A PERIGOSA EXTREMA DIREITA
QUE VEM DA UCRÂNIA
Por Milton Blay
Como todas as segundas e quartas-feiras, estou aqui para comentar a atualidade internacional. E hoje (29 de julho de 2021), vamos tratar de um assunto muito importante para nós, brasileiros, onipresente na TV Democracia: a extrema-direita.
No dia 31 de maio, na Avenida Paulista, a manifestação pró-Bolsonaro, contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF), chamou a atenção por conta de um novo símbolo. Além das bandeiras do Brasil, Estados Unidos e Israel, sempre presentes, havia uma outra, vermelha e preta. Ao centro, um tridente branco, semelhante ao que aparece no brasão da bandeira ucraniana.
Pravy Sektor. Setor Direito ou Setor da Direita é um partido e um movimento político ucraniano de extrema-direita, neofascista e ultranacionalista, criado em novembro de 2013, como uma confederação paramilitar de várias organizações nacionalistas, no contexto da Euromaidan, em Kiev.
Na ocasião, o embaixador da Ucrânia no Brasil, Rostyslav Tronenko, afirmou que aquela era uma “bandeira histórica”, que simbolizava a terra fértil do país (em preto) e “o sangue que os ucranianos derramaram na luta pela sua soberania”, em vermelho. Já o tridente, significava a Santíssima Trindade, uma forma de lembrar o príncipe Vladimir, do século 10, que levou o cristianismo à Ucrânia.
A verdade é muito diferente: essa bandeira foi apropriada por um grupo de extrema-direita muito atuante no país desde 2013, o Pravy Sektor, Setor de Direita, que reúne movimentos ultra-nacionalistas e paramilitares ucranianos.
A atuação mais célebre do Pravy Sektor aconteceu em 2014, quando o grupo ultradireitista participou da onda de protestos que derrubou o então presidente Viktor Yanukovych, um aliado da Rússia.
Naquele ano, em entrevista à BBC, um dos integrantes do Pravy Sektor afirmou que a ideia mais popular entre seus integrantes era a de uma “nação única” e “limpa”. Ou seja, branca, similar ao ideal de Adolf Hitler.
Recentemente, os integrantes de setores da extrema-direita têm participado de grupos paramilitares que lutam, na região leste do país, contra separatistas russos.
Por que eu decidi falar do assunto nesse nosso espaço de política internacional? Porque a Ucrânia tornou-se para a extrema-direita o que a Síria foi para o Estado Islâmico. A Ucrânia é hoje o campo de formação e treinamento da extrema-direita mundial.
Ali, militantes do mundo inteiro estudam táticas de ação e técnicas, com o objetivo de formar redes internacionais. Uma vez formados, esses militantes nazifascistas vão lutar contra os russos no leste da Ucrânia ou regressam aos seus países com a missão de criar células locais. Entre os estrangeiros que receberam treinamento está a conhecida Sara Fernanda Giromini, conhecida como Sara Winter, do movimento 300 do Brasil, (Um dos grupo neofascistas brasileiro).
A Ucrânia é hoje o principal polo da extrema-direita mundial. Quatro mil estrangeiros de mais de 35 países já receberam treinamento militar e doutrinamento ideológico.
Bandeiras do grupo paramilitar Azov.
Uma dessas milícias, o Regimento Azov, criado em 2014, abertamente neonazista, transformou-se num Estado dentro do Estado ucraniano.
E mais: estendeu tentáculos por toda a Europa e mundo afora. Tem apoios importantes na extrema-direita Suíça.
Prova de que o neonazismo revolucionário se internacionaliza: O terrorista responsável pelos massacres em duas mesquitas na Nova Zelândia, em março de 2019, usava um colete à prova de balas com o símbolo do Regimento Azov. No manifesto que escreveu justificando os atentados, o terrorista disse ter sido formado na Ucrânia.
Os massacres chamaram a atenção para o perigo que a extrema-direita na Ucrânia representa sobretudo para a Europa e EUA, seja por causa de possíveis atentados terroristas cometidos por pequenas células ou pelos chamados lobos solitários, ou então porque, ao regressarem aos seus países, os estrangeiros têm por missão criar organizações neonazistas, como o grupo 300 do Brasil.
O Brasil conta 334 células nazistas em atividade, de acordo com uma pesquisa feita por Adriana Abreu Magalhães Dias, antropóloga da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
(Esse número atualmente está em 530 células ou grupos declaradamente fascistas, conforme pesquisa recente de Adriana Dias (g1)).
A maioria dos grupos se concentra nas regiões Sul e Sudeste e se dividem em até 17 movimentos distintos, entre hitleristas, supremacistas, separatistas, de negação do Holocausto ou seções locais da Ku Klux Klan (KKK).
A pesquisa mostra que há registros de grupos localizados em Fortaleza, João Pessoa, Feira de Santana (BA) e Rondonópolis (MT). Porém, o Estado com mais células é São Paulo, com 99 grupos, sendo 28 só na capital. Santa Catarina vem logo atrás com 69 células, seguido do Paraná (66) e Rio Grande do Sul (47).
Há exemplos também de estados que estavam sem registros de atividades até pouco tempo, como Goiás, que hoje já possui seis grupos nazistas. As células são compostas por três a 40 pessoas.
Em suas pesquisas sobre a ascensão da extrema direita, a antropóloga também identifica mais de 6.500 endereços eletrônicos de organizações nazistas em língua portuguesa e dezenas de milhares de neonazistas brasileiros em fóruns internacionais. Sempre que um companheiro de armas é morto em combate, organiza-se cerimônias com tochas, um simbolismo emprestado ao supremacista branco KKK. Isso explica a presença das tochas no ato do grupo bolsonarista liderado por Sara Winter, em frente ao STF.
Notório militante político de extrema-direita na Itália e em outros países da Europa, Francesco Fontana esteve no Brasil, entre outubro e novembro de 2015, para encontrar um grupo de simpatizantes.
Ligado à CasaPound, movimento neofascista italiano, o militante ganhou fama por ser um dos primeiros estrangeiros a lutar na guerra civil da Ucrânia, em 2014. Em maio daquele ano, ele juntou-se ao Batalhão Azov para combater os separatistas pró-Rússia.
