INÍCIO

04 outubro 2025

CHE GUEVARA E SALVADOR ALLENDE

O MEU NORTE É O SUL
CHE GUEVARA E SALVADOR ALLENDE:
FARÓIS LATINO-AMERICANOS  

Como artista-pesquisador, pensador, me propus a analisar estas duas figuras fundamentais e insuperáveis: Che Guevara e Salvador Allende, não como meros personagens midiáticos, mas como expressões de projetos distintos e, em muitos aspectos, complementares, para a emancipação da América Latina. Eis  um breve e preliminar paralelo entre esses dois faróis na escuridão.

Joaquim Torres Garcia. América invertida. (1943). Desenho a caneta sobre papel.
América Invertida é um desenho do artista hispano-uruguaio Joaquín Torres García.
A imagem apresenta uma representação da América do Sul virada de sua representação padrão e, em vez disso, orientada com o sul no topo. A frase “o meu norte é o sul” é uma citação do artista uruguaio Joaquín Torres García e representa sua obra "América Invertida" (1943), que usa um mapa do mundo com o hemisfério sul voltado para cima para propor uma nova perspectiva e valorizar a identidade e a autonomia latino-americana, desde sempre solapada pelo colonialismo e imperialismo, invertendo a visão eurocêntrica tradicional dos mapas.Artista: A frase e a obra foram criadas pelo artista uruguaio Joaquín Torres García. Obra: Em 1943, Torres García desenhou um mapa da América do Sul “de cabeça para baixo”, invertendo o mapa-múndi usual e colocando o Sul no topo. O propósito era claro, subverter a visão eurocêntrica dos mapas, que colocavam o Norte como o topo e o centro do mundo. O artista defendia que o Sul deveria ser o centro, um “norte” para os latino-americanos, e não apenas uma posição geográfica, mas também uma declaração de identidade e um chamado por uma arte e um pensamento latino-americano autônomos e soberanos. Advoga por uma autonomia cultural: A obra também está ligada à ideia de "Escola do Sul", um movimento proposto por Torres García para que a América Latina criasse seus próprios caminhos culturais e artísticos, livres da influência da Europa e dos Estados Unidos. Implicações da obra: Perspectiva, A “América Invertida” é uma crítica à imposição geográfica e à visão de mundo imposta por países “centrais”. A obra mostra um caminho para nossa identidade. É uma afirmação da identidade latino-americana e um convite a olhar o mundo a partir do Sul, valorizando a cultura e as riquezas locais, depois compreender o Sul Global como nossos vizinhos e aliados; distanciando-nos da visão subserviente ao norte desenvolvido e imperialista. Livre do Norte: A frase sugere que não há um norte para os sul-americanos, exceto em oposição ao seu próprio “sul”, que é o seu verdadeiro norte, guia e centro.


1. O Palco e o Dilema
A América Latina do século XX foi um laboratório de esperanças e frustrações, que de certo modo continua até hoje. Emergindo de séculos de colonialismo, a região debatia-se entre as estruturas oligárquicas herdadas, a nova dominação do capital estrangeiro, sobretudo norte-americano, e a busca por um caminho próprio. Neste palco, duas figuras icônicas, Ernesto "Che" Guevara e Salvador Allende, encarnaram as duas grandes vias, a revolucionária e a reformista, para um mesmo fim: a libertação social e econômica de seus povos.

2. A Gênese do Revolucionário: Uma epifania na estrada
A formação do pensamento de Che foi profundamente marcada pela experiência empírica da miséria continental. Suas viagens pela América Latina funcionaram como uma longa e dolorosa epifania. Ele não via pobreza, mas opressão estrutural; não via países falidos, mas nações pilhadas por um sistema que beneficiava uma elite local e o capital internacional. Dessa diagnose, nasceu a convicção de que o mal era terminal: a violência do status quo só poderia ser contestada com uma violência revolucionária liberadora.

3. A Gênese do Reformista
A fé nas Instituições: Allende, por sua vez, era um produto do sistema político chileno, mas não seu conformista. Médico como Guevara, sua visão foi forjada nos corredores do Congresso e na leitura de teóricos socialistas e humanistas. Ele acreditava que as instituições democráticas, por mais imperfeitas e burguesas que fossem, poderiam ser um campo de batalha legítimo, político e filosófico. Para Allende, a transformação radical não precisava aniquilar o Estado de Direito; poderia, em tese, ser conquistada através dele.

4. O Método de Che: O Foco e o Homem Novo
A metodologia de Guevara era a da guerra de guerrilhas e do "foquismo". Ele acreditava que um pequeno grupo de iluminados (o "foco") poderia, pelo exemplo da ação armada, catalisar a consciência revolucionária das massas. Seu objetivo final não era apenas a tomada do poder, mas uma transformação antropológica: a criação do "Homem Novo", um ser despojado de ambições materiais individuais, movido pelo imperativo ético da solidariedade e do trabalho para o bem coletivo, para o bem comum.

