INÍCIO

05 agosto 2023

BOEUF BOURGUIGNON

 BOEUF BOURBUIGNON 

DA RITA



Ingredientes
Para a marinada

1 quilo de músculo
1 xícara de chá de vinho tinto
2 folhas de louro
6 ramos de tomilho

Modo de Preparo

1) Corte o músculo em cubos médios de cerca de 3 cm e transfira para uma tigela. Junte as folhas de tomilho, o louro e o vinho. Leve à geladeira para marinar por, no mínimo, 
2) horas (se preferir, deixe a carne marinando na noite anterior ao preparo, mas não deixe passar de 12h).


Ingredientes
Para o ensopado

200 gramas de cogumelos-de-paris frescos
2 cenouras
2 talos de salsão (sem as folhas)
500 gramas de cebola pérola (cerca de 25 unidades)
3 dentes de alho
Um terço de xícara de chá de bacon em cubos (70 g)
1 colher de sopa de extrato de tomate
2 colheres de sopa de farinha de trigo
3 xícaras de chá de água
Azeite a gosto
Sal e pimenta-do-reino moída na hora a gosto
Brotos de hortaliças a gosto para servir


Modo de Preparo
Ensopado 


1) Descasque e corte a cenoura em meias-luas grossas de 1,5 cm. Lave, seque e corte o salsão em fatias grossas de 1,5 cm, na diagonal. Descasque e pique fino os dentes de alho. 

2) Sobre uma tigela, passe os cubos de carne por uma peneira grande (ou escorredor), pressionando bem com uma espátula para escorrer o líquido da marinada.

3) Reserve o líquido da marinada com as ervas e volte a carne para a tigela (nem precisa lavar). Tempere a carne com 1 ½ colher (chá) de sal e pimenta a gosto, salpique com a farinha e misture com as mãos para envolver todos os cubos — essa técnica chamada singer serve para engrossar o molho durante o cozimento. 

4) Leve uma panela grande (que comporte no mínimo 4 litros) ao fogo médio. Quando aquecer, regue com 1 colher (sopa) de azeite e doure os cubos de carne, em etapas, sem amontoar — se colocar tudo de uma vez só, a carne vai cozinhar no vapor em vez de dourar e o resultado será um ensopado menos saboroso. Transfira a carne dourada para uma travessa e repita com o restante, regando a panela com azeite a cada leva.

5) Mantenha a panela em fogo médio, adicione o bacon e mexa até começar a dourar. Acrescente o alho, o extrato de tomate e mexa por 1 minuto. Regue com o o líquido da marinada reservado (com as ervas), a água e misture bem para dissolver os queimadinhos do fundo da panela. 

6) Junte a cenoura e o salsão picados, volte a carne para a panela e misture. Tempere com sal e pimenta a gosto e mantenha a panela em fogo médio. Quando ferver, abaixe o fogo, tampe parcialmente a panela e deixe cozinhar por mais 1 hora e 15 minutos, mexendo de vez em quando. Enquanto isso, prepare a cebola. 

7) Após 1h15 de cozimento, junte as cebolas descascadas inteiras ao ensopado e deixe cozinhar por mais 15 minutos até que a cebola, os legumes e a carne estejam macios.

8) Enquanto isso, com um pano de prato úmido (ou papel toalha), limpe os cogumelos – evite lavar sob água corrente, eles absorvem a água e perdem sabor. Corte cada cogumelo em quartos (se estiverem muito pequenos, corte ao meio).

9) Assim que a carne estiver macia e o molho encorpado, misture os cogumelos e deixe cozinhar por mais 5 minutos. Desligue o fogo, prove e ajuste o sal e a pimenta. Sirva com brotos de hortaliças variadas (ou salsinha picada).


Modo de Preparo
Para descascar as cebolas 

1) Leve uma panela grande com água ao fogo alto para ferver. Enquanto isso, corte e descarte as pontinhas de cada cebola pérola (lado oposto à raiz). Separe uma tigela grande com água e cubos de gelo.

2) Assim que a água ferver, mergulhe as cebolas e deixe cozinhar por 3 minutos. Com uma escumadeira, transfira as cebolas para a tigela com água gelada e mantenha imersas por 2 minutos – o choque térmico cessa o cozimento e solta a casca das cebolas.

3) Para descascar e manter as cebolas inteiras: segure a cebola pela base próxima da raiz e aperte delicadamente para soltar a casca.


