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04 agosto 2022
02 agosto 2022
VARÍOLA DO MACACO
O QUE É A VARÍOLA DOS MACACOS?
A varíola dos macacos é uma zoonose causada pelo vírus monkeypox, do gênero Orthopoxvirus, pertencente à família Poxviridae. A essa família, também pertencem os vírus da varíola e o vírus Vaccínia, a partir do qual a vacina contra varíola foi desenvolvida pelo médico Edward Jenner em 1796.
DUAS CEPAS
Há duas cepas geneticamente distintas do vírus da varíola dos macacos: a cepa da Bacia do Congo (África Central) e a cepa da África Ocidental. As infecções humanas com a cepa da África Ocidental parecem causar doença menos grave em comparação com a cepa da bacia do Congo.
TRANSMISSÃO
A varíola dos macacos é transmitida principalmente por contato direto ou indireto com sangue, fluidos corporais, lesões na pele ou mucosas de animais infectados. A transmissão secundária ou de pessoa a pessoa pode acontecer por contato próximo com secreções infectadas das vias respiratórias ou lesões na pele de uma pessoa infectada, ou com objetos contaminados recentemente com fluidos do paciente ou materiais da lesão. A transmissão ocorre principalmente por gotículas respiratórias. Esta enfermidade também é transmitida por inoculação ou através da placenta (varíola dos macacos congênita). Não há evidência de que o vírus seja transmitido por via sexual, todavia, pode ser passado durante a relação sexual pela proximidade entre as pessoas.
TRATAMENTO
Não há tratamentos específicos para a infecção pelo vírus da varíola dos macacos. Os sintomas costumam desaparecer espontaneamente, sem necessidade de tratamento. A atenção clínica deve ser otimizada ao máximo para aliviar os sintomas, manejando as complicações e prevenindo as sequelas em longo prazo. É importante cuidar da erupção deixando-a secar, se possível, ou cobrindo-a com um curativo úmido para proteger a área, se necessário. Evite tocar em feridas na boca ou nos olhos. Enxaguantes bucais e colírios podem ser usados desde que os produtos que contenham cortisona sejam evitados. Um antiviral desenvolvido para tratar a varíola (tecovirimat, comercializado como TPOXX) também foi aprovado em janeiro de 2022.
O MISTERIOSO VÍRUS "IMPOSTOR" QUE NOS PROTEGE DA VARÍOLA DOS MACACOS (1)
Na virada do século XIX, um bizarro pânico tomou conta de Londres. Panfletos informativos foram distribuídos. Livros alarmistas foram escritos. Surgiram tratamentos duvidosos. A população foi alertada, em massa, que estava em perigo, com o risco iminente de... se transformar em vacas-humanas.
Um pequeno, e controverso (para ser educado), grupo de médicos estava fomentando preocupações (alarmista e irracionais) sobre um procedimento pioneiro, que incluía pegar um vírus que infectava o gado com varíola bovina (cowpox) e usá-lo para proteger as pessoas contra varíola humana (smallpox).
A técnica foi chamada de "vacinação", nome que deriva do termo em latim "vaccinus", que significa "da vaca", (of or derived from a cow), e as primeiras evidências sugeriam que era extraordinariamente eficaz, protegendo 95% das pessoas de uma infecção que geralmente matava cerca de 30% de suas vítimas e desfigurava permanentemente a maior parte do resto.
Havia até mesmo uma expectativa inicial de que se pudesse acabar com a doença para sempre.
Em particular, estes médicos dissidentes estavam convencidos de que o "humor bestial", o vírus da varíola bovina (cowpox), não tinha lugar no corpo humano.
Entre as alegações mais absurdas, estava a insinuação de que as crianças vacinadas haviam começado a desenvolver características bovinas, como as manchas das vacas leiteiras, ou que corriam risco de ter pensamentos semelhantes aos de bois. Um proeminente defensor destas teorias disse que as mulheres vacinadas podiam começar a sentir atração por touros.
O fato é que os primeiros céticos em relação às vacinas tinham entendido tudo errado (ou deliberadamente não quiseram entender). É claro que a nova técnica não transmitia a essência bovina para pessoas, o cowpox era apenas um vírus normal e, nos séculos seguintes, levaria à extinção da varíola. Mas também pode nunca ter tido nada a ver com as vacas.
Na verdade, até hoje ninguém sabe com certeza de onde veio o vírus que erradicou a varíola.
No entanto, este micróbio misterioso ainda está sendo usado, inclusive nas vacinas que estão sendo aplicadas atualmente contra a varíola dos macacos, que agora foi declarada uma emergência de saúde global pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Depois de ser encontrado principalmente na África nas últimas cinco décadas, o vírus causador da varíola dos macacos (monkeypox) começou a se espalhar pelo mundo em maio de 2022.
Para combatê-lo, os cientistas recorreram a duas vacinas usadas anteriormente contra a varíola, ACAM2000 e JYNNEOS.
Estas são as únicas licenciadas nos EUA para proteger contra o vírus emergente (a União Europeia também aprovou recentemente a versão JYNNEOS).
Ambas são excepcionalmente seguras e consideradas altamente eficazes, mas também fazem parte do enigma.
Por mais de um século, a comunidade científica supôs amplamente que a vacina contra a varíola foi feita a partir do vírus cowpox, esta é a explicação ainda encontrada em muitos sites e salas de aula em todo o mundo.
Mas em 1939, quase 150 anos após a invenção da vacinação, testes moleculares revelaram que não. Mais recentemente, o sequenciamento genético confirmou esta conclusão.
Em vez disso, as vacinas que foram usadas para erradicar a varíola, e aquelas em uso hoje contra a varíola dos macacos, são baseadas em um vírus desconhecido que ninguém conseguiu identificar, um patógeno "fantasma" que só foi encontrado na forma de vacina.
Apesar de uma busca de 83 anos, ninguém sabe como, por que ou exatamente quando este "impostor" apareceu na vacina contra a varíola, ou se ainda existe na natureza.
Apenas uma coisa é clara: milhões de pessoas que sobreviveram ao reinado da varíola devem suas vidas à sua existência.
Sem ele, o atual surto de varíola dos macacos provavelmente se espalharia ainda mais rápido.
"Por muitos anos, até 1939, as pessoas supunham que o que chamamos de (vírus) vaccinia, da vacina contra a varíola, era o mesmo que cowpox", diz José Esparza, virologista e membro do Instituto Robert Koch, na Alemanha.
"Descobriu-se então que eram diferentes. E, desde então, aceitamos que o cowpox é um vírus, e o vaccinia é outro vírus de origem desconhecida."
Como isso aconteceu? De onde este vírus pode ter vindo? E será que um dia vamos ser capazes de encontrá-lo em seu hospedeiro natural?
Uma aflição bem inglesa
A varíola é uma doença viral aguda contagiosa que é exclusiva dos seres humanos e é causada pelo vírus da varíola, tradicionalmente chamado de vaccinia ou vaccinus, um ortopoxvírus. Não se sabe com certeza neném onde e nem quando a varíola iniciou, porém os registros mais antigos provém de três múmias do antigo Egito do séc. III a.C e a descrição mais antiga de uma doença que se parece com a varíola vem da China do sec. IV d.C. (segundocientista).
