Blog de Arte e História, Filosofia, Geometria, Astronomia, Ciências, Fotografia alternativa e Política! POR UMA VIDA NÃO FASCISTA.
28 dezembro 2015
13 dezembro 2015
12 outubro 2015
PAISAGEM CONHECIDA
A PAISAGEM CONHECIDA
A palavra é o caminho
A palavra é o caminho
A palavra é tudo o que tenho
Gosto de estar com pessoas
Gosto de contar histórias
Gosto deste lugar de verão, de encontros, de proximidades
Gosto do passado sobretudo do passado acompanhado...
Gosto de ensinar e aprender ouvindo, vendo.
Gosto de falar.
Entretanto, hoje, ninguém quer ouvir
Me sinto então, a margem do mundo;
Como na margem de um grande rio onde todos partem...
Onde todos passam... Numa curva
Uma paisagem conhecida
Passam e eu fico só.
Justo agora quando o mundo parece gozar de uma certa liberdade
E todos poderem fazer algo e expressar seu sentimentos.
Eu estou aqui preso nesta cela solitária.
A palavra é um lugar
É um caminho
Para algum lugar
Para corações.
Para lugar algum.
Já não tenho mais...
29 setembro 2015
WORKING WITH IMAGES
Meu amigo (Juliano Alexandre Motta) e eu imprimindo um trabalho dele! Muito interessante essa tarde.
27 setembro 2015
21 setembro 2015
HAROLDO DE CAMPOS - CANTICUM CANTICORUM
CANTICUM CANTICORUM
HAROLDO DE CAMPOS
(Texto de Aroldo de Campos, publicado na biblioteca da Folha).
Desses versos, ato contínuo, migrei para o "Céu Quarto" do "Paraíso" (12, 139-141), onde são louvados Rábano Mauro, 780-ca.856 ("Rabano è qui"/ "Rábano está aqui"), e Joaquim da Fiore, 1130-1210 ("e lucemi dal lato/ il calavrese abate Giovecchino/ di spirito profetico dotato" - "e ao meu lado reluz/ o calábrico Abade Giovacchino/ de espírito profético dotado). O primeiro, Abade de Fulda, ficou célebre por seus "poemas figurados" ("De laudibus sanctae Crucis"), poemas "cruciformes", em cores, com figuras superpostas a letras (há belos exemplos desses "carmina figurata" no catálogo "Poésure et Peintrie", da soberba exposição de poesia visual realizada em Marselha, em 1993, no Centre da la Vieille Charité; um ensaio do saudoso Paul Zumthor, publicado no nº 4 da revista "Change", 1969, "Carmina Figurata: Une Mode Carolingienne" é a melhor introdução sobre o assunto). O segundo é famoso por suas obras teológico-visionárias, entre as quais o "Liber Figurarum", no qual representa a "Árvore da História Humana". Na concepção joaquinita, a cada uma das pessoas da Santíssima Trindade correspondia uma época histórica: a Idade do Pai (de Adão à vinda de Cristo); a do Filho (que o monge calabrês imaginava prestes a se concluir nos anos em que escrevia); a do Espírito Santo, ou Idade da Concórdia, a era futura da Revelação da Verdade e da Paz escatológica.
Desse "Libro delle Figure", possuo uma preciosa edição, em dois volumes, presente magnífico do engenheiro-poeta Erthos Albino de Sousa. Leone Tondelli, organizador da publicação (Società Editrice Internazionale, Turim, 1953), é também autor de um erudito ensaio que constitui o volume explicativo da obra. Nele, examina as origens do "Liber Figurarum" e a sua difusão medieval até Dante. O poeta da "Commedia" exibe vários traços da recepção das idéias do visionário teólogo, cujo radicalismo "trinitarista"foi rejeitado pelo Concílio de Latrão (1215), mas cuja influência pervive, de modo mitigado, em São Boaventura, "Doctor Seraphicus", máximo expoente da chamada "escola franciscana", que introduz Giovacchino a Dante no "Paraíso" (12, 127-141).
Um desses traços joaquinitas é a famosa transformação em água do último "M" da inscrição "Diligite justitiam/ qui judicatis terram" ("Amai a justiça, ó vós que julgais/governais a terra). Essa metamorfose é operada diante dos olhos do magno poeta pela circunvolução das almas dos justos, como se fosse "um grandioso e luminoso quadro ginástico" (Tondelli). Para formar o pescoço ("collo") dessa Águia Imperial, gótico-heráldica (o "M" aquilino é também uma inicial simbólica da Monarquia terrena), desenhada pelas "criaturas santas envoltas em luz" ("dentro ai lumi sante creature, "Paraíso", 13, 76-114), as "beatitudes se deixam "enliriar, ou seja, "amoldar em forma de lírio", "ingigliarsi", como diz Dante, forjando um de seus audaciosos neologismos verbais, enriquecedores do tesouro léxico italiano.
