Pensador analisa eleições históricas. Os impactos e limites de uma possível vitória de Lula. Os riscos de um Congresso norte-americano alinhado a Trump. Como formular, em tempos turbulentos, alternativas que desafiem o sistema
Noam Chomsky, em entrevista a José Guilherme, Vanessa Nicolav e Hugo Albuquerque, na
Jacobin Brasil.
Artigo
28/X/2022
Noam Chomsky
O linguista norte-americano Noam Chomsky – um dos maiores intelectuais públicos mundiais do último meio século – está no Brasil. Daqui “de baixo”, e do alto de seus 93 anos de idade, ele observa atentamente os desdobramentos de duas disputas políticas globais, simultâneas e correlatas: de um lado, o segundo turno das eleições brasileiras no próximo 30 de outubro, em que Jair Bolsonaro tenta a reeleição contra o ex-presidente Lula; de outro, as eleições legislativas norte-americanas, em que os republicanos buscam retomar o controle do Congresso e travar o governo de Joe Biden.
É nesse contexto que a Jacobin Brasil, sob a batuta de Hugo Albuquerque, José Guilherme Pereira Leite e Vanessa Nicolav, produziu essa entrevista. Procuramos decifrar este momento dramático da humanidade e, ao mesmo tempo, pensar em rotas de resistência e renovação.
Quando a câmera se abriu para a nossa equipe na entrevista, Chomsky surgiu como um velho sábio, lembrando a figura do Eremita – Arcano de número 9 – do Tarot de Edward Waite. O rosto parcialmente coberto por uma barba longuíssima, os olhos serenos e a voz calejada conjugaram-se por quase duas horas na expressão de uma inteligência cortante. É a clarividência simples e direta de um personagem histórico, que testemunhou as principais agruras geopolíticas que nos atravessam desde a Guerra do Vietnã.
O tom sereno e pausado de sua fala não esconde porém a gravidade do mundo por ele descrito. É, entretanto, um mundo que, embora aturdido por catástrofes climáticas, avanço do fascismo e cenário geral de belicismo, contém para Chomsky – ainda – a perspectiva de uma superação possível. No centro dessa superação está para ele a força dos movimentos sociais que, mesmo tantas vezes esmagados, sempre renascem e deixam os seus avanços.
Você tem falado sobre as eleições brasileiras. Qual a maior ameaça que Bolsonaro representa para o mundo, tanto do ponto de vista estratégico quanto ideológico? Bolsonaro antecipa “o novo normal”, isto é, essa forma de ultraliberalismo radical e exterminatório?
Primeiramente, eu seria cauteloso com a palavra ultraliberalismo no que diz respeito a Bolsonaro. Isso é aplicável ao Ministro da Economia dele, Paulo Guedes, cujos slogans sempre giram em torno da privatização de tudo para deixar aos cuidados da esfera privada etc.. Isso é chamado “liberalismo” atualmente, mas na realidade, é um autoritarismo profundo. É entregar tudo aos centros de poder menos transparentes que existem. Trata-se, na verdade, de neoliberalismo, e ele tem dominado a cena política nos últimos 40 anos, disfarçado de discurso sobre mercados. Isso é quase sempre uma fraude.
Desde os anos 1970, os Estados Unidos não eram muito diferentes de qualquer país desenvolvido, em termos de serviços de saúde, custos do sistema de saúde e mortalidade, índice de encarceramento, entre outros. Agora está tudo fora de controle. Atualmente, os índices de encarceramento dos Estados Unidos, que estavam na média durante os anos 1970, atingiram algo em torno de 10 vezes a taxa dos outros países desenvolvidos. O custo da saúde nos Estados Unidos é cerca de duas vezes mais alto do que em países do mesmo porte, mas os resultados estão entre os piores.
Quando Margareth Thatcher se tornou primeira-ministra do Reino Unido, em 1979, quase na mesma época de Reagan nos Estados Unidos, sua primeira medida foi enfraquecer e desmontar os sindicatos de trabalhadores. Isso abriu as portas para as grandes empresas usarem meios ilegais, como a sabotagem de greves, para impedir a organização dos seus empregados. Tudo isso foi ilegal, mas quando se tem um Estado criminoso, não faz diferença. Situações similares aconteceram no mundo todo.
Uma das consequências disso é deixar a população enfurecida, ressentida, indiferente às instituições. É o terreno fértil ideal para demagogos como Jair Bolsonaro no Brasil, Viktor Orbán na Hungria, e outros. Essas figuras aparecem prometendo a salvação para a angústia e o sofrimento infligidos aos trabalhadores. E enquanto prometem isso, estão, na verdade, intensificando essa situação, pois pessoas como Bolsonaro ou Orbán estão trabalhando para os opressores.
Observem a agenda legislativa de Donald Trump nos Estados Unidos. Basicamente, sua meta principal era cortar os impostos sobre os muito ricos e o setor corporativo, o que significa gerar mais fardos a todo o restante da população, levando à continuação do corte de benefícios para a classe trabalhadora. Ao mesmo tempo, Trump surge com um discurso de “Eu sou seu salvador, o problema não é minha agenda, são os imigrantes, os negros etc… os culpados. Preocupem-se com eles!”
Aliás, antes de voltarmos a Bolsonaro, me deixem acrescentar que teremos uma outra eleição, uma semana depois da brasileira, só que nos Estados Unidos, em 8 de novembro. Será uma semana fatídica. Estamos falando das duas maiores sociedades do hemisfério ocidental, o colosso do Norte e do Sul — sendo que o este último, o Brasil, despendeu gigantescos esforços para alcançar seu potencial, tanto em desenvolvimento quanto para ter voz, sobretudo entre os anos 1950 e início dos 1960, com o Presidente Juscelino Kubitschek. A oposição a isso pelo governo de John Kennedy nos Estados Unidos abriu o caminho para o golpe militar no Brasil, uma das primeiras pragas com tendências neonazistas que se espalharam pela América Latina. Uma pestilência aterradora de retrocesso.
Com o governo de Lula, rapidamente o Brasil se tornou um dos países mais influentes e respeitados do mundo, a voz do Sul global, com imensa redução da pobreza, com inclusão. Então vieram os golpes soft que levaram ao governo Bolsonaro, causando o retrocesso atual. Se Bolsonaro conseguir se manter no poder, seja por meio das eleições ou de alguma forma de golpe, e, uma semana depois, o Partido Republicano dos Estados Unidos — que é por si protofascista — tomar o controle do Congresso já tendo o controle da Suprema Corte, ele cercará o Poder Executivo e, assim, entrará em risco o que resta da democracia nos dois maiores países do continente.
