YAHWEH TINHA UMA ESPOSA?
O nome Aserá (ou Asherah/Asherim) aparece cerca de 40 vezes no Antigo Testamento da Bíblia Hebraica, geralmente associado a objetos de culto, mas em contextos que indicam sua adoração como uma deusa cananeia da fertilidade. Embora a Bíblia não a nomeie explicitamente como “esposa de Deus” (Yahweh) de forma direta e positiva, ela é frequentemente retratada como uma rival que foi adorada ao lado dele, especialmente antes das reformas monoteístas. [1, 2, 3, 4, 5]
O termo aparece tanto como referência à divindade (asera/aserá) quanto a objetos físicos, traduzidos muitas vezes como “postes sagrados” ou “bosques”. [1, 2]
Ashera
Introdução
A ideia de que o Deus de Israel, YAHWEH, teria uma esposa chamada Asherah é uma das questões mais fascinantes e debatidas na arqueologia bíblica e na história das religiões semíticas. Longe de ser uma afirmação teológica do judaísmo ou do cristianismo atuais, essa hipótese se baseia em evidências materiais e epigráficas da religião popular praticada no antigo Reino de Israel e Judá durante a Idade do Ferro (aproximadamente 1200–586 a.C.).
O que os especialistas encontraram não é uma “esposa de Deus” oficial, mas indícios robustos de que uma parcela significativa da população comum considerava Asherah, a grande deusa-mãe cananeia, como a consorte divina de Yahweh.
Yahweh (YHWH) e sua esposa.
1. O contexto ugarítico e a natureza de Asherah
Antes de analisar Israel, é crucial entender que Asherah já era uma figura bem conhecida no panteão cananeu. Em textos do segundo milênio a.C. descobertos na antiga cidade de Ugarit (na atual Síria), Asherah é descrita como “a progenitora dos deuses”, a grande deusa-mãe e esposa de El, a principal divindade do panteão. Os israelitas antigos emergiram do contexto cultural cananeu, e essa herança religiosa compartilhada é o pano de fundo para as tensões descritas na Bíblia.
2. As evidências arqueológicas: Kuntillet Ajrud
O principal achado que alimenta o debate vem de um local remoto no deserto do Sinai chamado Kuntillet Ajrud, datado do século VIII a.C. . Escavações lideradas por Ze'ev Meshel na década de 1970 encontraram grandes potes de armazenamento (pithoi) com inscrições e desenhos. Em uma dessas inscrições, lê-se claramente uma bênção: “Eu vos abençoo por Yahweh de Samaria e por sua Asherah”.
3. A inscrição de Khirbet el-Qom
A evidência não é isolada. Em uma tumba em Khirbet el-Qom, perto de Hebron, outra inscrição hebraica antiga do mesmo período menciona Yahweh e sua “Asherah”. O texto diz: “Abençoado seja Uriyahu por Yahweh... e por sua Asherah ele o salvou”. Estas duas descobertas são a base epigráfica mais sólida para a tese de que Asherah era cultuada ao lado de Yahweh.
4. O debate central: “sua Asherah” é uma Deusa ou um objeto?
A controvérsia se concentra na palavra hebraica ’srth (“asherah”). Ela pode ser um nome próprio (a deusa) ou um substantivo comum para um “poste de madeira” ou “árvore sagrada” usado no culto. O estudioso William Dever, autor de Did God Have a Wife? (Deus Tinha uma Esposa?), argumenta que o uso do pronome possessivo (“sua”) ao lado do nome pessoal de Yahweh indica uma relação pessoal, sugerindo que se tratava de uma parceira divina.
5. O lado oposto: “Santário” ou “Poste Sagrado”
Outros especialistas, como Émile Puech, rebatem que a mesma raiz linguística em fenício e aramaico pode significar “santuário”. Para eles, a frase significaria "Yahweh e seu santuário" . Além disso, a Bíblia Hebraica usa o termo “asherim” (plural) para descrever postes de madeira que os reis reformistas cortaram, mostrando que a palavra tinha um sentido material e cultual, não apenas pessoal.
6. O testemunho das figuras de barro (pílulas de fertilidade)
Independentemente da tradução da palavra, a arqueologia revelou centenas de estatuetas de barro de uma deusa com seios fartos e ventre proeminente em lares israelitas dos séculos X a VI a.C.. Essas figuras, associadas à fertilidade, são amplamente identificadas como representações de Asherah. Para o arqueólogo William Dever, isso prova que o culto a uma divindade feminina era uma prática comum na religião doméstica e popular, ao lado de Yahweh.
