INÍCIO

30 dezembro 2021

RETROSPECTIVA 2021

RETROSPECTIVA 

A seguir, você poderá conferir uma breve retrospectiva que abrange oque pude viver e perceber nesses nefastos tempos de um governo genocida e suicidário.

Veja com seus próprios olhos as principais frases os principais fatos, e a cronologia da destruição deliberada promovida por Bolsonaro e seu staf de homens militares, em tese servidores públicos, neoliberais necropolítica, tupiniquins a serviço de uma elite escravocrata, extrativista, ignorante, machista, misógina, xenófoba, inculta e boçal. 

Frases que se custa a acreditar que saíram da boca de uma pessoa com juízo, no século XXI. Afirmações sobre a pandemia proferidas em 2020 e 2021 que contrariam séculos da história da biologia, medicina, da antropologia, da imunologia, da virologia, da epidemiologia, da boa Ciência e do bom senso. 

Afirmações que, como bem sabemos desinformam, geram dúvidas, ansiedade e colocam em risco a vida da população. A rigor nem são informações são inverdades e obscurantismo tacanho. Não somente isso, são também contra informações militares para desestabilizar gerar medo e ódio na população, produzindo um inimigo comum que deve ser exterminado.

Neste período, muitas compilações de afirmações, e divagações do gênero surgiram por todos os sítios que registraram nossa história recente sobre esse governo militar golpista, para que jamais esqueçamos. 

Aqui leremos o artigo de Vladimir Safatle “Gozar do sacrifício de si” publicado em 13/11/2021, no site “A Terra é redonda”, para que tenhamos uma dimensão de um estado que se elegeu com o objetivo de exterminar a população. Não só extermínio e extinção do mínimo bem estar que ainda possuímos assegurado pela nossa Constituição Cidadã de 1988, mas exterminar, matar o corpo físico do trabalhador pobre e periferico, das minorias (LGBTQAPN+), mulheres, negros e indígenas. Esse está sendo o governo militar da morte, um governo desqualificado, que seu titular foi expulso da corporação, e chegou a cadeira máxima do país por um golpe que envolveu servidores das FFAA e congresso e parte do judiciário (Moro e Dallagnol e seus cúmplices). Nesse “des-governo” o Brasil voltou ao mapa da fome, voltou a ser um país onde, doenças antes erradicadas com vacinas, agora voltam com ímpeto e destroem parte da infância, adolescentes e adultos. Nesse período o país com a maior cobertura vacinal voltou a índices de 1980 ou de antes.  Tudo pelo projeto de morte ao povo, morte ao pobre, morte ao negro, ao trabalhador periférico. Em síntese tem sido o pior governo que já vivi, e sem dúvida o pior é mais nefasto governo da nossa história. 

A produção de “pérolas do chorume” presidencial cresce aos borbotões, e em ritmo acelerado, este blog resolveu também fazer uma compilação, atualizando a lista e incluindo uma breve lista cronológica do que Bolsonaro já falou que nos deixa a todos perplexos até este momento tão caro e triste que estamos atravessando.


I

GOZAR DO SACRIFÍCIO DE SI 


Artigo de Vladimir Safatle (1)

Na longa e dispersa tradição dos autores que se dedicaram a descrever a economia libidinal do fascismo, há ao menos um ponto surpreendente de convergência. É provável que ele tenha sido formulado pela primeira vez por Theodor Adorno, já em 1946. Voltemos à conclusão de seu texto “Antissemitismo e propaganda fascista”:

Nesse ponto, deve-se prestar atenção à destrutividade como o fundamento psicológico do espírito fascista […] Não é acidental que todos os agitadores fascistas insistam na iminência de catástrofes de alguma espécie. Enquanto advertem de perigos iminentes, eles e seus seguidores se excitam com a ideia da ruína inevitável sem sequer diferenciar claramente entre a destruição de seus inimigos e de si mesmos […] Este é o sonho do agitador: uma união do horrível e do maravilhoso, um delírio de aniquilação mascarado como salvação (Adorno, 2015, p. 152).

Ou seja, trata-se de falar da destrutividade como “fundamento psicológico” do fascismo, e não apenas como característica de dinâmicas imanentes de lutas sociais e processos de conquista. Pois, se fosse questão apenas de descrever a violência da conquista e da perpetuação do poder, seria difícil compreender como se chega a esse ponto em que não seria sequer possível diferenciar claramente entre a destruição de seus inimigos e de si mesmos, entre a aniquilação e a salvação. Para dar conta da singularidade desse fato, Adorno falará, décadas depois, de um “desejo de catástrofe”, de “fantasias de fim de mundo” que ressoam socialmente estruturas típicas de delírios paranoicos (Adorno, 2019, p. 26).[i]

Colocações como essas de Adorno visam expor a singularidade dos padrões de violência no fascismo. Pois não se trata apenas da generalização da lógica de milícias dirigidas contra grupos vulneráveis, lógica através da qual o poder estatal se apoia em uma estrutura paraestatal controlada por grupos armados. Também não se trata apenas de levar sujeitos a acreditarem que a impotência da vida ordinária e da espoliação constante será vencida através da força individual de quem enfim tem o direito de tomar para si a produção autorizada da violência. A esse respeito, sabemos como o fascismo oferece certa forma de liberdade, ele sempre se construiu a partir da vampirização da revolta.[ii] Nem se trata de junção entre indiferença e violência extrema contra grupos historicamente violentados. Essa articulação não precisou esperar o fascismo para aparecer, mas está presente em todos os países de tradição colonial, com suas tecnologias de destruição sistemática de populações.[iii]

No entanto, se Adorno fala de “fundamentação psicológica”, é porque se faz necessário compreender a violência, principalmente, como dispositivo de mutação psíquica. Uma mutação que teria como eixo de desenvolvimento certa generalização da destrutividade às formas de relação a si, ao outro e ao mundo. Nesse horizonte, a psicologia é chamada para quebrar a ilusão econômica dos indivíduos como agentes maximizadores de interesses. Ao contrário, seria necessário não ignorar investimentos libidinais em processos nos quais os indivíduos claramente investem contra seus interesses mais imediatos de autopreservação.