Por sua vez, na Europa, Viktor Orbán conduz a Hungria na direção de se consolidar como uma democracia intolerante, em que o Estado aumenta seu poder coercitivo limitando instituições acadêmicas, veículos independentes de imprensa e partidos políticos. Assim, ele projeta uma sociedade fundamentalmente racista, cristã e nacionalista, os mesmos ideais e fundamentos do Partido Republicano norte-americano. E Orbán, por sinal,
foi a atração principal da Conferência Conservadora de Ação Política, principal evento da direita dos Estados Unidos e, por tabela, do Partido Republicano. Donald Trump não cansa de fazer discursos com menções a Orbán — e vice-versa. Esse é o ideal que querem alcançar e medidas estão sendo instituídas em diversos Estados republicanos nesta direção.
Em 8 de novembro, os republicanos pretendem tomar o Congresso, preparando o caminho para o próximo passo. O que isso significa? Significa que no hemisfério ocidental as duas maiores potências, uma delas fazendo as vezes de governo mundial, estariam essencialmente em mãos de forças fascistas. Isso terá efeitos estrondosos nos outros países do hemisfério.
Republicanos e bolsonaristas atrasarão os esforços para as reformas moderadas que podem ser feitas em seus países. E isso terá impactos cruéis e brutais em nível global, devido ao imenso tamanho dos Estados Unidos e do Brasil. Então, esse pode ser um real impulsionador ao crescimento de forças profundamente reacionárias em todo o mundo. Forças que, em suas bases populares, resultam de uma fratura da ordem social pela guerra de classes selvagem dos últimos quarenta anos.
Depois de Bolsonaro, o Brasil se tornou mais violento. Não só a polícia, mas muitas famílias e indivíduos estão armados. Há uma militarização também em escala molecular, para além dos milhares de militares na administração federal. Na sua visão, quais as consequências disso, especialmente da base organizada da extrema direita?
Minha esposa, que é brasileira, e eu estávamos assistindo aos noticiários brasileiros na última noite. Vocês provavelmente também viram. Um dos segmentos era uma peça bastante fantástica, na qual a polícia federal era responsável pela administração de um programa para crianças, de três, quatro, cinco anos de idade, em que os ensinavam a manusear rifles militares. E eles ensinam essas crianças a desfilarem com capacetes, manejando esses rifles.
Tinha uma cena em que eles estavam treinando elas! Crianças lidando com todo tipo de armamento militar, sendo treinadas para funções bélicas. Foi algo bastante chocante.
Bolsonaro, vocês sabem melhor que eu, liberou uma enxurrada de armas na sociedade. O Brasil costumava ser moderadamente rigoroso com o acesso a armas, mas Bolsonaro simplesmente removeu essas restrições. E isso fez chegar esse armamento às milícias. Tudo isso será a base de um eventual golpe. Pode não ser como em 1964, mas seria algo parecido.
A crítica de Bolsonaro à ditadura brasileira é de, segundo ele, os generais daqui não foram brutais como seus parceiros na Argentina, que executaram 30 mil pessoas. Ele deixou suas intenções bastante transparentes, de diversas formas, nem preciso mencioná-las. Quando Bolsonaro proferiu seu voto favorável ao fraudulento impeachment de Dilma Rousseff, ele dedicou seu voto inteiramente ao torturador dela, um horror sem palavras que o descreva. Essas armas precisam estar sob controle, senão, vocês se tornarão algo parecido com a Alemanha nazista.
No Brasil, a principal figura de esquerda, há décadas, é Lula. Em razão disso, ele acabou sendo tratado como uma figura messiânica pela classe trabalhadora. Depois dele, temos poucas lideranças de esquerda com destaque. Como você vê essa que, possivelmente, será a última batalha dele? E como poderá ser o pós-Lula?
No Brasil, como ocorre de forma geral, líderes políticos surgem de movimentos sociais, tornando-se seus porta-vozes. Martin Luther King foi uma figura fundamental, mas não o teria sido, e acho que ele concordaria com isso, se não fosse pelos jovens do
Comitê Estudantil Coordenador Não-Violento. Eles dirigiam os “ônibus da liberdade” pelo Alabama e pela Geórgia, arriscando suas vidas, tentando encorajar camponeses negros a votar. Ativistas reais, jovens ativistas que dirigiam essas atividades nas bases, foram eles que criaram a onda com a qual King pôde se tornar um representante eloquente.
Já o Brasil tem o que eu considero ser o movimento popular mais importante do mundo: o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST). Um movimento enorme, muito corajoso, fazendo coisas importantes, no qual há figuras bastante impressionantes. E que teve inclusive resultados relevantes nas últimas eleições — assim como o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST). Se observarmos esses movimentos atentamente, notaremos novos líderes surgindo.
Devo dizer que uma das falhas do PT, em meu ponto de vista, foi a falta de organização local efetiva. Portanto, tem sido bastante chocante observar tantas pessoas que foram beneficiadas pelos programas sociais dos governos petistas não reconhecerem de onde tudo isso veio. Eram então crianças e jovens que puderam frequentar a escola e a universidade devido aos programas de inclusão, ao Bolsa Família, que impulsionou a criação de pequenos negócios e etc.. Com uma aposta intensiva em organização local, creio que essa questão da formação de lideranças deixaria de ser um problema.
Os partidos e os sindicatos foram muito enfraquecidos no Brasil nas últimas décadas, assim como os movimentos sociais, se compararmos com a década de 1980. Em que medida as práticas do anarquismo e o anarcossindicalismo — todos reivindicados por você em certos momentos — podem oferecer possibilidades para uma renovação da esquerda e o combate dessa ascensão da direita?
Voltando ao MST, ele é um bom exemplo. Muito do que eles fazem é o desenvolvimento de uma sociedade cooperativa, de propriedade cooperativa, participação, desenvolvimento fundamentalmente centrado em indústria de base agrícola, como a indústria de laticínios e outras, que realmente circulam na sociedade em geral.
