INÍCIO

07 setembro 2015

IMAGEM COMO PASSADO


A IMAGEM COMO PASSADO

A IMAGEM FOI
ELA NÃO É MAIS
ELA É UM VESTÍGIO
UM RESTO
DE LUZ CRISTALIZADA
UM DESEJO REALIZADO
UM VONTADE DE DURAÇÃO 
NO TEMPO E NO ESPAÇO.
A IMAGEM FOI
O QUE EXISTIA E NÃO EXISTE MAIS
SE TORNOU UM ISTO OU UM ISSO. 
UMA COISA, UM OBJETO.
UMA LEMBRANÇA SEM DESTINATÁRIO
UM PORTO DESERTO DO SER.
A LEMBRANÇA DE UMA SOMBRA. 










(2012)




PEQUENA E RESUMIDA BIOGRAFIA

PEQUENA E RESUMIDA BIOGRAFIA

Ele me contou sua história e eu escrevi como havia me contado. Ele disse que eu seria o responsável por escrever a única biografia autorizada a respeito de dele. Eu não sei mais onde ele anda hoje. Mas como se passaram mais de 40 anos resolvi escrever essa linda história. 

(...)
Esta é a única e resumida biografia que escreverei
Sei que não durarei muito tempo.
Essa vida é curta para todos os sonhos, desejos e aspirações.
Nasci no mês de junho no inverno de 1965. Não lembro muito dos meus primeiros anos, apenas alguns fatos que mais parecem retalhos unidos a um longo tecido branco. O que forma uma colcha com umas manchas, um deserto com alguns oásis distantes.

Mais parece um palimpsesto que foi raspado e sobre o que havia antes fora reescrito e desenhado uma outra história tentando corrigir a antiga.

Logo após meu nascimento fui para casa com meus pais. Minha avó paterna e meu pai sempre moraram em uma fazenda; e meus avós maternos sempre trabalharam para outros nunca possuindo a terra onde moravam. 

Lembro que aos dois anos brincava entre as folhas de uma alameda que havia em frente de casa formada por gigantescas árvores de plátanos.
Lindos e perfumados, sua sombra e seus galhos era tudo que eu conhecia do mundo até então. 

Do outro lado da estrada havia uma imensa encerra (mangueira) para o gado, construída de grandes tábua já desgastadas pelo tempo. Eram cinzas pelo efeito do tempo e sobre elas cresciam liquens verde acinzentados. 

Aos três anos andava na margem do lago que havia no sítio e lá tomei banho pelado com os guris que trabalhavam na fazenda com meu pai. Lembro nitidamente que havia um trapiche de madeira e a cor de chá da água calma e profunda parecia me ameacar, me convidava para mergulhar, me entregar a ela, aquele corpo misterioso, um abismo. 

Lá os caras ficavam deitados nus ao sol da tarde no verão. Essa foi a imagem mais fortemente gravada em minha memória a do corpo molhado cheio de gotas e dos músculos ao sol da tarde que terminava. A imagem indelével da beleza do corpo masculino. Havia um grande bosque de eucaliptus ao norte do lago e antes uma fileira de grandes moitas de bambus. Eu via os rapazes indo para o meio dos bambus tirarem uma soneca, se escondendo do sol e do serviço.

Corri entre os infindáveis mal-me-queres (flor-das-almas) nas coxilhas, nas primaveras sempre temendo que de uma hora para outra pudesse aparecer um touro furioso, e ai sim eu teria que correr para valer e me atirar por debaixo da cerca de arame farpado que separavam o campo da estrada. 

Aos cinco anos explorava um riacho que passava calmo, pelo vale, onde ficava minha casa, buscando conchas de caramujos, insetos e rochas. Eu seguia o riacho até que minha casa ficasse pequena e desaparecesse da vista. Ai eu ficava com medo e voltava.

Sentia medo por estar sozinho e voltava correndo, antes que minha mãe me chamasse, pois se isso acontecesse era castigo na certa. 

Meu mundo sempre foi feito de silêncio e pensamento. Uma solidão no mundo verde e na floresta.

Quando chegou a idade de ir para o colégio tive muito medo das outras pessoas, eu era tido como estranho por meus colegas por não falar muito; mas fiz alguns bons amigos nessa primeira experiência escolar. 

Brincava mais com as meninas porque elas me convidavam e conversavam comigo e a maioria dos outros meninos só tentavam me espancar. Embora, sempre que eu revidasse eu vencesse a luta, acabava usando demasiada força, o que só os irritava e se juntavam em maior número para me bater. 

Costumávamos ir, meu irmão e eu, em grupo com outros meninos, a um rio próximo aos trilhos do trem na estrada para a Cidade-dos-meninos, um colégio-internato que ficava nas montanhas, e sempre acabava sozinho pois sempre havia outros que tentavam me afogar ou me bater. 

Um dia tive que correr muito para não ser derrubado dentro da parte mais profunda, até que não ouvi mais as vozes dos meus perseguidores, que me chamavam de "menininha" pelos meus cabelos compridos.

