INÍCIO

13 janeiro 2022

NÃO OLHE PARA CIMA


NÃO OLHE PARA CIMA
DON’T LOOK UP



“Cilas, Celenos e harpias vorazes, lestrigões canibais e outros prodígios medonhos do gênero, em que lugar não se encontram? Mas homens vivendo em cidades sabiamente governadas, eis o que não se encontra em qualquer lugar.”
(Thomas Morus, A Utopia)

 “a verdade é mais estranha que ficção, porque a ficção precisa fazer sentido, e a verdade, não.”
(Mark Twain)


[...] temos de inverter a célebre frase de Adorno que decretou que a arte é impossível depois de Auschwitz. É o contrário que é verdade: para mostrar Auschwitz depois de Auschwitz, só é possível com a arte, porque ela é sempre o presente de uma ausência, porque é a sua missão mostrar um invisível, por meio da força organizada das palavras e das imagens, juntas ou separadas, porque ela é a única capaz de tornar sensível o inumano, o bárbaro, o maléfico. (modificado de Jacques Rancière, Figuras da História).

A contradição que a barbárie praticada pelos nazistas contra humanos, (judeus, gays, lésbicas, ciganos, pessoas que pensavam diferente ou agiam diferente) que foram aprisionados em campos de concentração representou diante dos pressupostos da civilização europeia é antes de tudo injustificável. Poderá passar um milhão de anos que essa atrocidade jamais poderá ser legitimada ou justificada, ante todo o conhecimento e humanismo legado pela Europa ao mundo. Afinal, como é que aquilo foi possível? Como Auschwitz foi possivel?
Como uma sociedade culta, no ápice da evolução científica e filosófica, com uma educação primorosa legitimou o holocausto?

Santiago (2005) nos diz que o novo totalitarismo soube aliar às suas estratégias políticas os mais modernos meios de comunicação (o cinema, o rádio...) e o que estava à época prestes a se firmar no núcleo do sistema capitalista como detentor de uma penetração social e força nunca antes vistas: a publicidade, a propaganda, a estetização da política, a indústria cultural. O que temos nós a aprender com a experiência nazista? Ao pensarmos especificamente em alguns aspectos mais relevantes nela imbricadas, a cultura, a situação do indivíduo sob os governos totalitários, o regime alemão é um objeto de reflexão privilegiado, pois vincula a um só tempo algumas das mais importantes peculiaridades do século XX e uma monstruosa demonstração da barbárie ininterrupta produzida pela história em todas as épocas.

Atento, como não podia deixar de ser, a esses aspectos, Adorno inicia um de seus ensaios, significativamente intitulado "Educação após Auschwitz", com uma asserção das mais categóricas, simples e curta mas repleta de significações em seu fundo: "a exigência de que Auschwitz não se repita é primordial em educação." (Adorno, 1947).

Adorno sugere uma educação voltada para um formato ético-humanístico, criticando o formato atual da lógica burguesa tecnicista, na qual a razão é superior à emoção. A educação, por seu turno, está inserida nesse contexto como um mecanismo imprescindível para a ruptura do processo histórico cíclico. Mas, como harmonizar a consciência de si com a consciência do outro? Como criar valores universais que respeitem a vida e sejam postos em prática em todas as situações? (Lima e cols. s/d)

Adorno nos diz: “A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação”, um pressuposto humanista radical que seria o paradigma que o nazi-fascismo negou, causa primeira dos corpos insepultos em Auschwitz.
(...) Daí o exercício do cotejo entre o diagnóstico de um livro como a Dialética do esclarecimento e o empenho adorniano em discutir uma educação emancipadora desembocar em algumas dificuldades de grande monta: o processo que levou ao nazismo era mesmo inexorável, segundo a marcha histórica? quais as possibilidades de evitar uma repetição da barbárie nazista? a educação pode fazê-lo? Está fora de nosso propósito dar respostas completas a tais interrogações; queremos apenas delinear um campo em que elas possam ser entendidas em sua complexidade, de modo que consigamos colimar, se não um meio de nos esbaldarmos no otimismo (quase sempre um erro teórico), ao menos uma alternativa ao pessimismo paralisante.