Esse diagnóstico de uma corrida em direção ao autossacrifício, em um processo no qual a figura do Estado protetor parece dar lugar a uma espécie de Estado predador que se volta inclusive contra si mesmo.[iv] Estado animado pela dinâmica irrefreável de autodestruição de si e da própria vida social, não era exclusivo dos frankfurtianos. Ele podia ser encontrado também nas análises de Hannah Arendt. Basta lembrarmos como, em 1951, Arendt (2013, p. 434) falava do fato espantoso de que aqueles que aderiam ao fascismo não vacilavam mesmo quando eles próprios se tornavam vítimas, mesmo quando o monstro começava a devorar seus próprios filhos.

Esses autores eram sensíveis, entre outros, ao fato de a guerra fascista não ter sido uma guerra de conquista e estabilização. Ela não tinha como parar, dando-nos a impressão de estarmos diante de um “movimento perpétuo, sem objeto nem alvo”, cujos impasses só levavam a uma aceleração cada vez maior. Arendt (2013, p. 434) falará da essência dos movimentos totalitários que só podem permanecer no poder enquanto estiverem em movimento e transmitirem movimento a tudo o que os rodeia. Há uma guerra ilimitada que significa a mobilização total do efetivo social, a militarização absoluta em direção a um conflito que se torna permanente.

Ainda durante a guerra, Franz Neumann fornecerá uma explicação funcional para tal dinâmica de guerra permanente. O chamado “Estado” nazista seria, na verdade, a composição heteróclita e instável de quatro grupos em conflito perpétuo por hegemonia: o partido, as forças armadas e seu alto comando aristocrata prussiano, a grande indústria e a burocracia estatal:

Desprovido de toda lealdade comum e concernido apenas com a preservação de seus próprios interesses, os grupos dirigentes irão se separar tão logo o líder produtor de milagres encontre um oponente a altura. Por enquanto, cada grupo precisa do outro. As forças armadas precisam do partido porque a guerra é totalitária. As forças armadas não podem organizar a sociedade “totalmente”, o que é tarefa do partido. O partido, por sua vez, precisa das forças armadas para vencer a guerra e assim estabilizar e mesmo ampliar seu poder. Ambos precisam da indústria monopolista para garantir uma expansão contínua. E todos os três precisam da burocracia para realizar a racionalidade técnica sem a qual o sistema não poderia operar. Cada grupo é soberano e autoritário, cada um é equipado com poderes legislativo, administrativo e jurídico; cada um é capaz de realizar de forma rápida e implacável os compromissos necessários entre os quatro (Neumann, 2009, p. 397-398).

Ou seja, apenas a continuação indefinida da guerra permitia a essa composição caótica de grupos soberanos e autoritários encontrar certa unidade e estabilidade. Não se tratava assim de uma guerra de expansão e fortalecimento do Estado, mas de uma guerra pensada como estratégia de adiamento indefinido de um Estado em rota de desagregação, de adiamento indefinido de uma ordem política em regime de colapso. E, para sustentar tal mobilização contínua, com sua exigência monstruosa de esforço e perdas incessantes, faz-se necessário que a vida social se organize sob o espectro da catástrofe, do risco constante invadindo todos os poros do corpo social e da violência cada vez maior necessária para pretensamente imunizar-se de tal risco.[v] Ou seja, a única forma de adiar a desagregação da ordem política, a fragilidade tácita da ordem, consistiria em gerenciar, em um movimento de flerte contínuo com o abismo, uma junção entre chamados à autodestrutividade e reiteração sistemática de heterodestrutividade.[vi]

Não será por acaso que encontraremos, décadas depois, alguns analistas a sugerirem a figura do Estado fascista como um corpo social marcado por uma doença autoimune: “a condição última na qual o aparelho protetor se torna tão agressivo que se volta contra seu próprio corpo (que ele deveria proteger), levando à morte” (Esposito, 2008, p. 116). A presença sistemática da tópica da proteção como imunização contra a degenerescência do corpo social seria, na verdade, expressão da consciência dos antagonismos profundos a atravessarem uma sociedade em dinâmica de radicalização de lutas de classe e de sedição revolucionária. Desde Hobbes, sabemos como o recurso à tópica da imunização contra as “doenças do corpo social” é mobilizado em situações de sublevação revolucionária.[vii] Não seria diferente em uma contrarrevolução preventiva como o fascismo. Essa imunização exigirá a aceitação, por todos os atores da ordem, da militarização da sociedade e da transformação da guerra em única situação possível de produção da unidade do corpo social.

Mas, mesmo aceitando tal hipótese, há ainda ao menos um ponto não totalmente claro. Pois mesmo uma guerra infinitamente sustentada não implica necessariamente uma guinada autossacrificial. Foi para deixar ainda mais explícita essa especificidade que, décadas depois, autores como Paul Virilio (1976) cunharão o termo “Estado suicidário”. Essa era uma maneira astuta de andar na contramão do discurso liberal da igualdade entre nazismo e stalinismo ao insistir na estrutura da violência como traço diferencial entre o Estado fascista e outras formas de Estados totalitários. O termo “suicidário” se mostrará frutífero porque era a maneira de lembrar como um Estado dessa natureza não deveria ser compreendido apenas como o gestor da morte para grupos específicos. Ele era o ator contínuo de sua própria catástrofe, o cultivador de sua própria explosão, o organizador de um empuxo da sociedade para fora de sua própria autorreprodução.[viii] 

Segundo Virilio, um Estado dessa natureza se materializou de forma exemplar em um telegrama. Um telegrama que tinha número: Telegrama 71. Foi com ele que, em 1945, Adolf Hitler proclamou o destino de uma guerra então perdida. Ele dizia: “Se a guerra está perdida, que a nação pereça”. Com ele, Hitler exigia que o próprio exército alemão destruísse o que restava de infraestrutura na combalida nação que via a guerra perdida. Como se esse fosse o verdadeiro objetivo final: que a nação perecesse pelas suas próprias mãos, pelas mãos do que ela mesma desencadeou.

A política do suicídio e a pulsão de morte

A discussão sobre a natureza “suicidária” do Estado fascista será retomada no mesmo ano por Michel Foucault, em seu seminário Em defesa da sociedade (em uma aproximação injustificada e profundamente equivocada com a violência do socialismo real) e anos mais tarde por Gilles Deleuze e Félix Guattari, em Mil platôs. Diante do regime de destrutividade imanente ao fascismo e seu movimento permanente, Deleuze e Guattari irão sugerir a figura de uma máquina de guerra descontrolada que teria se apropriado do Estado, criando não exatamente um Estado totalitário preocupado com o extermínio de seus oponentes, mas um Estado suicidário incapaz de lutar pela sua própria preservação. Daí por que era o caso de afirmar: “Há no fascismo um niilismo realizado. É que, à diferença do Estado Totalitário que se esforça por colmatar todas as linhas de fuga possíveis, o fascismo se constrói sobre uma linha de fuga intensa, que ele transforma em linha de destruição e de abolição puras. É curioso como, desde o início, os nazis anunciaram à Alemanha o que eles trariam: ao mesmo tempo as núpcias e a morte, inclusive sua própria morte e a morte dos alemães […] Uma máquina de guerra que tinha apenas a guerra por objeto e que preferia abolir seus próprios servos a parar a destruição”. (Deleuze; Guattari, 1980, p. 281).

