INÍCIO

13 setembro 2025

QUE PAÍS É ESSE

POEMA DE HOJE

Poucas vezes um poema explicou tão bem um país e poucas vezes um poeta explicou tão bem o seu poema… Excepcionalmente, não colocamos o poema todo, apenas as duas primeiras partes das sete de que ele se compõe.

QUE PAÍS É ESTE? (1980)
(Affonso Romano de Sant’Anna)


1

Uma coisa é um país,
outra um ajuntamento.

Uma coisa é um país,
outra um regimento.

Uma coisa é um país,
outra o confinamento.

Mas já soube datas, guerras, estátuas
usei caderno “Avante”
— e desfilei de tênis para o ditador.
Vinha de um “berço esplêndido” para um “futuro radioso”
e éramos maiores em tudo
— discursando rios e pretensão.

Uma coisa é um país,
outra um fingimento.

Uma coisa é um país,
outra um monumento.

Uma coisa é um país,
outra o aviltamento.

Deveria derribar aflitos mapas sobre a praça
em busca da especiosa raiz? ou deveria
parar de ler jornais
e ler anais
como anal
animal
hiena patética
na merda nacional?
Ou deveria, enfim, jejuar na Torre do Tombo
comendo o que as traças descomem
procurando
o Quinto Império, o primeiro portulano, a viciosa visão do paraíso
que nos impeliu a errar aqui?

Subo, de joelhos, as escadas dos arquivos
nacionais, como qualquer santo barroco
a rebuscar
no mofo dos papiros, no bolor
das pias batismais, no bodum das vestes reais
a ver o que se salvou com o tempo
e ao mesmo tempo
– nos trai



2

Há 500 anos caçamos índios e operários,
há 500 anos queimamos árvores e hereges,
há 500 anos estupramos livros e mulheres,
há 500 anos sugamos negras e aluguéis.

Há 500 anos dizemos:
que o futuro a Deus pertence,
que Deus nasceu na Bahia,
que São Jorge é que é guerreiro,
que do amanhã ninguém sabe,
que conosco ninguém pode,
que quem não pode sacode.

Há 500 anos somos pretos de alma branca,
não somos nada violentos,
quem espera sempre alcança
e quem não chora não mama
ou quem tem padrinho vivo
não morre nunca pagão.

Há 500 anos propalamos:
este é o país do futuro,
antes tarde do que nunca,
mais vale quem Deus ajuda
e a Europa ainda se curva.

Há 500 anos
somos raposas verdes
colhendo uvas com os olhos,

semeamos promessa e vento
com tempestades na boca,

sonhamos a paz da Suécia
com suíças militares,

vendemos siris na estrada
e papagaios em Haia,

senzalamos casas-grandes
e sobradamos mocambos,

bebemos cachaça e brahma
joaquim silvério e derrama,

a polícia nos dispersa
e o futebol nos conclama,

cantamos salve-rainhas
e salve-se quem puder,

pois Jesus Cristo nos mata
num carnaval de mulatas.

Este é um país de síndicos em geral
este é um país de cínicos em geral
este é um país de civis e generais.

Este é o país do descontínuo
onde nada congemina

e somos índios perdidos
na eletrônica oficina

Nada nada congemina:
a mão leve do político
com nossa dura rotina,

o salário que nos come e
nossa sede canina,

e a esperança que emparedam
a nossa fé em ruína,

nada nada congemina:
a placidez desses santos
e a nossa dor peregrina,

e nesse mundo às avessas
– a cor da noite é obsclara
e a claridez, vespertina.


















07 setembro 2025

PARTENON

DIA DA INDEPENDÊNCIA 

No Dia da Independência, é oportuno reiterar que a verdadeira liberdade não nasce de ataques às instituições, mas do seu fortalecimento. Não há no Brasil “ditadura da toga”, tampouco ministros agindo como tiranos. 
O STF tem cumprido seu papel de guardião da Constituição e do Estado de Direito, impedindo retrocessos e preservando as garantias fundamentais.
Se quisermos falar sobre os perigos do autoritarismo, basta recordar o passado recente de nosso país: milhares de mortos em uma pandemia, vacinas deliberadamente negligenciadas por autoridades, ameaças ao sistema eleitoral e à separação de Poderes, acampamentos diante de quartéis pedindo intervenção militar, tentativa de golpe de Estado com violência e destruição do patrimônio público, além de planos de assassinato contra autoridades da República. 
O que o Brasil realmente não aguenta mais são as sucessivas tentativas de golpe que, ao longo de sua história, ameaçaram a democracia e a liberdade do povo. É fundamental que se reafirme: crimes contra o Estado Democrático de Direito são insuscetíveis de perdão! 
Cabe às instituições puni-los com rigor e garantir que jamais se repitam. (Min. Gilmar Mendes)


