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09 abril 2022
03 abril 2022
HERÁCLITO DE ÉFESO
FRAGMENTOS DE HERÁCLITO
ουκ εµου αλλα του λογου ακουσαντας
οµολογειν σοϕος εστιν εν παντα ειναι.
(Escutando não a mim, mas ao Lógos, é sábio entrar em acordo
para dizer a mesma coisa: tudo é um.)
HERÁCLITO
FRAGMENTOS (SOBRE A NATUREZA)
Trad. de José Cavalcante de Souza
SOBRE A NATUREZA
(DK 22 b 1-126)
(Digitalizado E Editado Por Alex Oliveira)
1. SEXTO EMPÍRICO, Contra os Matemáticos, VII,132. Deste logos1 sendo sempre2 os homens se tornam descompassados3 quer antes de ouvir quer tão logo tenham ouvido; pois, tornando-se todas (as coisas) segundo esse logos, a inexperientes se assemelham embora experimentando-se em palavras e ações tais quais eu discorro segundo (a) natureza distinguindo cada (coisa) e explicando como se comporta. Aos outros homens escapa4 quanto fazem despertos, tal como esquecem quanto fazem dormindo.
2. IDEM, ibidem, VII, 233. Por isso é preciso seguir o-que-é-com,5 (isto é, o comum; pois o comum é o- que-é-com). Mas, o logos sendo o-que-é-com, vivem os homens como se tivessem uma inteligência particular.
3. AÉCIO, II, 21, 4. (Sobre a grandeza do sol) sua largura é a de um pé humano.
4. ALBERTO MAGNO, De Vegetatione, VI, 401. Heráclito disse que se felicidade estivesse nos prazeres do corpo, diríamos felizes os bois, quando encontram ervilha para comer.
1. Logos é o nome correspondente ao verbo légein = recolher, dizer. É "palavra", "discurso", "linguagem", "razão". Cf. fragmentos 2, 31, 39, 45, 50, 72, 108, 115.
2. Fica mantida a falta de pontuação, criticada por Aristóteles (Retórica, III, 5) e "corrigida" em geral pelas traduções. V. p, 77, n. 2.
3. No grego axynetoi, literalmente "que-não-se-lançam-com", i. e., "que não compreendem". Cf. fragmento 34 e aqueles em que aparece a noção de "comum", de "o-que-é-com".
4. No grego lanthánei, do mesmo tema de léthe (= esquecimento), que forma a-létheia (lit. não-esquecimento) = verdade. Cf. fragmento 16.
5. No grego xynós, sinônimo de koinós = comum, é uma forma a se aproximar de axynetoi (ver nota 3). Cf. fragmentos 79, 113 e 114. OS PENSADORES
5. ARISTÓCRITO, Teosofia, 68; ORÍGENES, Contra Celso, VII, 62. Purificam-se manchando~se com outro sangue, como se alguém, entrando na lama, em lama se lavasse. E louco pareceria, se algum homem o notasse agindo assim, E também a estas estátuas eles dirigem suas preces, como alguém que falasse a casas, de nada sabendo o que são deuses e heróis,
6. ARISTÓTELES, Meteorologia, II, 2. 355 a 13. O sol não apenas, como Heráclito diz, é novo cada dia, mas sempre novo, continuamente.
7. IDEM, Da Sensação, 5. 443 a 23. Se todos os seres em fumaça se tornassem, o nariz distinguiria.
8. IDEM, Ética a Nicômaco, VIII, 2. 1155 b 4. Heráclito (dizendo que) o contrário é convergente e dos divergentes nasce a mais bela harmonia, e tudo segundo a discórdia.
9. IDEM, ibidem, X, 5. 1176 a 7. Diverso é o prazer do cavalo, do cão, do homem, tal como Heráclito diz que asnos prefeririam palha a ouro.
10. IDEM, Do Mundo, 5. 396 b 7. Conjunções o todo e o não todo, o convergente e o divergente, o consoante e o dissoante, e de todas as coisas um e de um todas as coisas.
11. IDEM, ibidem, 6. 401 a 8. Pois tudo que rasteja é preservado a golpe, como diz Heráclito.
12. ARIO DÍDIMO, em EUSÉBIO, Preparação Evangélica, XV, 20. Aos que entram nos mesmos rios outras águas afluem; almas exalam do úmido.
13. CLEMENTE DE ALEXANDRIA, Tapeçarias, I, 2. Porcos em lama se comprazem, mais do que em água limpa.
14. IDEM, Exortação, 22. A quem profetiza Heráclito de Éfeso? Aos noctívagos, aos magos,aos bacantes, às mênades, aos iniciados; a estes ameaça com o depois da morte, a estes profetiza o fogo; pois os considerados mistérios entre os homens impiamente se celebram.
15. IDEM, ibidem, 34. Se não fosse a Dioniso que fizessem a procissão e cantassem o hino, (então) às partes vergonhosas desavergonhadamente se cumpriu um rito; mas é o mesmo Hades1 e Dioniso, a quem deliram e festejam nas Lenéias.
16. IDEM, Pedagogo, II, 99. Do que jamais mergulha como alguém escaparia?2
17. IDEM, Tapeçarias, II, 8. Muitos não percebem tais coisas, todos os que as encontram, nem quando ensinados conhecem, mas a si próprios lhes parece (que as conhecem e percebem).
