POLÍTICA E LUTA
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08 novembro 2025
BATMAN O HERÓI QUE O CAPITALISMO MERECE
BATMAN: O ÚNICO HERÓI QUE O CAPITALISMO MERECE
Revisitando ao filme do Coringa e uma crítica ao capitalismo predatório
e milicianos que se julgam heróis.
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Uma análise humanista do filme
A desigualdade em Gotham City, tal como descrita, (visualmente e intuída no filme) não é mero pano de fundo ficcional, é uma metáfora condensada da estrutura capitalista em seu estágio tardio e financeirizado (*). A concentração de riqueza nas mãos dos Wayne representa, de forma alegórica, o processo de acumulação primitiva e de reprodução ampliada do capital descrito por Karl Marx em sua obra “O Capital”.
A cidade é o espaço urbano onde se materializa o antagonismo de classes, a luta de classes: de um lado, os detentores dos meios de produção e do capital financeiro; de outro, a massa proletária e subproletária relegada à miséria, ao desemprego estrutural e à violência cotidiana; violência tanto real quanto simbólica.
1. A família Wayne e a acumulação do capital
A família Wayne encarna a burguesia industrial clássica que, sob o verniz da filantropia, constrói seu império sobre o trabalho explorado das massas. A suposta benevolência de Thomas e Martha Wayne (fundos para hospitais, orfanatos, obras públicas, escolas e museus etc.) é um exemplo do que Marx chamaria de “fetichismo da caridade”, isto é, o processo pelo qual o capital tenta ocultar sua origem violenta, o espólio do trabalho alheio, por meio de atos moralmente redentores. O termo exato "fetichismo da caridade" não é um conceito formalmente estabelecido na obra de Karl Marx. No entanto, a crítica de Marx e de pensadores marxistas à caridade e à filantropia burguesas é extensa e deriva diretamente de seus conceitos de fetichismo da mercadoria, alienação e da análise das contradições do capitalismo. A Crítica Marxista à Caridade. A crítica de Marx à caridade pode ser entendida através dos seguintes pontos:
Manutenção do Sistema: A caridade, na visão marxista, não aborda as causas sistêmicas da pobreza e da desigualdade. Ela apenas alivia temporariamente os sintomas da exploração capitalista, permitindo que o sistema que gera essa miséria continue a existir e a lucrar.
Hipocrisia Burguesa: Marx e Engels viam a filantropia burguesa como um ato de autointeresse e hipocrisia. A classe capitalista, ao fazer doações, “compra o direito” de não ser incomodada pela miséria que ela mesma cria, e a usa para mascarar a exploração e melhorar sua imagem pública.
Degradação Humana: Marx considerava a caridade degradante para o proletariado. Ele argumentava que a classe trabalhadora precisa de orgulho, autoconfiança e independência, e não de esmolas que perpetuam a dependência e a submissão.
Redução da Luta Política: A caridade desvia a atenção da necessidade de uma mudança política e revolucionária radical. Em vez de lutar pela erradicação da pobreza através da transformação social, as pessoas são levadas a acreditar que a benevolência individual pode resolver problemas estruturais, o que é visto como um “utopismo liberal”.
Instrumento de Controle: Organizações sem fins lucrativos e fundações de caridade podem servir, consciente ou inconscientemente, como ferramentas para a classe dominante influenciar políticas públicas e obter benefícios fiscais, enquanto minam o poder da classe trabalhadora (como sindicatos).
Relação da caridade com o Fetichismo
Embora Marx não tenha usado a expressão “fetichismo da caridade”, a ideia de “fetiche” na sua obra principal, O Capital, refere-se à mistificação das relações sociais. O fetichismo da mercadoria faz parecer que as relações sociais entre as pessoas são, na verdade, relações entre coisas (mercadorias com valor próprio). Ou seja, que as relações entre os sujeitos históricos sejam necessariamente mediadas pelo capital. Analogamente, a crítica à caridade sugere um tipo de “fetichismo” social: a caridade cria a ilusão de uma solução benevolente para a desigualdade, obscurecendo as verdadeiras relações de exploração e dominação que estão na raiz do problema, fazendo com que a solução pareça vir de atos individuais de bondade, e não da luta coletiva pela justiça social. Em suma, para Marx, a solução para a pobreza e a desigualdade não é a caridade, por maior que seja o número de burgueses que a proatique, mas sim a política e a revolução, a fim de criar um sistema socioeconômico que torne a caridade desnecessária.