Esse vírus tem duas variantes principais chamadas Varíola major e Varíola minor. Após uma campanha mundial de erradicação da varíola que incluiu uma ampla gama de medidas como vacinação em massa de toda a população, contenção (isolamento de pacientes) e vigilância, o último caso registrado de varíola endêmica ocorreu na Somália em 1977, e a erradicação da doença foi declarada em 1980 (OMS 1980). Entretanto, há uma preocupação crescente de que os estoques do vírus da varíola possam ter residido em laboratórios diferentes dos dois repositórios designados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) (Henderson 2001). O vírus é um dos vários microrganismos amplamente conhecidos que poderiam ser usados como arma biológica com grande potencial de devastação (Henderson 1999b, Metzger, 2007).
HISTÓRIA
O homem que recebeu universalmente o crédito por inventar a vacinação é Edward Jenner, um cirurgião que anunciou sua descoberta em 1796.
A história habitual de como ele fez isso é um conto atraente que envolve belas ordenhadoras de leite, momentos "eureka" e experimentos eticamente questionáveis.
Mas acontece que essa história não é totalmente precisa.
A versão mais conhecida é mais ou menos assim. Edward Jenner notou que as ordenhadoras de leite geralmente tinham a pele excepcionalmente lisa, sem as marcas de varíola que afligiam grande parte da população, até 85% daqueles que se recuperavam da varíola podem ter ficado com um número significativo de cicatrizes características da doença no rosto.
Ele percebeu que as ordenhadeiras que contraíam varíola bovina (cowpox), que é mais branda, durante seu ofício ordenhando as vacas, eram menos propensas a pegar varíola, e quando pegavam, a doença se mostrava com sintomas leves.
Para provar isso, ele infectou o menino James Phipps, de oito anos de idade, (filho de seu jardineiro), com varíola bovina, colhido de pústulas de uma ordenhadeira chamada Sarah Nelmes. O menino, desenvolveu a doença (cowpox), cujos sintomas são leves, quando comparados com a varíola. Depois que o menino se recuperou Jenner o expôs intencionalmente à varíola humana (smallpox) para ver se ele ainda era suscetível e ficaria doente. Por sorte, ele havia desenvolvido a imunidade contra o vírus e sobreviveu.

Há muitos ortopoxvírus na natureza e muitos hospedeiros possíveis, portanto, caçar o vírus que serviu de base para as vacinas contra a varíola é um desafio.
Na verdade, a descoberta fortuita aconteceu quase três décadas antes, por meio de um médico do interior que acabara de se mudar para a cidade mercantil de Thornbury, em Gloucestershire.
Lá, John Fewster estabeleceu a prática da "variolação", um antigo método para proteger as pessoas contra a varíola, que consistia em esfregar uma pequena quantidade de pus proveniente de uma pústula de varíola em uma incisão no braço de um indivíduo não infectado.
O procedimento havia sido usado em toda a Ásia, da Índia ao Tibete, durante séculos, mas era amplamente desconhecido para os europeus até que Lady Mary Wortley Montagu tomou conhecimento do mesmo em Istambul (então Constantinopla), e o popularizou no Reino Unido do século 18.
Se corresse bem, a técnica geralmente gerava uma única marca de varíola no local da infecção, o que indicava que o sistema imunológico da pessoa havia aprendido a reconhecer o vírus.
Se desse errado, e a infecção se espalhasse, como em cerca de 2% a 3% dos casos, o paciente geralmente morria.
Mas em Thornbury, vários moradores não reagiram à "variolação", nenhuma marca de varíola foi gerada e, apesar das repetidas tentativas, o procedimento não teve sucesso. Fewster estava perplexo.
Até que, um dia, um agricultor explicou que havia sido infectado recentemente com varíola bovina, e já tinha imunidade.
"A varíola bovina estava confinada em grande parte ao sudoeste do Reino Unido [na época]", diz o patologista aposentado Arthur Boylston, autor do livro Defying Providence: Smallpox and the Forgotten 18th-Century Medical Revolution (Desafiando a Providência: a Varíola e a Revolução Médica Esquecida do Século XVIII, em tradução livre).
Ele conta que nunca foi particularmente comum, surtos só ocorriam a cada poucos anos, e, embora os agricultores da região geralmente estivessem cientes de que existia, apenas a geração mais jovem havia associado à proteção contra a varíola.
Acredita-se que esta sabedoria popular acabou chegando a Jenner, que frequentava a mesma sociedade médica que Fewster.
Em 14 de maio de 1796, Jenner pegou então um pouco de pus de uma marca de varíola bovina da mão de uma ordenhadora de leite que havia contraído a doença de uma vaca chamada Blossom. O material coletado foi usado para vacinar o menino de oito anos.
Seis semanas depois, a criança foi "variolada" e, quando não reagiu desenvolvendo uma pústula, Jenner percebeu que a técnica pioneira havia funcionado.
"O que eles estavam observando é o que sabemos hoje, que todos os poxvírus produzem imunidade entre espécies", explica Esparza.

Acredita-se que o rato-gigante-africano, que, aliás, são muitas vezes treinados como especialistas em remoção de minas terrestres, estão entre os hospedeiros naturais do vírus causador da varíola dos macacos.
Acredita-se que o rato-gigante-africano, que, aliás, são muitas vezes treinados como especialistas em remoção de minas terrestres, estão entre os hospedeiros naturais do vírus causador da varíola dos macacos
Mas, em 1939, até mesmo esta versão dos acontecimentos esbarrou numa questão.
Quando os cientistas testaram os anticorpos do vírus cowpox (da varíola bovina) na vacina contra a varíola que supostamente era feita a partir dele, descobriram que no fim das contas não eram iguais, eram dois vírus totalmente diferentes.
Um grande grupo de vírus
O que acontece é que os humanos não estão sozinhos em sua batalha contra os poxvírus.
Esta vasta e abrangente família inclui dezenas de vírus, cada um com seu próprio nicho em uma ampla variedade de animais, até mesmo os escaravelhos apresentam suas próprias versões.
Dentro dela, há o grupo dos ortopoxvírus, ao qual pertence o vírus da varíola, que poderia ser chamada de varíola humana.
No mesmo grupo, estão outros vírus de mamíferos, incluindo horsepox (cavalos), camelpox (camelos), buffalopox (búfalos), rabbitpox (coelhos), mousepox (camundongos), monkeypox (macacos) e raccoonpox (guaxinim).
O (víurus) vaccinia é apenas mais um vírus membro deste grupo, que foi usado para inocular quase todos os nascidos antes do início da década de 1970 contra a varíola, até que a vacinação fosse interrompida.
Mas encontrar seu ancestral selvagem entre os diversos ortopoxvírus mostrou-se algo complicado.
Um possível candidato é o horsepox.
No artigo original de Jenner sobre vacinação, ele descreve suas suspeitas de que a varíola bovina pode, na verdade, se originar em cavalos, nos quais é conhecida como "graxa".
Em um caso, o jardineiro do Conde de Berkeley notou que os cavalos com os quais trabalhava estavam contraindo a doença e, mais tarde, a passaram acidentalmente para o rebanho de vacas que ele estava ordenhando — e para ele próprio.
Vinte e cinco anos depois, o mesmo homem apareceu com a família para uma sessão de "variolação" conduzida por Jenner.