Fontana também integrou a organização paramilitar nacional-socialista Misanthropic Division (MD), que ganhou força com o acirramento dos conflitos na Crimeia e criou ramificações na Rússia, Bielorrússia, Alemanha, Argentina, Brasil e nos Estados Unidos.
Fontana era responsável por cooptar pessoas para a Misanthropic. Buscava guerrilheiros urbanos, talvez mercenários, para lutar na Ucrânia , segundo afirmações do delegado Paulo César Jardim.
Hoje, no Ocidente, o terrorismo de extrema-direita é considerado mais perigoso que o jihadismo islamita.Muitos se perguntam como Azov é financiado? O movimento recebe centenas de milhares de euros do governo de Kiev para programas de apoio político e militar, além de incentivo ao patriotismo da juventude – crianças com nove anos recebem treino militar, num Campo de Verão neo-nazista.
De modo invariável, o recrutamento de crianças soldado implica um programa de treino que as familiarize com a utilização de armas automáticas ligeiras. Os instrutores militares fazem parte dos paramilitares do Batalhão Azov destacados para o Campo.
O movimento Azov tem uma forte presença nas redes sociais, várias revistas e uma rádio.
Nos últimos anos, os torneios de artes marciais MMA) têm servido para recrutar, confraternizar e criar ligações entre os movimentos de extrema-direita. Militantes europeus participam de torneios de MMA organizados por figuras e grupos ligados ao Movimento Azov ucraniano.
O número de combatentes estrangeiros que já lutaram na guerra que opõe o Estado ucraniano aos separatistas pró-russos é assustador: quase 18 mil, originários da Suécia, Estados Unidos, Israel, Itália, Dinamarca, Alemanha, França, Portugal, do movimento neonazista russo e até do Brasil.
Depois de ter participado do movimento Femen, Sara Giromini tornou-se um ícone do fascismo militante e chegou até a dividir palanque com Jair Bolsonaro.
Coda
Entre os grupos extremistas que se desenvolveram no Brasil os neonazistas são a maioria.
Adriana explica que eles têm semelhanças entre si: "Eles começam sempre com o masculinismo, ou seja, eles têm um ódio ao feminino e por isso uma masculinidade tóxica. Eles têm antissemitismo, eles têm ódio a negro, eles têm ódio a LGBTQIAP+, ódio a nordestinos, ódio a imigrantes, negação do holocausto".
Reportagens identificam que o principal combustível para a explosão do número de células neonazistas no Brasil vem das redes.
Durante meses de investigação em grupos privados de compartilhamento de material extremista, jornalistas flagraram mensagens de ódio, compartilhamento de vídeos exaltando Adolf Hitler e manifestações que extrapolaram as redes sociais.
Na reportagem em vídeo (aqui) você pode ver casos em que:
1) Um grupo de extremistas atacou clientes de um bar antifascista na Zona Oeste de São Paulo, onde uma suástica havia sido pixada dias antes;
2) Um jovem armado que atirou contra manifestantes e recebe uma campanha de apoio para que fique livre
3) Ataques a um rapaz negro que "respondeu" a um vídeo de um jovem que usa um capacete que diz ser da "Legião Hitlerista" e faz a saudação nazista.
4) Ataques a uma moça e seu namorado, que é negro.
5) A prisão de um homem acusado de pedofilia, quando policiais encontraram uma imensa coleção de material nazista em sua casa.
Os núcleos nazistas se concentravam na região Sul do Brasil, mas a antropóloga Adriana Dias relata que as células se espalharam para as cinco regiões do país. Ela destaca a região Centro-Oeste e Sudeste, com destaque para Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Fontes
NEOFASCISMO UKRANIANO
Guerra Civil na Ucrânia é mais do que militar
Acabam de completar-se sete anos do atentado a uma sede sindical em Odessa, na Ucrânia. No dia 2 de maio de 2014, um incêndio no edifício de cinco andares da Federação Regional de Sindicatos de Odessa deixou 42 pessoas mortas, sendo 32 sufocadas e outras 10 que faleceram ao pular do edifício. O fogo foi iniciado por militantes do chamado Euromaidan, movimento de extrema direita composto por diversas organizações, inclusive algumas abertamente inspiradas no nazismo.
De lá pra cá, o conflito no interior da Ucrânia escalou até o ponto de se tornar uma guerra civil aberta e territorialmente localizada. Ao leste do país se formaram a República Popular de Donetsk e a República Popular de Lugansk, ambas na região de Donbass. Há exatos sete anos, em 12 de maio de 2014, veio a independência dessas repúblicas, após referendo em que mais de 80% da população local afirmou sua intenção de não fazer mais parte da Ucrânia. Ainda que setores da mídia insistam em reduzir esses movimentos como pró-Rússia, assim como no caso dos sindicalistas de Odessa, eles são muito mais do que isso
(brasildefato).
No final de março e início de abril deste ano, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, intensificou as provocações militares na região de Donbass, empregando ataques por drones, que inclusive vitimaram um garoto de cinco anos, Vladik Shikov, residente de Donetsk.
Mas além do conflito militar, é na economia e na questão social que também podem ser encontradas respostas. “A Ucrânia atravessa uma forte crise econômica, que gera problemas sociais”, afirmou Alexey Albu, um sobrevivente do incêndio do sindicato de Odessa, que atualmente vive na República Popular de Lugansk.
Segundo Albu, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e outros credores demandam a aplicação de uma fórmula já conhecida do público brasileiro: as contrarreformas neoliberais. “Como resultado desta política econômica, as tarifas de gás e eletricidade aumentaram significativamente, conduzindo ao aumento dos preços e ao empobrecimento da população”, afirmou Albu, que também é membro da organização política Borotba, que organizou movimentos anti-Maidan – como ficaram conhecidas as manifestações contra a extrema direita em 2014.
Quando se olha para alguns dados econômicos, isso parece ser plausível. De 2013 a 2021, a taxa de crescimento do PIB ucraniano passou por uma curva negativa que superou a marca de -15% durante o ápice da guerra, voltou a crescer entre os anos de 2017 e 2019, e afundou novamente no início da pandemia, em meados de 2020. O índice de desemprego também é bastante cruel. Mesmo durante o período de recuperação, a taxa da população empregada no país atingia 69%, em 2019, e caiu para 64,8% em janeiro de 2021. O salário médio, apesar de ter crescido este ano comparado ao ano passado, ainda não chegou aos patamares de 2017-2018, na época de recuperação.