Analogamente, na história real, podemos citar as famílias Rockefeller, Família Gates (Bill Gates e Melinda French Gates), Família Walton, Família Buffett (Warren Buffett), Família Soros (George Soros), Família Bloomberg (Michael Bloomberg), Família Moore (Gordon e Betty Moore), e Família Carnegie, que, após acumular fortunas por meio de monopólios e exploração brutal da classe trabalhadora nos EUA, tornaram-se ícones da filantropia moderna. Trata-se, portanto, de um mecanismo ideológico de legitimação: o capital cria o problema (a miséria) e, em seguida, oferece paliativos para parecer sua própria solução.
2. O assassinato dos Wayne: a dialética da violência
O filme não mostra mas deixa espaço para que deduzamos que os Wayne foram mortos pelo “mal que trouxeram e impuseram à cidade, ou a sociedade como um todo”. Do ponto de vista marxista, essa é a dialética da violência do capital, onde a injustiça sistêmica gera as condições de sua própria contestação. O crime em Gotham não é um desvio moral ou psicológico de alguns poucos, é uma consequência lógica do sistema econômico. É o corolário de uma equação que só tem uma raiz real, o capitalismo neoliberal de máxima acumulação.
Assim como nas revoltas operárias do século XIX ou nas insurgências periféricas das metrópoles modernas, o “bandido” é, muitas vezes, o produto direto das estruturas de opressão que o sistema gera para se sustentar.
Eu vejo a violência, em suas múltiplas formas, como um corolário, ou consequência direta, do capitalismo neoliberal. Esse sistema aprofunda as desigualdades sociais e econômicas, precariza as condições de vida e promove o controle social, resultando em manifestações de violência estrutural, institucional e interpessoal.
As principais formas de violência associadas ao capitalismo neoliberal incluem:
Violência Estrutural e Econômica
A violência estrutural refere-se aos sistemas organizados e institucionalizados que negam vantagens a determinados grupos, tornando-os mais vulneráveis ao sofrimento e à morte, no Brasil, o exemplo máximo dessa violência econômica é o próprio Congresso Nacional, que historicamente vota leis para manter o status quo e aprofundar a desigualdade social. No contexto neoliberal, isso se manifesta através: do aprofundamento da desigualdade e concentração de renda: As políticas neoliberais, que favorecem os setores mais ricos, resultam em maior pobreza e exclusão social. Precarização do trabalho e desemprego: a flexibilização das leis trabalhistas, o enfraquecimento dos sindicatos e a redução da proteção social geram insegurança e vulnerabilidade para os trabalhadores. Erosão dos direitos sociais: a diminuição do papel do Estado (estado mínimo) no provimento de serviços públicos essenciais, como saúde, segurança e educação, precariza a qualidade de vida da população mais pobre.
Violência Institucional e Estatal
O Estado neoliberal não é uma entidade neutra, mas um aparato que racionaliza e legitima a violência para manter a ordem do capital. Isso inclui: Militarização e expansão do encarceramento em massa: o controle social é frequentemente exercido por meio do aumento dos aparatos repressivos e da criminalização de condutas de grupos marginalizados (negros, pobres, indígenas, gays, travestir etc.), resultando em encarceramento em massa, especialmente de populações negras e pobres. Violência policial: a violência praticada pela polícia é vista como um modus operandi do Estado neoliberal para controlar o “outro” e manter a segregação espacial e social.
Violência Simbólica e Interpessoal
Além das formas visíveis, o neoliberalismo também fomenta violências em nível cultural e interpessoal: Individualismo e competição: a ênfase na responsabilidade individual pelo sucesso ou fracasso (a “ética” do neoliberalismo) mascara as desigualdades estruturais, gerando estresse, frustração e conflitos sociais. Reprodução de opressões: O capitalismo não criou opressões como o racismo e o sexismo, mas se beneficia delas, forjando condições de subordinação para a exploração da mão de obra. A violência de gênero, por exemplo, é acentuada por essa lógica, que exige o uso da violência como pressuposto da soberania patriarcal sobre o corpo das mulheres. Em suma, a lógica do capitalismo neoliberal, ao priorizar o mercado e a acumulação de capital em detrimento do bem-estar social, cria um ambiente propício para a proliferação e a legitimação de diversas formas de violência que afetam desproporcionalmente os mais vulneráveis.
