse para si mesmo em tom de brincadeira.








Algum tempo depois que nos encontramos deitados na areia da piscina eu disse a Roscoe: - Vamos fazer isso. - Eu estava falando sério e ele também: na verdade ele perguntou: - Quando partimos?









Assim a viagem foi decidida e a construção do "Snark" começou.

O barco foi batizado de "Snark" porque não conseguimos encontrar um nome melhor - esta informação é para o benefício daqueles que poderiam suspeitar de algo misterioso sobre esse nome.

Nossos amigos não conseguem entender o motivo dessa viagem. Eles estremecem, choram, reclamam. Nenhuma explicação pode convencê-los de que estamos realmente seguindo a linha de menor resistência, ou seja, sair para o mar com um barco é muito mais fácil para nós do que ficar em terra. Eles pensam que eu sou louco, em troca eu tenho pena deles. Este é um estado de espírito que me é familiar. Estamos todos inclinados a acreditar que há algo errado com o pensamento daqueles com quem discordamos.

Sr e Sra London no barco ainda em construção

A palavra final é esta: EU GOSTO (mi piace). É a base da filosofia e é inseparável do núcleo da existência. Quando a filosofia resmungou pedantemente por um eu se para mostrar ao indivíduo o que o indivíduo deve fazer, de repente ele diz: "Gosto" ele faz outra coisa e a filosofia sai para passear. Porque ele gosta assim; o bêbado bebe e o mártir se veste de saco um torna-se bêbado e o outro anacoreta, um busca a glória o outro riqueza o outro amor e o outro ainda Deus, é o meio pelo qual o homem explica o seu "como" (seu "mi piace").

Mas voltemos ao "Snark" e ao porquê do meu desejo de viajar com ele pelo mundo. As coisas de que gosto compõem meu sistema de valores. Minha coisa favorita é o sucesso pessoal, não pelos aplausos do mundo, mas pela minha própria satisfação interior.

É o grito antigo: "Consegui! Eu fiz isso com minhas próprias mãos!". Mas para mim, o sucesso deve ser concreto. Prefiro ganhar uma competição de nado na piscina ou ficar em um cavalo que tenta me derrubar do que escrever o Grande Romance Americano.

Cada um tem seu gosto: outra pessoa no meu lugar prefere escrever o Grande Romance Americano do que ganhar uma competição de nado ou domar um cavalo.

Jack London em frente ao inicio da construção do barco.

É por isso que estou construindo o "Snark". Eu sou feito assim: eu gosto, só isso. Viajar pelo mundo significa grandes momentos da vida. Seja paciente por um momento e pense sobre isso por um tempo.

O "Snark" estará navegando. Haverá um motor a gasolina, mas será usado apenas em casos de emergência, por exemplo, em águas perigosas entre baixios e rochas na superfície da água onde uma calma repentina deixa o barco à mercê da corrente. 

O equipamento "Snark" será do tipo chamado "ketch". A plataforma "ketch" é um compromisso entre o "yawl" e a escuna. Nos últimos anos, o equipamento "yawl" provou ser o melhor para cruzeiros. O "ketch" mantém as qualidades de cruzeiro do "yawl" e também tem algumas das qualidades de navegação da escuna. O que eu disse deve ser tomado com reservas porque para mim é tudo teoria. Eu nunca naveguei em um "ketch" na verdade eu nunca vi um. É a teoria que me parece boa; espere até que eu esteja em alto mar, então poderei dizer mais sobre as qualidades de navegação e cruzeiro do “ketch”.




Quanto aos marinheiros, não haverá. Ou melhor, seremos Charmian, Roscoe e eu. Faremos tudo sozinhos. Nós com nossas mãos daremos a volta ao mundo, faremos isso ou iremos ao fundo. Claro que haverá um cozinheiro e um menino. Teremos o relógio e a manobra das velas. Não só isso, mas também terei que trabalhar no meu ofício como escritor para conseguir comida, comprar novas velas e cordames e manter o "Snark" eficiente. A viagem foi o nosso sonho de um belo período de existência. (Retirado de: Jack London's Snark Cruise) (progettomediterranea, 2013)





A vida de Jack London 

"É na soma do seu olhar que eu vou me conhecer inteiro 
se nasci para enfrentar o mar ou faroleiro
(Chico Buarque)

Os contos deste livro são profundamente tocantes. Eles falam sobre as questões da nossa existência, aquelas mais importantes, que nos inspiram a pensar no sentido das nossas ações, das nossas escolhas na vida. Nos fazem refletir sobre o tipo de vida que queremos para nós, sobre o lugar que queremos ocupar no mundo. Eles alimentam nossa alma ao falarem da vida com paixão, entusiasmo e sinceridade. Transmitem a força e o vigor do seu autor. 