Essa é a forma como movimentos populares verdadeiros são desenvolvidos: trabalhando em direção de uma economia participativa cooperativa, em uma escala bastante significativa. Mas é preciso expandir isso cada vez mais, integrando-a às áreas urbanas, com o crescente movimento dos sem teto.
Olhemos para os movimentos anarquistas relevantes, como o anarquismo espanhol e a forma como ele se desenvolveu ao longo de décadas. Só que chegou uma hora em que eles não conseguiam seguir em direção a uma real revolução anarquista e ficaram sob a pressão de uma combinação de fascistas, comunistas e democracia liberal — isso foi muito forte, muito pesado.
E podemos ver esse tipo de desenvolvimento com frequência. Pegue os Estados Unidos como referência. Há algo chamado “populismo” hoje, que nada tem a ver com a versão popular tradicional. O populismo tradicional era um movimento radical de produtores rurais independentes tentando desenvolver o que chamavam de “regras comuns cooperativas”, que os libertaria dos Estados Unidos. Banqueiros do Norte e do Leste dos Estados Unidos e agentes de mercado articularam a destruição desse movimento de trabalhadores, um dos mais vibrantes dos fins do século XIX. Isso teria sido uma base para um Estados Unidos bastante diferente. É claro que essa destruição aconteceu por via da força.
A elite capitalista nos Estados Unidos é bem organizada, bastante consciente de sua natureza de classe, sempre batalhando duramente na luta de classes. Ela é capaz de mobilizar recursos estatais e de tratorar o que for necessário. Mas isso ocorreu repetidas vezes em vários outros países. É em relação a isso que o MST resiste aqui no Brasil também.
Antes dos anos 1920, o movimento dos trabalhadores foi quase completamente destruído pelas medidas altamente repressivas do presidente Woodrow Wilson, que liderou a pior repressão da história norte-americana. Milhares de radicais foram deportados, o pensamento independente foi extinto, a desigualdade era imensa, parecida com agora, e o movimento sindical foi praticamente extinto.
Nos anos seguintes, dos quais eu já tenho memória própria, iniciou-se a criação da
Congresso das Organizações Industriais (CIO), fundada em 1935, uma grande central sindical que promoveu grandes atos militantes de trabalhadores, modificando a política dos Estados Unidos. Os Estados Unidos chegaram a ter um governo razoável, que estabeleceu as bases de uma moderna democracia social que, embora tenha tido muitas falhas e recebido muitas críticas, promoveu grandes avanços em políticas de bem-estar social e direitos humanos. Essa ascensão dos movimentos nos Estados Unidos exigiu um imenso esforço, por parte dos mestres da economia americana e do sistema político, para desmantelar isso novamente.
Mas acho que pode renascer, e acho que também é possível esse renascimento para o Brasil e para outros lugares. Vemos sinais por toda parte, neste momento. O que vem ocorrendo na Colômbia e no Chile pode acontecer no Brasil. Isso faria uma enorme diferença, até pelas proporções e, consequentemente, pela influência que o Brasil tem no Sul Global.
Você tem falado muito sobre a destruição da Amazônia. Além de Bolsonaro promover isso, também temos a cumplicidade do mercado global e da comunidade internacional, que não apoia diretamente a devastação mas não toma medidas concretas contra o atual governo brasileiro. Seria a Amazônia a fronteira final do capitalismo?
Pode ser a fronteira final da sociedade organizada na Terra, não apenas para o capitalismo. Assim como foi de conhecimento geral, por um longo tempo, que se as tendências atuais persistirem, a Amazônia, da qual a maior parte é território brasileiro, será obliterada. E, assim, chegaremos a um ponto em que a umidade produzida será insuficiente para sustentar a floresta, e ela se tornará uma savana, ao invés de ser o maior reservatório de carbono, vai se tornar um imenso emissor de carbono.
Isso é um desastre para o Brasil, uma catástrofe que o mundo não terá realmente como superar. Era algo previsto para acontecer em algumas décadas, mas, recentemente, os cientistas brasileiros descobriram que, com o aumento do desmatamento madeireiro ilegal, a mineração, o agronegócio financiado pelo governo Bolsonaro começou a tomar porções da Amazônia que já se encontram em estado crítico — o qual só era esperado para décadas mais adiante.
Uma das piores consequências da eleição desse primeiro turno, foi a eleição de pessoas como Ricardo Salles. Ele é uma liderança da verdadeira campanha para destruir a vida humana na Terra. Isso soa como um exagero, mas não é. É isso que significa a destruição da Amazônia, que é uma das principais formas de comprometer a vida humana.
Voltemos ao dia 8 de novembro nos Estados Unidos. O Partido Republicano pode tomar o Congresso. Eles são 100% negacionistas, não se importam, negam que a mudança climática esteja ocorrendo. E dizem “quem se importa?”. Trump era o mais explícito em relação a isso, mas o resto do Partido Republicano também não se importa, porque está enriquecendo empresas de combustíveis fósseis, cujos lucros estão explodindo.
Muitas outras coisas que estão acontecendo ao redor do mundo e, assim como a destruição da Amazônia, são espantosas. O Ártico tem esquentado bem mais do que os cientistas esperavam, e isso tem como consequência o derretimento dopermafrost, que tem uma quantidade astronômica de carbono armazenado e que começa a derreter, liberando consequentemente gases tóxicos na atmosfera.
Uma das principais empresas de energia,
a ConocoPhillips acabou de anunciar uma descoberta científica importante. Encontraram uma forma de desacelerar o degelo do permafrost no Alasca, onde exploram petróleo, por um método mediante o qual se introduzem hastes metálicas no gelo. Por que estão fazendo isso? Para que possam endurecer a superfície e extrair o petróleo, mantendo a produtividade. Então não é só capitalismo selvagem — em forma bestial. Atrasaremos o degelo do permafrost para que possamos extrair, precisamente, e mais rapidamente, o material que destruiu o mundo.
Alguns cientistas descobriram que as estimativas de aumento do nível do mar no Mediterrâneo eram muito moderadas. E a previsão agora é de que, no fim desse século, esse aumento chegará a dois metros e meio. Imaginem isso: dois metros e meio de aumento do nível do mar!
Então, Israel e Líbano estavam discutindo sobre quem vai ter o direito de enfiar a adaga no coração de todas aquelas sociedades. Isso é o que está sendo celebrado. Quando você vai ao sul da Ásia, você presencia coisas similares. É como se aqueles que Adam Smith chamava de “mestres da humanidade” tivessem feito uma aposta para ver quem nos destruiria primeiro.