Nesse sentido, o assassino dos Wayne não é apenas um criminoso individual, mas a encarnação simbólica da vingança de classe, o retorno do reprimido social, criado pelo capitalismo neoliberal em sua fase mais agressiva. O assassinato de Thomas e Martha Wayne foi, na maioria das versões canônicas da história, um crime aleatório, um assalto que deu errado, cometido por um criminoso comum chamado Joe Chill. Eles estavam voltando para casa depois de assistir a um filme (geralmente A Marca do Zorro) com seu filho Bruce Wayne, quando entraram em um beco escuro e foram abordados por Joe Chill. Ele tentou roubar os pertences deles e, em um momento de pânico ou quando Thomas tentou proteger sua esposa, ele atirou e matou os dois, fugindo em seguida. Sendo portanto um ato de violência urbana “sem sentido”, mas com uma causa bem definida.
3. O Batman como superestrutura do capital
A figura do Batman é o ponto mais sofisticado da crítica. Ele representa a fase neoliberal do capitalismo, quando o capital assume o papel de mediador total da vida social, dissolvendo as fronteiras entre Estado, moral e economia. Bruce Wayne, ao se tornar Batman, incorpora a lógica do “empreendedor de si mesmo” (homo oeconomicus neoliberal), que busca resolver o caos social por meio da força privada e da tecnologia, ambos frutos financiados por seu capital.
Ele é, portanto, a polícia privada do capital, o braço armado da burguesia sob o disfarce de justiceiro. Enquanto o Estado é retratado como corrupto e impotente, Batman surge como a ilusão meritocrática de que um indivíduo rico e virtuoso pode substituir as instituições públicas. A crítica marxista apontaria aqui para o mito do herói burguês, que, ao combater os “bandidos”, combate apenas os efeitos do sistema que ele mesmo perpetua. Historicamente, esse padrão é visível em fenômenos como:
A privatização da segurança pública e o surgimento de milícias como as do Rio de Janeiro e São Paulo, e exércitos corporativos (como a Blackwater);
A filantropia corporativa de bilionários do Vale do Silício, que procuram “salvar o mundo” sem questionar a origem de suas fortunas;
O discurso de “responsabilidade social” de empresas poluidoras ou exploratórias, que tentam suavizar os efeitos destrutivos de sua própria atividade.
4. O mito Wayne como ideologia dominante
Na leitura marxista, o mito da família Wayne funciona como aparelho ideológico da burguesia, no sentido althusseriano. Ele serve para naturalizar a desigualdade e legitimar a dominação de classe, apresentando o capitalista como benfeitor e o pobre como criminoso.
O mesmo se observa na cultura real: filmes, mídia e publicidade constroem narrativas nas quais o capital é civilizador, e sua crítica é sempre apresentada como ameaça ou caos. No Brasil até um lema foi criado, todos devem se lembrar do desgoverno Bolsonaro, ele mesmo um lumpercapuralista corrupto até a medula óssea, que ousou dizer em plenário no parlamento que @bandido bom é bandido morto”, sendo ele mesmo um criminoso. Ou quando enalteceu um torturador quando votou a favor do golpe sobre a presidenta Dilma Rousseff, e não foi enxotado dali, muito pelo contrário, algum tempo depois se tornaria o pior presidente do país.
Em síntese, o texto fílmico, reinterpretado à luz do marxismo, revela que Gotham é o espelho distorcido do capitalismo tardio real. Os Wayne são os capitalistas fundadores, o Batman é a superestrutura coercitiva, e os criminosos são parte do proletariado excluído, empurrado à margem e ao limite pela desigualdade estrutural. A cidade, mergulhada na violência, não é uma patologia moral, mas a forma natural de sociabilidade do capital em sua fase terminal. Em suma: o Batman combate o crime, mas preserva o sistema que o gera. Ele é o herói que o capital merece e, tragicamente, o único que pode tolerar.
