INÍCIO

16 outubro 2022

A ORDEM E A GEOMETRIA II

A VERDADE E O CONHECIMENTO

Refletindo sobre as belas, fortes, e profundas palavras do nosso V.:M.: e do Ir.: Orad.: nasceu em minha mente um jardim de flores-interrogações, prenhes de frutos misteriosos e sementes que fecundadas, se dispersam no ar nesse jardim das delícias. 

Queria ter o tempo do universo para procurar, para buscar, para pesquisar e aprofundar cada assunto que os digníssimos irmãos me transmitiram. Mas assim agindo abusaria do tempo e da paciência dos irmãos, ainda mais, quando o tema não é apenas a construção de um intelecto, mas também sobretudo apelo ao sonho, à imaginação, ao espírito. Todavia, a restrição de tempo e o devido respeito à atenção dos amados irmãos, felizmente me conduzem à via da razão, e espero ser feliz neste momento, que exponho minha breve reflexão sobre os estudos e experiências apreendidas e construídas no grau de Companheiro Maçom. 

Como tenho feito costumeiramente, escolhi um trecho que de tão profundo e seminal que é, seria matéria não só para a reflexão de uma vida, mas de muitas vidas. Eis as citações de nosso ritual: 

1) “Disse o Ven.: Mest.: Abordarei esse tema, falando-vos sobre o Enigma da vida e sobre a meditação da Verdade. O que é a Vida? Para que serve ela? Qual o seu fim?” 
2) “Há criaturas para as quais esses mistérios constituem uma verdadeira obsessão. Preocupadas com o enigma das coisas, querem compreender e, pelo incessante trabalho cerebral, buscam conhecer a existência dos mundos e dos seres, interrogando ansiosamente a Natureza para arrancar-lhes seus segredos.” 
3) “Estes merecem que se lhes ensine a procurar o Verdadeiro, sem preocupação nem esperança de triunfo, só alcançado pelo repouso de uma inteligência satisfeita. Nunca saberemos a verdade. Entretanto queremos saber, buscamos avidamente adivinhar o Eterno Enigma, crentes que é esse o nosso mais nobre e mais elevado destino.”

A partir desses fragmentos que escolhi da lição que me foi passada iniciei minha reflexão por um tema que permeia essas três ideias. Verdade e Conhecimento. 

Kant define a verdade formal como a concordância do conhecimento com seu objeto, fundando assim o problema da Verdade no ocidente. Também é verdade que Cristo disse: “Eu sou o caminho, a Verdade e a vida.” (Jo. 14:6). Assim, a verdade do objeto é sempre apreendida e substanciada através da verdade do juízo. 

Para isso, tanto o Aprendiz quanto o Companheiro devem se esforçar para conhecer as normas e regras pelas quais nosso intelecto pode chegar às conclusões verdadeiras. 

Quer dizer, “não é porque há um universo de objetos, ante nossos olhos que existe para nós, como sua impressão e imagem, um mundo de conhecimentos e verdades. Não, não somos espelhos, que refletem o mundo exatamente como o vemos.  

Toda a base de nossa reflexão deve estar fundada no "princípio da não-contradição”, que sustenta que duas afirmações ou juízos contraditórios não podem ser verdadeiros ao mesmo tempo. A verdade é que a luz que brilha em nossas vidas e revela o que somos realmente por natureza, revela o caminho pelo qual devemos caminhar para sermos transformados na imagem do homem construtor, isto é, o próprio homem que foi Cristo. (modificado de Romanos 8:29).

Como Companheiro Maçom relembrei aqui as três leis do pensamento através das quais se pode bem raciocinar e chegar a conclusões verdadeiras; mesmo assim, estaremos longe da Verdade em si, pois esta supõe a posse da verdade do objeto, este, exterior a nossa mente. Não há possibilidade de possuirmos a Verdade absoluta, pois esta, como o “ser, o ente” esta fora de nós. 