Como se vê, 30 anos depois e em uma tradição filosófica distinta, o tópico abordado inicialmente por Adorno retorna, inclusive com a lembrança da aliança entre aniquilação e salvação. Mas, ao aprofundar tal ponto, Guattari dará um passo a mais e não verá problemas em afirmar que a produção de uma linha de destruição e de uma “paixão de abolição” pura se relacionaria com “o diapasão da pulsão de morte coletiva que teria se liberado das valas da Primeira Guerra Mundial” (Guattari, 2012, p. 67). Isso lhe permitia afirmar que as massas teriam investido, na máquina fascista, “uma fantástica pulsão de morte coletiva” que lhes permitia abolir, em um “fantasma de catástrofe” (p. 70),[ix] uma realidade que elas detestavam e para a qual a esquerda revolucionária não soube como fornecer outra resposta.

Segundo essa leitura, a esquerda nunca teria sido capaz de fornecer às massas uma real alternativa de ruptura, que passava necessariamente pela abolição do Estado, de seus processos imanentes de individuação e de suas dinâmicas disciplinares repressivas. Essa é a maneira que Guattari tem de seguir afirmações de William Reich (1996, p. 17) como “O fascismo não é, como se tende a acreditar, um movimento puramente reacionário, mas ele se apresenta como um amálgama de emoções revolucionárias e de conceitos sociais reacionários”. A questão não poderia resumir-se apenas àquilo que o fascismo proíbe, mas há de se entender aquilo que ele autoriza, o tipo de revolta a que ele dá forma, ou, ainda, a energia libidinal que ele é capaz de captar.

Isso nos lembra como há várias formas de destruir o Estado, e uma delas, a forma contrarrevolucionária própria ao fascismo, seria acelerar em direção a sua própria catástrofe, mesmo que isso custe nossas vidas. Como gostaria de mostrar mais à frente, o Estado suicidário seria capaz de fazer da revolta contra o Estado injusto, contra as autoridades que nos excluíram, o ritual de liquidação de si em nome da crença na vontade soberana e na preservação de uma liderança que deve encenar seu ritual de onipotência mesmo quando já está clara sua impotência. Desse modo, juntam-se a noção do fascismo como uma contrarrevolução preventiva e como uma forma de abolição pura e simples do Estado através da autoimolação do povo a ele vinculado.

Mas aqui poderíamos nos perguntar se a hipótese da pulsão de morte seria, afinal, o verdadeiro nome do fundamento psicológico da destrutividade fascista. O que ela poderia nos trazer? Pois isso parece inicialmente nos colocar diante da clássica tópica da pretensa destrutividade imanente da ordem humana, da hostilidade primária entre os humanos como fator permanente de ameaça à integração social.[x]Lembremos como, ao se perguntar sobre as razões da guerra, tendo em vista os impactos da Primeira Guerra, Freud de fato mobiliza o instinto de destruição, esse instinto que age no interior de cada ser vivo e se empenha em levá-lo à desintegração, em fazer a vida retroceder ao estado de matéria inanimada. Mas isso serve, no máximo, como uma explicação genérica e a-histórica das bases libidinais que podem ser mobilizadas por Estados que usam a tópica da guerra total e do extermínio como modelo de gestão social.

Nesse sentido, o risco de tal apelo à pulsão de morte parece estar no recurso a certo “núcleo metafísico” da política, com sua ideia de uma violência irredutível das relações interpessoais. No limite, e esse talvez seja o problema maior, ela tenderia a fazer de toda violência e destrutividade no interior dos conflitos políticos a expressão de uma pulsão que seria o avesso da política. Não foram poucos os momentos em que a pulsão de morte foi chamada para preencher o papel do avesso da política, em uma fórmula que acabaria por ressuscitar certo humanismo, de cunho fortemente moralista, dos que pretensamente defendem as “forças da vida” (que significa sempre “a vida tal como hoje se configura”) contra o “império da morte”. Foi dessa forma que vimos, por exemplo, a pulsão de morte ser evocada como o nome do que se esconde por trás do “terrorismo internacional”, das “ações diretas”, entre outros.[xi]

De toda forma, não é isso que encontraremos na hipótese do Estado suicidário de Deleuze e Guattari.[xii] É tendo esse risco em mente que Guattari (2012, p. 52) dirá que a pulsão de morte não é uma “coisa em si”, que ela só se constitui quando “saímos do terreno das intensidades desejantes para este da representação”.[xiii] Mesmo em Mil platôs encontramos afirmações como: “não invocamos pulsão de morte alguma” como pretensa pulsionalidade imanente ao desejo. Essa é uma forma de afirmar que haveria uma metamorfose histórica responsável pelo advento da pulsão de morte, proposição distante da hipótese freudiana da inscrição biológica da pulsão de morte.

A insistência nessa possível metamorfose histórica especifica visa, à sua maneira, liberar a tópica freudiana da autodestrutividade imanente do organismo de sua tradução imediata em política de desagregação terrorista do corpo social. Em trabalhos anteriores, Deleuze demonstrara-se consciente de que a descoberta freudiana não poderia restringir-se às formas das dinâmicas bélicas que implicam autodestruição simples.

