INÍCIO

12 setembro 2021

RAÍZES DO FASCISMO

 As raízes do fascismo 


Hoje li alguns textos importantes de Clara Zetkin sobre o fascismo de cada dia e gostaria de compartilhar com todos que pensam e usam a razão e que buscam entender os acontecimentos contemporâneos. Quem quiser e tiver tempo para ler… sintam-se a vontade. 
Clara Zetkin uma importante e essencial lutadora no campo progressista, viu o fascismo nascer e morrer. 

Assim, o fascismo tupiniquim, que historicamente vem à luz, i.e., foi chocado nos subterrâneos recessos das mentes dos ignorantes da classe média e da elite, apareceu à 7 de outubro de 1932 fundado pelo escritor e jornalista brasileiro Plínio Salgado. 

Atualmente ele vem dos desarranjo do capitalismo que iniciou na muitas crises do século XX. A atual  são os desdobramentos de 2008, no mundo e 2013 no Brasil. 

No Brasil ainda vivíamos em governo progressista que tamponou seus efeitos venenosos. Mas não tardaria, para percebermos que em 2013 se iniciava as convulsões de seu nascimento, culminando com o golpe de 2016, onde uma presidente legitimamente eleita foi afastada do cargo pelos representantes do neoliberalismo selvagem triturador da vida e sanguessuga do estado. 

Elites escravocratas, extrativistas ignorantes, capachos de potências imperialistas, aristocracia de servidores públicos castrense e da justiça, investiram seu capital para ganhar mais e mais e assim acumular mais poder (e capital) às custas do trabalhador que se viu mergulhado na desregulamentação do trabalho, (na reforma trabalhista) e no extermínio da aposentadoria (reforma da Previdência). 

Usando a desfaçatez de sempre vieram com a mentira do momento dizendo, os representantes das elites: “é só tirar a Dilma que tudo melhora”. 

TUDO, mas TUDO mesmo; piorou. Eu assisti a decadência de todos os programas de transferência de renda, da dignidade do ser humano, programas como “farmácia popular”, minha casa minha vida, programa mais médicos,  desapareceram do horizonte. 

O que aumentou foram as pessoas em situação de rua, pedintes reviram os contêiners de lixo todos os dias muitas vezes por dia, aglomerações em frente aos shoppings e supermercados, implorando ajuda, milhões de pessoas passando fome.
 
Essa realidade nociva se instalou pressionada pelo neoliberalismo de Guedes, e um sem número de parlamentares representantes das elites ignorantes, que se elegeram graças a outro golpe: o afastamento do campo progressista do pleito de 2018. 

Aí há mais um capítulo do desdobramento do golpe o maior caso de lawfare do século contra o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva. Além disso, uma máquina monstruosa de produção de “fake news” e discursos de ódio nas redes sociais espalhadas pelos candidatos que venceram o pleito. E a justiça não tem se pronunciado a respeito. 

E tudo isso iniciou com o autoritarismo contra exposições de arte, espetáculos e com movimentos contra as universidades, contra a ciência, contra o conhecimento, contra a razão. 

Essas são as características do fascismo brasileiro, ligado a conservadores, sectários, da elite acolitados pela classe média, pequenos burgueses, donos de terra e funcionários públicos, principalmente militares de todas as patentes, até professores universitários e judiciário.  

A elite, os burgueses e pequenos burgueses, bem como camadas da classe média embaraçaram nesse pseudo-plano imaginando ou esperando que no posto de presidente, esse candidato se adaptasse à liturgia do cargo e aí fazer as ditas reformas, o capital jorraria para seus bolsos. Por isso os programas sociais desapareceram. Mas estamos vendo que até mesmo quem chegou na classe média está caindo de volta para a pobreza devido a inflação que assola a todos. 
 
Quando a extrema-direita ganhou, mercado, a elite, a casa grande, a Avenida Faria Lima, seja qual for o nome que se dê a essa entidade etérea que mantém as rédeas do país desde sempre; pressionou para que as “reformas” que contrariam nossa Constituição Cidadã retirando direitos que garantem a dignidade mínima aos trabalhadores, fossem aprovadas. 

As reformas estão sendo feitas mas a economia e a perspectiva de crescimento econômico desapareceu de vista e do futuro. Desapareceu porque não há nenhum programa de governo ou plano estratégico para assegurar o desenvolvimento do país como um todo juntamente com sua população. 

O desmatamento da Amazônia e da mata Atlântica está a todo vapor, junto com o extermínio dos povos originários por violência, envenenamento das águas, e vírus. Estamos sentindo no sul do Brasil os efeitos dessa destruição em larga encala do ambiente que regula as chuvas e as estações do ano. Essa ideologia nociva da extrema direita neoliberal está destruindo o povo brasileiro. 

Vamos ao texto escrito por Clara Zetkin, que em vida viu nascer e morrer o fascismo italiano e sua versão alemã, o nazismo, ambos de extrema direita.  

Clara Zetkin (1857-1933)

Antes, uma sucinta biografia. Clara Josephine Zetkin, nascida Eißner, teórica marxista alemã, ativista comunista e defensora dos direitos das mulheres. 
Até 1917, ela foi ativa no Partido Social Democrata da Alemanha. Ela então se juntou ao Partido Social-democrata Independente da Alemanha (USPD) e sua extrema esquerda, a Liga Espartaquista. Mais tarde, este se tornou o Partido Comunista da Alemanha (KPD), que ela representou no Reichstag durante a República de Weimar de 1920 a 1933. Ela tem sido reconhecida com uma figura histórica do feminismo. Foi uma das fundadores e dirigentes do Socorro Vermelho Internacional.

Clara Zetkin, Clara Josephine Eissner a mais velha de três filhos nasceu em Wiederau, uma aldeia camponesa na Saxônia, agora parte do município Königshain-Wiederau. Seu pai, Gottfried Eissner, era professor, organista de igreja e devoto protestante, enquanto sua mãe, Josephine Vitale, tinha raízes francesas, vinha de uma família de classe média de Leipzig e era altamente educada. Em 1872, sua família mudou-se para Leipzig, onde ela foi educada no Colégio de Professores para Mulheres de Leipzig. Enquanto estava na escola, ela estabeleceu contatos com o jovem Partido Social Democrata alemão, Sozialdemokratische Partei Deutschlands (SPD;). 
Por causa da proibição imposta à atividade socialista na Alemanha por Bismarck em 1878, Zetkin partiu para Zurique em 1882 e depois se exilou em Paris, onde estudou jornalismo e tradução. 

Durante sua estada em Paris, ela desempenhou um papel importante na fundação do grupo Internacional Socialista. Ela também adotou o nome de seu marido, o judeu russo Ossip Zetkin, um marxista devoto, com quem teve dois filhos, Maxim e Konstantin (conhecido como Kostja). Ossip Zetkin ficou gravemente doente no início de 1889 e morreu em junho daquele ano. Após a morte de seu marido, Zetkin mudou-se para Stuttgart com seus filhos. 
Aí, casou-se novamente com o artista Georg Friedrich Zundel, 18 anos mais novo que ela.



Texto 1


Eis o texto de Clara Zetkin. 

Origem do fascismo 

“Especificamente, vemos o fascismo como uma expressão da decadência e desintegração da economia capitalista e como um sintoma da dissolução do Estado burguês. Só podemos combater o fascismo se nos atentarmos para o fato de que ele desperta e arrasta consigo amplas massas sociais que perderam a segurança sobre a garantia de sua existência e, com isso, a sua crença na ordem social.