Para evitarmos a barbárie é necessário "uma educação liberta de qualquer forma opressiva e inumana de viver, visando a não-repetição de fatos como o Holocausto. Mesmo com a complexidade de vários conceitos apresentados por Adorno, a sua abordagem sobre a educação como uma construção capaz de desbarbarizar povos, é tematizada sob o âmbito de uma ética que busca o conhecimento da natureza humana, ou melhor, a gênese da perversão do comportamento do homem, inclinando seu pensamento para uma fundamentação de uma norma ética e os valores que devem orientar a vida individual e coletiva. No entanto, como unir sua teoria ético-humanística a um processo prático racionalista, no qual as subjetividades são descartadas? Como formar pessoas capazes de desenvolver uma sociedade fundada na reflexão de si e do outro, em que o valor primordial e norteador de todo o movimento, o respeito à vida, seja preservado, se a lógica de funcionamento da mesma é a coisificação? (Lima e cols. s/d).

Segundo Santigado (2005) A Dialética do esclarecimento, apesar da dificuldade de interpretação, revela algo da amplitude do tema e, em especial, do beco em que se metera a humanidade com o episódio da Segunda Guerra. A obra de 1947 denuncia a profunda desesperança de seus autores (e também a esperança ingênua de outros) nos rumos da humanidade; destino sintetizado na tese central do texto: “o mito já é esclarecimento e o esclarecimento acaba por reverter à mitologia” (Adorno e Horkheimer, 1947). A Dialética traça o retrato sombrio do mundo em que a realização de certas premissas do esclarecimento, o progresso, deu lugar a seu reverso, à reificação e ao domínio absoluto da razão instrumental, o regresso. Na ciência, na moral, na arte, revelaram-se o positivismo, o formalismo ético e a indústria cultural; a história conheceu a tragédia nazista e o horizonte da humanidade esclarecida, a sua autodestruição; por isso a última frase do ensaio inicial sobre o Conceito de esclarecimento denuncia sem rodeios a contradição: “o esclarecimento se converte, a serviço do presente, na total mistificação das massas” (Adorno e Horkheimer, 1947). E isso estamos vivendo hoje novamente, basta lembrar o cenário das "fake news" e operações midiáticas da espetacularização da justiça especialmente no Brasil atual.

Presidenta Janie Orlean, vivida por Meryl Streep no filme "Não olhe para cima".


O filme "Não olhe para cima", novo filme de Leonardo DiCaprio, que é a sua primeira verdadeira comédia, chegou à Netflix na sexta-feira, véspera de Natal, 24 de dezembro. 
“Não Olhem Para Cima” foi escrito e realizado por Adam McKay e é uma sátira à crise da emergência climática. Apresenta os atores: Leonardo DiCaprio, como o Dr. Randal Mindy, Jennifer Lawrence como a estudande que descobriu o cometa Kate Dibiaski, Meryl Streep como a presidenta dos EUA Janie Orlean, Cate Blanchett,  Mark Rylance no papel do magnata das comunicações, foguetes e analista estatistico Peter Isherwell; Rob Morgan no papel de Dr. Oglethorpe, Jonah Hill como o filho da presidenta Janie Orlean, Timothée Chalamet...
Título Original: Don’t Look Up, com duração: 145 minutos, produzido em 2021; sua estreia deu-se no Brasil em 24 de dezembro de 2021, distribuidora: Netflix; O filme foi dirigido por: Adam McKay; de classificação etária: 16 anos, gênero: Comédia, Catástrofe. 

O enredo de Não Olhe Para Cima segue dois astrônomos de Michigan, Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence) e Randall Mindy (Leonardo DiCaprio), que, durante uma pesquisa do céu noturno, identificam um cometa gigantesco nunca antes registrado vindo em direção à Terra. Após refazer os cálculos muitas vezes, e esperar os cálculos feitos por outros astronomos, não resta dúvida: em cerca de seis meses, o cometa vai atingir o planeta Terra, caindo no Oceano Pacífico com velocidade e força suficientes para extinguir a vida no planeta (Gianolla, 2021). 

