INÍCIO

12 junho 2022

ESTUPIDEZ E CONHECIMENTO


EFEITO DUNNING-KRUGER




SÓCRATES 



Sócrates (c. 470 a.C. – 399 a.C.) filósofo ateniense do período clássico da Grécia Antiga. Creditado como um dos fundadores da filosofia ocidental, é até hoje uma figura enigmática, conhecida principalmente através dos relatos em obras de escritores que viveram mais tarde, especialmente dois de seus alunos, Platão e Xenofonte, bem como pelas peças teatrais de seu contemporâneo Aristófanes.


Certamente todos nós conhecemos ou até já estivemos nesse papel: de uma pessoa com opinião  em diversas áreas do conhecimento, que apresenta uma grande convicção em tudo o que fala.

O Efeito Dunning-Kruger é o fenômeno pelo qual indivíduos com pouco ou nenhum conhecimento sobre um determinado assunto acreditam saber mais que que todos os outros, incluindo os mais bem preparados em suas áreas de pesquisa e conhecimento. 
Essa crença influencia nosso julgamento e faz com que tomemos decisões erradas e cheguemos a resultados indesejados. 

E o que impede de reconhecer que não sabemos nada?

Talvez a ignorância ou desconhecimento de que o conhecimento é mais vasto ou mais complexo, incompetência nossa de estabelecer um habito de leitura e de aprender constantemente e a todo momento, discutir com pessoas expert em outros campos e aceitar seus argumentos baseados em fatos, insegurança, nossa baixa auto estima etc...
Tudo isso nos impede de reconhecer nossos próprios erros, gerando uma sensação de superioridade que não é real. 

Pode ser bom para nosso ego mas no final das contas até para nosso ego será ruim. 

Essa característica de achar que sabe tudo tem nome e foi batizado como “efeito de Dunning-Kruger”. Esse efeito também é chamado por alguns pesquisadores de "efeito de superioridade ilusória".

Dizem Kruger e Dunning em seu artigo de 1999:

"As pessoas tendem a ter visões excessivamente favoráveis ​​de suas habilidades em muitos domínios sociais e intelectuais. Sugerimos que essa superestimação ocorre, em parte, porque as pessoas não qualificadas nesses domínios sofrem um fardo duplo: essas pessoas não apenas chegam a conclusões errôneas e fazem escolhas errôneas e infelizes, mas sua incompetência rouba-lhes a capacidade metacognitiva de realizá-la. Em 4 (quatro) estudos, descobrimos que os participantes que pontuaram no quartil inferior em testes de humor (capacidade de reconhecer sentimentos e emoções), gramática e lógica superestimaram grosseiramente seu desempenho e capacidade no teste. Embora seus resultados nos testes os colocassem no 12º percentil, eles se estimavam estar no 62º. Várias análises ligaram essa calibragem a déficits na habilidade metacognitiva, ou a capacidade de distinguir precisão de erro. Paradoxalmente, melhorar as habilidades dos participantes e, assim, aumentar sua competência metacognitiva, ajudou-os a reconhecer as limitações de suas habilidades.

People tend to hold overly favorable views of their abilities in many social and intellectual domains. The authors suggest that this overestimation occurs, in part, because people who are unskilled in these domains suffer a dual burden: Not only do these people reach erroneous conclusions and make unfortunate choices, but their incompetence robs them of the metacognitive ability to realize it. Across 4 studies, the authors found that participants scoring in the bottom quartile on tests of humor, grammar, and logic grossly overestimated their test performance and ability. Although their test scores put them in the 12th percentile, they estimated themselves to be in the 62nd. Several analyses linked this miscalibration to deficits in metacognitive skill, or the capacity to distinguish accuracy from error. Paradoxically, improving the skills of the participants, and thus increasing their metacognitive competence, helped them recognize the limitations of their abilities.


Kruger, J., & Dunning, D. (1999). Unskilled and unaware of it: How difficulties in recognizing one's own incompetence lead to inflated self-assessments. Journal of Personality and Social Psychology, 77(6), 1121–1134.

A seguir reuni uma coletânea de vídeos e artigos sobre esse assunto tão interessante e essencial nos dias atuais onde a pós-verdade e as "fake news" tomam conta das redes sociais e suscitam debates de assuntos há muito superados. 

A conclusão a que estas pessoas chegam, sem ter conhecimento seguro sobre o assunto em pauta e para qual  apresentam uma grande convicção  sempre é infeliz e errônea, o que é um resultado óbvio, uma vez que sem fatos verídicos e verificáveis nosso juízo não pode chegar a conclusões fidedignas. 
E assim, baseados em teorias conspiratórias advogam uma volta ao passado muito antes das ciências terem nos tirado da idade das trevas. 