As raízes do fascismo estão, de fato, na dissolução da economia capitalista e do Estado burguês. Já havia alguns sintomas da proletarização de camadas burguesas no capitalismo pré-guerra. A guerra destruiu a economia capitalista a partir de suas bases. Isso é evidente não apenas pelo empobrecimento assustador do proletariado, como também pela proletarização de amplas massas pequeno e médio burguesas, na situação de calamidade entre os pequenos camponeses e na aflição melancólica da “intelligentsia”.


O transtorno dos "intelectuais" é ainda mais severo dado que o capitalismo pré-guerra tomou medidas para produzi-los em excesso. Os capitalistas queriam estender massivamente a oferta de força de trabalho para o campo do trabalho intelectual e, então, estimular uma competição desgovernada que terminaria por diminuir os salários. 

Desses círculos é que o imperialismo recrutou grande parte de seus campeões ideológicos para a Guerra Mundial. Atualmente todas essas camadas estão encarando o colapso das esperanças que elas depositaram na guerra.


O que pesa acima de tudo sobre elas é a falta de segurança para sua subsistência básica, que ainda tinham antes da guerra


Não baseio essas conclusões nas condições da Alemanha, onde os intelectuais burgueses se deparam com condições de extremo empobrecimento que são muitas vezes mais severas do que a miséria dos trabalhadores. Não, veja a Itália, da qual falarei brevemente: a ruína da economia foi decisiva para que as massas aderissem ao fascismo naquele país. Considere outro país que, em contraste com outros Estados europeus, saiu da Guerra Mundial sem grandes convulsões: o Reino Unido. A imprensa e os debates públicos falam, praticamente com a mesma ênfase, tanto da agonia nos "novos pobres" como dos lucros gigantes e da suntuosidade dos poucos "novos ricos".

Nos Estados Unidos, o movimento de agricultores dá respostas ao crescente descontentamento de uma larga camada social. As condições das camadas intermediárias pioraram intensamente em todos os países. Em alguns deles, essa decadência leva a um ponto no qual essas camadas sociais são esmagadas ou aniquiladas. 

Como resultado, há milhares procurando novas possibilidades de sobrevivência, segurança alimentar e a manutenção de sua posição social.


Esse número é inflado pelos baixos e médios empregados governamentais, os funcionários públicos. A eles se juntam, mesmo em países vitoriosos, oficiais de baixas patentes e outros como eles, que agora não possuem nem emprego, nem formação profissional. Forças sociais desse tipo fornecem ao fascismo um contingente de diversas figuras que emprestam a ele, nesses países, uma pronunciada tonalidade monarquista.


Mas não poderemos compreender inteiramente a natureza do fascismo encarando sua evolução somente como resultado de tais pressões econômicas, que foram consideravelmente aprofundadas a partir da crise financeira dos governos e sua perda de autoridade.” (Zetkin, 2019). 


Texto 2

Clara Zetkin: “Fascismo” (1923)

(Por Clara Zetkin, via marxists.org, traduzido por Gabriel Landi Fazzio)

No fascismo, o proletariado é confrontado por um inimigo extraordinariamente perigoso. O fascismo é a expressão concentrada da ofensiva geral empreendida pela burguesia mundial contra o proletariado. Sua derrubada é, portanto, uma necessidade absoluta, ou melhor, é mesmo uma questão da

 existência cotidiana e do pão com manteiga de todo trabalhador comum. Por estes motivos, todo o proletariado deve concentrar-se na luta contra o fascismo. Será muito mais fácil derrotar o fascismo se estudarmos clara e distintamente sua natureza.

Até aqui tem havido ideias extremamente vagas sobre esse assunto, não apenas entre as grandes massas de trabalhadores, mas também no interior da vanguarda revolucionária do proletariado e dos comunistas. Até agora, o fascismo foi colocado em um nível com o Terror Branco de Horthy na Hungria. Embora os métodos de ambos sejam semelhantes, em essência eles são diferentes.

O Terror Horthy foi estabelecido depois que a vitoriosa, embora de curta duração, revolução do proletariado havia sido suprimida, e era a expressão da vingança da burguesia. Os líderes do Terror Branco eram um grupo muito pequeno de ex-oficiais.

O fascismo, ao contrário, visto objetivamente, não é a vingança da burguesia em retaliação à agressão proletária contra a burguesia, mas é uma punição do proletariado por não conseguir levar adiante a revolução iniciada na Rússia. Os líderes fascistas não são uma casta pequena e exclusiva; eles se estendem profundamente em amplos elementos da população. Temos que superar o fascismo não apenas militarmente, mas também política e ideologicamente.

Os reformistas até hoje consideram o fascismo como nada mais que uma violência nua, a reação contra a violência iniciada pelo proletariado. Para os reformistas, a Revolução Russa equivale à Mãe Eva mordendo a maçã no Jardim do Éden. Os reformistas rastreiam o fascismo de volta à Revolução Russa e suas consequências. Nada além dito foi afirmado por Otto Bauer no Congresso da Unidade em Hamburgo, quando declarou que uma grande parte da culpa pelo fascismo recai sobre os comunistas, que enfraqueceram a força do proletariado por divisões contínuas. Ao dizer isso, ele ignorou inteiramente o fato de que os [Social-Democratas] Independentes alemães haviam se separado muito antes que este “exemplo desmoralizante” fosse dado pela Revolução Russa.

Ao contrário de seus próprios pontos de vista, Bauer, em Hamburgo, teve de concluir que a violência organizada do fascismo deve ser enfrentada pela formação de organizações de defesa do proletariado, porque nenhum apelo à democracia pode recorrer contra a violência direta. De qualquer forma, ele prosseguiu explicando que não se referia a armas como insurreição ou greve geral, que nem sempre levavam ao sucesso. O que ele quis dizer foi a coordenação da ação parlamentar com ação de massa. Qual seria a natureza dessas ações que Otto Bauer não disse, mas esse é o ponto exato da questão. A única arma recomendada por Bauer para a luta contra o fascismo foi o estabelecimento de um Bureau Internacional de Informações sobre a reação mundial.

A característica distintiva dessa nova e antiga [2ª] Internacional é sua fé no poder e permanência da dominação burguesa, e sua desconfiança e covardia em relação ao proletariado como o fator mais forte da revolução mundial. Eles são da opinião de que, contra a força invulnerável da burguesia, o proletariado não pode fazer nada além de agir com moderação e abster-se de provocar o tigre da burguesia. O fascismo, com todo ímpeto na execução de seus atos violentos, não é mais do que a expressão da desintegração e decadência da economia capitalista e o sintoma da dissolução do Estado burguês. Esta é uma das suas raízes. Os sintomas dessa decadência do capitalismo foram observados mesmo antes da guerra.

A guerra abalou a economia capitalista até a sua fundação, resultando não apenas no empobrecimento colossal do proletariado, mas também na miséria profunda da pequena burguesia, do pequeno campesinato e dos intelectuais. Havia sido prometido a todos esses elementos que a guerra traria uma melhoria de suas condições materiais. Mas o oposto aconteceu. Um grande número de ex-classes médias tornaram-se proletárias, perdendo inteiramente sua segurança econômica. Essas fileiras foram integradas por grandes massas de ex-oficiais, que agora estão desempregados. Foi entre esses elementos que o fascismo recrutou um contingente considerável. O seu modo de composição é também a razão pela qual o fascismo em alguns países é de caráter francamente monarquista.