***

ATENAS SUBLIME

Os Desenhos de Carrey: Uma Janela Preciosa 
para o Partenon Original.

Partenon. Reconstrução digital. O Parthenon foi construído sob o governo de Periclés, no século V a.C., na Ácropole em Atenas. A Acrópole é uma colina rochosa de topo plano com 150 metros de altura acima do nível do mar, e abriga algumas das mais famosas edificações do mundo antigo. A Acrópole de Atenas é certamente a mais famosa de todas. As acrópoles da Antiga Grécia eram, como o próprio nome diz, “cidades altas” (do grego ἄκρος, alto, e πόλις, pólis). Construídas no ponto mais elevado das cidades, serviam originalmente como proteção contra invasores de cidades inimigas, e quase sempre eram cercadas por muralhas. Com o tempo, passaram a servir como sedes administrativas civis ou religiosas. O Parthenon (em grego antigo Παρθενών, Parthenōn; em grego moderno Παρθενώνας, Parthenónas) foi um templo da deusa Atena, filha de Zeus, deusa da sabedoria, das artes manuais, e da guerra pela justiça. Atena ganhou, em disputa com Poseidon, o rei dos mares, o direito de ser a protetora da cidade construída por Cécrops, que passou a ser chamada pelo nome de sua protetora, Atenas. As medidas da base do Parthenon são 69,5x30,9 metros.

Em 1674, o artista francês Jacques Carrey acompanhou uma delegação da embaixada do Marquês de Nointel a Atenas, então parte do Império Otomano. Nessa época, o Partenon ainda estava em relativa condição intacta, embora já tivesse sido transformado em igreja cristã e depois em mesquita.

A pedido do Marquês, Carrey realizou uma série de desenhos detalhados das esculturas que ornamentavam as fachadas leste, oeste e sul do templo. Estes desenhos documentam, com notável precisão, as métopes (painéis esculpidos) e, o mais importante, grande parte do friso contínuo e das figuras dos dois frontões (tímpanos). 

A importância dos desenhos de Carrey é imensurável. Apenas 13 anos depois de sua visita, em 1687, o Partenon foi gravemente danificado durante um cerco veneziano. Um canhão atingiu o templo, que os otomanos usavam como depósito de pólvora, causando uma explosão catastrófica que destruiu grande parte da estrutura e fez inúmeras esculturas voarem em pedaços.

Portanto, os desenhos de Carrey são o registro visual mais completo e fiel que se tem da aparência original das esculturas do Partenon antes dessa destruição. Eles são uma fonte primária crucial para arqueólogos e historiadores da arte, permitindo estudar a composição e os detalhes de esculturas que foram perdidas para sempre ou severamente danificadas.

Hoje, esses esboços são uma peça fundamental para entender a magnitude da obra de Fídias e sua oficina, servindo como um testemunho único de um esplendor que já não podemos ver por completo in situ.

Sob a direção de Fídias, o Partenon teve dois frontões com duas histórias relacionadas diretamente com a deusa Atena.

Os seus restos, após a explosão do seu paiol de pólvora, encontram-se em pequenos pedaços no museu londrino, mas podemos reconstruir melhor todo o conjunto graças aos desenhos que Jacques Carrey realizou em 1674.

Jacques Carrey

Jacques Carrey trabalhou ao serviço de Charles Olier de Nointel, marquês de Nointel (1635-1685), que foi embaixador da França desde 1670 até 1680 na Sublime Perta, e desenhou a vida do mundo otomano e especialmente, em 1674, as esculturas do Partenon. 

