A CORUJA DE MINERVA
As aves em geral, segundo Vasconcelos (1998), são consideradas, na cultura helênica, como os seres mais próximos dos deuses.
As aves sempre estiveram relacionadas a estes conforme seus atributos, assim, a soberana águia acompanhava Zeus, o imponente paão pousava aos pés da deusa Hera e a coruja fazia companhia discreta à sábia Athena. Devido a dessa associação, a coruja tornou-se a ave representante da sabedoria, sendo ainda hoje o símbolo da filosofia, dos professores e do conhecimento sem fronteiras, pois seus olhos possuem um “fogo interno” maior entre todas as aves, possibilitando uma visão na ausência de luz, além disso lhe permitem uma visão de 180° (Vasconcelos, 1998, citado por Santos e cols. 2015).
Athene noctua (Scopoli, 1769); coruja de Athena ou coruja de Minerva, mocho galego ou Little owl (WP)
Existem entre 212 a 250 espécies de corujas no mundo todo. Elas estão distribuídas em todos os continentes, exceto a Antártida. No Brasil, das quase 2000 espécies de aves registradas 23 espécies são corujas.(g1)
Tidas como “rainhas da noite”, devido aos hábitos crepusculares e noturnos, as aves ocorrem em todos os biomas do País, variando entre florestas densas da Amazônia e Mata Atlântica até áreas abertas, campos e restingas.
Na Grécia Antiga, a coruja-pequena Athene noctua (Scopoli, 1769), nativa de parte da Europa, África e Ásia é o símbolo da deusa da estratégia, da guerra e sabedoria, Athena.
O nome científico do gênero, Athene (Boie, 1822), foi dado justamente em referência à essa divindade grega.
Athene noctua (Scopoli, 1769) mocho galego, coruja de Athena (WP)
Segundo Nunes (2017), no Brasil há uma espécie representante deste gênero: a coruja-buraqueira, Athene cunicularia (Molina,1782).
Visão e audição
As corujas são animais cercados por crenças e mitos, provavelmente desde sempre, sabemos por registros históricos pelo menos desde a era do bronze.
Os hábitos crepusculares e noturnos da maioria das espécies de corujas contribui muito para essa fama, pois a noite sempre foi considerada “misteriosa”, povoada de criaturas más e demoníacas, por nós, animais diurnos.
Existem povos e religiões que veem nas corujas divindades benéficas, símbolos de sabedoria e proteção, da mesma forma, que outros creem que são aves de mau agouro e que prenunciam a morte. A Suindara, por exemplo, é também conhecida como “rasga-mortalha”, devido a um forte grito que eventualmente emite durante o voo.
A verdade, é que os sons emitidos pelas corujas nada têm a ver com premonições. São na verdade uma forma de comunicação desses animais, que para nós pode parecer estranha.
Não podemos, portanto, deixar nossa falta de conhecimento acerca de uma espécie (seja uma coruja ou qualquer outro ser vivo) se transformar em intolerância e repúdio. Ao invés disso, devemos buscar pesquisar mais sobre tais criaturas que nos intrigam, e assim conhecê-las melhor, e também contribuir para que sejam preservadas. (Nunes (2017).
Acreditou por muito tempo que as corujas seriam capazes de virar a cabeça em 360 graus completos.
Isso não é verdade. No entanto, devido a sua anatomia especializada, esses animais conseguem girar 270 graus. Ao longo de sua evolução, as corujas fixaram o foco ocular, de modo que não podem mover os olhos.
Isso significa que, sem poder virar a cabeça em uma grande amplitude angular esses animais teriam um campo de visão muito limitado. Essas aves desenvolveram vértebras diferenciadas e uma estrutura anatômica óssea distinta dos outros grupos animais, incluindo os humanos. O pescoço das corujas tem vasos sanguíneos, que são muito frágeis e podem facilmente sofrer estresse tecidual.