(*)
O capitalismo financeirizado refere-se ou define uma fase ou padrão de acumulação do capitalismo em que o capital financeiro (bancos, fundos de investimento, mercado de ações) assume um papel dominante na economia, em detrimento do capital produtivo (industrial). A obtenção de lucro e riqueza ocorre primariamente através da especulação financeira e de instrumentos financeiros, e não mais predominantemente pela produção industrial tradicional.
Características Principais
Dominância do Capital Financeiro: Instituições bancárias e grandes empresas de investimento controlam grande parte da economia, muitas vezes se fundindo com o capital industrial (formando oligopólios e transnacionais).
Especulação como Fonte de Lucro: O lucro é gerado principalmente pela compra e venda de ações, títulos e outros ativos financeiros, com base na expectativa de valor futuro, e não pelo processo produtivo em si.
Ampliação do Fluxo de Capital Bancário: Há uma circulação massiva e global de dinheiro e investimentos, facilitando a atuação de empresas transnacionais. O que normalmente provoca uma perda de direitos do trabalhador e diminuição de postos de trabalho.
Busca por Lucros pela Posse do Capital: O foco muda da reprodução do capital através da produção de bens e serviços para a valorização do capital pela simples posse de ativos financeiros.
Desregulação e Neoliberalismo: Esse processo é frequentemente associado a políticas neoliberais de desregulamentação dos mercados, que dão maior liberdade de ação aos agentes financeiros.
Impactos na Economia e Sociedade
Aumento da Desigualdade: A financeirização tende a concentrar a renda e a riqueza nas mãos de rentistas e financistas, em detrimento dos trabalhadores e da produção, intensificando as desigualdades sociais.
Instabilidade Econômica: A dependência excessiva de mercados financeiros e a criação de “bolhas” especulativas aumentam o risco de crises econômicas graves, como a crise de 2008.
Pressão sobre o Estado e Políticas Sociais: O capital financeiro exerce pressão por políticas de austeridade e cortes em fundos públicos, que passam a ser gerenciados em função das demandas do mercado financeiro, ameaçando direitos sociais.
Redução do Investimento Produtivo: A busca por retornos financeiros rápidos pode levar ao desinvestimento em negócios de longo prazo e na produção industrial, prejudicando o crescimento econômico sustentado.
(Continuará…)
Aceito críticas e sugestões.
07 novembro 2025
DOMESTICAÇÃO DO MILHO
DOMESTICAÇÃO DO MILHO NO BRASIL
Apresento um resumo detalhado, seguido de destaque dos principais métodos, achados e implicações do estudo:
Archaeological findings show the extent of primitive characteristics of maize in South America (Costa et al., 2024) (science)
(DOI:10.1126/sciadv.adn1466) ([Science][1])
Com uma nálise das figuras disponibilizadas no artigo.
Resumo do artigo
Este estudo investigou restos arqueológicos de milho (Zea mays L. 1753) no Vale do Peruaçu, em Minas Gerais, Brasil, com o objetivo de verificar a presença de características morfológicas primitivas que indiquem que o milho chegou à América do Sul em estado apenas parcialmente domesticado, ou seja, antes de completar o processo de domesticação que se consolidou na Mesoamérica. (2)
Os autores reportam que esses materiais arqueológicos apresentam traços morfológicos “primitivos” (por exemplo, poucas fileiras de grãos, características próximas das plantas selvagens-parentes como a teosinte), que foram mantidos por um período bastante longo (entre aproximadamente 1010 e 570 anos antes do presente) e em local bastante distante do centro de origem do milho (~7.000 km do vale do Rio Balsas, México) e também distante dos centros secundários de diversificação (como a Amazônia Ocidental). (2)
Por meio de análises morfológicas (fragmentos de sabugos, espigas, grãos) e comparações com raças modernas de milho de várzea na América do Sul, bem como com teosintes (parentes selvagens), os pesquisadores argumentam que a dispersão do milho para a região de baixada da América do Sul se deu quando ele ainda mantinha traços primitivos e que ali esse estado persistiu por milênios, antes de evoluir para as formas mais domesticadas que hoje conhecemos. (3)
Além disso, os resultados reforçam a hipótese de que o processo de domesticação do milho foi mais complexo do que uma única origem seguida de dispersão linear, eles apoiam a ideia de uma domesticação estratificada ou gradual, com manutenção de diversidade genética e morfológica em regiões de baixada da América do Sul, contribuindo para a diversificação regional de raças de milho. (Cultivar 4)