18. IDEM, ibidem, II, 17. Se não esperar o inesperado não se descobrirá, sendo indesco- brível e inacessível.
19. IDEM, ibidem, II, 24. Homens que não sabem ouvir nem falar.
20. IDEM, ibidem, III, 14. Nascidos querem viver e deter suas partes,3 ou antes repousar, e atrás de si deixam filhos a se tornaram partes. 21. IDEM, ibidem, III,
21. Morte é tudo que vemos despertos, e tudo que vemos dormindo é sono.
22. IDEM, ibidem, IV, 4. Pois ouro os que procuram cavam muita terra e o encontram pouco.
1. O deus dos mortos. A forma grega Aid es sugeria aproximações etimológicas com aidó= eu canto, com as formas do tema de eidérni - saber, e com os adjetivos aidés = invisível e aídelos = que torna invisível. Por outro lado,, o que no grego corresponde a "às partes vergonhosas desavergonhadamente" é aidoíoisin anaidéstata. Todas estas aüterações compõem com as palavras e as frases o sentido do texto.
2. Cf. nota 4. da pág. 87.
3. No grego, móros, que, além deste sentido original, significa "parte ruim, desgraça, morte”. No fragmento joga o duplo sentido. C£ fragmento 25.
23. IDEM, ibidem, IV, 10. Nome de Justiça não teriam sabido, se não fossem estas (coisas).
24. IDEM, ibidem, IV, 16. Os que Ares mata honram-nos deuses e homens.
25. IDEM, ibidem, IV, 50. Mortes maiores maiores sortes1 recebem.
26. IDEM, ibidem, IV, 143. O homem de noite uma luz acende para si, morto, extinta a vista, mas vivo ele acende do morto quando dorme, extinta a vista, e quando desperto se acende do que dorme.
27. IDEM, ibidem, IV, 146. O que para os homens permanece quando morrem (são coisas) que não esperam nem lhes parece (que permaneçam).
28. IDEM, ibidem, V, 9. Pois é o que se estima que o mais estimado conhece e guarda; e contudo certamente a Justiça captará os artesãos e testemunhas de falsidades.
29. IDEM, ibidem, V, 60. Pois uma só coisa escolhem os melhores contra todas as outras, um rumor de glória eterna contra as (coisas) mortais; mas a maioria está empanturrada como animais.
30. IDEM, ibidem, V, 105. Este mundo,2 o mesmo de todos os (seres), nenhum deus, nenhum homem o fez, mas era, é e será um fogo sempre vivo, acendendo-se em medidas e apagando-se em medidas.
31. IDEM, ibidem, V, 105. Direções do fogo: primeiro mar, e do mar metade terra, metade incandescência... Terra dilui-se em mar e se mede no mesmo logos, tal qual era antes de se tornar terra.
1. No grego os correspondentes a "mortes" e "sortes" são respectivamente móroi e moirai, ambos do tema de meiromai = reparto.
2. No grego kósmos, literalmente arranjo, ordem.
32. IDEM, ibidem, V, 116. Uma só (coisa) o sábio1 não quer e quer ser recolhido2 no nome de Zeus.
33. IDEM, ibidem, V, 116. Lei (é) também persuadir-se à vontade de um só.
34. IDEM, ibidem, 1/, 116. Ouvindo descompassados3 assemelham-se a surdos; o ditado lhes concerne: presentes estão ausentes.
35. IDEM, ibidem, V, 141. Pois é preciso que de muitas coisas sejam inquiridores os homens amantes da sabedoria.
36. IDEM, ibidem, VI, 16. Para almas é morte tornar-se água, e para água é morte tornar-se terra, e de terra nasce água, e de água alma.
37. COLUMELA, VIII, 4. Porcos banham-se em lama e aves domésticas em poeira ou em cinza.
38. DIÓGENES LAÉRCIO, I, 23. (Tales) parece segundo alguns ter sido o primeiro a estudar os astros. A seu respeito atestam Herãclito e Demócrito.
39. IDEM, I, 88. Em Priene nasceu Bias, filho de Teutames, cujo logos é maior que o dos outros.
1. Não se trata do gênero masculino (homem sábio), mas do gênero neutro (coisa sábia). Por outro lado, não se trata da noção abstrata "sabedoria". Cf. fragmentos 41, 108.
2. No grego légesthai, a forma passiva de légein. Cf. nota 1 da pág. 87.
3. Cf. nota 3. da pág. 87.
40. IDEM, IX, 1. Muita instrução não ensina a ter inteligência; pois teria ensinado Hesíodo e Pitágoras, Xenófanes e Hecateu.
41. IDEM, IX, 1. Pois uma só é a (coisa) sábia, possuir o conhecimento que tudo dirige através de tudo.
42. IDEM, /X, 1. Homero merecia ser expulso dos certames e açoitado, e Arquíloco igualmente.
43. IDEM, ZX, 2. A insolência é preciso extinguir, mais que o incêndio.
44. IDEM, ZX, 2. É preciso que lute o povo pela lei, tal como pelas muralhas.
45. IDEM, ZX, 7. Limites de alma não os encontrarias, todo caminho percorrendo; tão profundo logos ela tem.
46. IDEM, ZX, 7. A presunção ele dizia que é a doença sagrada e que a visão engana.
47. IDEM, ZX, 73. Não conjeturemos à toa sobre as coisas supremas.
48. Etymologicum Genuinum, s.v. bíos. Do arco1 o nome é vida e a obra é morte.
49. GALENO, De Dignoscendis Pulsibus, VIII, 733. Um para mim vale mil, se for o melhor.
49a. HERÁCLITO, Alegorias, 24. Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos.
1 No grego biós, forma homônima de bíos = vida.
50. HIPÓLITO, Refutação, IX, 9. Não de mim, mas do logos tendo ouvido é sábio homologar1 tudo é um.
51. IDEM, ibidem, IX, 9. Não compreendem como o divergente consigo mesmo concorda; harmonia de tensões contrárias, como de arco e lira.