Não funcionou, embora o procedimento tenha sido repetido várias vezes, nada aconteceu.
Mais tarde, quando toda a família do homem adoeceu com varíola, ele "não sofreu qualquer dano por exposição ao contágio".
Sem saber se estava trabalhando com cowpox ou horsepox, ou um vírus que rotineiramente pula entre ambos, Jenner seguiu em frente.
Após inventar a vacina, ele dedicou o resto de sua vida a distribuí-la e aperfeiçoar as formas de aplicação.
Mas os surtos de cowpox eram raros e, à medida que a técnica ganhava popularidade, encontrar material infeccioso suficiente se tornou um grande desafio.
Após a primeira experiência de vacinação de Jenner, ele não pôde fazer mais pesquisas por dois anos, quando a doença desapareceu temporariamente da região.
As primeiras tentativas subsequentes de Jenner de vacinação foram baseadas na transferência do vírus protetor de pessoa para pessoa, cada novo paciente infectado se tornava um estoque de pus que poderia ser usado para vacinar outra pessoa.
Não havia etapas de purificação e nenhum suprimento refrigerado de ampolas de vacina.
Os primeiros céticos em relação à vacina do mundo estavam preocupados com a inoculação do vírus causador da varíola bovina
Um método mais sofisticado envolvia embeber pedaços de linha em material infeccioso e depois secá-lo, isso possibilitou espalhar rapidamente a vacina para os cantos mais distantes do planeta.
Em 1800, Jenner enviou uma linha revestida de pus em uma viagem de 3.656 km até Newfoundland, no Canadá, onde foi usada com sucesso para vacinar centenas de pessoas.
Infelizmente, estas técnicas não eram totalmente confiáveis, e se a cadeia de transmissão fosse quebrada, todo o processo teria que recomeçar do início. Isso significava encontrar uma nova vaca com vírus.
Uma solução era simplesmente ampliar a base animal envolvida, e os cavalos eram uma segunda escolha óbvia.
Logo ficou claro que o poxvírus colhido diretamente de cavalos funcionava tão bem quanto o de vacas, tão bem que, em 1817, Jenner abandonou a "vacinação" e voltou toda sua atenção para a "equinação" (que seria a inoculação com horsepox).
E aqui suas redes de distribuição, assim como as de outros que dependiam do poxvírus de cavalos, começaram a ter impacto.
Em 1817, Jenner enviou um estoque de linfa, fluido infeccioso retirado de indivíduos equinados, que na época estava sendo preservado em lancetas de ouro, em vez de linhas secas, para o National Vaccine Establishment.
A partir deste centro em Londres, foi enviado para muitos outros médicos.
Poderia ter sido aí que a inoculação à base de cowpox começou a ser substituída por uma feita a partir de horsepox? Ou o vírus sempre foi o horsepox que havia sido passado para as vacas?
Reviravolta inesperada
Embora tenham se passado séculos desde as primeiras vacinações contra a varíola, ainda há relíquias dos antigos vírus usados escondidas em museus e coleções ao redor do mundo, principalmente na forma de cascas de feridas e linfas de kits de vacinação.
Em 2017, uma equipe internacional de cientistas liderada por Esparza descobriu uma vacina que havia sido fabricada na Filadélfia em 1902.
Os ortopoxvírus possuem genomas extraordinariamente grandes que consistem em DNA de cadeia dupla, e os pesquisadores conseguiram reunir um genoma quase completo a partir da amostra histórica que tinham.
"Estas vacinas são mantidas em temperatura ambiente há mais de 100 anos", diz Esparza.
Segundo ele, só foi possível sequenciar o material genético degradado por causa das sofisticadas técnicas modernas.
O que os cientistas descobriram reforçou a suspeita de longa data sobre a confusão em relação ao vírus da vacina : não havia evidência de cowpox na cepa que eles testaram e, em vez disso, era intimamente ligada a um vírus horsepox identificado na Mongólia em 1976.
"Esta é a única sequência que temos para horsepox, a única", diz Esparza.
"E é muito parecido."
Desde então, a equipe sequenciou muitas outras vacinas históricas.
"Em 31 amostras, não encontramos cowpox em nenhuma delas", diz Esparza.
Outro estudo concluído por uma equipe diferente encontrou resultados semelhantes. Além do horsepox, as vacinas, da Filadélfia de meados do século XIX apresentavam boa compatibilidade para um vírus endêmico do Brasil, o vírus Cantagalo, que causa surtos periódicos em bovinos.
Mais uma vez, não era cowpox, acredita-se que tenha descendido de uma vacina contra a varíola que escapou para a natureza há muitos anos.
Tudo indica que a maioria destas vacinas do século 19 e início do século 20 realmente foram feitas a partir de horsepox, ou o cowpox nunca foi usado, ou foi substituído por seu primo equino notavelmente rápido.
Mas este não é o fim do enigma.
"Há um mistério que ainda não resolvemos", diz Esparza.
Sua equipe descobriu recentemente evidências,ainda não publicadas, de uma mudança radical nas vacinas usadas para prevenir a varíola, que aconteceu por volta de 1930.
"Estamos investigando isso agora", afirma.
Quando a equipe sequenciou as vacinas mais recentes contra a varíola, descobriu que nesta época elas passaram por uma transformação.
Em vez de serem compostas essencialmente do vírus horsepox, foram baseadas principalmente no vírus misterioso encontrado nas vacinas atuais.
"A [sequência] principal que costumava ser do vírus horsepox até 1930 mudou para o moderno vaccinia, que também é uma sequência de ortopoxvírus, mas não sabemos a origem deste vírus. Não é cowpox", explica Esparza.
Mas como substituiu a vacina anterior? De quê podia ser feita? E será que ainda poderia existir na natureza?

As lesões da varíola se desenvolviam ao longo de vários dias, se espalhando da garganta para o rosto e extremidades e, em seguida, pelo resto do corpo.
Um vírus desaparecido
Na opinião de Esparza, o salto repentino de um tipo de vacina contra a varíola para outro provavelmente se deve à forma como as vacinas foram distribuídas.
"Nos primeiros 100 anos [de vacinas], elas eram mantidas de braço em braço em humanos", afirma Esparza.
"Em 1860, cientistas na Itália e na França introduziram a vacina animal, em vez de passar o vírus de humano para humano, eles descobriram que poderiam colocá-lo de volta nas vacas e mantê-los nas vacas."
Posteriormente, este sistema de produção em massa se expandiu para incluir outros animais, como ovelhas, cavalos e burros.
Em algum momento, um vírus de um animal desconhecido começou a ser usado como vacina contra a varíola.
Não há registros de quem fez isso, ou de quando, por que ou como fizeram isso, mas é possível que tenha sido apenas um acidente, alguém coletou o que pensava ser cowpox ou horsepox de um animal de fazenda, quando era, na verdade, um "impostor" aleatório não identificado.
Como funcionou bem, ninguém percebeu.
Algum tempo depois de 1930, este vírus misterioso se tornou a base da vacina mais comum, e, em meados do século 20, havia centenas de versões diferentes circulando pelo mundo.
Em 1966, a OMS anunciou a campanha de erradicação da varíola e escolheu apenas seis cepas como base para as vacinas que seriam usadas para atingir este objetivo.