7. A religião oficial vs. a religião popular
A chave para entender o fenômeno é a distinção entre a religião “oficial” dos sacerdotes de Jerusalém (refletida em partes do Deuteronômio) e a religião “popular” do povo nas aldeias. A Bíblia está repleta de condenações aos cultos a "Asherah" (os postes) e a “Baal”. O fato de a Bíblia ter que condenar constantemente a adoração a Asherah é, ironicamente, a melhor evidência de que ela era, de fato, amplamente adorada.
8. A reforma de Josias e a censura
No final do século VII a.C., o rei Josias (2 Reis 23) liderou uma reforma religiosa centralizadora. O texto descreve que ele removeu do Templo de Jerusalém “o objeto feito para Aserá” (tradução comum) e destruiu os santuários . Os estudiosos acreditam que foi nesse período que os escribas “deuteronomistas” editaram os textos sagrados, transformando a deusa Asherah em um mero objeto de madeira para apagar seu status divino e estabelecer o monoteísmo radical exclusivo.
9. A “Rainha dos Céus” em Jeremias
Outro eco bíblico fascinante é a menção à “Rainha dos Céus” no livro de Jeremias (capítulo 7 e 44). O profeta briga com refugiados judeus que insistem em continuar queimando incenso para a “Rainha dos Céus”, dizendo que quando fizeram isso prosperaram.
Teólogas como Francesca Stavrakopoulou (Universidade de Exeter) defendem que esta “Rainha dos Céus” é uma sobrevivência do culto a Asherah, tentando ser erradicada pelos monoteístas.
10. O que os estudiosos concluem hoje?
Não há consenso de que Yahweh “tinha” uma esposa no sentido teológico, mas é majoritário o consenso de que muitos israelitas antigos acreditavam que ele tinha. Citando o estudioso Mark S. Smith, a evolução do Israel antigo foi de um “panteão” (com El, Yahweh e Asherah) para um “monoteísmo”. Hoje, estudiosos como Judith M. Hadley (The Cult of Asherah) e Saul M. Olyan (Asherah and the Cult of Yahweh) aceitam que as inscrições de Kuntillet Ajrud fornecem fortes evidências de que Asherah era vista como a parceira de Yahweh na religião popular do século VIII a.C.
Bibliografia
1) Dever, William G. Did God Have a Wife?: Archaeology and Folk Religion in Ancient Israel. Eerdmans, 2005.
2) Hadley, Judith M. The Cult of Asherah in Ancient Israel and Judah. Cambridge University Press, 2000.
3) Ehrman, Bart D. (Cursos). “Asherah in the Bible: Pole, Goddess, or Yahweh’s Wife?”
Biblical Archaeology Society. “Puzzling Finds from Kuntillet ‘Ajrud” e The BAS Library.
Universidade de Exeter (Francesca Stavrakopoulou). Reportagem BBC/Documentário.
Onde o nome aparece na Bíblia (Referências)
Juízes 3:7: Diz que os filhos de Israel serviram aos Baalins e às Aserás (mostrando que eram divindades).
1 Reis 18:19: Menciona os “quatrocentos profetas de Aserá” que comiam à mesa de Jezabel.
2 Reis 23:4-7: Relata que o rei Josias removeu os objetos feitos para Baal e para a Aserá do Templo em Jerusalém.
2 Reis 23:6: Menciona que uma Aserá (estátua/poste) foi queimada e transformada em pó.
Deuteronômio 16:21: Proíbe plantar qualquer árvore como Aserá junto ao altar do Senhor.
1 Reis 15:13 (e 2 Crônicas 15:16): Conta que o rei Asa depôs Maaca, sua mãe, por ela ter feito uma “abominável imagem” de Aserá. [1, 2, 3, 4, 5]
Aserá como “Esposa”
(Contexto histórico e arqueológico)
A ideia de Aserá ser esposa de Yahweh vem da interpretação arqueológica de inscrições encontradas fora da Bíblia, especificamente em Kuntillet 'Ajrud e Khirbet el-Qom (c. 800 a.C.), que contêm frases como “Eu te abençoo em nome de Yahweh e sua Aserá”. [1, 2]
Os arqueólogos acreditam que:
Ela era a consorte do deus supremo El na religião cananeia.
Quando Yahweh foi associado a El, a figura de Aserá foi, por algum tempo, associada a ele pelos adoradores.
Com o tempo, o monoteísmo estrito suprimiu essa associação, condenando o culto a Aserá. [1, 2, 3, 4]
Nota
Muitas versões antigas da Bíblia (como a King James) traduziram Asherah simplesmente como “bosque” ou “árvores”, ocultando o nome próprio da deusa em muitos versículos, o que foi corrigido em traduções mais modernas.

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