Segundo Lewis (s/d) de todas as características de uma coruja, talvez a mais marcante sejam seus olhos. Grandes e voltados para a frente, eles podem representar de um a cinco por cento do peso corporal da coruja, dependendo da espécie.
O aspecto dos olhos voltados para a frente é o que confere à coruja sua aparência “sábia”, como se estivesse considerando algo, ou em “pensamentos e divagações profundas”. Essa características também confere às corujas uma ampla gama de visão “binocular” (ver um objeto com os dois olhos ao mesmo tempo). Isso significa que a coruja pode ver objetos em três dimensões 3D (altura, largura e profundidade) e pode julgar distâncias de forma semelhante aos humanos. O campo de visão de uma coruja é de cerca de 110 graus, com cerca de 70 graus sendo a visão binocular.
Em comparação, os humanos têm um campo de visão que cobre 180 graus, com 140 graus sendo binocular. Uma galinhola tem um campo de visão incrível de 360 graus, porque seus olhos estão na lateral da cabeça. No entanto, menos de 10 graus disso é binocular.
Representação da visão periférica e binocular de um humano a esquerda e de um cão à direita, para comparação.
A visão binocular da coruja é de 70° aproximadamente.
A coruja, devido as características morfológicas notáveis como olhos voltados para frente, hábito crepuscular e noturno, uma audição acurada e seu deslocamento sem fazer nenhum ruído, assegurou a esse animal um lugar na mente dos humanos. Ela tornou-se o símbolo, o emblema do conhecimento, da sabedoria e estratégia em muitas culturas, especialmente no ocidente, devido a associações históricas e mitológicas. A seguir estão algumas dessas associações.
Moeda de tetradracma ateniense, séc. IV a.C.
Moeda grega mostrando a coruja, Athene noctua (Scopoli, 1769).
1. Mitologia Grega
A coruja está ligada a Atena, Minerva, na mitologia romana, a deusa da sabedoria, estratégia e guerra inteligente. A ave era considerada seu animal sagrado, representando perspicácia, visão aguçada, vigilância e sobretudo, conhecimento.
A deusa Athena é sua coruja. Vaso grego.
Aríbalo em forma de coruja é um vaso em cerâmica fabricado na Antiguidade Grega na região do Peloponeso, precisamente na cidade de Corinto, realizado entre os séculos VIII e VII a.C. (por volta do ano 720 e 630 a.C.), época em que dominavam em qualidade e produção em relação a capital, Atenas. Com apenas 5 cm de altura, esta pequena coruja mostra uma incrível expressividade.
2. Visão Aguçada
A coruja tem hábito crepuscular e noturno e enxerga bem no escuro, o que simbolicamente representa a capacidade de “ver além das aparências” e discernir a verdade onde outros não veem.
3. Cultura Acadêmica
No mundo ocidental, a coruja foi adotada como símbolo de instituições de ensino, livros e estudos, reforçando sua ligação com a erudição e o conhecimento sistemático.
4. Filosofia
Na tradição filosófica ocidental, a coruja está associada à reflexão e ao pensamento racional, e assim é o símbolo da filosofia. O filósofo Hegel, por exemplo, usou a imagem da “coruja de Minerva” para representar o entendimento que surge após os eventos (ao anoitecer, quando a coruja voa).
5. Símbolos dos professores - Docência
A coruja é frequentemente utilizada para representar a profissão do professor, por remeter a inteligência, astúcia, sensibilidade e sabedoria, este símbolo é compartilhado com a Filosofia e outras licenciaturas.
6. Culturas Indígenas e Orientais
Em algumas tradições, a coruja também simboliza intuição e conhecimento oculto, embora em outras possa ter conotações negativas, como animal de mau agouro e presságio de morte.