A segunda raiz do fascismo está no retardamento da revolução mundial pela atitude traiçoeira dos líderes reformistas. Grande parte da pequena burguesia, incluindo até as classes médias, havia descartado sua psicologia dos tempos da guerra em nome de uma certa simpatia pelo socialismo reformista, esperando que este provocasse uma reforma social por vias democráticas. Eles ficaram desapontados em suas esperanças. Eles podem agora ver que os líderes reformistas estão em acordo benevolente com a burguesia, e o pior de tudo é que essas massas perderam a fé não apenas nos líderes reformistas, mas no socialismo como um todo. Essas massas de simpatizantes socialistas decepcionados são acompanhadas por grandes círculos do proletariado, de trabalhadores que desistiram de sua fé não apenas no socialismo, mas também em sua própria classe. O fascismo se tornou uma espécie de refúgio para os politicamente sem abrigo. Para ser justo, deve-se dizer que os comunistas também – exceto os russos – levam parte da culpa pela deserção desses elementos para as fileiras fascistas, porque nossas ações, por vezes, não conseguiram agitar as massas profundamente o suficiente. O objetivo óbvio dos fascistas, ao ganhar apoio entre os vários elementos da sociedade, seria, naturalmente, tentar superar o antagonismo de classe nas próprias fileiras de seus adeptos, e o chamado Estado autoritário deveria servir como um meio para esse fim. O fascismo agora abrange elementos que podem se tornar muito perigosos para a ordem burguesa. No entanto, até agora esses elementos foram invariavelmente superados pelos elementos reacionários.

A burguesia tinha visto claramente a situação desde o início. A burguesia quer reconstruir a economia capitalista. Nas atuais circunstâncias, a reconstrução da dominação de classe burguesa só pode ser conseguida às custas da crescente exploração do proletariado pela burguesia. A burguesia tem plena consciência de que os socialistas reformistas de fala mansa estão rapidamente perdendo seu controle sobre o proletariado, e que não haverá nada para a burguesia, mas recorrer à violência contra o proletariado. Mas os meios de violência dos Estados burgueses estão começando a falhar. Eles precisam, portanto, de uma nova organização de violência, e isso é oferecido a eles pelo confuso conglomerado do fascismo. Por essa razão, a burguesia oferece toda as forças sob seu comando a serviço do fascismo.

O fascismo tem características diversas em diferentes países. No entanto, tem duas características distintivas em todos os países, a saber, a pretensão de um programa revolucionário, que é habilmente adaptado aos interesses e demandas das grandes massas, e, por outro lado, a aplicação da violência mais brutal.

O exemplo clássico é o fascismo italiano. O capital industrial na Itália não era forte o suficiente para reconstruir a economia arruinada. Não se esperava que o Estado interviesse para aumentar o poder e as possibilidades materiais da capital industrial do norte da Itália. O Estado estava dando toda a sua atenção ao capital agrário e ao pequeno capital financeiro. As indústrias pesadas, que haviam sido artificialmente impulsionadas durante a guerra, entraram em colapso quando a guerra acabou, e uma onda de desemprego sem precedentes se instalou. As promessas feitas aos soldados não puderam ser resgatadas. Todas essas circunstâncias criaram uma situação extremamente revolucionária. Esta situação revolucionária resultou, no verão de 1920, na ocupação das fábricas. Naquela ocasião ficou demonstrado que as maduras condições revolucionárias faziam sua primeira aparição apenas para uma pequena minoria do proletariado. A ocupação das fábricas estava, portanto, fadada a terminar em uma tremenda derrota, em vez de se tornar o ponto de partida para o desenvolvimento revolucionário. Os líderes reformistas dos sindicatos agiram como traidores ignominiosos, mas ao mesmo tempo foi demonstrado que o proletariado não possuía nem a vontade nem o poder de marchar em direção à revolução.

Não obstante a influência reformista, havia forças em ação entre o proletariado que poderiam se tornar inconvenientes para a burguesia. As eleições municipais, nas quais os social-democratas conquistaram um terço de todos os conselhos, foram um sinal de alarme para a burguesia, que imediatamente começou a procurar uma força que pudesse combater o proletariado revolucionário. Foi nessa época que Mussolini ganhou alguma importância com o fascismo. Após a derrota do proletariado na ocupação das fábricas, o número de fascistas era superior a mil, e grandes massas do proletariado juntaram-se à organização Mussolini. Por outro lado, grandes massas do proletariado haviam caído em um estado de indiferença. A causa do primeiro sucesso do fascismo foi que ele começou com um gesto revolucionário. Seu pretenso objetivo era lutar para manter as conquistas revolucionárias da guerra revolucionária e, por isso, exigiam um Estado forte, capaz de proteger esses frutos revolucionários da vitória contra os interesses hostis das várias classes sociais representadas pelo “antigo Estado”. Suas palavras de ordem eram dirigidas contra todos os exploradores e, portanto, também contra a burguesia. O fascismo naquela época era tão radical que até exigiu a execução de Giolitti e o destronamento da dinastia italiana. Mas Giolitti absteve-se cuidadosamente de usar a violência contra o fascismo, que lhe parecia ser o mal menor. Para satisfazer esses clamores fascistas, ele dissolveu o Parlamento. Naquela época, Mussolini ainda fingia ser um republicano, e em uma entrevista, ele declarou que a facção fascista não poderia participar na abertura do parlamento italiano por causa da cerimônia monárquica que o acompanhava. Essas declarações provocaram uma crise no Movimento Fascista, que havia sido estabelecido como um partido por uma fusão dos seguidores de Mussolini e dos representantes da organização monarquista, e a [direção] executiva do novo partido era formada por um número par de membros de ambos as facções. O Partido Fascista criou uma arma de dois gumes para a corrupção e a aterrorização da classe trabalhadora. Para a corrupção da classe trabalhadora foram criados os sindicatos fascistas, as chamadas corporações nas quais trabalhadores e empregadores estavam unidos. Para aterrorizar a classe trabalhadora, o Partido Fascista criou os esquadrões militantes que surgiram das expedições punitivas.

Aqui deve ser enfatizado novamente que a tremenda traição dos reformistas italianos durante a greve geral, que foi a causa da terrível derrota do proletariado italiano, havia dado um incentivo direto aos fascistas para capturar o Estado. Por outro lado, os erros do Partido Comunista consistiam em considerar o fascismo apenas como um movimento militarista e terrorista sem qualquer base social profunda.

Vamos agora examinar o que o fascismo fez desde a conquista do poder para o cumprimento de seu programa revolucionário pretendido, para a realização de sua promessa de criar um Estado sem classes. O fascismo ergueu a promessa de uma nova e melhor lei eleitoral e de igual sufrágio para as mulheres. A nova lei do sufrágio de Mussolini é, na realidade, a pior restrição da lei do sufrágio em favor do Movimento Fascista. De acordo com essa lei, dois terços de todos os assentos devem ser entregues ao partido mais forte, e todos os outros partidos juntos devem ter apenas um terço das cadeiras. O sufrágio feminino foi quase totalmente eliminado. O direito de voto é dado apenas a um pequeno grupo de mulheres proprietárias e às chamadas “viúvas dos generais”. Não há mais nenhuma menção à promessa de um parlamento econômico e da Assembleia Nacional, nem da abolição do Senado, prometida tão solenemente pelos fascistas.