Alguns dias atrás, a Associação Meteorológica Mundial mostrou sua análise da situação climática global, dizendo que devemos dobrar os investimentos no desenvolvimento de tecnologias sustentáveis até 2030, poucos anos daqui até lá, se quisermos ter esperanças de sobreviver de forma organizada. Enquanto isso, na Ucrânia, os poderes globais estão investindo recursos escassos na destruição em massa, retrocedendo os esforços limitados que deveriam ser direcionados para lidar com a crise climática. Ao mesmo tempo, condenam a Arábia Saudita por não estar produzindo óleo suficiente para a destruição.
Alguém assistindo isso do espaço, pensaria que essa espécie está enlouquecendo, a luta de classes se tornando completamente bestial.
Podemos aprender com sua obra que existe uma conexão entre assuntos internos e externos para todos os países… O mundo está conflagrado. E Biden tem lançado uma política demasiado agressiva de expansão da OTAN – o que não tem sido suficientemente debatido. Mesmo figuras como Kissinger tem alertado sobre isso. Como você vê isso? Como você acha que o mundo está dividido hoje? Qual é a “ordem” para além da “desordem” superficial?
Os alertas de Henry Kissinger são os mesmos dos altos escalões dos corpos diplomáticos nos últimos 30 anos, pelo menos entre aqueles com alguma familiaridade com questões envolvendo Rússia e Europa. Notadamente, George Kennan, nos anos 1990, alertou fortemente Bill Clinton para que não iniciasse o processo de expandir a OTAN. Jack Matlock Jr, um dos principais especialistas em diplomacia dos Estados Unidos e embaixador de Ronald Reagan na União Soviética, disse a mesma coisa. Alguns cabeças da CIA, incluindo o seu atual chefe, William Burns, também ex-embaixador na Rússia, alertou que isso tudo era algo extremamente perigoso.
Robert Gates, o segundo secretário de defesa de Bush, bastante belicoso, foi irresponsável e provocativo ao tentar integrar a Ucrânia à OTAN. Nenhum líder russo aceitaria isso em seu plano estratégico. Gorbachov, Yeltsin, nenhum deles sequer começaria a aceitar isso.
Então isso vem acontecendo há 30 anos. No ano passado, e desde 2014, os Estados Unidos não apenas tem falado em integrar a Ucrânia e a Geórgia ao comando da OTAN, mas estão fazendo isso de fato e vem executando isso desde antes da gestão de Biden, desenvolvendo ações que efetivamente integram a Ucrânia ao comando militar da OTAN. De tal forma que periódicos do exército literalmente descrevem a Ucrânia como um membro da OTAN de fato, com interoperabilidade de armas e com cooperações em operações militares, disponibilizando armas ofensivas. Os russos estão fazendo o mesmo com a China.
Depois que Biden assumiu a presidência, ele expandiu isso. Principalmente a partir de setembro de 2021, com uma decisão oficial de expandir as operações na Ucrânia e caminhar para a adesão dela à OTAN. Foi o próprio Departamento de Estado que declarou, publicamente, não estar levando em consideração as preocupações russas de segurança.
Bem, este é o plano de fundo para a invasão russa. Ele não fornece qualquer justificativa para a invasão e, na realidade, invasões são geralmente agressões imperialistas brutais, mas também inconcebivelmente estúpidas.
Temos por exemplo as transcrições das discussões entre o presidente francês Emmanuel Macron e o presidente russo Vladimir Putin – disponíveis até poucos dias antes da invasão. Macron oferece outra proposta para que fossem acomodados os interesses russos sem a necessidade de uma invasão. Putin se desculpa e diz que não poderia mais continuar a conversa pois tinha que ir esquiar no gelo, literalmente, naquele fim de semana. Então o que ele fez foi o maior movimento em direção à OTAN, já que havia colocado a Europa no bolso dos Estados Unidos, o melhor presente que poderia ter dado a Washington. E nesse ponto temos que regressar um pouco e pensar no que vem acontecendo com nosso Exército.
Quando a União Soviética colapsou, houve muitas discussões sobre qual organização global emergiria disto. E há dois cenários diferentes que surgiram contendo raízes mais fortes. Um deles é a tão chamada visão do atlantismo, baseada na necessidade de governar dos Estados Unidos, com a Europa submetida a isso. É a perspectiva pela qual os Estados Unidos manteriam seu posicionamento global como conhecemos.
Uma posição alternativa foi oferecida por Mikhail Gorbachov, na época do
Protocolo de Lisboa, uma grande aliança europeia, sem alianças militares, sem vitoriosos, sem derrotados, cooperativamente trabalhando juntos em direção a algum tipo de sociedade democrática em toda a região da Eurásia.
Mas os Estados Unidos foram fortemente opositores dessa proposta — e Kissinger também, exigindo um papel dominante dos Estados Unidos sob o enquadramento atlantista. Mas eu entendo que Vladimir Putin acabou contribuindo para empurrar a Europa nessa direção.
A parceria entre Europa e Rússia é muito natural. Eles se complementam, e de muitas maneiras. A Europa baseou seu sistema industrial, principalmente a Alemanha, na necessidade de estar mais próxima dos minerais valiosos da Rússia e na oportunidade de se mover mais para o Oriente, com a iniciativa chinesa da Nova Rota da Seda. Miraram o investimento e o desenvolvimento do próspero mercado chinês.
Então o que temos hoje é um conflito sobre se o mundo será unipolar – dominado pelos Estados Unidos, com a Europa submetida a isso – ou será um mundo multipolar, com inúmeros centros de poder cooperando. Pela ordem unipolar, o hemisfério ocidental também estaria submetido ao poderio dos Estados Unidos, especialmente com Bolsonaro. O Sul Global tenta se manter fora disso, mas não é uma força majoritária. Eu entendo que deveríamos estar cooperando.
O aquecimento global não tem fronteiras. Se houver guerra nuclear, tudo estará destruído. A pandemia não teve fronteiras. Caso após caso, ou estamos todos juntos nessa, ou afundamos todos juntos. E não há muito tempo para esses temas, eles devem ser tratados dentro das próximas duas décadas para que seja esse o ponto de virada. Recuperação já não é algo possível. Estamos enfrentando um momento único na história humana, e um elemento fundamental é o modo como essas questões de unipolaridade e multipolaridade serão resolvidas.