Jack London foi o melhor escritor dos Estados Unidos em seu tempo e hoje é considerado um dos melhores do mundo. Tudo que escreveu foi criado a partir das suas experiências de vida, e essas foram muito interessantes e inusitadas. 

John Griffith Chaney nasceu em 1876, numa família mal estruturada e muito pobre. Seu país não reconheceu-o como filho e ao nascer sua mãe tentou o suicídio com um revólver, ferindo-se gravemente, mas sobreviveu. Não sabia quem era seu pai e passou fome ao longo da infância e da juventude. Trabalhou desde criança para ajudar no sustento da família. 

Jack London aos nove anos de idade e ao seu lado o seu cachorro, Rollo.

Quando jovem viajou pelo mundo, chegando ao Japão, trabalhando como marinheiro; depois percorreu grande parte dos Estados Unidos viajando clandestinamente em trens, sobrevivendo de esmolas que pedia de porta em porta. Tentou voltar a estudar, numa escola de segundo grau, e depois na universidade, mas sua pobreza o impediu de prosseguir.

Descobriu o socialismo nesse mundo de mendigos e vagabundos. Como autodidata dominou as teorias mais avançadas de sua época, como o marxismo e a teoria da evolução de Darwin. Foi um dos maiores propagandistas do socialismo nos Estados Unidos em sua época. Apropriando-se desse novo saber, tornou-se o mais ferrenho e combativo crítico do modo de produção capitalista que gera pobreza e fome no mundo.
Foi para o Alasca tentar a sorte na corrida do ouro de Klondike, e de lá voltou doente e sem um mísero tostão. 

Casou-se e teve duas filhas, mas desfez esse casamento causando enorme
escândalo. Trabalhou como correspondente de guerra, arriscando-se a morrer por várias vezes, a fim de escrever boas reportagens. 

Ganhou muito dinheiro ao tornar-se escritor e conviveu com os homens mais poderosos do seu país. Projetou um barco, construiu-o, o veleiro SNARK e nele viajou pelo mundo, com sua segunda mulher, tendo contraído uma doença tropical no Hawai, voltou dessa viagem que durou apenas dois anos. 

Com o dinheiro que ganhava comprou uma porção de terra e construiu um rancho (Beauty Ranch) em 1911 que logo depois foi consumido num incêndio em 1913. Reconstrói sua casa e volta a morar nela. Nesse mesmo ano pública “John Barleycorn” e “The Valley of the Moon”. Em 1916 publica o seu último livro  “The Acorn Planter”. 

Jack London morreu em 22 de novembro de 1916, em uma varanda para dormir em uma cabana em seu rancho. London tinha sido um homem robusto, mas sofreu várias doenças graves, incluindo escorbuto no Klondike. Além disso, durante as viagens no Snark, ele e Charmian pegaram infecções e doenças tropicais não especificadas, incluindo bouba. No momento de sua morte, ele sofria de disenteria, alcoolismo em estágio avançado e uremia; ele estava com dor extrema e tomando morfina.

As cinzas de Jack London foram enterradas em sua propriedade não muito longe da Casa dos Lobos. O funeral de Jack London ocorreu em 26 de novembro de 1916, com a presença apenas de amigos próximos, parentes e trabalhadores da propriedade. De acordo com seus desejos, ele foi cremado e enterrado ao lado de algumas crianças pioneiras, sob uma pedra que pertencia à Casa dos Lobos. Após a morte de Charmian em 1955, ela também foi cremada e depois enterrada com o marido no mesmo local que o marido escolheu. A sepultura é marcada por uma pedra coberta de musgo. Os edifícios e propriedades foram posteriormente preservados como Jack London State Historic Park, em Glen Ellen, Califórnia.