A cada década que passava, a dominação do vírus desconhecido se tornava mais arraigada.
Mas onde ele está agora, e por que ninguém nunca encontrou o hospedeiro natural do vaccinia?
Embora o surgimento da varíola dos macacos possa parecer indicar que os poxvírus estão prosperando, por muito tempo, vários estiveram altamente ameaçados de extinção, e o causador da varíola pode não ser o único que desapareceu.
Acredita-se que o horsepox já causou surtos regulares em partes da Europa — pode até ter sido comum, mas não é identificado na natureza desde 1976, quando cavalos começaram a adoecer com lesões e sintomas semelhantes ao da febre na Mongólia.
Acredita-se que melhores práticas de criação animal e melhores diagnósticos podem tê-lo levado à extinção.
"O horsepox basicamente desapareceu da Europa no início do século 20", diz Esparza, explicando que o vírus misterioso usado nas vacinas modernas contra a varíola pode ter tido o mesmo destino.
"Nós especulamos sobre esta possibilidade."

O vírus horsepox pode ter sido usado para fabricar algumas das primeiras vacinas contra a varíola, agora acredita-se que está extinto.
O vírus horsepox pode ter sido usado para fabricar algumas das primeiras vacinas contra a varíola, agora acredita-se que está extinto
No entanto, Esparza lamenta que não tenham sido feitas pesquisas suficientes.
Uma vez que o vírus causador da varíola foi erradicado, o interesse em estudar seus parentes acabou, e hoje são poucos os grupos de pesquisa que buscam identificar novos poxvírus, como aquele que pode ser o ancestral do vaccinia.
"Então, talvez o atual surto [de varíola dos macacos] estimule mais ciência... significando mais concorrência por trabalho", ri Esparza.
Um novo uso
Na verdade, hoje o vírus misterioso é mais útil do que nunca.
A varíola dos macacos é um parente próximo da varíola geralmente encontrada na África central tropical, onde tende a infectar roedores e primatas não humanos.
É mais difícil de pegar do que sua prima e é transmitida principalmente por contato próximo com fluidos corporais ou objetos contaminados, como roupas de cama.
Diferentemente da varíola, a varíola dos macacos raramente é mortal, mas há relatos de casos mais graves que se assemelham a infecções sexualmente transmissíveis.
Geralmente causa febre, seguida de lesões que podem ter pus e ser extremamente dolorosas.
O vírus monkeypox foi descoberto pela primeira vez em 1970 e, até recentemente, as infecções estavam confinadas principalmente à África.
Mas, em maio de 2022, começou a se espalhar pelo mundo, uma disseminação sem precedentes.
Para desacelerar a propagação, muitos países encomendaram milhões de doses de duas vacinas.
Ambas são "descendentes diretas" do mesmo vírus enigmático que se tornou a vacina dominante contra a varíola na década de 1930.
Em primeiro lugar, há a vacina JYNNEOS, desenvolvida pela empresa de biotecnologia Bavarian Nordic.
Esta versão nova e mais segura da vacina antiga contra a varíola foi desenvolvida por acidente na década de 1960, quando um cientista notou que seu estoque de uma cepa turca do vaccinia, que vinha cultivando em embriões de galinha há anos, havia sofrido uma mutação.
O vírus ankara vaccinia modificado (MVA), que mais tarde se transformou na vacina JYNNEOS, ficou tão alterado que, embora ainda pudesse fazer mais cópias de si mesmo em embriões de galinha, perdeu a capacidade de se replicar em humanos.
Os pesquisadores perceberam rapidamente que isso o tornaria mais seguro para uso em imunizações, acredita-se que a versão antiga tenha salvado de 150 a 200 milhões de vidas apenas entre 1980 e 2018, mas em casos raros pode levar a infecções que se espalham pelo corpo. Esta nova vacina representou uma alternativa menos arriscada.
Inicialmente, o MVA não foi amplamente utilizado. Na década de 1960, ainda não estava claro se a vacina era tão eficaz quanto a versão anterior, por isso foi administrada principalmente em pessoas imunocomprometidas como uma dose extra.
Mas experimentos em outros animais e militares do Exército sugeriram desde então que é provável que funcione, por isso está em alta demanda hoje.

A ideia de que a vacina contra a varíola foi baseada no vírus causador da varíola bovina existe há séculos.
A outra vacina, ACAM2000, é uma opção menos cotada no atual surto de varíola dos macacos.
Desenvolvida pela primeira vez no início dos anos 2000 como uma alternativa às cepas de vaccinia usadas para erradicar a varíola, foi armazenada por vários países ao redor do mundo, incluindo os EUA e o Reino Unido, para emergências, como um ataque de varíola por terroristas.
Há relatos recentes de que a ACAM2000 está sendo usada contra a varíola dos macacos, mas ainda não está licenciada para isso.
Embora seja segura para a grande maioria das pessoas, apresenta alguns riscos, o vírus pode fazer cópias de si mesmo no corpo humano, por isso não é adequada para indivíduos imunocomprometidos.
Em julho de 2022, o governo dos EUA encomendou quase sete milhões de doses de ambas as vacinas contra a varíola para serem entregues no próximo ano, e agora há uma escassez global.
A ironia é que acredita-se que o surto de varíola dos macacos só foi possível porque suspendemos as vacinações contra a varíola.
"O que vemos agora com a varíola dos macacos é muito interessante", diz Esparza.
"A varíola foi declarada erradicada em 1980. E desde então, a vacinação contra a varíola parou na maioria dos países, e a imunidade da população contra todos os ortopox[vírus] diminuiu. E é isso que provavelmente está por trás da eclosão da varíola dos macacos no mundo."
Outros vírus podem estar aproveitando a mesma oportunidade.
Embora a varíola bovina, a doença em si desta vez, não a versão com "crise de identidade" usada nas vacinas, agora seja rara em gado, ainda é endêmica em roedores em todo o mundo.
E desde que a vacinação em massa contra a varíola foi interrompida no início da década de 1970, cada vez mais casos estão sendo relatados em crianças.
Hoje, as pessoas são mais propensas a contrair varíola bovina de ratos ou gatos que, por sua vez, pegam a doença de roedores na natureza, em um caso inusitado, ela foi adquirida de um elefante de circo.
A maioria das infecções é leve, produzindo lesões nas mãos ou no rosto, e, diferentemente da varíola dos macacos, ainda não está sendo transmitida de pessoa para pessoa.
Mas foram registradas mortes.
E, assim como a varíola dos macacos, o aumento dos casos tem sido associado ao fim da vacinação generalizada contra a varíola.
Alguns especialistas chegaram ao ponto de descrever a varíola bovina como uma ameaça emergente à saúde.
Por isso, o vírus vaccinia ainda é muito procurado.
Mas será que algum dia vamos saber de onde veio o poxvírus favorito da humanidade? Esparza é cético.
"Ainda temos mais perguntas do que respostas", afirma.
Mas o virologista insinua que ele e seus colegas fizeram algum avanço, e vão divulgar detalhes mais tentadores sobre o mistério nos próximos meses.
Seja lá qual for sua origem, sem a vacina contra a varíola, há pouca dúvida de que o mundo seria um lugar radicalmente diferente, ainda lutando contra uma antiga praga que desfigurava e matava pessoas há milênios.
