A era do capitalismo de vigilância
Muito além das velhas câmeras, muito além do “Big Brother” de George Orwell, no Capitalismo de Vigilância quem fornece os dados, e a chave para o ato de exercer controle ou influência numa pessoa, o controle, a influência, o domínio ou o comando é também o alvo potencial primário da manipulação: o próprio indivíduo, eu e voce, nós todos. A velha câmara de vigilância não gera capital, só o vigia e informa, já o suveillance capitalism, é o próprio próprio neoliberalismo que realiza expropriação dos dados individuais a fim de potencializar a concentração de capital.
Machado de Assis (21/VI/1839 - 29/IX/1908)
Joaquim Maria Machado de Assis
A igreja do diabo
Ca-pi-ta-lis-mo de vi-gi-lân-ci-a, subst.
1. Uma nova ordem econômica que reivindica a experiência humana como matéria-prima gratuita para práticas comerciais dissimuladas de extração, previsão e vendas;
2. Uma lógica econômica parasítica na qual a produção de bens e serviços é subordinada a uma nova arquitetura global de modificação de comportamento;
3. Uma funesta mutação do capitalismo marcada por concentrações de riqueza, conhecimento e poder sem precedentes na história da humanidade;
4. A estrutura que serve de base para a economia de vigilância;
5. Uma ameaça tão significativa para a natureza humana no século XXI quanto foi o capitalismo industrial para o mundo natural nos séculos XIX e XX;
6. A origem de um novo poder instrumentário que reivindica domínio sobre a sociedade e apresenta desafios surpreendentes para a democracia de mercado;
7. Um movimento que visa impor uma nova ordem coletiva baseada em certeza total;
8. Uma expropriação de direitos humanos críticos que pode ser mais bem compreendida como um golpe vindo de cima: uma destituição da soberania dos indivíduos (Shoshana Zuboff)
O capitalismo de vigilância, “surveillance capitalism” é o próprio neoliberalismo que realiza a expropriação dos dados individuais a fim de potencializar a concentração de capital. Basta ler o manifesto comunista atentamente nas páginas acerca do movimento do capital que transforma tudo em mercadoria.
No capitalismo de vigilância são as informações pessoais que são expropriadas. Marx ironiza o capital demonstrando que no capitalismo não há qualquer vínculo moral para com a proteção da propriedade privada, pois a expropriação das coisas e das forças vivas é a própria essência do capital.
É o capitalismo neoliberal que utiliza a imensurável quantidade de dados, seu rastro digital, que você, eu e nós todos, usuários fornecemos gratuitamente às empresas de tecnologias, como as donas das plataformas de redes sociais de comunicação instantâneas e buscadores, transformando esses dados (seus clics em todos os sites pelos quais você entrou, em matéria-prima e produto final altamente lucrativos.
O que se verificou na história com a rápida melhora dos instrumentos de
produção e das comunicações, a burguesia logra integrar na civilização até os povos mais bárbaros. E hoje todos os homens do planeta Terra. Os
preços baratos de suas mercadorias são a artilharia
pesada com a qual ela derruba todas as muralhas e faz capitular até os povos bárbaros mais
hostis aos estrangeiros. Sob a ameaça da ruína, ela
obriga todas as nações a adotarem o modo burguês
de produção; força-as a introduzir a assim chamada
civilização, quer dizer, se tornarem burguesas. Em
suma, ela cria um mundo à sua imagem e semelhança.
E ai está a moral do capitalismo: não há moral. Tudo se transforma em capital.
O processo é conhecido: em seu navegar habitual e diário, o usuário recheia a web com "zilhões" de informações sobre si mesmo como gostos (comida, música, cinema, roupas, viagens, preferência sexual, tipo de evento, arte, pensamento filósofo (ou ausência dele), espectro político, grau de instrução ou educação, condição médica ou de saúde, etc.); sentimentos (medo de saltar de paraquedas, alegria por adotar um gato, ansiedades, fobias, etc.); projetos e desejos pessoais como comprar uma casa, fazer faculdade, mudar de cidade, de estado, ou morar fora do país etc.); hábitos on-line, como assistir a vídeos numa determinada a plataforma X, consumo de pornografia, tipo de música é filme, se ouve e onde ouve podcasts, onde se informa, se lê jornal físico ou on-line ou se informa pelo WhatsApp; e off-line como vai para o trabalho se de carro ou de bike, o que gosta de comer, se é vegano, vegetariano ou carnívoro; seus hábitos nas horas de folga, se gosta de frequentar teatros, cinema, que tipo de esportes o atrai e quais você pratica, se consome cultura; quais são suas posições quanto ao aborto, inclusão social, distribuição de renda, cotas, direitos humanos, posição no espectro político, valor que dá à democracia, seu pensamento social, sua posição religiosa, que credo pratica e com que frequência, e tudo o mais que couber na esfera comportamental humana. Todas essas informações ou dados são registradas, armazenadas, e salvas em servidores, em estado bruto. Quanto mais você navegar pela internet mais dados seus são extraídos “ou minerados” pois são como ouro digital. Elas vão completando seu perfil a tal ponto que permita fazer previsões com grau máximo de certeza sobre seu atos futuros.