Pois bem, essa transfiguração, que se processa nos versos dantescos, teria sido diretamente inspirada num códice do "Liber Figurarum" pertencente ao Seminário Bispal Urbano de Reggio Emilia (ou noutro, similar, hoje na biblioteca do Corpus Christi College, da Universidade de Oxford). Esse códice contém magníficas figuras e gráficos em cores. As tábuas que o compõem são ricamente ornadas com técnicas de iluminura. As de nºs 5 e 6, por exemplo, representam "águias enliriadas" ou "formadas por lírios", como o "M" metamórfico dantesco. Pois, "Dante não copia a natureza, mas uma imagem estilizada; ou, sem mais: traduz no verso a figura do códice iluminado (Tondelli).
De Kircher a Cortázar
O "Mutus Liber" mostrou-se-me filiável, nesse sobrevôo aventuroso de minha memória icônica, a uma tradição ilustre de escrita pictural, da qual o "Liber Figurarum" joaquinita é apenas um exemplo. Outros muitos se poderiam mencionar, como "Oedipus Aegyptiacus" (1652-1654), do jesuíta Athanasius Kircher (1602-1680), com seus diagramas místicos, suas cartas herméticas e suas pranchas alegóricas, obra variamente abeberada "na sabedoria egípcia, na teologia fenícia, na astrologia caldéia, na cabala hebraica, na magia persa, na matemática pitagórica, na teosofia grega, na alquimia árabe e na filologia latina (Joscely Godwin, "Athanasius Kircher: A Renaissance Man and the Quest for Lost Knowledge", 1979). No cólofon desse tratado, a figura de Harpócrates (versão grega do Horus infantil, o deus-sol egípcio) aparece com um dedo sobre os lábios, como a pedir silêncio aos que fossem capazes de entender sua sigilosa mensagem.
O pensamento de Kircher, como aponta Octavio Paz ("Sor Juana Inés de la Cruz o Las Trampas de la Fe", 1982), exerceu, por seu turno, influência sobre Sor Juana, a monja-poeta mexicana (1651-1695). Em especial sobre "Primero Sueño", poema filosófico-alegórico, onde, entre outras imagens emblemáticas, ocorre a de duas pirâmides antagônicas: uma de sombra (representando o mundo sublunar), outra de luz (representando a região celeste). No frontispício da "Sphynx Mystagoga", de Kircher, vê-se uma figuração "barroca" das pirâmides do Egito, na expressão de J. Godwin). O "Primeiro Sueño" parece inspirar-se na "viagem astronômica" do jesuíta alemão (Karl Vossler "via Paz"), ou seja, no "Itinerarium Extaticum" ou "Inter "(Roma, 1656; Würzburg, 1660 e 1671).
Sor Juana alegoriza no poema a ascenção de alma à "esfera superior", onde é ofuscada por uma visão luminosa; enceguecida, não consegue mais se elevar e o corpo desperta. Isso --explica Paz--, durante o sono (e em sonho), ou seja, num "estado próximo da morte", equivalente à "morte provisória do corpo e à liberação também provisória da alma". Sem temer as censuras de "anacronismo" dos custódios estritos da "leitura de época", limitada ao horizonte de recepção do público do tempo, Octavio Paz vê no magno poema de Sor Juana, para além dos traços estilísticos de Gôngora, uma antecipação do "Coup de Dés" (1897), de Mallarmé, e do "Altazor" (1931), aeroépica do chileno Vicente Huidobro.
A grande obra
Aliás, também na imaginação de outros escritores latino-americanos inscreve-se a miragem mallarmaica da Grande Obra --"L'Oeuvre", da qual o "Lance de Dados" seria apenas um esboço: algo como uma Enciclopédia do Verbo, ao mesmo tempo o espelho do mundo e a sua decifração, manipulada combinatoriamente por um poeta-"operador", que tem traços do Adepto alquímico (ver meu ensaio "A Arte no Horizonte do Provável", no livro do mesmo nome, em especial as referências a J. Scherer, "Le Livre de Mallarmé", 1957). Refiro-me agora a Morelli, o Mallarmé cortazariano em "Rayuela" (1963): "Mi libro se puede leer como a uno le dé la gana. 'Liber Fulguralis', hojas mánticas...". Ou então a Oppiano Licario e à sua "Súmula", Nunca Infusa, de Excepciones Morfológicas", "curso délfico" que permitirá aos discípulos (Cemi e Fronesis) "interpretar a significação do tempo, ou seja, a penetração tão lenta como fulgurante do homem na imagem".