O Brasil teve um papel muito significativo nisso, principalmente sob o governo de Lula, quando ele agia revitalizando instituições do Sul Global, como a Unasul, por exemplo, ou o BRICS, em que o Brasil era base — e poderia ser uma grande força em alguns anos — ou, até mesmo, produzindo avanços notáveis no Banco Mundial, que não é uma instituição particularmente progressista. O Brasil estava se tornando eloquente, importante para o Sul Global. E era um país altamente respeitado, e pode ser ainda com Lula no governo. Com seus ministros, há muito mais espaço para um grupo internacional bastante eficaz e construtivo surgir novamente. Ou podemos ter Trump e Bolsonaro, futuramente, aglutinando forças reacionárias e destrutivas tanto para o clima quanto para as políticas sociais. Um mundo bastante diferente do que ele deveria ser.
Há dez anos, estávamos celebrando as promessas e potencialidades da internet e da cultura digital, da democracia digital e etc… Isso nos levaria a novas formas de participação, debate, engajamento etc… Hoje, essa esfera paradisíaca virou um inferno… o inferno de mentiras, falsificação, adulteração, antitransparência, em uma palavra, “falha de comunicação babélica”… Você concorda? O que dizer sobre isso?
A linguagem não responde a essas questões. O que aconteceu com a internet é o que acontece com toda tecnologia. A maior parte das tecnologias são neutras. Um martelo que pode ser utilizado para construir uma casa também pode ser usado por um torturador para esmagar a cabeça de alguém. O martelo não mata. E quase toda tecnologia, mesmo coisas como a tecnologia nuclear, mesmo que sejam desenhadas para destruir e devastar, talvez possa acabar com toda a vida humana da terra, mas a princípio podem fazer outras coisas também.
Acabamos de ver um exemplo, há poucas semanas. Foi feito um experimento para desviar a órbita de um asteroide. Foi algo experimental, mas na hipótese de termos um asteroide rumando para nos atingir em alguns anos, as armas nucleares podem ser usadas para desviá-lo. Talvez pudéssemos desenvolver a fusão nuclear e, assim, produzir energia limpa.
Então seja lá o que você escolher, virtualmente qualquer coisa pode ser utilizada para destruir ou construir. E aqui vem a questão do empenho humano. Estruturas sociais humanas e instituições organizam o modo como os poderes são distribuídos e implicam diretamente questões de atritos humanos, na luta de classes, nos embates sociais. Então, como podemos utilizar a internet?
Podemos utilizar a internet para diversas formas de organização, e muito da organização ativista se dá pela internet. E é por isso que governos autoritários fecham a internet. Logo, haverá desdobramentos políticos mas ela pode ser utilizada para fins libertadores e para o conhecimento. Há 20 anos, se você quisesse ler algo da imprensa internacional, teria de buscar em uma grande livraria que talvez vendesse algo de mídia estrangeira. Agora você usa o seu próprio celular. Posso ler a Al Jazeera e tenho acesso à imprensa brasileira ao mesmo tempo.
A pesquisa é de tremendas possibilidades, ou pode ser utilizada, como você disse, para separar as pessoas em bolhas de auto-reforço e extremismo ideológico, mantendo grupos de comunicação e o contato entre eles para distribuir mentiras e promover destruição. Foi um exemplo memorável o das eleições de 2018 no Brasil. Vimos o material que circulava pelo WhatsApp, que era a fonte de informação mais usada.
Sim, isso abrange provavelmente cerca de metade dos que se identificam com o Partido Republicano nos Estados Unidos. Neste momento, eles acreditam que os democratas se dedicam a seduzir crianças para abusar delas sexualmente.
Então a tecnologia depende de nós. Como vamos utilizá-la? Usaremos para construir ou destruir. Com outras tecnologias também, o mesmo é válido aqui. E é uma questão de intenção, escolha, engajamento, comprometimento, organização e ativismo.
Escutando você hoje, nos deu a impressão de que há algum tipo de liderança política internacional que poderia fazer algo para parar esse processo destrutivo, mas ela não o faz — e até se recusa a fazer isso. Por quê? Por que nossas lideranças têm sido tão cegas?
As lideranças projetam a distribuição e o caráter das forças sociais nas sociedades em que vivemos. Essas sociedades são altamente desiguais, principalmente na América Latina, onde a praga da desigualdade é muito antiga. É uma desigualdade radical, que implica diretamente na natureza das instituições políticas.
É uma contenda constante. Nada de novo. Volte aos primeiros dias do capitalismo. Quando você lê Adam Smith, um astuto comentarista, você vê o que ele chamou de “mestres da humanidade”, que seriam os mercadores e manufatureiros na Inglaterra da época. Eles dominavam e controlavam o Estado, eram os principais arquitetos do poder. Eles faziam isso para que seus próprios interesses fossem atendidos, não importava o quão nefasto fosse o efeito disso para os outros. Eles viviam pela máxima do cada um por si de 250 anos atrás, mas é assim até agora. A questão é se os ativistas organizados podem lutar contra isso.
Pega a Constituição dos Estados Unidos, que é do século XVIII, e ali ela era um passo adiante que apavorou os líderes europeus — eles estavam preocupados com a ameaça subversiva de democracia, chamada de republicanismo, que poderia se espalhar, minando sua autoridade.
Se você olha para isso hoje, vê que a Constituição foi uma realização reacionária. Na realidade a Constituição, por si só, foi um golpe contra a democracia. Um golpe de fazendeiros contra a democracia. Ela foi um instrumento com mecanismos para exercer o controle, sendo o mais importante deles, o controle dos meios de produção e distribuição. E essa é a maneira como o mundo continua em desenvolvimento. O poder estará nas mãos da população geral se ela o tomarem. Se você decidir se conformar, garantirá que o pior aconteça.
Lembro, por exemplo, de 20 anos atrás, atendendo ao convite do Fórum Social Mundial em Porto Alegre, muito alegre, centenas de pessoas interessantes. O slogan era Outro mundo é possível, trabalhando coletivamente. Todos nós estávamos juntos de camponeses, mulheres de todos os países, encontrando uma forma de trabalharmos juntos pelo bem comum. E aqueles movimentos tiveram seu impacto. Um grande impacto. Eles são as raízes. As chamas podem ser acendidas e passadas à frente.
