A ARTE BOA É ENGANOSA
Jogo de cartas
“Os jogadores de cartas” não compõem um quadro único, mas uma série de cinco pinturas de Paul Cézanne, elaboradas em seu período final de atividade na década de 1890. São bons exemplos da maestria de Cézanne em simplificar a imagem e a representação do corpo humano, numa fase pós-impressionista que viria a abrir o caminho para a desconstrução do século XX. Os ambientes de fundo são diversos, mas o tema central é comum a todas as obras: homens em volta de uma mesa, jogando cartas de forma totalmente concentrada. Crê-se que alguns dos personagens representados seriam trabalhadores da família do próprio Cézanne.
Paul Cézanne, 1892-95, Les joueurs de carte (The Card Players), 60x73cm,
oil on canvas, Courtauld Institute of Art, London.
As cinco obras da série estão espalhadas por quatro coleções de museus, entre a França, Grã-Bretanha, Estados Unidos e, ainda, uma coleção privada no Qatar (Machado, 2020).
Os quadros
“Jogadores de Carta” na verdade é uma série pintadas por Cézanne constituída por cinco quadros, finalizada em 1905. E foi um dos seus últimos trabalhos, uma vez que faleceu em 1906.
É provável que Cézanne tenha se inspirado em uma tela do século XVII dos irmãos Le Nain exposta em um museu da sua cidade natal, Aix-en-Provence. Já que esse tema não era popular na época de Cèzanne.
Em nenhum dos quadros existe temporalidade, porque não há ação. Não existe troca de olhares, emoções estampadas em seus rostos, os personagens simplesmente estão ali. O tempo parece ter congelado ou cristalizado, que dá a sensação de que não esta passando. Para alguns críticos, Cézanne chegou a converter essas cenas de gênero em cenas de natureza morta, mas o que ele pretendia segundo um de seus primeiros críticos, Richard Shiff, era simplesmente não categorizar os elementos dentro da cena. (Camargo s/d).
Parece que Cézanne procurou abandonar o naturalismo no desenho ou na cor e a rejeição da construção em perspectiva, a própria representação podendo ser concebida de novo como uma linguagem de signos ou como vestígio expressivo da experiência subjectiva do artista e do expectador-fruidor.
Nessas obras se evidencia como o artista abriu caminhos para os subsequentes “ismos” dos movimentos século XX, como o suprematismo, o cubismo e o dadaismo, e futurismo.
Suas figuras mais alongadas podem ter sido a base do que viria a fazer mais tarde Modigliani com as suas figuras humanas alongadas e languidas. A sua simplificação das formas humanas inspiraram Braque e Picasso no desenvolvimento o cubismo. Picasso afirmou que "Cézanne é o pai de todos nós". Braque conheceu pessoalmente a Cézanne e dizia sobre ele: “Ele atou sua vida em sua arte, sua arte em sua vida”. "Esta (arte) é a própria vida, sem exagero ou embelezamento teatral. E não é realista porque tudo é reforçado pela cor e desenho. Estes jogadores de cartas estão em pé de igualdade com as mais belas obra de arte do mundo." (Modif. Camargo s/d).
Há controvérsias sobre qual obra Cézanne pintou primeiro e qual teria sido a sequência de criação das obras. Inicialmente, nos últimos 50 anos, a teoria que era a mais aceita foi a de que ele teria iniciado pintando primeiro as telas com maior número de personagens, e daí então tivesse avançado para uma refinação da composição em escala, até chegar nas telas menores com apenas duas figuras, trancadas em seu próprio mundo onde não há nenhuma ação apenas o pensamento na próxima jogada de cartas. Para isso ele teria reduzido o número de figuras na composição, tornando as figuras mais monumentais e monolíticas.
Todavia estudos exaustivos nos ultimos anos usando raios X, luz infravermelha e estudos comparativos da técnica de composição, que mostrou o desenho (underdrawing) por baixo da superfície da pintura. Desta forma, emergiu outra teoria pela qual ele teria iniciado pelas telas menores com apenas duas figuras, explorando a composição e a partir dai escalonou a composição em tamanho até chegar nas composições maiores e mais monumentais desse assunto. Fazendo isso ele desenvolveu uma técnica mais fluida e a composição torna-se mais fácil para ele.