Façamos um experimento imaginário: 
Imaginemos um fragmento de rocha, o granito por exemplo. Todos sabemos já do sexto ano que o granito é composto por: Quartzo, Feldspatos Alcalinos como a Ortoclase, Sanidina e Microclina; e Minerais ferromagnesianos como a Biotita e Moscovita. Somente por esses nomes que acabei de mencionar já podemos perceber que não é totalmente possível escrever uma única fórmula para caracterizar esse corpo que chamamos de granito. E se aprofundarmos mais nossa pesquisa veremos que cada um desses compostos são formados por substâncias mais simples. Uma estudo com 2.485 amostras de granito revelou a seguinte composição química:

SiO2 72.04%
Al2O3 14.42%
K2O 4.12% 
Na2O 3.69% 
CaO 1.82% 
FeO 1.68% 
Fe2O3 1.22% 
MgO 0.71% 
TiO2 0.30% 
P2O5 0.12% 
MnO 0.05%

E isso é apenas uma amostra. Agora vamos seguir um pouco mais, quem sabe que o Silício possui número atômico 14 e massa atômica 28,085, e que o número atômico equivale ao número de elétrons, presos ao redor do núcleo, segundo o “Modelo Atômico de Bohr”. De que são constituídos os elétrons? E on prótons e nêutrons no núcleo? De que natureza é a força que une prótons e nêutrons? Como e quando, em que momento essa “força” passou a existir e possibilitou a existência da matéria? O nêutron é uma das partículas que constitui o núcleo atômico, junto com os prótons. Ele tem massa, mas não tem carga. A massa dele é muito parecida com a do próton. Sabe-se hoje por que a massa do núcleo é mais ou menos o dobro do número da massa dos prótons. A razão é porque na maioria dos núcleos há números comparáveis de prótons e de nêutrons. Hoje sabemos que prótons (são carregados positivamente +) e nêutrons (com massa m, e carga nula) não são partículas fundamentais, pois eles também são formados por outras partículas ainda menores, os quarks. De que seriam constituídos os quarks? Pacotes, quantum de energia? Se ambos são feitos de quarks porque um tem massa carga positiva e o outro tem massa mas carga nula? Para cada degrau que andamos surgem portas-perguntas. E a verdade filosófica, metafísica e mística se afasta para um horizonte inalcançável. 

Assim, Para bem raciocinar é necessário seguir primeiro os passos daqueles que nos deixaram o caminho, ou seja, as leis do pensamento ou do raciocínio verdadeiro.

Primeira lei do pensamento ou do raciocínio: é a chamada lei da identidade, enunciada pela primeira vez por Parmênides de Eléia no séc. IV a.C., afirma: “o que é é, e o que não é, não é”. Essa lei diz que um objeto é igual a ele e somente a ele e a nenhum outro no universo. 
A segunda lei do pensamento: é a chamada lei da não-contradição, ou lei da não-identidade, esta lei foi formulada por Aristóteles no séc. III a.C, já exposta anteriormente, segundo o qual nada pode ser igual à sua própria negação; dito de outra forma: um objeto não pode ser e não ser ao mesmo tempo. 
A terceira lei do pensamento: é a lei do terceiro excluído, também proposto por Aristóteles, esse princípio estabelece que para qualquer proposição há duas possibilidades: ou ela é verdadeira ou a sua negação é verdadeira. Logo, se há duas proposições contraditórias uma delas é verdadeira e a outra necessariamente falsa. Ambas não podem ser verdadeiras e nem ambas podem ser falsas ao mesmo tempo, ou seja, para essas afirmações não há um terceiro juízo de valor que seja válido.

As leis do pensamento são leis da lógica clássica pelas quais todo o pensamento válido procede. Essas são as únicas leis que justificam inferências válidas. Somente através dessas três leis toda dedução será uma dedução válida e crível. 

As leis do pensamento são regras que se aplicam sem exceção a qualquer assunto do pensamento. Alguns filósofos acrescentam dois outros princípios: o quarto princípio ou princípio da razão suficiente: este princípio formulado por Leibniz (1646-1716) afirma que se X tem uma razão de ser, essa razão é suficiente. Por exemplo, a terceira lei de Newton que afirma que para cada ação há uma reação de igual intensidade e sentido contrário, é razoável ou suficiente por si só, em outras palavras, tudo no universo tem uma explicação suficiente. O quinto Princípio ou princípio da Identidade dos Indiscerníveis: afirma que se X compartilha todas as propriedades qualitativas com Y, então X é idêntico a Y. Por exemplo, na operação matemática de igualdade: 1+1=2. Geometricamente um ponto mais um ponto no espaço é igual ao número dois, que é uma reta. A reta é uma igualdade consigo mesma mas ao mesmo tempo uma contradição. O ser em si é uma contradição, pois mostra e revela mas também oculta. Entretanto, veremos que esses princípios, mesmo verdadeiros, são unilaterais, incompletos. 