52. IDEM, ibidem, IX, 9. Tempo2 é criança brincando, jogando; de criança o reinado.
53. IDEM, ibidem, IX, 9. O combate é de todas as coisas pai, de todas rei, e uns ele revelou deuses, outros, homens; de uns fez escravos, de outros livres.
54. IDEM, ibidem, IX, 9. Harmonia invisível à visível superior.
55. IDEM, ibidem, IX, 9. As (coisas) de que (há) visão, audição, aprendizagem, só estas prefiro.
56. IDEM, ibidem, IX, 9. Estão iludidos os homens quanto ao conhecimento das coisas visíveis, mais ou menos como Homero, que foi mais sábio que todos os helenos. Pois enganaram-no meninos que matando piolhos lhe disseram: o que vimos e pegamos é o que largamos, e o que não vimos nem pegamos é o que trazemos conosco.
57. IDEM, ibidem, IX, 10. Mestre da maioria é Hesíodo; pois este reconhecem que sabe mais coisas, ele que não conhecia dia e noite; pois é uma só (coisa).
58. IDEM, ibidem, IX, 10. Os médicos, quando cortam, queimam e de todo torturam os pacientes, ainda reclamam um salário que não merecem, por efetuarem o mesmo que as doenças.
1. Observar a relação logos-homologar. O componente "homo-" significa "junto".
2. No grego Aiôn, um nome próprio, de uma entidade alegórica, filho de Cronos e "Filira". Por outro lado, há dois sentidos de aiôn como nome comum: o primeiro é o de "tempo sem idade, eternidade", que posteriormente se associou ao aevum latino: o segundo é o de "medula espinhal, substância vital, esperma, suor". A entidade alegórica pode consistir nos dois sentidos.
59. IDEM, ibidem, IX, 10. A rota do parafuso do pisão, reta e curva, é uma e a mesma.
60. IDEM, ibidem, IX, 10. A rota para cima e para baixo é uma e a mesma.
61. IDEM, ibidem, IX, 10. Mar, água mais pura e mais impura, para os peixes potável e saudável, para os homens impotável e mortal.
62. IDEM, ibidem, IX, 10. Imortais mortais, mortais imortais, vivendo a morte daqueles, morrendo a vida daqueles.
63. IDEM, ibidem, IX, 10. Diante do ali-presente erguem-se e tornam-se guardiães em vigília de vivos e mortos.
64. IDEM, ibidem, IX, 10. De todas (as coisas) o raio fulgurante dirige o curso.
65. IDEM, ibidem, IX, 10. E o chama (ao fogo) de fartura e indigência.
66. IDEM, ibidem, IX, 10. Pois todas (as coisas) o fogo sobrevindo discernirá e empolgará.
67. IDEM, ibidem, IX, 10. O deus é dia noite, inverno verão, guerra paz, saciedade fome; mas se alterna como fogo, quando se mistura a incensos, e se denomina segundo o gosto de cada.
68. IÂMBLICO, Dos Mistérios, I, 21. E por isso Heráclito com razão os chamou (a alguns ritos) de remédios, como se fossem para curar os males e afastar as almas das desgraças da geração.
69. IDEM, ibidem, V, 15. De sacrifícios há duas espécies: uns oferecidos por homens inteiramente purificados, qual poderia ocorrer raramente em um indivíduo, como diz Herdclito, ou em alguns poucos, fáceis de contar; e outros são materiais.
70. IDEM, Da Alma [ESTOBEU, Éclogas, ZJ, 1,16]. Jogos de crianças Herdclito considerou as opiniões humanas.
71. MARCO AURÉLIO, IV, 46. É preciso lembrar-se também do que esquece por onde passa o caminho.
72. IDEM, IV, 46. Do logos com que mais constantemente convivem, deste divergem; e (as coisas) que encontram cada dia, estas lhes aparecem estranhas.
73. IDEM, IV, 46. Não se deve agir nem falar como os que dormem.
75. IDEM, IV, 46. Os que dormem, creio que chama Heráclito de obreiros e colaboradores das (coisas) que no mundo vêm a ser.
76. MÁXIMO DE TIRO, Philosophoúmena, XII, 4. Vive fogo a morte de terra, ar vive a morte de fogo, água vive a morte de ar, terra a de água. — Plutarco, De E apud Delphos, 18. Morte de fogo gênese para ar, morte de ar gênese para água. — Marco Aurélio, IV, 46. Lembrar-se sempre do dito de Herdclito, que morte de terra é tornar-se água, morte de água é tornar-se ar, de ar fogo, e vice-versa.
77. NUMÊNIO, fragmento 35. Donde também Heráclito dizer que para as almas é prazer ou morte tornarem-se úmidas. Prazer seria para elas a queda na geração. Em outra passagem ele diz que vivemos nós a morte delas e vivem elas a nossa morte.
78. ORÍGENES, Contra Celso, VI, 12. O modo 1 humano não comporta sentenças, mas o divino comporta.
79. IDEM, ibidem. O homem como uma criança ouve o divino, tal como a criança o homem.
80. IDEM, ibidem, VI, 42. É preciso saber que o combate é o-que-é-com,2 e justiça (é) discórdia, e que todas (as coisas) vêm a ser segundo discórdia e necessidade.
81. FILODEMO, Retórica, I, c. 57. Ancestral dos charlatães (Pitágoras).
82. PLATÃO, Hípias Maior, 289 a. O mais belo símio é feio, a se confrontar com o gênero humano.
83. IDEM, ibidem, 289 b. O mais sábio dos homens em face de deus se manifestará como um símio, em sabedoria, beleza e tudo mais.
84a. PLOTINO, Enéadas, IV, 8, 1. Transmudando repousa (o fogo etéreo no corpo humano). 84b. IDEM, ibidem. Fadiga é pelos mesmos (princípios) penar e ser governado.
