INÍCIO

15 março 2025

HERÁCLITO DE ÉFESO E SEUS AFORISMOS

OS AFORISMOS DE HERÁCLITO DE ÉFESO 


Começaremos nossa reflexão partindo de uma estória sobre Heráclito, registrada por Aristóteles em Das partes dos animais (A 5, 645 a 17s), como segue:

“Diz-se (numa palavra) que Heráclito assim teria respondido aos estranhos vindos na intenção de observá-lo. Ao chegarem, viram-no aquecendo-se junto ao forno. Ali permaneceram, de pé (impressionados sobretudo porque) ele os (ainda hesitantes) encorajou a entrar, pronunciando as seguintes palavras: “Mesmo aqui, καί ενταύθα, os deuses também estão presentes” (HEIDEGGER, 1998, p. 22).

Heráclito lê nas suas fisionomias a curiosidade decepcionada. Reconhece que, para as pessoas, basta sentir a falta de uma sensação esperada para que desistam e partam. Por isso as encoraja, convidando-as a entrar com as palavras: “mesmo aqui, os deuses estão presentes”. [...] Sua palavra lança uma outra luz sobre seu abrigo e ocupação. [...] Não é preciso evitar o conhecido e o ordinário e perseguir o extravagante, o excitante e o estimulante na esperança ilusória de, assim, encontrar o extraordinário. Vocês devem simplesmente permanecer em seu cotidiano e ordinário, como eu aqui, que me abrigo e aqueço junto ao forno. [...] “Mesmo aqui”, e justamente aqui, na inaparência do ordinário, vigora o extraordinário do aparecimento (HEIDEGGER, 1998, p. 23-25).


Luís Nassif 
Set.2012
(1)

Possível busto de Heráclito de Éfeso. Museu Capitolino. Roma. 

As palavras de Heráclito vêm provocando debates acirrados há vinte e seis séculos. Muito se discutiu sobre ele entre os gregos e romanos, mais tarde foi tema de debates entre cristãos e muçulmanos e na filosofia moderna e contemporânea ressurge sempre de tempos em tempos com renovado interesse. 

De sua Obra só conhecemos pouco mais de uma centena de frases, os aforismo sempre citados pelos mais diversos autores a partir de uma das muitas coletâneas que se fizeram.

Aqueles fragmentos de Heráclito são aforismos, frases definitivas, cortantes, frente às quais ninguém passa impunemente. Não provém de um texto único. Já nasceram na forma de aforismos que, por causa de sua natureza oracular, sibilina, granjearam a seu Autor a fama de “obscuro”.

O pensamento aforismático não oculta nem revela a plenitude do saber do pensador. Limita-se a indicá-lo e cabe a quem interpreta buscar-lhe a compreensão.

Como sinais, os aforismos de Heráclito não revelam nem ocultam seu pensar, mas o indica por sinais fulgurantes. Obscuro ou luminoso, de acordo com a perspectiva que se adote, trazem uma reflexão nova a partir de uma nova perspectiva, a do fogo.

O que equivale, guardadas as devidas proporções, à nossa Tabela Periódica de Elementos Químicos, entre os gregos reduz-se a quatro grandes princípios originais: fogo, água, ar, terra. Para os mais conservadores, a terra, é o primeiro princípio. Para aqueles que se adaptam às circunstâncias, é a água. Para os suaves é o ar. Para Heráclito e todos os revolucionários é o fogo.

Tudo é feito pelo fogo e tudo se dissipa no fogo. Tudo está submetido ao destino. O movimento, o devenir perpétuo, determina toda a harmonia do mundo.

Uma reconstrução moderna do Templo de Ártemis de Éfeso, localizado na moderna Istambul. De acordo com Diógenes Laércio, Heráclito depositou seu livro no templo de Ártemis em Éfeso. (Fonte: WP).

O fogo eternamente vivo

“Este mundo, que é o mesmo para todos, nenhum dos deuses ou dos homens o fez; mas foi sempre, é e será um fogo eternamente vivo, que se acende com medida e se apaga com medida”, nessa frase muitos vêem uma das chaves para a decifração do pensamento de Heráclito de Éfeso, que já na Antiguidade tornou-se conhecido como “o Obscuro”.

De sua vida muito pouco se sabe com certeza. Nascido em Éfeso, colônia grega da Ásia Menor, teria atingido o auge de sua produtividade por ocasião da 69ª Olimpíada (504 –501 a.C.). Pertencia à família real de sua cidade e conta-se que teria renunciado à dignidade de se tornar rei em favor de seu irmão. A obra que deixou está constituída por uma série de frases isoladas, durante muito tempo consideradas como fragmentos de um suposto texto original; posteriormente, a crítica filosófica reconheceu que se tratava, na verdade, de aforismos. Modernamente, a seqüência desses aforismos é apresentada segundo duas numerações: a inglesa, devida a Bywater, ou a alemã, de Diels.

A apresentação aforismática de seu pensamento e o estilo intencionalmente sibilino fazem de Heráclito um dos pensadores pré-socráticos de mais difícil interpretação. Natural, portanto, que a história da filosofia apresente uma sucessão de versões de seu pensamento, dependentes sempre da perspectiva assumida pelo próprio intérprete.

Para a solução do “problema heraclítico” dois pontos parecem oferecer bases mais seguras: a) o confronto das proposições de Heráclito com seu contexto cultural (o que o próprio filósofo parece indicar, na medida em que se apresenta como crítico implacável de idéias e personagens de sua época ou da tradição cultural grega); b) o estilo de Heráclito, que revela um uso peculiar da linguagem.

Se há aforismos de Heráclito que não manifestam obscuridade são justamente os de cunho crítico. Aristocrata, Heráclito não afirma apenas que “um só é dez mil para mim, se é o melhor”, como também faz acerbas acusações à mentalidade vulgar desses homens que “não sabem o que fazem quando estão despertos, do mesmo modo que esquecem o que fazem durante o sono”. A religiosidade popular é também por ele vergastada: “Os mistérios praticados entre os homens são mistérios profanos”. E explica: “É em vão que eles se purificam sujando-se de sangue, como um homem que tivesse andado na lama e quisesse lavar os pés na lama…” Nem mesmo alguns dos nomes mais reverenciados na época são poupados: “O fato de aprender muitas coisas não instrui a inteligência; do contrário teria instruído Hesíodo e Pitágoras, do mesmo modo que Xenófanes e Hecateu”. Noutro aforismo Pitágoras é acusado de possuir uma polimatia (conhecimento de muitas coisas) que não passava de uma “arte de maldade”, enquanto Hesíodo, “o mestre da maioria dos homens, os homens pensam que ele sabia muitas coisas, ele que não conhecia o dia ou a noite”. Nem Homero escapa: “Homero errou em dizer: ‘Possa a discórdia se extinguir entre os deuses e os homens!’ Ele não via que suplicava pela destruição do universo; porque, se sua prece fosse atendida, todas as coisas pereceriam…”.

Em meio a tantas críticas, Heráclito abre, entretanto, uma exceção: para a Sibila, “que com seus lábios delirantes diz coisas sem alegria, sem ornatos e sem perfume”, mas que atinge com sua voz para além de mil anos, graças ao deus que está nela. Percebe-se, dessa maneira, que a adoção do estilo oracular é intencional em Heráclito, que nele encontra a via adequada – indireta, sugestiva – para comunicar seu pensamento: “O mestre a que pertence o oráculo de Delfos não exprime nem oculta seu pensamento, mas o faz ver através de um sinal”. O exemplo do deus de Delfos e da Sibila parece mostrar a Heráclito a diferença que separa as palavras do pensamento (logos), a mesma que distancia a inteligência privada – o “sono” em que está imersa a mentalidade vulgar – da inteligência comum, a “vigília” daquele que se eleva acima dos muitos conhecimentos e reconhece “que todas as coisas são Um”.