Tendo abordado o modo como nosso intelecto raciocina e as leis pelas quais se pode enunciar um pensamento escorreito, verdadeiro e seguro, podemos então enunciar o problema do conhecimento. 
Para isso, vamos pedir auxílio de outros dois grandes luminares contemporâneos que estudaram profundamente o nosso modo de conhecer, distinguindo três tipos de conhecimento. No conhecimento mágico do mundo,explica-se o ser do mundo e seus fenômenos através da ação de uma divindade, por ex., povos originários, viam um raio e imaginavam um deus, Tupã, o todo poderoso senhor do raio e do trovão. Esse é um conhecimento que tenta explicar um fenômeno de forma que possa ser comunicado e entendido por outra pessoa apelando para uma vontade divina. 
O conhecimento prático-mental ou conhecimento manipulatório, é o conhecimento empírico do mundo, i.e, o conhecimento adquirido através da observação cotidiana dos fenômenos, é uma forma de conhecimento resultante do senso comum por vezes baseado na experiência sem necessidade de comprovação científica; e por último o conhecimento teórico. O conhecimento teórico é um conhecimento muito diferente dos anteriores. Hegel usou a dialética que na Grécia clássica indicava um método discursivo, uma forma retórica para descrever a realidade. Na modernidade, a dialética se constituiu como pedra angular do pensamento de Hegel. Para Hegel, a dialética de forma sucinta, é um modo de pensar o mundo, um método
Em Hegel, esse método constitui uma superação da grande tradição intelectual que vem desde Aristóteles. Quando falamos em método, estamos pensando em lógica. Aristóteles é o fundador de uma lógica rigorosa que vai ser conhecida nos livros de filosofia como “lógica formal”, que se funda numa série de princípios que abordamos há pouco. Um princípio importante, já referido por exemplo, é o da não-contradição ou da não-identidade: que diz que A não é igual a não-A. Hegel diria que essa é uma forma de pensar o mundo que não é falsa, mas é insuficiente. Por quê? Porque A, se é diferente de não-A, é simultaneamente igual a não-A, porque ambos são. 
Em Hegel o Ser é processualidade, para ele a dialética é o método de pensar o mundo enquanto movimento. O movimento do ser não é um movimento qualquer: é, na verdade, um automovimento, ou seja, um movimento que tem a sua força motriz, a sua dinâmica, no próprio ser. E, além de não ser um movimento qualquer, é um movimento que tem seu dinamismo fundado na contradição
A é ao mesmo tempo A e não-A; A é ao mesmo tempo a afirmação de si, contendo forças que negam essa afirmação. É desse confronto entre a afirmação de A e aquilo que é a negação de A que vai surgir o diferente, o outro. Mas o outro, se é novo em relação a A, traz em si os traços da positividade de A. Por isso não é uma simples negação: é uma negação da negação que conduz a um novo, Hegel diria: em um nível superior, mas conservando, metamorfoseados, elementos originais. Essa é a dimensão tríplice do movimento da lógica dialética de Hegel: uma afirmação, uma negação e a negação da negação, que se pode chamar de superação. Na linguagem que se tornou comum: é a tese, a antítese e a síntese. 

Mas isso não significa que aquela lógica formal que vem de Aristóteles com os princípios ou leis do pensamento é falsa; ela é apenas parcial, insuficiente. O método dialético supera essa unilateralidade e essa insuficiência. 

O segundo luminar contemporâneo foi Marx. Ele constitui com Durkheim e Webber os três pilares clássicos da sociologia moderna. Para Marx, que continua a reflexão de Hegel, teoria é a reprodução mental ou ideal do movimento real do objeto pelo sujeito investigador. Nesse processo o objeto é reproduzido idealmente (na mente do homem) através de seus aspectos fundamentais, sua estrutura, dinâmica e desenvolvimento. Esta reprodução mental deve, portanto, para ser verdadeira, reproduzir idealmente o objeto da maneira mais próxima possível da forma que o mesmo se expressa, se manifesta, é na realidade. Para isso devemos começar pela observação da natureza, do universo, do cosmos. 