Ao repetir o desenho não menos do que três vezes, Cézanne buscou refinar e monumentalizar sua composição dos jogadores de carta, tentando expressar essa atitude contemplativa desses dois homens, trancados nesse ritual antigo de seu jogo de cartas, fazendo com que as figuras e o desenho subjacente tenham encontrado seu centro de gravidade não podendo ser movidas mais dali.
Ele reverberou a técnica que usou para pintar a paisagem de Aix-em-Provance, que apresenta uma monumentalidade natural, e de um ponto se pode ver o todo ao redor.
Reinterpretando a tradição
São várias as linhas de análise sobre estes trabalhos de Paul Cézanne. A mais convencional aponta que ele veio recuperar uma tradição da pintura holandesa do século XVII. Trata-se do tema dos jogadores de taverna, frequentemente embriagados em um ambiente aparentando decadência e grosseria. Entretanto, sua interpretação é totalmente diferente: os jogadores em geral são apresentados de forma bem sóbria, focados em seu jogo e sem sinais de festa ou agitação. Em algumas das telas é até visível uma garrafa de vinho não aberta, reforçando a ideia de sobriedade. Se Cézanne estivesse trabalhando em nossos dias, poderíamos especular que mostraria alguém jogando um jogo de caça níquel, mas da forma menos emotiva possível, colocando moedas de forma repetitiva e mecânica. Quase como quem joga pôquer. Trazido para os nossos dias, torna-se evidente o paradoxo entre uma atividade habitualmente frenética e a atitude sóbria e fleumática com que ela é desempenhada (Machado, 2020).
Uma das versões de “Os Jogadores de Cartas” foi propriedade de George Embiricos (1920-2011), um magnata e armador grego ligado à construção naval.
Embiricos, estabelecido profissionalmente nos Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial, foi um apaixonado pela arte. Colecionou obras de gigantes da pintura ocidental e mundial como Kandinsky, Goya, Picasso, El Greco e Van Gogh. Suas pinturas estavam conservadas em sua casa, na Suíça. Uma das últimas decisões de Embiricos em vida foi a venda, em 2011, da referida versão de “Os Jogadores de Cartas”. O comprador foi a família real do Qatar, que pagou cerca de 250 milhões de dólares (R$ 1,3 bilhões ao câmbio de hoje). O negócio constituiu um recorde à época, sendo mais tarde superado por “Interchange”, de Willem de Kooning, vendido por 300 milhões de dólares em 2015. Ambos os negócios foram superados pela venda de Salvator Mundi, de Leonardo da Vinci, em 2017, por 450 milhões de dólares (Machado, 2020).
TAROTH
O tarot ou, na sua forma aportuguesada, tarô é um oráculo e baralho de uso recreativo e esotérico utilizado majoritariamente no século XVIII, geralmente composto por 78 cartas. Há relatos de seu uso pela nobreza italiana desde o período renascentista e suas regras oficiais são publicadas pela Federação Francesa de Tarot. Desde o século XVIII as cartas passaram a ser usadas para a previsão do futuro e desde fins do século XIX elas integram o cerne do esoterismo moderno juntamente com a cabala, a astrologia e a alquimia.
História
As cartas de tarô surgiram entre os séculos XV e XVI no norte da Itália, e foram criadas para um jogo de mesmo nome, que era jogado pelos nobres e pelos senhores das casas mais tradicionais da Europa continental.
O tarô (também conhecido como tarot, tarocco, tarocchi, tarocchini, tarock e outros nomes semelhantes) é constituído por um conjunto de setenta e oito cartas composto por vinte e um trunfos, um Curinga e quatro conjuntos de naipes com quatorze cartas cada, dez cartas numeradas e quatro figuras (uma a mais por naipe que o baralho lusófono).
As cartas de tarô são muito usadas na Europa em jogos de cartas, como o Tarocchini italiano e o Tarot francês. Nos países lusófonos, onde esse jogo é bastante desconhecido, as cartas de tarô são usadas principalmente para uso divinatórios, para o qual os trunfos e o curinga são conhecidos como arcanos maiores e as cinquenta e seis cartas de naipe são arcanos menores.
