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Não existem dois lados na ciência
Tatiana Roque
O Globo
Nos acalorados debates envolvendo a ciência, têm surgido alertas lembrando que o fazer científico lida com dúvidas e controvérsias — e não apenas com verdades definitivas. Só que o trabalho de cientistas visa a obter certezas, ou seja, procura ultrapassar a dúvida em busca de teorias estáveis, por meio de métodos e protocolos definidos e empregados por uma comunidade de pessoas treinadas para isso. Negacionistas tentam fazer justamente o contrário: inocular a dúvida em verdades estabelecidas. Trata-se de um movimento com fins políticos, estudado e documentado por pesquisas sérias, como o livro “Os mercadores da dúvida” (que deu origem a uma CPI no Congresso dos Estados Unidos).
Não podemos ser ingênuos ao lidar com esses movimentos. Claro que a ciência preza as perguntas, mas como ponto de partida na produção de consensos que devem ser validados por uma ampla gama de cientistas. O que garante a estabilidade da verdade científica são as verificações, o tempo decorrido desde que ela foi enunciada e a quantidade de pessoas especializadas em contestar cada um dos detalhes. Tendo resistido, os resultados podem figurar como verdadeiros. Por isso não se pode afirmar que a Terra é plana.
A pandemia foi um desafio para os cientistas, pois expôs ao debate público pesquisas em via de elaboração, diferentes dos resultados que costumam ser exibidos em programas de divulgação científica.
“Está em jogo uma disputa de autoridade sobre quem pode proferir enunciados científicos para embasar políticas públicas.”
Agora, o padrão de testes sobre medicamentos e vacinas é debatido no YouTube, artigos não revisados são divulgados no Twitter. É bom ou ruim? Se fosse apenas uma manifestação de interesse mais amplo pela ciência, seria bom. Mas está em jogo uma disputa de autoridade sobre quem pode proferir enunciados científicos para embasar políticas públicas. E essas políticas podem ter consequências letais.
Sem dúvida, a ciência deve se comunicar mais e melhor. Mas uma coisa é ela se comunicar, outra é dar a negacionistas a dignidade de interlocutores válidos. Muitos falsos cientistas são porta-vozes de interesses políticos em semear a dúvida contra consensos estabelecidos.
Qualquer um pode fazer ciência? Sim, desde que passe pelo treino necessário. Por isso, o acesso à universidade deve ser democrático. Isso não tem nada a ver com dar espaço para charlatães.
A vitimização desses tipos tem se tornado tão comum que ganhou um nome: o gambito de Galileu. Trata- se da comparação com o italiano de qualquer um que se diga na contramão da ciência estabelecida.
No meio de tanta cacofonia, é útil notar que a dúvida vem sendo usada como arma (em inglês há um termo para isso: weaponization). Técnicas de contra-argumentação ganham escala mundial (e crescem pari passu com a extrema direita) porque a instrumentalização da controvérsia com fins políticos é uma tática.
Diante disso, a comunidade científica não pode hesitar em defender sua autoridade. Sem arrogância, pois empáfia nunca foi um modo profícuo de conquistar autoridade. Mas sem concessões tampouco a falsificações do pluralismo, como nas injunções para que “os dois lados sejam ouvidos”.
Não há dois lados na ciência. Há muitos lados enquanto a ciência é feita, como no caso das vacinas contra Covid-19, mas, para participar dessa elaboração, é preciso cumprir pré-requisitos e exibir credenciais (treino especializado e formação em instituições qualificadas). No caso da ciência já feita, quando se trata de uma teoria científica estável, como a evolução ou o formato da Terra, só existe um lado mesmo.
Tatiana Roque é coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ.
A Revolta da Vacina
Em meados de 1904, chegava a 1.800 o número de internações devido à varíola no Hospital São Sebastião. Mesmo assim, as camadas populares rejeitavam a vacina, que consistia no líquido de pústulas de vacas doentes. Afinal, era esquisita a idéia de ser inoculado com esse líquido. E ainda corria o boato de que quem se vacinava ficava com feições bovinas.
No Brasil, o uso de vacina contra a varíola foi declarado obrigatório para crianças em 1837 e para adultos em 1846. Mas essa resolução não era cumprida, até porque a produção da vacina em escala industrial no Rio só começou em 1884. Então, em junho de 1904, Oswaldo Cruz motivou o governo a enviar ao Congresso um projeto para reinstaurar a obrigatoriedade da vacinação em todo o território nacional. Apenas os indivíduos que comprovassem ser vacinados conseguiriam contratos de trabalho, matrículas em escolas, certidões de casamento, autorização para viagens etc.
Após intenso bate-boca no Congresso, a nova lei foi aprovada em 31 de outubro e regulamentada em 9 de novembro. Isso serviu de catalisador para um episódio conhecido como Revolta da Vacina. O povo, já tão oprimido, não aceitava ver sua casa invadida e ter que tomar uma injeção contra a vontade: ele foi às ruas da capital da República protestar. Mas a revolta não se resumiu a esse movimento popular.

Toda a confusão em torno da vacina também serviu de pretexto para a ação de forças políticas que queriam depor Rodrigues Alves – típico representante da oligarquia cafeeira. “Uniram-se na oposição monarquistas que se reorganizavam, militares, republicanos mais radicais e operários. Era uma coalizão estranha e explosiva”, diz o historiador Jaime Benchimol.
Em 5 de novembro, foi criada a Liga Contra a Vacinação Obrigatória. Cinco dias depois, estudantes aos gritos foram reprimidos pela polícia. No dia 11, já era possível escutar troca de tiros. No dia 12, havia muito mais gente nas ruas e, no dia 13, o caos estava instalado no Rio. “Houve de tudo ontem. Tiros, gritos, vaias, interrupção de trânsito, estabelecimentos e casas de espetáculos fechadas, bondes assaltados e bondes queimados, lampiões quebrados à pedrada, árvores derrubadas, edifícios públicos e particulares deteriorados”, dizia a edição de 14 de novembro de 1904 da Gazeta de Notícias.
Tanto tumulto incluía uma rebelião militar. Cadetes da Escola Militar da Praia Vermelha enfrentaram tropas governamentais na rua da Passagem. O conflito terminou com a fuga dos combatentes de ambas as partes. Do lado popular, os revoltosos que mais resistiram aos batalhões federais ficavam no bairro da Saúde. Eram mais de 2 mil pessoas, mas foram vencidas pela dura repressão do Exército.
Após um saldo total de 945 prisões, 461 deportados, 110 feridos e 30 mortos em menos de duas semanas de conflitos, Rodrigues Alves se viu obrigado a desistir da vacinação obrigatória. “Todos saíram perdendo. Os revoltosos foram castigados pelo governo e pela varíola. A vacinação vinha crescendo e despencou, depois da tentativa de torná-la obrigatória. A ação do governo foi desastrada e desastrosa, porque interrompeu um movimento ascendente de adesão à vacina”, explica Benchimol. Mais tarde, em 1908, quando o Rio foi atingido pela mais violenta epidemia de varíola de sua história, o povo correu para ser vacinado, em um episódio avesso à Revolta da Vacina.
Fonte: Agência Fiocruz de Notícias.
Bibliografia
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