O mesmo pode ser dito sobre as promessas feitas na esfera social. Os fascistas haviam inscrito em seu programa a jornada de oito horas, mas o projeto de lei apresentado por eles fornece tantas exceções que não deve haver uma só pessoa que trabalhe oito horas na Itália. Nada veio também da prometida garantia dos salários. A destruição dos sindicatos permitiu aos empregadores efetuar reduções salariais de 20% a 30% e, em alguns casos, de 50% a 60%. O fascismo prometera a previdência para a velhice e a invalidez. Na prática, o governo fascista, em nome da economia, cortou aos miserável 50.000.000 de liras que haviam sido reservadas para esse fim no orçamento. Aos trabalhadores foi prometido o direito de participação técnica na administração das fábricas. Hoje existe uma lei na Itália que proíbe completamente os conselhos de fábrica. As empresas estatais estão passando para as mãos do capital privado. O programa fascista continha uma provisão para um imposto de renda progressivo sobre o capital, que era, até certo ponto, agir como uma forma de expropriação. Na verdade, o oposto foi feito. Vários impostos sobre o luxo foram abolidos, como o imposto sobre automóveis, pela pretensa razão de que restringiria a produção nacional. Os impostos indiretos foram aumentados porque isso reduziria o consumo doméstico e, assim, melhoraria as possibilidades de exportação. O governo fascista também revogou a lei para o registro compulsório de transferências de títulos, reintroduzindo assim o sistema de títulos ao portador e abrindo a porta para o sonegador de impostos. As escolas foram entregues ao clero. Antes de capturar o Estado, Mussolini exigiu uma comissão para investigar os lucros da guerra, dos quais 85% deviam ser restituídos ao Estado. Quando esta comissão se tornou incômoda para seus patrocinadores financeiros, os industriais pesados, ele ordenou que a comissão só apresentasse um relatório a ele, e quem publicasse qualquer coisa que acontecesse naquela comissão seria punido com seis meses de prisão.

Também em questões militares, o fascismo não cumpriu suas promessas. Foi prometido que a atuação do exército seria restringida à defesa territorial. Na realidade, o período de serviço militar permanente foi aumentada de oito para dezoito meses, o que significou o aumento das forças armadas de 250.000 para 350.000. As Guardas Reais foram abolidas porque eram democráticas demais para se adequarem a Mussolini! Por outro lado, os carabineiros foram aumentados de 65.000 para 90.000 e todas as tropas policiais foram duplicadas. As organizações fascistas foram transformadas em uma espécie de milícia nacional, que pelas últimas contas já atingiu o número de 500.000. Mas as diferenças sociais introduziram um elemento de contraste político na milícia, que deve levar ao colapso final do fascismo.

Quando comparamos o programa fascista com o seu cumprimento, podemos antever hoje o completo colapso ideológico do fascismo na Itália. A bancarrota política deve inevitavelmente se seguir à falência ideológica. O fascismo é incapaz de manter juntas as forças que o ajudaram a entrar no poder. Um choque de interesses em muitas formas já está se fazendo sentir. O fascismo ainda não conseguiu tornar a antiga burocracia subserviente a ela. No exército também há atrito entre os velhos oficiais e os novos líderes fascistas. As diferenças entre os vários partidos políticos estão crescendo. A resistência contra o fascismo está aumentando em todo o país. O antagonismo de classes começa a permear até mesmo as fileiras dos fascistas. Os fascistas não conseguem cumprir as promessas que fizeram aos trabalhadores e aos sindicatos fascistas. Reduções salariais e demissões de trabalhadores estão na ordem do dia. Assim acontece que o primeiro protesto contra o movimento sindical fascista veio das fileiras dos próprios fascistas. Os trabalhadores logo voltarão ao seu interesse de classe e dever de classe. Não devemos encarar o fascismo como uma força unificada capaz de repelir nosso ataque. É antes uma formação, que compreende muitos elementos antagônicos, e será desintegrada de dentro. Mas seria perigoso supor que a desintegração ideológica e política do fascismo na Itália seria seguida imediatamente pela desintegração militar. Pelo contrário, devemos estar preparados para o fascismo se esforçar para se manter vivo por métodos terroristas. Portanto, os revolucionários trabalhadores italianos devem estar preparados para as mais sérias lutas. Seria uma grande calamidade se estivéssemos satisfeitos com o papel dos espectadores desse processo de desintegração. É nosso dever acelerar este processo com todos os meios à nossa disposição. Este não é apenas o dever do proletariado italiano, mas também o dever do proletariado alemão em face do fascismo alemão.

Depois da Itália, o fascismo é mais forte na Alemanha. Como consequência do resultado da guerra e do fracasso da revolução, a economia capitalista da Alemanha é fraca, e em nenhum outro país o contraste entre a maturidade objetiva para a revolução e o despreparo subjetivo da classe trabalhadora é tão grande quanto agora mesmo na Alemanha. Em nenhum outro país os reformistas falharam tão ignominiosamente como na Alemanha. O seu fracasso é mais criminoso do que o fracasso de qualquer outro partido na velha Internacional, porque são eles que deveriam ter conduzido a luta pela emancipação do proletariado por meios absolutamente diferentes especialmente no país onde as organizações da classe trabalhadora eram melhor organizadas e mais antigas do que em qualquer outro lugar.

Estou firmemente convencida de que nem os Tratados de Paz nem a ocupação do Ruhr deram tanto impulso ao fascismo na Alemanha quanto a tomada do poder por Mussolini. Isso encorajou os fascistas alemães. O colapso do fascismo na Itália desencorajaria grandemente os fascistas na Alemanha. Não devemos esquecer uma coisa: o pré-requisito para a derrubada do fascismo no exterior é a derrubada do fascismo em todos os países pelo proletariado desses países. Cabe a nós superar o fascismo ideológica e politicamente. Isso nos impõe enormes tarefas.

Devemos perceber que o fascismo é um movimento dos desapontados e daqueles cuja existência está arruinada. Portanto, devemos nos esforçar para conquistar ou neutralizar aquelas massas que ainda estão no campo fascista. Desejo enfatizar a importância de percebermos que devemos lutar ideologicamente pelos corações e mentes dessas massas. Devemos perceber que eles não estão apenas tentando escapar de suas tribulações atuais, mas que estão ansiando por uma nova filosofia. Devemos sair dos limites estreitos de nossa atividade atual. A Terceira Internacional é, em contraste com a antiga [2ª] Internacional, uma Internacional de todas as raças sem quaisquer distinções. Os partidos comunistas não devem ser apenas a vanguarda dos proletários do trabalho manual, mas também os enérgicos defensores dos interesses dos trabalhadores do cérebro. Devemos liderar todos os setores da sociedade que sejam levados a se opor à dominação burguesa por causa de seus interesses e suas expectativas de futuro. Alegro-me, portanto, com a proposta do camarada Zinoviev (falando em uma sessão do Comitê Executivo Ampliado da Internacional Comunista em junho deste ano) de assumir a luta pelo governo dos trabalhadores e camponeses. Eu estava muito me alegrei quando li sobre isso. Esta nova palavra de ordem tem um grande significado para todos os países. Não podemos dispensá-lo na luta pela derrubada do fascismo. Significa que a salvação das grandes massas do pequeno campesinato será alcançada através do comunismo. Não devemos nos limitar a continuar lutando pelo nosso programa político e econômico. Devemos, ao mesmo tempo, familiarizar as massas com os ideais do comunismo como filosofia. Se fizermos isso, mostraremos o caminho para uma nova filosofia a todos aqueles elementos que perderam o rumo durante o desenvolvimento histórico dos últimos tempos. O pré-requisito necessário para isso é que, ao nos aproximarmos dessas massas, também nos tornemos organizacionalmente, como Partido, uma unidade firmemente soldada. Se não for assim, corremos o risco de cair em direção ao oportunismo e à falência. Devemos adaptar nossos métodos de trabalho às novas tarefas. Precisamos falar às massas em uma linguagem que elas possam entender, sem prejudicar nossas ideias. Assim, a luta contra o fascismo traz uma série de novas tarefas.