Estou-me reportando a "Paradiso"(1966), do cubano Lezama Lima, e ao seu complemento inacabado, "Oppiano Licario" (1977). O "dom icárico", a única obra de Oppiano, a "Súmula, um manuscrito de cerca de 200 páginas, tendo no centro um poema de oito ou nove páginas, era "o Livro, o Espelho, a Chave". Guardado numa caixa chinesa, acaba sendo destruído por um cão, que, ao tentar refugiar-se de uma enchente, salta na mesa onde está a caixa, abre-a a dentadas e dispersa as folhas na água. Resta apenas o poema. Mas os discípulos devem refazer a festa licárica e reconstruir o "Livro Sagrado", alcançar a união no "Eros estelar", a iluminação. Testamento de Lezama, morto em 1976, seu inconcluso "Oppiano Licario", como a "Súmula Nunca Infusa", que, ao se perder, desemboca no "vazio primordial, se sacraliza", termina em aberto, metáfora enigmática de si mesmo...
Aurora Consurgens
Venho seguindo até aqui, nessa minha leitura personalíssima do "Mutus Liber", uma indicação alternativa de seu erudito comentador, J.J. de Carvalho: leio esse livro ("história do Ser Só que finalmente se encontra com Aquilo Que É Só", ou, ainda, "história da conjunção, da caminhada a dois em busca da integração total"), como uma "obra de ficção". Uma obra intrigante, cujo "anônimo autor buscou reconciliar a produção de significantes estéticos --expressões, portanto, do exercício da livre imaginação-- com símbolos arcanos, inevitavelmente submetidos ao controle de uma tradição iniciática". No caso, é a vertente estética, sobretudo, a que me fala ao olho prazeroso da mente.
E daqui volto ao ponto de partida. Marie-Louise von Franz, que estudou e traduziu o texto alquímico "Aurora Consurgens", considera-o "uma experiência religiosa imediata do inconsciente". Parece-lhe que o enigmático escrito, gravitando em torno da morte, registra, antes de mais nada, o sonho de um moribundo, no qual o passamento, o transe final, é descrito como um casamento místico. Adotando o pressuposto da inadmissibilidade de sua atribuição a São Tomás de Aquino, acaba, no entanto, por referir e comentar longamente uma lenda biográfica, segundo a qual o teólogo, pouco antes de morrer, teria tido crises místicas e visionárias, testemunhadas por seu secretário, Reginaldo de Piperno. Depois duma delas, teria declarado que não podia prosseguir escrevendo, já que seus escritos lhe pareciam "palha" (palea sunt).
Hóspede, pouco tempo mais tarde, dos monges do convento de Santa Maria di Fossa Nuova, o Aquinata, a pedido deles, ter-lhes-ia ministrado um seminário sobre o "Cântico dos Cânticos. "No meio da aula, quando interpretava as palavras 'Vem, meu bem-amado, saiamos para o campo!' ('Veni, dilecte mi, egrediamus in agrum!'), ele morreu". Para M.L. von Franz, o texto "Aurora Consurgens" --"um mosaico, um quebra-cabeças, de citações extraídas da 'Bíblia' e de alguns dos primeiros escritos alquímicos-- seria, em substância, uma paráfrase do "Canticum Canticorum", por muitos séculos atribuído a Salomão, o Rei-Sábio (hoje essa "ficção de autoria" está desfeita; o "Shir Hashshirim", escrito em hebraico tardio por um anônimo, não pode remontar ao reinado salomônico, devendo ser datado de algum momento entre os séculos 5 e 6 antes de nossa era).
E quanto ao projeto de Umberto Eco? Não sei, sinceramente, que fim levou. Há cerca de três anos, em Milão, fiz-lhe uma indagação a esse respeito. Respondeu-me, vagamente, que, dos destinatários de sua carta-convite, pouquíssimos se sentiram estimulados a prestar-lhe colaboração; só a minha lhe chegara com presteza. Mudou de assunto, evasivo. Tenho-me perguntado, desde então, se o amigo Umberto não estará, secretamente, com base nessa "Aurora Consurgente", urdindo uma nova teia fabular, para um outro aliciante e engenhoso relato romanesco, da família de "O Nome da Rosa", "O Pêndulo de Foucault" ou "A Ilha do Dia Anterior". Neste último, aliás, não deixou expresso, em cólofon, que "não se pode escrever senão fazendo um palimpsesto de um manuscrito encontrado" (cito-o no traslado de seu prestimoso turgimão brasileiro, Marco Lucchesi)? O tempo o dirá.