Os cientistas passam então a alertar o resto do mundo a respeito do perigo iminente, começando pela presidente dos Estados Unidos Janie Orlean (Meryl Streep). Mais interessada em recuperar sua reputação para não ser derrotada nas eleições que se aproximam.  Ela ignora os astrônomos solenemente. Eles então  acham por bem alertar a mídia, retratada de forma satírica nos personagens Brie Evantee (Cate Blanchett) e Jack Bremmer (Tyler Perry), apresentadores de um programa de entrevistas a la Fox News e CNN
O filme satiriza a alienação de líderes políticos para fatos do mundo, a espetacularização da vida promovida pela mídia. Se não bastasse tudo isso os dois arautos da destruição catastrófica iminente, na busca por chamar atenção para o fato e por uma solução à essa catástrofe em curso, eles tem que lidar com a ganância, o negacionismo e a desinformação tanto do público em geral como dos gestores e todo o pessoal do executivo. 

A narrativa criada no filme em torno do cometa Dibiasky pode ser lida como uma metáfora para os perigos não mais silenciosos do que a aproximação de um cometa que é a crise climática que enfrentamos. Sem grande destaque na mídia e com pouca adesão da sociedade civil, a luta contra o aquecimento global tem andado a passos lentos. Eventos como a COP-26 são uma tentativa de sensibilizar líderes e opinião pública, com metas de redução na emissão de gases de efeito estufa principalmente o CO2 e CH4 (dióxido de carbono e metano respectivamente). No entanto, as promessas feitas em conferências climáticas encontram resistência de muitos líderes que preocupam-se mais com o futuro da economia e com os ganhos de seus apoiadores (modif. de Gianolla, 2021).

Não olhe para cima, e seu "gabinete paralelo" que auxilia a presidenta nas suas decisões.

O filme é emblemático, na contradição da afirmação de que se conhecermos a verdade ela nos libertará (da escuridão, e da ignorância, da aceitação cega das falas de um pseudolider). Neste filme podemos encontrar todos os problemas e questões de nosso tempo, que estão acontecendo aqui e agora. 

Embora concebido como uma metáfora para o aquecimento global, este encontra-se já instalado no planeta desde a primeira revolução industrial que iniciou na Inglaterra em meados do século XIX.

Apesar de usar uma metáfora, a aproximação de cometa que cruza a órbita da Terra e interceptará o planeta, como em outras vezes um rendez-vous desse tipo, será catastrófico para a vida como a conhecemos. No filme mesmo sabendo o povo decide ignorar. Ninguém faz nada até que uma hora será tarde demais.

O deslocamento do "politicamente correto" da ironia da esquerda tradicional para a hiper-realidade neo-conservadora da sociedade do espetáculo representou a produção de outra coisa.

Agora é forma de opressão e supressão de todo e qualquer conceito que tenha significado de denúncia e transformação. 

Assim, conceitos como o de aquecimento global, conceitos de feminismo, sexismo, homofobia, racismo, direitos humanos e, até mesmo, golpe político (golpe de estado), são de pronto taxados como delírios.

Delírio de pessoas que perderam privilégios, delírios de pessoas ignorantes, de pessoas que não tem moral, delírio de uma esquerda fanática. São taxados como delírios e no lugar disso é colocado uma teoria da conspiração.

Em realidade, o politicamente correto nessa roupagem neo-fascista, representa uma ofensiva bárbara do pré-conceito sobre o conceito, da pós-verdade sobre a verdade, da violência sobre a politica, do espetáculo sobre a cultura e educação, da espetacularização da realidade sobre o fato, do lawfare sobre a justiça, enfim representa ato torpe que a civilização deve refutar. Especialmente este (o law+fare) palavra do inglês formada por law, "direito", e warfare, "guerra"; em português: guerra jurídica) que é uma palavra-valise introduzida nos anos 1970 e que originalmente se refere a uma forma de guerra na qual o direito é usada como arma, e que foi usada para sedimentar o golpe de 2016 numa presidenta legitimamente eleita para colocar no lugar uma alternativa neoliberal, destruidora do pais e de seu povo.