Como ele estava usando morfina, muitas fontes mais antigas descrevem a morte de London como suicídio, e algumas ainda o fazem. Esta conjectura parece ser um rumor, ou especulação baseada em incidentes em seus escritos de ficção. 
Sua certidão de óbito dá a causa da morte como sendo uremia, após cólica renal aguda.

O biógrafo Stasz escreve: "Após a morte de Jack London, por uma série de razões, desenvolveu-se um mito biográfico no qual ele foi retratado como um mulherengo alcoólatra que cometeu suicídio. Estudos recentes baseados em documentos de primeira mão desafiam essa caricatura." A maioria dos biógrafos, incluindo Russ Kingman, agora concordam que ele morreu de uremia agravada por uma overdose acidental de morfina.

Os contos de ficção de Jack London apresentavam vários suicídios. Em suas memórias autobiográficas John Barleycorn, afirma, quando jovem, ter tropeçado bêbado ao mar na Baía de São Francisco, "alguma fantasia divagante de sair com a maré de repente me obcecou". Ele disse que derivou e quase conseguiu se afogar antes de ficar sóbrio e ser resgatado por pescadores. No desenlace de "A Pequena Dama da Casa Grande", a heroína, confrontada com a dor de um ferimento de bala mortal, sofre um suicídio assistido por morfina. Além disso, em Martin Eden, o protagonista principal, que compartilha certas características com Jack London, comete suicidio agofogando-se.(Postmaster, 2022)

Jack London escrevendo, 1905

Jack London, s/d

Esses fatos por si mesmos já compõem uma incrível história de aventuras reais, mais atraente que muitas ficções. Porém o mais interessante da vida de Jack London não são suas aventuras em si, mas sim aquilo que o moveu em direção a elas. A grande aventura, que vale a pena acompanharmos neste livro, foi o fato dele ter “escrito” a história de sua vida num caminho próprio e por isso único. 

Quis ser dono do seu destino, escolheu ser sujeito da sua vida, quis descobrir e afirmar suas verdades mais íntimas e essenciais. E fez isso com uma tenacidade comovente e admirável. A cada decisão que o levou às aventuras o que imperava era seu desejo de “enfrentar o mar” para buscar o que queria na verdade: uma vida que valesse a pena ser vivida. Sua força brotava da necessidade premente de sentir-se vivo e ele sabia que para conseguir isso precisava ser fiel às verdades do seu corpo e da sua alma. Quando decidiu, por exemplo, ir ao Alasca em busca do ouro, não o fez porque buscasse aventuras ou emoções fortes, e sim porque tinha sido obrigado a abandonar a universidade depois de ter feito um esforço imenso para cursá-la. 

Estava trabalhando numa lavanderia, lavando e engomando as roupas de seus ex-colegas de faculdade, era tanto trabalho, que não lhe sobrava nenhum tempo ou mesmo energia para fazer coisas que o animassem a viver, como ler, escrever, namorar. E ainda ganhava tão pouco que mal podia sobreviver: dez centavos de dólar a hora. 

Quando voltou do Alasca resolveu escrever. A ideia de ganhar a vida como escritor tornou-se sua tábua de salvação, depois de ter visto naufragadas todas as suas tentativas anteriores. Novamente deparou-se com dificuldades que poderiam ser consideradas intransponíveis. Seus primeiros contos foram rejeitados pelas editoras e revistas por longo tempo. Ele sabia que isso ocorria por suas histórias falarem da realidade que viveu no Alasca, no mundo dos mendigos, nos navios. 

Sabia que não eram contos palatáveis para o público estadunidense, pois este queria continuar lendo histórias vazias e açucaradas, e assim manter uma imagem idealizada da vida. London decidiu continuar escrevendo no seu estilo único, novo. Queria falar do que tinha vivido e visto, das suas verdades, que incluíam aspectos rudes e sombrios da realidade. E mais uma vez fez uma aposta alta: resolveu que o público e os editores teriam que aceitá-lo tal qual era, correndo assim o grave risco de continuar passando fome por um tempo imprevisível, ou mesmo a vida toda. 