Cabe a todos os partidos realizar esta tarefa energicamente e em conformidade com a situação em seus respectivos países. No entanto, devemos ter em mente que não é suficiente superar o fascismo ideológica e politicamente. A posição do proletariado em relação ao fascismo é, atualmente, de autodefesa. Esta autodefesa do proletariado deve assumir a forma de uma luta pela sua existência e organização.

O proletariado deve ter um aparato bem organizado de autodefesa. Sempre que o fascismo usa a violência, deve ser enfrentado com a violência proletária. Não me refiro a esses atos terroristas individuais, mas à violência da luta de classes revolucionária organizada do proletariado. A Alemanha deu um primeiro passo com a criação de “centúrias” de fábricas. Essa luta só pode ser bem-sucedida se houver uma frente proletária unida. Os trabalhadores devem se unir para essa luta, independentemente de a qual partido pertençam. A autodefesa do proletariado é um dos maiores incentivos para o estabelecimento da frente única proletária. Somente instilando a consciência de classe na alma de todo trabalhador conseguiremos preparar também a derrubada militar do fascismo, que, no atual estágio, é absolutamente necessária. Se obtivermos sucesso nisso, podemos ter a certeza de que em breve chegará a hora do sistema capitalista e do poder burguês, independentemente de qualquer êxito da ofensiva geral da burguesia contra o proletariado. Os sinais de desintegração, tão palpáveis diante de nossos olhos, nos dão a convicção de que o gigante proletário voltará a participar da luta revolucionária, e que seu grito ao mundo burguês será: eu sou a força, eu sou a vontade, em mim você vê o futuro!




Texto 3

Clara Zetkin e a luta contra o fascismo


Por John Riddell e Mike Taber (tradução: Gleice Barros, publicado em: 22/01/2018) Originalmente publicado no portal Internacional Socialist Review.

O artigo a seguir é uma introdução a recém-publicada coletânea Fighting Fascism: How to Struggle and How to Win da marxista alemã Clara Zetkin (Editora Haymarket Books, 2017).

Raramente houve uma palavra tão discutida, e mal interpretada, quanto fascismo. Para muitos, o rótulo ‘fascismo’ é apenas um insulto direcionado a indivíduos e movimentos particularmente repugnantes e reacionários. É também costumeiro utilizar como uma descrição política de ditaduras militares de ultra-direita.
O termo ganhou novo significado durante a campanha presidencial americana de 2016, em que o vencedor, Donald Trump, foi frequentemente comparado a Benito Mussolini e outros líderes fascistas. “Comparações fascistas não são novas na política americana” declarou o New York Times em maio de 2016. “Mas com o Sr. Trump, tais comparações têm atingido outros limites e entrado em grandes debates sobre os Estados Unidos e o exterior”.

Apesar dessas comparações serem exageradas e imprecisas, todas as alegações tidas como fascistas devem ser consideradas seriamente. O povo trabalhador e pobre tem várias razões para temer o racismo endêmico, a abolição de direitos trabalhistas e civis, a repressão brutal e o genocídio que caracterizam o fascismo.

Enquanto algum nível de semelhanças podem indiscutivelmente serem encontradas entre muitos movimentos e regimes de direita, o fascismo em si é um fenômeno muito específico com características únicas. Entender as características e dinâmicas do fascismo não é apenas um exercício acadêmico. Fazer isso é essencial para saber como combatê-lo.

Este curto livro contendo uma declaração e resolução de Clara Zetkin por ocasião do Comitê Central da Internacional Comunista em 1923 apresenta uma análise fruto de grande pesquisa do que foi, à época, algo completamente novo no cenário internacional.

Muitos leitores serão atingidos pela clareza e prognóstico das declarações de Zetkin, feitas em um momento que o surgimento do fascismo ainda era um mistério para a maioria. Revisitadas quase um século depois, é possível apreciar sua realização ao delimitar, nesta data inicial, uma posição marxista consistente sobre a natureza do fascismo e como combatê-lo.


Surgimento do Fascismo

As origens do fascismo podem ser encontradas na Itália da pós-primeira guerra. Organizado por Benito Mussolini durante o período de crise social em 1919, o Fasci Italiani di Combattimento surgiu como uma reação ao aparecimento do movimento proletário, isto é, a classe social que depende da venda de sua força de trabalho para conseguir meios de sobrevivência.

Neste período, os trabalhadores italianos, inspirados pela vitória da Revolução Russa e maltratados pela crise capitalista do pós-guerra na Itália, avançavam na luta militante. Em todas as camadas da sociedade italiana as expectativas eram altas de que o Partido Socialista Italiano – então membro da Internacional Comunista – estava à beira de chegar ao poder.

O levante proletário chegou ao auge em setembro de 1920. Durante aquele mês mais de meio milhão de trabalhadores, liberados por metalúrgicos, ocuparam fábricas por todo o país. Os trabalhadores começaram a organizar a produção sob a direção dos conselhos de fábrica, e em muitos lugares eles formaram Guardas Vermelhas para defender as fábricas ocupadas. As greves se espalharam por ferrovias e outros locais de trabalho e muitos camponeses pobres e trabalhadores agrícolas realizaram confiscos de terras. Apelos efetivos foram feitos a soldados, como trabalhadores uniformizados, que se recusassem a obedecer ordens de entrar nas fábricas ocupadas. Frente a esta onda aparentemente irrefreável, a classe capitalista e seus governos estavam paralisados pela indecisão e medo. Uma situação revolucionária se abria com a conquista do poder político na ordem do dia.

Mas o Partido Socialista Italiano e a principal central sindical sob sua influência se recusaram a ver o movimento revolucionário daquele mês como algo maior que uma luta sindical. Com essa mentalidade, os líderes sindicais dirigiram os trabalhadores a deixar as fábricas em troca de um pacote de promessas sedutoras, mas vazias, feitas pelos capitalistas – os quais, naquele momento, estavam dispostos a fazer qualquer coisa para ter suas fábricas de volta. Os trabalhadores italianos, que estavam esperançosos e com expectativas de que o fim do capitalismo estava perto, abandonaram as fábricas com desânimo.

O fracasso do movimento de ocupação das fábricas fez espalhar a desmoralização na classe trabalhadora. O Fasci reforçou o recrutamento e realizou uma onda crescente de ataques ao movimento operário, recebendo um financiamento crescente dos lideres capitalistas e proteção da polícia e outros setores do estado italiano. Entre 1921 e 1922, milhares de trabalhadores e camponeses foram assassinados pelas “expedições punitivas” dos fascistas. Centenas de sedes dos trabalhadores e do movimento sindical foram destruídas.

Rapidamente assumindo o caráter de movimento de massas, os fascistas se tornaram hábeis para ascender ao governo no final de Outubro de 1922, com Mussolini se tornando primeiro-ministro. No poder, o fascismo esmagou completamente os sindicatos, além de outras organizações independentes dos trabalhadores.

Encorajados pela vitória do fascismo italiano, movimentos similares surgiram em outros países europeus, o mais forte na Alemanha. Formações do tipo fascista também surgiram na Polônia, Tchecoslováquia, Áustria e outros.