Noam Chomsky é professor emérito de lingüística no Massachusetts Institute of Technology (MIT) e leciona na Universidade do Arizona. É autor de mais de 70 livros sobre linguística, conflitos armados, política, mídia e filosofia.
José Guilherme Pereira Leite é professor universitário, crítico e ensaísta.
Vanessa Nicolav é cientista social, videomaker e educadora audiovisual. Pesquisa temas relacionados a vídeo popular e movimentos sociais e vem desenvolvendo práticas de educação democrática audiovisual para jovens e adultos em oficinas no Brasil, Uruguai e Argentina. Já colaborou com veículos como Vice Brasil, Revista Trip, Agência Pavio, OXFAM, Rede Brasil Atual e Brasil de Fato. Também é produtora independente de vídeo ensaios e webdocumentários.
Hugo Albuquerque é publisher da Jacobin Brasil, editor da Autonomia Literária, mestre em direito pela PUC-SP, advogado e diretor do Instituto Humanidade, Direitos e Democracia (IHUDD).
Fonte
A análise de Noam Chomsky para a sociedade global pós-pandemia
Artigo publicado em 05/II/2021
No último dia 25 de janeiro, Noam Chomsky participou do Fórum Social Mundial em atividade organizada por Carta Maior e Fórum 21. Segue abaixo a tradução da fala de Chomsky, realizada por César Locatelli.
A última vez que participei de reuniões do Fórum Social Mundial (FSM) no Brasil foi há 20 anos – dias maravilhosos de exuberância, vitalidade, expectativa, interação entusiasmada dos participantes que se estendiam da Via Campesina aos centros urbanos, unidos na crença de que um mundo melhor é possível e comprometidos em criá-lo. Eles rejeitavam firmemente a famosa máxima de Margaret Thatcher: “There is no alternative” [Não há alternativa]. Não há alternativa ao regime neoliberal que ela e Ronald Reagan estavam tentando impor ao mundo. O slogan do FSM era o contrário: existe uma alternativa e nós vamos criá-la.
Não é exatamente esse o clima de hoje.
A empolgação no FSM não era mal colocada. O Brasil estava prestes a entrar em sua “década de ouro”, expressão usada pelo Banco Mundial em sua avaliação retrospectiva dos anos Lula, revisando as muitas realizações domésticas do governo enquanto o Brasil também se tornava talvez o país mais respeitado do mundo e uma voz eloquente para o Sul Global sob a liderança do Presidente Lula e de seu Chanceler Celso Amorim.
Novamente, não é exatamente esse o clima de hoje.
Multidão sai às ruas de Porto Alegre durante FSM, em 2003
(Foto: Secretaria Internacional do FSM)
A acomodação do governo Lula às demandas do capital privado internacional, seja o que for que se pense a respeito, não foi suficiente para aplacar aqueles a quem Adam Smith chamou de “os senhores da humanidade”. A reação veio logo, não só no Brasil.
Não há necessidade de revisar os acontecimentos desde então ou de abordar o modo como o Brasil é visto agora. Isso talvez seja simbolizado pela ajuda da Venezuela em fornecer oxigênio para aliviar a catástrofe em Manaus – agora se espalhando por outro lugar em um país famoso por seu alto nível de pesquisas e realizações nas ciências da saúde e por um recorde estelar de eficiência da vacinação, anteriores ao atual assalto à sociedade.
Para adicionar uma comparação pessoal, minha esposa Valeria e eu, morando no Arizona, temos o privilégio incomum de ter obtido máscaras de alta qualidade, graças à generosidade de um amigo de Taiwan. Enquanto isso, o Arizona acaba de ganhar o campeonato mundial de infecções per capita de Covid.
O Arizona está um pouco à frente na competição para ser o pior do mundo. Enquanto escrevo, a manchete principal do New York Times diz: “Nova situação pandêmica: os hospitais estão ficando sem vacinas”, referindo-se a todo o país.
A história continua para relatar que “as autoridades de saúde dos EUA estão frustradas porque as doses disponíveis não são utilizadas enquanto o vírus mata milhares de pessoas todos os dias. Milhares de vacinações agendadas foram canceladas e as autoridades locais, com frequência, não têm certeza sobre quais suprimentos elas terão em mãos.” A imprensa local acrescenta que os hospitais não têm mais leitos e que pessoas morrem nos corredores. O quadro é o mesmo em qualquer lugar do país mais rico do mundo, com vantagens incomparáveis.
Na mesma primeira página do NYT, ao lado do relato da catástrofe nos EUA, está uma história intitulada “Um ano após o bloqueio: isso é Wuhan hoje.” Ela retrata pessoas se deleitando em “um mundo pós-pandêmico, onde o alívio de rostos sem máscaras, encontros alegres e viagens diárias esconde os abalos emocionais”.
O número de mortes diárias da Covid 19 nos EUA é cerca de três a quatro vezes maior que o total de mortos na China durante todo o ano da pandemia, em equivalente per capita, a medida correta.
Não podemos ser muito superficiais ao tirar lições do que aconteceu em todo o mundo neste ano terrível, mas seria insensato ignorar a história. É instrutivo em todo o mundo. Meu estado natal, a Pensilvânia, tem quase a mesma população de Cuba e 100 vezes o número de mortes de Covid: 20.000 em comparação com 200. As mortes por Covid na cidade de São Paulo têm uma taxa semelhante à da Pensilvânia em comparação com Cuba (100 vezes maior).
É comum atribuir o sucesso da China, em contraste com a catástrofe dos EUA, ao rígido controle autoritário da China sobre a população. A conclusão não é convincente. Taiwan é tão livre e democrática quanto os EUA. Sua população de 24 milhões registrou sete mortes. Além disso, observadores ocidentais na China relatam que a aceitação popular dos procedimentos muito rígidos que virtualmente eliminaram a doença parece ter sido amplamente voluntária e solidária.
Uma tentativa de revisão em todo o mundo parece indicar que os principais fatores para domar a catástrofe têm sido um governo eficaz agindo para o bem-estar de sua população, combinado com uma mentalidade coletivista geral e espírito de cooperação: estamos todos juntos nisso, para o bem comum.
