INÍCIO

05 abril 2025

A CORUJA DE MINERVA

A CORUJA DE MINERVA 

As aves em geral, segundo Vasconcelos (1998), são consideradas, na cultura helênica, como os seres mais próximos dos deuses.
As aves sempre estiveram relacionadas a estes conforme seus atributos, assim, a soberana águia acompanhava Zeus, o imponente paão pousava aos pés da deusa Hera e a coruja fazia companhia discreta à sábia Athena. Devido a dessa associação, a coruja tornou-se a ave representante da sabedoria, sendo ainda hoje o símbolo da filosofia, dos professores e do conhecimento sem fronteiras, pois seus olhos possuem um “fogo interno” maior entre todas as aves, possibilitando uma visão na ausência de luz, além disso  lhe permitem uma visão de 180° (Vasconcelos, 1998, citado por Santos e cols. 2015).

Athene noctua (Scopoli, 1769); coruja de Athena ou coruja de Minerva, mocho galego ou Little owl (WP)

Existem entre 212 a 250 espécies de corujas no mundo todo. Elas estão distribuídas em todos os continentes, exceto a Antártida. No Brasil, das quase 2000 espécies de aves registradas 23 espécies são corujas.(g1)
Tidas como “rainhas da noite”, devido aos hábitos crepusculares e noturnos, as aves ocorrem em todos os biomas do País, variando entre florestas densas da Amazônia e Mata Atlântica até áreas abertas, campos e restingas. 

Na Grécia Antiga, a coruja-pequena Athene noctua (Scopoli, 1769), nativa de parte da Europa, África e Ásia é o símbolo da deusa da estratégia, da guerra e sabedoria, Athena. 

O nome científico do gênero, Athene (Boie, 1822), foi dado justamente em referência à essa divindade grega.

Athene noctua (Scopoli, 1769) mocho galego, coruja de Athena (WP)

Segundo Nunes (2017), no Brasil há uma espécie representante deste gênero: a coruja-buraqueira, Athene cunicularia (Molina,1782).

Visão e audição 
As corujas são animais cercados por crenças e mitos, provavelmente desde sempre, sabemos por registros históricos pelo menos desde a era do bronze. 

Os hábitos crepusculares e noturnos da maioria das espécies de corujas contribui muito para essa fama, pois a noite sempre foi considerada “misteriosa”, povoada de criaturas más e demoníacas, por nós, animais diurnos.

Existem povos e religiões que veem nas corujas divindades benéficas, símbolos de sabedoria e proteção, da mesma forma, que outros creem que são aves de mau agouro e que prenunciam a morte. A Suindara, por exemplo, é também conhecida como “rasga-mortalha”, devido a um forte grito que eventualmente emite durante o voo.
A verdade, é que os sons emitidos pelas corujas nada têm a ver com premonições. São na verdade uma forma de comunicação desses animais, que para nós pode parecer estranha.

Não podemos, portanto, deixar nossa falta de conhecimento acerca de uma espécie (seja uma coruja ou qualquer outro ser vivo) se transformar em intolerância e repúdio. Ao invés disso, devemos buscar pesquisar mais sobre tais criaturas que nos intrigam, e assim conhecê-las melhor, e também contribuir para que sejam preservadas. (Nunes (2017).

Acreditou por muito tempo que as corujas seriam capazes de virar a cabeça em 360 graus completos.
Isso não é verdade. No entanto, devido a sua anatomia especializada, esses animais conseguem girar 270 graus. Ao longo de sua evolução, as corujas fixaram o foco ocular, de modo que não podem mover os olhos.
Isso significa que, sem poder virar a cabeça em uma grande amplitude angular esses animais teriam um campo de visão muito limitado. Essas aves desenvolveram vértebras diferenciadas e uma estrutura anatômica óssea distinta dos outros grupos animais, incluindo os humanos. O pescoço das corujas tem vasos sanguíneos, que são muito frágeis e podem facilmente sofrer estresse tecidual.

Segundo Lewis (s/d) de todas as características de uma coruja, talvez a mais marcante sejam seus olhos. Grandes e voltados para a frente, eles podem representar de um a cinco por cento do peso corporal da coruja, dependendo da espécie. 

O aspecto dos olhos voltados para a frente é o que confere à coruja sua aparência “sábia”, como se estivesse considerando algo, ou em “pensamentos e divagações profundas”. Essa características também confere às corujas uma ampla gama de visão “binocular” (ver um objeto com os dois olhos ao mesmo tempo). Isso significa que a coruja pode ver objetos em três dimensões 3D (altura, largura e profundidade) e pode julgar distâncias de forma semelhante aos humanos. O campo de visão de uma coruja é de cerca de 110 graus, com cerca de 70 graus sendo a visão binocular.