85. PLUTARCO, Coriolano, 22. Lutar contra o coração é difícil; pois o que ele quer compra-se a preço de alma.
86. IDEM, ibidem, 38. A maior parte das (coisas) divinas, segundo Heráclito, por desconfiança esquivam-se de modo a não se conhecerem.
1. No grego éthos, que passou a significar "caráter", mas originalmente é "assento, morada". Cf. fragmento 119.
2. Cf. nota 5 da pág. 87.
87. IDEM, Do que se deve ouvir, 7 p. 41 A. Um homem tolo gosta de se empolgar a cada palavra.
88. IDEM, Consolação a Apolênio, 10 p. 106 E. O mesmo é em (nós?) vivo e morto, desperto e dormindo, novo e velho; pois estes, tombados além, são aqueles e aqueles de novo, tombados além, são estes.
89. IDEM, Da superstição, 3 p. 166 C. Heráclito diz que para os despertos um mundo único e comum é, mas os que estão no leito cada um se revira para o seu próprio.
90. IDEM, De E apud Delphos, 8 p. 388 E. Por fogo se trocam todas (as coisas) e fogo por todas, tal como por ouro mercadorias e por mercadorias ouro.
91. IDEM, ibidem, 18 p. 392 B. Em rio não se pode entrar duas vezes no mesmo, segundo Heráclito, nem substância mortal tocar duas vezes na mesma condição; mas pela intensidade e rapidez da mudança dispersa e de novo reúne (ou melhor, nem mesmo de novo nem depois, mas ao mesmo tempo) compõe-se e desiste, aproxima-se e afasta-se.
92. IDEM, Dos Oráculos da Pitonisa, 6 p. 397 A. E a Sibila com delirante boca sem risos, sem belezas, sem perfumes ressoando mil anos ultrapassa com a voz, pelo deus nela.
93. IDEM, ibidem, 21 p. 404 D. O senhor, de quem é o oráculo em Delfos, nem diz nem oculta, mas dá sinais. 94. IDEM, Do Exílio, 11 p. 604 A. Pois Hélios não transpassará as medidas; senão as Erínias,1 servas da Justiça, descobrirão.
1 Divindades infernais, que vingam os mortos, velando por uma justa distribuição de partes. Ver notas 1 e 2 da pág. 90. A divindade Hélios é o Sol.
95. IDEM, Banquete, III, pr. 1. p. 644 F. Pois ignorância é melhor ocultar. Mas é trabalhoso no desaperto e com vinho.
96. IDEM, ibidem, IV. 4, 3. p. 669 A. Pois cadáveres, mais do que estercos, são para se jogar fora.
97. IDEM, An Seni Res Publica gerenda sit, 7 p. 787 C. Pois cães ladram contra os que eles não conhecem.
98. IDEM, Da Face da Lua, 28 p, 943 E. As almas farejam no (invisível) Hades.
99. IDEM, Aquane an Ignis sit utilior, 7 p. 957 A. Não fosse o sol, com os outros astros seria noite.
100. IDEM, Questões Platônicas, 8,4 p. 1 007 D. Destes (os períodos anuais) o sol sendo preposto e vigia, define, dirige, revela e expõe à luz as transmutações e horas, as quais traz em todas (as coisas), segundo Heráclito.
101. IDEM, Contra Colotes, 20. 1 118 C. Procurei-me a mim mesmo. 101a. POLÍBIO, Histórias, XII, 27. Pois os olhos são testemunhas mais exatas que os ouvidos.
102. PORFÍRIO, Questões Homéricas, Ilíada, IV, 4. Para o deus são belas todas as coisas e boas e justas, mas homens umas tomam (como) injustas, outras (como) justas.
103. IDEM, ibidem, XIV, 200. Pois comum (é) princípio e fim em periferia de círculo.
104. PROCLO, Comentário ao Alcibíades I, p. 525, 21. Pois que inteligência ou compreensão é a deles? Em cantores de rua acreditam e por mestre têm a massa, não sabendo que "a maioria é ruim, e poucos são bons".
105. Escólios Homéricos, AT XVIII, 251. Dessa passagem Heráclito afirma que astrólogo foi Homero, assim como daquela em que o poeta diz "do destino, eu afirmo, jamais homem algum escapou".
106. SÊNECA, Epístolas, XII, 7. Com razão Heráclito censurou Hesíodo por fazer uns dias bons e outros maus, dizendo que ignorava como a natureza de cada dia é uma e a mesma.
107. SEXTO EMPÍRICO, Contra os Matemáticos, VII, 126. Más testemunhas para os homens são olhos e ouvidos, se almas bárbaras eles têm.
108. ESTOBEU, Florilégio, I, 174. De quantos ouvi as lições1 nenhum chega a esse ponto de conhecer que a (coisa) sábia é separada de todas.
109. = 95.
110. IDEM, ibidem, 1,176. Para homens suceder tudo que querem não (é) melhor.
111. IDEM, ibidem, I, 177. Doença faz de saúde (algo) agradável e bom, fome de saciedade, fadiga de repouso.
112. IDEM, ibidem, I, 178. Pensar sensatamente (é) virtude máxima e sabedoria é dizer (coisas) verídicas e fazer segundo (a) natureza, escutando.
113. IDEM, ibidem, I, 179. Comum é a todos o pensar.
114. IDEM, ibidem, I, 179. (Os) que falam com inteligência2 é necessário que se fortaleçam com o comum de todos, tal como a lei a cidade, e muito mais fortemente: pois alimentam-se todas as leis humanas de uma só, a divina: pois, domina tão longe quanto quer, e é suficiente para todas (as coisas) e ainda sobra.