Tempos depois, quando finalmente conseguiu ser aceito e passou a ter fama e dinheiro, não se acomodou à confortável situação. Aprendera que valia a pena defender suas convicções, e que para isto tinha que pagar o preço de descontentar muitas pessoas, e o de ser combatido ferozmente por muitas delas. Continuou defendendo com unhas e dentes suas escolhas na vida pessoal e seu estilo na literatura, como vemos nesta carta enviada a um editor: “Insisto agora, como sempre insisti, que a virtude literária cardeal é a sinceridade. Se estou errado nesta convicção e o mundo me renega, só me cabe dizer um adeus indiferente ao mundo e orgulhoso por refugiar-me no rancho, plantar batatas e criar galinhas para conservar o estômago cheio. Foi a minha recusa de aceitar advertências sensatas que me fez o que sou hoje.” (modif. de pdfcofee)

Mas de onde Jack London tirava forças para recusar tantas advertências supostamente sensatas e seguir construindo seu caminho? Onde se segurava quando enfrentava as tempestades em alto mar? E o frio mortífero do Alasca? O trabalho que lhe exauria os músculos e a capacidade de sonhar? O mundo cruel, sem eira nem beira, dos desempregados que se tornaram mendigos? Como suportava não saber quem era seu pai? Como não desistia de continuar tentando caminhos ao frustrar-se quando teve que abrir mão da escola, da universidade, quando voltou do Alasca pior do que havia chegado? 

Conseguiu transpor inúmeros obstáculos, mesmo que por várias vezes ficasse muito deprimido, achando que estes eram grandes demais, e que nunca os venceria. Mas seus tormentos e medos, suas angústias, não apenas não o paralisaram, como o impulsionaram a enfrentar novos desafios. Pouco antes de morrer escreveu sobre o resultado destes enfrentamentos:

Na minha idade madura, estou convencido de que o jogo da vida vale a pena. Tive uma vida muito feliz, mais feliz de que a de muitos milhões de homens da minha geração. Se por um lado sofri muito, por outro vivi muito, vi muita coisa, senti muita coisa que foi negada à maioria dos homens. O jogo vale mesmo a pena.” 

Penso que foi fiel a sua frase: “Só se tem uma vida para se viver, e por que não vivê-la de verdade?” (embora rumores de que sua monte tenha sido suícidio, é pouco provável que isso tenha ocorrido).(modif. de pdfcofee

Alguns dizem que, "talvez sua busca por definir os caminhos da própria vida tenha incluído determinar o momento do seu fim". Por tudo isso é interessante prestar atenção ao que sustentou sua cabeça erguida e seus olhos direcionados ao horizonte desejado enquanto viveu. 

Podemos perceber as pistas desta força nos seus contos. Sua primeira sustentação interna foi a vontade de viver; pode-se vislumbrá-la nas histórias que escreveu. No conto autobiográfico "O herege" ele narra um período muito doloroso de sua infância, quando trabalhou até a exaustão total. Deixa transparecer como desde criança sua gana de viver colocava-se acima das exigências sociais mortíferas, às quais estava submetido. Ele não tinha consciência disto, apenas movia-se pela recusa em deixar-se matar aos poucos, sendo essa a força propulsora que o levou a enfrentar seus primeiros desafios: não queria morrer, queria viver bem. No Amor à vida o personagem luta com toda a força da sua consciência e dos seus instintos para permanecer vivo no frio extremo do Alasca. O conto é uma revelação da vontade feroz, selvagem, de viver. Também faz pensar sobre as marcas que as batalhas entre a vida e a morte deixam em nós, mostrando que não somos super-heróis, capazes de passarmos por experiências dessa magnitude e sairmos intocados. (modif. de pdfcofee)

Uma curiosidade a respeito deste conto é o fato de Lênin gostar muito dele. 
"A volta do pai pródigo", como "O herege", também coloca a vida acima das convenções sociais opressoras. Não se trata da opressão de classe, tema que aborda em "O china", mas sim daquela que também faz com que abaixemos nossa cabeça e nos humilhemos frente a nós mesmos. Fala das relações dominadoras dentro da família, entre marido, mulher e filho. Não aponta saídas heroicas, grandiosas, mas trata com humor das soluções possíveis aos “meramente” humanos. 

Nestes contos, como em todos os outros, os personagens estão longe de qualquer tipo de perfeição, ou de retidão absoluta. Não são exatamente o que se chama de pessoas exemplares. São contraditórios e complexos, cheios de incertezas, têm altos e baixos, como a vida, e por isso mesmo são tão interessantes. São de uma humanidade profunda e tocante, justamente por serem pessoas parecidas com pessoas. A segunda sustentação de Jack London foram os livros, que leu e escreveu. E ele os descobriu ainda criança, como conta Irving Stone, seu biógrafo, no livro "A vida errante de Jack London": “Nunca sonhou que pudesse haver tal coisa como uma biblioteca pública, uma casa com milhares de livros que qualquer pessoa poderia ler. (modif. de pdfcofee).