Em comparação, os humanos têm um campo de visão que cobre 180 graus, com 140 graus sendo binocular. Uma galinhola tem um campo de visão incrível de 360 ​​graus, porque seus olhos estão na lateral da cabeça. No entanto, menos de 10 graus disso é binocular.

Representação da visão periférica e binocular de um humano a esquerda e de um cão à direita, para comparação. 

A visão binocular da coruja é de 70° aproximadamente.


A coruja, devido as características morfológicas notáveis como olhos voltados para frente, hábito crepuscular e noturno, uma audição acurada e seu deslocamento sem fazer nenhum ruído, assegurou  a esse animal um lugar na mente dos humanos. Ela tornou-se o símbolo, o emblema do conhecimento, da sabedoria e estratégia em muitas culturas, especialmente no ocidente, devido a associações históricas e mitológicas. A seguir estão algumas dessas associações.


Moeda de tetradracma ateniense, séc. IV a.C.

Moeda grega mostrando a coruja, Athene noctua (Scopoli, 1769).

1. Mitologia Grega
A coruja está ligada a Atena, Minerva, na mitologia romana, a deusa da sabedoria, estratégia e guerra inteligente. A ave era considerada seu animal sagrado, representando perspicácia, visão aguçada, vigilância  e sobretudo, conhecimento. 

A deusa Athena é sua coruja. Vaso grego.

Aríbalo em forma de coruja é um vaso em cerâmica fabricado na Antiguidade Grega na região do Peloponeso, precisamente na cidade de Corinto, realizado entre os séculos VIII e VII a.C. (por volta do ano 720 e 630 a.C.), época em que dominavam em qualidade e produção em relação a capital, Atenas. Com apenas 5 cm de altura, esta pequena coruja mostra uma incrível expressividade.

2. Visão Aguçada
A coruja tem hábito crepuscular e noturno e enxerga bem no escuro, o que simbolicamente representa a capacidade de “ver além das aparências” e discernir a verdade onde outros não veem. 

3. Cultura Acadêmica
No mundo ocidental, a coruja foi adotada como símbolo de instituições de ensino, livros e estudos, reforçando sua ligação com a erudição e o conhecimento sistemático. 

4. Filosofia
Na tradição filosófica ocidental, a coruja está associada à reflexão e ao pensamento racional, e assim é o símbolo da filosofia. O filósofo Hegel, por exemplo, usou a imagem da “coruja de Minerva” para representar o entendimento que surge após os eventos (ao anoitecer, quando a coruja voa). 

5. Símbolos dos professores - Docência
A coruja é frequentemente utilizada para representar a profissão do professor, por remeter a inteligência, astúcia, sensibilidade e sabedoria, este símbolo é compartilhado com a Filosofia e outras licenciaturas.

6. Culturas Indígenas e Orientais
Em algumas tradições, a coruja também simboliza intuição e conhecimento oculto, embora em outras possa ter conotações negativas, como animal de mau agouro e presságio de morte.


O símbolo 

Segundo pesquisadores, as corujas têm sido frequentemente retratadas desde o Paleolítico Superior até os dias de hoje, em formas que vão de estatuetas e desenhos a cerâmica e postes de madeira, mas, no geral, são genéricas em vez de identificáveis ​​por espécie. A pequena coruja Athene noctua (Little owl) é, no entanto, intimamente associada à deusa grega Atena e à deusa romana Minerva e, portanto, representa sabedoria e conhecimento. Uma pequena coruja com um ramo de oliveira frutificado, e uma Lua nova crescente aparecem em uma moeda grega de tetradracma de 500 a.C. (uma cópia estilizada da qual aparece na moderna moeda grega atual de um euro) e em uma estátua de bronze do século V a.C. de Atena segurando o pássaro em sua mão. Acredita-se que o chamado de uma pequena coruja tenha anunciado o assassinato de Júlio César.

A coruja simboliza, então, a sabedoria, o conhecimento a vigilância. Nos tempos antigos, a coruja era associada a Deusa Atenas, a deusa grega da sabedoria, estratégia e da guerra inteligente, uma deusa civilizacional com muitos atributos e qualidades. 