Ver tambem:
Neonazistas estavam em marcha desenfreada na Ucrânia, advertiu The Nation
Por Hora do Povo Publicado em 1 de março de 2022
A Ucrânia pós-Maidan, sublinha Lev Golinkin, “é a única nação do mundo a ter uma formação neonazista [abertamente] em suas forças armadas”.
A revista norte-americana The Nation, em artigo assinado pelo escritor Lev Golinkin, ucraniano de nascença e que em criança emigrou para os EUA, agora republicado, advertiu que cinco anos após a revolta de Maidan, “o antissemitismo e o ultranacionalismo de inclinação fascista estão em marcha desenfreada”.
Golinkin lembrou que a derrubada do então presidente Yanukovych teve “aplausos e apoio do Ocidente” e que aqueles que denunciaram “o lado sombrio do levante” foram chamados de “marionetes de Moscou e idiotas úteis”.
Segundo o escritor, a euforia inicial do Ocidente se defrontou com “pogroms neonazistas contra os ciganos, ataques desenfreados a feministas e grupos LGBT, proibições de livros e glorificações patrocinadas pelo Estado de colaboradores nazistas”.
Conforme o escritor, “a defesa padrão” do regime de Kiev por parte do establishment em Washington e capitais europeias “é apontar que a extrema direita da Ucrânia tem uma porcentagem menor de assentos no parlamento do que suas contrapartes em lugares como a França”.
Esse é “um argumento espúrio”, ele enfatizou: “o que a extrema direita da Ucrânia não tem em números nas pesquisas, compensa com coisas com as quais Marine Le Pen só poderia sonhar – unidades paramilitares e rédea solta nas ruas”.
A Ucrânia pós-Maidan, sublinha Golinkin, “é a única nação do mundo a ter uma formação neonazista em suas forças armadas”. “O Batalhão Azov foi inicialmente formado pela gangue neonazista Patriotas da Ucrânia”.
“Andriy Biletsky, o líder da gangue que se tornou comandante do Azov, escreveu uma vez que a missão da Ucrânia é ‘liderar as raças brancas do mundo em uma cruzada final… contra os Untermenschen liderados pelos semitas’. Biletsky é agora deputado no parlamento da Ucrânia. “Untermenschen” (sub-homens) é o termo com que os nazistas, na era de Hitler, chamavam judeus e eslavos.
A incorporação do Batalhão Azov – que foi acusado de abusos de direitos humanos, incluindo tortura, pela Human Rights Watch e pelas Nações Unidas – se deu no outono de 2014.
Entre os meios de comunicação ocidentais que em algum momento já chegaram a reportar as credenciais nazistas do Azov, estão New York Times, USA Today , The Daily Beast , The Telegraph e Haaretz.
Em janeiro de 2018, o Azov lançou sua unidade nacional de patrulha de rua Druzhina, cujos membros juraram fidelidade pessoal a Biletsky e se comprometeram a “restaurar a ordem ucraniana” nas ruas.
Golinkin registra ainda que o próprio Azov “orgulhosamente postou um vídeo da unidade dando as boas-vindas aos representantes da OTAN”.
O escritor observa que o Azov não é a única formação de extrema-direita a obter apoio norte-americano. Em dezembro de 2014, a Anistia Internacional acusou o batalhão Dnipro-1 de crimes de guerra, incluindo ‘usar a fome de civis como método de guerra’ [era a primeira fase da campanha de limpeza étnica contra falantes de russo no Donbass].
O senador John McCain – aliás, um dos incentivadores do golpe de Maidan em pessoa, visitou e elogiou o Dnipro-1. Antes, ele fora pessoalmente à Praça Maidan insuflar à derrubada do governo constitucional e, atuante como poucos, dois anos antes encontrara tempo para se reunir com vários ‘combatentes da liberdade de Obama’ na Síria, um deles, o depois Califa do Estado Islâmico
Golinkin considera “particularmente preocupante” a campanha de Azov para “transformar a Ucrânia em um centro para a supremacia branca transnacional”. A unidade recrutou neonazistas da Alemanha , Reino Unido, Brasil , Suécia e América.
É dele a informação de que em outubro de 2018 o FBI prendeu quatro supremacistas brancos da Califórnia que teriam recebido treinamento do Azov.
LAÇOS NAZIS-GOVERNO
As duas organizações neonazistas – Partido Social-Nacional da Ucrânia (mais tarde renomeado Svoboda) e Patriotas da Ucrânia , cujos membros acabariam por formar o núcleo do Azov – tiveram como cofundador o na época presidente do parlamento saído do golpe de Estado de Maidan, Andriy Parubiy.
Apesar de se considerar atualmente um fascista “moderado”, Parubiy não renega o passado e em uma entrevista em 2016 asseverou que “seus valores” não mudaram.
Fazem parte da autobiografia de Parubiy fotos em que marcha com o símbolo neonazista wolfsangel usado pelas Nações Arianas (e copiado das SS).
Comboio da 2ª Divisão Panzer Das Reich com o símbolo (idêntico ao do Batalhão Azov, que mudou somente as cores) em destaque (Reprodução)
Comboio da 2ª Divisão Panzer Das Reich com o símbolo (idêntico ao do Batalhão Azov, que mudou somente as cores) em destaque (Reprodução)“Ainda mais perturbadora é a penetração da extrema direita na aplicação da lei. Pouco depois de Maidan, os EUA equiparam e treinaram a recém-fundada Polícia Nacional, no que pretendia ser um programa marcante de apoio à democracia ucraniana”.
Da polícia à justiça ucraniana, os apologistas das suásticas e de “esmagar os insetos” estão por toda a parte – o que explica “por que os neonazistas operam impunemente nas ruas”, assinalou o autor.
GLORIFICAÇÃO DOS COLABORACIONISTAS
“Não são apenas os militares e as gangues de rua: a extrema direita da Ucrânia sequestrou com sucesso o governo pós-Maidan para impor uma cultura intolerante e ultranacionalista sobre a terra”, frisou Golinkin.
“Em 2015, o parlamento ucraniano aprovou uma legislação tornando dois grupos paramilitares da Segunda Guerra Mundial, a Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN) e o Exército Insurgente Ucraniano (UPA), heróis da Ucrânia, e tornou crime negar seu heroísmo”.