Em "O mexicano" conta a história de um jovem e estranho militante mexicano. Ela nos faz pensar sobre a singularidade de cada pessoa ao entrar na luta pelo socialismo. Sobre qual a contribuição que cada um pode e quer dar, de onde vem sua motivação. Mostra que na maioria das vezes a contribuição para a luta coletiva não é luminosa, visível a qualquer tipo de olhar, mas é a que se pode e se quer dar, justamente porque é aquela que faz sentido para cada um. Quando escreve sobre sua saída do Partido Socialista, Jack London deixa claro como o percurso para o socialismo no qual acreditava estava em sintonia com sua personalidade:

Abandono o Partido Socialista por sua falta de ardor e combatividade e por sua falta de significação na luta de classes. Fui inicialmente um membro do velho, revolucionário e combativo Partido Trabalhista. Conhecedor das lutas de classe, acredito que os trabalhadores só poderiam emancipar-se pela luta, pela intransigência, não cedendo nunca, não fazendo concessões ao inimigo. Uma vez que, nos últimos anos, todo o movimento socialista dos Estados Unidos é orientado para a tranquilidade e as concessões, cheguei à conclusão de que meu espírito se recusa a sancionar a minha permanência no Partido. E aí está a razão da minha renúncia.” 

Na verdade, o que o animou a ser um autodidata, a descobrir, a estudar e a divulgar as teorias revolucionárias, foi a mesma coisa que o levou a devorar os livros de aventuras na infância: a capacidade de sonhar e de desejar uma vida digna para si e para as pessoas com as quais se identificava.


E chegamos assim a sua sustentação mais importante: as relações de amizade e de amor com as pessoas que fizeram parte de sua vida. Jack London permaneceu com dúvidas em relação a quem era seu pai, apesar das suas tentativas de saber a verdade. Sua mãe nunca foi amorosa e atenciosa com ele, não tinha condições de assumir o lugar de mãe. Mas sua irmã adotiva, filha de seu padrasto, assumiu esse lugar: estava sempre pronta a oferecer o apoio de que necessitava, desde o início até o fim da vida dele. 

Os contos "Esterco..." "Nada mais" e "O pagão" tratam de dois tipos diferentes de associações entre os homens. O primeiro, uma história de dois ladrões, fala sobre uma associação baseada no uso que um faz do outro. Não há troca entre os dois, cada um vê o outro como um instrumento para a satisfação de suas necessidades. O conto chega a ser engraçado quando mostra a que ponto podem chegar as pessoas que não enxergam os outros como semelhantes. 

Já em "O pagão", que foi escrito baseado na relação de Jack London com um empregado japonês, mostra como dois homens ganham por poder colocarem-se um no lugar do outro, sendo tão diferentes, inclusive no que se refere ao status social. Essa sublime capacidade é simbolizada na história pela troca de nomes que fazem entre si. Os personagens falam da amizade que sustenta a vida, e faz com que eles se transformem em pessoas melhores a cada dia. Falam de como a convivência com quem se admira e se ama preenche a vida de sentido

London teve muitos amigos em todas as fases de sua vida, e tinha grande satisfação em compartilhá-la com eles. Quando tornou-se um escritor famoso recebia-os em sua casa, dava-lhes dinheiro, discutia horas a fio todos os tipos de assunto, lia para eles suas histórias assim que ficavam prontas. Também amou várias mulheres, e viveu esses amores com empenho e intensidade. Penso que foi esta a sustentação mais importante do seu desejo de viver, e viver com a cabeça erguida: as pessoas que amou e que o amaram. Foram as pessoas que o olharam com olhares generosos que o encheram de coragem para enfrentar os desafios do mar, os desafios de ser ele mesmo. 

Quando Jack London escreveu suas histórias, imprimiu nelas todos estes tesouros acumulados em sua vida tão rica. O que a vida significa para mim é uma belíssima síntese desta riqueza. Escreveu para pessoas lerem, para nós lermos e gostarmos do que tinha a dizer. Quis cumplicidade para suas ideias, quis trocar olhares. E nós também queremos! Por isso tudo suas histórias ficaram na História. E agora são elas que alimentam nossa alma desejosa de vida rica. São elas que nos levam para viagens, que nos inspiram quando queremos imaginar formas mais livres de pensar e de viver.