O símbolo
Segundo pesquisadores, as corujas têm sido frequentemente retratadas desde o Paleolítico Superior até os dias de hoje, em formas que vão de estatuetas e desenhos a cerâmica e postes de madeira, mas, no geral, são genéricas em vez de identificáveis por espécie. A pequena coruja Athene noctua (Little owl) é, no entanto, intimamente associada à deusa grega Atena e à deusa romana Minerva e, portanto, representa sabedoria e conhecimento. Uma pequena coruja com um ramo de oliveira frutificado, e uma Lua nova crescente aparecem em uma moeda grega de tetradracma de 500 a.C. (uma cópia estilizada da qual aparece na moderna moeda grega atual de um euro) e em uma estátua de bronze do século V a.C. de Atena segurando o pássaro em sua mão. Acredita-se que o chamado de uma pequena coruja tenha anunciado o assassinato de Júlio César.
A coruja simboliza, então, a sabedoria, o conhecimento a vigilância. Nos tempos antigos, a coruja era associada a Deusa Atenas, a deusa grega da sabedoria, estratégia e da guerra inteligente, uma deusa civilizacional com muitos atributos e qualidades.
Segundo Boschetti, s/d., os antigos filósofos gregos não faziam distinção entre a luz e a visão. Eles não as viam como duas coisas separadas: a física da luz e a nossa sensação, ou a interpretação que nosso cérebro acaba fazendo dessa física, i.e. da visão. Observando os olhos de cães, pessoas e outros animais, à noite, que estivessem próximas ao fogo, os gregos observaram que dos olhos dos seres vivos saia luz. Como sabiam que a luz provém de uma fonte luminosa, e a única fonte conhecida era o fogo, concluíram que “os seres vivos têm uma tênue chama dentro dos olhos”. Para eles a visão era explicada com uma teoria, segundo a qual a visão estava intimamente ligada ao tato. Acreditavam que de dentro dos olhos projetavam-se raios luminosos que tateavam os objetos e retornavam aos olhos trazendo consigo informações que, ao serem interpretadas pelo cérebro, acabavam gerando a sensação visual. Acreditavam ainda que cachorros viam mais à noite do que os homens, pois a chama de seus olhos era mais intensa que a dos humanos. Argumentavam que os homens não têm boa visão noturna porque, sendo a chama de seus olhos muito tênue, a luz em seu caminho de ida e volta acaba por se perder, ao passo que, durante o dia, a luz projetada dos olhos somava-se à do Sol podendo assim cumprir seu caminho de ida e volta.
Nesta antiga teoria, ver seria lançar raios tênues de luz m que iluminam o mundo, possibilitando a visão a percepção. Ora, ver com a luz do Sol, significa apenas perceber, constatar, apreender.
Entretanto, ver através da noite, com a luz da Lua ou mesmo sem luz, através do véu da indistinção, é a reflexão, a lógica, a indução, e a dedução. É a inteligência, de intus: dentro, mais legere: ler. Esse é o conhecimento reflexivo, de re-flectere, do Latim re, outra vez, novamente, mais flexus, flectere dobrar, dobrado, fletido, do verbo flecterre, imprimir uma força para dobrar, para curvar.
Assim, refletir é o processo executado pelo juízo de voltar-se sobre si mesmo na busca do que é essencial e necessário, este como uma ferramenta para compreender conceitos como conhecimento, obrigação e causalidade.
A coruja enxerga com o mínimo de luz ou com a luz refletida pela Lua, que lança sobre a realidade um véu de indistinção e mistério.
Uma vez que possui olhos especiais, desvela o que está oculto ou imperceptível, ou o latente. Revela o necessário, do latim: necessitas, inevitável, indispensável, originalmente significando: sem volta, formado por nec, não, mais cedere, recuar, ceder, i.e., a verdade, o próprio ser.
Essa riqueza simbólica tornou a coruja o símbolo do Rito Moderno da Maçonaria, Simbolizando sobretudo a sabedoria, o conhecimento e a vigilância, consolidando, assim, a coruja como um ícone universal do saber, da inteligência e da busca pelo conhecimento.
Bibliografia
Vasconcelos. Paulo Sérgio de. Mitos gregos. São Paulo, SP. Objetivo. 1998.
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