Em Diferença e repetição, encontrávamos, por exemplo, a ideia do instinto de morte como base pulsional para processos de despersonalização que mais se aproximavam dos impulsos estéticos de crítica da expressão egologicamente determinada. Daí a afirmação de que: “O instinto de morte é descoberto não em relação às tendências destrutivas, não em relação à agressividade, mas em função de uma consideração direta dos fenômenos de repetição. De forma bizarra, o instinto de morte vale como princípio positivo originário para a repetição, eis seu domínio e seu sentido. Ele desempenha o papel de um princípio transcendental enquanto que o princípio de prazer é apenas psicológico” (Deleuze, 1969, p. 27).[xiv][xv]

Não será por acaso que a noção de uma repetição como princípio transcendental será convocada para falar de Proust e das séries de repetições através das quais as relações afetivas se relacionam a um objeto virtual, abrindo espaço à experiência possível da pura forma do tempo. Ou, ainda, para falar de uma procura, própria à experiência estética, “determinada por sua indeterminação”, ou seja, por aquilo que Maurice Blanchot (1955, p. 111), pensando na escrita de Kafka, descreve como uma negatividade extrema que, “na morte tornada possibilidade, trabalho e tempo, permite encontrar a medida do absolutamente positivo”.[xvi] Nesse caso, outra forma de vínculo entre autodestruição e heterodestruição aparece como possível. Nesse momento, Deleuze (1969, p. 148) acredita que esse aspecto produtivo da construção freudiana estaria ainda preso ao “modelo objeto de uma matéria indiferente inanimada”, do qual deveríamos nos livrar. E é possivelmente a necessidade de, uma década depois, separar mais claramente a potência desse “princípio positivo originário” que levará Deleuze e Guattari (1980, p. 198) a afirmarem: “Inventam-se autodestruições que não se confundem com a pulsão de morte. Desfazer o organismo nunca foi matar-se, mas abrir o corpo a conexões que supõem todo um agenciamento, circuitos, conjunções, níveis e limiares, passagens, distribuições, intensidades, territórios e desterritorializações medidas a maneira de um agrimenso”.

Podemos dizer que, dessa maneira, trata-se de operar uma separação na qual uma espécie de “matriz estética da pulsão de morte” possa ser tematizada em sua especificidade, a despeito de certa “matriz política da pulsão de morte” vinculada, originariamente, à temática dos impactos da Primeira Guerra. Separação que podemos inclusive encontrar em Jacques Lacan, quando este fala da pulsão de morte como uma “sublimação criacionista”.[xvii] Notemos ainda como isso que podemos chamar de “matriz estética da pulsão de morte” recupera, em uma chave produtiva, a proximidade percebida por Jean Laplanche entre o caráter fragmentário e polimórfico da pulsão sexual da primeira tópica e a força de desligamento própria à pulsão de morte na segunda tópica freudiana.[xviii]

Essa matriz estética ressoa o potencial disruptivo do conceito freudiano de Unheimlichkeit: conceito este resultante das reflexões de Freud a respeito de certos aspectos da estética romântica. Não por acaso, o texto freudiano sobre o conceito é escrito no mesmo momento que os cinco primeiros capítulos de Para além do princípio de prazer.

Lembremos como, não por acaso, Unheimlich é inicialmente dito de fenômenos que embaralham a distinção entre o vivo e o morto, entre o animado e o inanimado (Freud, 1995, p. 237). Fenômenos que provocam a semelhança entre o inanimado e o vivo. Freud os aborda, entre outros, através de exemplos da fascinação por duplos, que, segundo sua interpretação, portam a condição de “inquietantes mensageiros da morte” (p. 238). Ele ainda fala do desejo por repetições que provocam desamparo e inquietude. Mesmo ao descrever a compulsão de repetição em Além do princípio de prazer, Freud fornecerá um duplo eixo para a compreensão do fenômeno: um vinculado às neuroses de guerra, o outro ligado ao jogo infantil. Ou seja, se um eixo nos leva à destruição psíquica, o outro nos coloca diante de um processo produtivo no qual as experiências traumáticas de perda e anulação são simbolizadas de forma tal a abrir um campo novo de relacionalidade e de ação.

Ou seja, há de se lembrar que a pulsão de morte tem uma tripla origem no interior do pensamento freudiano: uma histórico-política, ligada à mobilização da destrutividade pelo Estado moderno em uma dinâmica irrefreável de administração estatal do extermínio; uma estética, ligada à força de descentramento própria a processos de despersonalização e crítica da expressão egologicamente determinada; e uma biológica, ligada à dinâmica singular dos organismos de produzir a morte por suas própria vias.[xix]

Levando isso em conta, temos o direito de nos perguntar se a recuperação política dessa matriz estética da pulsão de morte (e talvez seja isso que estaria, de fato, em jogo no pensamento de Deleuze e Guattari) não nos abriria a uma política pós-humanista, na qual a temática da junção entre autodestruição e heterodestruição poderia ser conjugada de forma não propriamente suicidária, mas vinculada a transformações estruturais que permitiriam a emergência de subjetividades políticas não mais dependentes da perpetuação das figuras do indivíduo e da consciência. Isso nos levaria a admitir que a articulação entre pulsionalidade e política poderia servir, nesse caso, para pensarmos as bases pulsionais do desejo por experiências sociais de descentramento e de crítica à identidade. Ou seja, bases pulsionais para certo “devir revolucionário das pessoas”. Um devir que sempre começará pela afirmação de que será melhor a morte por suas próprias vias do que a vida que nos propõe. Esse caminho de reflexão ainda está para ser explorado de forma mais sistemática.[xx]

Notemos ainda que tal variabilidade do problema político da violência e da destrutividade talvez mostre a inutilidade do uso da pulsão de morte como conceito de forte potencial explanatório de fenômenos políticos. Se a pulsão de morte pode ser a base tanto de dinâmicas suicidárias quanto de processos revolucionários de transformação estrutural, se ela pode estar na base tanto das piores regressões quanto das mais desejadas transformações, então há de se perguntar sobre sua real utilidade no esclarecimento do campo do político. O que não significa que a tópica do “Estado suicidário” não tenha seu interesse e sua função, embora talvez sejamos obrigados a abordá-la por outro viés.

Isso nos levaria, por fim, a sermos mais críticos em relação ao uso do conceito de pulsão de morte para dar conta da especificidade do regime de violência no fascismo. Pois, mesmo admitindo que há destinos da pulsionalidade que podem se realizar como destrutividade bruta e direta, seria necessário não se contentar com o fantasma da pura aniquilação e se perguntar o que há de positivo nessa procura fascista de autodestruição do povo.


*Vladimir Safatle é professor titular de filosofia na USP. Autor, entre outros livros, de Maneiras de transformar mundos: Lacan, política e emancipação (Autêntica).

Trecho inicial de capítulo da coletânea Tempo, organizada por Daniela Teperman, Thaís Garrafa e Vera Iaconelli. Belo Horizonte, Autêntica, 2021.