Todo nosso conhecimento começa com a experiência. Tem na experiência o seu ponto de partida. Mas apenas o ponto de partida. Permita-me, irmãos, dar um exemplo bem simples. 

Você nasce em um local, onde está sua casa, e ali tem sua experiência cotidiana. Ao longo de toda a sua vida você vê que sua casa está no mesmo lugar. Você observa e constata que o sol nasce num ponto específico pela manhã, na direção leste, o oriente. Ao meio-dia ele está aqui, em cima de nossa cabeça, no zênite, e a tarde ele se põe no oeste, o ocidente. O que a sua experiência cotidiana lhe mostra? Que a terra, onde está sua casa, está parada e o sol se movimenta em torno dela. Essa é a experiência imediata de todos os homens na Terra. Mas o que essa experiência mostra é verdadeiro? O conhecimento e a investigação da natureza demonstram que não. Sabemos, comprovadamente, que a terra não está parada, ela gira em torno de seu próprio eixo e gira ao redor do sol ao longo do ano. Isso significa que o conhecimento rigoroso, profundo, da essência, da estrutura íntima dos fenômenos, não pode se limitar a essa experiência cotidiana, a essa aparência. 

A aparência dos fenômenos é absolutamente importante porque começamos a conhecê-los a partir dessa experiência que é uma manifestação do ser. O oposto também é verdadeiro, o que não tem qualquer aparência não pode ser conhecido pela nossa razão. 

Contudo o conhecimento veraz, verdadeiro, parte da aparência dos fenômenos para encontrar a sua essência, a sua estrutura íntima e o seu movimento. Constatar que o cosmos, o mundo, a matéria e a sociedade mudam e estão em contradição consigo mesmo é um processo dialético. 

A nossa vida cotidiana com os seus quadros sociais e problemas contribuem para que o pensamento dialético seja pouco favorecido. O cientista no laboratório, o filósofo que está refletindo, o advogado que está estudando a lei, o artista que está criando, nesses momentos eles se suspendem de sua vida cotidiana e concentram e direcionam a sua energia para um objeto determinado. Nesses momentos, empenham toda a sua energia nas suas criações e descobertas. Mas eles depois tomam ônibus, pegam o carro, enfrentam o trânsito e voltam para casa, fazem suas refeições, se dedicam a seus filhos… 

A vida cotidiana, na sua imediaticidade, não mostra o movimento do ser. Se você acorda e pensa: o mundo está numa mudança constante, além de ser cheio de contradições, tudo se move e eu ainda tenho que conhecer o conjunto desta dinâmica para conseguir sobreviver, pagar meus impostos, conseguir um lugar ao sol... Se você pensar desse modo, você não se levanta da cama (Netto, 2021).

Ora, o pensamento dialético implica que você, reconhecendo essas determinações que são contradições, alto/baixo, perto/longe, branco/preto, frio/quente, bom/mau, virtude/vício, saiba que o branco é diferente do preto, mas que ele pode tornar-se preto e assim por adiante... Então, pensar dialeticamente traz uma série de exigências, que vão na contracorrente da instrumentalização, da manipulação que nós praticamos com os fatos do mundo. 

Essa manipulação é necessária, ela nos permite sobreviver. A instrumentalização da razão é o que nos permite em última análise sobreviver nesse mundo em transformação e em contradição; mas nos dá uma visão que não é a visão da totalidade, nos dá um conhecimento parcial do mundo. Nos fornece um conhecimento que não nos permite perceber a processualidade e a dinâmica do mundo. (Netto, 2021).

Pensar dialeticamente supõe uma formação teórica, pesquisa, estudo constante, aprimoramento, meditação, reflexão, exatamente como fazemos em nossa loja quando o Aprendiz passa à Companheiro e este à Mestre e supõe que se aproprie da herança cultural que vem, pelo menos, desde Parmênides, passa por Aristóteles até Hegel e deste até Marx e chega aos nossos dias. 

A nossa vida não é um amontoado de pequenos fragmentos: ela é uma totalidade que se insere numa totalidade maior, que é a sociedade capitalista contemporânea, que não existe sem a sua relação unitária, com outra totalidade que é a natureza, com suas contradições e leis e processos. 

