No capítulo 3 do livro III do De anima, Aristóteles contrapõe percepção sensível (aisthêsis) e imaginação (phantasia), diferenciando-as segundo certas caraterísticas. Nesse mesmo capítulo o filósofo define a phantasia como uma espécie de movimento derivado da percepção sensorial em ato, e que a fantasia permanece na alma após esse ato. Contudo, não é claro, seja nas linhas aristotélicas, seja no comentário dos especialistas, como ocorre exatamente esse processo de formação das imagens (phantasmata) junto à assimilação das formas sensíveis (aisthêtôn eidôn), nem como os phantasmata se diferenciam das sensações percebidas (aisthêmata), já que as formas sensíveis e os phantasmata são imateriais. A partir dessa problemática investigamos em que medida os phantasmata se diferenciam dos aisthêmata a partir de três características principais. Por outro lado, o estudo dessa diferenciação acaba por delinear quais são os atributos fundamentais da phantasia que a tornam inseparável do pensamento, bem como explicita a sua relevância dentro da epistemologia aristotélica. (Ferreira.Vitor D. 2018).
1. ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος, καὶ ὁ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν, καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος.
5. καὶ τὸ φῶς ἐν τῇ σκοτίᾳ φαίνει, καὶ ἡ σκοτία αὐτὸ οὐ κατέλαβεν.
6. ἐγένετο ἄνθρωπος ἀπεσταλμένος παρὰ θεοῦ, ὄνομα αὐτῶ ἰωάννης.
PHANTASIA E AISTHESIS
Fontes
Phantasmata+aristoteles
https://www.bibliacatolica.com.br/septuaginta/sao-joao/1/
Segundo Kubiszeski (2016)
Aristóteles é o primeiro na história da filosofia a distinguir claramente entre imaginação, concepção e sensação (HUBERT, 2005)
23
φαίνεται δέ γε καὶ ψευδῆ, περὶ ὧν ἅμα ὑπόληψιν ἀληθῆ ἔχει, οἷον φαίνεται μὲν ὁ ἥλιος ποδιαῖος, πιστεύεται δ' εἶναι μείζων τῆς οἰκουμένης· συμβαίνει οὖν ἤτοι ἀποβεβληκέναι τὴν ἑαυτοῦ ἀληθῆ δόξαν, ἣν εἶχε, σωζομένου τοῦ πράγματος, μὴ ἐπιλαθόμενον μηδὲ μεταπει-θέντα, ἢ εἰ ἔτι ἔχει, ἀνάγκη τὴν αὐτὴν ἀληθῆ εἶναι καὶ ψευδῆ. ἀλλὰ ψευδὴς ἐγένετο ὅτε λάθοι μεταπεσὸν τὸ πρᾶγμα. οὔτ' ἄρα ἕν τι τούτων ἐστὶν οὔτ' ἐκ τούτων ἡ φαντασία.
23. Aparecem também como falsas as coisas sobre as quais se tem ao mesmo tempo uma suposição verdadeira, como o sol aparece como tendo o tamanho de um pé, mas acredita-se ser ele maior que a Terra. Segue-se, então, ou a rejeição da própria opinião verdadeira, a qual se possuía, preservando-se a coisa, não havendo nem esquecimento nem persuasão, ou, ainda tendo-se a opinião, faz-se necessário ser esta verdadeira e falsa. Mas uma opinião verdadeira torna-se falsa quando se altera o fato despercebidamente. A phantasía, então, não é nenhuma dessas coisas, nem é composta delas. (DA III, 428b, 1-10).
33 τοῦ δὲ διεψεῦσθαι αἴτιον ὅτι οὐ μόνον τοῦ αἰσθητοῦ κινοῦντος φαίνεται ἁδήποτε, ἀλλὰ καὶ τῆς
αἰσθήσεως κινουμένης αὐτῆς, ἐὰν ὡσαύτως κινῆται ὥσπερ καὶ ὑπὸ τοῦ αἰσθητοῦ· λέγω δ' οἷον ἡ γῆ δοκεῖ
τοῖς πλέουσι κινεῖσθαι κινουμένης τῆς ὄψεως ὑπ' ἄλλου.