A unidade dos opostos

O que diz o Logos, do qual Heráclito se faz o anunciador e em nome do qual condena o torpor da multidão ou a polimatia dos supostos sábios, é isto: a unidade fundamental de todas as coisas. Essa é “a natureza que gosta de se ocultar”. Mas a noção de unidade fundamental, subjacente à multiplicidade aparente, já estava expressa pelo menos desde Anaximandro de Mileto. A novidade trazida por Heráclito – e que lhe permite julgar tão duramente seus antecessores e contemporâneos – está, na verdade, em considerar aquela unidade como uma unidade de tensões opostas. Esta teria sido sua grande descoberta: existe uma harmonia oculta das forças opostas, “como a do arco e da lira”. A Razão (Logos) consistiria precisamente na unidade profunda que as oposições aparentes ocultam e sugerem: os contrários, em todos os níveis da realidade, seriam aspectos inerentes a essa unidade. Não se trata, pois, de opor o Um ao Múltiplo, como Xenófanes e o eleatismo: o Um penetra o Múltiplo e a multiplicidade é apenas uma forma da unidade, ou melhor, a própria unidade. Daí a insuficiência do uso corrente das palavras: somente o logos (razão-discurso) do filósofo consegue apreender e formular – não ao ouvido mas ao espírito, não diretamente mas por via de sugestões sibilinas – aquela simultaneidade do múltiplo (mostrado pelos sentidos) e da unidade fundamental (descortinada pela inteligência desperta, em “vigília”).

Proclama Heráclito: “É sábio escutar não a mim, mas a meu discurso (logos), e confessar que todas as coisas são Um”. O Logos seria a unidade nas mudanças e nas tensões, a reger todos os planos da realidade: o físico, o biológico, o psicológico, o político, o moral. É a unidade nas transformações: “Deus é dia-noite, inverno-verão, guerra-paz, superabundância-fome; mas ele assume formas variadas, do mesmo modo que o fogo, quando misturado a arômatas, é denominado segundo os perfumes de cada um deles”. Por isso Homero errara em pedir que cessasse a discórdia entre os deuses e os homens: “O que varia está de acordo consigo mesmo”. A harmonia não é aquela que Pitágoras propunha, de supremacia do Um, nem a verdadeira justiça é a que Anaximandro havia concebido, ou seja, a extinção dos conflitos e das tensões através da compensação dos excessos de cada qualidade-substância em relação a seu oposto. A justiça não significa apaziguamento; pelo contrário, “o conflito é o pai de todas as coisas: de alguns faz homens; de alguns, escravos; de alguns, homens livres”. Mas ver a realidade como fundamentalmente uma tensão de opostos não significa necessariamente optar pela guerra, no plano político; “guerra”, neste último sentido, é apenas um dos pólos de uma tensão permanente (“Deus é dia-noite, inverno-verão, guerra-paz…”). E essa tensão, que constitui a verdadeira harmonia, necessita, para perdurar, de ambos os opostos.

Numa série de aforismos, Heráclito enfatiza o caráter mutável da realidade, repetindo uma tese que já surgira nos mitos arcaicos e, com dimensão filosófica, desde os milesianos. Mas em Heráclito a noção de fluxo universal torna-se um mote insistentemente glosado: “Tu não podes descer duas vezes no mesmo rio, porque novas águas correm sempre sobre ti”. O império do Logos em sua feição física aparece então como as transformações do fogo, que são “em primeiro lugar, mar; e a metade do mar é terra e a outra metade vento turbilhonante”. O Logos-Fogo exerce uma função de racionalização nas trocas substanciais análoga à que a moeda vinha desempenhando na Grécia, desde o século VII: “Todas as coisas são trocadas em fogo e o fogo se troca em todas as coisas, como as mercadorias se trocam por ouro e o ouro é trocado por mercadorias”. Todavia, as transformações que integram o fluxo universal não significam desgoverno e desordem; elo contrário, o Logos-Fogo é também Razão universal e, por isso, impõe medida ao fluxo: “Este mundo (…) foi sempre, é e será sempre um fogo eternamente vivo, que se acende com medida e se apaga com medida”. A regularidade e a medida são garantidas pela simultaneidade dos dois caminhos de transformação que compõem o fluxo universal: é ao mesmo tempo que ocorre a troca do fogo em todas as coisas e de todas as coisas em fogo, pois “o caminho para o alto e o caminho para baixo são um e o mesmo”. Isso permite então afirmar: “…e a, metade do mar é terra, a metade vento turbilhonante”. Assim, o que garante a tensão intrínseca às coisas é aquilo mesmo que as sustenta: a medida imposta pelo Logos, essa “harmonia oculta” que “vale mais que harmonia aberta”.

A consciência da fugacidade das coisas gera uma nota de pessimismo que atravessa o pensamento de Heráclito: “O homem é acendido e apagado como uma luz no meio da noite”. Mas o pessimismo advém, sobretudo, de reconhecer o torpor em que vive a maioria dos homens, ignorantes da lei universal que tudo rege. Por isso, o discurso (logos) do filosofo, embora pretendendo ser a manifestação da Razão universal (Logos), exprime-se como um solitário mono-logos, acima dos homens comuns, “esses loucos que quando ouvem são como surdos”.

“Pré”-socráticos?

Desgraçadamente a filosofia ocidental fez consagrar esta denominação absurda, como se todo o pensamento anterior tendesse a Sócrates, Platão e Aristóteles – de resto, gigantes da sabedoria universal – o que não é fato. Dentre os considerados pejorativamente “pré”-socráticos há muitos que, como Heráclito, seguem caminho totalmente diversos e até mesmo contemporâneos de Sócrates, evidenciando a ilogicidade do epíteto a eles apodado injustamente.

Maquiavel informa que, em todos os nossos empreendimentos, dependemos em 50% da “virtù” e, em 50% da fortuna, ou seja, da pura sorte. Sócrates encontrou em Platão um digno seguidor que encontrou em Aristóteles um seguidor e aperfeiçoador. O mesmo não se pode dizer de outros pensadores como Heráclito, cujo pensamento fica obscuro, mal interpretado e vilipendiado até praticamente ser redescoberto no século XIX por dois gigantes do pensamento ocidental: Hegel e Nietzsche.

Platão ministrava suas prédicas nos jardins de Academo, vindo daí o nome “academia”. Aristóteles passeava com seus discípulos por um terreno próximo ao templo de Apolo Lyceo, o “bosque dos lobos”. Daí a denominação “Liceu”. Que o ocidente esteja polvilhado de academias e liceus é claro índice de uma vitória histórica de uma certa vertente da filosofia. Apenas para comparararmos, o “Jardim”, proposta revolucionária de Epicuro, está hoje reduzido (e se reduzindo cada vez mais) à educação infantil…

Ao contrário de se constituir em mera denominação cronológica, a expressão “pré”-socrático traz consigo pesada gama de preconceito e valoração. Como se todo o pensamento multifacético da Grécia clássica anterior – e mesmo contemporâneo! – a Sócrates e Platão teriam sido pensadores menores, míseros precursores de um pensamento mais sofisticado…

Não é uma denominação ingênua. É um problema político da maior gravidade empacotar no mesmo balaio expoentes das mais diversas áreas, gente de brilho ímpar como Parmênides, Zenão, Empédocles, Anaxágoras e mesmo gênios como Demócrito e os sofistas que eram contemporâneos de Sócrates! Não! Estes filósofos só mesmo por elevada má-fé calculada poderia ser considerados “pré”-socráticos.

Com tal estratégia política, por quase vinte séculos se obscureceu quase a ponto da perda total, conceitos fundamentais do período inaugural da filosofia grega que, ou foram solenemente sepultados ou mal digeridos por Sócrates e seus seguidores… Conceitos como “Dialética”, “Physis”, “Logos”, “Aletheia”… Perderam-se muitos caminhos recém-inaugurados e constitui árdua tarefa da filosofia moderna resgatar aqueles valores em busca até mesmo da superação deste mundo unidimensional em que nos enfiou, em última análise, o escolasticismo.

Deformando o pensamento de Heráclito

As teses dos primeiros pensadores que não foram aceitas por Platão ou foram descartadas por Aristóteles caíram no esquecimento ou sofreram contínuas perseguições. Os atomistas, desprezados por Platão, que contra eles moveu uma campanha de silêncio, só foram resgatados pelos Renascentistas. Os sofistas, contra os quais Platão moveu cerrada luta, passaram à posteridade – mesmo os de estatura de Górgias e Protágoras – como mestres falaciosos, criadores de raciocínios falsos com aparência de verdadeiros (sofismas). Desta má fama, somente o século XX começou a libertá-los…

Com relação a Heráclito a situação é a inda mais grave! Platão pensa conhecer-lhe o pensamento e chega mesmo a adotar o que julga serem algumas de suas teses. Desde jovem, teve como tutor um mestre chamado Crátilo, que se auto-proclamava heracliteano. Esse mau discípulo transmitiu a Platão um Heráclito distorcido e amputado de seu centro: as sentenças sobre o Logos, que falam sobre o pensamento, a palavra, o conhecimento, a sabedoria, a linguagem…

Crátilo ensinou a Platão que, segundo Heráclito, todos os objetos sensíveis estão em constante fluxo, em devenir perpétuo, transformando-se continuamente (o que confere com o pensamento original) mas que não é possível haver conhecimento de tais entes (o que é um absurdo!). Crátilo aceita de Heráclito o mobilismo mas, diante da sentença “ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”, com que Heráclito aponta o constante fluir de todos os entes, Crátilo deduz ser impossível entrar no rio sequer uma única vez! E ainda acrescentava que, devido à rapidez com que tudo se transforma, o conhecimento era impossível, nada se podia saber, nada se podia afirmar… Se Crátilo fosse pouca coisa mais honesto intelectualmente e coerente com a sua concepção, teria permanecido calado e, com isso, proporcionado um grande bem à história da filosofia…

Resgatando Heráclito de Éfeso!

Por muitos séculos um Heráclito mal interpretado por Crátilo e Platão – além da confusão com a expressão “dialética” – grassou soberano em toda a filosofia ocidental. Foi somente na virada do século XIX para o XX que Hermann Diels, um importante helenista, elaborou intenso e extenso estudo filológico reunindo grande documentação de que resultou a publicação dos “Fragmentos dos Pré-Socráticos”. Graças ao trabalho de Diels, dispomos hoje de muito mais fonte de estudos desta temática, uma vez que os estudos outrora dispersos e não sistematizados, agora são encontrados em sua obra monumental.

Antes de Diels, Friedrich Nietzsche, notável filólogo e filósofo, percebeu ao ler os aforismos de Heráclito, o quanto o predomínio do escolasticismo e da racionalidade platônico-aristotélica haviam traído, durante séculos, a originalidade do pensador de Éfeso.

Já Hegel, em suas preleções sobre a História da Filosofia, afirmava não existir uma única frase de Heráclito que ele não incorporou em sua Lógica.

A seguirmos a linha de raciocínio de Hegel, Crátilo cometeu um erro crasso ao julgar e divulgar que Heráclito considerava impossível o conhecimento.

De fato, se Heráclito houvesse dito que não há conhecimento de um mundo que constantemente se transforma, se não tivesse, pelo contrário, afirmado que as transformações se dão segundo medidas e que está ao alcance do homem captar os modos das transformações, não teria despertado o interesse de Hegel. Conceder à razão a possibilidade de conhecer o que se transforma é conceber uma racionalidade também dinâmica. O que Hegel mais admirou em Heráclito foi ter pensado, antes dele, essa possibilidade…

Os Aforismos

Penetremos um pouco mais no universo de Heráclito. Segue um grupo de fragmentos, oriundo da compilação feita magistralmente por Gerd Bornheim, mas cuja disposição original se perdeu. Podemos dispô-las diversamente, construindo um mosaico cada vez mais variado de pensamentos. 

1) Os asnos preferem palha ao ouro.

2) Este Logos, os homens, antes ou depois de o haverem ouvido, jamais o compreendem. Ainda que tudo aconteça conforme este Logos, parece não terem experiência experimentando-se em tais palavras e obras, como eu as exponho, distinguindo-se em tais palavras e obras, como eu as exponho, distinguindo e explicando a natureza de cada coisa. Os outros homens ignoram o que fazem em estado de vigília, assim como esquecem o que fazem durante o sono.

3) Por isso, o comum deve ser seguido. Mas, a despeito de o Logos ser comum a todos, o vulgo vive como se cada um tivesse um entendimento particular.

4) (O Sol tem) a largura de um pé humano.

5) Se a felicidade consistisse nos prazeres do corpo, deveríamos proclamar felizes os bois, quando encontram ervilhas para comer.

6) Em vão procuram purificar-se, manchando-se com novo sangue de vítimas, como se, sujos com lama, quisessem lavar-se com lama. E louco seria considerado se alguém o descobrisse agindo assim. Dirigem também suas orações a estátuas, como se fosse possível conversar com edifícios, ignorando o que sejam os deuses e os heróis.

7) (O Sol é) novo todos os dias.

8) Se todas as coisas se tornassem fumaça, conhecer-se-ia com as narinas.

9) Tudo se faz por contraste; da luta dos contrários nasce a mais bela harmonia.

10) Correlações: completo e incompleto, concorde e discorde, harmonia e desarmonia, e de todas as coisas, um, e de um, todas as coisas.

11) Tudo o que rasteja é custodiado pelos golpes (divinos).

12) Para os que entram nos mesmos rios, correm outras e novas águas. Mas também almas são exaladas do úmido. 

13) (Os porcos) alegram-se na lama (mais do que na água limpa). 

14) (A quem profetiza Heráclito?) Aos noctívagos, aos magos, às bacantes, às mênades e aos mistas. (A estes ameaça com o castigo após a morte, a estes profetiza o fogo). Pois o que os homens chamam mistérios (…). 

15) Não fossem para Dionísio as pompas organizadas, com cantos fálicos, seriam os atos mais vergonhosos; o mesmo é, contudo, Hades e Dionísio, pelo qual deliram e festejam as Lenéas. 

16) Quem se poderá esconder da (luz) que nunca se deita? 

17) Muitos não entendem estas coisas, mesmo as encontrando em seu caminho, e não as entendem quando ensinados; mas pensam saber. 

18) Se não tiveres esperança, não encontrarás o inesperado, pois não é encontradiço e é inacessível. 

19) Homens que não sabem escutar nem falar. 

20) (Heráclito parece considerar o nascimento uma infelicidade ao dizer:) Desde que nasceram querem viver e sofrer sua sorte mortal – ou antes descansar –, e deixam filhos para haver outras sortes mortais. 

21) Morto é tudo o que nós vemos acordados; sonho, tudo o que nós vemos dormindo. 

22) Os que procuram ouro, cavam em muita terra e pouco encontram. 

23) Não houvesse isso (a injustiça) ignorariam o próprio nome de justiça. 

24) Deuses e homens honram os caídos em combate. 

25) Quanto maior for a morte, maiores os destinos. 

26) O homem, na noite, acende a si mesmo uma luz, quando a lua dos seus olhos se apaga. Vivo, toca na morte, quando adormecido; acordado, toca os que dormem. 

27) O que aguarda os homens após a morte, não é nem o que esperam nem o que imaginam. 

28) Apenas a probabilidade é o que mais estimado conhece e guarda. Mas a Justiça saberá ocupar-se dos que tramam mentiras e de seus testemunhos. 

29) Uma coisa preferem os melhores a tudo: a glória eterna às coisas perecíveis; mas a massa empanturra-se como o gado. 

30) Este mundo, igual para todos, nenhum dos deuses e nenhum dos homens o fez; sempre foi, é e será um fogo eternamente vivo, acendendo-se e apagando-se conforme a medida. 

31) As transformações do fogo: primeiro o mar; e a metade do mar é a terra, a outra metade o vento quente. A terra dilui-se em mar, e esta recebe a sua medida segundo a mesmo lei, tal como era antes de se tornar terra. 

32) O Uno, o único sábio, recusa e aceita ser chamado pelo nome de Zeus.

33) Lei é também obedecer à vontade de um só. 

34) Também quando ouvem não compreendem, são como mudos. Justificam o provérbio: presentes, estão ausentes. 

35) De muitas coisas devem homens amantes da sabedoria estar avisados. 

36) Para as almas, morrer é transformar-se em água; para a água, morrer é transformar-se em terra. Da terra, contudo, forma-se a água, e da água a alma. 

37) Porcos banham-se na lama, pássaros no pó e na cinza. 

38) (Tales, segundo alguns), foi o primeiro a pesquisar os astros… (Também Heráclito e Demócrito são disto testemunhas). 

39) Em Priene viveu Bias, filho de Teutanes, cuja fama é maior que a dos outros. 

40) A polimatia não instrui a inteligência. Não fosse assim teria instruído Hesíodo e Pitágoras, Xonófanes e Hecateu. 

41) Só uma coisa é sábia: conhecer o pensamento que governa tudo através de tudo. 

42) Homero deveria ser expulso dos jogos públicos e ser castigado. Também Arquíloco. 

43) Melhor apagar a desmedida que um incêndio. 

44) O povo deve lutar por sua lei como pelas muralhas. 

45) Mesmo percorrendo todos os caminhos, jamais encontrarás os limites da alma, tão profundo é o seu Logos. 

46) (Chamava a) presunção, doença sagrada (e a vista, enganadora). 

47) Não devemos julgar apressadamente as grandes coisas.

48) O arco tem por nome a vida, e por obra a morte. 

49) Um vale aos meus olhos dez mil, se é o melhor. 

49a) Descemos e não descemos nos mesmos rios; somos e não somos. 

50) (Heráclito afirma a unidade de todas as coisas: do separado e do não separado, do gerado e do não gerado, do mortal e do imortal, do Logos e do eterno, do pai e do filho, de Deus e da injustiça). É sábio que os que ouviram, não a mim, mas ao Logos, reconheçam que todas as coisas são um. 

51) Eles não compreendem como, separando-se podem harmonizar-se: harmonia de forças contrárias, como o arco e a lira. 

52) O tempo é uma criança que brinca, movendo as pedras do jogo para lá e para cá; governo de criança. 

53) A guerra é o pai de todas as coisas e de todas o rei; de uns fez deuses, de outros, homens; de uns, escravos, de outros, homens livres. 

54) A harmonia invisível é mais forte que a visível. 

55) Prefiro tudo aquilo que se pode ver, ouvir e entender. 

56) Os homens se enganam no conhecimento das coisas visíveis, como Homero, o mais sábio dos helenos. Pois também àqueles enganavam os jovens, quando catavam piolhos e diziam: tudo o que vimos e pegamos, nós abandonamos; tudo o que não vimos nem pegamos, levamos conosco. 

57) A maioria tem por mestre Hesíodo. Estão convictos ser o que mais sabe – ele, que nem sabia distinguir o dia da noite. Pois é uma e a mesma coisa. 

58) (Bem e mal são uma e a mesma coisa). Os médicos cortam, queimam (torturam de todos os modos os doentes, exigem) um salário, ainda que nada mereçam, fazendo(lhes) um bem semelhante (à doença). 

59) O caminho da espiral sem fim é reto e curvo, é um e o mesmo. 

60) O caminho para baixo e o caminho para cima é um e o mesmo. 

61) O mar: a água mais pura e a mais abominável: aos peixes, potável e saudável; aos homens, impotável e prejudicial. 

62) Imortais, mortais; mortais, imortais. A vida destes é a morte daqueles e a vida daqueles a morte destes. 

63) Diante dele (Deus), levantam-se, e despertam vigias dos vivos e dos mortos. 

64) O relâmpago governa o universo. 

65) (Fogo:) carência e abundância. 

66) Pois tudo o fogo, aproximando-se, julgará (e condenará).

67) Deus é dia e noite, inverno e verão, guerra e paz, abundância e fome. Mas toma formas variadas, assim como o fogo, quando misturado com essências, toma o nome segundo o perfume de cada uma delas. 

67a) Assim como a aranha, instalada no centro de sua teia, sente quando uma mosca rompe algum fio (da teia) e por isso acorre rapidamente, quase aflita pelo rompimento do fio, assim a alma do homem, ferida alguma parte do corpo, apressadamente acode, quase indignada pela lesão do corpo, ao qual está ligada firme e harmoniosamente. 

70) (Dizia que as opiniões dos homens são) jogos de crianças. 

71) (Devemos lembrar-nos também do homem) que esquece para onde leva o caminho. 

72) Sobre o Logos, com o qual estão em constante relação (e que governa todas as coisas), estão em desacordo, e as coisas que encontram todos os dias lhes parecem estranhas. 

73) Não se deve agir nem falar como os que dormem. 

75) Os adormecidos, (chama Heráclito, creio eu,) operários e colaboradores nos acontecimentos do cosmos. 

76) O fogo vive a morte da terra e o ar vive a morte do fogo; a água vive a morte do ar e a terra a da água. 

77) Tornar-se úmidas, para as almas, é prazer ou morte. (O prazer consiste no início da vida. E em outro lugar diz:) Nós vivemos a morte delas (das almas) e eles vivem a nossa morte.

78) O espírito do homem não tem conhecimentos, mas o divino tem.

79) O homem é infantil frente à divindade, assim como a criança frente ao homem.

80) É necessário saber que a guerra é o comum; é a justiça, discórdia; e que tudo acontece segundo discórdia e necessidade.

81) Pitágoras ancestral dos charlatães.

82) O mais belo símio é feio comparado ao homem.

83) O mais sábio dos homens, comparado a Deus, parecer-se-á um símio, em sabedoria, beleza e todo o resto.

84a) Movendo-se, descansa (o fogo etéreo do corpo humano).

84b) É cansativo servir e obedecer sempre aos mesmos (senhores).

85) Lutar contra os desejos é difícil. Pois o que exige, compra a alma.

86) (Grande parte do divino) subtrai-se ao conhecimento, por falta de confiança.

87) Um homem tolo assusta-se a cada palavra.

88) Em nós, manifesta-se sempre uma e a mesma coisa: vida e morte, vigília e sono, juventude e velhice. Pois a mudança de um dá o outro e reciprocamente.

89) Para aqueles que estão em estado de vigília, há um mundo único e comum.

90) O fogo se transforma em todas as coisas e todas as coisas se transformam em fogo, assim como se trocam as mercadorias por ouro e o ouro por mercadorias.

91) Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio. Dispersa-se, reúne-se; avança e se retira.

92) A Sibila, que com boca delirante, pronuncia palavras ásperas, secas e sem artifícios, (fazendo-as ressoar durante mil anos). Pois o Deus a inspira.

93) O senhor, cujo oráculo está em Delfos, não fala nem esconde: ele indica.

94) O Sol não ultrapassará os seus limites; se isto acontecer, as Eríneas, auxiliares da Justiça, saberão descobri-lo.

95) Melhor é dissimular sua ignorância. (Isto é difícil no desenfreio e ao beber).

96) Os cadáveres deveriam ser lançados fora como estrume.

97) Os cães ladram àqueles que não conhecem.

98) As almas aspiram o aroma no Hades.

99) Não houvesse o Sol, seria noite, a despeito das demais estrelas.

100) (…) o tempo próprio, que traz todas as coisas.

101) Eu me procurei a mim próprio.

101a) Os olhos são testemunhos mais agudos que os ouvidos.

102) Para Deus tudo é belo e bom e justo; os homens, contudo, julgam umas coisas injustas e outras justas.

103) Na circunferência, o princípio e o fim se confundem.

104) Qual é o seu espírito ou o seu entendimento? Acreditam nos cantores de rua e seu mestre á a massa, pois isto não sabem: “A maioria é má e poucos são os bons.”

106) (Heráclito censura Hesíodo por considerar uns dias bons e outros maus). Por ignorar que a natureza de cada dia é uma e a mesma.

107) Maus testemunhos para os homens são os olhos e os ouvidos, se suas almas são bárbaras.

108) De quantos ouvi as palavras, nenhum chegou a compreender que a sabedoria é distinta de todas as coisas.

110) Não seria melhor para os homens, se lhes acontecesse tudo o que desejam.

111) A doença torna a saúde agradável; o mal, o bem; a fome, a saciedade; a fadiga, o repouso.

112) O bem pensar é a mais alta virtude; e a sabedoria consiste em dizer a verdade e em agir conforme a natureza, ouvindo a sua voz.

113) O pensamento é comum a todos.

114) Os que falam com inteligência devem apoiar-se sobre o comum a todos, como uma cidade sobre as suas leis, e mesmo muito mais. Pois todas as leis humanas nutrem-se de uma única lei divina. Esta domina, tanto quanto quer; basta a todos (e a tudo) e ainda os ultrapassa.

115) À alma pertence o Logos, que se aumenta a si próprio.

116) A todos os homens é permitido o conhecimento de si mesmos e o pensamento correto.

117) O homem ébrio titubeia e se deixa conduzir por uma criança, sem saber para onde vai; pois úmida está a sua alma.

118) Brilho seco: alma mais sábia e melhor.

119) O caráter é o destino (daimon) de cada homem.

120) Términos da aurora e da noite: a Ursa e, ao lado oposto à Ursa, o Guardião de Zeus, resplandecente.

121) Os efésios deveriam todos enforcar-se, e suas crianças deveriam abandonar a cidade, pois expulsaram a Hermodoro, o mais valoroso dentre eles, dizendo: “Ninguém dentre nós deve ser o mais valoroso; senão, (que viva) em outro lugar e com outros”.

123) A natureza ama esconder-se.

124) A mais bela harmonia cósmica é semelhante a um monte de coisas atiradas.

125) Mesmo uma bebida se decompõe, se não for agitada.

125a) Que vossa riqueza, efésios, jamais se esgote, para que se manifeste a vossa maldade.

126) O frio torna-se quente, o quente frio, o úmido seco e o seco úmido.



Fonte









A TOCHA E A RAZÃO

A CHAMA COMO EMBLEMA DA RAZÃO 


O fogo, chama ou a tocha, ao longo da história, tem sido um símbolo poderoso e multifacetado, representando desde a iluminação espiritual até o conhecimento e a razão. No contexto filosófico e cultural, a tocha ou a chama é frequentemente associada à luz que dissipa as trevas da ignorância, simbolizando a busca pelo entendimento e pela verdade. Esse simbolismo remonta à antiguidade, onde a tocha era um elemento central em mitos, rituais e representações artísticas.

Tocha (1)

O HOMEM E O FOGO

Embora as evidências do uso de fogo sejam escassas na arqueologia, há provas de material queimado datado de cerca de 1,5 milhão de anos atrás, afirma o artigo de John Gowlett (2016) publicado no  “Philosophical Transactions of the Royal Society”. Assim como pesquisadores do Museu Nacional de História Natural Smithsonian, em Washington D.C., nos Estados Unidos, afirmam que a prática de cozinhar pode datar de há mais de 1,5 milhões de anos. No entanto, as primeiras lareiras ou fogões registrados têm cerca de 790 mil anos. Uma consulta na Enciclopédia Britannica (plataforma de dados voltada para a educação do Reino Unido) relata que as evidências indicam que a primeira utilização controlada do fogo ocorreu há pouco mais de 1,4 milhão de anos. Todavia, a Enciclopédia afirma que somente a partir de 7000 a.C. é que os humanos do período Neolítico desenvolveram técnicas para produzir fogo usando ferramentas produtoras de faíscas e fogo a partir da fricção (através do atrito de dois corpos combustíveis ou objetos orgânicos). Gowlett (2016) afirma que, apesar dos dados disponíveis,  ainda há muito a ser estudado e descoberto sobre quando e por que o fogo foi utilizado pela primeira vez.

Almeida (2015) afirma que Heráclito de Éfeso (que viveu entre os anos 540 e 480 a.C.), um filósofo pré-socrático preocupado, em identificar um único princípio explicativo subjacente a todo o cosmos, propôs o fogo como o elemento do qual tudo se originou e ao qual tudo retornará, num processo infinito de desenvolvimento e de eterno retorno. O fogo era e é, na religião, um princípio de purificação, ou de destruição e de geração de poder, ou até mesmo um elemento identificado como uma das divindades do panteão. 
O próprio Zeus, rei de todos os deuses, porta um nome cuja etimologia indica a palavra Dyeus, que provavelmente significava “luz”, “brilho”, “luminosidade”, “dia” ou “céu”. Por isto, também os pitagóricos, alguns anos antes de Heráclito, acreditavam que a alma, que tinha origem celestial, era um princípio ígneo, uma partícula do éter que ilumina o fogo divino (1). E Oliveira (2017) nos lembra que “no pensamento ocidental, a escuridão, a sombra e a cor preta assumiram representações simbólicas do mal, da desgraça, da perdição e da morte”; ora, por simetria, o oposto é o bem, a graça, a salvação e a vida. Eis as imagens associadas ao fogo, a chama, a luz. 

Uma  conceituação presente e comum em quase todas as mitologias é a coincidência de opostos, ou coincidentia oppositorum em latim, ou qualidades contraditórias, é a ambivalência da divindade. É uma ideia que aparece em várias tradições filosóficas, espirituais e místico-religiosas. 

O filósofo grego Heraclito usava o termo enantiodromia para se referir à coincidência dos opostos. A palavra “enantiodromia” foi aparentemente cunhada por Stobaeus, Joannes Stobaeus, grego antigo: Ἰωάννης ὁ Στοβαῖος; que viveu no século V d.C., de cidade de Stobi, na Macedônia, foi o compilador de uma valiosa série de extratos de autores gregos. Apesar de Stobaeus supostamente ter cunhado a palavra, o conceito também está implícito nos escritos de Heráclito mil anos antes. 

Heráclito formulou-o, Panta rhei, πάντα ρεί,  tudo flui, muda e se transforma no seu oposto. O calor vira frio, o dia vira noite, o verão vira inverno, a vida vira morte. Entramos no mesmo rio e ainda assim não somos os mesmos; nós somos e não somos. Depois disso, também é impossível determinar finalmente o que é bom e o que é mau. E qualquer julgamento sobre isso é apenas uma ilusão.

Da vida nasce a morte, da morte a vida, da juventude a velhice, da velhice a juventude, do sono, vigília e da vigília, sono, a corrente de gerar e perecer nunca para. (Zeller. Die Philosophie der Griechen. I. 1856, pág. 456,2​.

O próprio Heráclito expressará essa ideia da seguinte maneira:

A natureza também tende ao contrário, e é disto e não do idêntico que obtém o acorde. (Diels. Die Fragmente der Vorsokratiker. 1912).

No fragmento DK 126, por exemplo, Heráclito diz: “coisas frias esquentam, coisas quentes esfriam, coisas úmidas secam e coisas ressecadas ficam úmidas.” O conceito também parece estar implícito em outros de seus ditos, como “a guerra é o pai de todos, o rei de todos” (fr. 53), “eles não sabem que o que difere/oposto concorda consigo mesmo; a harmonia é reflexiva (παλίντροπος, palintropos, usado para um arco composto, ou “em tensão reflexiva”), como o arco e a lira” (fr. 51). Nesses trechos e em outros, a ideia da coincidência dos opostos é claramente articulada no estilo de enigma aforismático característico de Heráclito, assim como o movimento dinâmico de vai e vem entre os dois, gerado especialmente pela oposição e pelo conflito.

A palavra usada por Heráclito foi Enantiodromia, do grego, ἐναντιοδρομία, de ἐναντίος, enantios, opostos e δρόμος, dromos, corrida, pista de corrida. Heráclito exemplifica com um arco e flecha, em que ao puxar a corda do arco em uma direção a flecha é lançada na direção oposta, ou com um objeto que quanto mais forte é atirado, lançado para cima, mais forte é o impacto que causa ao retornar. Assim, o retorno do oposto da força seria uma lei natural do mundo.

Assim, Deus é compreendido como luz e trevas, bem e mal. Nas mitologias, a compreensão é que o princípio do mal é o lado oposto do princípio do bem, a sombra. 

A sombra é, naturalmente, aquilo que está excluído da luz. Jung (1972, p. 155) dirá que “o lado claro representa o calor, o seco, o princípio do fogo, o sul; o lado escuro é o princípio frio, negro, úmido, o norte”.
Estas representações simbólicas compreendem os estilos de sensibilidade, “ou seja, o conjunto das imagens e relações de imagens que constitui o capital pensado do Homo sapiens (...) o grande denominador fundamental onde se vêm encontrar todas as criações do pensamento humano”.
Inicialmente, a pessoa tem apenas uma visão caótica, não-diferenciada, de si mesma. Com o desenvolvimento dos lados bom e mau vão-se distinguindo gradualmente um do outro. Em geral, a pessoa reprime o lado mau, provocando o crescimento de uma sombra em seu inconsciente, levando Munanga (1998, p. 56) afirmar que “o racista projeta na vítima a sua própria agressividade”, podemos dizer: o seu lado obscuro, a sua falta de luz, a sua falta de razão. A luz, então, e por extensão a chama, o fogo, a tocha, representa a centelha de tudo o que é positivo, ordenado e racional. 



Na mitologia grega, por exemplo, a tocha está ligada à figura do Titã Prometeu, que roubou o fogo dos deuses para entregá-lo aos humanos. O fogo, nesse contexto, não era apenas uma fonte de calor e sobrevivência, mas também um símbolo do conhecimento e da capacidade humana de transformar o mundo através da razão. Prometeu, ao desafiar os deuses, tornou-se um ícone da rebeldia intelectual, da busca pelo progresso, da empatia e da cooperação.

No Iluminismo, movimento filosófico e cultural do século XVIII, a tocha foi retomada como um emblema da razão e da ciência. Filósofos como Voltaire, Rousseau e Kant defendiam a luz da razão como o antídoto para a superstição, o dogma e a tirania. A tocha, nesse período, passou a representar a capacidade humana de questionar, investigar e compreender o mundo de forma crítica e autônoma. 

A famosa pintura “A Liberdade Guiando o Povo”, de Eugène Delacroix (abaixo), embora não retrate diretamente uma tocha, captura o espírito de iluminação e libertação que o símbolo carrega. 


Ferdinand Victor Eugène Delacroix (1798 - 1863).
Delacroix retratou a Liberdade, como figura alegórica de uma deusa e como uma robusta mulher do povo. O povo onde todos são iguais. O monte de cadáveres funciona como uma espécie de pedestal, do qual a Liberdade se lança, descalça e com o peito desnudo, desvelado, da tela para o espaço do espectador. A meu ver a mãe e a origem da liberdade é a igualdade de todos, é da igualdade que nasce a liberdade. A liberdade usa o barrete frígio (território central da Anatolia, Türkiye atual) que se tornara símbolo da liberdade. Ela segura pelo mastro uma bandeira tricolor, que ocupa o eixo médio da tela.

A DEUSA ATHENA

Além de tudo isso a tocha é um elemento central em cerimônias e eventos que celebram o conhecimento e a união entre os povos. Um exemplo notável é a Tocha Olímpica, que, desde os Jogos da Grécia Antiga, simboliza a paz, a união e a excelência humana. A chama que percorre o mundo antes de cada edição dos Jogos Olímpicos é um lembrete da capacidade humana de superar limites e buscar a harmonia entre os povos através do esforço coletivo. 
Assim, a deusa Atena também pode ser evocada na luz que emana da chama da tocha, sendo a luz o emblema da razão, do conhecimento, da estratégia e diplomacia, atributos por excelência da Deusa. 

Na literatura e na arte, a tocha também aparece como uma metáfora para a transmissão do conhecimento. A ideia de “passar a tocha” sugere a continuidade do aprendizado e a responsabilidade de cada geração em preservar e expandir o saber acumulado. Essa imagem reforça a noção de que a razão e o conhecimento são bens preciosos que devem ser cultivados e compartilhados.

Segundo Magalhães (2015), em seu artigo para “O Globo”,a chama acompanha os Jogos Olímpicos desde a antiguidade. Mas, curiosamente, a Grécia antiga jamais organizou uma competição antecedida pelo revezamento de tochas, como ocorre na Era Moderna desde Berlim, em 1936.

Segundo a mitologia grega, o primeiro portador da chama foi o Titã Prometeu, que roubou o fogo de Zeus para entregá-lo à humanidade. Zeus era o patriarca dos deuses do Olimpo. Como vingança, ele acorrentou Prometeu ao Monte Cáucaso, onde deveria permanecer por 30 mil anos. Como parte do castigo, Zeus enviava uma águia todos os dias para bicar o fígado de Prometeu. O titã acabou sendo libertado por Hércules.(Magalhães, 2015)

O mito fez com que o fogo ganhasse status de elemento sagrado, e esta é a razão pela qual tochas eram mantidas acesas nos templos. Em Olímpia, onde eram disputadas as Olimpíadas da Antiguidade, uma chama ficava acesa, e sacrifícios eram feitos em honra a Zeus, no templo de Hera. O competidor que ganhasse uma corrida até o local onde se encontravam os sacerdotes recebia como prêmio o direito de transportar a tocha, e acender a chama do altar do sacrifício. (Magalhães, 2015)

Embora não houvesse um revezamento de tochas nas Olimpíadas da Antiguidade, que começaram em 776 a.C., a troca de condutores ocorria em festas religiosas, principalmente nos eventos em homenagem a deusa Atena, quando havia corridas de revezamento com o objeto

As provas cobriam um percurso de mil metros, entre a muralha da Acrópole e o altar de Prometeu. Os competidores se posicionavam em cinco grupos de 40 pessoas, cada um. (Magalhães, 2015). “Postados a uma distância de 25 metros um do outro, o desafio era correr com uma tocha acesa e passá-la ao companheiro de revezamento sem que ela se apagasse. A vitória pertencia ao grupo cujo último corredor chegasse primeiro ao altar com a tocha acesa”, explica o estudo do Departamento de Linguística, disciplina de Língua e Literatura Grega da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp, de Araraquara (SP).

Nas Olimpíadas modernas, o uso de tocha foi retomado nos Jogos de Amsterdã (1928). Mas, só em 1936 (Berlim), as chamas usadas na pira olímpica começaram a vir da Grécia. A cerimônia de acendimento atual conta com atrizes vestidas de sacerdotisas gregas, numa tentativa de reproduzir as cerimônias da antiguidade.


A chama sagrada da tocha olímpica é acesa em frente as ruínas do templo de Hera.

A BUSCA PELA CHAMA PURA

A chama é acesa em frente às ruínas do templo de Hera. O objetivo é obter uma chama considerada “pura”. Uma “sacerdotisa” coloca uma tocha num espelho parabólico que concentra raios de luz do sol até que as chamas sejam acesas, anunciando a realização de uma nova edição das Olimpíadas. As demais chamas são colocadas em lanternas. (Magalhães, 2015)

Em seguida, a chama é transferida para uma urna, que é levada até o local do antigo estádio. Aí, a chama é usada para acender a tocha olímpica, transportada pelo atleta no primeiro percurso, que conduzirá a chama ao longo do trajeto até o estádio onde se realizam os Jogos. (Magalhães, 2015)

O francês Pierre de Frédy (1863-1937), conhecido como Barão de Coubertin, entrou para a história ao conceber os princípios dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, participando da organização da primeira edição em Atenas (1896). Mas na história do movimento olímpico moderno existem muitos outros personagens que ajudaram a transformar o evento num grande espetáculo, como a cerimônia de revezamento da tocha. Os conceitos para a criação do revezamento têm vários responsáveis. Entre esses personagens, encontram-se o arquiteto holandês Jan Wills (1891-1972) e o alemão Carl Diem (1882-1962). (Magalhães, 2015)

Ao conceber o estádio olímpico de Amsterdã (em funcionamento até hoje) para as Olimpíadas de 1928, Wills resolveu construir a pira para manter uma chama acesa em referência ao evento. A pira também foi desenhada por ele, tendo sido acesa na cerimônia de abertura e apagada no encerramento da festa. Na época, um funcionário da empresa de eletricidade de Amsterdã foi até Olímpia buscar a chama para acendê-la no estádio. (Magalhães, 2015)

ACENDIMENTO DA TOCHA

Ainda não havia um programa de revezamento da tocha. Em 1932, durante os Jogos de Los Angeles, uma tocha também foi acesa no Estádio Olímpico, mas seguindo a mesma concepção da edição de Amsterdã. No encerramento, foi lembrada uma citação do Barão de Coubertin: “Que a tocha olímpica siga o seu curso através dos tempos para o bem da humanidade cada vez mais ardente, corajosa e pura”. (Magalhães, 2015)

No mito grego, Prometeu roubou o fogo de Zeus e o deu aos humanos. Esse ato desafiou a autoridade de Zeus, rei dos deuses, que castigou Prometeu, exemplarmente. 
Como Prometeu roubou o fogo? 
Prometeu invadiu a oficina de Hefesto e Atena no Monte Olimpo, esperou que Hélios, o deus do Sol, surgisse no horizonte acendeu uma tocha no calor do carro do Sol.
Desceu o monte e levou o fogo aos humanos.

