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02 julho 2022

NIETZSCHE

 NIETZSCHE E O CONHECIMENTO

PROJETIVISMO E PERPECTIVISMO 


Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900)

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900)

I

Tudo tem seu tempo. Quando o homem deu a todas as coisas um gênero, não acreditou estar brincando, mas haver obtido uma profunda compreensão: apenas muito tarde, e talvez ainda não completamente, ele deu-se conta da enormidade desse erro. 
De igual modo, o homem conferiu a tudo o que existe uma relação com a moral e revestiu o mundo de um significado ético. Um dia, isso terá tanto valor quanto hoje tem a crença na masculinidade ou feminilidade do Sol. 

F. Nietzsche - Aurora


Mas os juízos de valor lógicos não são os mais profundos e mais fundamentais a que pode descer a ousadia de nossa suspeita: a confiança na razão, com que se sustenta ou cai a validez desses juízos, é, sendo confiança, um fenômeno moral... Talvez o pessimismo alemão tenha ainda um último passo a dar? Talvez deva ainda justapor, de maneira terrível, seu credo e seu absurdum? E se este livro é pessimista até dentro da moral, até além da confiança na moral, — não seria justamente por isso um livro alemão? Pois representa, de fato, uma contradição, e não tem receio dela: nele é retirada a confiança na moral — e por quê? Por moralidade! Ou como deveríamos chamar o que nele — em nós — sucede? Pois, conforme nosso gosto, preferiríamos palavras mais modestas. Mas não há dúvida, também a nós se dirige um “tu deves”, também nós obedecemos ainda a uma severa lei acima de nós — e esta é a última moral que ainda se nos faz ouvir, que também nós ainda sabemos viver; nisto, se em alguma coisa, ainda somos criaturas da consciência: no fato de que não desejamos voltar ao que consideramos superado e caduco, a algo “indigno de fé”, chame-se ele Deus, virtude, verdade, justiça, amor ao próximo; de que não nos permitimos fazer pontes de mentiras em direção a velhos ideais; de que somos fundamentalmente hostis a tudo o que em nós gostaria de mediar e mesclar; hostis a toda espécie atual de fé e cristianismo; hostis ao mais ou menos de todo romantismo e patriotismo; também hostis ao deleite e falta de consciência dos artistas, que quer nos persuadir a adorar aquilo em que já não cremos — pois nós somos artistas —; hostis, em suma, a todo o feminismo (ou idealismo, se preferem) europeu, que eternamente “atrai para cima” e, com isso, eternamente “arrasta para baixo”: — apenas como criaturas dessa consciência sentimo-nos parentes da retidão e piedade alemãs de milênios, embora como seus rebentos mais discutíveis e derradeiros, nós, imoralistas, nós, ateus de hoje, e até mesmo, em determinado sentido, como seus herdeiros, como executores de sua mais íntima vontade, de uma vontade pessimista, como dissemos, que não teme negar a si mesma, porque nega com prazer! Em nós se realiza, supondo que desejem uma fórmula — a autossupressão da moral. 4

4. Contra a pretensa desarmonia das esferas. — Devemos tirar do mundo novamente a muita grandeza falsa, pois ela é contrária à justiça que todas as coisas podem esperar de nós! E para isto é necessário não querer ver o mundo como mais desarmonioso do que ele é!




II

A fim de introduzir o projetivismo, é necessário fazer referência brevemente ao perspectivismo nietzschiano. Frequentemente, quando os filósofos (especialistas ou não de Nietzsche) abordam o perspectivismo, eles têm a tendência de considerá-lo principalmente como uma questão da teoria do conhecimento. Nessa situação, o fragmento póstumo 7 [60], fim 1886-primavera 1887 é muitas vezes citado, embora seja frequentemente mencionado fora de seu contexto e reduzido à formula “não há fatos, apenas interpretações”3. Esses mesmos filósofos parecem esquecer que se trata de uma nota póstuma, enquanto o próprio Nietzsche decidiu publicar alguns meses antes, em Além de bem e mal § 108, a máxima que resume seu perspectivismo. Todavia, essa máxima não faz referência a todos os tipos de fatos, mas exclusivamente aos fenômenos morais: “Não há absolutamente fenômenos [Phänomene] morais, mas apenas uma interpretação [Ausdeutung] moral dos fenômenos…”4.