E assim como no início do século 19, temos muito mais medo de evitar a imunização do que de nos transformar em vacas-humanas...
Fonte
VÍDEOS SOBRE A VARÍOLA DOS MACACOS
MONKEYPOX NO BRASIL
Vacina
Varíola dos macacos ja foi identificada em 75 países inclusive no Brasil
A varíola dos macacos doi descoberta pela primeira vez na África central na década de 1950. O vírus é transmitido quando alguém tem contato próximo com uma pessoa infectada. Ele pode entrar no corpo por lesões da pele, pelo sistema respiratório ou pelos olhos, nariz e boca. Os sintomas incluem erupções cutâneas, febre, dor de cabeça, dor nas costas ou musculares, inflamações nos nódulos linfáticos, calafrio e exaustão.
A varíola dos macacos não é uma doença que se espalhe tão facilmente, mas pode infectar da seguinte forma:
1) Ao se encostar em roupas, lençóis e toalhas usadas por alguém com lesões de pele causadas pela doença;
2) Ao se encostar em bolhas ou casquinhas na pele de pessoas com essas lesões;
3) Pela tosse ou espirro de pessoas com a varíola dos macacos.
Até agora, o vírus não foi descrito como uma infecção sexualmente transmissível, mas pode ser passado durante a relação sexual pela proximidade entre as pessoas envolvidas.
Os casos mais recentes na Europa e no Brasil foram observados em homens gays ou bissexuais. No Reino Unido, a Agência de Segurança de Saúde (UKHSA) pediu que homens prestem atenção a coceiras ou lesões de pele que lhes pareçam incomuns.
Mateo Prochazka, epidemiologista da Agência de Segurança da Saúde do Reino Unido, reforçou entretanto que "as infecções não são relacionadas a sexualidade". "Estamos preocupados com a varíola em geral, como uma ameaça pública. Estamos preocupados com a saúde de todos."
Animais, como macacos, ratos e esquilos, também podem contrair e transmitir o vírus.
Depois da infecção, leva-se geralmente de 5 a 21 dias para os primeiros sintomas surgirem. Nesse processo pode surgir a coceira, geralmente começando no rosto e depois se espalhando por outras partes do corpo, principalmente nas mãos e sola do pé.
A coceira, que costuma ser bastante irritante e dolorida, muda e passa por diferentes estágios, de modo parecido à varicela, antes de formar uma casquinha, que depois cai.
A infecção termina geralmente depois de 14 a 21 dias.
Na atual epidemia, a maioria das infecções até agora são leves. Mas a doença pode ter formas mais graves, especialmente em crianças pequenas, mulheres grávidas e pessoas com sistema imune frágil. Na África Ocidental, já houve casos de mortes pela doença.
A melhor forma de prevenir surtos é com a vacinação: a vacina da varíola é capaz de proteger contra a ampla maioria dos casos de varíola dos macacos. O desafio é encontrar doses disponíveis.
Fonte
Esta reportagem foi inicialmente publicada em https://www.bbc.com/portuguese/geral-62279558Vírus Monkeypox (vírus da varíola dos macacos)
Rio de Janeiro e Minas Gerais são o 2º e 3º lugar em número de casos, respectivamente; na imagem, feridas na mão de uma pessoa infectada pelo vírus da varíola dos macacos...
O Ministério da Saúde confirmou 1.369 casos da varíola dos macacos no Brasil até esta 2ª feira (1º.ago.2022). Cerca de 75% dos infectados pela doença estão em São Paulo, são 1.031 registros no Estado. O 2º, 3º e 4º lugar no ranking são, respectivamente, Rio de Janeiro (169 casos), Minas Gerais (63) e Paraná (41). Os dados são de uma nota enviada pelo ministério ao Poder360.
Amazonas entrou na lista de confirmações pela 1ª vez, com 1 caso confirmado da doença. Na última 6ª feira (29.jul), a 1ª morte por varíola dos macacos no Brasil foi confirmada em Minas Gerais. Segundo o Ministério da Saúde, o paciente tinha “imunidade baixa e comorbidades”.
Nota do Ministério da Saúde
“Até o momento, o Brasil registra 1.369 casos confirmados de varíola dos macacos nos Estados de São Paulo (1.031), Rio de Janeiro (169), Minas Gerais (63), Distrito Federal (20), Paraná (21), Goiás (18), Bahia (11), Ceará (4), Rio Grande do Norte (2), Espírito Santo (2), Pernambuco (7), Tocantins (1), Acre (1), Amazonas (1), Rio Grande do Sul (6), Mato Grosso do Sul (5), Amazonas (1) e Santa Catarina (7).”
(02/VIII/2022)
Risco de transmissão de monkeypox
(@doutormaravilha)
Varíola dos macacos: Reino Unido recomenda vacinar homens gays e bissexuais
A Agência de Segurança de Saúde do Reino Unido (UKHSA, na sigla em inglês) recomendou nesta terça-feira, 21/VII/2022, vacinar homens gays e bissexuais para tentar controlar o surto de varíola dos macacos.
A estratégia de imunização define que devem receber a injeção aqueles em maior risco de exposição ao vírus, mas o Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS England) ainda precisa definir detalhes sobre as pessoas elegíveis.
Até segunda-feira, 20/Julho/2022, o Reino Unido confirmou 793 casos da doença. De 152 que responderam a questionários, 151 se identificaram como gays, bissexuais ou homens que fazem sexo com homens (GBMSM).
Não há vacina licenciada no Reino Unido ou na Europa para imunização contra a varíola dos macacos. Por isso, a recomendação é usar o imunizante Imvanex, aprovado para combater a varíola (smallpox), mas usada em ocasiões anteriores com a monkeypox.
A agência destaca que qualquer pessoa pode contrair a doença, porém, dados mostram níveis mais altos de transmissão dentro "das redes sexuais de homens gays, bissexuais e outros homens que fazem sexo com homens". O vírus, reforça a UKHSA, ainda não é considerado uma infecção sexualmente transmissível (IST), mas pode ser transmitido por contato próximo.
Por mais que a NHS ainda precise definir detalhes da elegibilidade, a ideia é que ela seja semelhante aos critérios usados para profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP). Assim, o profissional de saúde pode indicar vacinação para homens que tenham vários parceiros ou participem de sexo em grupo, por exemplo. A orientação é, por ora, que ninguém busque a vacina sem ser contatado.
Mary Ramsay, chefe de imunização da UKHSA, destaca que, com a medida, esperam "quebrar as cadeias de transmissão e ajudar a conter o surto". "Embora a maioria dos casos seja leve, a doença grave pode ocorrer em algumas pessoas."
Robbie de Santos, diretor de comunicação e assuntos externos da Stonewall UK, organização não governamental de direitos LGBT+, comemorou a decisão. "É importante que homens gays e bissexuais tomem a vacina quando oferecida para proteger a si e aos outros. Vamos ajudar a controlar o surto para que todos possamos ter uma temporada de orgulho segura e feliz."
Surgimento dos casos
O primeiro caso europeu foi confirmado em 7 de maio em um indivíduo que retornou à Inglaterra da Nigéria, onde a varíola dos macacos é endêmica. Desde então, países da Europa, assim como Estados Unidos, Canadá e Austrália, confirmaram casos.