Segundo Boschetti, s/d., os antigos filósofos gregos não faziam distinção entre a luz e a visão. Eles não as viam como duas coisas separadas: a física da luz e a nossa sensação, ou a interpretação que nosso cérebro acaba fazendo dessa física, i.e. da visão. Observando os olhos de cães, pessoas e outros animais, à noite, que estivessem próximas ao fogo, os gregos observaram que dos olhos dos seres vivos saia luz. Como sabiam que a luz provém de uma fonte luminosa, e a única fonte conhecida era o fogo, concluíram que “os seres vivos têm uma tênue chama dentro dos olhos”. Para eles a visão era explicada com uma teoria, segundo a qual a visão estava intimamente ligada ao tato. Acreditavam que de dentro dos olhos projetavam-se raios luminosos que tateavam os objetos e retornavam aos olhos trazendo consigo informações que, ao serem interpretadas pelo cérebro, acabavam gerando a sensação visual. Acreditavam ainda que cachorros viam mais à noite do que os homens, pois a chama de seus olhos era mais intensa que a dos humanos. Argumentavam que os homens não têm boa visão noturna porque, sendo a chama de seus olhos muito tênue, a luz em seu caminho de ida e volta acaba por se perder, ao passo que, durante o dia, a luz projetada dos olhos somava-se à do Sol podendo assim cumprir seu caminho de ida e volta.
Nesta antiga teoria, ver seria lançar raios tênues de luz m que iluminam o mundo, possibilitando a visão a percepção. Ora, ver com a luz do Sol, significa apenas perceber, constatar, apreender. 
Entretanto, ver através da noite, com a luz da Lua ou mesmo sem luz, através do véu da indistinção, é a reflexão, a lógica, a indução, e a dedução. É a inteligência, de intus: dentro, mais legere: ler. Esse é o conhecimento reflexivo, de re-flectere, do Latim re, outra vez, novamente, mais flexus, flectere dobrar, dobrado, fletido, do verbo flecterre, imprimir uma força para dobrar, para curvar. 

Assim, refletir é o processo executado pelo juízo de voltar-se sobre si mesmo na busca do que é essencial e necessário, este como uma ferramenta para compreender conceitos como conhecimento, obrigação e causalidade.
 
A coruja enxerga com o mínimo de luz ou com a luz refletida pela Lua, que lança sobre a realidade um véu de indistinção e mistério. 
Uma vez que possui olhos especiais, desvela o que está oculto ou imperceptível, ou o latente. Revela o necessário, do latim: necessitas, inevitável, indispensável, originalmente significando: sem volta, formado por nec, não, mais cedere, recuar, ceder, i.e., a verdade, o próprio ser.

Essa riqueza simbólica tornou a coruja o símbolo do Rito Moderno da Maçonaria, Simbolizando sobretudo a sabedoria, o conhecimento e a vigilância, consolidando, assim, a coruja como um ícone universal do saber, da inteligência e da busca pelo conhecimento.



Bibliografia 




Vasconcelos. Paulo Sérgio de. Mitos gregos. São Paulo, SP. Objetivo. 1998.



















.

31 março 2025

DITADURA NUNCA MAIS

31 DE MARÇO DE 1964 
UM DIA INFAME








MEMÓRIAS DO GOLPE DE 1964

MEMÓRIA VIVA DO GOLPE

No aniversário de 61 anos da tomada de poder pelos militares, o religioso nascido em BH cobra punição pelos crimes cometidos pela ditadura em meio a lançamento

Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, de 80 anos, tinha 19 quando os militares, com amplo apoio de setores da sociedade civil, da imprensa e de grandes empresários, tiraram João Goulart da Presidência e tomaram o poder. Os episódios ocorridos entre 31 de março e 1º de abril de 1964 deixaram sequelas históricas e definiram os rumos de um país comandado por uma ditadura durante mais duas décadas.

“Eles ainda estão aqui: os torturadores, os assassinos, os golpistas e os nazifascistas. A extrema direita ameaça nossa frágil democracia. (crédito: João Laet/Divulgação. 13/10/2020).


Frei Betto (várias fontes)

O frade dominicano, jornalista e escritor mineiro estava em Belém quando o golpe de Estado, que completa 61 anos nesta terça-feira (1º/4), foi consumado. Dirigente nacional da Ação Católica Brasileira e militante de esquerda desde a adolescência, ele participava do congresso latino-americano de estudantes. O clima pesou, o evento foi dissolvido e um crescente número de viaturas policiais passou a fazer parte do cenário da capital paraense. Detalhes dos dias que sucederam o golpe são descritos em “Quando fui pai do meu irmão” (Alta Books), livro lançado em fevereiro deste ano. “Em junho de 1964, sofri minha primeira prisão, no Rio, onde morava, pelo serviço secreto da Marinha”, relembra.

Perseguido pela ditadura, Frei Betto foi preso novamente em 1969. Dessa vez, foram quatro longos anos passando por diversas casas de detenção. A experiência inspirou “Cartas da prisão”, “Diário de Fernando – Nos cárceres da ditadura militar brasileira”, “O dia de Ângelo” e “Batismo de sangue” – este último lhe rendeu o prêmio Jabuti em 1982 e foi levado ao cinema pelo mineiro Helvécio Ratton em 2006.