Me escondi em um tronco e fiquei ali, brincando sozinho na areia, e desde então não mais convidei nem fui com grupos tomar banho de rio.

Sentado, ficava observando o rio construir seu caminho meandrando entre pedras e areia e o barranco colorido dos estratos de solo e rochas. Admirava espantado como a água esculpia as rochas e construía as curvas e meandros ora violenta em alguns locais por entre pedras, ora calma e caudalosa em outros, espraiando-se em areias brancas.

Decidi então desenhar os riachos e afluentes desse rio que eu tanto gostava de tomar banho. 

Fiz um cadernos de folhas brancas, peguei caneta, lápis e borracha, coloquei tudo numa mochila improvisada com um saco de pano, cortei um cajado e todo final de semana lá estava eu explorando e desenhando o rio, as flores as rochas, as árvores. 

Assim, o tempo foi passando, longe das pessoas com quem eu gostaria de estar. Mas me resignava pois naturalizei que os outros eram assim, e a melhor forma era manter distância.

Sempre soube que queria ser professor e ensinar aos outros coisas boas e importantes e lindas e edificantes que tornassem a vida melhor.

Lembro que tive um primeiro grande amor que por ela estar em outro estágio de desenvolvimento não me deu muita atenção, o que me levou a ficar pela primeira vez com um amigo da quinta série. 

Essa foi minha primeira paixão homoafetiva, hoje penso. Mas nos separamos quando mudei de colégio. Tive outros amores sem o envolvimento do outro (eram somente amores platônicos de minha parte, eu era muito tímido para falar e o mundo muito preconceituoso para aceitar).

Eu passei para o segundo grau (atual ensino médio) e fui fazer o curso técnico da universidade, na Escola Politécnica. Lá conheci outros dois grandes amores (não importa se somente eu sentia o amor) eles eram meus amigos e isso já me deixava muito feliz. 

Estudava com meu amigo do EM no porão da casa e sempre rolava uma aproximação física, e descobrimentos...

Sempre quis revelar o que para mim era um grande segredo, um segredo mortal pois “pecaminoso” e destrutivo, mas toda vez esbarrei nos preconceitos dos outros.

Meus tios e até meus pais diziam que seria humilhante para eles terem filhos "diferentes". Eles nem ousavam dizer “a” palavra pejorativa.

Então, a única saída era o silêncio. Um silêncio sem fim e amedrontador. Um silêncio duradouro e frustrante.

Com isto, nunca tive o benefício de trocar carinhos com outra pessoa de forma saudável nem construí relações afetivas por medo. 
Medo da condenação, medo de apontarem o dedo em minha direção e me classificarem com nomes terríveis, medo de ser espancado. 

Somente depois da faculdade fui encontrar alguém interessante que treinava comigo na academia. Nos tornamos grandes amigos, amigos inseparáveis por um bom tempo, ele tinha 20 anos e eu 25. Era calmo, carinhoso, amigo antes de tudo. 

Aqueles foram os mais luminosos anos da minha vida. Andávamos de bike juntos, acampávamos, viajávamos para a praia... Dormíamos juntos, ríamos juntos. Por anos e anos houve flores do campo e rosas, e caminhos nas montanhas.  

Mas ele começou a fumar e a usar outras drogas, com seus amigos do quartel. Hábitos que eu não tinha e não queria nem mesmo experimentar, não tinha vontade mesmo. 

Por fim, depois de uns seis ou sete anos nos separamos. Sofri muito, chorei como nunca antes em toda minha vida... Nunca mais o vi desde então. 

Ainda sonho com ele, desejo vê-lo outra vez, mas é impossível. Conheci alguns outros mas nunca foi sério o suficiente.

Desde então, eu me apaixonei pela ideia que eu tinha do outro... até que nunca mais sai para encontrar ninguém. Há dez anos vivo sozinho. Nunca mais beijei ninguém, nunca mais toquei em ninguém. 

Sou como aquela mosca da fábula de Esôpo que diz que tendo já comido, já bebido e já tomado banho que importava então a morte.

Agora a minha única grande espera é o dia final.
Parece estranho que minha vida termine apenas nesse lugar escuro e silencioso, frio e distante, nesse lugar horrível, mas por muitos anos houve sorriso e felicidade, houve abraços e desejo e eu não tive que prestar contas a ninguém nem procurar ninguém que me completasse, pois ali, do meu lado, estava alguém com quem eu desejara passar o resto da vida.

Desde então eu venho elaborando a ideia de que morrer é mais agradável do que essa dor da perda, essa dor da solidão, essa dor que não passa.

Na morte meus compostos orgânicos se misturarão com outros e talvez nesse outro lugar encontrem a felicidade que busquei.

A verdade é que o amor para mim se foi. Passou como passam as flores-das-almas em novembro, passou como passam as nuvem num céu num dia de vento. Passou deixando consternados todos os meus pensamentos.

Ele se foi na ponta dos pés como veio, numa tarde de sol no verão. Sentou e a margem do lago me convidou para vermos juntos o por do sol. Anoiteceu.
Ele se foi e me deixou sozinho.