33 A causa do enganar-se é que certas coisas quaisquer aparecem não
apenas quando o objeto sensível move, mas também quando a
sensação move-se a si mesma, caso seja movida da mesma maneira
que por um objeto sensível – digo, por exemplo, como no caso da
terra firme que parece mover-se àqueles que navegam, tendo a vista
sido movida por outra coisa. (De Insomniis, 406b, 23-27)
88 A etimologia dos termos vinculados à phantasía atesta a plausibilidade dessa interpretação: “Do ponto
de vista da morfologia histórica, é importante ressaltar o acentuado vínculo mantido pelos termos
‘phaíno’ – do qual havíamos dito ser derivado ‘phantasía’ –, ‘pháos’ (luz) e ‘phemí’ (dizer, declarar). Foi
estabelecida, com certeza, uma raiz –faF que se relaciona com um termo sânscrito que significa “brilhar”,
e outro que significa “luz”. Essa glosa parece supor um ‘*fa-mi’ atemático, ‘brilhar’, que é o mesmo
verbo que ‘phemí’. Os três termos, ‘pháos’, ‘pháino’ e ‘phemí’, são construídos sobre a mesma base do
indo-europeu. Essa raiz envolve certa ambivalência semântica, pois significa tanto ‘brilhar’ quando
‘declarar’, ‘expor’, ‘dizer’, ambivalência essa que se transfere de certo modo aos termos que a partir deles
se constituem, por exemplo, ‘phásis’, que significa tanto ‘aparência’ como ‘declaração’; ‘próphasis’,
‘primeira manifestação de uma doença’ ou ‘pretexto’; ‘apophaíno’, ‘fazer aparecer’ e ‘declarar’;
‘piphaúsko’, ‘fazer brilhar’ e também ‘explicar’. Entre os sentidos de ‘phemí’ também se encontram ‘crer’, ‘pensar’, ‘imaginar’ (‘parecer’, poderíamos incluir), assim como entre os de ‘phaíno’ figura
‘declarar’.” (DÍAZ; LIVOV; SPANGENBERG, 2009, 31).
89 “A Via Láctea, os cometas, as estrelas cadentes, os planetas, os relâmpagos e o arco-íris – todas as
ocorrências celestiais que orientam o homem no cosmo – cada um possui sua phantasía ou ‘aparência’”.
(WHITE, 1985, 504).
91 No Dicionário Grego-Português, dentre as formas médias de “phaíno”, além de ser listada a tradução
“aparecer”, encontram-se também “surgir” e “ser manifesto/evidente”.
No diálogo Sofista, Platão, através da personagem do Estrangeiro de Eleia,
define a phantasía93 como a opinião que ocorre por meio da sensação:
94 Τί δ' ὅταν μὴ καθ' αὑτὸ ἀλλὰ δι' αἰσθήσεως παρῇ τινι, τὸ τοιοῦτον αὖ πάθος ἆρ' οἷόν τε ὀρθῶς εἰπεῖν
ἕτερόν τι πλὴν φαντασίαν;
94 Quando, ao contrário, ela [a opinião] se apresenta, não mais
espontaneamente, mas por intermédio da sensação, é acaso possível
designar esta afecção por outra palavra que não “phantasía”? (Sof.,
264a).
Assim sendo, a phantasía platônica surge como uma noção complexa, cuja
definição requer outros dois conceitos – opinião e sensação95.
Em um estudo
comparativo no qual se contemplam as noções aristotélica e platônica de phantasía a
fim de ressaltar as semelhanças e as diferenças existentes entre ambas 96, o texto do
Sofista revela-se de inestimável valor.
Em primeiro lugar, observa-se, na passagem supracitada, o caráter discursivo da
phantasía tal como concebida por Platão: sendo uma espécie de opinião, ela vincula-se
necessariamente aos conceitos de discurso e pensamento (ibid.). Essa característica – a
qual convém chamar de discursividade97
– é, como se pretende mostrar adiante, um dos principais pontos de divergência entre as concepções de Aristóteles e Platão acerca do
tema.
No De
Anima, lê-se:
“A phantasía é diferente da sensação e do raciocínio. Não obstante, ela
não ocorre sem sensação, e sem esta não há suposição.” (DA III, 427b, 15-16)98
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