OLHAR, SIMULACRO, DESENHO
De skópos também se passa a skía, sombra de alguma coisa ou de alguém, sombra dos mortos, sombra da fumaça, sombra esfumada do desenho, claro-escuro, aparência e ilusão e quem as faz deliberadamente chama-se skiagráphos: pintor. Porque parente da sombra, skías nos remete àquele que fica na sombra e se esconde e, se seu esconderijo for dito em latim, será specus (caverna), spelunca (grota, cova), cella (cela, cova, caverna).
Na caverna reina a sombra, skía, de que se aproveita o pintor, skiagráphos, quando traça figuras, sombras do original, e também o eidolopóios, fabricante de simulacros como o poeta. Dela nos convida a sair Platão para que, abandonando cópias e simulacros, vejamos a luminosidade radiante do eidós e, na boa república, onde o filósofo será rei, não haverá poetas nem pintores.
(Chaui, janela da alma, espelho do mundo, in: O olhar. Novaes, A. e cols. São Paulo, SP. Companhia das Letras, 1988.)
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