5. O Método de Allende: A via chilena ao socialismo
A estratégia de Allende era sua maior originalidade e seu maior risco: a "Via Chilena ao Socialismo". Ele propunha uma transição legal, pacífica e democrática para uma sociedade socialista. Isso significava nacionalizar os recursos naturais (como o cobre) através do Congresso, ampliar os direitos sociais por meio de leis e construir uma maioria popular sem abrir mão do pluripartidarismo e das liberdades civis.

6. A Conquista do Poder: A Montanha e as Urnas
Che Guevara conquistou o poder em Cuba pela força das armas, escalando a Sierra Maestra e derrotando um exército convencional com tática, coragem e o apoio camponês. Foi uma tomada insurrecional e vertical, revolucionária. Allende, por outro lado, chegou ao Palácio de La Moneda através das urnas, em uma eleição, transparente, legal, pluralista e competitiva. Foi uma conquista institucional e horizontal.

7. Ação e Símbolo: O Internacionalista e o Nacional
No poder, suas esferas de ação divergiram. Che, um argentino, tornou-se o arquétipo do revolucionário internacionalista. Para ele, a pátria era a humanidade oprimida, e sua missão era “criar dois, três... muitos Vietnans” para desgastar o imperialismo. Allende era o estadista nacional, focando na transformação interna do Chile, respeitando, a princípio, as regras do jogo internacional, pautando-se por elas e com o tempo movendo o homem a um novo patamar de evolução, com liberdade, igualdade e fraternidade. É uma luta política legítima e respaldada pelas urnas. 

8. A Economia como campo de batalha
Ambos identificaram a independência econômica como central. Guevara, como ministro da Indústria em Cuba, lutou contra a monocultura e a dependência externa, priorizando a industrialização e a planificação central, mesmo com seus custos. Allende deu o passo ousado de nacionalizar o cobre, o “sueldo de Chile”, declarando que os chilenos finalmente se libertavam do controle estrangeiro sobre sua principal riqueza.

9. A Resposta do Imperialismo
O sistema contra o qual ambos lutavam reagiu com brutalidade previsível. Contra o "foquismo" de Che, a resposta foi o treinamento de contra-insurgência e a execução sumária. Contra a “via pacífica” de Allende, a estratégia foi a guerra económica (promovida pelos EUA), o fomento ao caos social interno e, por fim, o golpe de Estado militar, com um fantoche ditador Augusto José Ramón Pinochet Ugarte (Valparaíso, 25 de novembro de 1915 – Santiago, 10 de dezembro de 2006). O caso de Allende provou, tragicamente, que o imperialismo não respeitaria nem mesmo as regras da democracia burguesa quando seus interesses econômicos fundamentais fossem ameaçados.

10. O Martírio e sua Linguagem
A morte de ambos os homens os transformou em mártires, em faróis, porém de maneiras distintas. A execução de Che Guevara na Bolívia em 09/ outubro de 1967 o cristalizou como “O guerreiro caído”, o símbolo romântico da luta armada e do sacrifício total. O homicídio-suicidio de Allende durante o bombardeio ao palácio presidencial em 1973 consagrou-o como o mártir da legalidade, o homem, o mestre sábio que morreu defendendo a Constituição democrática que o levou ao poder, pela Bia da vontade polvilhar da maioria.

11. O Legado Imediato, a esperança e o inverno
O legado de Che foi a inspiração para uma geração de guerrilhas urbanas e rurais por toda a América Latina, que, embora em sua maioria derrotadas, mantiveram a chama da resistência, é o Brasil é exemplo claro disso, onde na década de 1960, diversos grupos socialistas armados lutavam esperançosamente por um mundo legalista, republicano e democrático. O legado imediato de Allende foi o trauma da ditadura de Pinochet, um “inverno” político de 17 anos (de 11 de setembro de 1973 – 11 de março de 1990) que mostrou o preço de desafiar a ordem estabelecida. Durante os 17 anos de sua ditadura, Pinochet reprimiu a antiga coalizão Unidade Popular - união de partidos de esquerda que apoiavam o regime constitucional socialista deposto - perseguindo, torturando e assassinando, seus membros e aliados.

12. Uma Crítica Filosófica Mútua
De um ponto de vista filosófico, poderíamos criticar Che por uma certa subestimação da complexidade institucional e uma visão por vezes demasiado voluntarista da história. A Allende, poderíamos apontar uma certa sobrestimação da autonomia do Estado frente ao capital e uma fé talvez ingênua na neutralidade das Forças Armadas.

13. A Síntese no Século XXI
Contudo, uma análise dialética revela que seus projetos, aparentemente antagônicos, se complementam. As “revoluções bolivarianas” do século XXI, por exemplo, beberam das duas fontes: buscaram chegar ao poder por vias eleitorais (o caminho de Allende), mas, uma vez no governo, promoveram rupturas radicais e enfrentamentos diretos com a oligarquia (o espírito de Guevara), compreendendo que a mera rotatividade no poder é insuficiente para uma transformação social profunda, dado as centenas de anos das elites no poder e que quando alijadas do poder continuam agindo nas sombras.