Transmissão
Identificada pela primeira vez em macacos, a doença viral geralmente se espalha por contato próximo e ocorre principalmente na África Ocidental e Central. Raramente se espalhou para outros lugares, então essa nova onda de casos fora do continente causa preocupação. Existem duas cepas principais: a cepa do Congo, que é mais grave, com até 10% de mortalidade, e a cepa da África Ocidental, que tem uma taxa de mortalidade de cerca de 1%.
O vírus pode ser transmitido por meio do contato com lesões na pele e gotículas de uma pessoa contaminada, bem como através de objetos compartilhados, como roupas de cama e toalhas. O período de incubação da varíola dos macacos é geralmente de seis a 13 dias, mas pode variar de cinco a 21 dias.
Sintomas
Os sintomas se assemelham, em menor grau, aos observados no passado em indivíduos com varíola: febre, dor de cabeça, dores musculares e nas costas durante os primeiros cinco dias. Erupções cutâneas (na face, palmas das mãos, solas dos pés), lesões, pústulas e, ao final, crostas. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), os sintomas da doença duram de 14 a 21 dias.
Prevenção
De acordo com o Instituto Butantan, entre as medidas de proteção autoridades orientam que viajantes e residentes de países endêmicos evitem o contato com animais doentes (vivos ou mortos) que possam abrigar o vírus da varíola dos macacos (roedores, marsupiais e primatas) e devem se abster de comer ou manusear caça selvagem.
Higienizar as mãos com água e sabão ou álcool gel são importantes ferramentas para evitar a exposição ao vírus, além do contato com pessoas infectadas.
(Estadão Conteúdo)
Fonte
Varíola dos macacos:
10 razões para otimismo
Raúl Rivas González
The Conversation*
1. É um vírus conhecido
Não estamos lidando com um novo e desconhecido agente patogênico. O vírus foi descoberto em 1958, quando dois surtos de uma doença semelhante à varíola ocorreram em colônias de macacos mantidas para fins de pesquisa.
O primeiro caso humano de varíola dos macacos foi relatado em agosto de 1970, na República Democrática do Congo. Desde então, o vírus foi estudado e os casos e surtos que ele causou foram monitorados.
2. É um vírus relativamente estável
A varíola dos macacos é um vírus de DNA relativamente grande, que sofre mutações a uma taxa mais lenta do que os vírus de RNA, como coronavírus ou vírus influenza. Os vírus de DNA têm sistemas melhores para detectar e reparar mutações do que os vírus de RNA, o que significa que é improvável que o vírus da varíola dos macacos tenha sofrido mutações repentinas ou em alta taxa para alcançar uma relevante transmissão humana ou manifestar alta variabilidade.
Isso significa que, uma vez superada a doença, o indivíduo adquire imunidade de longo prazo contra o vírus. Dois grupos genéticos do vírus da varíola dos macacos foram identificados até o momento: o clado da África Ocidental e o clado da África Central.
Ambos estão geograficamente separados e têm diferenças epidemiológicas e clínicas definidas. A sequência de DNA mostra que o vírus que causa o surto atual é um tipo leve que circula na África Ocidental e está intimamente relacionado aos vírus da varíola dos macacos, detectados no Reino Unido, Cingapura e Israel em 2018 e 2019.
3. Parte da população mundial já possui algum grau de imunidade
O vírus da varíola dos macacos, o da varíola humana e o vírus vaccinia são orthopoxvirus intimamente relacionados. O sucesso da campanha de vacinação contra a varíola fez com que a doença fosse declarada erradicada em 1980.
Dados históricos sugerem que a vacina contra varíola tem uma eficácia de 85%. Então, as pessoas que foram vacinadas contra varíola, que são grande parte daquelas com mais de 45 anos de idade, são menos vulneráveis ao vírus.
4. Sabemos como a doença é transmitida
A transmissão zoonótica de animal para humano pode ocorrer através do contato direto com sangue, fluídos corporais, membranas mucosas ou lesões cutâneas de animais infectados. Comer carne crua ou mal cozida de animais infectados é um fator de risco. A transmissão de animal para humano também pode ocorrer através de uma mordida ou arranhão.
O vírus também entra no corpo através de rupturas na pele (mesmo que sejam insignificantes), no trato respiratório ou nas membranas mucosas.
A transmissão de pessoa para pessoa pode ocorrer por meio do contato próximo, por meio de partículas de gotículas e secreções respiratórias, além de lesões na pele de uma pessoa infectada ou objetos recentemente contaminados. A transmissão também pode ocorrer através da placenta da mãe para o feto ou durante o contato próximo durante e após o nascimento.
Conhecer as vias de transmissão permite estabelecer medidas de prevenção eficazes.
5. A transmissão de humano para humano é considerada moderada e pouco eficiente
Esta é a primeira vez que cadeias de transmissão da doença foram relatadas na Europa, sem ligações epidemiológicas conhecidas com a África Ocidental ou Central. Os meios de transmissão mais prováveis da doença são por meio de gotículas e/ou contato com lesões infectadas.
A maioria dos casos relatados na Europa ocorreu em homens jovens. Muitos deles dizem fazer sexo com homens. A transmissão entre parceiros sexuais é aumentada devido ao contato íntimo durante a relação sexual com lesões cutâneas infecciosas. A probabilidade de transmissão entre indivíduos sem contato próximo é considerada baixa.
6. A manifestação clínica da varíola dos macacos é geralmente leve
A varíola dos macacos é geralmente uma doença autolimitada, com sintomas que duram entre duas a quatro semanas. Historicamente, a taxa de mortalidade de casos de varíola no contexto africano variou de zero a 11% na população em geral.
A mortalidade é maior em crianças, adultos jovens e pessoas imunossuprimidas.
O clado da África Ocidental, o tipo identificado até agora na Europa, tem uma taxa de mortalidade de cerca de 3,6% (estimada a partir de estudos em países africanos).
Casos graves podem ocorrer, mas a maioria das pessoas se recupera da doença em algumas semanas.
7. Os sintomas da doença são característicos e evidentes
O vírus é fácil de rastrear porque, ao contrário do SARS-CoV-2, que pode se espalhar de forma assintomática, a varíola dos macacos não costuma passar despercebida. Em grande parte, devido às lesões na pele que a doença provoca.
Além disso, os sintomas da varíola dos macacos (febre, dor de cabeça intensa, inflamação dos gânglios linfáticos, dores nas costas, dores musculares e fraqueza) facilita o diagnóstico da doença e a detecção de pessoas infectadas.
Do primeiro ao terceiro dia após o aparecimento da febre, aparece uma erupção cutânea característica. Ela atinge o rosto (em 95% dos casos), as palmas das mãos e as solas dos pés (em 75% dos casos). A mucosa oral, genitália e conjuntiva, assim como a córnea, também são afetadas.
A erupção progride sequencialmente de máculas (lesões com base plana) para pápulas (levemente elevadas), vesículas (preenchidas com líquido claro), pústulas (preenchidas com líquido amarelado) e crostas que secam e caem. O número de lesões pode variar de algumas a vários milhares.