O conservadorismo do patriarcado seus preconceitos e a incompetência em reconhecer suas próprias limitações e sua persistência nesse comportamento, diga-se de passagem, claramente excludente e produtor de desigualdade faz a infelicidade aumentar no mundo.
  


O efeito Dunning-Kruger
Você sabe mesmo tudo que pensa ou acha que sabe?(1
 
Quando eu ainda era estudante de Medicina, lembro de ter saído todo confiante de uma das primeiras aulas de Semiologia.

“Agora já sei examinar pacientes!”

Isso, depois de uma única aula teórica, de duas horas…

Hoje, vinte e muitos anos depois (e trabalhando como professor de Semiologia), é evidente para mim que toda aquela autoconfiança da época não era justificada.

Mas como eu não percebi isso na época? Como eu não consegui ver que o pouco que eu havia aprendido de Semiologia era só a pontinha do iceberg? Por que eu não me liguei que ainda havia muito mais a aprender?

Hoje, também sei explicar o que houve. Simplesmente, eu fui mais uma vítima do efeito Dunning-Kruger: a confiança exagerada dos incompetentes.


O suco de limão da invisibilidade



Em 6 de janeiro de 1996, McArthur Wheeler roubou dois bancos na cidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, em plena luz do dia. O mais interessante: não usou nenhuma máscara ou disfarce, e nem sequer tentou se esconder das câmeras de segurança.

Pouco depois, as filmagens das câmeras foram mostradas na TV. McArthur foi identificado e preso pouco menos de uma hora depois disso.

“Mas eu usei o suco de limão!” exclamou o ladrão, incrédulo, ao ser levado à delegacia.

Alguém havia dito a McArthur que esfregar suco de limão no rosto o tornaria invisível para as câmeras de segurança.

O próprio McArthur não acreditou muito nisso ao ouvir essa “dica” pela primeira vez. Por isso, antes de qualquer coisa, fez um experimento em si mesmo. Esfregou suco de limão no rosto e, com a pele e os olhos ardendo, tirou uma selfie com uma câmera Polaroid (era 1996). Qual não foi sua surpresa: seu rosto não apareceu na foto! Por isso, ele foi todo confiante roubar os bancos, certo de que não poderia ser identificado.

(Os detetives que o prenderam, depois de rir muito, concluíram que o filme da câmera devia estar estragado, ou que McArthur errou o enquadramento.)

A história foi publicada num jornal de Pittsburgh/EUA e chamou a atenção de David Dunning, um professor de psicologia da Universidade de Cornell. Como alguém poderia ficar tão confiante numa idéia tão absurda – e não ter a menor dúvida de que não daria certo?


Hipótese 

Dunning chamou um aluno, Justin Kruger, para investigar a idéia de que a confiança que as pessoas depositam no próprio conhecimento nem sempre tem a ver com a quantidade ou qualidade do conhecimento que elas de fato possuem.

Essa pesquisa explica por que eu achei que sabia tudo de Semiologia, depois de ver uma única aula, e por que McArthur Wheeler colocou tanta fé nos poderes de invisibilidade do suco de limão.


Ignorante demais para perceber a própria ignorância


David Dunning e Justin Kruger

Dunning e Kruger aplicaram testes em seus próprios alunos de psicologia para avaliar o quanto eles sabiam sobre assuntos diversos (humor, lógica e gramática) e o quanto eles se sentiam confiantes e competentes nessas áreas.

Os resultados confirmaram a impressão inicial de David Dunning: os alunos que menos sabiam sobre esses assuntos (ou seja, os mais incompetentes) também sentiam-se muito competentes, ou seja, eram incapazes de reconhecer a própria incompetência.

Além disso, os mesmos alunos tendiam a não reconhecer a competência de outras pessoas (achavam que eram mais competentes que outros indivíduos com mais conhecimento na área).

Em resumo: quanto mais incompetente você é em alguma área, menos você percebe sua incompetência, e mais confiante você se sente no seu (pouquíssimo) conhecimento.

Isso pode ser explicado pelo fato de que as habilidades que faltam a você naquela área são as mesmas habilidades que seriam necessárias para reconhecer o quão pouco você sabe sobre aquilo. É por isso que os ignorantes são tão confiantes: eles nem sequer fazem idéia do tanto de conhecimento que não possuem! Nem sabem o tanto que eles não sabem.