1 No grego lógous. Ver nota 1 da pag. 87.
2 No grego nóôi. A expressão xyn nóôi (= com inteligência) se aproxima foneticamente do adjetivo xunoí - o-que-e-com, comum". Cf. nota 5 da pág. 87.
115. IDEM, ibidem, 180 a. De alma é (um) logos que a si próprio se aumenta.
116. IDEM, ibidem, V, 6. A todos os homens é compartilhado o conhecer-se a si mesmos e pensar sensatamente.
117. IDEM, ibidem, V, 7. Um homem quando se embriaga é levado por criança impúbere, cambaleante, não sabendo por onde vai, porque úmida tem a alma.
118. IDEM, ibidem, V, 8. Brilho seco (é a) alma mais sábia e melhor. Ou antes, segundo a leitura de Stephanus: Alma seca (é) a mais sábia e melhor.
119. IDEM, ibidem, IV, 40, 23. Herdclito dizia que o ético no homem (é) o demônio (e o demônio é o ético).1
120. ESTRABÃO, I, 6, p. 3. Limites de aurora e crepúsculo (são) a Ursa e em face da Ursa a baliza do fulgurante Zeus.
121. IDEM, XIV, 25, p. 642; DIÓGENES LAÉRCIO, IX, 2. Merecia que os efésios adultos se enforcassem e aos não-adultos abandonassem a cidade, eles que a Hermodoro, o melhor homem deles e o de mais valor, expulsaram dizendo: que entre nós ninguém seja 0 mais valoroso, senão que se vá alhures e com outros.
122. Suda, s.v. "ankhibátein" e namphisbãtein". Aproximação, segundo Heráclito.
1 A reversão de sentido, sugerida pelo que indiquei entre parênteses, é permitida, se não exigida, pela estruturação da frase grega, que não determina pela posição o sujeito e o predicativo. O que está em primeiro lugar pode ser predicativo e o que está em segundo pode ser sujeito.
123. TEMÍSTIO, Oratio V, p. 69. Natureza ama esconder-se.
124. TEOFRASTO, Metafísica, 15 p. 7 a 10. (Como?) coisas varridas e ao acaso confundidas (é?) o mais belo mundo.
125. IDEM, De Vertigine, 9. Também o "cyceon"1 se decompõe, se não for agitado.
125a. TZETZES, Comentário ao "Plutão" de Aristófanes, 88. Que não vos abandone a riqueza, efésios, a fim de que seja provada a vossa ruindade.
126. IDEM, Escãios para Exegese da llíada. As (coisas) frias esquentam, quente esfria, úmido seca, seco umedece.
1 Uma espécie de rningau de aveia.
Fonte
O Lógos tem um lugar de destaque na filosofia antiga, principalmente entre os filósofos chamados “pré-socráticos”. Mas, quem são esses filósofos? Embora a designação de “pré-socráticos” tenha sido consagrada pela tradição filosófica, ela nada revela do que verdadeiramente foram esses primeiros pensadores da filosofia grega. Eles não foram apenas os antecessores de Sócrates, mas foram verdadeiros e profundos “pensadores originários”, que se consagraram à tarefa de decifrar o enigma da origem e do vir-a-ser da Natureza.1
Após seu apogeu na filosofia da Grécia Clássica, o Lógos ocupou o centro da filosofia helenística, particularmente no estoicismo antigo, médio e tardio. Depois, em um novo contexto cultural, ele teve um lugar de realce na teologia cristã, tanto na Idade Patrística, por causa do encontro do cristianismo primitivo com a paidéia grega (Cf. Jaeger, 1961), quanto na Idade Média, devido à grande influência que, através de Platão, Plotino e Aristóteles, a cultura grega exerceu sobre a teologia medieval.
Mais tarde, no projeto epistemológico da Modernidade, o Lógos foi substituído pela Razão Científica, e, finalmente, graças ao trabalho de Nietzsche (1973, p. 108-116) e, sobretudo, de Heidegger (1973a, Heráclito, frag. 50), ele foi resgatado no seu sentido originário, e vem ocupando, em virtude da interpretação que lhe deu Heidegger, um lugar privilegiado na filosofia da contemporaneidade.
1. Ver a este respeito o que escreve Emmanuel Carneiro Leão na interessante “Introdução” feita para a tradução dos textos de Parmênides, Anaximandro e Heráclito publicada pela Editora Vozes. Cf. Emmanuel Carneiro Leão e Sérgio Wrublewski. Pensadores originários: Anaximandro, Parmênides, Heráclito (1993).
HERÁCLITO DE ÉFESO, UM PENSADOR ORIGINÁRIO E OBSCURO
Heráclito entrou no cenário da pesquisa filosófica, quando a filosofia grega, ainda em seus primórdios, tentava explicar a arché das coisas, a harmonia do Kosmos e a gênese da Physis.
Os romanos traduziram a palavra grega ϕυσις por natura (natureza), e, na língua portuguesa, o termo Physis é também traduzido por Física. Física, Natureza, Ciência da Natureza, todas essas palavras tentam dizer a mesma coisa, mas nenhuma traduz, com exatidão, o que os primeiros filósofos gregos, aqueles que são chamados de “pensadores originários”, entendiam por Physis.
Para eles, a Physis tinha uma aura “divina”, pois era a fonte originária, a arché de todas as coisas que constituíam o Universo. Na convergência divergente de sua unidade e na divergência convergente da diversidade de suas partes, a totalidade dos seres formava a harmonia cósmica, “a harmonia mais bela”, a “καλλισθη αρµονια” como disse Heráclito de Éfeso em um dos seus mais belos fragmentos.2
Esta unidade polivalente transparece, claramente, na etimologia latina da palavra Universus, que se poderia desdobrar assim: Universus = omnia versus Unum, vale dizer, todas as coisas (omnia) estão voltadas para (versus) o Uno (Unum). Pois bem, de todas essas coisas, os primeiros filósofos gregos tentavam descobrir a origem (αρχη) e o processo de seu vir-a-ser (ϕυναι).