Escritor compulsivo, Frei Betto construiu uma carreira literária profícua. Autor de 78 livros, está sempre envolvido na produção simultânea de dois, três projetos. Em breve, lançará “Jesus amoroso”, último volume da tetralogia sobre os evangelhos publicada pela editora Vozes. Avizinha-se ainda um novo romance, sobre o qual mantém sigilo. “Como bom mineiro, continuo a trabalhar em silêncio”, afirma.

Referência no ativismo em movimentos sociais e pelos direitos humanos, o frade é assessor da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) e do governo de Cuba no Plansan – Plano de Soberania Alimentar e Educação Nutricional. Tal função o leva cinco ou seis vezes por ano à ilha socialista, de onde concedeu esta entrevista.

Ao rever 1964, ele acredita que o Brasil atual guarda semelhanças com o de outrora. Segundo o escritor, a ascensão da extrema direita no país representa uma ameaça à democracia e toda vigilância é necessária. Também diz que é preciso acertar contas com o passado e cobra que os crimes cometidos durante a ditadura sejam julgados: “Há que aprofundar a busca pelos mortos e desaparecidos e criminalizar os responsáveis”.

Sessenta e um anos após o golpe de Estado, que tipo de acerto de contas o Brasil precisa fazer com o passado?

Quem não tem memória não tem história. Enumero alguns acertos: revogar a esdrúxula lei de anistia recíproca, que tornou imune e impune torturadores e assassinos. Ao contrário de Chile, Argentina e Uruguai, aqui os responsáveis pelos hediondos crimes cometidos pela ditadura, que durou 21 anos, jamais foram julgados e punidos. Só agora, devido à tentativa de golpe bolsonarista, generais estão sendo culpabilizados. A anistia recíproca manteve aquecida, nos quartéis, a cultura golpista que aflorou no dia 8 de janeiro de 2023. É preciso também investigar os genocídios praticados pela ditadura em aldeias indígenas, como descrevo em meu romance “Tom vermelho do verde” (Rocco). Há que aprofundar a busca pelos mortos e desaparecidos, criminalizar os responsáveis e indenizar as famílias. Toda escola deveria ter a obrigação de incluir em seu currículo o ensino dos crimes cometidos pela ditadura militar de 1964.

O senhor, inclusive, já declarou que o segmento da sociedade mais atingido pela ditadura foram os povos indígenas.

Sim, são quase um milhão de indígenas em nosso país e, em 2000, o Projeto Genoma comprovou que predomina no gene do brasileiro, não o sangue negro, como se esperava, e, sim, o indígena. Muitos pensam que o segmento mais sacrificado pela ditadura foram os que pegaram em armas ou os sindicalistas. Engano. Os indígenas foram o segmento mais reprimido. Milhares foram dizimados nas aberturas das rodovias Transamazônica, que liga a Paraíba ao Peru, e a 174, que liga Manaus a Boa Vista.

Há semelhanças entre o Brasil de 1964 e o atual?

Sim. Eles ainda estão aqui: os torturadores, os assassinos, os golpistas, os nazifascistas. A extrema direita ameaça nossa frágil democracia. E parcela considerável do povo sofre deseducação política e acredita nas mentiras propaladas, agora via internet, por aqueles que odeiam negros, homossexuais, mulheres combativas, imigrantes e o pensamento crítico.
Manifestantes em BH pedem prisão de Bolsonaro em ato contra anistia
Esquerda faz atos dispersos pelo país contra anistia a Bolsonaro
Em que medida acontecimentos tão recentes como o 8 de janeiro de 2023 e o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe podem ensinar à democracia brasileira?
O fracassado golpe bolsonarista ensina que nossas Forças Armadas ainda estão contaminadas pelo golpismo, o horror à democracia, o elogio da tortura como método de investigação. Toda vigilância é necessária. Espero que a Justiça condene exemplarmente os golpistas para arrefecer os ânimos daqueles que ainda sonham com o período ditatorial.

Bolsonaro vira réu e será 1º ex-presidente processado por golpe de Estado: o que acontece agora?

Qual é a dimensão histórica da decisão do STF em tornar o ex-presidente Bolsonaro e outros militares réus por tentativa de golpe de Estado, entre outros crimes?
Investigar e levar ao banco dos réus Bolsonaro e seu bando golpista é uma forma de o STF reparar um grave erro cometido no passado: a reiterada aprovação da “anistia recíproca”, que manteve os torturadores e assassinos impunes e imunes, aquecendo o caldo de cultura derramado no 8 de janeiro de 2023.

O senhor esteve preso entre 1969 e 1973. Como o cárcere marcou sua vida?