Ele acrescenta que a OUN “colaborou com os nazistas e participou do Holocausto, enquanto a UPA massacrou milhares de judeus e mais de 70.000 a 100.000 poloneses por sua própria vontade”.
Como expressão dessa revisão histórica, no verão de 2019 “o parlamento ucraniano apresentou uma exposição comemorativa da proclamação de cooperação da OUN em 1941 com o Terceiro Reich (imagine o governo francês instalando uma exposição celebrando o Estado de Vichy!)”.
MARCHAS À LUZ DE TOCHAS
“Marchas à luz de tochas em homenagem a líderes da OUN/UPA como Roman Shukhevych (comandante de um batalhão auxiliar do Terceiro Reich) são uma característica regular da nova Ucrânia”, acrescenta Golinkin.
A recuperação se estende “até a SS Galichina, uma divisão ucraniana da legião nazista a Waffen-SS; o diretor do Instituto de Memória Nacional proclamou que os combatentes da SS eram ‘vítimas de guerra’”.
Previsivelmente – destacou -, a celebração dos colaboracionistas nazistas “foi acompanha por um aumento do antissemitismo total”.
“‘Judeus Fora!’”, cantaram milhares – parafraseando o tristemente célebre “Juden Raus!” da Alemanha nazista – durante uma marcha em janeiro de 2017 em homenagem ao líder da OUN, Bandera. (No dia seguinte, a polícia negou ter ouvido qualquer coisa antissemita.)”, registrou o autor.
“Naquele verão, um festival de três dias em homenagem ao colaboracionista nazista Shukhevych culminou com o bombardeio de uma sinagoga. Em novembro de 2017, saudações nazistas foram relatadas quando 20.000 marcharam em homenagem à UPA. E em abril passado, centenas marcharam em Lvov com saudações nazistas coordenadas em homenagem à SS Galichina; a marcha foi promovida pelo governo regional de Lvov”.
Esse nauseante revisionismo inclui desde ruas renomeadas em homenagem a carniceiros de judeus, até campos de doutrinação para crianças, onde são inculcadas desde cedo na ideologia fascista, com farto financiamento pelo governo de Kiev.
“Dentro de alguns anos, uma geração inteira será doutrinada a adorar os perpetradores do Holocausto como heróis nacionais”, espantou-se Golinkin.
PROIBIÇÕES DE LIVROS
O Comitê Estadual de Radiodifusão e Televisão da Ucrânia está reforçando a glorificação dos novos heróis da Ucrânia ao banir a literatura “antiucraniana” que vai contra a narrativa do regime saído do golpe de Estado.
“Em janeiro de 2018, a Ucrânia ganhou as manchetes internacionais ao banir ‘Stalingrado’ do premiado historiador britânico Antony Beevor por causa de um único parágrafo sobre uma unidade ucraniana massacrando 90 crianças judias durante a Segunda Guerra Mundial”.
“Em dezembro, Kiev baniu The Book Thieves do autor sueco Anders Rydell (que, ironicamente, é sobre a supressão da literatura pelos nazistas) porque ele mencionou que tropas leais a Symon Petliura (um líder nacionalista do início do século 20) massacraram judeus”.
Fascismo (guia)
ANTISSEMITISMO
“Sem surpresa, a glorificação dos perpetradores do Holocausto liderada pelo governo foi uma luz verde para outras formas de antissemitismo”, denuncia o autor.
“Nos últimos três anos, houve uma explosão de suásticas e runas da SS nas ruas da cidade, ameaças de morte e vandalismo em memoriais do Holocausto, centros judaicos, cemitérios, túmulos e locais de culto, o que levou Israel a dar o passo incomum de exortar publicamente Kiev a enfrentar a epidemia”.
Funcionários do regime de Kiev “fazem ameaças antissemitas sem repercussões”. Estes incluem: um general dos serviços de segurança prometendo eliminar os zhidi (um termo ucraniano pejorativo de judeu); um deputado do parlamento fazendo um discurso antissemita na televisão; um político de extrema-direita lamentando que Hitler não acabou com os judeus; e um líder ultranacionalista prometendo limpar Odessa de zhidi .
Nos primeiros anos após Maidan, as organizações judaicas se abstiveram de criticar Kiev, mas em 2018 os incidentes antissemitas cresceram tanto que grupos judeus se decidiram “a quebrar o silêncio”.
Segundo relatório anual sobre o antissemitismo (2019) do governo israelense, no período a Ucrânia teve “mais incidentes do que todos os estados pós-soviéticos juntos”. “O Congresso Judaico Mundial, o Museu Memorial do Holocausto dos EUA e 57 membros do Congresso dos EUA condenaram veementemente a glorificação nazista de Kiev e o anti-semitismo concomitante”.
A propósito, parece que isso não é mais problema. Pelo segundo ano consecutivo, só dois países no mundo inteiro votaram contra a resolução (aprovada por larga margem) que condena a glorificação do nazismo: Estados Unidos e Ucrânia.
POGROMS DE CIGANOS
Uma onda letal de pogroms anti-Roma varreu a Ucrânia, evocando “a década de 1930: bandidos armados atacam mulheres e crianças enquanto arrasam seus acampamentos. Pelo menos um homem foi morto, enquanto outros, incluindo uma criança, foram esfaqueados”.
“Duas gangues por trás dos ataques – C14 e National Druzhina – se sentiram confortáveis o suficiente para postar orgulhosamente vídeos de pogrom nas mídias sociais”, denuncia Golinkin.
O que não é surpreendente, considerando que “a Druzhina Nacional faz parte do [Batalhão] Azov, enquanto o neonazista C14 recebe financiamento do governo para programas ‘educacionais’”.
ATAQUES À IMPRENSA
Desde o golpe de Maidan, assassinatos e perseguição de jornalistas tornaram-se frequentes na ‘nova Ucrânia’. Oles Buzina foi morto a tiros em 2015, e Pavel Sheremet, assassinado por um carro-bomba um ano depois.
O que não impediu que em maio de 2016, Myrotvorets, um site ultranacionalista com links para o governo, publicasse os dados pessoais de milhares de jornalistas que obtiveram credenciamento de rebeldes apoiados pela Rússia no leste da Ucrânia. Myrotvorets rotulou os jornalistas de “colaboradores terroristas”.