8. Existem métodos de detecção rápidos e eficazes
A detecção do DNA do vírus da varíola dos macacos é feita por uma reação em cadeia da polimerase em tempo real, a partir de lesões cutâneas suspeitas. Esse processo está bem estabelecido em muitos laboratórios na Europa, América e África. Os especialistas preferem retirar amostras de feridas, secreções nasais e fluidos aspirados a partir da lesão para detectar a doença com mais precisão.
Protocolos recentes de PCR em tempo real podem diferenciar não apenas o vírus da varíola dos macacos de outros ortopoxvírus, mas também entre os dois clados diferentes.
9. Temos vacinas eficazes
As vacinas originais (primeira geração) contra a varíola não estão mais disponíveis no mundo. Mas foram desenvolvidas novas vacinas de segunda e terceira geração, baseadas no vírus vaccinia.
Esses imunizantes demonstram atividade tanto contra a varíola humana como quanto contra a varíola dos macacos.
As vacinas Acam2000 e Aventis Pasteur Smallpox Vaccine (APSV) são baseadas no vírus vaccinia de replicação atenuada. A vacina Jynneos, chamada de Imvanex na União Europeia e Imvamune no Canadá, é uma vacina de terceira geração que contém um vírus Ankara vaccinia modificado (MVA-BN), (MVA-BN®: Modified Vaccinia Ankara - Bavarian Nordic) que não se replica no corpo humano, mas é capaz de provocar uma poderosa resposta imune contra varíola humana e a varíola dos macacos.
A Jynneos é a única vacina não replicante contra a varíola dos macacos e a varíola aprovada pelo FDA para uso não militar.

10. Existem tratamentos antivirais eficazes
Os medicamentos Cidofovir e o Brincidofovir demonstraram atividade contra o poxvírus, em estudos in vitro e em animais. O brincidofovir demonstrou ser um potente inibidor do DNA polimerase de uma ampla variedade de vírus de DNA de fita dupla, como o da varíola dos macacos.
O Tecovirimat (ST-246) também é eficaz no tratamento de doenças induzidas por ortopoxvírus e ensaios clínicos em humanos indicam que a droga é segura e tolerável com apenas pequenos efeitos colaterais. O medicamento é indicado para o tratamento da varíola bovina, varíola dos macacos e varíola humana em adultos e crianças com peso corporal a partir de 13 kg.
Apesar das boas notícias em relação à varíola dos macacos, devemos ser cautelosos e permanecer vigilantes porque ainda há perguntas sem resposta. Algumas estão relacionadas com a possibilidade de que o aumento repentino de casos se deva a uma mutação que permite que este vírus seja transmitido mais facilmente do que os do passado, de que ele conseguiu se espalhar silenciosamente e que cada um dos focos pode ser rastreado até uma única origem ou a várias simultâneas.
Ainda assim, espera-se que o surto atual não exija estratégias de contenção além daquelas que envolvem da vacinação em anel, que rastreia e imuniza todas as pessoas que tiveram contato direto com um infectado.
*Raúl Rivas González é Professor de Microbiologia na Universidade de Salamanca, na Espanha. Este artigo foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler o texto original, em espanhol.
Fonte
https://www.bbc.com/portuguese/geral-61573191
UMA BREVE HISTÓRIA DOS VÍRUS NA VISÃO DE UM NATURALISTA
Por Carlos Jared
O estudo dos vírus é fascinante não só em relação à Saúde Pública, mas pelo ponto de vista da biodiversidade. De tão minúsculos, são, em geral, medidos em nanômetros, a milionésima parte do milímetro, de forma que a grande maioria deles não é observável através dos microscópios comuns, que utilizam a luz visível. Os menores podem chegar a 20 nanômetros e os maiores, mais raros, chegam a mais de dois micrômetros, a milésima parte do milímetro. Realça-se sempre as dimensões dos vírus, já que foram o fator mais importante na sua elucidação.
Os estudos sobre eles se iniciaram com a doença do mosaico do tabaco, que causava grandes perdas na produção do fumo, atacando as plantas e conferindo às suas folhas desenhos semelhantes a mosaicos. Dimitri Ivanovsky (1864-1920), um botânico russo, foi enviado à Ucrânia, à antiga Bessarábia e à Crimeia para investigar essa doença, e acabou se tornando um dos fundadores da virologia. Descobriu que era causada por um enigmático “agente infeccioso”, que transmitia a doença de planta a planta pelo simples toque. A seiva filtrada de folhas de tabaco infectadas, passada por filtros que barravam bactérias, continuava transportando esse agente e disseminando a doença para plantas normais. Foi outro naturalista e botânico, o holandês Martinus Beijerinck (1851-1931), quem nomeou e realmente definiu o conceito de vírus, distinguindo-os das bactérias. Mostrou ainda que, diferentemente das bactérias, ao menos as usadas em experimentos na sua época, os vírus do mosaico do tabaco não eram cultiváveis em meio com nutrientes (não se alimentavam!).
Imaginou que realmente seriam partículas muito menores que as bactérias, com um enigmático modo de vida: não se utilizavam de energia para se manter e se reproduzir. Essas suspeitas se concretizaram em 1935, quando o norte-americano Wendell Stanley mostrou que realmente eram partículas, passíveis, inclusive, de agregarem na forma de cristais. Após serem descristalizadas, tornavam-se ativas novamente, demonstrando todo o seu potencial virulento. Esse estudo lhe rendeu o Prêmio Nobel de Química de 1946.
Só na década de 1930 pudemos “ver” os vírus, com o desenvolvimento da microscopia eletrônica. Em 1939, o médico e biólogo alemão Helmut Ruska (juntamente com os seus colaboradores, e sobre quem já falei em outra crônica), desenvolveu uma técnica, para o microscópio eletrônico, usando metais pesados. Vou explicar: a microscopia comum usa a luz, que atravessa a lâmina de vidro onde está o material, impregnado com corantes, formando imagens coloridas. A microscopia eletrônica, entretanto, usa os elétrons, que são minúsculos corpúsculos, ainda assim com massa, que não poderiam ser usados do mesmo jeito da luz: colidiriam com os átomos do vidro da lâmina e não conseguiriam passar. Foi necessário arranjar um jeito para substituir as lâminas. A saída foi usar pequenas telinhas, ou grades, metálicas, com três milímetros de diâmetro. Através dos seus orifícios, os elétrons atravessam o material que se quer observar em aumentos muito grandes. Os vírus, dispersos em uma solução, são espalhados por cima de uma finíssima superfície de filme transparente, que é aderido à telinha. Sobre esse filme pinga-se uma solução com urânio. A telinha, com o filme, depois de seca, é introduzida no microscópio eletrônico. Da mesma forma que o feixe de luz atravessa o material na lâmina de vidro no microscópio comum, no eletrônico é o feixe de elétrons que atravessa o filme. Assim, o entorno dos vírus, que apresenta maior deposição de urânio, não deixa os elétrons passarem. Por outro lado, a deposição de urânio é menor sobre os vírus, dando passagem mais livre aos elétrons. Dessa forma, quando fotografados, os vírus mostram-se em tons claros sobre um fundo escuro.