CEBOLAS DOURADAS

Se quiser preparar um clássico revisitado, sirva as cebolas douradas em vez de cozinhar com a carne. Depois de descascar, corte cada cebola ao meio e leve uma frigideira antiaderente ao fogo médio. Regue com um fio de azeite e coloque as cebolas, uma ao lado da outra, com o lado cortado para baixo. Deixe dourar por 3 minutos, vire e doure o outro lado por mais 1 minuto. 


PARA CONGELAR

Divida o ensopado em porções, preenchendo até ¾ do recipiente, pois o líquido expande ao congelar. Se for usar saquinhos com fechamento hermético, elimine o ar ao máximo antes de fechar. Deixe amornar um pouco e leve à geladeira para terminar de esfriar, antes de colocar no congelador ou freezer.














NOITE MERCURIAL

















 

THE TASTE OF WHEAT

IL SAPORE DEL GRANO

Lorenzo é um jovem que foi nomeado professor numa pequena aldeia italiana. Um de seus alunos, um menino de 12 anos chamado Duilio, tem sentimentos românticos por Lorenzo. Lorenzo visita a casa de Duilio, encontra-se com sua família e eles se tornam bons amigos. Lorenzo então conhece uma mulher por quem se apaixona. O relacionamento de Lorenzo com a mulher é insatisfatório e eles terminam. Durante esse tempo, Lorenzo se aproxima de Duilio e eles começam um relacionamento amoroso secreto. Muitas coisas mudam depois que a madrasta de Duilio começa a desconfiar de Lorenzo. Eles começam a se encontrar muito raramente e Duilio começa a se comportar desesperadamente para ver Lorenzo. Lorenzo reflete sobre a natureza de seu relacionamento e decide deixar a aldeia e Duilio.

Lorenzo is a young man, who has been appointed as a school teacher in a small Italian village. One of his pupils, 12-year-old boy named Duilio, has romantic feelings toward Lorenzo. Lorenzo visits Duilio's home, meets with his family and they become good friends. Lorenzo then meets a woman with whom he falls in love. Lorenzo's relationship with the woman is unfulfilling and they break up. During this time, Lorenzo grows closer to Duilio and they begin a secret romantic relationship. Many things change after Duilio’s stepmother begins to distrust Lorenzo. They begin to meet very rarely and Duilio starts to behave desperately to see Lorenzo. Lorenzo reflects on the nature of their relationship and decides to leave the village and Duilio.

























04 agosto 2023

SALVADOR ALLENDE

50 ANOS DO CHILE DE SALVADOR ALLENDE

Carolina Amaral de Aguiar e Ignacio Del Valle Dávila

O golpe militar no Chile do dia 11 de setembro de 1973 foi marcado por traços distintos das vidas de Salvador Allende e de Augusto Pinochet. Vários autores de livros e jornalistas que cobriram e estudaram o golpe de Estado relataram à AFP que a ditadura militar no país foi marcada pela traição e o sacrificio de Pinochet e Allende - Pinoche se apoderou do poder recebido pela chefia do Exército e "traiu" a confiança do governo e Allende, dizendo querer viver em democracia, "se sacrificou" em prol do seu ideal.

Usurpando o poder

Com 58 anos, Pinochet havia assumido a chefia do Exército apenas três semanas antes, recomendado por seu antecessor, o general Carlos Prats. 

O general Prats seria assassinado junto com sua esposa poucos meses depois do golpe no Chile, em Buenos Aires, pelos capangas do ditador sanguinário Pinochet. Allende, um médico socialista de 65 anos, o nomeou para o cargo acreditando em sua lealdade.

Ninguém suspeitava que seria Pinochet, considerado um general medíocre, quem derrotaria Allende, eleito presidente em sua quarta tentativa, no dia 4 de novembro de 1970, liderando a Unidade Popular, integrada por socialistas, comunistas, radicais e outras correntes de esquerda.

"Meu pai acreditou até o fim nele, porque havia sido recomendado pelo general Prats. Para ele deve ter sido terrível perceber sua traição", narra à AFP sua filha, a senadora Isabel Allende.

Pinochet passou a liderar as ações golpistas, embora "não tenha tido papel algum na gestação do golpe e tenha embarcado nele apenas 48 horas antes", afirma à AFP a jornalista Mónica González, autora do livro "La Conjura", que narra o complô para derrubar Allende. Vejam só, o modus operandi desses generais sanguessugas, golpistas da caserna, que recebem tudo do povo e não se contentam o que recebem. Sua ideologia fascista os impele a tramar golpes e mais golpes contra o povo que paga seu soldo.