Artigo 



Fontes

ADORNO, T. Antissemitismo e propaganda fascista. In: Ensaios de psicologia social e psicanálise. São Paulo: Editora Unesp, 2015.

ADORNO, T. Aspekte der neues Rechtradikalismus. Frankfurt: Suhrkamp, 2019.

ADORNO, T.; HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.

ARENDT; H. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

BALIBAR, E. La pulsion de mortau-delà Du politique?. [s.d.]. Inédito.

BLANCHOT, M. L’expérience littéraire. Paris: Gallimard, 1955.

CHAMAYOU, G. La chasse à l’homme. Paris: La Fabrique, 2010.

DELEUZE, G. Différence et repetition. Paris: PUF, 1969.

DELEUZE, G.; GUATTARI, F. L’anti-Œdipe. Paris: Minuit, 1972.

DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mille plateau. Paris: Minuit, 1980.

DELEUZE, G.; PARNET, C. Dialogues. Paris: Flammarion, 1996.

DERRIDA, J. Estados de alma da psicanálise. Rio de Janeiro: RelumeDumará, 1995.

DURKHEIM, E. Le suicide. Paris: PUF, 2000.

ENRIQUEZ, E. Caractéristiques spécifiques de La pulsion de mort dans lês sociétés contemporaines et organisations modernes. Organizações & Sociedade, Salvador, v. 10, n. 28, 2003.

ESPOSITO, R. Bios: Biopolitcs and Philosophy. Minneapolis: University of Minessota Press, 2008.

FOUCAULT, M. Il faut defender la société. Paris: Seuil; Gallimard, 1997.

FREUD, S. Das Unheimlich. In: Gesammelte Werke. Frankfurt: Suhrkamp, 1995. v. XII.

GUATTARI, F. La revolution moléculaire. Paris: Les Prairies Ordinaires, 2012.

HEIBER, Helmut. Hitler parle à ses géneraux. Paris: Tempus Perrin, 2013.

HORKHEIMER, Max. Eclipse of Reason. London: Continuum, 2007.

LACAN, J. Autres écrits. Paris: Seuil, 2001.

LACAN, J. Le séminaire, livre VII: Ethique de La psychanalyse. Paris: Seuil, 1986. LACAN, J. Le séminaire, livre XI: Les quatre concepts fondamentaux de La psychanalyse. Paris: Seuil, 1973.

LAND, N. Making It with Death: Remark son Thanathos and Desiring-Production. In: Fanged Noumena. New York: Sequence, 2007.

LAPLANCHE, J. Life and Death in Psychoanalysis. Translated by J. Mehlman. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 1990.

MARTINS, Alessandra. Da melancolia à mania suicida: o círculo demoníaco brasileiro. São Paulo: N-1 Edições – Pela vida, 2021.

NEUMANN, F. Behemoth: The Structure and Practice of National Socialism, 1933-1944. Chicago: Ivan R. Dee, 2009.

REICH, W. La psychologie de masses du fascism. Paris: Payot, 1996.

ROUBINEK, E. A “Fascist”, Colonialism? National Socialism and Italian Fascist Colonial Cooperation, 1936-1943. In: CLARA, F.; NINHOS, C. Nazi Germany and Southern Europe, 1933-1945. London: Pallgrave, 2016.

ROUDINESCO, E. Roudinesco: Le terrorisme, une “pulsion de mort à l’état brut”. Europe1, 12 déc. 2015. Disponível em: https://bit.ly/3aOnqUu.

VIRILIO, P. L’insécurité Du térritoire. Paris: Galilée, 1976.


Notas


[i] Adorno e Horkheimer já haviam insistido no fascismo como patologia social de cunho paranoico em Dialética do esclarecimento (ADORNO; HORKHEIMER, 1992).

[ii] “A rebelião contra a leis institucionalizadas transforma-se em ausência de lei e autorização da força bruta a serviço dos poderes estabelecidos” (HORKHEIMER, 2007, p. 81).

[iii] Não por acaso, tecnologias de gestão da violência social, como campos de concentração e segregação, foram desenvolvidas, inicialmente, em situações coloniais. Ver, por exemplo, Roubinek (2016).

[iv] Sobre a figura do “Estado predador”, ver, por exemplo, Chamayou (2016).

[v] Daí o sentido de afirmações como essas de Goebbels: “No mundo da fatalidade absoluta no interior do qual se move Hitler, nada tem mais sentido, nem o bem nem o mal, nem o tempo nem o espaço, e o que os outros homens chamam de ‘sucesso’ não pode servir de critério […] É provável que Hitler terminará em catástrofe” (apud HEIBER, 2013).

[vi] Conforme encontramos em Balibar [s.d.].

[vii] Ver Thomas Hobbes sobre “as doenças da commonwealth” em Leviatã, cap. XXIX.

[viii] “Temos então na sociedade nazista essa coisa absolutamente extraordinária: uma sociedade que generalizou de forma absoluta o biopoder, mas que, ao mesmo tempo, generalizou o direito soberano de matar […]. O Estado nazista tornou absolutamente coextensivo o campo de uma vida que ele administra, protege, garante biologicamente e, ao mesmo tempo, o direito soberano de matar quem quer que seja – não apenas os outros, mas os seus […]. Temos um Estado absolutamente racista, um Estado absolutamente assassino e um Estado absolutamente suicidário” (FOUCAULT, 1997, p. 232).

[ix] “Todas as significações fascistas reverberam em uma representação composta de amor e de morte. Eros e Tanatos se unem. Hitler e os nazistas lutavam pela morte, até mesmo pela morte da Alemanha. E as massas alemãs aceitaram segui-lo até sua própria destruição” (GUATTARI, 2012, p. 70).

[x] Como podemos encontrar em Derrida (1995).

[xi] Ver, por exemplo, Roudinesco (2015) ou Enriquez (2003).


[xii] Mesmo que essa seja a acusação de Land (2007).

[xiii] Notemos que Deleuze é mais reticente do que Guattari no uso do conceito de pulsão de morte. Tanto que afirmará: “cada vez que uma linha de fuga se transforma em linha de morte não invocamos uma pulsão interior do tipo ‘instinto de morte’, nós invocamos ainda um agenciamento de desejo que coloca em jogo uma máquina definível de forma objetiva ou extrínseca” (DELEUZE; PARNET, 1996, p. 171).

[xiv] Essa posição ainda está presente em O anti-Édipo “O instinto de morte é silêncio puro, transcendência pura, não dada na experiência. Esse ponto é absolutamente impressionante: é porque a morte, segundo Freud, não tem nem modelo nem experiência, que ele faz dela um princípio transcendente” (DELEUZE; GUATTARI,


[xv] p. 397).