São essas totalidades que constituem o ser. É evidente que isso supõe pesquisa, reflexão e meditação. É difícil compreender o mundo? É dificílimo. Porque o mundo é muito complexo. Nesse mundo, nesse pedaço de universo que nós estamos, não há nada de simples (Neto, 2021). E eu digo simples recorrendo à etimologia da palavra, de sine plica, sem dobras, o mundo é feito de múltiplas dobras umas sobrepostas às outras, como camadas. Conhecer o mundo, então, é muito mais do que sistematizar experiências cotidianas. A organização, a sistematização de experiências e sua discussão são extremamente importantes e úteis porque mostram, sobretudo, que qualquer processo de conhecimento eficaz tem que ser social e coletivo, tem que ser inclusivo, livre de inverdades, de “fake news”. 
Requer respeito, de re + spectus, respicere, re, de novo, e specere, olhar, i.e., olhar outra vez, com outros olhos, olhar de amor e estima ao outro, ao irmão ao nosso lado, como nossa honorabilíssima Ordem diligentemente ensina, fielmente pratica e zelosamente guarda. 

Esse é o conhecimento atual, do ser em si, que muda a todo momento, mas que permanece igual em sua contradição, como uma representação da década, que é uma unidade nova, uma união completa como diz nosso Ritual do Grau de Companheiro Maçom. Nossa Ordem é sábia ao afirmar que o ser se manifesta unicamente pela ação. Diz o Ritual de Companheiro: não agir equivale a não existir; ela age, a exemplo do Cristo, acreditando na força da semente, i.e., na sua ação, no poder do fermento, para transformar a massa, na criatividade dos pobres e humildes, no dinamismo incomparável do Espírito, mas a partir de dentro, a partir da humanização dos corações, das contradições inerentes ao ser e a partir daí fornecer os instrumentos para se construir um novo mundo dia-a-dia, com o maço e o cinzel do Aprendiz, a régua o compasso, e a alavanca para mover o mundo e o esquadro símbolo da retidão, e da ação do homem sobre si mesmo.


Era o que constava V: M.: 
Anthos Neo de Éfeso C.:M.:





Bibliografia

Ritual do Grau de C.M. Porto Alegre 2018.

Netto, José Paulo. Introdução ao estudo do método de Marx. São Paulo, SP. Expresso Popular. 2021.














A ORDEM DA GEOMETRIA I

 

Para esta segunda reflexão escolhi algumas passagens do nosso Ritual do Grau de Companheiro, que passo a citar a seguir:


“O que significa a letra G?” perguntou o Venerável mestre. “Geometria, Geração, Gravidade, Gênio, e Gnose” respondeu o irmão Primeiro Vigilante. “De que Geometria trata-se aqui, irmão Segundo Vigilante? Indagou o Venerável Mestre. ”Da aplicável à construção universal, da que nos ensina a polir o homem e a torná-lo digno de ocupar seu lugar no edifício social” respondeu o irmão Segundo Vigilante. 

Para que nos tornemos geômetras de nós mesmos, necessitamos empreender a mensuração, o corte correto das figuras até que tenhamos o sólido perfeito a Pedra Cúbica por excelência, polida, digna de ser usada como pedra angular do edifício que chamamos de mundo. 

A Geometria clássica, como bem sabemos, foi focada nas construções com régua e compasso inicialmente e posteriormente ajuntou-se o esquadro e o prumo. Esse campo essencial do conhecimento foi sistematizado por Euclides, até os dias atuais considerado o "Pai da Geometria", que introduziu o rigor matemático e o método axiomático usados até hoje.

