INÍCIO

17 dezembro 2024

AS TRÊS PENEIRAS

A PROVA DA TRÊS PENEIRAS

Segundo Carneiro (2021) os três filtros ou peneiras de Sócrates é um diálogo difundido na internet falsamente atribuído a Sócrates. Não existem referências a esses três filtros ou peneiras nas obras de Platão, contudo, isso não invalida a mensagem positiva que esse pequeno diálogo transmite. 
Acredita-se que esse diálogo tenha sido atribuído a Sócrates pela vaga semelhança que apresenta com sua forma de dialogar, desenvolvida por Sócrates, a maiêutica socrática. A maiêutica socrática consiste num jogo dialético de perguntas e respostas sucedidas de mais perguntas, entre dois ou mais interlocutores. Aliando a maiêutica à ironia, a intenção do pensador era demonstrar como as chamadas “autoridades” em determinados assuntos julgavam saber algo que, na verdade, não sabiam. O que significa dizer também que possuíam apenas uma opinião particular sobre o assunto. Assim, o filósofo, que foi interpretado como o que dizia nada saber, mostrava que o conhecimento conceitual não era atributo de muitos homens considerados sábios, mas sim do método que ele propunha que levava o indivíduo a usar a razão em vez de aceitar passivamente opiniões.

(Shusterstock)

A palavra maiêutica, do grego antigo, μαιευτικη, maieutike, maiêutica socrática, significa “arte de partejar” (trazer à luz, dar à luz). É um método ou técnica que pressupõe que "a verdade está latente em todo ser humano, podendo aflorar aos poucos na medida em que se responde a uma série de perguntas simples, quase ingênuas, porém perspicazes". Bem ao estilo do idealismo de Platão e sua teoria das formas ou ideias. 
A forma, ou idéia, tradução do grego eidos, aparece em grande parte nos diálogos platônicos como o objeto do conhecimento, em contraposição aos seres sensíveis, sobre os quais não há episteme. Se pensarmos em uma teoria das formas em Platão, devemos notar que ela não está completamente formulada em nenhum diálogo. O eidos surge, na maioria das vezes, como resposta à tensão entre dois planos: de um lado, a identidade e a unidade exigidas pelo pensamento e pelo discurso; de outro lado, a diferença e a multiplicidade características dos fenômenos. Para Platão, só se pensa e só se fala de algo determinado. O discurso e o pensamento e, portanto, o conhecimento, referem-se a seres unos e idênticos a si mesmos. Mas os seres da physis são sujeitos à mudança, são múltiplos e sem identidade permanente, o que traz uma dificuldade em fundamentar o discurso, o pensamento e o conhecimento. Parece ser este um dos problemas que perpassa a filosofia grega desde os pré-socráticos, como alcançar o conhecimento, ou como conhecer algo, se este algo, este “ente” está em perpétua mudança. A solução platônica para essa dificuldade está na busca de realidades inteligíveis que garantam identidade na diferença, unidade na multiplicidade. (Souza, 2005)

A Escola de Atenas (Scuola di Atene no original) é uma das mais famosas pinturas do renascentista italiano Rafael Sanzio e representa a Academia de Atenas. Foi pintada entre 1509 e 1510 na Stanza della Segnatura sob encomenda do Vaticano. A pintura já foi descrita como "a obra-prima de Rafael e a personificação perfeita do espírito clássico da Renascença".


Platão apontando para o mundo das ideias e Aristóteles com a mão indicando o real.

Modificado da internet.

Os sensíveis são aparência; as formas são em si. Aos primeiros corresponde, no plano cognoscitivo e discursivo, a dóxa (julgamento); às formas corresponde o lógos (discurso racional) e a episteme (conhecimento). As formas são apresentadas como causas dos fenômenos. Vemos, por exemplo, em Fédon 100c-d, que a forma do belo é causa da existência do belo em si. Do mesmo modo, a causa das coisas semelhantes é a semelhança em si, a causa das ações justas é a justiça em si, das ações virtuosas, a virtude em si. Ao caráter ontológico das formas estão intrinsecamente ligados o caráter epistemológico e o caráter lógico. A condição do discurso e do conhecimento será uma relação entre coisas e formas. Tal relação se explica em termos de participação, também chamada de presença, comunicação, mistura, entrelaçamento
As coisas sensíveis participam das formas, que as fundamentam e delas tiram sua denominação. A vinculação entre ontologia e epistemologia é claramente notada ao longo dos diálogos, e está mais bem formulada na analogia da linha exposta na República 509d-513c, em que, para cada um dos vários níveis de estatuto ontológico, corresponde uma operação cognitiva. No que se refere à relação entre ontologia e discurso, as formas são identificadas como a causa do lógos, mais especificamente em Sofista 259e: é devido ao entrelaçamento das formas que o discurso nasce.(Souza, 2005). 
Deve-se bem lembrar que não é qualquer discurso, mas o discurso verdadeiro, não o discurso mentiroso ou falso, mas o genuíno é legítimo que busca o conhecimento dos entes. 