Reconhecendo um novo fenômeno

Em muitos fenômenos sociais novos, não é totalmente aparente o que exatamente os envolve. Inicialmente, muitos tenderam a agrupar o fascismo a outras instâncias de violência e terror contrarrevolucionário.

Nos anos após a Primeira Guerra Mundial, tal terror estava muito difundido. Na Hungria, uma revolução derrotada que chegou brevemente ao poder em 1919 foi seguida por 5 mil execuções e 75 mil prisões. Na Finlândia, onde havia uma guerra civil, os números chegaram a 10 mil baleados e 100 mil enviados a campos de concentração. Situações parecidas se tornaram conhecidas como “terror branco” e foram vistas em outros países.

Enquanto os fascistas italianos usaram de violência contrarrevolucionária de forma análoga, o fenômeno fascista envolveu algo a mais. Descobrir sua verdadeira natureza era uma tarefa da Internacional Comunista.

Fundada em 1919 sob o impacto da Revolução Russa, a Internacional Comunista (Comintern) era algo completamente novo: um movimento dedicado a discutir como a classe trabalhadora poderia se organizar e derrotar a ordem capitalista. Sob Lenin, os congressos e reuniões da Internacional eram escolas de política revolucionária.

A Internacional fez sua primeira discussão organizada sobre o fascismo em seu Quarto Congresso em novembro de 1922. Contudo, não foi um debate muito frutífero. Um informe feito pelo comunista italiano Amadeo Bordiga, enquanto descreveu aspectos importantes no movimento de Mussolini na Itália, foi menos bem menos sucedido em desvendar a natureza fascista, enfatizando as similaridades entre fascismo e democracia burguesa e prevendo que o fascismo italiano não duraria muito. Nem o informe de Bordiga, nem a discussão que se seguiu deram muita atenção à luta contra o fascismo[1].
Ao perceber que ainda não tinham chegado ao cerne da questão, em junho de 1923, os líderes da Internacional se voltaram para o tema novamente. O local da reunião foi a Terceira Plenária Ampliada do Comitê Executivo da Internacional Comunista. A pessoa essencial para realizar tal esforço foi Clara Zetkin, que deu o informe na reunião e escreveu a resolução que foi aprovada.

Clara Zetkin


Aos 66 anos em 1923, Clara Zetkin foi uma das lutadoras veteranas mais promissoras da Internacional. Era uma figura singular no movimento revolucionário internacional.

Em 1878, com 21 anos, Zetkin entrou nas fileiras do movimento socialista alemão. Aquele foi o ano em que foram decretadas leis anti-socialistas na Alemanha, tornando a defesa pública do socialismo crime e o ingresso no Partido Social-Democrata (PSD) ilegal. Mas Zetkin se recusou a ser intimidada. Forçada ao exílio por muitos anos, intensificou sua atividade no movimento revolucionário e se tornou líder do partido. Em 1891 passou a ser editora do Die Gleichheit, o jornal do PSD dirigido por mulheres.

Em 1907 Zetkin foi uma fundadora central para o movimento de mulheres da internacional socialista. Uma das mais importantes iniciativas deste movimento foi instituir o 8 de março como Dia Internacional das Mulheres, decisão tomada na conferência de 1910.

Colaboradora de Rosa Luxemburgo, Zetkin pertenceu à ala esquerda do PSD. Em 1914, quando o partido traiu os princípios socialistas e apoiou abertamente os esforços alemães na Primeira Guerra Mundial, Zetkin rompeu com a declaração do partido de “paz civil” com o capitalismo alemão durante a guerra e fez ativa oposição. Como parte importante da organização clandestina na Liga Spartacus, foi presa diversas vezes em atividades antiguerra. Em 1918, a Liga Spartacus ajudou a fundar o Partido Comunista, em que Zetkin tornou-se dirigente.
Na seqüência ao assassinato de Luxemburgo, Karl Liebknecht e outros no começo de 1919, Zetkin passou a cumprir um papel central na direção do partido comunista, como ela também fez na Internacional Comunista.
Embora Zetkin seja mais conhecida pelo papel central que cumpriu por longas décadas na direção do movimento de mulheres socialistas e comunistas, ela fez muito mais que isso. Era uma líder política notável com profunda capacidade de análise política, e conclusões práticas em consequência, como demonstrado em sua elaboração sobre o fascismo em 1923.


Características do Fascismo

No informe, Zetkin apontou algumas características chave do fascismo:

1) O surgimento do Fascismo está intrinsecamente ligado a crise econômica do capitalismo e o declínio de suas instituições. Esta crise é caracterizada por uma escalada de ataques a classe trabalhadora, e aos setores médios da sociedade sendo esmagados e levados a níveis semelhantes ao proletariado.

“O fascismo está enraizado, de fato, na dissolução da economia capitalista e do estado burguês… A guerra destruiu a economia capitalista em suas bases. Isso é evidente não só no terrível empobrecimento do proletariado, como também na proletarização de setores massivos da pequena burguesia e burgueses médios.”
O avanço do fascismo é baseado na derrota do proletariado em resolver a crise social do capitalismo pela tomada do poder e começo da reorganização da sociedade. Essa derrota da liderança da classe trabalhadora gera desmoralização entre os trabalhadores e entre as forças da sociedade que miravam no proletariado e no socialismo o caminho para sair da crise.

Estas forças sociais, indicava Zetkin, esperavam que o “socialismo pudesse realizar uma mudança global. Estas expectativas foram dolorosamente destruídas…Perderam a crença não apenas nos lideres reformistas mas também no próprio socialismo.”

2) O fascismo possui um caráter de massas, com especial apelo entre setores da pequena burguesia ameaçada pelo declínio da ordem capitalista.

O declínio capitalista resulta “na proletarização de amplos setores da pequena burguesia e massas da média burguesia, na calamitosa situação entre os pequenos camponeses, e o desespero sombrio da ‘intelligentsia’… o que pesa sobre tudo é a falta de segurança para sua sobrevivência básica.”

3) Para ganhar apoio destas camadas, o fascismo faz uso de uma demagogia anticapitalista.

“As massas aos milhares convergem ao fascismo. Este se torna o asilo para todo o abandono político, socialização desarraigada, empobrecimento e desilusão… a pequena-burguesia e as forças sociais intermediárias primeiro vacilam de forma indecisa entre os campos historicamente poderosos do proletariado e da burguesia. Tendem a simpatizar com o proletariado no sofrimento vivido na vida e, em parte, nos anseios nobres e grandes ideais, desde que sejam revolucionários em sua conduta e tenham probabilidade de vitória. Sob a pressão das massas e suas necessidades, e influenciados por esta situação, mesmo os líderes fascistas são forçados a pelo menos flertar com o proletariado revolucionário, mesmo que não tenham simpatia.”

4) A ideologia fascista eleva a nação e o estado sobre todas as contradições e interesses de classes.

“O que as massas não mais anseiam do proletariado revolucionário e do socialismo revolucionário, esperam agora que seja alcançado pelos mais hábeis, fortes, determinados e ousados elementos de cada classe social. Todas estas forças devem estar juntas em uma comunidade. E esta comunidade, para os fascistas, é a nação… O instrumento para alcançar os ideais fascistas é, para estes, o Estado. Um Estado forte e autoritário que será sua própria criação e uma ferramenta obediente. Este estado irá se elevar sobre todas as diferenças de partido e classes.”

5) A ideologia do chauvinismo nacional é usada pelos lideres fascistas como um disfarce para incitar o militarismo e a guerra imperialista.