Haroldo de Campos é poeta, ensaísta e tradutor de poesia.
Fonte
A ARTE DE COOPERAR
ARTE DE COOPERAR
Antonio Paim MSc BSc
(21/IX/2015)
Hoje não há mais cooperação entre quase ninguém...
muito menos entre os artistas...
O que existe são indivíduos isolados e um deserto entre artistas ilhas.
Há algum tempo atrás (até digamos a década de 1980) existia um grande e continuo diálogo entre os artistas. Existia até cooperação na execução das obras. Ninguém sentia-se invadido ou melindrado ou desautorizado por um amigo fazer uma sugestão ou auxiliar na execução de uma obra.
Neste diálogo entre duas mentes criativas tudo era permito discutir e investigar.
Discutia-se sobre tudo do mundo, principalmente sobre a arte, seu papel e especialmente sobre o trabalho de cada um.
Esta época foi muito importante para a produção de uma arte com sintomas universais e universalizante.
Essas discussões desembocaram na época dos curadores, onde são eles que contam histórias a partir de acervos que eles investigam, discutem e mostram, no capitalismo extremo (neoliberalismo) o curador tem um papel tão ou mais importante do que o próprio artista.
O papel do artista ficou relegado ao de mero produtor de algo, de um objeto, um bem.
Hoje vemos a cooptação da arte pelas grandes empresas e empresários milionários.
Nós os artistas cedemos nossa liberdade de pensar o mudo coletivamente a outros, fazendo arte disfarçada com um arremedo de estética universal. A arte assim, perde seu papel de desestabilizar e abrir uma porta para a discussão.
Pensar é difícil, e muitas vezes revela o sofrimento que vivemos. Muitas vezes ou quase sempre o ato de pensar criticamente o mundo é bastante complexo e difícil, requerendo muitas mentes para abarcar essa construção do real. E hoje me pergunto: onde estão os artistas que cooperam na investigação do real? Onde estão as obras que são sementes a germinar em nossa memória?
Não sei. Não estão…
Nada justifica essa perda de momentos de aprendizado e aprofundamento em torno do objeto e da produção artística por parte dos artistas.
É como se tivéssemos assinado uma carta, não de alforria mas de escravidão, tendo como testemunho e fim último o mercado. E não mais todas as mentes vibrantes dos expectadores e fruidores da obra de arte. A arte tornou-se um bem para poucos, para aqueles endinheirados.
O que devemos fazer para retomar o campo das discussões em torno do fazer artístico?
O que se espera de animais racionais, políticos, falantes é a discussão com os pares.
Organizar pequenos grupos afins que queiram voltar a discutir a arte e que desenvolvem-se como indivíduos.
Discussões esteticamente guiadas e criticamente embasadas.
Fomentar grupos de artistas pensantes que queiram aprender a ler os clássicos e a elucidar os conceitos, investigar a realidade social na qual estamos inseridos e produzir obras que a fustigue.
Essa atitude humilde de que não somos donos da verdade, de que o outro pode contribuir para o enriquecimento da ideia inicial de uma obra, e modificar a proposta estética do trabalho.
Cooperar junto num mesmo atelier enriqueceria o significado das obras de arte e seria uma luz no firmamento a apontar a direção de um novo tempo onde a arte vale a pena pelo quanto de conhecimento que ela contem. Mas temos q ter em mente que a arte é sempre desestabilizadora, contestatória, revolucionária…
17 setembro 2015
IMAGEM DO PRESENTE SE TORNANDO PASSADO
Eis-me aqui
Inexpugnável, terrível e sublime matéria-onipresente.
Quero deixar aqui, ante vós, em teu altar, meu quinhão de matéria.
Gostei muito de usá-la !
Fui há muitos lugares que queria que todos os humanos vissem...
Lugares simples que supunha universais.
Senti todos os sentimentos, e os que mais deixaram marcas em minha memória foram os sentimentos amorosos e afetivos, abstratos em essência.
Dei graças por todos os 18.250 nasceres do sol
E todos os dias encontrei vontade para acordar e sair da cama.
Fiz muitas pessoas sorrirem e acredito que nunca tenha feito ninguém chorar por algum ato ou mau gesto meu, embora eu tenha chorado por muitas pessoas as quais amei e não fui correspondido.
Mas isso foram as flores da vida.