Ao lado de um perspectivismo que poderíamos definir como “gnosiológico” ou “teorético”, é também possível identificar na filosofia nietzschiana um perspectivismo de tipo “moral” ou “prático”5. No fragmento póstumo 2 [165], outono 1885-outono 1886, Nietzsche define claramente esse perspectivismo como seu “princípio maior”6, e ele o reformula, dois anos depois, na seguinte passagem do Crepúsculo dos ídolos: “[…] uma conclusão que eu fui o primeiro a formular: aquela que não há fatos [Thatsachen] morais. […] A moral é somente uma interpretação [Ausdeutung] - ou mais exatamente uma falsa interpretação [Missdeutung] - de certos fenômenos [Phänomene]”7. (Stellino, 2017)


A fim de esclarecer o sentido do perspectivismo moral nietzschiano, tomemos um fenômeno qualquer que consideramos moralmente relevante, como o roubo. Segundo Nietzsche, esse fenômeno não é intrinsecamente moral, nem imoral. É somente após ter lhe sido atribuído uma interpretação moral que esse fenômeno se torna moral ou imoral. Essa interpretação é, portanto, posterior, secundária, acrescentada; ela não pertence primordialmente ao fenômeno. Crer na existência de fatos morais equivale, assim, a crer na existência de uma quimera, de uma ilusão. A interpretação moral da realidade, isto é, a interpretação da realidade impregnada moralmente e que pressupõe a existência de fatos morais só pode ser uma interpretação errônea e falsa.(Stellino, 2017)

Na meta-ética contemporânea, existem diferentes critérios para avaliar uma posição meta-ética. Um desses critérios é a capacidade da posição de dar uma explicação plausível do fenômeno moral sob seus diferentes aspectos (ontológico, psicológico, epistemológico, semântico, etc.). Nesse sentido, a posição nietzschiana deve responder à seguinte questão: por que a realidade nos aparece impregnada moralmente quando ela não o é? O aforismo 301 de A gaia ciência fornece uma resposta a essa questão. Nietzsche escreve:

Nós, os pensantes-que-sentem [Denkend-Empfindenden], somos os que de fato e continuamente fazem [machen] algo que ainda não existe: o inteiro mundo, em eterno crescimento, de avaliações [Schätzungen], cores, pesos, perspectivas, degraus, afirmações e negações. Esse poema de nossa invenção é, pelos chamados homens práticos […], permanentemente aprendido, exercitado, traduzido em carne e realidade, em cotidianidade. O que quer que tenha valor [Werth] no mundo de hoje não o tem em si [an sich], conforme sua natureza [Natur], - a natureza é sempre isenta de valor [werthlos]: - foi-lhe dado, oferecido um valor, e fomos nós esses doadores e ofertadores! O mundo que tem algum interesse para o ser humano, fomos nós que o criamos!8

Segundo Nietzsche, a realidade, que é werthlos, ou seja, destituída de valor, aparece-nos impregnada moralmente porque o valor moral, que encontramos em toda a realidade, foi previamente introduzido ou projetado por nós mesmos no mundo. É precisamente devido a essa projeção que a realidade nos aparece impregnada moralmente enquanto ela é destituída de valor moral. 

A resposta que Nietzsche dá à questão mencionada anteriormente - ou seja, por que a realidade nos aparece impregnada moralmente quando ela não o é? - inscreve-se plenamente na tradição filosófica do projetivismo9.

A fim de investigar isso, comparemos o que Nietzsche escreve em A gaia ciência com a seguinte passagem do Tratado da natureza humana de Hume, filósofo considerado o fundador dessa corrente de pensamento:

Imaginai uma ação considerada como viciosa, por exemplo um assassinato. Examinai-o sob todos os aspectos e vede se conseguis descobrir a questão de facto e existência real a que chamais vício. De qualquer modo que o considereis, encontrareis apenas certas paixões, motivos, volições e pensamentos. Não há outro facto no caso. O vício escapa-vos inteiramente enquanto considerais o objeto. Não conseguis encontrá-lo até dirigirdes a vossa reflexão para o vosso próprio coração e descobrirdes um sentimento de desaprovação que nasce em vós contra essa ação. Aqui está um facto: mas é objecto de sentimento e não de razão. Encontra-se em vós e não no objecto. Assim, quando afirmais que uma ação ou um carácter são viciosos, quereis simplesmente dizer que, em razão da constituição da vossa natureza, ao considerá-los, experimentais um sentimento de censura. Pode pois comparar-se o vício e a virtude aos sons, às cores, ao calor e ao frio os quais, segundo a filosofia moderna, não são qualidades dos objetos, mas percepções da mente [mind]. Esta descoberta em moral, como aquela em física, deve ser considerada um progresso considerável das ciências especulativas [..]10.(Stellino, 2017