O que as empresas de tecnologia fazem é extraí-los, analizá-los e refiná-los para que se tornem dados de predição de comportamento, (dentro de um grau de confiança com mais de 95% de certeza), ou seja, através dessa análise são capazes de prever os próximos passos do usuário antes até dele mesmo, antes de terem acontecido. E mais, podem provocar uma determinada ação sabendo tudo sobre você. O passo seguinte é vendê-los a preço de ouro já que, com isso em mãos, é possível influenciar o comportamento humano. E vale lembrar: as empresas usam não apenas as informações que os usuários permitem (nas postagens que a maioria das pessoas faz, sem nem se dar conta disso), mas também as fornecidas em formulários, mesmo que sem o consentimento e, ainda, aquelas ouvidas pelos microfones ou obtidas pelas câmeras de celulares, computadores, caixas de som etc. As empresas negam, mas não faltam evidências e indícios desse uso e também da manipulação de vasto número de pessoa inclusive para escolher governos de matiz fascistas, autoritários e genocidas onde o único ideal é a perpetuação no poder e a concentração máxima de renda.
Em nossos dias ocorre uma evolução semelhante. As relações de produção e de circulação
burguesas, as relações burguesas de propriedade,
a sociedade burguesa moderna, que, como por
encanto, criou meios de produção e de circulação tão
espetaculares, mais parecem o feiticeiro que não
consegue controlar os poderes subterrâneos que ele
mesmo invocou. Esse poder de acumulação de dados graças ao desenho dos supercomputadores que foram desenvolvidos em universidades públicas com financiamento público se volta para a destruição do sistema que fundou o próprio capitalismo. Se volta para solo no qual vicejou por centenas de anos, erodindo esse solo para concentrar a riqueza cada vez mais nas mãos de poucos.
Para Marx e Engels, em seu Manifesto do Partido Comunista, com o desenvolvimento da burguesia, isto é,
do capital, desenvolve-se também o proletariado, a
classe dos trabalhadores modernos, que só sobrevivem se encontram trabalho, e só encontram trabalho
se este incrementa o capital. Esses trabalhadores,
que são forçados a se vender diariamente, constituem uma mercadoria como outra qualquer, por
isso exposta a todas as vicissitudes da concorrência,
a todas as turbulências do mercado. Hoje temos que nem mais o trabalhador, o proletário entra na equação, e se entra é na forma de como alterar sua consciência fazê-lo pensar e agir como marionetes vítima de fake news e previsões deixadas pelo seu rastro digital. Marx tinha razão quando se perguntava: será que o trabalho assalariado, o trabalho do
proletário, cria propriedade para ele? De modo
algum. Cria capital, quer dizer, propriedade que
explora o trabalho assalariado e que só pode se multiplicar se criar mais trabalho assalariado que possa
ser novamente explorado. A propriedade, em sua
forma atual, move-se no antagonismo entre capital
e trabalho. Agora no atual estágio do capitalismo, o neoliberalismo desenvolve-se esse modo de expropriar a liberdade e a autonomia humanas para com elas acumular capital em detrimento do bem estar do próprio homem.
9º. Vós sois o sal do money market. E se o sal perder a força, com que outra cousa se há de salgar?
14º. Também foi dito aos homens:
Não matareis a vosso irmão, nem a
vosso inimigo, para que não sejais
castigados. Eu digo-vos que não é
preciso matar a vosso irmão para
ganhardes o reino da terra; basta
arrancar-lhe a última camisa.
15º. Assim, se estiveres fazendo as
tuas contas, e te lembrar que teu
irmão anda meio desconfiado de ti,
interrompe as contas, sai de casa, vai
ao encontro de teu irmão na rua,
restitui-lhe a confiança, e tira-lhe o
que ele ainda levar consigo.
16º. Igualmente ouvistes que foi dito
aos homens: Não jurareis falso, mas
cumpri ao Senhor os teus juramentos.
17º. Eu, porém, vos digo que não
jureis nunca a verdade, porque a
verdade nua e crua, além de
indecente, é dura de roer; mas jurai
sempre e a propósito de tudo, porque
os homens foram feitos para crer
antes nos que juram falso, do que nos
que não juram nada. Se disseres que
o sol acabou, todos acenderão velas.
18º. Não façais as vossas obras
diante de pessoas que possam ir
contá-lo à polícia.