O então ministro do Interior Arsen Avakov elogiou o site que anunciava publicamente aberta a estação de caça aos jornalistas: “Esta é a sua escolha de cooperar com as forças de ocupação”. O Myrotvorets permanece operacional hoje.
APARTHEID IDIOMÁTICO
Golinkin assinalou que a Ucrânia “é extraordinariamente multilíngue: além dos milhões de ucranianos orientais de língua russa, há áreas onde o húngaro, o romeno e outras línguas são predominantes. Esses idiomas foram protegidos por uma lei regional de idiomas de 2012”, contra a qual o governo saído de Maidan passou a trabalhar dia e noite.
Essa lei foi derrubada pela Suprema Corte da Ucrânia em 2018 e no lugar Kiev “impôs uma lei draconiana que obrigaria o uso do ucraniano na maioria dos aspectos da vida pública” – quando são milhões os falantes de russo, em áreas que habitam há séculos.
Várias regiões aprovaram legislação que proíbe o uso do russo na vida pública. As cotas impõem o uso ucraniano na TV e no rádio. (Isso seria semelhante a Washington forçar a mídia em espanhol a transmitir principalmente em inglês.)
Não foi apenas a Rússia que ficou indignada – também outros países, como Hungria, Romênia, Bulgária e Grécia, que têm ligações com populações que vivem no mosaico de povos que é a Ucrânia.
CEGUEIRA INTENCIONAL
Esses exemplos são apenas uma pequena fração da queda da Ucrânia em direção à intolerância e ao reforço dos grupos extremistas. “Este resultado facilmente previsível está em contraste marcante com o entusiasmo de Washington sobre a ‘Revolução da Dignidade’”.
“O nacionalismo é exatamente o que a Ucrânia precisa”, proclamou um artigo da New Republic da historiadora Anne Applebaum, cuja celebração surgiu na época em que a Ucrânia deu sinal verde para a formação de paramilitares de supremacia branca.
Apenas quatro meses após o ensaio de Applebaum, a Newsweek publicou um artigo intitulado “Voluntários nacionalistas ucranianos cometendo crimes de guerra ‘estilo ISIS’”, registra Golinkin.
O autor assinala como, em ensaio após ensaio, os chefes de política externa de Washington negaram a crescente influência da extrema direita ucraniana. (“Curiosamente, os mesmos analistas denunciam veementemente o crescente nacionalismo na Hungria, Polônia e Itália como altamente perigosos”.)
É de Golinkin a observação de que talvez os formuladores de Washington “tenham se iludido ao pensar que a fase de extrema-direita de Kiev iria desaparecer”.
Mas, concede, “mais provavelmente, eles simplesmente adotaram a estratégia de que ‘o inimigo do meu inimigo é meu amigo’”.
De qualquer forma – acrescenta -, as ramificações vão muito além da Ucrânia.
E continua: “O apoio dos Estados Unidos à revolta de Maidan, juntamente com os bilhões que Washington afunda na Kiev pós-Maidan, deixam claro: a partir de fevereiro de 2014, a Ucrânia se tornou o mais recente projeto de expansão da democracia de Washington. O que permitimos na Ucrânia envia luz verde a outros”.
“Ao tolerar gangues e batalhões neonazistas, distorções do Holocausto encabeçadas pelo Estado e ataques a LGBT e ciganos, os Estados Unidos estão dizendo ao resto da Europa: ‘Estamos na boa com isso’”. “As implicações – especialmente em um momento de renascimento global da extrema-direita – são profundamente perturbadoras”, conclui Golinkin.
Com Zelensky, nada mudou fundamentalmente e ele logo assumiu às claras o estelionato eleitoral: eleito em grande medida por acenos à paz e à população falante de russo, após o primeiro cerco da turba fascista em Kiev passou a recitar a cartilha da “Ucrânia da Otan” e histericamente russófoba, e em seu governo os Acordos de Minsk foram congelados.
Como frisou o embaixador russo junto à ONU, Vasily Nebenzya, “o poder real na Ucrânia é dos radicais e dos neonazistas e não de Zelensky”. O diplomata russo denunciou ainda o presidente ucraniano “vem sendo manipulado pelos extremistas e não tem capacidade de resistir a esses radicais”.
Extremismo
Ucrânia: digitais da indústria de armas na guerra
Temos ouvido pouco ou quase nada sobre o papel da indústria de armas na promoção da guerra na Ucrânia. Os nomes Raytheon, Dassault, Lockheed Martin, Boeing, Northrop, Bell Helicopter, Nexter Systems etc. não deveriam estar nas manchetes? O acadêmico Jonathan Ng nos mostra, em artigo para o site de notícias Truthout, muitos dos detalhes dos lobbies da indústria armamentista que ajudaram a corrida armamentista que configurou as guerras da Ucrânia ao Iêmen. Ng chega mesmo a mostrar a Ucrânia como grande exportadora de armas.
Segue a íntegra do artigo.
Indústria de armas vê o conflito na Ucrânia como uma oportunidade, não uma crise
Por Jonathan Ng
Em fevereiro, uma fotografia do presidente russo, Vladimir Putin, curvado sobre uma mesa de 4 metros, com o presidente francês Emmanuel Macron circulou pelo mundo. As notícias sobre a extensa mesa e o suntuoso jantar de sete pratos lembraram uma história de Lewis Carroll. Mas o encontro deles foi terrivelmente sério. Macron chegou para discutir a escalada da crise na Ucrânia e a ameaça de guerra. Em última análise, conversa deles naufragou sobre a expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), rendendo pouco mais do que a bizarra fotografia .
O encontro foi surreal, contudo, por outro motivo. No ano passado, Macron, o principal negociador de paz da União Europeia (UE), liderou uma ambiciosa campanha de venda de armas, explorando as tensões para fortalecer o comércio francês. A imprensa especializada chegou a relatar que ele esperava vender caças Rafale para a Ucrânia, invadindo o “antigo bastião da indústria russa”.
Macron não está sozinho. As empresas fornecedoras de armas para a OTAN abraçam abertamente a crise na Ucrânia como sólidos negócios. Em janeiro, o CEO da Raytheon, Greg Hayes, citou “tensões na Europa” como uma oportunidade, dizendo: “Tenho a firme expectativa de que teremos algum benefício”. Da mesma forma, o CEO Jim Taiclet da Lockheed Martin destacou os benefícios da “grande competição pelo poder” na Europa para os acionistas.
