INÍCIO

03 julho 2023

IMAGEM MEMÓRIA


A memória não é somente uma atitude de conservar os traços do passado? O tratado de Aristóteles Da memória e da reminiscência1, o segundo dos Pequenos tratados de história natural (ou Parva naturalia), dá boas razões para duvidar disto. Ele trata seguramente, e de uma maneira particularmente rigorosa e original, da conservação das sensações passadas e da atualização da lembrança: os efeitos da idade ou do temperamento sobre a conservação das lembranças; de suas deformações; da consciência da lembrança enquanto tal; das associações de idéias imediatas que a suscitam. Aristóteles elabora a primeira análise explicativa e sistemática da memória, e o De memoria é, a este respeito, um texto fundador2. Entretanto, ele examina igualmente o papel das imagens no exercício do pensamento; ele descreve o processo de reminiscência (άνάμνησις), e trata assim da organização voluntária das representações mentais como de seus encadeamentos involuntários e patológicos. Correlativamente, ele explica em que sentido o homem pode ser o agente de suas próprias representações e o princípio de suas associações. Ele evoca entrelinhas a apropriação das lembranças, além de sua simples conservação espontânea, e coloca, de fato, a questão da cronologia pessoal, de sua continuidade, e de suas rupturas. Assim, a propósito da memória (μνήμη), longe de limitar-se ao processo de conservação, Aristóteles aborda questões fundamentais para a definição dos estados psíquicos, para a teoria do conhecimento, bem como para a concepção do eu ou da identidade pessoal, ou seja, em termos mais aristotélicos, do caráter (ήθος).

1. Περί μνήμης και άναμνήσεωος; abaixo: De Memoria e, nas referências, De Memoria. Este tratado ocupa as linhas 449b 4-453 b 11 da edição de referência (edição Bekker da Academia de Berlim, 1830- 1871) das obras de Aristóteles.
2 O Tratado da alma (ou De Anima), no que lhe concerne, não diz praticamente nada da memória. No De An., III, 3, 427 b 19, é feita uma alusão aos exercícios mnêmotécnicos, como é questão no segundo capítulo do De Memoria. Em III, 5, 430 a 23-25, Aristóteles explica muito rapidamente os defeitos da memória pelo fato de que o intelecto passivo está sujeito à corrupção.




























































 

Nenhum comentário: