JOKER
JOKER (interpretado por JOAQUIN PHOENIX)
CORINGA
O PRODUTO DE UM SISTEMA NEOLIBERAL E NIILISTA, ONDE O SER HUMANO SÓ RECEBE O SUFICIENTE PARA NÃO MORRER E PARA ENRIQUECER UMA ELITE PERVERSA E DEMAGOGA.
História incômoda e angustiante.
O filme revolta e angustia, porém é um filme que mostra a realidade no mundo atual do capitalismo de máxima acumulação. O Filme te dá um soco no estômago. E como espectador nem sempre ficamos a vontade com esse soco.
O filme Joker, “Coringa”, estrelado por Joaquin Phoenix e dirigido por Todd Philips, mostra uma cidade exatamente como a maioria das cidades em todos os países do mundo atualmente, desde uma metrópole do país mais rico a uma cidade media em um pais pobre. Esta cidade onde uma elite que governa resolveu esquecer a classe trabalhadora, virar as costas para os menos favorecidos e acumular riquezas para si mesma. Assim, os subempregados e os trabalhadores precarizados, não tem nenhuma seguridade social, nem no que concerne à saúde nem a aposentadoria. Na prática, sobrevivem um dia após o outro fazendo bicos nas horas de folga de seu trabalho; que por leis duras e reformas que só beneficiam os ricos, permitem ao empregador pagar menos do que o mínimo para seus empregados. Esse sistema só aumenta a desigualdade social e aprofunda o fosso entre aqueles que vivem da especulação do capital, aplicando na bolsa, para que dinheiro gere mais dinheiro, e não empregos e serviços.
O filme mostra para o espectador como a subjetividade pode ser moldada pela sociedade e como o cinema vê a história do Coringa. Essa história alternativa está bem distante do retrato do vilão das HQs criado pelo cartunista Jerry Robinson em 1940, embora fiel em muitos aspectos. Assim, é assustador por colocar cada um de nós no papel de Arthur Fleck, o Coringa. Ele está muito próximo de todos nós e por isso angustia e tira nosso chão. Nós somos o coringa antes de sermos o Coringa vilão.
O filme rompe com o estereótipo que vem sendo mostrado por Hollywood desde sempre, onde o "Bem" o herói é limpo, branco, luminoso, honesto, puro, sem problemas na vida, indefectível em oposição com o “Mal” ou o vilão sujo, negro, obscuro, trevoso, desonesto e virtuoso.
Ele acaba com o dualismo do bem e o mal, incompatívei. Acaba com essa visão maniqueísta da origem e desenvolvimento do ser humano no qual ou vc nasce numa família branca, heteronormativa, de classe média alta ou burguesa ou vc nasce numa família pobre, preta da periferia.
Jocker é uma figura humana. Ele é você, ele sou eu, ele somos todos nós que nos constituímos e nos desenvolvemos numa sociedade dominada pelo poder do capital e pela exploração radical e desumana do ser humano por empresas que sequer veem o humano em nós. Onde a exploração e a erosão dos diretos mais básicos nos desumaniza.
O espectador é levado a compreender o Coringa, porque conta sua história humana. Nessa história ficcional que se passa na mente do palhaço, nos mostra um espelho: o palhaço somos nós. Segundo Jessé de Souza, a vida do Coringa é semelhante a vida de "pelo menos" metade da população brasileira, e pelo menos de 20 a 30 por cento dos norte-americanos.
Esses seres humanos vivem num mundo exatamente igual ao descrito no filme, vivem na “Gotham” semelhante em quase tudo com as grandes metrópoles do mundo onde existe alto índice de criminalidade e corrupção, onde não há segurança pública nem sistema de saúde que funcione e que minimize os sofrimento das pessoas.
Os seres humanos, nós todos, somos transformados em cidadãos de segunda categoria que são explorados até a morte por uma elite sanguessuga, escravocrata e sem empatia e que desconhece a alteridade da subjetividade humana.
Entretanto esse sistema é pensado em seus mínimos detalhes desde a década de 1970 no mundo todo, para destruir pessoas, visando apenas o lucro de uns poucos; Um por cento (1%) da população mundial detém mais de 95% de toda a riqueza existente no planeta.
O fosso entre a parcela dos mais ricos e o resto da população aumentou dramaticamente nos últimos 4-5 anos, e continuará aumentando, colocandon a própria democracia em risco.
O ser humano que foi o colocado nessa posição, foi transformado em um ser humano precário, humilhado e abusado de mil maneiras, abusado simbolicamente e jogado no limbo, no lixo da humanidade. Ele se torna um pária, um desalentado e um desajustado.
Nessa sociedade não existe mais organizações que possam dar auxílio ou ajuda direta aos oprimidos pelo sistema.
Há em curso uma campanha organizada para destruir as organizações de base, os sindicatos e os partidos progressistas que pensam o trabalhador em suas necessidades e em sua dignidade.
Ao se tornar um desajustado ele desenvolve um mundo fantasioso, artificial. Quando a vida é muito dura só criando um mundo imaginário para onde se possa fugir e nele se refugiar.
O tempo retratado no filme é o tempo atual, e isso nos causa um estranhamento, já que não distinguimos mais a ficção-fílmica da realidade que vivemos. Esse tempo no qual a acumulação flexível do capital e a alta competitividade leva a um empobrecimento da população como um todo. Onde direitos são expropriados do trabalhador para serem negociados, vendidos de volta como um produto, concentrando o capital no bolso dos banqueiros e seus acionistas. Um tempo em que você é instigado a ser seu próprio empresário, trabalhando em atividades extenuantes por mais de quatorze horas por dia para ganhar menos do que seria necessário para sobreviver dignamente. Esse tempo e esse lugar é o agora e o aqui mesmo, onde um individualismo exacerbado leva as pessoas a passarem por cima das outras, não se importando com mais nada, apenas em sobreviver mais um dia, imaginando que estão melhorando de vida. É o neoliberalismo, que em sua essência é uma espécie de fascismo disfarçado de economia de mercado, já que tem sujeitado não apenas o governo dos países democráticos, mas também todos os aspectos de nosso pensamento, e de nossas vidas. E como todo totalitarismo, ele iniciou com uma distorção na linguagem, todo “corte no orçamento” é explicado como um bem em si, e pensando no “nosso futuro”, como exemplo de modernização, como um modo de assegurar o bem-estar às futuras gerações. O Estado está agora a disposição da economia e suas regras voláteis de acumulação do capital; e não mais a serviço do trabalhador, do povo que o constitui (Cadelli, 2016).
Seguindo o empreendedorismo alardeado por todos os meios de comunicação e por toda a mídia, está um egoísmo e uma profunda crise política e moral, já que os governos não são mais para o bem da nação como um todo, o bem comum, senão para o bem de poucos.
Em meio a discursos políticos mentirosos e enganadores, e da falácia da meritocracia, a elite se perpetua no poder dos Estados nacionais, virando as costas para a população. Manipulando seus representantes para que mesmo a educação não produza mais empatia, nem mobilidade social, já que tem o objetivo de produzir mão de obra barata e dócil.
Assim, o personagem Coringa, desperta um sentimento novo em nós espectadores: em alguns, compaixão; em outros, pesar (Gontijo,2019).
O filme ao contar a origem do Coringa, Arthur Fleck, vivido por Phoenix, um comediante falido, pobre e com a mãe doente necessitando cuidados médicos presenciais, desconsiderado pela sociedade, evitado pelos colegas de trabalho, e assombrado por seus próprios demônios interiores que se originaram do descaso, desprezo e discriminação de uma sociedade egoísta, arrogante, com políticos e gestores corruptos, mostra a transformação do do homem trabalhador em um lobo que age como um predador.
É uma história profunda e perturbadora sobre a transformação de um homem em vilão. Pelo aviltamento do ser humano pelas classes dominantes, pela humilhação de não poder se sustentar nem sustentar sua familia, sem um sistema de saúde que o trate, em sua doença em seus momentos de maior necessidade. E tudo em nome do que? Da austeridade imposta a população, em nome do “saneamento das contas públicas”, imposta às classes mais populares, imposta de cima para baixo pelos representantes eleitos pelo próprio povo, enganado pelo capital. Expropriam o trabalhador de todos os seus direitos e de tudo que definem sua humanidade e seu valor como pessoa humana, e no fim terminam por retirar sua dignidade.
Arthur Fleck ou Happy, apelido irônico, carinhosamente dado à personagem pela mãe, que, inválida devido a sua condição psicológica, não consegue trabalhar tendo que ser cuidada pelo filho. Arthur trabalha num tipo de empresa de palhaços chamada Haha´s, ganhando um salário mínimo. Em sua rotina desvalorizada, ele intercala visitas a hospitais de crianças doentes e faz anúncios na frente de lojas de departamentos ou restaurantes, enfrentando gangues de pivetes e transeuntes indiferentes.
Pobre, sozinho e discriminado, a vida escura de Arthur só ganha cores quando a personagem sonha com o dia em que irá obter sucesso e reconhecimento como comediante (Gontijo,2019).
A paleta de cores do filme é de um verde-azulado escuro, com cores saturadas nas altas luzes. O verde que tradicionalmente representa a natureza, frescor, crescimento e harmonia e na publicidade e propaganda significa a segurança, é usado no filme em seu tom mais fechado e tendendo a um azul escurecido, um verde azulado que nos leva a introspecção e um tipo de tristeza e até náusea.
A mãe do personagem que trabalhou no passado para Thomas Wayne, mas teve que ser despedida por problemas psicológicos, escreve há anos para o seu antigo patrão, que na visão dela, é um homem justo e sensível e saberia se compadecer da situação na qual ela e Arthur se encontram no presente momento. Todavia, a única resposta que recebe é a indiferença e o silêncio da família Wayne.
Assim, Arthur vive nessa atmosfera de pobreza, descaso, humilhação, e discriminação devido a sua saúde mental que se deteriora visivelmente. Ele até porta um cartão plastificado que mostra para as pessoas que diz que ele tem uma condição psicológica que provoca risadas incontroláveis. Sua gargalhada sinistra, mais parece um choro do que um riso de alegria, pois está cheio de mágoa e revolta e invariavelmente termina em lágrimas.
O silêncio as vezes inquietante e desconfortável do filme é muito bem explorado para dar tempo de raciocinarmos, e a pergunta que seguramente vem à mente é: e se o interlocutor do protagonista agisse com mais cordialidade? Se ele encontrasse mais compreensão no mundo? Certamente esse filme não existiria.
Apesar de seu esforço diário de adaptação ao mundo dito normal, e de seu distúrbio que impede de controlar o riso frente a situações embaraçosas, difíceis ou desagradáveis, ninguém nota que ele sofre ou que está no limite do humano.
Apesar de todos esses revezes ele se esforça para ser descontraído e gentil para com as pessoas ao seu redor, ele tenta estabelecer contato e conversar com elas, que, na contramão, optam por repeli-lo por desconfiança e incompreensão. Esse é o produto entregue pela educação neoliberal preconizado pela elite, com cortes verbas não há tempo para ensinar empatia, pressuposto básico de que todo o ser humano social interage e é interdepende do outro. Sobrando apenas o individualismo e o egoísmo.
Quando ele visita pela última vez sua terapeuta e ela dá a triste notícia de que será sua última consulta, pois os gestores fecharão aquela unidade de atendimento, ele pergunta: “como então conseguirei meus medicamentos?”
O que ele fará então? Ela então responde: você alguma vez imaginou que eles pensam em pessoas como você? Que eles se importam se você conseguirá os medicamentos ou não? Ou se importam comigo? “Eles sequer sabiam que eu existia…mas, eu existo. As pessoas estão começando a notar” diz Arthur para a terapeuta. Arthur questiona à terapeuta, expondo a completa incapacidade de interação e comunicação entre as personagens: “Você não ouve o que eu falo, ouve?” A terapeuta confirma ao responder apenas com o aviso de que não poderão continuar com a terapia, pois o governo cortara a verba do projeto, e acrescenta: “eles não dão a mínima para pessoas como você ou como eu”. Ao perguntar, enfim, com quem ele poderia falar, lida diretamente com sua impotência de sobreviver nesse mundo. Apenas ouve a resposta: “eu sinto muito”.
O niilismo resultante do neoliberalismo dispensa o universalismo e os valores humanísticos mais inequívocos: solidariedade, fraternidade, integração, inclusão, alteridades, empatia e respeito por todos e pelas diferenças, não devem mais existir.
No neoliberalismo nenhum dos valores humanistas que moldaram a sociedade até aqui podem ou devem subsistir.
O conceito de serviço público é ridicularizado e degradado, além de menosprezado. O estado não deve oferecer nada. E para que? Para que esses mesmos direitos sejam transformados em mercadorias que serão então comprados pelos trabalhadores; em quem ganha? Os ricos de sempre: os banqueiros e seus acionistas, os milionários como a família Wayne. Nessa cidade desde a década de 1980 a mídia e os governos vêm atacando os sindicatos e destruindo o mínimo de bem estar social que existe.
A morte no metrô. Uma ruptura.
O personagem volta para casa depois de um dia de trabalho na rua, desmotivado, deprimido e triste. Três homens o chutam o xingam o desprezam, como um palhaço ousa rir da piada daqueles três cidadãos de bem?
Três corretores de Wall Street tiram sarro de uma mulher dentro do trem, e ele, nervoso pela situação e tentando mostrar empatia pela mulher agredida, começa a rir sua gargalhada inquietante. Os três se voltam covardemente contra ele o derrubam, o espancam.
Ao conseguir se levantar ele reage atirando contra esses três e de pronto dois caem mortos instantaneamente. Ali ele jogou todo ódio que havia guardado ao longo da vida. E isso o empodera. Ele percebe que a ação dele importa no mundo.
Ali ele percebe que ele produz algo no mundo, ali ele percebe que suas ações importam e ninguém mais vai pisar nele. Ninguém vai mais ridicularizá-lo. Ele se impôs como ser humano que tem direito a vida.
Você se perguntou, o que nos aproxima desse personagem?
O que nos aproxima dele é que ele somente se defendeu desse sistema injusto e excludente. Ele não está matando a toa, ele poupa o anão que sempre tinha sido bom com ele. Ele desenvolve uma nova moralidade.
Abrindo uma interpretação política mais ampla podemos dizer que ele representa uma classe que reage contra tudo que está posto por esse sistema destrutivo. Inicia anonimamente e sem saber, um movimento no qual aderem milhões de pessoas que estão na mesma situação que ele. Que se percebem como palhaços na vida. Sempre humilhados e discriminados durante toda vida e que iniciam a reagir em conjunto.
O outro mesmo ferido consegue sair do trem mas é seguido e alvejado caindo no pé da escada. Esse foi o ponto de ruptura no qual se pode identificar que ele saiu do mundo para adentrar na galeria dos vilões. Ou melhor, a sociedade doente produziu mais um desajustado. Esse é o objetivo do sistema. colocar todos em prisões que trabalharão para enriquecer algum novo explorador que queira gerenciar o cárcere geral.
Um dia, Penny, a mãe de Arthur, pede para ele postar mais uma carta para Thomas Wayne, curioso, ele abre a carta e lê seu conteúdo, nela ela diz que eles estão passando necessidades: ela e Arthur, e nessa carta ela revela que Arthur seria filho do ricaço Thomas Wayne. Seria verdade ou delírio de uma pessoa que sofreu a vida toda com problema de depressão? Não nos é dado essa resposta. Entretanto isso desencadeia em Arthur o desejo de saber sua origem e identidade. A cidade está um caos com a greve dos recolhedores de lixo tudo está tomado por sacos de lixo e ratos além de insetos e doenças, o que só sobrecarrega o sistema, já no limite.
A polícia já está no seu encalço, pois ele teria um revolver, oferecido por um colega palhaço, que só queria vender a arma e viu uma oportunidade.
Mesmo assim Arthur não abandona seu sonho de ser um comediante. Mas o meio do entretenimento não abre as portas e quando abre é para zombar de sua pobreza e de sua condição.
As pessoas ao seu redor vão se revelando maldosas, dissimuladas e oportunistas. A cada dia ele se distancia mais e mais do mundo real. Ele fantasia uma relação com uma vizinha de corredor, onde ela o apoia, e lhe dá carinho nos momentos difíceis.
A mídia na pessoa do Murray Franklin um senhor dono de um show na TV local, transforma a vida das pessoas pobres em diversão, explorando seus desejos em obter sucesso. Ele representa a indústria cultural que transforma a exploração dos pobres em divertimento e este em dinheiro. Divertimento inclusive para os próprios pobres.
Assim, o neoliberalismo é a larga via para se produzir um sem número de palhaços que são explorados toda vida, que levam tiro na cabeça e continuam trabalhando para enriquecer os patrões, que são humilhados pela polícia 24 horas por dia, e mesmo assim, se levantam de madrugada para trabalhar e ganhar sua sobrevivência.
A via que leva aos coringas está em franca expansão no Brasil. Será que nós já não estamos sendo feito de “Joker”, e só falta usarmos uma máscara?
As condições estão dadas, e cabe a nós lutarmos constantemente por um mundo onde todos tenhamos dignidade, onde não sejamos tratados como apenas mais uma força de trabalho que vende sua vida, produzindo riquezas que alguém acumula, aumentando ainda mais o fosso descomunal da desigualdade entre os trabalhadores e os ricos, escravocratas e exploradores.
Bibliografia
QUEM FOI CAROLINA MARIA DE JESUS?
Escritora dá nome a escola em nova série da Globo.
A autora de grande relevância para a literatura nacional travou uma luta contra adversidades sociais e econômicas para ler e escrever
POR CARTACAPITAL 08.10.2019
Estreiou nesta terça-feira 8/set/2019 a nova série da Rede Globo, Segunda Chamada. A obra vai retratar os desafios de quem não conseguiu trilhar uma vida de estudos regular, mas luta para retomá-la na fase adulta, como aluno da Educação de Jovens e Adultos (EJA) na periferia de São Paulo. A trama vai se passar dentro da escola fictícia “Carolina Maria de Jesus”, em homenagem a uma das primeiras escritoras negras do Brasil. De grande relevância para a literatura nacional e autora do best-seller Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada, publicado em 1960, vendido em 40 países e traduzido para 16 idiomas, Carolina travou uma luta contra adversidades sociais e econômicas para aprender a ler e a escrever.
O percurso da autora foi improvável para uma menina negra, favelada e pobre, nascida de pais negros e analfabetos, em uma comunidade rural da cidade de Sacramento-MG, no dia 14 de março de 1914. Filha ilegítima de um homem casado, Carolina sofreu maus tratos ainda na infância. Teve contato com a escola aos sete anos de idade, porque sua mãe a colocou como criada da esposa de um fazendeiro rico. A vida escolar durou dois anos.
No período, a menina aprendeu o básico da língua, como codificar e decodificar as letras e assim, aos poucos, formando palavras, frases, decifrando parágrafos, aprendeu a ler e escrever.
Ela deixa a cidade natal após a morte de sua mãe, em 1937, e tem como destino São Paulo. Aos 33 anos, se muda para a favela do Caniné, zona norte da cidade, desempregada e grávida. No território, construiu sua própria casa juntando pedaços de pau, papelão, lata e madeira. Do catar papelão fez um ofício, de onde tirou o suado dinheiro para criar seus três filhos, o mais velho João José e outros dois, José Carlos e Vera Eunice.
Foi também nos papeis que recolhia que Carolina começou a registrar capítulos de sua vida na favela. Seus relatos de tristeza, emoções e enfrentamentos é que deram origem ao seu primeiro livro, Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada, graças ao apoio do jornalista Audálio Dantas, que foi ao local para fazer uma reportagem sobre o dia a dia em uma favela. Em sua incursão pelo território, conheceu Carolina e seus cadernos de anotações.
Com uma linguagem simples e contundente, a autora descortina os dias em uma favela de São Paulo, com críticas políticas e sociais. Os relatos tiveram que suportar de tudo um pouco. Enquanto alguns tiravam sarro da menina negra que sabia ler e escrever, outros voltavam sua ira contra a garota, justamente por terem sua vida registrada pela observadora.
Após a publicação e o sucesso do primeiro livro, a autora se muda para o bairro de Santana, bairro de classe média da zona norte da capital. Em 1963, publicou, por conta própria, o romance Pedaços de Fome e o livro Provérbios. Seus livros uniram conceitos até então amplamente antagônicos: favela e literatura. Sua narrativa é contestadora, jornalismo de denúncia de uma triste época de exclusão de minorias, foi e é representativa como escritura de mulheres e feminista. Também, como meio de denúncia da desigualdade social e do preconceito racial.
Em 1969, Carolina se muda para Parelheiros, uma região árida da Zona Sul de São Paulo, no pé de uma colina. O local era o mais próximo que Carolina poderia chegar do interior de sua infância sem deixar São Paulo e suas escolas públicas, para as quais seus filhos iam de ônibus.
A escritora faleceu em fevereiro de 1977, aos 62 anos, de insuficiência respiratória. Outras seis obras póstumas foram publicadas após sua morte, compiladas a partir dos cadernos e materiais deixados pela autora. Em 2017, sua história foi registrada por Tom Farias em Carolina – Uma Biografia, publicada pela editora Malê.
ARTE AGORA
ALGUMAS OBRAS MINHAS
Flores
FOTOS E DESENHOS
DESENHO
BAUHAUS 100 ANOS
Escola Bauhaus em Weimar, 1919.
O edifício Bauhaus em Dessau projetado por Walter Gropius. Foi o mais duradouro dos três locais ocupado pela escola Bauhaus (1925–1932).
Reconhecido Patrimônio pela UNESCO
O emblema da Bauhaus, desenhado por Oskar Schlemmer, foi adoptado em 1922.
STAATLICHES BAUHAUS
100 ANOS
12 ABRIL 1919/2019
Escola de Bauhaus foi uma escola de arte alemã fundada na cidade de Weimar, no início do século XX, em 12 de abril de 1919.
Arquitetos, escultores, pintores,... devemos voltar ao trabalho manual...
Estabelecermos, portanto, uma nova irmandade de artesãos, livres daquela arrogância que divide as classes sociais e que procura erguer uma barreira intransponível entre os artesãos e os artistas.
(Walter Gropius)
“Criemos uma nova guilda de artesãos, sem as distinções de classe que erguem uma barreira de arrogância entre o artista e o artesão.”
Ela surgiu com uma proposta de inovação nas artes clássicas modernas e como uma reação não só ao Expressionismo amplamente difundido na época, mas ao modo de como a arquitetura/arte/design eram ensinadas. Na ideia de Walter Gropius ele tensionava unir beleza e funcionalidade em um único projeto. (educamaisbrasil)
BAUHAUS
O nome “Bauhaus” deriva da união das palavras alemãs Bau, construção, e Haus, casa.
Ironicamente, apesar do nome e do facto de o seu fundador ser um arquitecto, a Bauhaus não tinha um departamento de arquitectura nos primeiros anos da sua existência.
Walter Gropius (1883-1969) fundador e diretor da Escola de 1919 a 1928.(1)
As suas propostas e declarações de intenções compartilhavam da ideia de uma necessária reforma do ensino artístico como base para uma posterior transformação da sociedade burguesa da época, de acordo com o pensamento do seu fundador.
A primeira fase (1919-1923) foi idealista e romântica;
A segunda (1923-1925), muito mais racionalista, e na terceira e última fase (1925-1929) alcançou o seu maior reconhecimento, coincidindo com a sua mudança de Weimar para Dessau.
Em 1930, sob a direção de Mies van der Rohe, mudou-se para Berlim, onde mudou completamente a orientação do seu programa de ensino tornando-se mais ao gosto dos fascistas.
Design as a tool for social change
Design como ferramenta de mudança social
Para cumprir com essa proposta, a instituição mesclou ensinamentos na área das artes plásticas, arquitetura, design, tecelagem, metalúrgica, artesanato, etc. Mas, como os objetos desenvolvidos pelos alunos tinham um design mais arrojado, diferente de tudo o que já havia sido exposto na época, Bauhaus se destacou como a primeira escola de design do mundo.
Várias características específicas são identificadas nas formas e formatos da Bauhaus: formas geométricas simples como triângulos círculos, quadrados, retângulos e esferas, sem decorações elaboradas. Edifícios, móveis e fontes tipográficas geralmente apresentam cantos arredondados, às vezes paredes arredondadas ou canos cromados curvos. Alguns edifícios se distinguem por suas características retangulares, por exemplo, sacadas salientes com grades planas e grossas voltadas para a rua e longos bancos de janelas. Alguns contornos podem ser definidos como uma ferramenta para criar uma forma ideal, que é a base do conceito arquitetônico.
Cross disciplinary collaboration
Colaboração interdisciplinar
A frase dita pelo arquiteto norte-americano Louis Sullivan consegue traduzir bem as características da instituição:
A forma segue a função
CARACTERÍSTICAS DA ESCOLA BAUHAUS
1) União da arte, o artesanato e a tecnologia, principalmente por surgir em uma era industrial;
2) Peças, objetos, produtos muito bem elaboradas, pensadas não só na estética, mas principalmente na sua funcionalidade. A ideia era sempre fazer um bom design, produzindo em massa, com preços acessíveis para a todos;
3) Foco na funcionalidade das obras sem perder o conforto, além de nunca deixar o aspecto artístico de lado, resultando em obras que são modernas atemporais;
4) Outro conceito importante era a manualidade, conceito manual para tudo que era produzido.
5) Objetos e produtos (design, artesanato, arte, arquitetura) deviam democráticos.
HISTÓRIA DA BAUHAUS
A Escola de Bauhaus teve início a partir da união de duas escolas já existentes: "A Escola de Artes e Ofício" e a " Belas Artes de Weimar", essa última para o ensino das artes e a primeira para a instrução de ofícios.
A proposta inicial da escola era promover uma integração das artes plásticas com o artesanato, com arquitetura e todas disciplinas que envolviam a criatividade e a criação de produtos, i.e., design.
Do grupo de artistas interessados em realizar esse trabalho, o que mais se destacou, tornando-se fundador do projeto e diretor da escola, foi o seu próprio fundador: o arquiteto
Walter Gropius (1883- 1969).
A escola surgiu logo após a Primeira Guerra Mundial, momento em que o mundo vivia uma fase industrial e o país precisava produzir em escala para atender as necessidades da população.
Após a derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial e o estabelecimento da República de Weimar, um espírito liberal renovado permitiu um aumento da experimentação radical em todas as artes, que havia sido suprimida pelo antigo regime. Muitos alemães com visões de esquerda foram influenciados pela experimentação cultural que se seguiu à Revolução Russa, como o construtivismo.
Tais influências podem ser exageradas: Gropius não compartilhava dessas visões radicais e disse que a Bauhaus era inteiramente apolítica. Apesar disso, floresceu na escola um espírito inovador, progressista, com um viés socialista em grande parte de seu corpo docente e discente.
Tão importante quanto foi a influência do designer inglês do século XIX William Morris (1834–1896), que argumentou que a arte deveria atender às necessidades da sociedade e que não deveria haver distinção entre forma e função. Assim, o estilo Bauhaus, também conhecido como Estilo Internacional, foi marcado pela ausência de ornamentação e pela harmonia entre a função de um objeto ou edifício e seu design.
Diante disso, Gropius buscou estabelecer um vínculo entre artistas, comerciantes (artesãos) e indústrias.
Sob esses aspectos, a Escola de Bauhaus inovou a Arte Moderna, destacando-se como um movimento (Movimento Bauhaus) que demonstrava interesse na produção em escala industrial, mas sem abrir mão da beleza e funcionalidade em cada projeto.
A partir do momento em que estimulou a produção de objetos com prioridade para um resultado final (funcionalismo), a Escola de Bauhaus rompeu com os ensinos clássicos da arte.
Com ela, foi possível aproximar o mundo da arte com o mundo da industrialização, já que na escola os artistas aprendiam de tudo um pouco, desde o desenho do projeto até a sua fabricação final.
A escola focou nos detalhes das artes consideradas "menores”, como a escultura, cerâmica, artesanato, tecelagem, marcenaria e metalúrgica.
Entretanto, a Bauhaus também abriu espaço para cursos de teatro, dança e fotografia. Isso, portanto, foi o que a definiu como um grande centro de apresentação de novas tendências artísticas modernas.
Entre as principais características da Escola de Bauhaus, estão:
• Artesanato integrado ao processo de criação da arte;
• Incentivo ao construtivismo;
• Produção da obra em qualquer escala e para qualquer tipo de público;
• Estímulo ao hábito de pensar, idealizar e projetar o processo produtivo por inteiro;
• Uso de materiais inovadores (madeira, aço, vidro).
Além disso, a Escola de Bauhaus era formada por um grupo bem diversificado de artistas industriais, pintores, engenheiros, arquitetos, artesãos e designers. Juntos, eles trabalharam neste desfio de renovação cultural, em que os projetos poderiam ter formas úteis, mas sem abrir mão da sua estética. O trecho extraído do Manifesto de Bauhaus explica o que foi esse processo de renovação cultural:
Arquitetos, escultores, pintores, todos devemos retornar ao artesanato, pois não existe "arte profissional".
Não há nenhuma diferença essencial entre artista e artesão, o artista é uma elevação do artesão, a graça divina, em raros momentos de luz que estão além de sua vontade, faz florescer inconscientemente obras de arte, entretanto, a base do "saber fazer" é indispensável para todo artista. Aí se encontra a fonte de criação artística.
Na instituição, os alunos eram estimulados tanto ao ensino formal artístico como ao ensino integrado com o artesanato. Diversos motivos ajudaram a elencar a Escola de Bauhaus como a maior escola de arquitetura e design no mundo. Um deles foi a união de profissionais das mais diversas áreas e o outro foi o enfrentamento da produção em larga escala na área de design.
Artistas
Dentre os artistas que fizeram parte do quadro de docentes da Escola de Bauhaus, destacaram-se:
• Wassily Kandinsky (1866-1944): artista plástico russo
• Marcel Breuer (1902-1981): designer e arquiteto húngaro
• Oskar Schlemmer (1888-1943): pintor alemão
• Gerhard Marcks (1889-1981): escultor alemão
• Johannes Itten (1888-1967): pintor e escritor suíço
• Walter Gropius (1883-1969): arquiteto alemão e fundador da escola
• Paul Klee (1879-1940): pintor e poeta suíço
• Josef Albers (1888-1976): designer alemão
•Laszlo Moholy-Nagy (1895-1946): design e pintor húngaro
Fim da Escola de Bauhaus
O auge da Escola de Bauhaus aconteceu no mesmo período em que Adolf Hitler assumia o poder.
A partir daí a instituição começou a ser perseguida, pois os nazistas acusaram a escola de ideias pouco heterodoxas de arte, além de seu modernismo radical. O prefeito de Weimar então corta os fundos públicos que mantinham a escola e seu staff não vê alternativa a não ser mudar-se para outra cidade.
Diante disso, a escola precisou mudar de cidade, saindo de Weimar e indo para Dessau, onde o governo era de esquerda. Os gestores da cidade doaram um grande terreno para a construção da escola e seus edifícios foram erguidos em tempo recorde, com alunos e professores trabalhando em sua construção. Assim, pela primeira vez eles poderiam estar num prédio totalmente projetado por eles e que atendia plenamente as funções que desejavam.
Depois disso, em 1925, a escola mudou novamente, só que dessa vez para Berlim, onde começou a sua terceira fase e amadureceu em termos estruturais e pedagógicos. Contudo, a perseguição pelos nazistas continuou
com a escola sendo acusada de ser mantenedora de professores e alunos judeus, propagar ideias comunistas e concepções artísticas “degeneradas”.
No entanto, mesmo agindo dessa forma, os nazistas não deixaram de usar os produtos desenvolvidos pela Bauhaus pela sua praticidade, inovação e funcionalidade, nada como a velha hipocrisia da extrema direita como sempre.
Assim, a escola teve que fechar suas portas, desta vez permanentemente. Todavia o legado da Bauhaus continuou sendo espalhando pelo mundo. Walter Gropius, Ludwig Mies Van der Hohe, Joseph e Anni Albers foram para os EUA, enquanto outros se espalharam pelo mundo, propagando o ideal de ensino da Bauhaus.
Alguns alunos formados pela escola e até mesmo alguns professores passaram a trabalhar para clientes nazistas e para o nazismo como um todo, apesar dos ideais progressista, inclusivos e libertários propalados e constante em sua grade curricular.
Jeden das Seine
Jedem das Seine é uma expressão idiomática alemã em uso há vários séculos. Por exemplo, é encontrada nas obras de Martinho Lutero e contemporâneos. Aparece no título de uma cantata de Johann Sebastian Bach, Nur jedem das Seine (BWV 163), apresentada pela primeira vez em Weimar em 1715. Algumas comédias do século XIX levam o título Jedem das Seine, incluindo obras de Johann Friedrich Rochlitz e Caroline Bernstein. Uma reviravolta irônica no provérbio, “Jedem das Seine, mir das Meiste” (para cada um o seu, para mim o máximo), é conhecida no reservatório de expressões idiomáticas alemãs há muito tempo, incluindo sua inclusão na peça de Carl Zuckmayer de 1931, O Capitão de Köpenick.
Em 1937, os nazistas construíram o campo de concentração de Buchenwald, a 7 km de Weimar, Alemanha. O lema Jedem das Seine foi colocado no portão de entrada principal do campo. Os portões foram projetados por Franz Ehrlich, um ex-aluno da escola de arte Bauhaus, que tinha sido preso no campo por ser comunista.
Alguns Móveis e Objetos Bauhaus
Na escola, os alunos desenvolveram diversos projetos. Muitos, inclusive, são vistos até os dias atuais. Os projetos eram caracterizados por apresentar formas e linhas simplificadas definidas pela função do objeto. Veja as características de alguns deles:
Cadeiras Barcelona
A cadeira Barcelona faz parte da categoria de mobiliários Bauhaus. Ela foi desenhada, em 1929, pelo arquiteto Ludwig Mies van der Rohe (1886-1969) e pela designer modernista Lily Reich (1885-947). Eles a criaram para expor no Pavilhão Alemão da Feira Internacional de Barcelona.
A cadeira é feita em couro, a fim de proporcionar um maior conforto, e é dividida em duas partes: uma para encosto e a outra serve como um apoio para os pés. Além disso, a cadeira permite a produção em escala industrial, atendendo a uma das propostas da escola.
Cadeira Presidente
A cadeira presidente foi desenvolvida pelo aluno e arquiteto norte-americano Marcel Breuer (1902-1981) e destacou-se como um dos objetos mais populares da escola. Ela consiste em um móvel de design simples, com estrutura toda feita em aço e couro. Além do primeiro nome, a cadeira também era chamada pelo seu criador de "cadeira Wassily", em homenagem ao artista plástico russo Wassily Kandinsky.
Cadeira Wassily projetada por Marcel Breuer para mobiliar a casa do pintor Wassily Kandinsky.
Tabuleiro de xadrez de Hartwig
Da categoria de objetos Bauhaus, um dos que persistem até hoje é o tabuleiro de xadrez criado pelo escultor Josef Hartwig (1880-1955). A criação se destacou como inovadora, uma vez que o layout de cada peça indica o tipo de movimento que ela é capaz de fazer.
Chaleira de Marianne Brandt
A chaleira, criada por Marianne Brandt (1893-1983), possui um design moderno e funcional. Sua estrutura é composta por um filtro embutido, bico não-gotejante e cabo resistente ao calor, enquanto o corpo da chaleira é composto em metal, e a alça executada em ébano. Além disso, Marianne foi uma das poucas mulheres que disseminaram o conhecimento adquirido em Bauhaus.
Fonte
(Atualizado em 2024)





























































































































































































































































































































































































