Em 24 de fevereiro, a Rússia invadiu a Ucrânia, atacando cidades com artilharia e despachando tropas através da fronteira. O estrondo sônico de caças encheu o ar, enquanto civis inundavam as estradas em Kiev, tentando fugir da capital. E o valor das ações dos fabricantes de armas disparou.
O conflito crescente sobre a Ucrânia dramatiza o poder do militarismo e a influência dos empreiteiros de defesa. Um impulso implacável para conquistar mercados - entrelaçado com o imperialismo - impulsionou a expansão da OTAN, enquanto inflamava guerras da Europa Oriental ao Iêmen.
Vendendo a OTAN
O atual conflito com a Rússia começou na esteira da Guerra Fria. O declínio dos gastos militares estrangulou a indústria de armas nos Estados Unidos e em outros países da OTAN. Em 1993, o vice-secretário de Defesa William Perry convocou uma reunião solene com executivos. Fontes internas a chamaram de “A Última Ceia”. Em uma atmosfera carregada de equívocos, Perry informou a seus convidados que golpes iminentes no orçamento militar dos EUA exigiam a consolidação da indústria. Seguiu-se uma onda frenética de fusões e aquisições, à medida que a Lockheed, Northrop, Boeing e Raytheon adquiriam novos músculos e empresas menores pereciam em meio à escassez do pós-guerra.
Enquanto a demanda doméstica encolhia, os empreiteiros de defesa corriam para garantir novos mercados estrangeiros. Em particular, eles se voltaram para o antigo bloco soviético, considerando a Europa Oriental como uma nova fronteira de acumulação. “A Lockheed começou a olhar para a Polônia logo após a queda do muro”, lembrou o veterano vendedor Dick Pawlowski. “Havia fabricantes de armas inundando todos esses países.” Os fabricantes de armas tornaram-se os lobistas mais agressivos para a expansão da OTAN. O guarda-chuva de segurança não era simplesmente uma aliança formidável, mas também um mercado tentador.
No entanto, os lobistas enfrentaram um grande obstáculo. Em 1990, o secretário de Estado, James Baker, havia prometido ao líder soviético Mikhail Gorbachev que, se ele permitisse que uma Alemanha reunificada se juntasse à OTAN, a organização não se moveria “um centímetro sequer para o leste”. No entanto, os lobistas permaneceram esperançosos. A União Soviética havia se desintegrado desde então, o triunfalismo da Guerra Fria prevaleceu e os interesses estabelecidos agora pressionavam pela expansão. “Os fabricantes de armas veem bonança ao vender a expansão da OTAN”, noticiou o New York Times em 1997. Mais tarde, o jornal observou que “a expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte – primeiro para a Polônia, Hungria e República Tcheca e depois possivelmente para mais de um dezenas de outros países – ofereceria aos fabricantes de armas um mercado novo e extremamente lucrativo”.
Novos membros da aliança significavam novos clientes. E a OTAN literalmente exigia que eles comprassem equipamentos militares ocidentais.
Lobistas invadiram Washington, D.C., festejando os legisladores em estilo real. O vice-presidente Bruce Jackson da Lockheed tornou-se o presidente do Comitê dos EUA para Expandir a OTAN, uma organização em defesa da causa da expansão. Jackson narrou as refeições extravagantes que ele ofereceu na mansão da luminar republicana Julie Finley, que ostentava “uma adega infinita”.
“Educar o Senado sobre a OTAN era nossa missão principal”, ele informou ao jornalista Andrew Cockburn. “Recebíamos quatro ou cinco senadores todas as noites e bebíamos o vinho de Julie.”
A pressão do lobby foi implacável. “As corporações mais interessadas são as corporações de defesa, porque elas têm um interesse direto na questão”, observou o embaixador romeno Mircea Geoană. A Bell Helicopter, a Lockheed Martin e outras empresas até financiaram a máquina de lobby da Romênia durante sua candidatura à adesão à OTAN.
Em última análise, os formuladores de políticas renegaram sua promessa a Gorbachev, admitindo Polônia, Hungria e República Tcheca na OTAN em 1999. Durante a cerimônia, a secretária de Estado, Madeleine Albright, – que cooperou diretamente com a campanha de Jackson – os recebeu com um caloroso “Aleluia”. Ominosamente, o arquiteto intelectual da Guerra Fria, George Kennan, previu o desastre. “Tal decisão pode inflamar as tendências nacionalistas, antiocidentais e militaristas na opinião russa”, advertiu Kennan.
Poucos ouviram. O ex-secretário adjunto de Defesa Chas Freeman descreveu a mentalidade dos formuladores de políticas: “Os russos estão caídos, vamos dar-lhes outro chute”. Saboreando a vitória, Jackson (Lockheed) foi igualmente truculento: “‘F***-** a Rússia’ é uma longa e orgulhosa tradição na política externa dos EUA”. Mais tarde, ele se tornou presidente do Comitê para a Libertação do Iraque, que abriu caminho para a invasão de 2003, a maior distribuição de dinheiro à indústria na história recente.
Em duas décadas, 14 países da Europa Central e Oriental aderiram à OTAN. A organização existia originalmente para conter a União Soviética, e alarmadas as autoridades russas monitoravam seu avanço. Em retrospecto, a expansão do pós-guerra beneficiou os fabricantes de armas, aumentando seu mercado e estimulando o conflito com a Rússia.
Ucrânia na mira
As tensões atingiram um novo patamar em 2014, quando os Estados Unidos apoiaram a derrubada do presidente Viktor Yanukovych da Ucrânia. Yanukovych se opunha à adesão à Otan, e as autoridades russas temiam que sua deposição colocaria o país sob o guarda-chuva estratégico da organização. Em vez de aplacar suas preocupações, o governo Obama manobrou para colocar a Ucrânia em sua esfera de influência. A secretária de Estado adjunta, Victoria Nuland, coordenou a mudança de regime com impetuosa confiança. Nuland distribuiu biscoitos abertamente aos manifestantes e, mais tarde, encerrou uma interação diplomática com “f***-** a UE”. No auge da revolta, o senador John McCain também se juntou aos manifestantes. Ladeado por líderes do Partido fascista Svoboda, McCain defendeu a mudança de regime, declarando que “a América está com vocês”.
Nessa altura, os membros da OTAN recém-admitidos haviam comprado quase US$ 17 bilhões em armas norte-americanas. Instalações militares, incluindo seis postos de comando da OTAN, multiplicaram-se por toda a Europa Oriental. Temendo uma expansão ainda maior, a Rússia anexou a Península da Crimeia e interveio na região de Donbas, alimentando uma guerra feroz e interminável.
Os porta-vozes da OTAN argumentaram que a crise justificava a expansão. Na realidade, a expansão da OTAN foi um fator-chave para a crise. E a conflagração foi um presente para a indústria de armas. Em cinco anos, as principais exportações de armas dos Estados Unidos aumentaram 23%, enquanto as exportações francesas registraram isoladamente um salto de 72%, atingindo seus níveis mais altos desde a Guerra Fria. Enquanto isso, os gastos militares europeus atingiam níveis recordes.
À medida que as tensões aumentavam, o comandante supremo da Otan, Philip Breedlove, inflava descontroladamente as ameaças, chamando a Rússia de “uma ameaça existencial de longo prazo para os Estados Unidos”. Breedlove chegou até a falsificar informações sobre movimentos de tropas russas nos dois primeiros anos do conflito, enquanto discutia táticas com colegas para “alavancar, persuadir, convencer ou coagir os EUA a reagir”. Um membro sênior da Brookings Institution concluiu que ele pretendia “incitar os europeus a aumentar os gastos com defesa”.
Ele atingiu seu objetivo. O Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo registrou um salto significativo nos gastos militares europeus – embora os gastos russos em 2016 tenham igualado apenas um quarto do orçamento europeu da OTAN. Naquele ano, Breedlove renunciou ao cargo antes de ingressar no Center for a New American Security, um think tank belicista inundado por fundos da indústria de armas.
A corrida armamentista continuou. Depois que as negociações europeias travaram, a Rússia reconheceu duas repúblicas separatistas na região de Donbas antes de invadir a Ucrânia em fevereiro. Justificando a operação sangrenta, Putin acusou erroneamente as autoridades ucranianas de genocídio. No entanto, seu foco era geopolítico. “É um fato que nos últimos 30 anos temos tentado pacientemente chegar a um acordo com os principais países da OTAN”, disse ele. “Em resposta às nossas propostas, invariavelmente enfrentamos enganos e mentiras cínicas ou tentativas de pressão e chantagem, enquanto a aliança do Atlântico Norte continuou a se expandir apesar de nossos protestos e preocupações. Sua máquina militar está se movendo e, como eu disse, está se aproximando de nossa fronteira”.
Em retrospecto, três décadas de lobby da indústria provaram ser mortalmente eficazes. A OTAN engoliu a maior parte da Europa Oriental e provocou uma guerra na Ucrânia, mais uma oportunidade de acumulação. Os membros da Aliança ativaram o Artigo 4, mobilizando tropas, contemplando retaliação e avançando em direção à beira do Armagedom.
No entanto, mesmo com o aumento dos orçamentos militares, os fabricantes de armas europeus - como seus colegas norte-americanos – necessitavam que os mercados estrangeiros superassem as restrições fiscais e os custos de produção. Eles precisam de clientes para financiar sua própria formação militar: guerras estrangeiras para financiar a defesa doméstica.
Iêmen em chamas
Os fabricantes de armas encontraram a oportunidade de venda perfeita no Iêmen. Em 2011, uma revolução popular derrubou Ali Abdullah Saleh, que havia monopolizado o poder por duas décadas. Seu comparsa, Abdu Rabbu Mansour Hadi, tornou-se presidente no ano seguinte, depois de vencer facilmente as eleições: ele era o único candidato. Frustrado pela intriga de elite, outro levante ejetou Mansour Hadi em 2015.
Naquele ano, o príncipe Salman tornou-se rei da Arábia Saudita, mas o poder concentrou-se nas mãos de seu filho, Mohammed bin Salman, que temia que a revolta ameaçasse arrebatar o Iêmen da esfera de influência da Arábia Saudita.
Meses depois, uma coalizão liderada pela Arábia Saudita invadiu o país, deixando um enorme rastro de carnificina. "Não havia nenhum plano", enfatizou um oficial da inteligência dos EUA. "Eles simplesmente bombardeavam qualquer coisa que se parecesse com um alvo."
A guerra imediatamente atraiu os fabricantes da OTAN, que apoiaram os agressores. Eles exploram o conflito para sustentar a capacidade industrial, financiar o desenvolvimento de armas e alcançar economias de escala. Em essência, a coalizão liderada pela Arábia Saudita subsidia o acúmulo militar da OTAN, enquanto o Ocidente inflama a guerra no Iêmen.
Os estadistas ocidentais perseguem as vendas com entusiasmo perverso. Em maio de 2017, Donald Trump visitou a Arábia Saudita em sua primeira viagem ao exterior como presidente, a fim de detalhar os detalhes de um pacote de armas de US$ 110 bilhões. Seu genro, Jared Kushner, chegou de antemão para discutir o pacote. Quando as autoridades sauditas reclamaram do preço de um sistema de radar, Kushner imediatamente ligou para o CEO da Lockheed Martin para pedir um desconto. No ano seguinte, Mohammed bin Salman visitou a sede da empresa durante uma turnê pelos Estados Unidos. Os consultores de defesa, magnatas de Hollywood e até Oprah Winfrey deram as boas-vindas ao jovem príncipe.
Os norte-americanos, porém, não estavam sozinhos. A coalizão liderada pela Arábia Saudita é também o maior mercado de armas para a França e outros membros da OTAN. E, como explica o Ministério das Forças Armadas da França, as exportações são “necessárias para a preservação e o desenvolvimento da base tecnológica e industrial de defesa francesa”. Por outras palavras, membros da OTAN, como a França, exportam a guerra para manter a sua capacidade de empreendê-la.