(Texto de Magda Lopes Gebrim, Novembro de 2000)

JACK LONDON, CONTOS. ED. EXPRESSÃO POPULAR, SP. Edição revista e atualizada conforme a nova regra ortográfica. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou reproduzida sem a autorização da editora. 2a edição: novembro de 2009 EDITORA EXPRESSÃO POPULAR Rua Abolição, 197 - Bela Vista CEP 01319-010 - São Paulo-SP Fone/Fax: (11) 3105-9500 vendas@expressaopopular.com.br 
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“A aporia com que defrontamos em nosso trabalho revela-se assim como o primeiro objecto a investigar: a autodestruição do esclarecimento. Não alimentamos dúvida nenhuma – e nisso reside nossa petitio principii – de que a liberdade na sociedade é inseparável do pensamento esclarecedor. Contudo, acreditamos ter reconhecido com a mesma clareza que o próprio conceito desse pensamento, tanto quanto as formas históricas concretas, as instituições da sociedade com as quais está entrelaçado, contém o germe para a regressão que hoje tem lugar por toda parte. Se o esclarecimento não acolhe dentro de si a reflexão sobre esse elemento regressivo, ele está selando seu próprio destino. Abandonando a seus inimigos a reflexão sobre o elemento destrutivo do progresso, o pensamento cegamente pragmatizado perde seu carácter superador e, por isso, também sua relação com a verdade. A disposição enigmática das massas educadas tecnologicamente a deixar dominar-se pelo fascínio de um despotismo qualquer, sua afinidade autodestrutiva com a paranóia racista, todo esse absurdo incompreendido manifesta a fraqueza do poder de compreensão do pensamento teórico atual.” (Jack London). 

No ano de 1902 o escritor Jack London se dirigiu até o coração da miséria londrina para descobrir como viviam, se é que o faziam, as criaturas mais pobres do país mais poderoso do mundo. Entre sua chegada aos bairros que formavam o East End e o fim de suas pesquisas, três meses se passaram. Nesse período, o autor reuniu material para o livro que viria a batizar de O Povo do Abismo.
O resultado do trabalho de Jack London é uma longa reportagem. Para sua concepção, o escritor não apenas entrevistou, fotografou e comparou dados. Ele viveu com os habitantes do East End. Não encarnou um acadêmico com olhar superior de analista, mas retomou o papel de marinheiro norte-americano passando por tempos difíceis em uma terra de reis e rainhas. Não precisou compor um personagem, apenas trouxe à tona as memórias de sua juventude. Dessa aproximação resultou o material necessário para um livro que tem o autor e todos os miseráveis de Londres como personagens. Ao longo de O Povo do Abismo Jack London apresenta "onde", "como" e "por que", as clássicas perguntas do jornalismo, os moradores do East End comem dormem, trabalham, se relacionam e sobrevivem. Explicita seus desesperos e suas pequenas satisfações. Apresenta como vêem o mundo e de que maneira se tornam invisíveis a ele. Em pouco mais de duzentas e cinquenta páginas o leitor se depara com reportagem, opinião e crítica. Puro jornalismo! Mas Jack London era um escritor, ainda que tenha atuado como repórter em mais de uma oportunidade. Suas raízes estavam fincadas no "jardim da imaginação", e não no "império dos fatos", segundo as definições criadas por Rildo Cosson (2002, p. 57). Escritor profissional desde os vinte anos, encontrou na literatura realista o seu espaço. Através de relatos vigorosos da vida em ambientes inóspitos, se tornou o autor mais popular e mais bem pago do mundo nas primeiras décadas do século XX. (De Souza, 2006