Como Zeus castigou Prometeu?
Ordenou que Hefesto pregasse Prometeu ao monte Cáucaso.
Mandou uma águia para devorar o fígado de Prometeu, que tinha a capacidade de se regenerar a cada noite.

O que o fogo trouxe aos humanos? 
A luz da civilização e da esperança.
A possibilidade de moldar os metais em ferramentas e utensílios. A possibilidade de ler a noite e em locais escuros. A possibilidade de criar armas mais perigosas e letais. 
A possibilidade de criar vasos para carregar água.
A possibilidade de cozinhar e assar a comida.
A possibilidade de aquecer-se à beira das chamas e afugentar predadores. 

O que o mito de Prometeu representa?
O mito de Prometeu representa a sabedoria humana conquistada pelo trabalho, pela dor e sofrimento.

Em resumo, a tocha, como símbolo da razão, encapsula a jornada humana em direção à iluminação intelectual e moral. Ela representa a luta contra a ignorância, a defesa da liberdade de pensamento e a crença no poder da razão para transformar indivíduos e sociedades. Seja na mitologia, na filosofia ou na cultura contemporânea, a tocha continua a brilhar como um farol que guia a humanidade em sua busca pela verdade, pela justiça, pela democracia.



Fonte


1. ALMEIDA. João José R.L. de. A luz como metáfora na Teologia e na Filosofia. Cienc. Cult. vol.67 no.3 São Paulo July/Sept. 2015.

2. HESÍODO. Teogonia: A Origem dos Deuses. Tradução de Jaa Torrano. São Paulo: Iluminuras, 1995. 

2. KANT, Immanuel. Resposta à Pergunta: O Que É o Iluminismo?. Tradução de Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 1985. 

3. DELACROIX, Eugène. A Liberdade Guiando o Povo. Pintura a óleo, 1830. Museu do Louvre, Paris. 

4. COURIER, Jean-Pierre. A Tocha Olímpica: História e Significado. Paris: Editions du Sport, 2008. 

5. VOLTAIRE. Cândido ou O Otimismo. Tradução de Paulo Neves. Porto Alegre: L&PM, 2009. 

6. OLIVEIRA. J. Moreira de. A LUZ CONTRA AS TREVAS: O MAL NAS MITOLOGIAS COMO RAIZ SIMBÓLICA E IMAGINÁRIA DO ETNOCENTRISMO. Revista Memorare, Tubarão, SC, v. 4, n. 2 esp. dossiê II, p.138-164 maio/ago. 2017.








13 março 2025

BIOLOGIA DO SEXO ANATÔMICO

I. BIOLOGIA DO SEXO ANATÔMICO 


É um fato científico que os seres humanos vêm em duas variedades, XX para fêmeas e XY para machos.
No cromossomo Y está presente o fator de determinação sexual: o gene SRY. Este gene de apenas um éxon desencadeia uma cascata de processos que envolve muitos outros genes, e sua expressão pode ser detectada ainda no período embrionário. 
Em alguns casos, nessa orquestra de genes sincronizados, podem ocorrer divergências na determinação ou na diferenciação sexual, antes chamadas de “anomalias da diferenciação sexual”, “intersexo”, “disgenesia gonadal” ou “sexo revertido”, termos que nos dias de hoje tendem a ser substituídos por “diferenciação sexual diferente”. 

Gene SRY (Gene da região determinante do sexo do cromossomo Y), OMIM 480000. O gene SRY humano está localizado próximo à região pseudoautossomal do braço curto do cromossomo Y (Yp 11.3). É constituído por um exon único e codifica uma proteína de 204 aminoácidos. 
A proteína SRY possui um domínio central de ligação ao DNA denominado HMG box homólogo ao núcleo de ligação das proteínas nucleares da alta mobilidade.(Domenice et all s/d).

A presença do cromossomo Y é reconhecida como o fator determinante do desenvolvimento gonadal masculino em humanos desde a década de 50, quando as técnicas de citogenética para o estudo das alterações cromossômicas começaram a ser utilizadas. 

A identificação do gene SRY, no braço curto do cromossomo Y, no início da década de 1990, permitiu o esclarecimento de uma importante etapa no processo de determinação da gônada embrionária masculina.

O gene SRY age como um indutor na determinação sexual masculina. A sua expressão nas células somáticas da crista genital precede os primeiros sinais do desenvolvimento testicular. O desenvolvimento do testículo inicia-se com a transformação dos precursores das células de suporte em células de Sertoli, as quais vão direcionar o desenvolvimento das demais células da gônada. 
Assim, na vizinhança das células de Sertoli os precursores das células esteróidicas desenvolvem-se em células de Leydig e as células germinativas em espermatogônias.

Na diferenciação sexual o indivíduo será masculino (macho) biológica e anatomicamente, ou feminino quando: 

1. O indivíduo pode nascer aparentando ser do sexo feminino, mas ter uma deficiência de 5-alfa redutase e desenvolver um pênis aos 12 anos de idade. Do ponto de vista da medicina e da bioquímica, essa condição é conhecida como “deficiência de 5-alfa redutase”.

A deficiência de 5α-redutase tipo 2 é uma desordem autossômica recessiva resultante de mutações diversas no gene SRDSA2, que estão associadas a diferentes fenótipos. 
Indivíduos com deficiência de 5α-redutase tipo 2, apesar de serem 46, XY, apresentam uma genitália externa que pode manifestar um padrão parcialmente virilizado, dependendo do grau de deficiência (Berne et al, 2004), sendo ainda possível manifestar uma genitália masculina sem sinais clínicos graves de alteração (Hackel et al., 2005). 
O fenótipo apresentado pelos neonatos com deficiência de 5α-redutase pode ser indistinguível daquele expresso em um paciente com síndrome de insensibilidade parcial andrógenos ou deficiência da 17ß-hidroxiesteroidedesidrogenase 3 (HSD173) (Cheon, 2011), portanto, deve-se sempre pensar em diagnóstico diferencial.
As mulheres 46XX, homozigotas para mutações em SRD5A2 são minimamente afetadas e manifestam níveis baixos de DHT, menos crescimento de pelos dependente de andrógenos, e fertilidade normal ou elevada. 
Homens 46XY, heterozigotos apresentam desenvolvimento normal da genitália externa (Houk et al., 2005).
Devido à ausência do diagnóstico precoce, portadores dessa DDS, 46 XY são frequentemente designados como do sexo feminino ao nascer, mas as alterações hormonais que ocorrem na puberdade ocasiona a virilização, com mudanças comportamentais e no desenvolvimento de algumas características masculinas, nesse momento são muitos os relatos da ocorrência de mudança no sexo psicossocial. 
Este acontecimento, associado à ausência da menarca, leva à procura pela família do paciente por serviços de saúde, dando início a uma sequência de eventos que culminarão no diagnóstico da deficiência de 5α-redutase. (Cardoso, 2016).


2. A pessoa pode nascer legalmente do sexo masculino com um cromossomo X e um Y, mas seu corpo é insensível aos hormônios andrógenos produzidos pelas gonadas, dessa forma você aparentará ser do sexo feminino. A síndrome de insensibilidade aos andrógenos é uma condição que afeta o desenvolvimento sexual antes do nascimento e durante a puberdade.