O Presidente Macron nega que a coligação, uma aliança imponente que inclui a Arábia Saudita, o Egito, a Jordânia, os Emirados Árabes Unidos, o Kuwait, o Barém, o Catar, o Sudão e o Senegal, utilize armas francesas. Mas as estatísticas são sugestivas. Entre 2015 e 2019, a França concedeu € 14 bilhões em licenças de exportação de armas para a Arábia Saudita e € 20 bilhões em licenças para os Emirados Árabes Unidos. O CEO da Nexter Systems, Stéphane Mayer, elogiou o desempenho dos tanques Leclerc no Iêmen, gabando-se de que eles "impressionaram muito os líderes militares da região". Em suma, enquanto Macron nega que a coalizão negocie armamento francês no Iêmen, os industriais locais citam seu uso como argumento de venda. Com efeito, a Anistia Internacional informa que a sua administração mentiu sistematicamente sobre a sua política de exportação. Reservadamente, as autoridades compilaram uma "lista muito precisa de materiais franceses implantados no contexto do conflito, incluindo munições".
Recentemente, Macron tornou-se um dos primeiros chefes de Estado a se encontrar com Mohammed bin Salman após o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi. Como a viagem de Trump, a missão diplomática de Macron era uma missão de vendas. No final, Macron fechou um acordo com os Emirados Árabes Unidos para 80 caças Rafale. O CEO da Dassault Aviation chamou o contrato de “o mais importante já obtido pela indústria aeroespacial militar francesa”, garantindo seis anos de trabalho para um pilar de sua base industrial.
A política francesa é típica do envolvimento da Otan no Iêmen. Enquanto denunciavam, todos os produtores ocidentais equipavam aqueles que conduziam a guerra. Autoridades espanholas adulteram documentos oficiais para ocultar a exportação de armamento letal. A Grã-Bretanha tem violado repetidamente o seu próprio embargo de armas. E os Estados Unidos não respeitaram consistentemente os congelamentos de exportação.
Até mesmo os países da OTAN na Europa Oriental exploram a guerra. Enquanto esses membros da aliança absorvem armas ocidentais, eles despejam alguns de seus antigos equipamentos soviéticos no Oriente Médio. Entre 2012 e julho de 2016, a Europa Oriental concedeu à região pelo menos 1,2 bilhão de euros em equipamento militar.
Ironicamente, um dos principais exportadores de armas da Europa Oriental é a Ucrânia. Enquanto o Ocidente corre para armar Kiev, sua classe dominante tem vendido armas no mercado negro. Um inquérito parlamentar concluiu que, só entre 1992 e 1998, a Ucrânia perdeu impressionantes 32 bilhões de dólares em ativos militares, enquanto oligarcas pilhavam o seu próprio exército. Nas últimas três décadas, eles equiparam o Iraque, os talibãs e grupos extremistas em todo o Oriente Médio. Mesmo o ex-presidente Leonid Kuchma, que conduziu conversações de paz na região de Donbas, vendeu ilegalmente armas durante o mandato. Mais recentemente, as autoridades francesas investigaram Dmytro Peregudov, o ex-diretor do conglomerado de defesa do estado, por embolsar US$ 24 milhões em comissões de vendas. Peregudov residia em um castelo com campos de vinhas, enquanto administrava as extensas propriedades que adquiriu após seus anos de serviço público.
Os Senhores da Guerra
Kuchma e Peregudov não são exceções. A corrupção é endêmica em uma indústria que depende da porta giratória proverbial. A porta giratória não é simplesmente uma metáfora, mas uma instituição, convertendo o lucro privado em política pública. Seu movimento perpétuo significa a reprodução social de uma elite que reside nas alturas dominantes de um complexo industrial-militar global. Os principais corretores do poder, desde os Mitterrands e Chiracs, em França, aos Thatchers e Blairs, na Grã-Bretanha, e aos Gonzálezes e Bourbons, em Espanha, lucraram pessoalmente com o comércio de armas.
Nos Estados Unidos, a indústria emprega cerca de 700 lobistas. Quase três quartos trabalhavam anteriormente para o governo federal — a maior porcentagem para qualquer indústria. O lobby gastou US$ 108 milhões apenas em 2020, e suas fileiras continuam a aumentar. Nos últimos 30 anos, cerca de 530 funcionários do Congresso em comitês militares deixaram o cargo para empresas de defesa. Veteranos da indústria dominam a administração Biden, incluindo o Secretário de Defesa, Lloyd Austin, da Raytheon.
A porta giratória reforça a composição de classe do Estado, ao mesmo tempo em que mina sua legitimidade moral. Enquanto uma elite gira o escritório, os membros isolam a formulação de políticas da influência democrática, mancham o governo com a corrupção e confundem o lucro corporativo com o interesse nacional. Em 2005, 80% dos generais do exército com três estrelas ou mais se aposentaram para ir para os fabricantes de armas, apesar dos regulamentos existentes. (A Lei de Autorização de Defesa Nacional proíbe os altos oficiais de fazer lobby no governo por dois anos após deixar o cargo ou alavancar contatos pessoais para garantir contratos. Mas o cumprimento da lei é notoriamente fraco.) Mais recentemente, a Marinha dos EUA iniciou investigações contra dezenas de oficiais por laços corruptos com o empreiteiro de defesa Leonard Francis, que firmou contratos com grandes subornos, refeições luxuosas e festas sexuais.
Encharcados nessa cultura corrosiva, os intelectuais da OTAN agora falam abertamente sobre a perspectiva de "guerra infinita". O General Mike Holmes insiste que trata-se de “não perder. É permanecer no jogo, obter um novo plano e continuar a perseguir os seus objetivos.” No entanto, aqueles imersos em sua realidade brutal certamente discordam. As Nações Unidas informam que pelo menos 14.000 pessoas morreram na Guerra Russo-Ucraniana desde 2014, e mais de 377.000 morreram no Iêmen.
Na verdade, a doutrina da guerra infinita não é tanto uma estratégia, mas uma confissão, reconhecendo o metabolismo violento de um sistema que requer conflito. Como uma elite autosselecionada propõe a expansão da OTAN, o acúmulo militar e o imperialismo, devemos abraçar o que os senhores da guerra mais temem: a ameaça da paz.
O autor agradece a Sarah Priscilla Lee, do Learning Sciences Program da Northwestern University, pela revisão deste artigo.
Jonathan Ng recebeu seu Ph.D. em história na Northwestern University pesquisando o intervencionismo dos EUA na América Latina. No verão de 2019, realizou trabalhos no Ministério das Relações Exteriores do Chile. Atualmente, Ng trabalha como bolsista de pós-doutorado na Universidade de Tulsa.
Publicado originalmente em Truthout / Tradução por César LocatelliG
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