Os gregos antigos ampliaram a geometria dos antigos egípcios pelo “amor ao conhecimento”, pelo prazer intrínseco, já que os teoremas geométricos e sua formulação baseado na matemática ensejam o apanágio da lógica, da têmpera racional da mente e da coerência do pensamento. É logico extrapolar para nossa ordem, que nossos irmãos fundadores beberam nessa fonte e nos legaram o mais puro exercício da ciência. Unindo os antigos saberes geométricos formais com os ensinamentos humanistas cristãos temos o conhecimento da geometria aplicável à construção universal da qual fala nosso Ritual. Mas essa união requer em si mesma uma crítica à cada um dos nossos atos tanto de nossa fala quanto de nossas ações. Para isso nos basta levar ao pé da letra o que diz o nosso Ritual do Grau de Aprendiz que é preciso em suas palavras: devemos combater a tirania (só há Vida e liberdade na democracia), a ignorância (não repassar fake news, procurar a fonte do conhecimento, auxiliando todos os homens a criticarem e evitarem mentiras e insinuações), combater os preconceitos (que nos tornam escravos e segregam as pessoas por comportamentos, credo, cor, religião, orientação sexual etc). Da geometria que promove o bem-estar da Pátria republicana e da Humanidade como um todo, só há sociedade no sentido republicano da palavra onde todos sejam iguais, desfrutem da mesma liberdade e onde todos sejamos irmãos. É essa a Geometria que se ensina e se aprende em nossa Ordem. Para realizá-la verdadeiramente devemos cortar em nossa carne nossos erros, nossa ignorância, nossos preconceitos, glorificando o Direito a Justiça e a Verdade. Essas não são palavras vazias meus irmãos, são palavras que nos impelem, nos animam, que aquecem nossos corações e que devem sempre fomentar todas nossas decisões e atos. Vos digo meus irmãos, não é fácil, mas temos uns aos outros e a nossa digníssima Ordem que nos ensina e orienta.

Geometria tem a ver com a construção correta que segue leis e axiomas que podem ser provados. Usemos, pois, nós esse conhecimento, só aceitando o que pode ser provado, evitando tudo que no mundo da pós-verdade se oferece como o fácil fruto da “sociedade do cansaço” ... Somos homens, humus, argila, terra, solo que ao ser transformado pelo fogo torna-se tijolo do edifício universal que desejamos construir. Para isso necessitamos do conhecimento pois ação sem conhecimento é ato vão. E o que significa Gnose pergunta o Venerável Mestre. E diligentemente responde o irmão Segundo Vigilante: Em grego quer dizer “conhecimento”. É o conjunto de noções comuns a todos os iniciados que, à força de aprofundar, acabam por se encontrar na mesma compreensão da causa das coisas.

Novamente nos valemos do nosso Ritual do Aprendiz que afirma que a Maçonaria tem por objetivo tornar feliz a humanidade, pelo amor, pelo aperfeiçoamento dos costumes, pela tolerância, pela igualdade e pelo respeito à autoridade a à religião. Ora, Maçonaria é Conhecimento, todos haverão de concordar com essa afirmação; assim o Conhecimento legado pela nossa Ordem nos impele no caminho da sabedoria, na verdade, no reto agir e no correto pensar. Como os cortes das pedras devem ser estritamente retangulares para se ajustarem com exatidão entre si, assim, nós devemos ser e agir. Retangulares, para nos ajustarmos e contribuirmos co-retamente nesse edifício sem fim. 

Muitas vezes e de muitos modos falou- nos o G.:A.:D.:U.: antigamente aos nossos pais, pelos Profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos pelo seu Filho (Heb 1, 1-2). N'Ele, o Grande Arquiteto disse tudo. Não haverá outra palavra além dessa. Sua cruz é o nosso esquadro. E o esquadro emblema da sabedoria, nos ensina que a perfeição consiste, para o homem, o companheiro, na justeza com que se coloca na sociedade. 

Mesmo a Justiça estabeleceu esse princípio: o “princípio da justeza”. Por este princípio, também denominado princípio da conformidade, exatidão ou correção funcional, estabelece-se que a interpretação constitucional não pode chegar a um resultado que subverta ou perturbe o esquema organizatório funcional estabelecido pela Constituição. Assim, muito mais nós que trabalhamos com o esquadro, devemos ter sempre no horizonte essa luz, esse princípio cardial. De agirmos com a máxima idoneidade e retidão, para aumentar a alegria a equidade e sabedoria no mundo e não perturbá-la ou diminuí-la. 

Com essa lição magistralmente transmitida pelo nosso Venerável Mestre temos a plena capacidade e as habilidades necessárias para contribuirmos para a felicidade universal. 

Era o que constava Ven.: Mest.: 

Anthosneus de Éfeso Companheiro Maçom




Bibliografia

Ritual do Grau de Companheiro Maçom. 2018.


IMAGENS DO PASSADO