Os significados divinatórios são derivados principalmente da Cabala, vertente mística do judaísmo, e da alquimia medieval. Atualmente, o Tarot obtém expressão nas mais diversas áreas, sendo um instrumento de estudo e uso até pela Psicologia. Carl Gustav Jung, renomado psicólogo do século XX, falou em Arquétipo (imagens arcaicas), imagens da memória coletiva ancestral que estão dentro de nossos inconscientes e que podem ser ativadas por determinado Símbolo, que revigora e traz à tona toda a carga emocional que a imagem possui em si e que nos toca profundamente.
As cartas do Tarot são vistas então como ilustrações sobre os anseios da alma humana, uma espécie de história em quadrinhos sobre os nossos dramas.
Cego é um jogo de Tarô para três ou quatro jogadores, jogado com as cartas do Tarô Alemão de mesmo nome. O jogo provavelmente foi derivado de Dreierles depois que os soldados voltaram da Espanha durante as Guerras Napoleônicas, que introduziram sua característica distintiva: a grande garra chamada "o Cego". Cego é conhecido como o jogo nacional de Baden.
Às vezes chamado de Baden Tarock (Badisches Tarock), historicamente também Zego, Caeco e Ceco (do latim: cecus, que significa cego), Cego é visto como parte do patrimônio cultural da Floresta Negra e da região de South Baden. Após a derrota da Áustria, em 1805, grande parte de seu território foi alocado ao Grão-Ducado de Baden. Durante as Guerras Napoleônicas que se seguiram, os soldados de Baden se destacaram com as tropas de Napoleão para a Espanha, onde, entre outras coisas, aprenderam um novo jogo de cartas, Ombre. Pesquisas recentes sugerem que eles levaram elementos deste jogo de volta a Baden e modificaram o jogo de Tarô de Dreierles, que era jogado com cartas de Tarock que ainda eram de uso popular no sul da Alemanha. O resultado foi o jogo Cego que se tornou suficientemente popular para se desenvolver no jogo nacional de Baden e Hohenzollern e essas são as únicas regiões da Alemanha onde as cartas de Tarô ou Tarock ainda são usadas para jogar (WP).
Ao longo da história, desde sua concepção aos dias atuais, o taroth tem sido apresentado em vários estilos. Da esquerda para a direita: baralho Visconti Sforza; baralho de Jean Dodal; Baralho de Cary-Yale (crédito: Alamy).
O jogo de cartas apareceu na Europa cristã no século XIV, porém sua origem é desconhecida. O primeiro registro dada de 1367, em Berna, Suíça e parecem ter se espalhado rapidamente por toda Europa, como pode ser visto nos registros, principalmente de jogos de cartas sendo proibidos.
Pouco se sabe sobre a aparência e o número dessas cartas; a única informação significativa é fornecida por um texto de John de Rheinfelden em 1377 de Freiburg im Breisgau (Baden-Württemberg), que, além de outras versões, descreve o baralho básico como contendo os ainda atuais 4 naipes de 13 cartas, sendo as cortes geralmente o Rei, Ober and Unter ("marechais"), embora Damas (Ladies) e Rainhas já fossem conhecidos. Um dos primeiros padrões de cartas que evoluiu foi aquele com os naipes de Bastões ou Paus, Ouros, Espadas e Copas. Esses naipes ainda são usados em baralhos de cartas tradicionais italianos, espanhóis e portugueses.
Os primeiros conjuntos de cartas de tarô documentados foram registrados entre 1440 e 1450 em Milão, Ferrara, Florença e Bolonha, quando trunfos adicionais com ilustrações alegóricas foram adicionados ao pacote comum de quatro naipes. Esses novos baralhos foram chamados de carte da trionfi, cartas de triunfo e as cartas adicionais conhecidas simplesmente como trionfi, que se tornaram "trunfos" em inglês. A documentação mais antiga de trionfi é encontrada em uma declaração escrita nos autos do tribunal de Florença, em 1440, a respeito da transferência de dois baralhos para Sigismondo Pandolfo Malatesta.