Embora eu tenha visto um deserto durante toda vida eu me esforcei até meu último átomo para criar nesse deserto um oásis, um campo vicejante com flores perfumadas e árvores verdes frondosas, insetos, aranhas, tatuzinhos-de-jardim, formigas, abelhas atarefadas, borboletas.
Mas isso foram as flores da vida.
Embora eu tenha visto um deserto durante toda vida eu me esforcei até meu último átomo para criar nesse deserto um oásis, um campo vicejante com flores perfumadas e árvores verdes frondosas, insetos, aranhas, tatuzinhos-de-jardim, formigas, abelhas atarefadas, borboletas.
Quero deixar aqui essa matéria, que alguém, algum dia irá usar.
Quero entregar essa matéria que ascendeu muitas fogueiras no passado, vendo as fagulhas subirem para o infinito em noites primaveris.
Fogueiras que iluminaram e aqueceram.
Fogueiras geradoras de proximidades.
Matéria que apertou muitas mãos.
Que ajoelhou, que meditou, que chorou, que perdeu, que encontrou, e perdeu para sempre, restando só a lembrança daqueles momentos...
Entrego essa matéria, para estar no teu seio e nunca mais partir.
Para todo sempre estarei colado nesse torrão cujo orbe eu tanto amei.
Estarei eternamente vendo o desenrolar da nossa história como matéria física e biológica.
Asseguro que nenhuma outra porção física deste mundo sentiu o perfume dos lírios e de todas as outras flores na primavera e ficou tão feliz por poder ser um com o próprio perfume que também é feito de átomos. Ou que encontrou cores em todos os olhares.
Muitas vezes o meu próprio eu se perdeu nas nuances eletromagnéticas dos entes.
Muitas vezes o meu próprio eu se perdeu nas nuances eletromagnéticas dos entes.
Entrego essa matéria que respirou, andou, correu, nadou, desejou, estudou, que almejou amor, e que conheceu o amor como o meu mais estimado filósofo, que na origem mesmo do "nosso" pensamento disse "Physis kryptesthai philein" (φύςις κρύπτεσθαι φιλει): [o] "surgimento favorece o encobrimento" embora Platão tenha separado "ser" e "aparência", para Heráclito "aparecer" é a forma constitutiva da presença, é o modo como o ser se dá.
Ele se dá no encobrimento.
No mesmo dia de minha concepção eu adentrei ao encobrimento, entrando e estando para sempre na physis que "é".
Ele se dá no encobrimento.
No mesmo dia de minha concepção eu adentrei ao encobrimento, entrando e estando para sempre na physis que "é".
Aqui está minha parte matéria que adentra ao encobrimento, como o sol que declina (se põe) no mar ou atrás das montanhas ou no horizonte sem fim.
Como dizem as equações quânticas antes do surgimento da matéria não existia nem mesmo o tempo e por isso não haveria tempo nem espaço para a ação de "entes".
Logo, eu entrego aqui a minha matéria de volta ao universo.
Agradecido por cada momento que vivi.
Logo, eu entrego aqui a minha matéria de volta ao universo.
Agradecido por cada momento que vivi.
Entrego este "quanta, esse mol" de matéria sei que minhas irmãs as bactérias, que estudei e amei tão profundamente, serão as primeiras, fico feliz por entregar a elas, esta minúscula porção de matéria, já usada a elas que foram as primeiras a chegar nesta Terra.
Entregar minha matéria ao fogo que foi o primeiro a existir.
Ele mesmo dando a luz a novas formas de existência e servindo de modelo físico e simbólico para nossa subsistência na terra, claridade razão, entendimento.
Ele mesmo dando a luz a novas formas de existência e servindo de modelo físico e simbólico para nossa subsistência na terra, claridade razão, entendimento.
Entrego ao fogo que cria destruindo e destrói criando.
Aqui está a porção que eu usei todos esses dias, eis aqui o que restou.
(17/IX/2015)
07 setembro 2015
IMAGEM COMO PASSADO
A IMAGEM COMO PASSADO
A IMAGEM FOI
ELA NÃO É MAIS
ELA É UM VESTÍGIO
UM RESTO
DE LUZ CRISTALIZADA
UM DESEJO REALIZADO
UM VONTADE DE DURAÇÃO
NO TEMPO E NO ESPAÇO.
A IMAGEM FOI
O QUE EXISTIA E NÃO EXISTE MAIS
SE TORNOU UM ISTO OU UM ISSO.
UMA COISA, UM OBJETO.
UMA LEMBRANÇA SEM DESTINATÁRIO
UM PORTO DESERTO DO SER.
A LEMBRANÇA DE UMA SOMBRA.
(2012)
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