Portanto, o “pensamento originário”, que deu origem ao filosofar na Grécia Antiga, foi inteiramente consagrado ao estudo do ϕυναι (vir-a-ser) da ϕυσις (Natureza). Heidegger, porém, observa que esses pensadores originários “pensaram a ϕυσις em uma profundeza e amplidão, que todos os físicos posteriores nunca mais conseguiram alcançar (Cf. Heidegger, 1957, p. 138-9). Nem os posteriores, nem aqueles que os sucederam no estudo da Natureza.
Por “Natureza”, a filosofia clássica entendia o princípio do movimento de todas as coisas, princípio este pelo qual essas coisas eram o que eram. Daí porque, em Aristóteles, natureza é sinônimo de forma, de substância e de essência (Cf. Aristóteles, Physica. II.1, 192b). No livro da Metafísica, ele define a Natureza como “a substância das coisas que têm o princípio do movimento em si próprias” (Cf. Aristóteles, Metaphysica. V. 4, 1015 a 13).
Heidegger, no entanto, opina que esse modo de conceber a Natureza não traduz o que os filósofos originários entendiam por Physis. Esta palavra era para eles fundamental e, literalmente, significava: “surgir no sentido de provir do que se acha escondido e velado”. É o que pode ser observado, por exemplo, no desabrochar da rosa e no surgir da semente escondida no silêncio da terra.
A visão do nascer do sol também exemplifica a essência do “surgimento” e o que define a Physis como “um mostrar-se a partir de si e de dentro de si”.
Dito de outro modo: “a Physis é o ser mesmo em virtude do qual o ente se torna e permanece observável” (Heidegger, 1987, p. 45). Ou seja, os pensadores originários consagraram-se ao estudo do emergir ou desvelar-se dos entes, que acontece como manifestações do Ser, a partir de seu velamento mais profundo.
Pois, para eles, existe uma inter-relação muito significativa entre o esconder-se e o manifestar-se, os quais se atualizam no emergir das coisas ou no processo de seu desvelamento. É a unidade ambivalente desse velar-se e desvelar-se que revela a essência da Physis (Cf. Heidegger, 1973b, Heráclito, frag. 16, p. 135).
2. Heráclito de Éfeso, Fragmento n. 8: “O contrário em tensão é convergente e da divergência dos contrários, a mais bela harmonia”. Trad. de Carneiro Leão e Sérgio Wrublewski (1993), p. 61. Hermann Diels: “Das widereinander Strebende zusammengehend; aus dem auseinander Gehenden die schönste Fügung” (1957), p. 24.
Heráclito, o “obscuro”
No contexto deste filosofar originário sobre a Physis, Heráclito de Éfeso deu ao Lógos um lugar de destaque, embora não se tenha dado a tarefa de revelar sua natureza. Digo isto porque o pensamento do filósofo de Éfeso habitou sempre a região do enigma, na qual tudo o que se manifesta, ao mesmo tempo se esconde, e tudo o que se esconde, simultaneamente se manifesta.
Não por acaso, ele foi designado, ainda pelos seus contemporâneos, com o cognome de “o obscuro” (Ho Skoteinós).
Mas qual o sentido desta obscuridade? Referindo-se ao estilo heraclitiano, Heidegger opina que, em vez de ser denominado de “obscuro”, Heráclito poderia e deveria ter sido chamado de “o claro”, pois o que ele escreve no seu estilo enigmático, “clarifica e faz brilhar a linguagem do pensar” (ibid., p. 130).
Esta claridade, porém, é uma claridade sui generis, pois tem o fascínio e o enigma dos relâmpagos. De um modo fugaz e efêmero, os relâmpagos, com seus repetidos clarões, iluminam a escuridão da noite, mas não conseguem transformá-la na claridade do dia.
Por este motivo, Heidegger comparou os pensamentos de Heráclito aos clarões dos relâmpagos em noite de tempestade.
E a tempestade, que aqui está em questão, é uma tempestade sui generis, porque é a própria “tempestade do ser”, ou seja, a tempestade da qual os filósofos, em geral, tentam fugir em nome de uma falsa tranqüilidade, a qual se dissimula sob a “apatia da angústia diante do pensar” e, sobretudo, do “a se-pensar” (Heidegger, 1973a, Heráclito, frag. 50, p. 129).
Talvez fosse interessante lembrar que é esta mesma “apatia da angústia”, ou seja, o medo de assumi-la, que leva o homem a fazer a experiência da existência inautêntica em seu situar-se no mundo. Vamos, portanto, à luz desses clarões, refletir um pouco sobre o que o filósofo de Éfeso ensina sobre o Lógos.
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Fonte
MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO
DISCURSO DO MINISTRO
LUÍS ROBERTO BARROSO
DEPOIS DOS ATOS ANTIDEMOCRÁTICOS
EM BRASÍLIA E SÃO PAULO
I. Introdução
1. A propósito dos eventos e pronunciamentos do último dia 7 de setembro, o Presidente do Supremo Tribunal Federal, Ministro Luiz Fux, já se manifestou com relação aos ataques àquele Tribunal, seus Ministros e às instituições, com o vigor que se impunha.
2. A mim, como Presidente do Tribunal Superior Eleitoral cabe apenas rebater o que se disse de inverídico em relação à Justiça Eleitoral. Faço isso em nome dos milhares de juízes e servidores que servem ao Brasil com patriotismo – não o da retórica de palanque, mas o do trabalho duro e dedicado –, e que não devem ficar indefesos diante da linguagem abusiva e da mentira.