E eu não sei o que fazer. Ele levou consigo o meu amor, levou junto a alegria de viver que uma vez eu conheci. Sinto-me vazio da vida que conheci, da vida que experimentei.

Terá nossa história individual algum significado?
Seguirá algum caminho, há nisso tudo um padrão?
É triste se constatar que sofreremos no fim; que no fim estaremos tão sozinhos como nunca antes estivemos.

Não tenho como fazer você acreditar em minhas palavras, uma vez que tudo pode ter se passado em minha mente doentia.
Me sinto desolado demais. Entretanto, a vida, eu aprendi, é assim mesmo.

Estar perto do fim, permite-me senti-lo aproximando-se como feito fosse de matéria escura ou um buraco negro... não se pode percebê-los a menos que já se esteja orbitando esse "dies irae", esse ponto ômega; o principium et finis, ou initium et finis, ou primus et novissimus (o último momento, o primeiro e único).

Todavia, não diminui a solidão nem o desejo de sentir novamente aquele toque que legitima a existência.

Quero, então, quando chegar o fim, reter esses momentos felizes que vivi, e que no último segundo da minha vida, eles invadam minha memória, então, fecharei meus olhos, meu coração baterá uma última vez e dormirei nessas lembranças feliz para sempre.

(...) 
Ele me contou tudo isso numa tarde de sábado, sentado ao lado da fogueira debaixo das estrelas do final do verão. A calma invadia até os átomos e tudo parecia ter se petrificado no ar. somente faíscas-pirilampos, atravessavam o espaço lentos e sumiam na escuridão absoluta para ressurgir em outro ponto e iluminas a vegetação por onde passavam...

Anotei no meu diário, a lápis, rapidamente, enquanto ele falava, e suas longas pausas pareciam trazer as imagens para perto na escuridão da floresta. 

(AP 6/IX/2015)



CUT-PAPER MAESTRO RODRIGUEZ AT KAI LIN ART

By Felícia Feaster 
Aug, 25, 2015

Bottom line: An Atlanta artist devoted to cut-paper constructions indulges in a more formal experiment, absent of a bit of her usual free-form fun.

Pink has certain connotations: with unabashed girliness, Barbie, Disney princesses and all things sweet and feminine.

Article from internet (@kailinart)

Artist Lucha Rodriguez tends to give that sugary hue a more rock ‘n’ roll edge in her unique cut-paper collages “Opposites” on view at the Westside gallery Kai Lin Art.

Rodriguez has carved out her own niche in the Atlanta art scene by working consistently with pink (fun fact: the artist also dresses in pink every day and rides a pink bicycle) and by creating her complex artworks, suggesting some hybrid of drawing and sculpture, out of cut paper assembled into captivating, intricate designs.

The Venezuelan-born Rodriguez has described how informative her childhood growing up as the daughter of a surgeon was on her artwork. Rodriguez’s elaborate cut-paper constructions often recall the inner workings of the body: intestines, organs, lung tissue or loop-de-loops of veins and arteries, forms inspired by the books of medical illustrations that fascinated her as a child.

For this nicely concise show with a more reined-in, serious tone than her previous free-form and whimsical work, Rodriguez works in a neon shade of pink with the comparable intensity of a fluorescent orange traffic cone. Her color palette is purposefully pared back, consisting of just that flaming ’80s-fashion shade of her signature pink, an asphalt black and pure white.

Out of those three shades Rodriguez creates her own visual language with very different effects. The artist’s ambition, she says in an accompanying statement, is to show how dramatically perception can change when those color combinations are manipulated.

In “Opposites,” Rodriguez works a common motif, altering foreground and background color. In the foreground are one of Rodriguez’s intricate cut-paper forms, a kind of lacy spaghetti of intersecting strips of paper formed into a loose ball. Those cut-paper creations can suggest a massed clump of energy, which Rodriguez places against her contrasting paper backgrounds: pink against white, white against pink, black against pink, pink against black and so on.

Sometimes she divides her background into two yin and yang spheres of hot pink and white, with a cut-paper clot of those same two colors floating on the surface. At other times, her cluster of cut paper weaves tendrils of black and white cut paper against a backdrop of pink, black and white wallpaper-style stripes.

Those endless manipulations of foreground and background color, and pattern are part of the formal experiment that defines “Opposites.” True to Rodriguez’s objective, to alter our perception by changing up pattern and color, different effects are created through different combinations. Placing one of those clumps of white paper tendrils against a white background creates a soothing, quiet mood. By contrast, a black cut-paper mass placed against a white background jumps from the paper’s surface, alive and slightly malevolent, the cut paper edges suddenly reminiscent of barbed wire.

“Opposites” is the kind of formal exercise eggheady artists love: take a concept that feels limited in its scope, three colors, multiple ways, and show its perception-expanding potential. While Rodriguez doesn’t necessarily blow our minds with her fugue on pink, black, white and cut paper, she certainly offers an entertaining tour of how artists can alter how we see the world.


Fonte