Helmut Ruska esteve no Instituto Butantan em 1954, ensinando as técnicas de uso do microscópio eletrônico recém-chegado e ajudando a criar o que atualmente é o Laboratório de Biologia Estrutural, onde trabalho. Ainda hoje mantemos os negativos 6x9 centímetros das imagens microscópicas dos vírus do mosaico do tabaco e de outras várias estruturas, incluindo escamas de cobras, usadas para ilustrar as suas aulas. Em seguida ao curso, continuou em contato com os seus alunos e pesquisadores do Butantan e de outras instituições, publicando vários trabalhos científicos, não só relativos à virologia, como a outros temas.
Afirmei lá no início que, pelo ponto de vista da biodiversidade, o estudo dos vírus é fascinante. A grande contradição nessa afirmação é o uso do radical grego bios, que significa vida, já que a característica de não-vida dos vírus é, e vem sendo, uma das grandes questões da Biologia. As atividades de reprodução dos vírus são desenvolvidas por células ou bactérias, quando penetram no seu interior, sendo considerados, portanto, parasitas intracelulares. Eles fazem parte da grande cadeia da vida na Terra e, segundo hipóteses sobre a sua origem evolutiva, devem ser nossos parentes muitíssimo distantes, cuja linhagem se separou nos primórdios da vida, há uns 3,5 bilhões de anos. Sempre estiveram no planeta e, como exímios aproveitadores, evoluíram com o mundo vivo, desenvolvendo um modo de existir sem precisar da enorme complexidade do mecanismo da vida, que, para ser mantido, demanda muita energia.
Ao contrário do que se poderia pensar, são partículas bem complexas, mas, ao mesmo tempo, simples oportunistas, lidando e se aproveitando eficientemente da morfologia e fisiologia celular dos seres vivos. Esse cenário sobre a origem evolutiva dos vírus tem boa adequação aos conceitos da Biologia Evolutiva. É corroborado pela existência, ainda nos dias atuais, de uma forma viral bem inicial, os viroides, patógenos exclusivos do reino vegetal, que carregam um minúsculo e único filamento de RNA, o principal material genético dos vírus. Levando em consideração todas essas peculiaridades, pergunta-se: como conseguem se reproduzir? Pois bem, durante toda a sua história evolutiva, eles desenvolveram um ardiloso esquema: aproveitam-se da vida das desavisadas células, ou bactérias, utilizando-se, predatoriamente, das suas próprias infraestruturas vitais. Para tanto, eles sabem como invadi-las, usando os mecanismos ajustados às suas membranas celulares. Dessa forma, as células emprestam, compulsoriamente, a sua vida aos vírus, que a usam ao longo de todo o seu ciclo reprodutivo. Ao final desse ciclo, as células morrem, já que se tornam depósitos de vírus, liberando-os de volta ao ambiente, aos milhares. E o ciclo da existência viral se reinicia com eles sem vida, inertes e de espreita, inteiramente disponíveis para serem tocados ou respirados, almejando irem direto às mucosas... É dessa forma que coisas tão minúsculas e inanimadas, causam tanto estrago em organismos vivos, como no Homo sapiens sapiens, que agora está vivenciando a disseminação de um novo vírus (o coronavírus, SARS-CoV-2), causador da covid-19.
*Carlos Jared é pesquisador sênior do Instituto Butantan, especializado na biologia e história natural de anfíbios e répteis (07.07.2020).
Fonte
ESQUECIDO
I
Quando você não tem amigos a vida, todo dia a cada dia fica pequena
Perde o sentido e a cor, perde o sabor.
O tempo passa como pixe, pegajoso, espesso, escuro, sem esperanças.
II
CANTA PARA MIM, Ó MUSA
Ἄνδρα μοι ἔννεπε, μοῦσα, πολύτροπον, ὃς μάλα πολλὰ…
Ἄνδρα μοι ἔννεπε, Μοῦσα, πολύτροπον, ὃς μάλα πολλὰ
πλάγχθη, ἐπεὶ Τροίης ἱερὸν πτολίεθρον ἔπερσε·
πολλῶν δ’ ἀνθρώπων ἴδεν ἄστεα καὶ νόον ἔγνω,
πολλὰ δ’ ὅ γ’ ἐν πόντῳ πάθεν ἄλγεα ὃν κατὰ θυμόν,
ἀρνύμενος ἥν τε ψυχὴν καὶ νόστον ἑταίρων.
ἀλλ᾽ οὐδ᾽ ὣς ἑτάρους ἐρρύσατο, ἱέμενός περ:
αὐτῶν γὰρ σφετέρῃσιν ἀτασθαλίῃσιν ὄλοντο,
νήπιοι, οἳ κατὰ βοῦς Ὑπερίονος Ἠελίοιο
ἤσθιον: αὐτὰρ ὁ τοῖσιν ἀφείλετο νόστιμον ἦμαρ.
10τῶν ἁμόθεν γε, θεά, θύγατερ Διός, εἰπὲ καὶ ἡμῖν.
Invocation à la Muse formant le prélude de l'épopée.
“Canta para mim, ó Musa, o varão industrioso que, depois de haver saqueado a cidade sagrada de Troya, vagueou errante por inúmeras regiões, visitou cidades e conheceu o espírito de tantos homens.”
Háblame, Musa, de aquel varón de multiforme ingenio que, después de destruir la sacra ciudad de Troya, anduvo peregrinando larguísimo tiempo, vió las poblaciones y conoció las costumbres de muchos hombres y padeció en su ánimo gran número de trabajos en su navegación por el ponto, en cuanto procuraba salvar su vida y la vuelta de sus compañeros á la patria. Mas ni aun así pudo librarlos, como deseaba, y todos perecieron por sus propias locuras. ¡Insensatos! Comiéronse las vacas del Sol, hijo de Hiperión; el cual no permitió que les llegara el día del regreso. ¡Oh diosa, hija de Júpiter!: cuéntanos aunque no sea más que una parte de tales cosas».
Ἄνδρα μοι ἔννεπε, Μοῦσα, πολύτροπον, ὃς μάλα πολλὰ
πλάγχθη, ἐπεὶ Τροίης ἱερὸν πτολίεθρον ἔπερσε·
πολλῶν δ’ ἀνθρώπων ἴδεν ἄστεα καὶ νόον ἔγνω,
πολλὰ δ’ ὅ γ’ ἐν πόντῳ πάθεν ἄλγεα ὃν κατὰ θυμόν,
ἀρνύμενος ἥν τε ψυχὴν καὶ νόστον ἑταίρων.
ἀλλ᾽ οὐδ᾽ ὣς ἑτάρους ἐρρύσατο, ἱέμενός περ:
αὐτῶν γὰρ σφετέρῃσιν ἀτασθαλίῃσιν ὄλοντο,
νήπιοι, οἳ κατὰ βοῦς Ὑπερίονος Ἠελίοιο
ἤσθιον: αὐτὰρ ὁ τοῖσιν ἀφείλετο νόστιμον ἦμαρ.
10τῶν ἁμόθεν γε, θεά, θύγατερ Διός, εἰπὲ καὶ ἡμῖν.Invocation à la Muse formant le prélude de l'épopée.
Fonte
L'Odyssée, Homère (trad. Philippe Jaccottet), éd. La Découverte/Syros, coll. « La Découverte Poche », 2004 (première parution de cette traduction : 1955), chant I, 1-5, p. 12 (texte intégral sur Wikisource)
https://fr.wikiquote.org/wiki/Odyssée
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