Meu período de quatro anos de prisão sob a ditadura militar está detalhadamente descrito em quatro livros: “Cartas da prisão” (Companhia das Letras), “Diário de Fernando – Nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), “O dia de Ângelo” (esgotado) e “Batismo de sangue” (Rocco), levado às telas de cinema pelo diretor Helvécio Ratton. 
O cárcere me fez perder o medo de lutar por justiça social, defender os direitos humanos, ser solidário aos pobres e excluídos. Dos quatro anos na prisão, os últimos dois passei na condição de preso comum, misturado a eles, com quem muito aprendi. Mas, sobretudo, a prisão representou para mim um longo retiro espiritual, de encontro com Deus e comigo mesmo. Foi a terapia que nunca fiz.

A espiritualidade o ajudou a enfrentar as atrocidades da ditadura?

A espiritualidade foi meu principal alimento na prisão. Ali me senti muito mais próximo de Jesus. Todos nós, cristãos, somos discípulos de um prisioneiro político. Jesus também foi perseguido, difamado, preso, torturado, julgado por dois poderes políticos e condenado à morte na cruz. Jamais tive ocasião de orar tanto como no cárcere. As obras de Teresa de Ávila e João da Cruz muito me alentaram. Imbuí-me de uma espiritualidade militante, conforme reflito na tetralogia que escrevo sobre os evangelhos. A editora Vozes já lançou “Jesus militante”, sobre o evangelho de Marcos; “Jesus rebelde”, sobre o de Mateus; e “Jesus revolucionário”, sobre o de Lucas. Em breve sairá “Jesus amoroso”, sobre o evangelho de João.

O senhor já publicou quase 80 livros, muitos deles sobre o período da ditadura, sua passagem pela prisão, recordações de companheiros. A literatura tem algo terapêutico para o senhor?

Sim, a literatura é terapêutica. O psicanalista Hélio Pellegrino, de quem eu era muito amigo, dizia que, na prisão, fui salvo da loucura graças às cartas que escrevia. Escrever é objetivar sentimentos e emoções, como acentuo em meu livro “Ofício de escrever” (Rocco). E ler é viajar pelo passado, presente e futuro sem sair do lugar. Não posso passar um único dia sem escrever. Sou compulsivo.


Como o senhor observa a repercussão de “Ainda estou aqui” para além do cinema? Houve manifestação em frente à casa de um dos torturadores de Rubens Paiva, por exemplo. Em fevereiro, o STF decidiu, por unanimidade, que analisará se a Lei da Anistia se aplica aos casos de desaparecimentos na ditadura. O senhor vê um novo momento na busca por memória, verdade e justiça no Brasil?

O filme de Walter Salles destampou o tema da ditadura, que a mídia e os militares tentavam clandestinizar, como se fosse melhor não tocar nessa grave chaga brasileira. As novas gerações estão cobrando de seus avós o que fizeram ao longo dos 21 anos de ditadura. Apoiaram? Se omitiram? Participaram da luta pela reconquista da democracia? Ainda há muito que contar sobre aquele período trágico dos anos de chumbo.

Novos projetos literários em vista? Em abril de 2020, no lançamento de “O diabo na corte”, o senhor me contou que sempre trabalha em dois ou três livros ao mesmo tempo.

Atualmente, trabalho no “Jesus amoroso”, sobre o Evangelho de João, o último da tetralogia editada pela Vozes, e em um romance sobre o qual prefiro não falar por enquanto. Como bom mineiro, continuo a trabalhar em silêncio…

Isso me faz lembrar daquela mesma entrevista, quando o senhor disse: “Trabalho em silêncio, sou mineiro em muitos sentidos, inclusive nesse”. Ser mineiro se manifesta em quais aspectos de sua personalidade?

Ser mineiro se manifesta em meu jeito moderado de me comportar, buscando o equilíbrio em todas as situações. E nas preferências culinárias, pois sou filho de Maria Stella Libânio Christo, considerada uma das mestras da cozinha mineira e autora do clássico “Fogão de Lenha, 300 anos de cozinha mineira”.

O senhor continua viciado em utopia?

Continuo. A utopia é o que me faz esperançar, verbo cunhado pelo professor Paulo Freire, meu guru. E a melhor tradução do que ele significa está no verso da canção de Geraldo Vandré: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. 


Os livros listados nessa reportagem podem ser adquiridos em freibetto.org


Fonte 





























.

ADOLESCÊNCIA NETFLIX

ADOLESCÊNCIA

Segundo Eltink e Nunes (2020), a adolescência começou a ser vista como uma fase distinta do desenvolvimento humano a partir do século XIX, em 1904, quando Granville Stanley Hall (1844-1924) publicou, pela primeira vez, um estudo sobre esse período da vida. Hall apresentou a adolescência como uma etapa marcada por “tempestade e estresse”

A adolescência pode ser definida como uma etapa de transição do desenvolvimento entre a infância e a vida adulta, marcada por significativas mudanças cognitivas, físicas, psicológicas e sociais. Destacam-se alguns aspectos tais como: mudanças hormonais, a separação progressiva dos pais e ao mesmo tempo uma maior aproximação com o grupo de amigos (socialização), a procura por si mesmo, a capacidade de desenvolver pensamentos totalmente abstratos e hipotético-dedutivos, emergência de preocupações metafísicas e éticas, atitudes sociais reivindicatórias, dentre outros. Essas mudanças orientam o adolescente ao êxito da sua autonomia para o gerenciamento da vida adulta, sem o suporte dos pais.