3. Já começa a ficar cansativo, no Brasil, ter que repetidamente desmentir falsidades, para que não sejamos dominados pela pós-verdade, pelos fatos alternativos, para que a repetição da mentira não crie a impressão de que ela se tornou verdade. É muito triste o ponto a que chegamos.
Antes de responder objetivamente a tudo o que precisa ser respondido, faço uma breve reflexão sobre o mundo em que estamos vivendo e as provações pelas quais têm passado as democracias contemporâneas. É preciso entender o que está acontecendo para resistir adequadamente.
II. A Recessão Democrática no Mundo
1. A democracia vive um momento delicado em diferentes partes do mundo, em um processo que tem sido batizado como recessão democrática, retrocesso democrático, constitucionalismo abusivo, democracias iliberais ou legalismo autocrático. Os exemplos foram se acumulando ao longo dos anos: Hungria, Polônia, Turquia, Rússia, Geórgia, Ucrânia, Filipinas, Venezuela, Nicarágua e El Salvador, entre outros. É nesse clube que muitos gostariam que nós entrássemos.
2. Em todos esses casos, a erosão da democracia não se deu por golpe de Estado, sob as armas de algum general e seus comandados. Nos exemplos acima, o processo de subversão democrática se deu pelas mãos de presidentes e primeiros-ministros devidamente eleitos pelo voto popular. Em seguida, paulatinamente, vêm as medidas que desconstroem os pilares da democracia e pavimentam o caminho para o autoritarismo.
III. Três fenômenos distintos
1. Há três fenômenos distintos em curso em países diversos: a) o populismo; b) o extremismo e c) o autoritarismo. Eles não se confundem entre si, mas quando se manifestam simultaneamente – o que tem sido frequente – trazem graves problemas para a democracia.
2. O populismo tem lugar quando líderes carismáticos manipulam as necessidades e os medos da população, apresentando-se como anti-establishment, diferentes “de tudo o que está aí” e prometendo soluções simples e erradas, que frequentemente cobram um preço alto no futuro.
3. Quando o fracasso inevitável bate à porta – porque esse é o destino do populismo –, é preciso encontrar culpados, bodes expiatórios. O populismo vive de arrumar inimigos para justificar o seu fiasco. Pode ser o comunismo, a imprensa ou os tribunais.
4. As estratégias mais comuns são conhecidas:
a) uso das mídias sociais, estabelecendo uma comunicação direta com as massas, para procurar inflamá-las;
b) a desvalorização ou cooptação das instituições de mediação da vontade popular, como o Legislativo, a imprensa e as entidades da sociedade civil; e
c) ataque às supremas cortes, que têm o papel de, em nome da Constituição, limitar e controlar o poder.
5. O extremismo se manifesta pela intolerância, agressividade e ataque a instituições e pessoas. É a não aceitação do outro, o esforço para desqualificar ou destruir os que pensam diferente. Cultiva-se o conflito do nós contra eles. O extremismo tem se valido de campanhas de ódio, desinformação, meias verdades e teorias conspiratórias, que visam enfraquecer os fundamentos da democracia representativa. Manifestação emblemática dessa disfunção foi a invasão do Capitólio, nos Estados Unidos, após a derrota de Donald Trump nas eleições presidenciais. Por aqui, não faltou quem pregasse invadir o Congresso e o Supremo.
6. O autoritarismo, por sua vez, é um fenômeno que sempre assombrou diferentes continentes – América Latina, Ásia, África e mesmo partes da Europa –, sendo permanente tentação daqueles que chegam ao poder.
7. Em democracias recentes, parte das novas gerações já não tem na memória o registro dos desmandos das ditaduras, com seu cortejo de intolerância, violência e perseguições. Por isso mesmo, são presas mais fáceis dos discursos autoritários.
8. Uma das estratégias do autoritarismo, dos que anseiam a ditadura, é criar um ambiente de mentiras, no qual as pessoas já não divergem apenas quanto às suas opiniões, mas também quanto aos próprios fatos. Pós-verdade e fatos alternativos são palavras que ingressaram no vocabulário contemporâneo e identificam essa distopia em que muitos países estão vivendo.
9. Uma das manifestações do autoritarismo pelo mundo afora é a tentativa de desacreditar o processo eleitoral para, em caso de derrota, poder alegar fraude e deslegitimar o vencedor.
10. Visto o cenário mundial, falo brevemente sobre o Brasil e os ataques sofridos pela Justiça Eleitoral.
IV. Referências ao TSE e ao processo eleitoral
1. No tom, com o vocabulário e a sintaxe que é capaz de manejar, o Presidente da República fez os seguintes comentários que dizem respeito à Justiça Eleitoral e que passo a responder.
I. “A alma da democracia é o voto”.
1. De fato, o voto é elemento essencial da democracia representativa.
2. Outro elemento igualmente fundamental é o debate público permanente e de qualidade, que permite que todos os cidadãos recebam informações corretas, formem sua opinião e apresentem seus argumentos.
3. Quando esse debate é contaminado por discursos de ódio, campanhas de desinformação e teorias conspiratórias infundadas, a democracia é aviltada.
Þ O slogan para o momento brasileiro, ao contrário do propalado, parece ser: “Conhecerás a mentira e a mentira te aprisionará”.
II. “Não podemos admitir um sistema eleitoral que não fornece qualquer segurança”
1. As urnas eletrônicas brasileiras são totalmente seguras. Em primeiro lugar, elas não entram em rede e não são passíveis de acesso remoto. Podem tentar invadir os computadores do TSE (e obter alguns dados cadastrais irrelevantes), podem fazer ataques de negação de serviço aos nossos sistemas, nada disso é capaz de comprometer o resultado da eleição. A própria urna é que imprime os resultados e os divulga.