Ou seja, o expectador mesmo de posse da verdade que deveria nortear decisões sobre a sobrevivência ou não do planeta inteiro, seus gestores optam por ignorar enfaticamente a realidade.

Por analogia podemos imaginar que o mesmo se deu com a pandemia viral do SARS-CoV-2, o coronavírus.

Momento 1
Em 2014, o então presidente dos EUA, Barack Obana (face), em uma entrevista afirmou com todas as letras que uma pandemia estaria em nosso horizonte histórico. Segundo ele chegaria um momento que teríamos uma doença transmitida pelo ar e que seria mortal. E para lidar com essa pandemia devemos organizar uma estrutura em todos os países e no mundo, para que possamos percebê-la (a doença) cedo, isolar rapidamente os infectados e responder a essa doença rapidamente, afim de minimizar seus efeitos devastadores. Nesse caso específico a sociedade norte-americana o tratou como Cassandra, ele previu e alertou mas ninguém ouviu e se ouviu não acreditou e nada foi feito.

Momento 2
O mesmo aconteceu aqui no Brasil com o atual governo. Mesmo a pandemia dizimando países como a Itália e EUA o presidente negou e minimizou seus efeitos. Quando as pessoas começaram a morrer como moscas ele apontou uma solução o "kit covid" (hidroxicloroquina + ivermectina + Vit. D + Azitromicina + Zinco + Vitamina C). Um conjunto de medicamentos totalmente inefixazes contra a infecção por Sars-CoV-2.

Kit covid (Crédito: Arquivo/Agência Brasil )

O referido kit foi e ainda é repetidamente propagandeado pelo próprio presidente da República, Jair Bolsonaro, como estratégia para a pandemia em detrimento do distanciamento social, que ele associa a governadores e prefeitos que são seus adversários políticos. Em junho de 2020, o ministério da Saúde ampliou o protocolo de orientações para uso da cloroquina, incluindo a recomendação para casos leves e moderados de covid-19. A mudança foi uma exigência de Bolsonaro ao então ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, logo que ele assumiu o cargo. Em janeiro de 2021, a pasta chegou a testar um aplicativo que recomendava o tratamento precoce, retirado do ar pouco depois diante de críticas de especialistas.

O filme é tão prolífico em abordar os meandros do "tratamento alternativo" que o magnata Peter Isherwell primeiro sugeriu usar bombas nucleares para bombardear o cometa e esfacelá-lo em fragmentos menores que supostamente causariam menos estrago no planeta, todavia logo depois mudou de ideia quando descobriu que o corpo espacial era rico em minérios e que na visão dele poderia potencializar uma revolução tecnológica da humanidade. E assim, o projeto de destruir o cometa muda para minerá-lo. Para isso seria necessário fragmentar com bombas que produziriam poucos fragmentos possibilitando a recuperação desses fragmentos pelas industrias. Sua justificativa

com a exploração da riqueza presente no cometa, "A HUMANIDADE VAI ATRAVESSAR AS COLUNAS DE BOAZ E JOAQUIM, NUA EM PELO RUMO A GLÓRIA DE UMA ERA DE OURO..."

"Vivido pelo ótimo Mark Rylance, o CEO de uma empresa de tecnologia Peter Isherwell remete ao poder descontrolado, com toques de complexo de deus, conquistado por nomes como Mark Zuckerberg, criador do Facebook, e Elon Musk, CEO da Tesla. No filme, Isherwell inicialmente é uma caricatura de Steve Jobs ao apresentar um novo smartphone que impede seus usuários de sentir tristeza. Em seguida, ele abraça uma mistura de Zuckerberg com Musk ao entrar no mundo da política e exaltar as ações dos algoritmos, que reúnem as informações pessoais de todos os usuários de redes sociais do do planeta. Mas é o CEO da Tesla que se sobressai entre as referências. Musk é não só um entusiasta da exploração comercial do espaço, assim como Isherwell,  mas também vem oferecendo quantias absurdas à diversos países na busca por matérias-primas para as baterias de seus carros elétricos, sendo o lítio um dos minerais mais importantes para essa produção. No filme, a destruição do cometa é interrompida por Isherwell, quando ele descobre que o corpo celeste que vem aí é rico em minérios necessários para a evolução da tecnologia (Carneiro, 2021)". 