COMO ME TORNEI SOCIALISTA

Pode-se dizer que me tornei um socialista de maneira similar à dos pagãos teutônicos ao cristianismo - à força. Não apenas eu não procurava o socialismo na época da minha conversão, mas lutava contra ele. Eu era demasiado jovem e inexperiente, não sabia nada de coisa alguma e, apesar de nunca ter ouvido falar de uma escola de pensamento chamada “individualismo”, cantava o hino dos fortes com todo o meu coração. Isso porque eu próprio era forte. Por forte quero dizer que tinha boa saúde e músculos rijos, ambas características que podem ser facilmente explicadas. Vivi minha infância nos ranchos da Califórnia, vendendo jornais nas ruas de uma próspera cidade do Oeste e passei minha juventude nas águas saturadas de ozônio da baía de San Francisco e do Oceano Pacífico. Amava a vida a céu aberto, desempenhando as tarefas mais difíceis. Sem aprender nenhum ofício, mas pulando de emprego em emprego, observava o mundo e gostava dele em todos os sentidos. Deixe-me repetir: esse otimismo existia porque eu era forte e saudável, nunca experimentando dores nem debilidades, nunca sendo recusado por um patrão por não aparentar estar em boas condições físicas, sempre capaz de obter trabalho nas minas de carvão, como marinheiro ou como trabalhador braçal de qualquer espécie. Por tudo isso, exultante em minha juventude, capaz de me defender bem, tanto no trabalho como nas brigas, eu era um feroz individualista. E isso era muito natural. Eu era um vencedor. Por conseguinte, considerava o jogo, da forma como era jogado, muito apropriado para HOMENS. Ser HOMEM significava escrever em letras maiúsculas no meu coração. Arriscar-me como homem, lutar como homem, fazer o trabalho de homem (mesmo que com o salário de menino) — essas eram coisas que me tocavam profundamente e ficavam gravadas em mim como nenhuma outra. E eu olhava adiante as amplas paisagens de um futuro nebuloso e interminável, em direção ao qual — jogando o que eu considerava um jogo de homens -, continuaria a viajar com uma saúde inquebrantável sem acidentes, e com os músculos sempre vigorosos. Como digo, esse futuro era interminável. Podia ver-me apenas avançando pela vida sem fim como uma das feras louras de Nietszche, perambulando lascivamente e triunfando pela simples superioridade e força. Quanto aos desafortunados, aos doentes, aos que sofrem, aos velhos e aos aleijados, devo confessar que raramente pensava neles, a não ser que vagamente achasse que estes, salvo acidentes, poderiam ser tão bons quanto eu e trabalhar igualmente tão bem, se realmente o desejassem. Acidentes? Bem, eles representavam o DESTINO, também soletrado com letras maiúsculas, e não havia modo de se esquivar do DESTINO. Napoleão sofreu um acidente em Waterloo, mas isso não tirou meu desejo de ser outro Napoleão. Além disso, o otimismo, vindo de um estômago que podia digerir pedaços de ferro moído e de um corpo que florescera de uma vida dura, não me permitia considerar que acidentes tivessem qualquer relação, mesmo que remota, com minha personalidade gloriosa. Espero ter deixado claro que eu tinha orgulho de ser um daqueles seres eleitos da natureza. A dignidade do trabalho era para mim a coisa mais impressionante do mundo. Sem ter lido Carlyle ou Kipling, formulei um evangelho do trabalho que varriam os deles “no chinelo”. O trabalho era duro. Era a santificação ou a salvação. O orgulho que sentia depois de um dia de trabalho árduo e bem feito seria algo incompreensível para os demais. É quase inconcebível para mim quando penso nisso agora. Nunca um capitalista explorou um escravo do salário tão fiel quanto eu. Embromar ou ludibriar o homem que me pagava o salário era um pecado, primeiro contra mim mesmo, e depois contra ele. Para mim era um crime que vinha logo atrás da traição, mas tão ruim quanto. Resumindo, meu individualismo entusiasta era dominado pela ética ortodoxa burguesa. Eu lia os jornais burgueses, ouvia os pregadores burgueses e repetia plenitudes sonoras dos políticos burgueses. E não duvido que - se outros eventos não tivessem mudado minha trajetória viesse a me transformar num fura greves profissional (um dos heróis do reitor Eliot), e tivesse minha cabeça e minha capacidade de trabalho irremediavelmente esmagadas por um porrete nas mãos de algum sindicalista militante. Por essa época, voltando de uma viagem que durara sete meses, e logo após ter completado dezoito anos de idade, pus na cabeça a ideia de que iria