2. Os programas que processam as eleições têm o seu código fonte aberto à inspeção de todos os partidos, da Polícia Federal, do Ministério Público e da OAB um ano antes das eleições. Estará à disposição dessas entidades a partir de 4 de outubro próximo. Inúmeros observadores internacionais examinaram o sistema com seus técnicos e atestaram a sua integridade.
3. Ainda hoje, daqui a pouco, anunciarei os integrantes da Comissão de Transparência das Eleições, que vão acompanhar cada passo do processo eleitoral. Nunca se documentou qualquer episódio de fraude.
Þ O sistema é certamente inseguro para quem acha que o único resultado possível é a própria vitória. Como já disse antes, para maus perdedores não há remédio na farmacologia jurídica.
III. “Nós queremos eleições limpas, democráticas, com voto auditável e contagem pública de votos”
1. As eleições brasileiras são totalmente limpas, democráticas e auditáveis. Eu não vou repetir uma vez mais que nunca se documentou fraude, que por esse sistema foram eleitos FHC, Lula, Dilma e Bolsonaro e que há 10 (dez) camadas de auditoria no sistema.
2. Agora: contagem pública manual de votos é como abandonar o computador e regredir, não à máquina de escrever, mas à caneta tinteiro. Seria um retorno ao tempo da fraude e da manipulação. Se tentam invadir o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, imagine-se o que não fariam com as seções eleitorais!
3. As eleições brasileiras são limpas, democráticas e auditáveis. Nessa vida, porém, o que existe está nos olhos do que vê.
IV. “Não podemos ter eleições onde (sic) pairem dúvidas sobre os eleitores”
1. Depois de quase três anos de campanha diuturna e insidiosa contra as urnas eletrônicas, por parte de ninguém menos do que o Presidente da República, uma minoria de eleitores passou a ter dúvida sobre a segurança do processo eleitoral. Dúvida criada artificialmente por uma máquina governamental de propaganda. Assim que pararem de circular as mentiras, as dúvidas se dissiparão.
V. “Não posso participar de uma farsa como essa patrocinada pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral”
1. O Presidente da República repetiu, incessantemente, que teria havido fraude na eleição na qual se elegeu. Disse eu, então, à época, que ele tinha o dever moral de apresentar as provas. Não apresentou.
2. Continuou a repetir a acusação falsa e prometeu apresentar as provas. Após uma live que deverá figurar em qualquer futura antologia de eventos bizarros, foi intimado pelo TSE para cumprir o dever jurídico de apresentar as provas, se as tivesse. Não apresentou.
3. É tudo retórica vazia. Hoje em dia, salvo os fanáticos (que são cegos pelo radicalismo) e os mercenários (que são cegos pela monetização da mentira), todas as pessoas de bem sabem que não houve fraude e quem é o farsante nessa história.
VI. “Não é uma pessoa no Tribunal Superior Eleitoral que vai nos dizer que esse processo é seguro e confiável”.
1. Não sou eu que digo isso. Todos os ex-Presidentes do TSE no pós-88 – 15 Ministros e ex-Ministros do STF – atestam isso. Mas, na verdade, quem decidiu que não haveria voto impresso foi o Congresso Nacional, não foi o TSE.
2. A esse propósito, eu compareci à Câmara dos Deputados após três convites: da autora da proposta, do Presidente da Comissão Especial e um convite pessoal do Presidente daquela Casa. Não fiz ativismo legislativo. Fui insistentemente convidado.
3. Lá expus as razões do TSE. Não tenho verbas, não tenho tropas, não troco votos. Só trabalho com a verdade e a boa fé. São forças poderosas. São as grandes forças do universo. A verdade realmente liberta. Mas só àqueles que a praticam.
4. Foi o Congresso Nacional – não o TSE – que recusou o voto impresso. E fez muito bem. O Presidente da Câmara afirmou que após a votação da Proposta, o assunto estaria encerrado. Cumpriu a palavra. O Presidente do Senado afirmou que após a votação da Proposta, o assunto estaria encerrado. Cumpriu a palavra. O Presidente da República, como ontem lembrou o Presidente da Câmara, afirmou que após a votação da proposta o assunto estaria encerrado. Não cumpriu a palavra.
5. Seja como for, é uma covardia atacar a Justiça Eleitoral por falta de coragem de atacar o Congresso Nacional, que é quem decide a matéria.
VII. Conclusão
1. Insulto não é argumento. Ofensa não é coragem. A incivilidade é uma derrota do espírito. A falta de compostura nos envergonha perante o mundo. A marca Brasil sofre, nesse momento, uma desvalorização global. Somos vítimas de chacota e de desprezo mundial.
2. Um desprestígio maior do que a inflação, do que o desemprego, do que a queda de renda, do que a alta do dólar, do que a queda da bolsa, do que o desmatamento da Amazônia, do que o número de mortos pela pandemia, do que a fuga de cérebros e de investimentos. Mas, pior que tudo, nos diminui perante nós mesmos. Não podemos permitir a destruição das instituições para encobrir o fracasso econômico, social e moral que estamos vivendo.
3. A democracia tem lugar para conservadores, liberais e progressistas. O que nos une na diferença é o respeito à Constituição, aos valores comuns que compartilhamos e que estão nela inscritos. A democracia só não tem lugar para quem pretenda destruí-la.
Þ Com a bênção de Deus – o Deus do bem, do amor e do respeito ao próximo – e a proteção das instituições, um Presidente eleito democraticamente pelo voto popular tomará posse no dia 1º de janeiro de 2023.
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