É nesta fase da vida que os jovens começam a construir um projeto de vida, e preocupam-se mais seriamente com a definição de uma escolha profissional. Além disso, neste período a escola continua sendo um importante contexto de desenvolvimento do adolescente, ocupando um grande papel em sua vida, juntamente com o grupo de amigos e a família. 

Por isso a série é importante, pois o universo escolar associado ao ambiente das redes tem o poder de moldar a visão do ser em formação e sua visão de indivíduo que quer ser e sua visão de feminilidade e masculinidade. 

Assim, a série ADOLESCÊNCIA da plataforma NETFLIX apresenta a história de um suposto assassinato cometido por um menino branco adolescente contra uma menina sua coetânea da mesma escola. 

Still da série Adolescência da Netflix. 

Engana-se quem acha que a série da Netflix “Adolescência” mudou a raça do assassino, ou queira culpabilizar meninos brancos. Segundo Belic (2025), o roteirista e ator da série Stephen Graham (pai do protagonista) afirmou que a produção não foi baseada em um único caso. Ele relatou que a ideia surgiu a partir de diferentes crimes que viu em noticiários na Inglaterra e País de Gales. 
Jack Thorne, também co-criador da trama, rechaçou as acusações e reforçou que o tema principal da obra é a masculinidade
Dados populacionais referentes ao Reino Unido mostram que a maioria da população é branca e a maioria dos ataques a faca é perpetrada por crianças e adolescentes brancos (contra todas as outras etnias). A população adolescente negra e imigrante é minoria e conta com apenas 20% dos assassinatos registrados enquanto que crimes contra a vida perpetrados por adolescentes brancos são mais do que 40%, o dobro do número registrado para todas as etnias registradas.

A série trata de sexismo, machismo, cyberbullying, dentro de uma sequência claustrofóbica que mostra jovens passando pela adolescência. 

Breve análise da Série “Adolescência” da Netflix

“Adolescência” (título original: “Adolescence”) é uma série dramática da Netflix que explora os desafios enfrentados por jovens na fase do desenvolvimento que chamamos de Adolescência, quando há intensa formação e interação pessoal e social, misturado ao despertar da sexualidade em meio a uma transformação orgânica (menarca, primeira menstruação, a semenarca, a primeira ejaculação entre outros fenômenos fisiológicos). 

A produção da série da Netflix, aborda temas como identidade, masculinidade, pressão social, saúde mental, sexualidade e conflitos familiares, oferecendo um retrato realista e por vezes cru dessa fase delicada da vida.  

Enredo e Temas Principais
A série acompanha um grupo de adolescentes em um colégio, cada um lidando com problemas distintos, como:

Identidade e Aceitação
Personagens questionam sua orientação sexual, gênero e lugar no mundo.  

Pressão Acadêmica e Social
A cobrança por desempenho escolar e a necessidade de se encaixar em grupos são retratadas de forma intensa.  

Saúde Mental
Depressão, ansiedade e automutilação aparecem como consequências da solidão e da falta de apoio.  

Relações Familiares
Conflitos entre pais e filhos evidenciam a dificuldade de comunicação entre gerações.

Masculinidade
A ideia de masculinidade, para os meninos adolescentes, fica ao encargo de seus relacionamentos com seus coetâneos cogenéricos, e das redes sociais. Nas redes, há todo tipo de vivências e modelos, como “redil”, “Incel” muitas destas, radicalizaras e criminosas
  
Dados e Impacto

Segundo um relatório da “Organização Mundial da Saúde (OMS, 2021)”, transtornos mentais afetam cerca de “14% dos adolescentes globalmente, um tema central na série. Ainda mais com as redes sociais que disseminam ódio e desinformação tudo fica mais complicado.

Pesquisas do “Pew Research Center (2022)” indicam que “70% dos jovens” consideram a pressão escolar um dos seus maiores estressores, refletido no enredo.  

A série alinha-se com produções como “13 Reasons Why” e “Sex Education”, que também discutem problemas juvenis com franqueza.  

Crítica e recepção

Pontos positivos 
Elogiada por sua representação autêntica e atuações convincentes.  

Controvérsias
Alguns críticos argumentam que a série romantiza certos comportamentos de risco, como o suicídio (um debate semelhante ao de *13 Reasons Why*).  

Audiência
Teve alta repercussão em plataformas como Twitter e TikTok, onde jovens debateram suas próprias experiências.  