É útil dar uma olhada mais de perto nos piores desempenhos. Vou deixar o Brasil de lado – um caso por demais deprimente para se discutir. Os mais instrutivos são os Estados Unidos e seu aliado britânico mais próximo, ambos com registros terríveis, destacados por seu privilégio incomum e desenvolvimento econômico. Eles também são incomuns em outro aspecto. Eles são o lar dos programas neoliberais que varreram o mundo nos últimos 40 anos, dirigidos por Reagan e Thatcher, e, em seguida, por seus sucessores. Essas doutrinas contribuíram poderosamente para criar e intensificar a crise de Covid. Os ricos e poderosos beneficiários dos programas neoliberais estão agora trabalhando duro para garantir que irão formatar a sociedade pós-pandemia. As doutrinas e suas consequências devem ser examinadas de perto. Terei que me limitar a apenas alguns comentários aqui.
Um impulso central do neoliberalismo é desmantelar a sociedade civil e diminuir a preocupação do governo com o bem-estar do público em geral. Como Thatcher proclamou, “não existe sociedade”, apenas indivíduos que enfrentam as forças do Sagrado Mercado sozinhos e, se não sobreviverem às devastações, azar. Para citar um dos famosos pronunciamentos do presidente do Brasil: “e daí?”
Para ser preciso, sob a doutrina neoliberal, apenas alguns são lançados no mercado para sobreviver de alguma forma. Outros têm o direito de ser mimados pelo Estado – ou seja, por seus infelizes cidadãos. Nunca devemos esquecer o ditado de Balzac, extraído da sabedoria popular tradicional, que “leis são teias de aranha pelas quais as grandes moscas passam e as pequenas são pegas”. Os programas neoliberais foram cuidadosamente elaborados para garantir que esses princípios prevalecessem, com subsídios maciços e resgates para as grandes moscas. Temos testemunhado isso repetidamente desde os primeiros dias do ataque neoliberal.
Os pensamentos de Thatcher não eram originais. Sem querer, ela estava parafraseando Karl Marx. Ele condenou os governantes autocráticos da Europa por tentarem transformar a sociedade em “um saco de batatas”, indivíduos isolados, atomizados, lutando sozinhos, sem sociedade civil, sem organizações populares de defesa contra o poder concentrado.
Reagan e Thatcher seguiram o roteiro com cuidado. Seus primeiros atos foram destruir os sindicatos, no caso de Reagan, chegando a trazer trabalhadores substitutos permanentes, prática logo adotada pelas empresas privadas. Os golpes do martelo contra a organização do trabalho continuaram sob seus sucessores. Estudos recentes de economistas proeminentes, como recentemente Lawrence Summers, atribuem a espetacular desigualdade criada durante os anos neoliberais principalmente à destruição dos sindicatos, privando os trabalhadores de qualquer meio de autodefesa contra a incessante luta de classes.
Margaret Thatcher (PM) e Ronald Reagan em Londres, 1978
(Foto: Keystone-France/Gamma-Keystone via Getty Images)
As doutrinas do ataque de 40 anos à sociedade remontam às origens do neoliberalismo na Viena do período entreguerras. O reverenciado pai fundador do movimento, Ludwig von Mises, mal pôde conter sua euforia quando o governo protofascista esmagou violentamente o vibrante movimento operário austríaco e elogiou efusivamente o fascismo de Mussolini por ter “salvo a civilização europeia. O mérito que o fascismo conquistou para si viverá eternamente na história”, escreveu Mises em seu livro clássico “Liberalismo”, anos depois que os camisas negras expulsaram violentamente os sindicatos e o pensamento independente para seus devidos lugares.
As luzes principais do neoliberalismo ficaram ainda mais entusiasmadas com a ditadura assassina de Pinochet. Por razões de princípio. Medidas severas devem ser tomadas para salvaguardar uma “economia sólida”, garantindo que não haverá restrições populares sobre a liberdade dos muito ricos e do setor corporativo de expandir sua riqueza e poder.
O ideal é a economia de “privatizar tudo”, para citar o atual Ministro da Economia do Brasil, muito elogiado pelas finanças internacionais que desejam tirar os recursos do Brasil, de seu povo, sob a bandeira neoliberal.
Essas são considerações a ter em mente quando se pensa em um mundo pós-pandêmico. Elas revelam que não há conflito entre o apelo à liberdade, de certo tipo, e as duras medidas de repressão e controle. Além disso, como mencionei, existem forças poderosas trabalhando arduamente agora para garantir que o mundo pós-pandêmico manterá as principais armas da luta de classes incorporadas à doutrina neoliberal. Mais uma razão para examinar os princípios básicos e suas consequências.
As ideias essenciais são capturadas no discurso inaugural de Reagan: “o governo é o problema, não a solução”. Isso não significa que as decisões em nível nacional desapareçam. Em vez disso, elas são transferidas para as mãos dos “senhores da humanidade”, as grandes megacorporações e as instituições financeiras que explodiram em escala durante os anos neoliberais. Sua responsabilidade havia sido explicada pelos economistas responsáveis, principalmente Milton Friedman. A única responsabilidade das empresas é enriquecerem-se.
Não é difícil prever as consequências de entregar a tomada de decisões a instituições tirânicas, cujo único objetivo é o enriquecimento. Algumas são reveladas em um estudo recente da Rand Corporation, uma instituição quase-governamental. Ela estima que a transferência de riqueza, dos 90% de renda mais baixa da população para os muito ricos – principalmente a fração superior de 1% -, tenha sido de US$ 47 trilhões. Não é pouco, mas uma subestimação muito séria. Não leva em consideração a abertura de Reagan a manipulações financeiras antes proibidas por lei, como os paraísos fiscais, que acrescentam outras dezenas de trilhões de dólares ao roubo em massa dos trabalhadores e da classe média.
Os resultados estão diante de nossos olhos, onde quer que a marreta tenha atingido. Nos Estados Unidos, os salários reais dos trabalhadores do sexo masculino diminuíram durante o violento ataque de 40 anos, junto com benefícios e, no mínimo, segurança limitada. A democracia política, sempre profundamente falha, diminuiu ainda mais à medida que está cada vez mais subordinada à riqueza privada e ao poder corporativo. Os estudos recentes mais sofisticados mostram que 90% da população literalmente não está representada; seus próprios representantes estão ouvindo outras vozes, as dos financiadores de sua próxima campanha. Enquanto isso, as equipes de seus gabinetes estão sobrecarregadas com enxames de lobistas que praticamente redigem leis.
