INÍCIO

27 julho 2025

OPINIÃO DE ARTISTA

ARTISTA PODE TER OPINIÃO? 

O Poder do capital e a seletividade da indignação na cultura contemporânea.

O texto da postagem do “Tio Virso” no Instagram (1) expõe uma contradição gritante: enquanto artistas que glorificam a violência de Estado são amplamente difundidos, aqueles que a denunciam enfrentam represálias e perseguição. Essa disparidade não é acidental, é o capitalismo neoliberal definindo quais vozes, discursos e narrativas são amplificadas e quais são silenciadas (de preferência para sempre). 






Bob Vylan
(Fontes na bibliografia, ao final do texto)

1. Arte como Propaganda do Poder
A música Harbu Darbu, da dupla de hip hop/trap Ness e Stilla que celebra as Forças de Defesa de Israel (IDF) e ameaça figuras públicas pró-Palestina, tornou-se um “hit” em Israel sem causar escândalo internacional. Por quê?

Antes de responder a essa pergunta devemos deixar claro que “arte” que não serve à evolução de todos, não é arte, é decoração é um fazer instrumentalizado. A arte deve ser um “soco no estômago” “a arte deve confortar os perturbados e perturbar os que estão confortados” resume uma perspectiva sobre o papel da arte na sociedade. Ela sugere que a arte tem o poder de oferecer consolo àqueles que sofrem e, ao mesmo tempo, questionar e desafiar aqueles que vivem em zonas de conforto, seja por inércia, privilégio ou conformismo. 
Essa ideia não é nova, e frequentemente é atribuída a diversos artistas e pensadores, como César A. Cruz e Banksy. A frase destaca a capacidade da arte de provocar reflexão, provocar mudanças e, em última análise, contribuir para um mundo mais justo e consciente. 

Por que então uma música claramente  fascista se torna um sucesso? 
Financiamento e interesses
A indústria do entretenimento está intrinsecamente ligada a poderes econômicos e políticos; i.e., está ligada à máxima concentração do capital e a uma ideologia. Quando uma obra serve à narrativa dominante (no caso, a justificativa da guerra), ela é incentivada e normalizada, mesmo que promova discursos extremistas, tentando justificar o injustificável. 

Censura Velada 
Grandes plataformas de “streaming” e mídias tradicionais não questionam o conteúdo pró-Estado, pois muitas vezes estão alinhadas aos mesmos interesses filosóficos e geopolíticos, à mesma ideologia fascista. Enquanto isso, Kneecap e Bob Vylan, que criticam a violência israelense, são alvos de campanhas de difamação e exclusão. A reação desproporcional prova que o sistema não tolera discursos que ameacem suas estruturas de poder. Ou poderíamos dizer também que o capitalismo neoliberal em sua fase de máxima acumulação fará qualquer coisa para lucrar inclusive usando seu braço violento, o fascismo, para conseguir seu propósito. 

2. A Hipocrisia da “Liberdade de expressão” 

O caso em tela, exemplifica como a liberdade artística é seletiva: 
Hoje em dia, se você canta, compõe, atua, pinta, escreve em defesa do opressor, sua arte circula livremente. 
Se você canta, compõe, atua, pinta, escreve contra o opressor (contra o sistema), contra a violência promovida pelo estado, você sofre retaliação, boicotes, cancelamentos e perseguição midiática. 

A dupla de rap Bob Vylan foi removida de festivais europeus após gritar “Death to the IDF”, enquanto Harbu Darbu permanece sem críticas significativas e o que é pior, mantém-se impulsionada pelo sistema. A diferença não está no teor político, mas em quem está sendo criticado e qual o objetivo da crítica. 

3. Quem Controla a Narrativa?

O capital não é neutro: Festivais, gravadoras e plataformas de “streaming” dependem de patrocínios, investidores e relações com governos. Se uma banda ameaça esses interesses, é descartável. Veja por exemplo o caso dos cachês astronômicos cobrado por bandas caipiras (sertanejas) no interior do Brasil. Alguém está ganhando muito dinheiro. Mesmo o artista ganhando muito, alguém está ganhando muito mais. 

A mídia corporativa reproduz o viés de seus financiadores. Notas de repúdio não surgem por “indignação espontânea”, mas por alinhamento ideológico e econômico. 

Enquanto Harbu Darbu ecoa impunemente, um grito de “Death to the IDF” vira caso de polícia. A mensagem é clara: você pode cantar a favor do poder, do capital, mas não contra ele. 

4. Conclusão: A Arte Sob o Domínio do Capital 

A experiência deixa evidente que: 

1. A rebeldia artística é permitida apenas quando não fere os interesses dominantes. 
2. O capital define quais discursos são "aceitáveis" e quais devem ser sufocados , apagados ou silenciados. 
3. A subversão é combatida com força, porque ameaça a ordem vigente, a acumulação do capital e o poder político. 

Se quisermos uma arte genuinamente livre, precisamos questionar quem lucra com o silêncio dos artistas e quem se beneficia quando a crítica é criminalizada. 
Enquanto o capital ditar as regras, a “liberdade de expressão” continuará sendo um privilégio, não um direito universal.



Artur Barrio (1978). Livro de carne.

Artur Barrio. Trouxas




Artur Barrio (1978). Livro de carne.

Hélio Oiticica. Seja marginal seja herói. 



Banksy

Banksy

Banksy

Banksy

Banksy

Banksy

Banksy

Banksy

Banksy

Banksy

Banksy

Banksy

Banksy


Fonte






























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(Escrito em 13/7/2015)


 

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