Para Aristóteles, discípulo de Platão: “The form is the idea, existent or embodied in a being, that completes or actualizes the potentiality latent in the matter composing the being itself”. Enquanto que para Platão as formas estavam no mundo das ideias, imutáveis e sempre iguais a si mesmas, enquanto que os seres são reflexos dessas ideias existente no mundo supracelestial ou hiperurania.

Assim, voltando a maiêutica socrática, esta, pode ser traduzida como obstetrícia, ou seja, a arte de realizar partos. No entanto, isso não basta para definir a maiêutica socrática. Diz a história que a mãe de Sócrates era parteira. Assim como sua mãe, Sócrates dizia realizar partos, mas não partos de bebês, e sim de ideais. Sócrates acreditava que ele mesmo não detinha o seu conhecimento filosófico, mas teria uma habilidade de retirar esse conhecimento das outras pessoas.

A maiêutica tornou-se, então, um recurso para o cumprimento da filosofia socrática, baseada na arte do diálogo e na desconstrução dos argumentos. Com a maiêutica, Sócrates buscava alcançar a definição mais precisa dos conceitos, atingindo a verdade.

De qualquer maneira, os três filtros ou peneiras (de Sócrates), como ficaram conhecidos, são exemplo de bom uso da razão. Grande parte de nossas reações cotidianas são impensadas e muitas vezes nos causam problemas, então, podemos usar esses filtros para submeter nossas atitudes ao crivo da razão, tornando nossas reações mais cuidadosas e, talvez, mais sábias. Ou pelo menos iremos evitar problemas, e isso não deixa de ser um tipo de sabedoria. (Carneiro, 2021).






A parábola dos três crivos ou peneiras ou filtros

As três peneiras ou filtros (atribuídas a Sócrates)

Certa feita, um homem esbaforido chegou-se a Sócrates e sussurrou-lhe aos ouvidos:

— Escuta, na condição de teu amigo, tenho alguma coisa muito grave para dizer-te…

— Espera!… ajuntou o sábio prudente. Já passaste o que me vais dizer pelos três filtros?
—Três filtros?! – perguntou o visitante, espantado.
— Sim, meu caro amigo, três filtros. Observemos se tua confidência passou por eles. 

PRIMEIRA PENEIRA OU FILTRO

O primeiro, é o filtro da verdade. Guardas absoluta certeza, quanto àquilo que pretendes me comunicar? Quer dizer, você tem certeza de que o vai me contar é verdadeiro ?
— Bem, pensou o interlocutor, assegurar mesmo, não posso… mas ouvi dizer e… então…
—Exato. 

SEGUNDA PENEIRA OU FILTRO

Decerto peneiraste o assunto pelo segundo filtro, o da bondade. Ainda que não seja real o que julgas saber, será pelo menos bom o que queres me contar?
Hesitando, o homem replicou:
— Isso não!… Muito pelo contrário…

TERCEIRA PENEIRA OU FILTRO

— Ah! – tornou o sábio – então recorramos ao terceiro filtro: o da utilidade, e notemos o proveito do que tanto te aflige. Ou seja, o que vais me contar é útil?
– Útil?!… – questionou o visitante ainda agitado.
– Útil não é…
— Bem – rematou o filósofo – se o que tens a falar não é verdadeiro, nem bom e nem útil, esqueçamos o problema e não te preocupes com ele, já que nada valem casos que não são benéficos ou proveitosos para nós.


Outra versão: 

Já te contaram uma fofoca?
Faça o que Sócrates faria: o teste dos três filtros.

Na Grécia antiga, Sócrates, reconhecido pela sua imensa sabedoria, recebeu uma pessoa que, com muito entusiasmo, lhe disse:

- Sócrates! Sabes o que acabei de ouvir sobre o teu amigo?

O filósofo, calmamente, respondeu:

- Só um momento. Antes de me contar, vamos passar o que você quer dizer por três filtros.

Primeiro filtro: a verdade.

- Você já verificou se o que você vai me dizer é verdade?

- Não, só ouvi isso por aí.

Segundo filtro: bondade.

- É uma coisa boa o que você vai me dizer sobre meu amigo?

- Não, pelo contrário.

Terceiro filtro: utilidade.

- É útil eu saber disso?

- Não, realmente não.

Sócrates, com serenidade, concluiu:

– Se o que você quer me dizer não é verdadeiro, nem bom, nem útil... Porquê dizer isso?

A lição de Sócrates é clara: antes de falar, reflita. Vamos melhorar nossa forma de comunicar e construir um ambiente mais sábio e empático.



Fonte

















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