Candidato da Unidade Popular, Salvador Allende foi eleito há 50 anos, em 4 de novembro de 1970 (Foto: Reprodução)

Nos últimos dias (matéria Revista Cult de 4/XI/2020) o Chile esteve entre os temas políticos mais comentados mundialmente por conta da aprovação, via plebiscito, de um processo que colocará fim a Constituição de 1980. Esta Carta magna, provavelmente, é um dos vestígios mais sólidos remanescentes da ditadura de Augusto Pinochet. Por capricho da História, ao mesmo tempo em que põe fim ao legado institucional do ditador, o Chile celebra também os 50 anos da posse de Salvador Allende, ocorrida em 4 de novembro de 1970.

Candidato da Unidade Popular, aliança de esquerda que incluía os partidos Socialista e Comunista, Allende foi responsável por renovar as esperanças das esquerdas mundiais ao mostrar que era possível unir socialismo e democracia, reativando esse campo político após as desilusões com a União Soviética ante os crimes de Stálin revelados no XX Congresso do Partido Comunista (1956) e a invasão da Tchecoslováquia (1968). Com o êxito da Unidade Popular, a América Latina se tornava, como ocorrera em 1959 com a Revolução Cubana, um laboratório político.

O impacto dessa vitória fora das fronteiras chilenas motivou o historiador francês Olivier Compagnon a utilizar a noção de “evento-mundo” para descrever os holofotes recebidos tanto pelo êxito desse governo como por sua trágica derrocada, três anos depois. Em 1973, o Chile voltava aos noticiários políticos internacionais, que veiculavam as imagens do palácio presidencial em chamas e a informação sobre o suicídio do presidente. O golpe de Estado transformava em ruínas os sonhos de políticos, intelectuais e artistas convulsionados por esse projeto. Na ocasião, o então secretário-geral do Partido Comunista Italiano, Enrico Berlinguer, publicou um célebre artigo no qual descrevia os acontecimentos chilenos como um trauma para todos aqueles que defendiam a democracia.

De modo menos simbólico e
mais corpóreo, o fim de Allende
era também uma nova derrota
para muitos brasileiros que
buscaram exílio durante a
Unidade Popular.


Políticos da esquerda francesa, que trabalhava por uma aliança nos moldes da Unidade Popular em torno da candidatura presidencial de François Mitterrand, visitaram o Chile. O socialista Claude Estier, em 1970, esteve no país latino-americano, para o qual retornou no ano seguinte acompanhado de Gaston Defferre e do próprio Mitterrand – quem, aliás, era frequentemente chamado pela imprensa francesa dessa época de “o Allende francês”.


Entre os líderes mundiais que prestigiaram Allende, muitos viam em sua figura um modo de se projetar positivamente para setores progressistas de seus países. O presidente do México, Luis Echeverría Álvarez, que visitou o Chile em abril de 1972 durante a III Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, buscava afastar-se do histórico negativo de ter sido Ministro do Interior em 1968, quando ocorreu o Massacre de Tlatelolco. A visita mais complexa foi a de Fidel Castro, que permaneceu um mês no Chile em novembro de 1971, adotando uma postura de apoio ao “irmão” socialista do Sul sem, no entanto, perder a oportunidade de questionar acidamente os limites da chamada “via pacífica ao socialismo”.

No campo da cultura, o Chile da Unidade Popular também atraiu intelectuais, artistas e cineastas de várias partes do mundo. O intercâmbio com latino-americanos foi intenso. O documentarista cubano Santiago Álvarez, por exemplo, esteve duas vezes no país (em 1970 e 1971). Em relação aos europeus, os cineastas Costa-Gavras e Chris Marker viajaram juntos para lá em 1972, onde Gavras rodou o filme Estado de sítio.

Ainda no meio do cinema, nesse mesmo ano, os chilenos receberam a visita do crítico da Cahiers du Cinéma Pierre Kast, do produtor italiano Renzo Rosselini, do compositor grego Mikis Theodorakis, do cineasta húngaro Miklós Jancsó, entre muitos outros. O prestigiado fotógrafo francês Raymond Depardon registrou com maestria a atmosfera dos anos de Allende numa série de fotos tiradas em sua visita em 1971, que se converteram em documentos visuais das agitações políticas que tomaram as ruas do país.