14. Dois Lados da Mesma Moeda de Libertação
Che e Allende representam, portanto, os dois braços da mesma luta. Che é o braço insurrecional, a voz que grita que não se pode pedir licença para ser livre. Allende é o braço institucional, a voz que acredita que a liberdade deve ser construída com e para o povo, em toda a sua complexidade. Um é o ícone da revolução necessária; o outro, o mártir da reforma possível que se tornou revolucionária pelo contexto.

15. Minha conclusão: O Paradoxo Ativo
O paralelo entre Che Guevara e Salvador Allende nos ensina que não há um manual único para a libertação. A história nos apresenta um paradoxo: a via armada e a via pacífica são ambas vulneráveis à reação brutal do poder constituído baseado no capitalismo neoliberal, em sua fase de máxima acumulação. A importância de seu pensamento conjunto reside justamente nessa dualidade. Estudá-los é compreender que a luta pela soberania e pela justiça social é um campo de batalha multifacetado, onde a força dos ideais de Che e a coragem cívica de Allende permanecem como faróis gêmeos, lembrando-nos que o preço da liberdade é a eterna vigilância e a disposição para lutar por ela, seja nas montanhas, seja nas urnas, seja nas ruas.



Fontes

Ernesto "Che" Guevara:

1. GUEVARA, Ernesto Che. Diários de Motocicleta: Notas de Viagem. São Paulo: Sá Editora, 2019 (e outras edições).
   - Fundamental para compreender a gênese do seu pensamento, documentando sua epifania ao testemunhar a miséria estrutural da América Latina.

2. GUEVARA, Ernesto Che. A Guerra de Guerrilhas. São Paulo: Editora Mantra, 2020 (e outras edições).
   - A sistematização da sua metodologia revolucionária ("foquismo"). Leitura essencial para entender sua estratégia de luta armada como ato catalisador.

3. GUEVARA, Ernesto Che. O Socialismo e o Homem em Cuba. Porto: Afrontamento, 1975 (e outras edições).


Salvador Allende

1. ALLENDE, Salvador. Seu Maior Discurso: A Unidade Popular e a Via Chilena ao Socialismo. São Paulo: Expressão Popular, 2021.

2. ALLENDE, Salvador. La Vía Chilena al Socialismo. Santiago: Editorial Universitaria, 1971.
   - A exposição teórica e programática do seu projeto de transição pacífica e democrática para o socialismo, contrastando diretamente com a via insurrecional.

Análises históricas 

1. ANDERSON, Jon Lee. Che Guevara: Uma Biografia. São Paulo: Objetiva, 1997.
   - A biografia mais abrangente e meticulosa já escrita, baseada em amplo acesso a arquivos e entrevistas. Fornece o contexto histórico detalhado necessário.

2. CASTAÑEDA, Jorge G. O Sonho Revolucionário: A Vida e a Morte de Ernesto Che Guevara. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
   - Uma análise crítica e profunda, situando Che no contexto mais amplo da esquerda latino-americana e discutindo as contradições de seu pensamento e ação.

3. HARNEKER, Marta. Los Conceptos Elementales del Materialismo Histórico. Cidade do México: Siglo XXI Editores, 1971.
   - Manual de base marxista amplamente utilizado pela esquerda da época, útil para compreender o arcabouço teórico comum a ambos os pensadores, embora aplicado de formas distintas.

4. KORNBLUH, Peter. The Pinochet File: A Declassified Dossier on Atrocity and Accountability. New York: The New Press, 2003.
   - Baseado em documentos desclassificados dos EUA, este livro é essencial para entender a intervenção norte-americana no Chile e o golpe que derrubou Allende, comprovando a “resposta do imperialismo”.

5. WINN, Peter. Tejedores de la Revolución: Los Trabajadores de Yarur y la Vía Chilena al Socialismo. Santiago: LOM Ediciones, 2004.
  - Oferece uma perspetiva "de baixo para cima" sobre o governo Allende, analisando como a "Via Chilena" foi vivida e interpretada pelos movimentos operários e sociais.


6. GALEANO, Eduardo. As Veias Abertas da América Latina. Porto Alegre: L&PM Editores, 2010 (e outras edições).
   - O clássico que fornece o pano de fundo económico e histórico da exploração do continente, contexto esse que moldou de forma decisiva o pensamento de ambos, Che e Allende.

7. LÖWY, Michael. O Pensamento do Che Guevara. São Paulo: Editora Unesp, 2002.
   - Excelente análise filosófica e política do pensamento de Guevara, destacando seu humanismo revolucionário e sua crítica ao economicismo, facilitando o paralelo com a dimensão ética do projeto de Allende.

8. SADER, Emir. A Vingança da História. São Paulo: Editora Boitempo, 2013.
   - Inclui ensaios que refletem sobre os legados das lutas sociais latino-americanas, ajudando a situar a "síntese no século XXI" entre as heranças da luta armada e da via eleitoral.

9. DOS SANTOS, Theotônio. A Teoria da Dependência: Balanço e Perspectivas. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2000.
   - Compreender a Teoria da Dependência, corrente de pensamento da qual Allende era um representante prático, é crucial para analisar seu diagnóstico económico, que, em suas bases, coincidia com o de Che.