[xvi] É com isso em mente que devemos ler a passagem fundamental de Deleuze: “um estado de diferenças livres que não são mais submetidas à forma que lhes era dada por um Eu, que se desenvolve em uma figura que exclui minha própria coerência ao mesmo tempo em que a coerência de uma identidade qualquer. Há sempre um ‘morre-se’ mais profundo do que um ‘eu morro’” (DELEUZE, 1969, p. 148).

[xvii] “A pulsão de morte é uma sublimação criacionista, ligada ao elemento estrutural que faz com que, desde que nos relacionemos ao que quer que seja que se apresenta sob a forma da cadeia significante, há algum lugar, mas seguramente fora do mundo da natureza, o para além desta cadeia, o exnihilo sobre o qual ela se funda e se articula como tal” (LACAN, 1986, p. 252).

[xviii] Como Laplanche (1990, p. 123) afirma: “Eros é o que procura manter, preservar e mesmo aumentar a coesão e a tendência sintética tanto do ser vivo quanto da vida psíquica. Enquanto que, desde as origens da psicanálise, a sexualidade era, por essência, hostil à ligação, princípio de ‘des-ligamento’ ou de desencadeamento (Entbildung) que só se ligava através da intervenção do Eu, o que aparece com Eros é a forma ligada e ligadora da sexualidade, colocada em evidência pela descoberta do narcisismo”.

[xix] Esse ponto, há muito desacreditado, foi recuperado por biólogos contemporâneos como Jean-Claude Ameisen e Henri Atlan.

[xx] A esse respeito, ver também: Martins, 2021.



II


“Eu não sou coveiro, tá certo?” (20/4)

“‘Não tem que se acovardar com esse vírus na frente” (18/4)

“Os Estados estão quebrados. Falta humildade para essas pessoas que estão bloqueando tudo de forma radical.” (19/4)

“Quarenta dias depois, parece que está começando a ir embora essa questão do vírus” (12/4)

“Ninguém vai tolher meu direito de ir e vir” (10/4)

“Esse tratamento (com hidroxicloroquina), que começou aqui no Brasil, tem que ser feito, segundo as pessoas que a gente tem conversado, até o quarto ou quinto dia dos primeiros sintomas” (8/4)

“Há 40 dias venho falando do uso da hidroxicloroquina no tratamento do covid-19. Cada vez mais o uso da cloroquina se apresenta como algo eficaz” (8/4)

“Se o vírus pegar em mim, não vou sentir quase nada. Fui atleta e levei facada” (30/3)

“O vírus tá aí, vamos ter de enfrentá-lo, mas enfrentar como homem, pô, não como moleque” (29/3)

“Alguns vão morrer? Vão, ué, lamento. É a vida. Você não pode parar uma fábrica de automóveis porque há mortes nas estradas todos os anos”. (27/3)

“Não estou acreditando nesses números de São Paulo, até pelas medidas que ele (o governador João Doria) tomou” (27/3)

“Sabe quando esse remédio (hidroxicloroquina) começou a ser produzido no Brasil? Ele começou a ser usado no Brasil quando eu nasci, em 1955. Medicado corretamente, não tem efeito colateral” (26/3)

“O povo foi enganado esse tempo todo sobre o vírus” (26/3)

“O pânico é uma doença e isso foi massificado quase que no mundo todo e no Brasil não foi diferente” (26/3)

“O brasileiro tem de ser estudado, não pega nada. O cara pula em esgoto, sai, mergulha e não acontece nada.” (26/3)

“São raros os casos fatais de pessoas sãs com menos de 40 anos” (24/3)

“Não podemos nos comparar com a Itália. (…) Esse clima não pode vir para cá porque causa certa agonia e um estado de preocupação enorme. Uma pessoa estressada perde imunidade” (22/3)

“De forma alguma usarei do momento para fazer demagogia” (21/3)

“Depois da facada, não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar, tá ok?” (20/3)

“Tem certos governadores que estão tomando medidas extremas. Tem um governo de Estado que só faltou declarar independência do mesmo” (20/3)

“Não se surpreenda se você me ver (sic) no metrô lotado em São Paulo, numa barcaça no Rio. É um risco que um chefe de Estado deve correr. Tenho muito orgulho disso” (18/3)

“O que está errado é a histeria, como se fosse o fim do mundo. Uma nação como o Brasil só estará livre quando certo número de pessoas for infectado e criar anticorpos” (17/3)

“Tem locais, alguns países que já tem saques acontecendo. Isso pode vir para o Brasil. Pode ter um aproveitamento político em cima disso” (17/3)

“Eu não vou viver preso no Palácio da Alvorada com problemas grandes para serem resolvidos no Brasil” (16/3)

“Muito do que falam é fantasia, isso não é crise” (10/3)


III

Vírus "superdimensionado"

"Está superdimensionado o poder destruidor desse vírus. Talvez esteja sendo potencializado até por questões econômicas" (quando o Brasil registrava 25 casos, sem nenhuma morte).

"Histeria"

"Olha, a economia estava indo bem... Esse vírus trouxe uma certa histeria. Tem alguns governadores, no meu entender, eu posso até estar errado, mas estão tomando medidas que vão prejudicar muito a nossa economia" (dia seguinte à primeira morte no país)

"Gripezinha"

"Para 90% da população, isso vai ser uma gripezinha ou nada" (com menos de 100 mortos)

"Começando a ir embora"

"Parece que está começando a ir embora essa questão do vírus" (com 1,2 mil mortos)

"E daí?"