Exatamente como aqui fez o em 25 de janeiro de 2021, o presidente do CFM (Conselho Federal de Medicina), Mauro Luiz de Britto Ribeiro, afirmando em artigo no jornal Folha de S. Paulo que é "decisão do médico assistente realizar o tratamento que julgar adequado". O que faz alguém extremamente competente optar por negar o obvio? Justamente essa pessoa que tem todas as informações para dirigir uma política de saúde pública na direção correta cientificamente?

As alternativas presentes nos famigerados "kits" são todas sugeridas dentro do chamado uso "off label", ou seja, em situações não previstas na bula. Essa prática é comum e legal na medicina. Todavia, os dados experimentais de dezenas de experimentos mostrando a ineficácia foram solenemente ignorados.
Por outro lado, um comitê de representantes de sociedades médicas, organizado pela Associação Médica Brasileira, recomendou em março de 2021 que o uso de medicamentos sem eficácia contra a covid-19, seja banido. Será que ninguém se importa com a vida das pessoas, a vida dos trabalhadores? São pais, irmãos, mães, primos, avós, amigos, conhecidos que estão morrendo. Mesmo desrespeitando o bem mais valioso nesse planeta, a vida humana foi tomada como sem valor, como se a economia fosse mais importante do que o estar vivo.



Ex-apresentadora de TV, envolvida em escândalos sexuais, negacionista e sedenta por poder e dinheiro, a presidente Janie Orlean, vivida por Meryl Streep no filme, é uma alusão mais do que óbvia a Donald Trump. 

O filme mostrou que os ricos sobreviveram, o dono da companhia que produz smartphones, foguetes e análise da sociedade através de algorítmos das redes sociais, que a meu ver é um híbrido de Steve Jobs, Elon Musk e Steve Bannon (embora alguns digam que seja uma mistura de Zuckerberg, e E. Musk), o Sr. Peter Isherwell e a presidente do país estão vagando pelo Espaço a procura de novos planetas ou campos de exploração.

Cientistas têm nos alertado desde os anos 1980 sobre os danos irreversíveis que os nossos sistemas de produção e consumo estão provocando no meio ambiente. "Nós tentamos dizer pra vocês todo esse tempo, está bem ali!" 
Os efeitos da crise climática e seus eventos extremos podem ser vistos com mais intensidade ano após ano, não faltam dados que comprovem o aquecimento global (Schimidt, 2021).

No filme "Não Olhe Para Cima", a população tinha seis meses para definir um curso de ação, pressionar lideres mundiais para salvar o planeta. Quando acordou desse sono da razão, era tarde demais. Quanto tempo vamos precisar na vida real? Enquanto coletivamente seguimos na inércia, cidades inteiras estão sendo alagadas por chuvas desproporcionalmente intensas, áreas cada vez maiores estão sendo devastadas por queimadas, toneladas de minério estão sendo extraídas do subsolo e rejeitos enchem um sem fim de barragens, povos indígenas estão sendo ameaçados por defender a floresta e um presente que nos possibilite o futuro, um futuro neste planeta, é claro. Afinal, como no filme, a corrida espacial dos bilionários está a todo vapor. Vale lembrar que os 5% mais ricos do mundo foram responsáveis por 37% de todas as emissões de carbono entre 1990 e 2015, ou seja, a ciência mostra quem  são aqueles diretamente responsáveis pelo agravamento da emergência climática (Schimidt, 2021).

O filme "Não olhe para cima" deixa claro que a questão está na presença de uma economia política sem política, o que importa é o lucro. Não o lucro de todos mas o lucro de poucos. A economia é tudo e a vida algo próximo ao nada. Talvez exatamente nada. O que o filme nos apresenta é que o projeto burguês transcende ao planeta terra (Morais comunicação pessoal).