Isso também explica por que um indivíduo incompetente fica realmente surpreso, contrariado ou até ofendido quando descobre que estava errado. Ele tinha tanta certeza!


A maldição de saber muito: quanto mais conhecimento, menos certeza.

Por outro lado, pessoas que são realmente competentes em alguma área, com vasto conhecimento e experiência, tendem a ter uma confiança mais moderada nas suas capacidades. 

Os experts conseguem reconhecer melhor a vastidão do conhecimento na sua área e, comparativamente, os limites do seu próprio conhecimento.

Assim, é comum que, apesar de estarem corretos com mais frequência, as pessoas verdadeiramente competentes não têm tanta certeza disso. 

Quando são informados que acertaram, costumam reagir com um certo grau de “surpresa agradável”. 

Quando descobrem que erraram, ficam curiosos em entender o motivo do erro e agradecidos pela oportunidade de aprender algo novo.

No entanto, os experts em alguma área também tendem a apresentar um outro tipo de “cegueira”. Eles acham que as outras pessoas têm tanta competência que elas. Especialistas não costumam se dar conta da raridade das suas habilidades naquele campo, e acreditam que sabem a mesma coisa, ou apenas um pouco mais, que a média das pessoas comuns.

Ou seja: experts também têm excesso de confiança, mas, neste caso, voltada à competência das demais pessoas!




Resumindo: 
Pessoas incompetentes tendem a ter mais certeza e a superestimar suas habilidades, enquanto pessoas competentes tendem a ter mais dúvidas e a subestimar sua competência (e superestimar a dos demais).

Apesar do estudo de Dunning e Kruger ter sido publicado em 1999, esse conceito não é tão novo assim.

O próprio Charles Darwin já havia escrito, no século XIX:


"A ignorância gera confiança com muito mais frequência do que o conhecimento."

Charles Darwin (1809-1882) Naturalista e biólogo britânico




O efeito dunning-kruger na medicina

A seguir estão gráficos que mostram o efeito Dunning-Kruger. 





Na Medicina, não é diferente. Médicos que são realmente experts nas suas áreas, em geral, fazem hipóteses diagnósticas mais corretas, mas sem tanta certeza. Por outro lado, médicos novatos se acham “a última bolacha do pacote”: erram mais, mas com muita certeza nos seus palpites!

Um exemplo muito bom desse fato aparece num estudo feito por Friedman e colaboradores em 2005. Os autores apresentaram uma série de casos clínicos de diagnóstico difícil a um grupo de estudantes de Medicina, um grupo de residentes de Clínica Médica e um grupo de médicos atendentes e preceptores.

Primeiro, analisaram a acurácia diagnóstica (a taxa de acerto). Nenhuma novidade até aqui: os médicos atendentes, mais experientes, acertaram mais diagnósticos (50%) do que os residentes (44%) e os estudantes (26%).

Depois, analisaram um dado mais interessante: a discordância entre a percepção de confiança dos sujeitos (se eles achavam que tinham acertado ou não) e a acurácia diagnóstica (se eles haviam acertado ou não).

Os estudantes, menos experientes e mais conscientes das suas limitações, tenderam a subestimar suas habilidades de diagnóstico: em 75% dos casos em que a confiança e a acurácia eram discordantes, os alunos achavam que haviam errado quando, na verdade, tinham acertado.

Por sua vez, os residentes apresentaram a tendência oposta: em 59% dos casos de discordância, eles superestimaram suas habilidades (achavam que tinham acertado mas, na verdade, tinham errado).

Finalmente, os atendentes foram mais cautelosos: apesar de acertarem mais, mostraram subestimar sua competência em 64% dos casos de discordância entre a confiança e a acurácia.

Esses dados parecem reforçar as conclusões de Dunning e Kruger:pessoas que não têm conhecimento nenhum na área, como os estudantes, acabam errando bastante, mas têm consciência que erraram (sabem que não sabem);
pessoas que começaram a aprender alguma coisa na área, como os residentes, têm seu ego inflado pelo pouco de conhecimento que ganharam e passam a sentir-se extremamente confiantes nas suas habilidades, dificilmente reconhecendo seus erros (não sabem que não sabem);
pessoas que já têm bastante experiência, como os atendentes, tendem a ser mais humildes e a reconhecer a incerteza, pois conhecem bem os limites da sua própria expertise, apesar de serem mais competentes que os demais.

Portanto, se você é residente, cuidado! Você não é tão bom quanto você pensa. Ouça seus preceptores!