"E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre" (em referência a seu sobrenome, quando havia quase 5 mil mortos)

"País de maricas"

"Tudo agora é pandemia, tem que acabar com esse negócio, pô. Lamento os mortos, lamento. Todos nós vamos morrer um dia, aqui todo mundo vai morrer. Não adianta fugir disso, fugir da realidade. Tem que deixar de ser um país de maricas" (com 163 mil mortos)

"Se você virar um jacaré"

"Se você virar um jacaré, é problema seu. Se você virar Super-Homem, se nascer barba em alguma mulher aí, ou algum homem começar a falar fino, eles (Pfizer) não têm nada a ver com isso." (sobre possíveis efeitos colaterais das vacinas, com 185 mil mortos)

Máscaras "prejudiciais"

"Começam a aparecer estudos aqui (...) sobre o uso de máscara, que, num primeiro momento aqui, uma universidade alemã fala que elas são prejudiciais a crianças e levam em conta vários itens aqui como irritabilidade, dor de cabeça, dificuldade de concentração, diminuição da percepção de felicidade, recusa em ir para a escola ou creche, desânimo, comprometimento da capacidade de aprendizado, vertigem, fadiga" (com 250 mil mortos)

Pandemia "usada politicamente"

"Não vamos chorar o leite derramado. Estamos passando ainda por uma pandemia, que em parte é usada politicamente não para derrotar o vírus, mas para tentar derrubar o presidente" (com 340 mil mortos)

Hidroxicloroquina

"Fui acometido do vírus e tomei a hidroxicloroquina. Talvez eu tenha sido o único chefe de Estado que procurou remédio para esse mal. (...) Não vou esmorecer, sou cabeça dura, sou perseverante" (com 484 mil mortos)



CRONOLOGIA DA DESTRUIÇÃO DO BRASIL



O Instituto Novos Paradigmas (INP) lançou no dia 20 de dezembro, dentro do Projeto Incide, a série “Cronologia do Desastre – Um semestre da destruição presidida por Jair Bolsonaro”. Tratase de uma linha do tempo com cerca de 300 links para notícias referentes a iniciativas do governo federal, do presidente e de seus aliados e notícias da consequência dessas iniciativas. Uma linha que mostra a destruição cotidiana e deliberada do país. Segundo os organizadores da iniciativa, o propósito é registrar a natureza dos discursos e a consequência das ações do governo, tendo em vista a profusão de acontecimentos que muitas vezes dificulta a compreensão dos cenários.

Essas notícias fazem parte de uma coleta que o INP faz desde meados de junho, com as seguintes categorias temáticas: Ambiente, Bolsocrise (desemprego, desvalorização do real, PIB quase negativo, precarização do trabalho), Bolsocaro (inflação de alimentos e combustíveis), Bolsolucros (pagamentos recordes de dividendos), Desinformação, Poder (movimentos de Bolsonaro para tentar sua reeleição e para reprimir opositores), Desmanche (na educação, na pesquisa, em instituições do governo), Saúde, Privatização, Segurança, Educação e Fome.

A Cronologia do Desastre é um resumo – somente as notícias coletadas pelo INP são mais de 2 mil. Seu objetivo é registrar uma memória deste momento, em meio a muita desinformação, crises fabricadas e mudanças de versões sobre os problemas do país. Ela vai estar hospedada no site do INP e pode-se fazer buscas por temas. O banco de notícias continuará a ser alimentado e, no início de 2022, será aberto para uso livre.

Em setembro, houve uma ameaça de ruptura institucional por conta das urnas eletrônicas. Em novembro, Bolsonaro afirmou, simplesmente, que “passamos a acreditar nas urnas eletrônicas”. Enquanto isso, cedeu pedaços cada vez maiores do orçamento ao Centrão. Em outubro, o botijão de gás de cozinha chegou ao maior preço da série histórica da Agência Nacional de Petróleo e o Brasil atingiu o menor consumo de carne vermelha em 26 anos.

Ao completar mil dias de governo, em setembro, o governo havia editado 1229 atos infralegais, incluindo 122 reformas institucionais extinção, alteração e fusão de órgãos), 57 atos de desestatização, 37 revisões de regras, 58 de flexibilização, 54 de desregulação e 37 revogações – em questões referentes ao Ministério do Meio Ambiente. Ricardo Salles havia deixado o governo em junho, investigado em pelo menos dois graves processos, mas sua boiada seguiu passando. Nada disso foi citado por Bolsonaro em sua mensagem à COP 26 – e em 17 de novembro foram publicados os números de desmatamento do último ano – cresceu 33% de janeiro a outubro em relação ao ano passado e registrou novo recorde.

Também em outubro, o país chegou à marca de 600 mil mortos por covid-19. Neste mesmo mês, as redes sociais derrubaram um vídeo de Bolsonaro em que ele associou a vacina ao desenvolvimento de sintomas de AIDS. Na linha do tempo pode-se ver que o governo e os filhos do presidente só passaram a apoiar a compra de vacinas depois de assinada a compra, pelo Ministério da Saúde, de 20 milhões de doses da Covaxin – suspensa em junho depois de denúncias na CPI da Covid.

Desde o começo do governo Bolsonaro, 2,4 milhões de pessoas perderam seu emprego ou fecharam seu pequeno negócio. O salário médio dos brasileiros caiu 7,3%. Quase R$
200 a menos no bolso. No início do governo, uma cesta básica custava 103 horas de trabalho do paulistano. Agora, custa 134 horas – mais 31 horas de trabalho no mês. No dia 29 de outubro, o Bolsa Família, programa reconhecido internacionalmente, fez seu último pagamento. O governo substituiu uma política pública exitosa de 18 anos pelo Auxílio Brasil – e pendurou o novo programa na negociação de uma liberação bilionária de recursos para emendas destinadas à sua base de apoio.


Sobre o INP

O Instituto Novos Paradigmas (INP) é uma instituição social, sem fins lucrativos, sustentada por uma rede de associados empenhada na produção de análises, diagnósticos, reflexões e estudos que contribuam para a afirmação de uma agenda democrática contemporânea. 
O Conselho diretor é presidido pelo ex-ministro e exgovernador Tarso Genro e conta no seu quadro de conselheiros nomes como Boaventura de Sousa Santos, Professor Catedrático da Universidade de Coimbra, Baltasar Garzón, jurista, magistrado, professor e advogado espanhol, Pilar del Río, presidente da Fundação José Saramago, Fernando Haddad, ex-ministro da educação e ex-prefeito de São Paulo, entre outros.


IV

RETROSPECTIVA 



FIQUE EM CASA (UERJ)



A SEGUIR ALGUNS GRÁFICOS QUE FORAM AVISOS EM 2020

















JANEIRO 2021







14 e 15 JANEIRO 2021 COLAPSO DE MANAUS: FALTA DE OXIGÊNIO


MONICA CALAZANS
Primeira brasileira vacinada contra COVID-19
17 Janeira 2021


MARÇO 2021 (WHO)

MARÇO 2021 (WHO)

18/mar/2021: Ele imitou uma pessoa com falta de ar, fazendo alguns sons guturais, ao criticar quem se opõe ao tratamento “inicial”. 