Um artigo que li diz: 

A série inova mais pela técnica sofisticada do cinema, conhecida como plano-sequência, do que pelo roteiro do excelente Stephen Graham. Há também de se elogiar a ótima atuação do jovem Owen Cooper. 

Discordo parcialmente do articulista nessa afirmação pois o tema da série é a construção da ideia de “macho” mediada por redes sociais onde todo tipo de opiniões dos tópicas tem o poder de moldar a personalidade dos jovens que ao invés de contribuir numa formação humanista, radicaliza o adolescente. 

Segundo Mezavila (2025), há vários fatores que tornam a série interessante, como a dificuldade e o despreparo que os pais têm diante da aceitação de que existe uma nova linguagem formada por emojis, símbolos, emoticons, etc.

Há mais coisas entre corações vermelhos e carinhas tristes do que pode imaginar nossa vã pré-concepção da tecnologia.

Outro fator é a relação bem estruturada no ambiente familiar, onde o pai protetor, a mãe amorosa e a irmã companheira, que não serviram de acolhimento socioafetivo e impedimento para a personagem Jaime Miller, de 13 anos, assassinar uma colega de turma com várias facadas.

A série, que foi escrita sob a ótica da cultura europeia, com um cenário de uma unidade escolar suntuosa, inacessível para noventa e cinco por cento dos jovens brasileiros, é eficiente porque traz para o debate público uma nova e poderosa linguagem universal.

dinamismo do plano-sequência absorve tempo que poderia ser utilizado mais efetivamente para falar sobre o Involuntary Celibates, Incel, redpill, (pílula vermelha, movimento social na internet em alusão ao filme “Matrix”, que mostra a pílula azul e a pílula vermelha) que significa Celibatário Involuntário, que serve para descrever adolescentes homens, inseguros e tímidos, com dificuldade de socialização, que é a base para o cometimento do crime.

A série trata de sexismo, machismo, cyberbullying, dentro de uma sequência claustrofóbica que mostra a transição dos adolescentes do seio da família, do ambiente escolar, para as ruas sombrias das redes sociais.

É só mais um alerta para que os pais, os que possuem autocontrole, monitorem o que os filhos consomem no escurinho da alcova com cheiro de tênis e mochila.

Onde está a novidade para tanto estardalhaço? A série comercial não aponta para nenhum lugar desconhecido do comportamento da juventude contemporânea entre o oriente e o ocidente; tanto a psicóloga quanto o policial não acrescentam nada. O que há de novidade nisso? Nesse ponto concordo totalmente com ele. Há nesses dois personagens a ausência de uma certa autoridade e conhecimento que aponte para uma saída e uma abertura para esperança. No caso dessa série não há nada. A série parece apontar para um poço profundo ou uma caverna sem luz onde opinões e desinformações radicalizam as pessoas, sobretudo adolescentes, e da qual não há saída a vista, parecendo que não vale nem a pena tentar algo. 




Conclusão
“Adolescência” cumpre seu papel ao trazer à tona discussões necessárias sobre a juventude contemporânea, poderíamos dizer literalmente entre a cruz e a espada. 
Embora possa ser acusada de ser comercial, euro e troca, e ser uma série de sensacionalismo em alguns momentos, sua importância reside na visibilidade que dá a questões muitas vezes negligenciadas.  

Esta análise destaca como a série utiliza o entretenimento para promover reflexão, tornando-se um material relevante para pais, educadores e jovens.



Referências




OMS (2021). Relatório sobre saúde mental adolescente.

Pew Research Center (2022). Pressão e estresse em adolescentes.











30 março 2025

ALEXANDRE O GRANDE

ALEXANDRE O GRANDE 

Retrato de mármore de Alexandre, o Grande. Imagem jovem do rei conquistador grego helenístico, séculos II-I a.C., supostamente de Alexandria, Egito.

Marble portrait of Alexander The Great. Youthful image of the conqueror king Hellenistic Greek, 2nd-1st century BC, Said to be from Alexandria, Egypt.