21º. Mas remetei os vossos tesouros
para algum banco de Londres, onde a
ferrugem, nem a traça os consomem
nem os ladrões os roubam, e onde
ireis vê-los no dia do juízo.
24º. Não queirais julgar para não
serdes julgados; não examineis os
papéis do próximo para que ele não
examine os vossos, e não resulte irem
os dous para a cadeia, quando é
melhor não ir nenhum.
(ASSIS, 1997. Sermão do Diabo; e, p. 648).
IGREJA DO DIABO
Machado de Assis
Capítulo I
De uma idéia mirífica
Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.
— Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.
Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a idéia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo: — Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.
Capítulo II
Entre Deus e o Diabo
Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que engrinaldavam o recém-chegado, detiveram-se logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os olhos no Senhor.
— Que me queres tu? perguntou este.
— Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do século e dos séculos.
— Explica-te.
— Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros...
— Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.
— Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não acuseis de dissimulação... Boa idéia, não vos parece?
— Vieste dizê-la, não legitimá-la, advertiu o Senhor.
— Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta de ouvir o aplauso dos mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal exigência... Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental.
— Vai.
— Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?
— Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há tanto da tua desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja.
O Diabo sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma idéia cruel no espírito, algum reparo picante no alforje de memória, qualquer coisa que, nesse breve
instante de eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:
— Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa franja, e trazê- las todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda pura...
— Velho retórico! murmurou o Senhor.
— Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor, — a indiferença, ao menos, — com que esse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios que liberalmente espalha, — ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias à vida... Mas não quero parecer que me detenho em coisas miúdas; não falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda... Vou a negócios mais altos...
Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram no Senhor um olhar de súplica. Deus interrompeu o Diabo.
— Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os sinais vivos do tédio que lhes dás. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?
— Já vos disse que não.
— Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufrágio, ia salvar-se numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade. Nenhum público: a água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de algodão?
— Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega.
— Negas esta morte?
— Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los...
— Retórico e sutil! exclamou o Senhor. Vai, vai, funda a tua igreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens... Mas, vai! vai!
Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe silêncio; os
serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus cânticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um raio, caiu na terra.
Capítulo III
A boa nova aos homens
Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas.
— Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil e airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...
Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras cínica e deslavada.
Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: "Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu..." O mesmo disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons versos de Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Luculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor intrínseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de propriedades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.
As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloqüência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs.
Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: Muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada.
A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar que era um monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no absurdo e no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrado assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente.
E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de outra espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum salário, pois equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma exceção foi logo eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o respeito em simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele.
Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos, ódio ou desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que a noção de próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regime: "Leve a breca o próximo! Não há próximo!" A única hipótese em que ele permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra coisa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo. E como alguns discípulos achassem que uma tal explicação, por metafísica, escapava à compreensão das turbas, o Diabo recorreu a um apólogo: — Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas cada acionista não cuida realmente senão nos seus dividendos: é o que acontece aos adúlteros. Este apólogo foi incluído no livro da sabedoria.
Capítulo IV
Franjas e franjas
A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e vinham alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o tempo abençoou a instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo.
Um dia, porém, longos anos depois notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros.
A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de um droguista do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e, com o produto das drogas, socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de camelos, que tapava a cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à entrada de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia ali roubar o camelo de um drogomano; roubou-o, com efeito, à vista do Diabo e foi dá-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá. O manuscrito beneditino cita muitas outras descobertas extraordinárias, entre elas esta, que desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um calabrês, varão de cinqüenta anos, insigne falsificador de documentos, que possuía uma bela casa na campanha romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a meter- se na cama para não confessar que estava são. Pois esse homem, não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado a amizade de um cônego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa capela solitária; e, conquanto não lhe desvendasse nenhuma das suas ações secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se. O Diabo mal pôde crer tamanha aleivosia. Mas não havia que duvidar; o caso era verdadeiro.
Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de refletir, comparar e concluir do espetáculo presente alguma coisa análoga ao passado. Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse-lhe:
— Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.
Em tempos de capitalismo moderno, os ensinamentos do Diabo se tornaram
mais sedutores que os do filho de Deus, sua linguagem diabólica, atualizada por
meio de um vocabulário financeiro, se tornou mais adequada para dialogar com o
homem de negócios da sociedade capitalista - o qual parece ter enfim vendido sua
alma ao Diabo. Machado critica assim o seu contexto histórico e social, ao mesmo
tempo, que dialoga com a tradição europeia/ocidental, reproduzindo
irreverentemente suas páginas mais consagradas (Silva e Andrade, 2016)
Bibliografia
Teresinha V. Zimbrão da SILVA e Altamir Celio de ANDRADE. VERBO DE MINAS, Juiz de Fora, v. 17, n. 30. p. 60-70, ago./dez. 2016 – ISSN 1984-6959.





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