Jacques Carrey (12 de janeiro de 1649 – 18 de fevereiro de 1726) foi um pintor e desenhista francês, agora lembrado quase exclusivamente pela série de desenhos que fez do Partenon, em Atenas, em 1674. 
Nascido em Troyes, Carrey foi aluno do ateliê de Charles Le Brun. Carrey foi recomendado por seu mestre para ser incluído na comitiva da embaixada de de Nointel em Constantinopla em agosto de 1670 como desenhista. Parte da comissão de de Nointel era comprar manuscritos, medalhões e esculturas enquanto estivesse no exterior. Como resultado disso, entre 1670 e 1679 Carrey executou mais de 500 desenhos de cidades, antiguidades, cerimônias e exemplos de festas e costumes locais na Ásia Menor, Grécia e Palestina. 
O grupo de De Nointel visitou Atenas em novembro de 1674. Lá, em um período de duas semanas, Carrey produziu cerca de cinquenta e cinco desenhos das esculturas do Partenon. Trinta e cinco deles, mostrando detalhes dos frontões, métopas e friso, que agora sobrevivem na Biblioteca Nacional de Paris. Como 20% das esculturas do Partenon foram destruídas no bombardeio veneziano de 1687, o trabalho de Carrey é o único registro de grande parte dessa seção perdida. 
Seus desenhos em giz vermelho (sanguínea) e preto, da observação das obras reais, registram meticulosamente as rachaduras e outros danos, sem fazer nenhuma tentativa de completar os detalhes perdidos, registrando o que viu.




Jacques Carrey. Desenhos das esculturas do Partenon. Trinta e cinco deles, mostrando detalhes dos frontões, métopas e friso, que agora sobrevivem na Biblioteca Nacional de Paris.













Desenhos de Jacques 

Ao retornar a Paris em 1679, Carrey presenteou Le Brun com os desenhos que ele havia feito em Constantinopla; vários estão no Cabinet des Dessins no Louvre, Paris. Três pinturas que se sabe terem sido feitas por Carrey em 1675 são atualmente desconhecidas, mas a pintura representando de Nointel diante da cidade de Atenas no Musée des Beaux-Arts, Chartres, é quase certamente sua. Ele também é conhecido por ter pintado um ciclo de seis pinturas da vida de São Pantaleão para a Église Saint-Pantaléon, Troyes. Ele morreu em sua cidade natal, aos 77 anos.



O primeiro deles (fachada oeste) conta a disputa de Poseidon e Atena, que, com a sua diagonal contrária (formando um V), recorda uma obra anterior de Míron, Atena e Marsias, que se encontrava na Acrópole.

A seguir estavam as bigas com as sua aurigas femininas.

Nike conduz a biga de Atena, Anfitrite é a auriga de Poseidon: os cavalos empinados permitem uma ocupação ideal do espaço triangular ao colocarem-se frente a frente entre as cornijas (e contrabalançando as diagonais dos protagonistas). As aurigas estão acompanhadas pelos deuses mensageiros: Hermes e Íris.

Depois deste grande grupo central, a tensão diminui e as posturas das estátuas são mais relaxadas.

O frontão leste, na fachada que dava passagem à naos (santuário) onde se encontrava a grande Atena Partenos criselefantina, tinha no centro Zeus, provavelmente sentado, com a sua águia aos pés. Perto dele estariam Atena (recém-nascida e coroada por um putti, figura infantil, cupido), Hera e Hefesto (com o machado com o qual abriu a cabeça de Zeus) e Ilítia.










Fora da ação central, as outras divindades no frontão parecem fazer apenas “ato de presença”. Uma figura feminina de pé aproxima-se de outras duas figuras femininas (Deméter e a sua filha Perséfone). À sua esquerda, Dionísio parece saudar a biga de Hélio, que se eleva a partir da extremidade do frontão.

Recostadas na parte direita, três mulheres (Afrodite, Ártemis e Leto) posam com os seus vestidos de panos molhados.

No final, a biga da Lua ou da Noite parece descer pela parte inferior do frontão, pois é o momento da Aurora que, com os seus dedos rosados, afasta as trevas para que apareça Atena.

Todo o conjunto (como grande parte da sua obra) deve ter sido idealizado por Fídias e executado por algum dos seus discípulos mais brilhantes, Agorácritos e Alcâmenes.










Fonte