Intercâmbios entre Chile e Brasil

As relações culturais entre o Chile e o Brasil foram particularmente intensas a partir de meados dos anos 1960. O golpe de Estado de 1964 levou muitos intelectuais brasileiros a se exilarem em território chileno, que era também a sede da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL). Nessa época, o governo desenvolvimentista do democrata-cristão Eduardo Frei empreendia uma série de reformas voltadas à educação e à propriedade agrária.

No final dos anos 1960 e no começo dos 1970 viveram no país andino personalidades diversas como Fernando Henrique Cardoso, José Serra, César Maia – seu filho, Rodrigo Maia, nasceu em Santiago –, Paulo Freire, Thiago de Mello, entre outros. Em muitos casos, esses brasileiros tiveram uma participação ativa na vida intelectual e política chilena. FHC foi professor da Universidade do Chile. Paulo Freire trabalhou para a reforma agrária de Frei e escreveu, no Chile, seu primeiro livro. O poeta Thiago de Mello, por sua vez, desenvolveu uma relação estreita com Pablo Neruda e Violeta Parra chegou a representa-lo em seus famosos trabalhos em tear.

Trabalhadores chilenos marcham em apoio a Salvador Allende em 1964 (Foto: Domínio Público)

Com a chegada da Unidade Popular ao poder, esses intercâmbios se intensificaram. Intelectuais como Mario Pedrosa e Ferreira Gullar viveram no país andino durante esse governo. Pedrosa esteve à frente da criação do Museu de Solidariedade ao Chile, iniciativa nascida durante um encontro em Santiago que contou com a presença dos também críticos de arte José María Moreno Galván e Giulio Carlo Argan. Inaugurado oficialmente em 1972, tratava-se de um museu colaborativo constituído por obras doadas por artistas de todo o mundo que se declaravam solidários à causa socialista chilena. Após o golpe, Pedrosa seguiu com o projeto, que passou a se chamar Museu da Resistência Salvador Allende, organizando mostras em distintos países.

O campo do cinema é particularmente interessante para pensar nos intercâmbios entre Brasil e Chile naquela época. Affonso Beato – diretor de fotografia de Glauver Rocha e, anos depois, de Walter Salles e Pedro Almodóvar – trabalhou com o diretor chileno Miguel Littin no longa-metragem A terra prometida (1973), um dos principais filmes chilenos da época. O próprio Glauber chegou a passar no Chile uma temporada, em 1971, onde desenvolveu o projeto de um filme não-realizado. Sua residência, a poucos metros do Palácio de La Moneda, foi o Hotel Carreira, que Glauber descreveu como um “centro do contrabando de dólares e de agentes da CIA”. Em setembro de 1973, desde esse mesmo lugar, as câmeras estrangeiras filmaram as impressionantes imagens do bombardeio do palácio presidencial.

Em 13 de janeiro de 1971, o governo de Allende recebeu 70 presos políticos brasileiros trocados pelo embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher. Entre eles, estava o diretor Luiz Alberto Barreto Leite Sanz, que filmou no Chile, junto ao cineasta Pedro Chaskel, o documentário Não é hora de chorar (1971). Trata-se de uma impactante denúncia sobre a tortura cometida pela ditadura brasileira. No Chile também se filmou, no mesmo ano e com mesmo grupo de exilados, Brasil: um relatório de tortura, dos norte-americanos Haskell Wexler e Saul Landau. Nos dois documentários, que estão entre os poucos produtos audiovisuais da época que trataram da tortura no Brasil, os ex-prisioneiros narram e reencenam as violências sofridas. Entre os entrevistados dos dois filmes, estavam Frei Tito, Jean Marc Von Der Weid (ex-presidente da UNE) e Maria Auxiliadora Lara Barcelos.


Todo esse processo de intercâmbios
se encerrou bruscamente com o
golpe de Estado de 11 de setembro de
1973, que deu início à ditadura de
Augusto Pinochet.


No caso de muitos brasileiros, o golpe os obrigou a sair no Chile, iniciando um segundo e doloroso exílio. “Tinha que sair daquele maldito país antes que fosse tarde demais”, escreveu Ferreira Gullar em seu livro Rabo de foguete (1998). A porta da casa do poeta foi pichada com a palavra “comunista” no mesmo dia em que morria Allende, sintetizando o perigo que tanto ele como outros milhares de chilenos e estrangeiros começavam a correr no Chile.