Métodos
Amostras arqueológicas: o estudo fez uso de 282 fragmentos de espigas/sabugos, 12 grãos e 2 espigas completas, provenientes de escavações no Vale do Peruaçu. (ResearchGate 5)
Amostras comparativas: foram utilizados também 22 acessos de teosinte preservados no Museu Peabody de Arqueologia e Etnologia (Harvard), para comparação morfológica. (PubMed 2)
Caracterização morfológica: foram registrados descritores quantitativos e qualitativos, número de fileiras de grãos, forma da espiga, tamanho, etc. Por exemplo, os materiais arqueológicos com “traços primitivos” tinham quatro a seis fileiras de grãos por espiga, comparados aos oito ou mais observado em milho plenamente domesticado da região. (Cultivar 4)
Análise estatística multivariada: foi feita uma Análise de Coordenadas Principais (PCoA) e análise de agrupamento (cluster) usando morfologia e dados genômicos (mais de 5.000 SNPs) para posicionar essas amostras no contexto da diversidade de milho moderno. (ResearchGate 5)
Datação e contexto arqueológico: as amostras foram consideradas com idades entre ~1010 e ~570 anos antes do presente, o que indica a persistência destas formas “primitivas” até o período pré-colombiano tardio. (PubMed 2)
Principais Achados
Encontraram-se espigas/sabugos arqueológicos no Vale do Peruaçu que apresentam traços morfológicos muito próximos aos da teosinte (planta selvagem que deu origem ao milho), por exemplo, 4-6 fileiras de grãos (em contraste com 8+ em raças mais domesticadas). (Cultivar 4)
Tais amostras localizam-se muito mais distante do centro de domesticação (México) do que o esperado, e em ambiente de baixada da América do Sul — o que expande o alcance geográfico e temporal da manutenção de traços primitivos do milho. (Agência Fapesp 6)
As análises genéticas e morfológicas (PCoA, clusters) mostram que essas amostras arqueológicas se agrupam com raças de milho de várzea (floury maize races) da América do Sul, e em certa medida próximas aos teosintes, o que sugere que a dispersão do milho em estado parcialmente domesticado permitiu a diversificação regional. (Science 1)
Os resultados reforçam a hipótese de que o milho não se domesticou de uma vez, ou seja, não há simplesmente “milho domesticado no México → dispersão”. Ao contrário, parece ter havido formas intermediárias, introduções múltiplas ou lenta fixação de caracteres de domesticação em regiões periféricas. ([PMC][3])
Implicações
Evolução da domesticação agrícola: o estudo amplia nossa compreensão sobre como culturas importantes do mundo moderno, como o milho, foram domesticadas e dispersas. Ele mostra que regiões “marginais” (em termos de domesticação clássica) podem ter mantido formas primitivas muito tempo, servindo como reservatórios de diversidade genética.
Genética e conservação de diversidade: encontrar formas primitivas tão tardias em regiões isoladas sugere que raças de milho da América do Sul têm valor especial como recursos genéticos (diversidade, tolerâncias, genes ancestrais). Isso implica políticas de conservação e possível reavaliação de origem/domesticação.
Arqueologia agrícola e antropologia: a presença de milho parcialmente domesticado até ~500–1000 anos atrás em uma região remota indica conexões entre culturas humanas, transporte de plantas e adaptação a diferentes ambientes — implicando que as sociedades indígenas de baixada tiveram papel maior nessa história do que muitas vezes reconhecido.
Direito genético e geopolítica: como apontado em resumos de divulgação, se raças domésticas acabaram sendo desenvolvidas ou mantidas no Brasil ou baixadas da América do Sul, isso pode ter implicações para direitos de propriedade, reconhecimento de diversidade agrícola tradicional e regimes internacionais de germoplasma. (Agência Fapesp 6)
Análise das Figuras
Segue abaixo uma breve análise das figuras principais do artigo:
Figura 1
– Mapa de distribuição: localização do vale do Peruaçu, vale do Balsas (México), Amazônia sudoeste, e registros arqueológicos de milho. Mostra a singularidade geográfica da nova evidência. (ResearchGate5)
– Fotografias de fragmentos arqueológicos: espigas, sabugos, grãos e endosperma farináceo encontrados no vale do Peruaçu. Apresenta comparativos visuais de espigas “primitivas” vs “totalmente domesticadas”.