As condições sociais objetivas que jogaram a humanidade à barbárie no passado já são a barbárie, tanto no passado quanto hoje.  A "educação contra a barbárie" exige uma crítica radical dessas mediações objetivas e subjetivas pressupostas, que segundo a compreensão de muitos pensadores, apontam para o caráter fetichista da sociedade da mercadoria baseada no trabalho abstrato, e reforçada pela educação burguesa que decide que conhecimentos os cidadãos devam ter em sua formação. 

Segundo Morais (2019) a partir de uma perspectiva crítico-sensível, a escola, ao contrário da paisagem “entre muros”, corresponde a espaço de re-produção de signos ideológicos dominantes (acadêmicos, culturais, econômicos e políticos) presentes em contexto social amplo a partir de produção de roupagem de universo próprio. Nesse sentido, quando observamos esse universo não colhemos apenas reflexo e sombra da realidade social, mas, fundamentalmente, fragmento material da ideologia dominante, que podemos sintetizar como a “barbárie” de nosso tempo. 

Não olhe para cima! É o mesmo que "olhe para a tela", a menor tela possível, ou melhor, a tela do celular. Mergulhe nas redes sociais, no WhatsApp, Telegram, Facebook, Twitter, Instagram etc. Ou seja, refute os fatos objetivos, refute a ciência, e os artigos científicos publicados e testados diligente e exaustivamente pelos pares acadêmicos, pois a realidade e a razão são narrativas que podemos descartar, colocando no lugar teorias das conspiração ou descartar por outras narrativas das quais se possa fazer uso para justificar nossos desejos e afetos. 

A escatologia está em pronto deslocamento do sagrado para a ciência e nada mais apropriado do que servir à indústria cultural do cinema. 

O filme "Não olhe para cima" provocará alguma sensibilidade na paisagem social composta pelos negacionistas da ciência? É muito provável que não, mas certamente inflacionará as redes sociais de uma questão incontornável de nosso tempo: a perspectiva do fim amparada nas previsões da ciência.

Todos os fenômenos e toda a realidade, tuudo que há no capitalismo tardio está banhado de fascismo, inclusive a própria ciência. Toda a retórica negacionista dominante partiu da boca de cientistas importantes, não da boca do borracheiro em uma borracharia de uma grande cidade ou em uma Freeway em algum canto do mundo. Lembre-se da droga Hidroxicloroquina, quem pela primeira vez afirmou que pesquisas mostraram que era uma droga para tratar a doença covid-19? Um médico, negacionista.

As distopias fílmicas, o avesso das utopias, revelam com muito realismo o formato atual da lógica burguesa tecnicista no contexto societal do agora. E esse mundo que nas distopias acontecem no futuro, é definido pela falência do humanismo, com uma sociedade alienada e estratificada onde as pessoas se importam exclusivamente com sua vida existindo em bolhas virtuais que não se interconectam nem se tocam mesmo que vivam no mesmo edifício ou bairro.
Num contexto de crise e destruiça a burguesia dispõe sempre de um projeto de sobrevivência. Há sempre um "trem" ("snowpiercer" ou "Trem do amanhã"), uma espaçonave ou uma máquina do tempo, a fim de salvaguardar os donos do capital.





Bibliografia


Morais, R. Q. (2019). EDUCAÇÃO E BARBÁRIE: POR UMA ECONOMIA POLÍTICA DAS DESIGUALDADES NO ESPAÇO ESCOLAR. Revista Contexto & Educação, 34(107), 19–37. https://doi.org/10.21527/2179-1309.2019.107.19-37
















https://pt.wikipedia.org/wiki/Lawfare#:~:text=Lawfare%20(formada%20do%20ingl%C3%AAs%20law,direito%20%C3%A9%20usada%20como%20arma.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_s%C3%ADmbolos_l%C3%B3gicos

https://www.istoedinheiro.com.br/venda-de-remedios-do-kit-covid-registra-nova-queda/

https://veja.abril.com.br/coluna/tela-plana/nao-olhe-para-cima-as-personalidades-que-inspiraram-o-filme-da-netflix/

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