A queda de Allende foi também um marco na trajetória dessa intelectualidade brasileira. Muitos acabaram desiludidos da política; outros ganharam um protagonismo ainda maior, mas se afastaram bastante dos projetos revolucionários ou reformistas; somente uma minoria continuou defendendo os ideais da Unidade Popular. A necessidade de um segundo ou terceiro exílio foi um fardo insustentável para alguns, como ocorreu com Maria Auxiliadora, que se suicidaria três anos depois em Berlim Ocidental. Dora, como era chamada, é uma das personagens centrais do documentário Retratos de identificação (2014), de Anita Leandro.

Após 11 de setembro de 1973, outros ventos sopraram no Chile, mais violentos e autoritários. No entanto, curiosamente, o país voltou a ser laboratório político e econômico que despertaria atenção internacional. O novo projeto era radicalmente distinto das ideias da CEPAL e totalmente oposto à via democrática ao socialismo representada por Allende. Chegou ao Chile pelas mãos de economistas ali nascidos, mas formados na Universidade de Chicago, que logo encontraram cargos importantes na ditadura. Esse novo projeto, a cargo dos “Chicago boys”, é o neoliberalismo.

Carolina Amaral de Aguiar é professora de História da América na Universidade Estadual de Londrina (UEL). Doutora em História Social pela USP.

Ignacio Del Valle Dávila, chileno radicado no Brasil, é professor de Cinema e Audiovisual na Universidade Federal da Integração Latino-americana (UNILA) e professor da Pós-graduação em Multimeios da UNICAMP. Doutor em Cinema pela Universidade de Toulouse.



Fonte



























O FASCISMO DA COR

FASCISMO DA COR - UMA RADIOGRAFIA DO DO RACISMO NACIONAL 










A racialização pós-abolicionista era uma estratégia endocolonial de construção de fronteiras sociais internas, ideologicamente respaldada por saberes pseudocientíficos sobre a inferioridade antropológica do negro, assim como por interesses econômicos, no sentido de atribuir menor valor salarial à sua força de trabalho como homem livre. Pode-se vislumbrar correspondências entre esses propósitos e os do fascismo emergente na Europa. O racismo passa a funcionar como estratégia de hierarquização social dentro de uma cadeia de continuidade que se pauta por novas regras.


(…)


“Como se pode ver, a estrutura escravista – entendida como a organização interna de uma realidade ou então como um a priori incondicionado – comportava brechas ou fissuras, a despeito do fechamento institucional. No balanço posterior, porém, isso foi de fato “uma aurora que não deu dia”, como se verificou em seguida à Abolição, quando a estrutura deu lugar a um esquema existencial derivado de relações espaçotemporais com o afro-brasileiro – isto é, deu lugar à forma social escravista –, que implica, no limite, uma máscara ou uma maquiagem da discriminação racial. Esta, mais do que “estrutural” na acepção rigorosa do termo, é de fato concreta e vital, o que implica uma historicidade singular.”


“A história de vida de Nilo Peçanha (1867-1924), o sétimo presidente da República, caracteriza parcialmente o funcionamento dessa forma social. Um dos políticos mais destacados do século XX, ele nasceu em Campos dos Goytacazes, filho de um modesto padeiro (conhecido como “Sebastião da Padaria”) e de uma filha de agricultores, gente pobre que às vezes o alimentava, segundo suas próprias palavras, “a pão dormido e paçoca”. Tinha pele escura, o que permite classificá-lo fenotipicamente como negro, preto, mulato ou pardo. Desta gradação não tinha dúvidas a imprensa da época, que costumava publicar charges e anedotas sobre a sua cor, nem os círculos aristocráticos de Campos, que a ele se referiam como “o mulato do Morro do Coco”, em alusão ao bairro pobre de onde provinha.


Como relacionar essa história à forma social escravista? Para começar, as “dúvidas” identitárias partiam do próprio Nilo que, embora abolicionista, recusava-se a ser identificado como não branco. Costumava esconder por maquiagem a cor da pele. E tudo isso pôde ser visto por Gilberto Freyre como uma espécie de drible futebolístico – por malícia e negaça – nas restrições racistas de toda ordem. Nilo casou-se com mulher branca (neta do Visconde de Santa Rita e bisneta do Barão de Muriaé), um feito escandaloso na época. Teve uma carreira política fulgurante no parlamento e no estado até a vice-presidência da república quando, por morte de Afonso Pena, tornou-se presidente (1909-1910).”


Trecho de O fascismo da cor. Muniz Sodré






Fontes