04 ABRIL 2021 (BBC)

Tipos de vacina (CNN)
(Para uma revisão sobre o assunto) e 

Os termos vacina e vacinação são derivados de Variolae vaccinae (varíola das vacas), termo usado por Jenner para descrever a varíola. Ele usou o termo pela primeira vez em 1798, no título de seu trabalho Inquiry into the Variolae vaccinae known as the Cow Pox, no qual descreve o efeito protetor da varíola bovina quando comparada com a varíola humana (WP).

História da vacina

A inoculação já acontecia na Ásia e era uma prática padrão, ainda que envolvesse riscos sérios. Um deles era o medo de que os inoculados passassem a transmitir a doença aos que os cercavam, por se tornarem portadores da doença. 
Em 1721, Lady Mary Wortley Montagu importou a técnica da variolização para a Grã-Bretanha depois de observar o procedimento em Constantinopla. Ainda que Johnnie Notions tenha tido sucesso com sua auto-inoculação, que alegava não ter perdido nenhum paciente[18] seu método era limitado às Ilhas Shetland (WP).

Voltaire escreveu que nessa época 60% da população se contaminou com varíola e 20% da população morreu por causa dela. Também escreveu que os circassianos usavam a inoculação desde tempos imemoriais e que o costume tinha sido emprestado dos turcos. 
Em 1766, Daniel Bernoulli analisou a mortalidade da varíola e as taxas de mortalidade para demonstrar a eficiência da inoculação.

Em 1768, o médico inglês John Fewster percebeu que uma infecção prévia pela varíola bovina levava a uma imunidade da pessoa contra a varíola.

Na década de 1770, pelo menos cinco pesquisadores da Inglaterra e da Alemanha (Sevel, Jensen, Jesty 1774, Rendell, Plett 1791) fizeram testes em humanos, com sucesso, utilizando a vacina bovina contra varíola humana. Por exemplo, o fazendeiro Benjamin Jesty, de Dorset, foi vacinado com sucesso e teria gerado imunidade na esposa e em seus dois filhos na epidemia de 1774, mas só com o trabalho de Jenner é que o processo foi compreendido. É provável que Jenner tivesse conhecimento dos procedimentos de Jesty. Uma observação similar sobre o processo de inoculação foi feito na França, por Jacques Antoine Rabaut-Pommier, em 1780 (WP).

Dr. Jenner aplicou a vacinação em James Phipps, um menino de 8 anos, em 14 de maio de 1796.

Jenner notou que as jovens ordenhadeiras eram, geralmente, imunes à varíola. Assim, ele supôs que o pus das bolhas das ordenhadeiras, infectadas com a varíola bovina (doença similar, porém menos virulenta), poderia proteger contra a varíola humana. A hipótese de Jenner é que a doença começava com cavalos, que transmitiam às vacas, que depois transmitiam aos trabalhadores da fazenda, manifestando-se como varíola bovina. 
Em 14 de maio de 1796, Jenner testou sua hipótese, inoculando o menino James Phipps, de 8 anos, filho do jardinheiro da propriedade. Raspou o pus das bolhas de uma das ordenhadeiras, Sarah Nelmes, que tinha contraído a varíola bovina de uma vaca chamada Blossom[8] e inoculou os dois braços do menino no mesmo dia. James teve febre e algum mal-estar, mas não desenvolveu a varíola. Depois que o menino se recuperou, Jenner injetou-lhe material da varíola humana, no processo de variolização comum da época e nenhuma doença se desenvolveu. O menino foi testado com vários materiais contendo varíola humana vindas de outras pessoas e nunca desenvolveu a doença. O caso de James Phipps foi o 17º caso descrito no primeiro artigo de Jenner sobre a vacinação (WP).

“A contribuição única de Jenner não foi ter inoculado algumas pessoas com varíola bovina, mas ter provado [por meio de testes subsequentes] que elas eram imunes à varíola. Além disso, demonstrou que o pus protetor da varíola bovina poderia ser inoculado com eficácia de pessoa para pessoa, não apenas diretamente do gado.”

Jenner continuou sua pesquisa e a relatou à Royal Society, que não publicou seu artigo inicial. Após revisões e pesquisas adicionais, ele publicou suas descobertas sobre os 23 casos de inoculação, incluindo seu filho de 11 meses, Robert. Algumas de suas conclusões estavam corretas, outras erradas; métodos microbiológicos e microscópicos modernos tornariam seus estudos mais fáceis de reproduzir. A comunidade médica deliberou longamente sobre suas descobertas antes de aceitá-las. Eventualmente, a vacinação foi aceita e, em 1840, o governo britânico proibiu a variolação, o uso da varíola para induzir imunidade, e providenciou a vacinação com varíola bovina gratuitamente.

O sucesso de sua descoberta logo se espalhou pela Europa e foi usado "em massa" na Operação Balmis, na Espanha (1803-1806), uma missão de três anos às Américas, Filipinas, Macau e China, liderada pelo médito Francisco Javier de Balmis com o objetivo de dar a milhares de pessoas a vacina contra a varíola, iniciativa que foi elogiada pelo próprio Jenner (WP).

Napoleão, que na época estava em guerra contra a Grã-Bretanha, vacinou todas as suas tropas, concedeu uma medalha a Jenner e ainda libertou dois soldados ingleses, permitindo que voltassem para casa, dizendo que não recusaria nada do "salvador da humanidade".

O trabalho contínuo de Jenner com a vacinação o impediu de continuar sua prática médica normal. Ele foi apoiado por seus colegas e pelo rei em sua petição ao Parlamento e recebeu £10.000 em 1802 por seu trabalho de vacinação. Em 1807, ele recebeu mais £20.000 depois que o Royal College of Physicians confirmou a ampla eficácia da vacinação (WP).





02JUNHO2021

MARCA DAS MINHAS DUAS PRIMEIRAS DOSES CONTRA COVID-19

MINHA TERCEIRA DOSE DA VACINA CONTRA COVID-19

OUTUBRO


Tipos de vacinas contra COVID-19 (saude)





































FÉRIAS DO BOLOSNARO VS POVO DA BAHIA








Vasta maioria elege Gabriel Boric, presidente de todos os chilenos! 
Viva o Chile! 





Muito triste tudo isso 



















VAMOS COMEMORAR A VIDA
A ESPERANÇA E O AMOR  











Fogos no Rio (via GN)










https://infograficos.gazetadopovo.com.br/saude/vacina-covid-19-no-mundo/