Sem precisar prosseguir, pode-se chegar a entender algumas das raízes da raiva, ressentimento, desprezo pelas instituições que se espalharam por grande parte do mundo, facilmente capturadas por demagogos que podem fingir defender as massas despossuídas enquanto as apunhalam pelas costas, transferindo a culpa por seu mal-estar para alvos vulneráveis: pessoas não-brancas, imigrantes, o perigo amarelo, quaisquer venenos que corram logo abaixo da superfície da vida social.
Uma visão de futuro, agora perseguida ativamente pelos setores dominantes, é a perpetuação dessa monstruosidade, de formas ainda mais duras: vigilância mais intensa, controle, atomização e precariedade para a grande massa da população.
Outra visão é a que vem sendo promovida pelo Fórum Social Mundial. Uma visão de um mundo no qual as pessoas assumam o controle de seu próprio destino em comunidades e locais de trabalho autônomos, livrando-se de seus senhores, da dominação e das instituições repressivas. Um mundo que mantenha alto o ideal liberal clássico, há muito reprimido, de que devemos substituir os grilhões sociais por laços sociais. Um mundo que incorpore uma cultura de solidariedade e ajuda mútua, de participação direta em todas as esferas por cidadãos informados e engajados que se dediquem ao bem comum.
Essa visão não é utópica. Ela pode ser realizada. Além disso, ela tem que ser realizada de alguma forma se for para o experimento humano sobre-existir. Não é segredo que vivemos um momento marcante da história da humanidade, uma confluência de crises de extrema gravidade. A menos que os desafios sejam vencidos, e em breve, será perda de tempo contemplar os contornos de uma sociedade pós-pandêmica, porque não haverá sociedade nenhuma. Isso não é exagero.
A crise menos severa de todas é essa que, compreensivelmente, está agora atraindo a atenção e a preocupação: a pandemia. Mais cedo ou mais tarde, a pandemia será contida, a um custo terrível e desnecessário, como podemos ver nas sociedades, ricas e pobres, que conseguiram lidar com ela com eficácia. Mas a pandemia será superada e, se a história servir de guia, logo será esquecida.
Pense na chamada gripe espanhola há um século. O número de mortos foi colossal. Estima-se em cerca de 50 milhões de pessoas. Considerando o tamanho da população, isso seria o equivalente a 300 milhões de pessoas hoje. Um desastre inimaginável – que, no entanto, logo foi esquecido. Eu nasci alguns anos depois que a crise abrandou. Nunca ouvi falar dela quando era criança. Aprendi sobre isso nos livros de história.
Se revivermos essa experiência, teremos sérios problemas. Outras epidemias de coronavírus provavelmente ocorrerão e podem ser mais graves do que esta, devido à destruição do habitat e ao aquecimento global. Além disso, até agora tivemos sorte. Epidemias recentes de coronavírus foram altamente contagiosas e não muito letais, como a atual, ou altamente letais, mas não muito contagiosas, como o Ebola. Podemos não ter essa sorte da próxima vez. Essas criaturas astutas têm muitos truques nas mangas.
Nos últimos anos, os cientistas nos disseram claramente o que devia ser feito. Não foi feito. As enormes e super-ricas instituições farmacêuticas não se interessaram, graças à lógica capitalista. Não é lucrativo se preparar para um desastre que ocorrerá daqui a alguns anos. O governo dos Estados Unidos e alguns outros têm laboratórios maravilhosos, que de fato fornecem muitas das descobertas básicas para medicamentos e vacinas que são comercializados com fins lucrativos em nosso sistema econômico de subsídio público e lucro privado. Mas eles foram neutralizados pela variante neoliberal destrutiva do capitalismo: o governo deve se manter fora dos negócios da empresa privada – exceto, é claro, quando elas podem se beneficiar da generosidade do contribuinte. O desastre foi então agravado pela incompetência e, em alguns casos, pela malevolência da liderança.
Estamos ouvindo os mesmos apelos de cientistas hoje, os mesmos avisos e conselhos sobre o que deve ser feito para evitar desastres. Mero conhecimento não é suficiente. Ele precisa ser colocado em uso.
A pandemia em curso e as que estão por vir constituem uma das crises atuais. Uma crise muito mais séria é o aquecimento do globo. A urgência do desenvolvimento da crise foi enfatizada mais uma vez há algumas semanas, quando a Organização Meteorológica Mundial publicou seu Relatório anual sobre o estado do meio ambiente global. O Relatório adverte que em nosso curso atual, podemos em breve atingir pontos de inflexão irreversíveis. Em breve poderemos alcançar o que eles chamam de “Hothouse Earth” (Terra Estufa), estabilizando-se a 4-5º Celsius acima dos níveis pré-industriais, bem além do nível reconhecido como cataclísmico. O estudo conclui que é “mais urgente do que nunca prosseguir com a mitigação … A única solução é livrar-se dos combustíveis fósseis na produção de energia, indústria e transporte”. O IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática) marca, para muito breve, a data para atingir esse resultado, em meados do século.
Assim como para a pandemia, sabemos como atingir esse objetivo. Existem meios viáveis que foram descritos em grande detalhe e estão em parte sendo implementados, mas apenas em parte. Esses esforços devem ser rapidamente acelerados, e logo, ou o jogo termina. Cientistas respeitados nos dizem em termos inequívocos que devemos “entrar em pânico agora”. Eles não estão exagerando.
Outra crise de escala comparável é a crescente ameaça de armas nucleares, que recebe muito pouca atenção fora dos círculos especializados, onde a crise é reconhecida como extremamente grave. Aqui, a solução é óbvia: livrar a Terra dessas monstruosidades. Passos importantes foram dados. Na sexta-feira passada, o Tratado da ONU sobre a Proibição de Armas Nucleares entrou em vigor, apoiado por 122 nações – embora, lamentavelmente, nenhuma das potências nucleares. Isso tem de mudar. Mesmo aquém disso, existem ações muito significativas que podem ser implementadas, mas que não há tempo para serem discutidas aqui.
Todas essas crises são internacionais. Elas não conhecem fronteiras. Elas devem ser confrontadas com a solidariedade internacional. Nesse caso, as palavras de Margaret Thatcher estão certas. Não há alternativa.
Tradução: César Locatelli
Fonte: Carta Maior
(*) Avram Noam Chomsky é um linguista, filósofo, sociólogo, cientista cognitivo, comentarista e ativista político norte-americano.