“As forças armadas [do fascismo italiano] servem apenas para a defesa da pátria. Esta é sua promessa. Mas o crescente aumento do exército e o enorme âmbito do armamento são orientados para grandes aventuras imperialistas… Centenas de milhões de liras [NT – moeda italiana] têm sido aprovadas para a indústria pesada para construção das mais modernas máquinas e instrumentos de matança.”

6) A característica principal do fascismo é o uso de violência organizada através de tropas de choque anti classe trabalhadora, visando destruir qualquer atividade independente do proletariado.

Na Itália, as forças de Mussolini se envolveram em “direto e sangrento terror”, apontou Zetkin. Começando em áreas agrícolas, os fascistas “atacaram os proletários rurais, cujas organizações foram devastadas e queimadas e cujos líderes foram assassinados.” Depois “o terror fascista se estendeu aos proletários das grandes cidades.”

7) A ideologia do racismo e do bode expiatório racista é central para a mensagem fascista. Embora este aspecto não estivesse completamente claro em 1923, mesmo assim Zetkin indicou como na Alemanha “o programa fascista é esgotado pela frase ‘abatam os judeus’”.

8) Até certo ponto, setores importantes da classe capitalista começaram a apoiar e financiar o movimento fascista, como um meio de conter a ameaça da revolução proletária.

“A burguesia não pode mais se apoiar nos métodos regulares de força para assegurar sua ordem de classe. Para isso faz-se necessário instrumentos de força ilegais e não estatais. O que tem sido oferecido pelo conjunto heterogêneo que compõe a máfia fascista.” Os capitalistas “patrocinam abertamente o terrorismo fascista, apoiando com dinheiro e outros meios.”

9) Uma vez no poder, o fascismo tende a se tornar burocratizado e se afastar de seus primeiro apelos demagógicos, levando ao ressurgimento das contradições de classe e luta de classes.

“Existe uma contradição flagrante entre o que o fascismo promete e o que ele realmente entrega as massas. Toda a conversa sobre como o estado fascista vai implantar os interesses da nação sobre todas as coisas, uma vez exposto pela realidade, some como fumaça. A ‘nação’ revela-se como burguesa, o ideal de estado fascista se mostra como uma vulgar e inescrupulosa versão do estado da burguesia… As contradições de classe são mais poderosas que as ideologias que negam suas existências.”


Análise alternativa

A análise sobre fascismo de Clara Zetkin foi radicalmente diferente de outras que então eram apresentadas dento do movimento dos trabalhadores e socialistas.
Entre estes, a elaboração de Zetkin abordou a visão reformista dos social-democratas. “Para estes, o fascismo não é nada alem de terror e violência”, afirmou.
“Os reformistas vêem o fascismo como uma expressão do poder inabalável, conquistador e da força do domínio da classe burguesa. O proletariado não está apto a assumir a luta contra ele – isso seria presunçoso e fadado ao fracasso. Então, nada resta ao proletariado além de se afastar silenciosamente e humildemente e não provocar os tigres e leões da classe burguesa por meio de uma luta por sua libertação e suas próprias leis”.

A análise de Zetkin também contrasta fortemente com a análise do fascismo apresentada pelos partidos comunistas estalinistas que viriam nos anos e décadas posteriores. Existiam duas visões estalinistas principais, ambas que se contrapunham a perspectiva de Zetkin:

1) Fascismo social. Adotado durante o ultraesquerdista “Terceiro Periodo” da Internacional Comunista no final dos anos 1920 e inicio dos 1930, o impulso desta visão era igualar social-democracia e fascismo e, assim, justificar a recusa do Partido Comunista Alemão de impulsionar a unidade com o poderoso Partido Social Democrata na luta contra os nazistas.Tal unidade organizada poderia ter sido o suporte para a esmagadora maioria do povo trabalhador na Alemanha e certamente teria sido poderosa suficiente para conter os nazistas. A recusa intransigente das lideranças do PC e do PSD pode certamente ser dito como a porta de entrada para a ascensão de Hitler ao poder.

2) Frente popular. Esta visão foi apresentada de forma completa pela primeira vez na elaboração feita por Georgi Dimitrov ao Sétimo Congresso da Internacional Comunista já estalinizada em 1935. O fascismo, afirmou Dimitrov, foi “a ditadura terrorista aberta da mais reacionária, mais chauvinista e dos elementos mais imperialistas do capital financeiro”. “Age nos interesses de imperialistas extremos” que ele caracterizou como “os mais reacionários círculos de burgueses”[2].
Baseado nesta análise, a tarefa central seria formar blocos – “frentes populares” – com setores burgueses supostamente menos reacionários, menos chauvinistas e com menor número de elementos imperialistas – “alas antifascistas” – e subordinar a luta da classe trabalhadora independente e a ação política a este objetivo. Na prática, tal abordagem significava que os partidos estalinistas mantinham oposição a ação revolucionaria do proletariado independente em geral, encarando como um obstáculo ao projeto de frente popular. Esta perspectiva também se tornou justificativa para um apoio escuso a políticos capitalistas “antifascistas” como a de Franklin D Roosevelt nos Estados Unidos, com o pretexto de que seu oponente republicano representava “a principal ameaça do fascismo”[3].
Leon Trotsky tornou-se linha de frente na rejeição a estas posições estalinistas, defendendo pontos chaves levantados por Zetkin em 1923. Escritos de forma polêmica, os textos de Trotsky durante a década de 1930 durante o surgimento do fascismo na Alemanha e as lições da vitória nazista apresentam um das exposições mais claras da análise marxista sobre o fascismo e o que é necessário para derrotá-lo[4].


Como lutar contra o fascismo
Forças pró-capitalistas liberais freqüentemente sugerem que as figuras fascistas se ignoradas, logo desaparecerão. Esta não era a visão de Zetkin. Em sua opinião era uma necessidade de vida ou morte para a classe trabalhadora e seus aliados mobilizar todos os seus esforços em se opor ao fascismo.

Ao debater a luta da classe trabalhadora contra o fascismo, Zetkin enfatizou diversos pontos:

I) A autodefesa dos trabalhadores é crucial para confrontar a campanha de terror fascista. Sobretudo, isso inclui organizar guardas de defesa dos trabalhadores para combater os ataques fascistas.
“Hoje o proletariado tem necessidade urgente de autodefesa contra o fascismo e essa defesa não pode ser negligenciada um segundo. Estão em jogo a segurança física do proletariado e sua existência, assim como a sobrevivência de suas organizações. Autodefesa do proletariado é a necessidade do momento. Não podemos combater o fascismo como os reformistas na Itália, que suplicam ‘nos deixem em paz, então te deixaremos em paz’. Ao contrário! Violência contra violência. Mas não violência em forma de terror individual – que certamente falhará. Mas sim violência como o poder revolucionário e organizado da luta da classe proletária”.

II) A ação de frente única contra o fascismo é essencial, envolvendo todas as organizações e correntes da classe trabalhadora, apesar das diferenças políticas.

“A luta e a autodefesa proletária contra o fascismo requerem uma frente única proletária. O fascismo não pode perguntar se o trabalhador da fábrica tem a alma nas cores branca e azul da Bavária; preta, vermelha ou dourada da república burguesa ou a bandeira vermelha com a foice e o martelo. Não deve perguntar se o trabalhador quer restaurar a dinastia Wittelsbach [da Bavária], se é entusiasta de Friedrich Ebert [dirigente do PSD e presidente alemão], ou prefere ver nosso amigo [dirigente do PC) Heinrich Brandler como presidente da República Soviética Alemã. Tudo que interessa ao fascismo é enfrentar a consciência de classe proletária e então colocá-la no chão. Este é o porquê que os trabalhadores devem se manter unidos na luta sem distinções de partidos ou sindicatos.”