A alusão à filosofia moderna é uma clara referência ao debate acerca da distinção entre as qualidades primárias e secundárias, debate no qual participaram, entre outros, Galileu, Hobbes, Malebranche, Descartes, Locke, Bayle e Berkeley11. Para citar o locus classicus sobre o assunto, a saber, o Ensaio sobre o entendimento humano de Locke:

Tudo o que acabo de dizer em relação às cores e aos odores pode aplicar-se também aos paladares, sons e demais qualidades sensíveis semelhantes, as quais, seja qual for a realidade que equivocadamente lhes atribuamos, não são, em verdade, nos objectos, senão potências [power] para produzir em nós sensações e dependem daquelas qualidades primárias que são, como disse, o volume, a figura, a textura e o movimento das suas partes12.

Hume retoma a distinção entre qualidades primárias e secundárias (qualidades secundárias, que ele concebe, contrariamente a Locke, como “percepções do espírito”) e compara estas últimas qualidades aos atributos morais e estéticos. No ensaio O cético, Hume escreve:

Se podemos confiar inteiramente em algun princípio que aprendemos da filosofia, este, acredito, pode ser considerado como certo e inquestionável: Que nada existe que seja, em si [in itself], valioso ou desprezível, desejável ou odioso, belo ou disforme; pois esses atributos resultam da estrutura e da constituição peculiares dos afetos e sentimentos humanos13.(Stellino, 2017

Em outros termos, segundo Hume, as características de um objeto provocam sentimentos específicos nos espectadores. Esses sentimentos, que são conformes à estrutura e à constituição do espírito do sujeito que avalia, são projetados no objeto e considerados propriedades intrínsecas do objeto. Em consequência, o objeto é visto como valioso ou desprezível, desejável ou odioso, belo ou disforme em si mesmo. Portanto, esses atributos são sentimentos que pertencem ao sujeito e não são propriedades intrínsecas do objeto14.

Há analogias significativas entre a explicação humiana das avaliações morais e aquela que Nietzsche elabora. Nos dois casos, nós temos um objeto ou um fenômeno que, intrinsecamente, nunca possui valor moral. Ao contrário, esse valor é o resultado de uma atribuição ou projeção, e sua especificidade depende da constituição do espírito ou, em termos nietzschianos, da perspectiva particular do sujeito que avalia. Como mencionado, é devido a essa projeção que o objeto ou o fenômeno em questão nos aparece impregnado de um valor moral.

Após essa análise, a tese que eu quero defender é, em primeiro lugar, que a filosofia de Nietzsche se inscreve com pleno direito na tradição projetivista, ainda que Nietzsche seja quase unanimemente ignorado nas obras dos especialistas (em grande parte, anglo-americanos) dessa tradição. Em segundo lugar, eu sustento que é possível identificar uma posição projetivista já no ensaio póstumo Verdade e mentira no sentido extramoral (1872); não é por acaso que Simon Blackburn começa o capítulo 6 de seu muito influente livro Spreading the Word (1984), capítulo intitulado “Evaluations, Projections, and Quasi-Realism”, com a definição que Nietzsche faz da verdade como “uma multidão móvel de metáforas, de metonímias, de antropomorfismos” em Verdade e mentira no sentido extramoral15. Em terceiro lugar, eu proponho que, ao longo de todo seu desenvolvimento filosófico, Nietzsche nunca abandona essa posição projetivista.(Stellino, 2017


Busto em bronze Nietzsche por Max Klinger, 1902.

Nietzsche gravura em metal por Karl Bauer 1902


Friedrich Wilhelm Nietzsche (Röcken, Reino da Prússia, 15 de outubro de 1844 – Weimar, Império Alemão, 25 de agosto de 1900).
Foi um filósofo, filólogo, crítico cultural, poeta e compositor prussiano do século XIX, nascido na atual Alemanha. Escreveu vários textos criticando a religião, a moral, a cultura contemporânea, filosofia e ciência, exibindo uma predileção por metáfora, ironia e aforismo.







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