Essa figura é importante porque oferece a evidência material visível que fundamenta os achados morfológicos.
Figura 2
– Caracterizadores morfológicos da teosinte: comparação entre subgrupos de teosinte (grupo 1 e 2) e amostras arqueológicas de milho com traços primitivos no vale do Peruaçu. Mostra número de fileiras de grãos, forma da espiga, etc.
Essa figura reforça a hipótese de que as amostras arqueológicas se aproximam da teosinte, ou pelo menos mantêm traços ancestrais.
Figura 3
Estrutura genética/morfológica das raças de milho de várzea da América do Sul: (A) PCoA com acessos modernos + amostras arqueológicas; (B) análise de agrupamento (Ward) morfológica; (C) clusterização baseada em ~5 313 SNPs; (D) mapa das ecorregiões.
Esses resultados mostram estatisticamente que as amostras arqueológicas ocupam posição intermediária entre teosintes e raças plenamente domesticadas, suportando a tese de dispersão em estado de domesticação parcial.
Figura 4
Relação de similaridade entre teosintes modernas, amostras arqueológicas e raças atuais de milho de várzea. Inclui dendrograma e fotos comparativas das espigas.
Refina o entendimento de que há continuidade entre as formas primitivas arqueológicas, as formas selvagens e as raças regionais modernas de milho — evidenciando uma genealogia complexa.
Considerações finais
Em síntese, o estudo de Costa et al. (2024) representa uma contribuição significativa para o entendimento da domesticação e dispersão do milho. Ele amplia o alcance geográfico e temporal de formas primitivas de milho na América do Sul, reforça a diversidade genética das raças sul-americanas e questiona modelos simplificados de domesticação linear.
Para futuros estudos, a aplicação de arqueogenômica plena (sequenciamento do genoma dessas amostras arqueológicas) poderá esclarecer com mais precisão as rotas de migração, introgressões e processos de seleção regional.
Fonte
https://www.science.org/doi/10.1126/sciadv.adn1466
[1]
https://www.science.org/doi/10.1126/sciadv.adn1466?utm_source=chatgpt.com "Archaeological findings show the extent of primitive ..."
[2]
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39231236/?utm_source=chatgpt.com "Archaeological findings show the extent of primitive ..."
[3]
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11373604/?utm_source=chatgpt.com
"Archaeological findings show the extent of primitive ..."
[4]
https://revistacultivar.com/index.php/news/Discovery-in-the-Peruacu-Valley-reinforces-theory-about-corn-domestication-in-South-America?utm_source=chatgpt.com
"Discovery in the Peruaçu Valley reinforces theory about corn ..."
[5]
https://www.researchgate.net/publication/383755155_Archaeological_findings_show_the_extent_of_primitive_characteristics_of_maize_in_South_America?utm_source=chatgpt.com "
(PDF) Archaeological findings show the extent of primitive ..."
[6]
https://agencia.fapesp.br/partially-domesticated-maize-is-found-in-caves-in-minas-gerais-state-brazil/53456?utm_source=chatgpt.com
"Partially domesticated maize is found in caves in Minas ..."
Milho ancestral é encontrado em cavernas de Minas Gerais e altera a ideia de que o milho foi domesticado apenas a partir do México.
Amostras de milho (grãos, espigas e palha) ainda não totalmente domesticado encontradas em cavernas no Vale do Peruaçu, no norte do estado brasileiro de Minas Gerais, foram determinadas como as mais distantes já encontradas do centro de origem da planta, o México.
Os resultados foram divulgados no dia 04 de setembro de 2024, em um artigo publicado na revista Science Advances, em trabalho liderado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que você pode conferir na íntegra nesse link: https://www.science.org/doi/10.1126/sciadv.adn1466 .
A descoberta reforça achados do grupo publicados em 2018, na revista Science, que mostrava evidências genéticas, em plantas atuais, de que o milho poderia ter finalizado sua domesticação também na América do Sul.