E se você é preceptor, cuidado! Fique de olho nos seus residentes (principalmente os R1).




Quem está sujeito ao efeito Dunning-Kruger?
R.: Todos nós


A resposta que é difícil de aceitar é bem curta e é: todos nós!

Por mais competente, experiente e brilhante que você seja em uma área de conhecimento (aquela na qual você é especialista), é impossível ser especialista em tudo! Tendo em vista a amplidão do conhecimento humano, todo indivíduo vai ter lacunas importantes de conhecimento em diversas áreas.

Por isso, muito cuidado quando você for dar opiniões ou tomar decisões relacionadas a alguma área de conhecimento que não seja da sua especialidade. (Que são praticamente todas exceto aquelas poucas às quais você realmente dedicou tempo e esforço para aprender.) Fora do seu campo de expertise, você está mais sujeito a erros diagnósticos!

Tenha a modéstia de reconhecer que você não sabe tanto assim sobre esse assunto (na verdade, muito do que você acha que sabe pode ser composto apenas de “senso comum”, preconceitos e idéias que você ouviu por aí.)

Tenha a humildade intelectual de reconhecer que há pessoas que entendem disso melhor que você.

E tenha cuidado em não ter tanta certeza assim! Quem tem muita certeza, erra mais.






O comportamento arrogante de certas pessoas, ganhou um nome oficial em 1999: efeito Dunning-Kruger. Homenagem a dois professores americanos de psicologia, David Dunning e Justin Kruger, que investigaram este fenômeno. A dupla conduziu um teste com voluntários que envolvia responder perguntas de lógica e gramática.

O “Efeito Dunning-Kruger” é o fenômeno pelo qual indivíduos que possuem pouco ou nenhum conhecimento sobre determinado assunto, acreditam saber mais que outros que conhecem bem mais sobre o tema, fazendo-os tomar decisões erradas e chegar a resultados muitas vezes desastrosos. Em outras palavras, são as “pequenas autoridades” que às vezes atravessam o nosso caminho e dificultam nossa tomada de decisões e resolução de problemas, geralmente muito simples ou pouco complexos. Fazem um verdadeiro “estrago”. Vejamos:

A ignorância se refere à falta de conhecimento: não é um termo pejorativo ou de julgamento. A palavra ignorante é um adjetivo que descreve uma pessoa em estado de consciência e pode descrever indivíduos que deliberadamente ignoram, desconsideram ou desconhecem informações e fatos acerca de um determinado assunto.

Costuma-se dizer que alguém é um sabe-tudo quando presume seus conhecimentos e cultura diante dos outros, mas na realidade isso se trata de atitude exagerada que não corresponde ao seu verdadeiro valor intelectual. Consequentemente, o sabe-tudo é uma pessoa pedante e arrogante, uma atitude socialmente desaprovada. Tal atitude é quase um mecanismo de defesa para ocultar o verdadeiro estado de ignorância. 

É mais ou menos isso que acontece: a pessoa não admite que desconhece determinado assunto e, além disso, inferioriza os demais, numa tentativa de esconder sua ignorância.

De um modo geral, as pessoas que dizem saber tudo, além de arrogantes e soberbas, acabam por se isolar no seu “pseudoconhecimento” e nas suas crenças, perdendo a oportunidade de ampliar esses conhecimentos e de encontrar outras opiniões acerca do mesmo assunto que são muito ricas do ponto de vista intelectual.

Este comportamento é extremamente inadequado e prejudicial para as relações humanas, sejam elas pessoais ou profissionais, mas para estas últimas, nosso principal foco, traz enorme desperdício de tempo, energia e recursos que poderiam ser mais bem aproveitados para solucionar questões mais pertinentes ao ambiente corporativo.

Estátua de Fénelon na fonte de Saint Sulpice, Paris.
François Fénelon, pseudônimo de François de Salignac de La Mothe-Fénelon (6 de agosto de 1651 – 7 de janeiro de 1715), também conhecido como ''o Cisne de Cambraia'' (le Cygne de Cambray), foi um teólogo católico, poeta e escritor francês, cujas ideias liberais sobre política e educação, esbarravam contra o "statu quo" da Igreja e do Estado dessa época. Pertenceu à Academia Francesa de Letras.

Uma frase de François Fénelon que ilustra muito bem a atitude atual de "expertise em tudo":

“Aquele que pensa que sabe muito, mas não sabe de nada, e a sua ignorância é tanta que nem sequer está em condições de saber aquilo que lhe falta. Muitas vezes nossos erros nos beneficiam mais do que nossos acertos.”







Fontes


































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