Fontes literárias nos dizem, embora talvez não de forma confiável, que Alexandre (reinou de 336 a 323 a.C.) escolheu apenas alguns artistas para produzir sua imagem, e nomes famosos como o escultor Lísipo e o pintor Apeles foram associados a seus retratos. 
Embora nenhuma das imagens famosas tenha sido recuperada, muitas esculturas em materiais diferentes, bem como retratos em pedras preciosas e moedas, sobreviveram. A maioria foi produzida muito depois da morte de Alexandre e, embora os retratos sigam características gerais semelhantes, eles também variam em estilo. 
Alexandre sempre foi mostrado barbeado, o que era uma inovação: todos os retratos anteriores de estadistas ou governantes gregos tinham barbas. Essa moda real durou quase quinhentos anos e quase todos os reis helenísticos e imperadores romanos até Adriano foram retratados sem barba. 
Alexandre foi o primeiro rei a usar o importantíssimo diadema real, uma faixa de pano amarrada ao redor do cabelo que se tornaria o símbolo da realeza helenística.
Os primeiros retratos de Alexandre, em estilo heróico, parecem mais maduros do que os retratos feitos após sua morte, como este exemplo. Eles mostram um caráter mais jovem, embora talvez mais divino. Ele tem cabelos mais longos, uma inclinação mais dinâmica da cabeça e um olhar para cima, assemelhando-se à sua descrição em fontes literárias.
Esta cabeça foi adquirida em Alexandria, a cidade fundada por Alexandre em 331 a.C., e a localização de seu túmulo.
Alexandria também foi a capital da mais longa dinastia helenística sobrevivente, os Ptolemeus. Desde o reinado de Ptolemeu I Sóter (“Salvador”) (305-282 a.C.), Alexandre foi adorado como um deus e o antepassado da dinastia.







ANTINOUS AND HADRIANUS

ANTINOUS AND HADRIANO

ANTINOUS







Bust of Antinous From Rome, Italy, AD 130-140 (British Museum). 

• The emperor Hadrian’s young lover Antinous was Greek and born in a small place near the city of Bithynion-Claudiopolis (northern Turkeyie). 

• Antinous born in c. 27/XI/111 in the city of Bithynion-Claudiopolis, Anatolie, now Turkiye, and dead at 30/X/130 EC in drowned in the tiver Nile.

• It is known that the Roman emperor Hadrian passed through the area where Antinous was born in AD 123 and many scholars believe this was when they met. 

• In the year 123 AD Antinous was sent to Rome to be educated in an imperial school. When Hadrian returned to Rome, Antinous was 17-18 years old, and from that year on they were never separated. 

• Later sources make it very clear that Hadrian and Antinous formed a homosexual relationship. Although we know little of their personal relationship, it is understood they shared a passion for hunting, travel, greek history and religion. 

• In AD 130 Hadrian visited Egypt with the imperial entourage, including his wife Sabina and Antinous. After an extended stay in Alexandria, they embarked on a voyage up the River Nile. 

 On 24 October Antinous drowned in the river, on the same day the locals were commemorating the death, by drowning in the Nile, of the Egyptian god Osiris. Although Hadrian maintained Antinous’ death was an accident, malicious rumours soon spread. 

 Some thought he had committed suicide or that he had been sacrificed. Others claimed Antinous sacrificed himself to prolong the life of the emperor. 

 For the Romans homosexual relationships were usual, but the intensity with which Hadrian mourned Antinous’ premature death and encouraged his cult in the eastern empire was without precedent in history. 

• The presence of an ivy wreath in this portrait links Antinous to the god Dionysus, the closest Greek equivalent to the Egyptian god Osiris. 















ANTINOUS 



PUBLIUS AELIUS HADRIANUS


Marble bust of the emperor Hadrian wearing military dress From Hadrian’s Villa, Tivoli, Lazio, Italy,AD 117-118. 

• Hadrian, Publius Aelius Hadrianus, was born in 24 January 76 and his death occurs at 10 July 138. 
He was Roman emperor from 117 to 138. Hadrian was born in Italica, close to modern Seville in Spain, an Italic settlement in Hispania Baetica; his branch of the Aelia gens, the Aeli Hadriani, came from the town of Hadria in eastern Italy. He was a member of the Nerva–Antonine dynasty.

• This portrait bust was found at the Villa Adriana, the Roman emperor Hadrian’s magnificent country residence near Tivoli, outside 23 km from Rome. 

• In ancient Rome, the dedication of public statues was governed by rules concerning location, material and iconography. This was even more important when it concerned imperial images. Official portraits were an extremely important way for Roman emperors to reach out to their subjects and their public image was defined by them. 

• There are hundreds of surviving imperial statues, which show us that there were only three ways in which the emperor could officially be represented: in the battle dress of a general; in a toga, the Roman state civilian costume; or nude, likened to a god. These formats powerfully and effectively evoked the emperor’s role as commander-in-chief, magistrate or priest, and finally as the ultimate embodiment of divine providence. 

• We know from ancient literary sources that Hadrian was particularly keen to project a strong military image and in this bust we see Hadrian presented as the commander-in-chief. 

• Sculpted portraits of Hadrian show a remarkably naturalistic detail, a deep, diagonal crease in both earlobes. We now know there is a strong link between these creases and coronary artery disease. They are caused by the collapse of blood vessels in the earlobe, one of the early symptoms of the disease. 

• It is impossible to say if Hadrian suffered from this illness, but the existence of such a life-like element in his portraits brings a strong sense of naturalism to them.













ANTINOUS AND HADRIANUS