3. Você pode nascer legalmente do sexo masculino com um cromossomo X e um Y, e ter um pênis e testículos, mas também pode ter um útero e trompas de falópio. Esta é outra forma de síndrome de insensibilidade aos andrógenos. 

A síndrome de insensibilidade androgênica (AIS) ocorre quando alguém é geneticamente masculino, mas é insensível a andrógenos (hormônios sexuais masculinos). Isso significa que a pessoa tem cromossomos sexuais masculinos (um cromossomo X e um Y), mas pode ter genitais femininos.

Existem três tipos de AIS:

Síndrome de insensibilidade androgênica completa (CAIS)
A genitália externa de uma pessoa parece feminina. Mas ela não tem órgãos sexuais femininos (nem ovários, trompas de falópio ou útero). Pessoas com CAIS são frequentemente criadas como meninas.

Síndrome de insensibilidade parcial aos andrógenos (PAIS)
Os órgãos genitais externos de uma pessoa podem parecer parcialmente (não totalmente) desenvolvidos como masculinos ou femininos ou podem não ser claramente um ou outro. Pessoas com PAIS são frequentemente criadas como meninos, mas nem sempre.

Síndrome de insensibilidade androgênica leve (MAIS)
Os genitais de uma pessoa parecem masculinos, mas geralmente são inférteis. Alguns especialistas consideram MAIS um tipo de PAIS.


4. Você pode nascer “legalmente” do sexo masculino (estruturas anormais) com um cromossomo X e um Y, mas o seu cromossomo Y está faltando o gene SRY, o que lhe dá um corpo feminino. Esta é uma condição conhecida como síndrome de Swyer.

A Síndrome de Swyer, também conhecida como Disgenesia Gonadal 46,XY, é uma condição genética em que indivíduos com cariótipo 46,XY apresentam desenvolvimento gonadal anormal, resultando em gônadas disfuncionais (estrias gonadais) em vez de testículos funcionais. Aqui estão as principais características dessa síndrome:

I. Desenvolvimento Gonadal Anormal
As gônadas não se desenvolvem em testículos funcionais, mas sim em estrias gonadais, que são tecidos fibrosos e não produzem hormônios sexuais adequadamente.

II. Genitália Externa Feminina
Indivíduos com Síndrome de Swyer geralmente têm genitália externa feminina, pois a falta de produção de testosterona e hormônio anti-Mülleriano (AMH) durante o desenvolvimento fetal resulta em um fenótipo feminino.

III. Genitália Interna
Estruturas internas como útero e trompas de Falópio estão presentes, mas as gônadas são disfuncionais.

IV. Falta de Puberdade Espontânea
Devido à disfunção gonadal, não há produção de hormônios sexuais (estrogênio ou testosterona), o que resulta em ausência de puberdade espontânea. Isso leva a amenorreia primária (ausência de menstruação) e falta de desenvolvimento de características sexuais secundárias.

V. Infertilidade
A infertilidade é comum devido à ausência de gônadas funcionais.

VI. Risco de Tumores Gonadais
As estrias gonadais têm um risco aumentado de desenvolver tumores, como gonadoblastomas ou disgerminomas, especialmente se contiverem tecido Y. Portanto, a remoção cirúrgica das gônadas é frequentemente recomendada.

VII. Estatura Normal ou Alta
Indivíduos com Síndrome de Swyer podem ter estatura normal ou alta, já que o cromossomo Y está presente, mas não há produção significativa de testosterona para induzir um surto de crescimento masculino.

VIII. Identidade de Gênero
A maioria dos indivíduos com Síndrome de Swyer se identifica como mulheres, já que a genitália externa é feminina e o desenvolvimento ocorre nessa direção.

IX. Diagnóstico
O diagnóstico é feito por meio de análise cromossômica (cariótipo 46,XY), exames hormonais (baixos níveis de testosterona e estrogênio) e ultrassonografia pélvica (que mostra a presença de útero e estrias gonadais).

X. Tratamento
O tratamento geralmente inclui terapia hormonal com estrogênio para induzir a puberdade e manter características sexuais secundárias. 
A remoção cirúrgica das gônadas é recomendada para reduzir o risco de tumores.

A Síndrome de Swyer é uma condição rara, mas o diagnóstico precoce e o manejo adequado são essenciais para garantir a saúde física e emocional dos indivíduos afetados.
O arco-íris que lindo

5. Distúrbio de Diferenciação Sexual; 46, XY.
✓ Alteração no desenvolvimento e função testicular, ou na síntese ou ação da testosterona;

✓Síndrome de Swyer (46XY); paciente tem testículos, desenvolve estruturas femininas, porém anormais, além de infantilismo;

✓Síndrome de Morris (46XY); paciente tem testículos, produz testosterona, porém não possui receptores de testosterona, possui genitália externa feminina e não tem pelos; também chamada de Testículos Feminilizantes, Pseudo-hermafroditismo Masculino ou Insensibilidade Completa aos Androgênios.


6. O paciente pode nascer legalmente do sexo masculino, com dois cromossomos X (46XX SRY Negativo), e possuir genitália madura masculina, porém apresenta infertilidade. 

A masculinidade XX é uma síndrome rara com uma frequência de 1 em 20.000 a 25.000 homens. Os homens XX existem em diferentes categorias clínicas, com genitália ambígua ou genitália masculina parcialmente a totalmente madura, em combinação com masculinização completa ou incompleta. Estudos  relatam casos de homem XX negativo para SRY com masculinização completa, mas infertilidade. O paciente apresenta genitália masculina totalmente madura, com testículos descidos, porém pequenos, e nenhum sinal de subvirilização. 
A análise por PCR para os genes SRY, ZFY, Amelogenina, AZFa, AZFb, AZFc, um par de primers da região heterocromática e seis Y-STRs mostrou a ausência de qualquer material derivado do cromossomo Y. A ausência do gene SRY foi confirmada por três PCRs independentes para cada um dos dois conjuntos de primers que cobrem um comprimento crescente do gene. A análise de sequência das regiões codificadoras dos genes SOX9 e DAX1 não revelou nenhuma mutação. 
O ensaio de PCR em tempo real revelou um número normal de cópias para o gene SOX9. A análise de microssatélites não mostrou evidências de duplicação em 17q (gene SOX9) ou 22q. A genotipagem com X-STRs descartou a possibilidade de qualquer deleção no cromossomo X. 
O desenvolvimento do fenótipo masculino na ausência do SRY provavelmente resultou de uma mutação de perda de função em algum gene determinante do sexo ainda desconhecido, que normalmente inibe a via masculina, ou de uma mutação de ganho de função em um gene a jusante do SRY na via masculina.

7. A pessoa nasce com fenótipo do sexo masculino 46XXY, porém  existe em suas células dois cromossomos femininos, e um único cromossomo Y o que lhe dá um corpo masculino. 

Essa condição é conhecida como síndrome de Klinefelter e é a anomalia cromossômica sexual mais comum. A prevalência relatada varia e a condição provavelmente é subdiagnosticada (um estudo de banco de dados nacional brasileiro relatou uma prevalência de 6/10.000 homens nascidos vivos). Os cromossomos X extras são de origem materna em 60% dos casos. As células germinativas não sobrevivem nos testículos, causando diminuição de esperma e andrógenos.
Os meninos afetados tendem a ser altos, com comprimento de pernas e braços desproporcionados. 
Os testículos são geralmente pequenos e firmes, e aproximadamente 30% desenvolvem ginecomastia.


8. O paciente pode nascer fenotipicamente do sexo feminino com dois cromossomos X, mas sua glândula adrenal não produz cortisol suficiente, e seu corpo se desenvolve como masculino. Esta é uma condição conhecida como hipoplasia adrenal congênita ligada ao X e afeta o desenvolvimento das glândulas adrenais.

9. O paciente pode nascer com ambos tipos de cromossomos, XX e XY, o que é chamado quimerismo. 

(11/III/2025)


II. DIÁRIAS IMAGENS