vagabundar. Em vagóes de passageiros ou compartimentos de carga, desbravei meu caminho pela vasta região Oeste, onde os homens trabalhavam duro e os empregos procuravam as pessoas, até os congestionados centros operários da região Leste, onde os homens tinham pouco valor e davam tudo que tinham para conseguir trabalho. E nesta nova aventura de fera loura, comecei a ver a vida de um ângulo novo e totalmente diferente. Eu havia descido da condição de proletário para o que os sociólogos chamam de “porção submersa”, e comecei a descobrir a maneira como aquela porção submersa era recrutada. Lá encontrei todo tipo de homens, muitos dos quais haviam sido algum dia tão bons e tão feras louras quanto eu: marinheiros, soldados, operários, todos estropiados, comidos e desfigurados pelo trabalho, pelas agruras e pelos acidentes e dispensados por seus patrões como cavalos velhos. Com eles mendiguei nas ruas, pedi comida nas portas dos fundos das casas e senti frio em vagões de trens e parques da cidade, ouvindo as histórias de vidas, que começavam sob auspícios tão favoráveis como os meus, com estômagos e corpos iguais ou melhores do que os meus, e que terminavam ali, diante de meus olhos, arruinados, no fundo do abismo social. E enquanto eu ouvia, meu cérebro começava a funcionar. A mulher das ruas e o homem da sarjeta se tornaram muito próximos de mim. Vi a imagem do abismo social vividamente, como se fosse algo concreto. Eu os observava lá no fundo do abismo, um pouco acima deles, agarrando-me às paredes escorregadias com todo o suor e a força de minhas unhas. E confesso que um medo terrível se apoderou de mim. E se acabasse minha força? E quando me tornasse incapaz de trabalhar lado a lado com os homens fortes que ainda estavam por nascer? Aí, então, fiz um juramento. Era algo mais ou menos assim: Todos os dias tenho trabalhado até a exaustão com meu corpo e apesar do número de dias que trabalhei, cheguei bem próximo do fundo do abismo. Deverei sair dele, mas não com os músculos do meu corpo. Não vou nunca mais trabalhar como trabalhei e que Deus me fulmine se um dia eu der de mim mais do que o meu corpo pode dar. E desde então tenho me dedicado a fugir do trabalho duro. A propósito, enquanto vagabundava por umas dez mil milhas pelos Estados Unidos e Canadá, entrei na cidade de Niagara Falls, fui pego por um policial à caça de multas, tive negado o direito de me declarar culpado ou inocente, fui imediatamente sentenciado a trinta dias de prisão por não ter residência fixa ou meio aparente de subsistência, algemado e acorrentado a um grupo em situação similar, despachado para Buffalo e registrado na penitenciária do condado de Erie; meu cabelo e meu incipiente bigodinho foram raspados, fui vestido com o uniforme de prisioneiro, vacinado compulsoriamente por um estudante de medicina que praticava em pessoas como nós, obrigado a marchar em fila e a trabalhar sob a vigilância de guardas armados com rifles Winchester — tudo isso por ter me lançado em aventuras ao estilo das feras louras. Para mais detalhes, esta testemunha declara-se muda, embora se possa desconfiar que seu exultante patriotismo tenha se evaporado um pouco e vazado por alguma fresta no fundo de sua alma — pelo menos, desde que passou por essa experiência, já se deu conta de que se interessa muito mais por homens, mulheres e criancinhas do que por linhas geográficas imaginárias. Voltando a minha conversão. Acho que aparentemente meu individualismo feroz foi efetivamente extraído de mim e foi-me inculcada outra coisa, de forma igualmente eficaz. Mas, assim como eu havia sido um individualista sem saber, era agora um socialista sem saber, ou seja, um socialista não científico. Eu havia renascido, mas não havia sido rebatizado, e andava à toa por aí, tentando descobrir o que de fato era. Voltei para a Califórnia e abri os livros. Não me recordo quais abri primeiro. Este é um detalhe sem importância, de qualquer forma. Eu já era isso, seja lá o que isso fosse, e com a ajuda dos livros descobri que isso era ser socialista. Desde aquele dia abri muitos livros, mas nenhum argumento econômico, nenhuma demonstração lúcida da lógica e da inevitabilidade do socialismo me afeta tão profundamente e tão convincentemente como o dia em que vi pela primeira vez os muros do abismo social se erguerem à minha volta e me senti escorregando, escorregando, para as ruínas que se amontoavam lá no fundo.




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