III) Além de combater o fascismo fisicamente quando necessário para sua própria defesa, a classe trabalhadora precisa combater o apelo de massas fascista politicamente, com especial esforço entre as camadas de classe média.

“O Partido Comunista Italiano certamente também comete o erro político de ver o fascismo somente como um fenômeno militar e negligenciam o lado ideológico e político. Não devemos esquecer que antes de derrotar o proletariado com ações de terror, o fascismo na Itália já tinha uma vitória ideológica e política sobre o movimento dos trabalhadores que estava no topo de seu triunfo. Seria muito perigoso falhar em considerar a importância de superar o fascismo ideológica e politicamente”.

IV) Combater o fascismo por estes meios significa, acima de tudo, demonstrar a absoluta determinação da liderança proletária em lutar para tomar o poder das mãos da burguesia para resolver a crise social do capitalismo, e colocar a frente um programa destinado a sedimentar as alianças necessárias para tal.

Zetkin acreditava que a perspectiva da luta revolucionária pelo poder, baseado numa aliança entre as classes sociais exploradas e oprimidas, era essencial para uma vitoria sobre o fascismo. Por esta razão, em sua elaboração ela enfatizou que a demanda de governo expressada nesta perspectiva – “um governo operário e camponês” – “é efetivamente um requisito na luta para derrotar o fascismo”.
A ameaça do fascismo hoje
Esforçando-se para entender o fascismo hoje não é meramente uma questão histórica.

Á medida que o século XXI se desenrola, o capitalismo entra em um período de crise social, marcada pela escalada dos ataques aos direitos e condições de vida do povo trabalhador e de todos os oprimidos, seguido pelo desenvolvimento de polarização social. A eleição do bilionário capitalista Donald Trump como presidente dos EUA, em novembro de 2016, seguida por uma campanha marcada por uma descarada demagogia de direita e apelos abertamente racistas, foi tanto uma reflexão quanto uma agudização desta crise.

Como Zetkin previu há quase um século atrás, é precisamente em situações como esta que movimentos fascistas podem se gestar.

Tais movimentos reconhecem a crise social, mas apontam as causas fora do sistema capitalista, criando bodes expiatórios: imigrantes, negros, judeus, mulheres independentes, LGBT’s, ciganos e outros. Teorias da conspiração de estrangeiros são propagadas, feitas para desviar a atenção da responsabilidade do sistema econômico e social da crise.

Para obter apoio, os movimentos fascistas se utilizam do ressentimento. Apelam ao racismo, chauvinismo e sentimento anti-mulher que permeiam profundamente a chamada cultura popular sob o capitalismo.

Os apelos reacionários para dividir o povo trabalhador precisam ser combatidos, colocando a necessidade de uma luta comum dos oprimidos e explorados independente da nacionalidade, etnia ou gênero para jogar fora a ordem dos capitalistas e latifundiários e começar a construção de uma sociedade mais justa e humana.

Mas esta batalha não se dará somente no campo das idéias.

Com a crise social se aprofundando e uma resposta entre o povo trabalhador em desenvolvimento, um número crescente de capitalistas e seus servos recorrem a meios legais e extralegais para defender seu governo.

Ao aumentar os ataques, precisarão ser respondidos pelos trabalhadores com luta para defender seus sindicatos, pela luta contra o racismo, a brutalidade policial, os assassinatos feitos por policiais; pelos defensores dos direitos das mulheres de lutar pelo direito ao aborto; pelos defensores das liberdades civis lutando contra os ataques aos direitos democráticos; por aqueles que se levantam contra a destruição ambiental capitalista; por aqueles que lutam contra a violência anti-imigrante e as deportações – em resumo, todos aqueles que lutam pelos interesses dos oprimidos e explorados.

Serão estes ativistas e lutadores que estarão mais interessados em estudar a natureza do fascismo e a história da luta contra ele.

Muitos acharão que a perspectiva marxista delimitada primeiro por Clara Zetkin, e depois ampliada por Leon Trotsky, Antonio Gramsci e outros, é uma arma essencial na luta contra a ameaça fascista.

Neste contexto, um número crescente de trabalhadores e jovens serão atraídos a se juntar na luta por um futuro socialista.

Esta era a firme convicção de Clara Zetkin.

Ao discutir o apelo fascista entre os jovens, ela apontou que “os melhores deles estão buscando uma saída da profunda angústia da alma. Estão em busca de novos e firmes ideais e uma visão de mundo que os permita entender a natureza, sociedade e suas próprias vidas; um visão de mundo que não seja uma formula estéril mas que opere criativa e construtivamente. Não nos esqueçamos que as violentas gangues fascistas não são compostas inteiramente por mal-feitores da guerra, mercenários por escolha e lúmpens viscerais que têm prazer em atos de terror. Também encontraremos entre eles as mais ativas forças destas camadas sociais, com muita capacidade de desenvolvimento. Temos que ir até eles com convicção e compreensão de suas condições e seus impetuosos anseios, trabalhar entre eles e lhes mostrar uma solução que não os jogue para trás, mas a frente, ao comunismo. A grandeza primordial do comunismo como uma perspectiva de mundo irá ganhar sua simpatia para nós”.

O fascismo é em última análise um produto do sistema capitalista, Zetkin mantém. A ameaça fascista irá acabar de vez apenas quando os trabalhadores tomarem o poder das mãos das famílias capitalistas bilionárias e construírem um novo mundo.

Firmemente convencida desse fato, a inabalável confiança de Zetkin no potencial revolucionário da classe trabalhadora pode ser vista na conclusão do informe de 1923:

“Cada proletário deve se sentir mais que apenas um escravo, um objeto manipulável do capitalismo e seu poderio. Os trabalhadores devem sentir e entender a si mesmos como membros da classe revolucionária, que vai reinventar o antigo estado de propriedade no novo estado do sistema soviético. Quando despertarmos a consciência de classe em cada trabalhador e acender a chama de determinação de classe, poderemos prosseguir em preparar e realizar militarmente a derrubada necessária do fascismo. Entretanto, a brutal ofensiva do mundo capitalista contra o mundo proletário pode ser dar por um tempo, por mais forte que possa se enfurecer, o proletariado vai lutar de seu modo até a vitória final”.

O corajoso chamado de Zetkin para a ação antifascista, emitido menos de um ano antes de sua morte, é um tributo apropriado para toda uma vida de luta revolucionária e para o seu legado, e é um farol para as futuras gerações.



[1] O informe de Bordiga pode ser encontrado em RIDDELL, John, ed. Toward the United Front: Proceeding of the Fouth Congresso f the Communist Internacional, 1922. Historical Materialism Book Series, Chhicago. Haymarket Books, 2012, 409-23.


[2] O artigo de Dimitrov pode ser encontrado em VII Congress of The Communist Interncacional:Abridged Stenographic Reporto of Proceedings. Moscow: Foreign Languades Publishing House, 1939, 126-29. Também pode ser acessado no Arquivo de Internet Marxista.


[3] The Communist, nº 6, julho de 1936, 489


[4] Os escritos básicos de Trotsky sobre o surgimento do Nazismo na Alemanha pode ser encontrado em The Struggle Against Fascism in Germany. Nova Iorque. Editora Pathfider Press, 1971. Muito desse material também pode ser acessado no Arquivo Internet Marxista.






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