As cartas de tarô mais antigas que sobreviveram são as cerca de 15 baralhos de tarô Visconti-Sforza pintados em meados do século 15 para os governantes do Ducado de Milão.
Um pacote perdido em forma de tarô foi encomendado pelo duque Filippo Maria Visconti e descrito por Martiano da Tortona provavelmente entre 1418 e 1425, já que o pintor que ele menciona, Michelino da Besozzo, retornou a Milão em 1418, enquanto o próprio Martiano morreu em 1425.
Ele descreveu um baralho contendo 60 cartas, 16 cartas com imagens dos deuses gregos e romanos e naipes representando quatro tipos de pássaros. As 16 cartas foram consideradas "trunfos", pois em 1449 Jacopo Antonio Marcello lembrou que o já falecido duque havia inventado um gênero "...novum quoddam et exquisitum triumphorum", ou "um novo e requintado tipo de triunfo".
Em Florença, era usado um baralho (deck of cards) expandido chamado Minchiate. Este baralho continha 97 cartas que incluíam símbolos astrológicos e os quatro elementos, bem como motivos tradicionais do tarô.
Embora um pregador dominicano tenha investido contra o mal inerente às cartas (principalmente devido ao seu uso no jogo) em um sermão no século XV, nenhuma condenação rotineira devido ao uso do tarô foi encontrada durante sua história inicial.
Como as primeiras cartas do tarô eram pintadas à mão, acredita-se que o número de baralhos produzidos tenha sido muito pequeno. Foi somente após a invenção da imprensa (pelo alemão Johannes Gutenberg (1398-1468); ele desenvolveu a primeira prensa feita com tipos móveis por volta de 1439-1440) que a produção em massa de cartões se tornou possível.
A expansão do tarô para fora da Itália, primeiro para a França e a Suíça, ocorreu durante as guerras italianas (as guerras italianas, muitas vezes chamadas como as Grandes Guerras da Itália e às vezes como as Guerras Habsburgo-Valois, foram uma longa série de guerras travadas entre 1494 e 1559 na Itália durante o Renascimento. A península italiana, economicamente avançada, mas politicamente dividida entre vários estados, tornou-se o principal campo de batalha pela supremacia europeia). O padrão de tarô mais importante usado nesses dois países (FR e SW) era o Tarô de Marselha, de origem milanesa.
Jogo
O propósito original das cartas de tarô era para jogar. Uma explicação muito superficial das regras para um baralho parecido com o tarô é dada em um manuscrito de Martiano da Tortona antes de 1425. Descrições vagas do jogo ou terminologia do jogo seguem pelos próximos dois séculos até a mais antiga descrição completa conhecida das regras para uma variante francesa em 1637. O jogo de tarô tem muitas variações regionais.
Tarocchini sobreviveu em Bolonha e ainda há outros disputados no Piemonte e na Sicília, mas na Itália o jogo é geralmente pouco popular. O século XVIII viu um grande renascimento do tarô, durante o qual se tornou um dos jogos de cartas mais populares da Europa, jogado em todos os lugares, exceto na Irlanda e na Grã-Bretanha, na Península Ibérica e nos Balcãs Otomanos.
O tarô francês experimentou outro renascimento no início dos anos 1970 e a França tem a comunidade de tarô mais forte. Os jogos de tarô regionais, geralmente conhecidos como tarock, tarok ou tarokk são amplamente jogados na Europa Central, dentro das fronteiras do antigo império austro-húngaro.
Resumo
As primeiras fontes europeias descrevem um baralho com normalmente cinquenta e duas cartas, como o baralho moderno, e sem curingas.
O tarô de setenta e oito cartas resultou da adição de vinte e um trunfos numerados mais um sem número (o curinga) à variante de cinquenta e seis cartas (quatorze cartas cada naipe).
A expansão do uso dos jogos de cartas na Europa pode ser estimada por volta de 1377, a partir daí as cartas de tarô parecem ter-se desenvolvido por volta de quarenta anos.
CONTINUARÁ...
Bibliografia
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