Faltava encontrar amostras de indivíduos semidomesticados no continente, que se revelaram em espigas, palha e grãos encontrados em escavações arqueológicas realizadas no Vale do Peruaçu em 1994, por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
“A princípio, essas amostras foram consideradas apenas exemplares de milho domesticado que não cresceram o suficiente. A partir da evidência genética de que o processo final de domesticação poderia ter ocorrido na América do Sul, reavaliamos o material e encontramos diversas características em comum com a planta que originou o milho no México, 9 mil anos atrás, e a que chegou no sudoeste da Amazônia, 6 mil anos atrás”, explica Flaviane Malaquias Costa, primeira autora do estudo, realizado durante doutorado e pós-doutorado na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da USP, este último com bolsa da FAPESP.
A distância do México para o Vale do Peruaçu é de cerca de 7.150 quilômetros, enquanto do sudoeste da Amazônia, atuais Rondônia e Acre, em torno de 2.300 quilômetros. As amostras, portanto, são as mais distantes do centro de origem da planta já encontradas com essas características primitivas.
Embora as evidências arqueológicas registrem entre 10 mil e 9 mil anos atrás a presença de populações humanas no Vale do Peruaçu, o milho parece ter chegado à região apenas cerca de 1.500 anos atrás. As amostras da planta semidomesticada encontradas no local vão de 1.010 até cerca de 500 anos atrás, quando os europeus aportaram no continente.
“Isso mostra a importância das populações indígenas do passado, que selecionaram, manejaram e fixaram características que deram origem às raças de milho atuais da América do Sul. Seus descendentes continuam realizando esse trabalho ainda hoje, contribuindo para mantermos nossos recursos genéticos”, conta Fábio de Oliveira Freitas, pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, em Brasília, coautor do estudo.
A partir da análise de diversas características do milho encontrado nas cavernas no Peruaçu, os pesquisadores determinaram um parentesco com a raça brasileira Entrelaçado, presente nos Estados do Acre e de Rondônia.
“Esta foi uma das raças que se originaram na América do Sul a partir da seleção de outras populações, cujas variedades atuais encontramos durante nosso projeto de pesquisa. Nele, rastreamos milhos em vários locais do Brasil e Uruguai”, lembra Elizabeth Ann Veasey, professora da Esalq-USP que orientou o doutorado de Costa e coordenou projeto apoiado pela FAPESP.
Fileiras ancestrais
Para diferenciar milhos domesticados daqueles que não tiveram esse processo concluído, os pesquisadores examinaram uma série de marcadores, características morfológicas que ajudam a determinar a distância da planta de sua versão selvagem.
Um desses traços é o número de fileiras de grãos, sendo abaixo de oito considerado de uma planta primitiva. Essa é a quantidade encontrada no teosinto, espécie forrageira (popularmente conhecida como dente-de-burro) que teria dado origem ao milho no México cerca de 9 mil anos atrás.
Enquanto raças de milho atuais de terras baixas na América do Sul podem ter de oito a 26 fileiras de grãos, as amostras arqueológicas do Peruaçu apresentam entre quatro e seis fileiras. As análises foram realizadas num total de 296 amostras, incluindo espigas, palha e grãos
“Fizemos uma viagem no tempo que vai de um passado distante até os dias de hoje, dos vestígios arqueológicos às raças e variedades mantidas e ainda sendo diversificadas pelos povos tradicionais, os protagonistas dessa história”, reforça Costa
As amostras agora passam por análises arqueogenéticas com parceiros internacionais, realizadas por meio de um conjunto de técnicas de última geração que, se bem-sucedidas, poderão sequenciar o genoma completo do milho encontrado no Peruaçu e determinar com precisão seu parentesco.
As cavernas do Vale do Peruaçu são algumas das poucas no mundo com pinturas rupestres de espécies cultivadas. Além de ilustrado nas paredes, o milho foi encontrado em cestos enterrados, provavelmente como oferenda aos mortos sepultados naqueles sítios.
A descoberta também tem um desdobramento geopolítico. Uma vez que se estabelece que raças de milho terminaram o processo de domesticação aqui no Brasil, esses recursos genéticos podem ser considerados não mais exóticos, o que implica a necessidade de esforços para sua conservação e direitos em tratados internacionais sobre o tema.
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